quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Desencontrada do corpo

Olhou para a fotografia tirada na festa e para o top ousado, que deixava ver os ombros nus. Estou mais magra, pensou, feliz. Depois olhou-se com olhos de realidade e o que viu desfez a ilusão: aquele corpo franzino mostrava a sua idade. Era o esqueleto que se anunciava e a carne que se despedia; era o corpo a preparar-se para baixar à terra. E aquele brilho na sua pele era feito de produtos, de cremes, de artifícios. A pele já não brilhava só por brilhar, como antigamente. Aquelas rugas finas que começavam a amarrotar-lhe os olhos lembravam-lhe as pontas dos dedos, quando era criança e se deixava ficar demasiado tempo no banho. Era como se a vida que já passara por ela fosse essa água leitosa, quase fria, que ela tentava recuperar, abrindo a torneira da água quente, para renovar o banho. Para reviver e alongar aqueles minutos de intimidade. A vida era aquela banheira, onde se balançava, fazendo a água oscilar, para cá e para lá, divertindo-se a cada vez que, no seu entusiasmo, a deixava derramar-se sobre o chão de mármore. Evocava o acto sensual de mergulhar a cabeça na água tépida e sentir o cabelo pesado, que dançava em todas as direcções, como as algas ou os corais que via nos documentários da televisão. E então sentia-se sereia e estudava os ombros que se arredondavam e o tronco que se tornava violoncelo.
Já não sentia o peso do cabelo sobre os ombros, mesmo que continuasse a usá-lo comprido. Para onde fora o peso do seu cabelo, que hoje mais não era do que uma nuvem de algodão? Estaria já a subir ao céu, sem o saber? Estariam os anjos à sua espera, tornando-lhe o corpo assim, leve, para lhe facilitar a viagem? Tudo aquilo era tão prematuro, tão cheio de maldade. Andava desencontrada do corpo e não conseguia convencê-lo a comparecer ao encontro dela, por mais que o tentasse. Parecia-lhe murcho, amuado, cansado da vida. Mas ela ainda não se cansara. Porquê, então, aquela pressa em partir?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Chico: Nos bastidores das canções


No blog da Revista "Os Meus Livros" (OML), dei com esta notícia feliz:
"O livro de Wagner Homem sobre as canções de Chico Buarque chega antes do Natal e não apenas em 2010, como estava previsto. Eis o comunicado da Dom Quixote.
“Inicialmente previsto para ser editado apenas em 2010, a Dom Quixote, correspondendo ao apelo de inúmeros leitores e admiradores da obra de Chico Buarque, decidiu antecipar para dia 30 de Novembro, dia em que chegará às livrarias, a publicação do livro ‘Histórias de Canções – Chico Buarque’, de Wagner Homem, lançado pela Leya Brasil no passado mês de Outubro.
‘Histórias de Canções’, como o próprio nome o indica, fala-nos das circunstâncias em que foram compostas e trabalhadas as músicas do compositor brasileiro. Trata-se, no fundo, de uma compilação de episódios, uns alegres e divertidos outros nem tanto, que, por assim dizer, escancaram a intimidade do popular cantor durante o seu processo criativo. Através deles, o leitor poderá ficar a conhecer quem foi a musa inspiradora de canções como Beatriz, Carolina ou Cecília. As letras das músicas e a correspondência trocada, entre outros, com Vinicius de Morais, durante o período em que ambos trabalharam juntos na célebre música Valsinha, também constam deste volume. No total, são 26 capítulos que abragem o período compreendido entre 1964 e 2008.”
Aqui fica uma sugestão para o sapatinho.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O dossier cor-de-rosa

Hoje abri um velho dossier que andava fechado há muitos anos e que arrastei comigo pelas várias casas onde fui morando. Nele guardo ainda alguns “pontos” (testes) de filosofia e de português dos tempos de colégio, poemas, cópias de cartas, desabafos em tom de diário, primeiros exercícios de escrita a até uma primeira tentativa de romance (autobiográfico, é claro…)! Fiquei pasmada com a data, pois nem me recordava desse esforço patético de "livro": 1 de Setembro de 1986: tinha 17 anos. Coitadinha, como eu escrevia mal! Mas existe algo de muito certo nisto de confirmar que antes escrevíamos mal, cantávamos mal e fazíamos…eeeh.. uma série de coisas mal (risos). Pelo meio de muita ingenuidade adolescente, encontrei um comentário maduro, a propósito do erro de cair na tentação de escrever uma obra maior do que a nossa modesta experiência de vida: “Não posso de maneira alguma entregar-me a uma história, sem saber como lidar com ela. Seria o mesmo que trazer para casa um estranho”.
De resto, muita exclamação, muita reticência, muita interrogação. Como somos emotivos, apaixonados e patetas, antes de crescermos... E que saudades...!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Mau génio

Tinha chovido a noite inteira e o temporal não me deixara dormir em paz. A minha vida andava em banho-maria, tudo pendurado, sem seguimento nem solução; os problemas a multiplicar-se, como ervas daninhas. Estava farta. Hoje não faço nada, não quero saber, pensei. Fico em casa, que se lixem. Resolvi dedicar-me às arrumações. Com o mau humor com que eu estava, seria o dia ideal para me ver livre de um monte de tralhas e arranjar espaço. Isto vai, isto vai, isto vai…tudo fora. Por algumas horas, mais não fiz do que executar os gestos de uma pessoa normal, medíocre. Como a pessoa que eu era até esse dia. Quando remexia numa pilha anónima e caótica, coberta de poeira e teias de aranha, encontrei uma lamparina e puxei-lhe o lustro, com fúria e um sorriso algo sarcástico, confesso. Um génio saiu, como não podia deixar de acontecer, e postou-se à minha frente. Não, não fiquei toda contente, pelo contrário. Quando o gajo apareceu, senti um cheiro horroroso, como o de alguém que não toma banho há que tempos e achei insultuosa aquela invasão de propriedade. Ok, era um génio, porreiro e tal, mas podia ter-se lavado antes, ou não podia?
- Porque me libertaste... - disse ele.
- Sim, sim, já sei, três desejos.
- Eeh...não. UM desejo. Apenas um.
- Então, mas… não eram três?! Aaii…
- Eeeh...não. Deve estar a confundir-me com outra história qualquer.
- E que merda é essa de começar as frases todas por “eeeh…..”? Não vê que isso é irritante? Que é isso do “eeeh…”?!
- Eeeh…
Respirei fundo.
- Ok, deixe lá. Bom, quantos desejos são, afinal?
- Eeeh…um.
- Mas isso é uma vigarice, ouviu?! Como é que esperam que uma pessoa concentre num desejo só tudo aquilo que quer da vida, diga-me lá?! É sempre a mesma coisa! Uma pessoa farta-se de trabalhar, o dinheiro não chega para nada, não vale nada, espremem-nos até ao tutano com leis idiotas, impostos e o diabo a sete, e quando chega a hora, não há nada para ninguém! As reformas uma miséria, a corrupção está em todo os lado, a começar por cima, a justiça é o que se vê, a educação…
Eu ia lançada, ficaria ali a resto do dia a descarregar a minha fúria naquele idiota, mas ele interrompeu-me:
- Olhe, desculpe, mas não tenho o dia todo. Afinal, o que é que vai ser?
O estúpido falava como se eu estivesse à frente do balcão de uma pastelaria. Era mesmo de amador, aquilo, o raio do génio era mesmo mau. Foi então que tive um instante de clarividência, uma verdadeira epifania:
- Ai é? Então já sei! Quero que TODOS os meus desejos se realizem.
Irritado, o génio rosnou, lançando os braços ao ar, em desespero, e fugiu a voar. Assim, sem um adeus.
Nunca ninguém se tinha lembrado dessa? Azarinho, temos pena. Até hoje, o tipo nunca mais me apareceu. A bem dizer, não me faz falta nenhuma. Para mau génio, basto eu.

sábado, 14 de novembro de 2009

Banhos de lua


Sonhei que me banhava num lago lunar. Sem o sol que as iluminasse, as águas eram cor de prata e escorriam pelos meus dedos como gotas de mercúrio. Mergulhada nesse liquido de cinza, com a barriga voltada para o céu de um negro perpétuo, erguia os meus braços e remava, deixando o corpo cortar o espelho prateado. Ao meu redor, só o silêncio. Mudos, os bagos de prata deslizavam pelos meus pulsos, de regresso à túnica argêntea e macia. Ergui-me, enterrando os pés na areia cintilante, que refulgia no meio da escuridão. Cingi o corpo saciado com um véu cor de sangue, que irradiou o calor de que eu carecia, para amornar a pele. Quando despertei e abri os olhos, a brancura dos lençóis quase me ofuscou. O rosto estendia-se ainda num sorriso onírico, pois na memória trazia a consciência de ter flutuado nas águas mudas de uma estrela, cujas areias, que se desprendiam do fundo, eram partículas tão distantes do meu mundo. Ali não havia terra: apenas um mar de prata, a ternura da noite e o meu lenço escarlate.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Longe do deserto

Compus uma mensagem.
Guardei-a numa garrafa cristalina
E aguardei a maré.
Um dia ela partiu,
Pelo mar adentro,
E eu esperei
Como mulher de pescador,
Perguntando
Chegará ela a bom porto?
Tornar-me-ei viúva desta missiva de socorro?
Mais não tive do que a luz ténue de um farol.
Enfim a notícia chegou, toda feita de vento
E empurrada pela brisa fresca
Inicio uma nova viagem.
Vale a pena lançar mensagens ao mar
Deixar que passem os sóis e as luas;
Existe uma armada dentro de nós,
Que aguarda o dia  de zarpar
Em direcção aos nossos desejos
E levar-nos para longe do deserto.
(VERA DE VILHENA)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Prémio PT de Literatura



Nuno Ramos, célebre artista plástico brasileiro, estreou-se na ficção e arrecadou logo o primeiro prémio, com o romance intitulado "Ó".
Entre as dez obras finalistas encontravam-se oito romances, um livro de contos e um de poesia. Os portugueses Gonçalo M. Tavares (que já ganhou este prémio em 2007, com "Jerusalém”), António Lobo Antunes (que ficou em segundo lugar na edição 2008, com a obra “Eu Hei de Amar uma Pedra”), Inês Pedrosa e José Luís Peixoto faziam parte dos candidatos finalistas.
António Lobo Antunes não esteve presente...
Lamento que os nossos queridos Inês Pedrosa e José Luís Peixoto não tenham recebido nenhum dos três prémios, mas outras oportunidades virão.
Para mais informações, espreitem o blog "Ciberescritas", da jornalista Isabel Coutinho, aqui:


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Em suspenso


Tenho a vida pendurada. Nada se anula nem confirma. Nada avança.
A correspondência não é correspondida, como carta de amor sem resposta. As pernas e os braços murcham-me, sem alimento que os animem, ressequidos, revoltados, pelo desconserto do silêncio. Quando irei conseguir mover-me e regressar ao mundo dos vivos?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Rua Sésamo


40 anos de Rua Sésamo!
Hoje descobri que eu e a Rua Sésamo temos apenas 3 meses de diferença! Também eu fiz 40 aninhos este verão.
Que nostalgias que esta série me traz... lembro-me de que eu tinha o hábito de me sentar à frente da TV a ver "O Barco do Amor", o "Espaço 1999", a "Galáctica",  "Uma Casa na Pradaria", ou os "Looney Tunes" com uma vergonhosa pilha de bolachas "torradas", da Triunfo, acasaladas, que eu recheava de doce de morango ou de framboesa. Por isso, em honra da Rua Sésamo, me chamavam de Monstro das Bolachas. E com toda a razão, diga-se. Quando ele atirava para dentro da boca as bolachas inteiras ou aos pedaços, deixando cair bocados à sua volta (mal empregados!), e fazendo grunhidos, tipo MNHAM!MNHAM!GRRNHAAUM!, aguava-se-me a boca. Não foi por acaso que a primeira coisa que aprendi a cozinhar foram os biscoitos. Com chá Earl Grey a acompanhar. Hmmm. Pronto, agora tenho de ir lanchar. Já fui. Mas deixo-vos um dos meus heróis de infância. E digam-me lá se as bolachinhas dele não eram tão apetitosas...?


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Luas

Existir é como ser uma lua. A valsa que nos faz rodopiar pode tornar-nos leves, leves, ou atordoar-nos; pode iluminar o nosso caminho, ou lançar-nos para a escuridão; pode ensinar-nos novos passos, maltratar-nos, ou fazer-nos sentir a embriaguez de um carrossel desgovernado. À nossa volta dançam outros pares, que enfeitam o salão com vestidos de cor diversa, sorrisos sinceros, sorrisos falsos. E é nesse palco que teremos de encontrar o nosso par, aquele que dá um sentido à nossa dança. A mão certa, os passos, o ritmo, o corpo, os olhos. Lá fora, a lua é cúmplice dessa dança que se eterniza, que começa no canto, em quarto crescente, até nos iluminar por dentro, como se houvéssemos engolido a lua cheia e soubéssemos, por fim, para onde vamos. O brilho da prata não é duradouro, e assim nos vemos atirados para o óxido da noite, que nos retira o equilíbrio e quase nos deixa cair. É urgente, então, ficarmos descalços, repousarmos os membros junto dos que nos amparam a queda, respirar fundo e esperar que a luz retorne aos nossos pés.

domingo, 8 de novembro de 2009

Novo livro de Paul Auster + AUTORIA

Hoje terminei de ler "Leviathan", de Paul Auster. Estou viciada neste autor, que não pára de me surpreender. Saíu o seu décimo quinto romance (haja tinta no tinteiro, safa!). Vou já incluí-lo na minha carta para o Pai Natal...



SINOPSE OFICIAL
"Sinuosamente construído em quatro partes entrecruzadas, o décimo quinto romance de Paul Auster começa em Nova Iorque, na Primavera de 1967, quando o jovem aspirante a poeta Adam Walker conhece Rudolf e Margot, um enigmático casal francês. O perverso triângulo amoroso que rapidamente se forma, conduz a um chocante e inesperado acto de violência cujas consequências serão irreversíveis.

Três narradores contam uma história que se desloca no tempo, de 1967 a 2007, e no espaço, à medida que viaja entre Nova Iorque, Paris e uma ilha remota nas Caraíbas.
"Invisível" está imbuído de fúria, de sexualidade desenfreada e de uma busca implacável por justiça. É uma viagem através das fronteiras sombrias entre verdade e memória, criação e identidade. Uma obra inesquecível pela mão de um dos nomes cimeiros da literatura dos nossos dias."
NOTA MINHA: Já agora, aproveito para deixar aqui a minha perplexidade quanto à anarquia que abunda no que respeita à Autoria:
1 - Quando se utiliza uma  citação, TEM DE CONSTAR o nome do seu criador;
2 - Quando se utiliza uma imagem artística, TEM DE CONSTAR o nome do seu criador;
3 - Quando se utiliza uma qualquer imagem desconhecida que surripiámos do Google ou de outro banco de imagens, TEM DE CONSTAR, pelo menos, o link de onde foi retirada;
4 - Quando se faz um "copy-paste" de um texto, como esta sinopse que usei hoje, tem de ficar entre aspas e/ou em itálico.
Quanto mais navego na internet, mais me espanto com essa anarquia que reina no universo cibernético. É caso para recear: daqui a uns anos, como iremos saber quem escreveu o quê, quem disse isto, ou quem fotografou aquilo, por exemplo?
É URGENTE RESPEITAR A AUTORIA, ANTES QUE A VERDADE SE PERCA PARA SEMPRE. Uma mentira, repetida muitas vezes, acaba por se tornar verdade...

sábado, 7 de novembro de 2009

Dilemas de um carrasco


Não se podia dizer que o futuro morto fosse figura popular na aldeia, pois até se preparava já um festim para comemorar o feliz acontecimento. Sentia-se um clima de alívio no ar – as senhoras bamboleavam-se mais à vontade pelas ruas, os cavalheiros passeavam agora de peito inchado e cabeça erguida, as crianças arriscavam trazer os seus brinquedos favoritos para a calçada e até os cães pareciam zombar dele, passando defronte à pequena janela de grades, a ladrar e a abanar as caudas, como quem diz, Anda vá, tenta dar-me agora um pontapé a ver se consegues!
O carrasco é que não estava feliz com o trabalho. Encontrava-se num terrível dilema, desde que fora chamado para a tarefa – é que o malandrim em questão estava enamorado da sua filha – e essa era talvez a única coisa pura que conseguira construir no seu coração de pedra. Desgraçadamente, também esta se deixara seduzir por aqueles doces olhos de gazela, e pelas palavras de poeta que haviam arrancado moedas de prata às damas mais abastadas e carentes de afectos. Até que num dia como outro qualquer, fora apanhado e condenado por mil pequenos crimes que tantos haviam ofendido. E agora não havia como fugir à fatalidade. Fernando Casco, um dos mais conceituados carrascos do país, tinha que dar uma ajuda técnica e moral na hora do enforcamento do hipotético genro. Enquanto pendurava, com a ajuda de um colega, as braçadas da densa corda que iria apertar o gargalo do homem, desabafava com os seus botões, Dava dez mil réis para poder estar, a esta hora, sentado à sombra do meu alpendre, em Coimbra, a beber uma caneca de sidra!
Mas ninguém lhe adivinhava os pensamentos. Dele nada mais se esperava do que um coração engelhado por todas as vezes que o sino tocara pelos condenados. Fernando Casco não passava de um instrumento de morte. Na sua cegueira, o povo não se via como o verdadeiro carrasco: homens, mulheres, crianças e velhos que, indignados com o engano de uns olhos negros e mil palavras de açúcar, torciam as mãos impacientes, à espera que se fizesse justiça.
Fernando Casco nem sequer odiava o homem. E esse ódio daria imenso jeito, para mitigar a sua culpa. Mas não. Suspirava por terminar a tarefa e voltar para a sua casita, encontrar o ombro maciço da mulher e pousar nele o rosto estrangulado de tristeza:
– Pronto, Nandinho, foi só mais um dia de trabalho. Deixa-te estar aí sossegado, que eu preparo-te um grogue bem forte e umas fatias de broa, para te regalares, anda!
No quarto, a filha iria chorar, revoltada, enquanto a mãe a tentaria consolar:
– Tens de compreender, filha, que é o trabalho do pai… se ele se recusasse, como iríamos nós pagar as contas? A vida está tão cara…

imagem: http://alertaamarelo.blogs.sapo.pt/arquivo/670161.html

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

"A" maiúsculo


Um Amigo com “A” maiúsculo é aquele que, mesmo com a vida feita num 8, encontra forças para entortar um pouco mais os seus dias, de forma a ajudar-nos. É por isso que, mesmo quando a nossa própria vida anda amarrotada, podemos respirar fundo e sentir a ventura de ter amigos assim, que nos engomam os dias, tirando os vincos aos nossos problemas e deixando-nos a existência mais macia. São aqueles que falam pouco sobre o significado da amizade, de tão ocupados que andam a dar-lhe sentido e a escrevê-la com todas as letras. Obrigada, Rita. Por tudo.
foto: Nanã Sousa Dias

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Papelarias

Amo os lápis, as aparas
Rolinhos cinzentos de borracha velha
Folha branca, lilás, vermelha,
Rolos de cartão, clipes e réguas

Nas gavetas do armário
Agasalho cartões de Natal
De uns anos para os outros, são demasiados
Cartões de visita em papel vegetal
Transparências, envelopes, artigos usados

Acarinho pincéis, colas, aguarelas
Elásticos, fita adesiva e agrafadores
Na escrivaninha, junto à janela
Agrafo alegrias, amigos, amores

Pesponto e arquivo os dias de Outono
Colo etiquetas, folhas secas, odores
Encho de flores as notas de infância
Rabiscos ariscos de uma criança
Num tempo arrumado em separadores

Em tampos de vidro, madeira e ardósia
Escondo os laços, sebentas e velcro
Delírios amachucados, amarelecidos
Tinteiros, cartuchos, canetas de feltro

Nos bolsos a alma das papelarias
Cinzas e negros, azuis, prateados
Em cadernos dourados escrevo os dias
Embrulho presentes, futuros, passados.

(VERA DE VILHENA)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Trapézio de cristal

Seguro entre os dedos
O vidro macio e cortante
Delicado, inconstante,
Como os íntimos medos
Balanço-me num refúgio glacial
Um brinquedo nas minhas mãos de menina
O movimento é natural
Como da parra nascer a uva e a vindima
Vejo os outros, do alto,
Alcanço o horizonte
Mas tudo é engano, tudo é falso
Tudo seca na minha fonte
Tudo é frágil
Se de meu trapézio de cristal
Irei cair, um dia, volátil
E rasgar a alma em fragmentos
De arrependimento.
(VERA DE VILHENA)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O sentido do frio

Quando nos preparávamos para receber o S. Martinho com a familiaridade de quem não saiu do verão, eis que o Outono nos envolve no seu manto frio. Sinto sempre algo de primitivo no gesto de agasalhar o corpo, talvez por concluir que toda a inteligência humana, com a sua evolução industrial e tecnológica, se mostra inútil face ao clima exterior: aí, nas ruas, num descampado, numa estrada de terra batida, somos apenas homens, longe da nossa caverna aquecida; despojados das nossas invenções; enquanto, arrepiados, nos aconchegamos aos trapos que trazemos vestidos. E isso, o saber que por vezes ainda somos apenas homens, dá-me um certo conforto, como se escutasse uma voz apaziguadora dentro de mim, que diz: "Vês? Apesar de tudo, a vida ainda faz sentido..."

domingo, 1 de novembro de 2009

A festa



Às cinco e meia da tarde, os músicos ensaiavam instalar-se no palco minúsculo. O salão bocejava, vazio, à espera dos convidados. A Teresa lançava ordens à esquerda e à direita, "tira um lugar à mesa oito!", "põe mais um lugar na mesa três!", exalando aquela presença de quem está ali para o que der e vier, qual general norteando o seu regimento. O Nuno corria sérios riscos de tocar contrabaixo à beira do pequeno jardim barroco, recuando à medida que se instalavam cabos, estantes, amplificadores, tripés e microfones.
Lentamente, familiares e amigos foram despertando as paredes da sala. Revi alguns rostos, cumprimentei outros tantos que não reconheci, confesso. O trio inundou o salão com compassos de jazz, enfeitando as conversas que se atropelavam e interrompiam, no calor do reencontro.
Os convidados arrumaram-se nas mesas, recebendo as iguarias que o aniversariante havia preparado para eles, em celebração de seis respeitáveis décadas neste mundo. À medida que o vinho corria, ia engordando o burburinho. O dia era de festa, porque não rir, recordar velhas aventuras ou partilhar vidas que andavam tão afastadas umas das outras? Por fim, de corpo satisfeito de requintes, a música chegou outra vez. Com graça e elegância, o Rodrigo agradeceu e anunciou a cereja sobre o bolo, terminando com uma frase provocatória e bem-humorada:
- Chega de artistas na família…! – Como quem diz, por favor, sejam mais normais e tenham juízo.
E nós, os artistas sem juízo, com corações feitos de melodias, ritmos e versos, oferecemos as nossas vozes versadas e debutantes, cruzando gerações e dando o melhor de nós aos que nos escutaram com espanto. Se foi perfeito? Não, claro que não - não fosse este um encontro feito de improviso, impulso, insegurança e da timidez de quem dá os primeiros passos ou tem a responsabilidade comovente de passar um estandarte. Mas a ternura e a alegria venceram, piscando-nos um olho cúmplice. O jazz e a bossa-nova deram lugar à distorção das guitarras e ao rock, dominado pela presença surpreendente do Vasco e da sua banda, que terminou a actuação com o Chico Fininho. O Henrique deslizou para o computador e assegurou a noitada com um lençol de música irresistível, que pôs muitos a gastar a sua reserva de energias.
No dia seguinte, acordei a uma hora tardia e vergonhosa, com o cansaço ainda colado ao corpo. Porém, ao relembrar pedaços da noite, que ainda respiravam com compassos de jazz, abraços e acordes rasgados da “Catarina”, não pude deixar de sorrir. Há cansaço que nos cansa e cansaço que descansa. Este, feito de tantas iguarias, música e movimento, fez-me dançar por dentro, enquanto passava o rosto por água fria e cantava: “Heaven, I’m in heaven / And my heart beats so that I can hardly speak...”. Parabéns, Rodrigo, pelos 60 anos e obrigada por uma festa tão generosa. Foi bom. Um beijinho muito especial ao Gugas, à Inês, ao Vasquinho e à Maria. E à Inês peço que me perdoe, pois surripiei-lhe estas belas fotos a partir do facebook! Agora olha, ficaram no espólio da família, Hehehe...!


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Desnorteada

Perdi o Norte. Eu sei, eu sei, como é que uma bússola vai perder o Norte, olha o disparate. Mas a verdade é que perdi, não me perguntem como. Está bem, eu conto.
A sério que comecei por ser feliz. A minha vida corria dentro da normalidade, algo rotineira, é certo, mas ia cumprindo o meu dever com um grau respeitável de satisfação. Uma bússola não tem sonhos, por isso estava bem assim. Pousavam-me na mão quando se desorientavam, à espera que eu fizesse o que melhor faço – mostrar onde é o Norte. Até aqui, tudo bem. Só que de há uns meses para cá, os outros pontos cardeais manifestaram a sua inquietação e, quando eu menos esperava, decidiram reorganizar-se. De início, pensei que fosse uma crise existencial passageira, uma pequena fuga ao ramerrão diário. Uma ambição inédita, sim, mas quem era eu para falar, se era eu quem mandava? Falar é fácil, pois. Por isso fiquei calada. Mas o tempo passou e tive de admitir que o caso era mais grave, quando o Sul me usurpou o lugar. Assim que tal aconteceu, os outros, Este e Oeste, deliraram com a promessa de divertimento, e incitaram o meu pólo oposto à total desordem cardeal, argumentando que eu já tivera a minha época áurea e exigindo a igualdade de direitos.
No dia seguinte, sentindo-se despeitado, talvez, o Norte havia desaparecido. Reuni-me com a agulha, com urgência, e ao fim de várias horas de controvérsia entre os restantes três pontos cardeais, alteraram-se estatutos e o Sul ocupou a posição do ausente, assumindo a sua forma.
Mas nem sempre se muda para melhor, não é?
Como o meu dono é distraído como um relógio sem ponteiros, ainda hoje anda perdido, a fiar-se em mim, desnorteado e confiante, coitado. Um dia destes, quando arranjar coragem, conto-lhe.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Parabéns, Axtérix!


O Axtérix faz hoje 50 anos.
Meio século de boas histórias, cheias de humor e de expressões e personagens que ficaram a fazer parte do nosso imaginário. Desejo-lhes outros 50, cheios de saúde e sucesso e, sobretudo, que ponham à venda TODOS OS VOLUMES MAIS ANTIGOS, para que os nossos filhos e netos possam deliciar-se com eles, como nós nos deliciámos. É urgente preservar e divulgar as coisas boas da vida.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O "pintor da luz"

Joaquín Sorolla y Bastida (27 de Fevereiro de 1863, Valência - 10 de Agosto de 1923, Cercedilla), é mais um artista maravilhoso que descobri há dias e de cuja existência nem desconfiava.
Atenção a este pormenor: tendo em conta a época em que viveu, Sorolla só poderia ter sido um pioneiro da fotografia a P/B, como ponto de partida, ou ter uma memória visual inacreditável; senão, vejam a composição dos seus quadros, que falam por si. Obrigada, Filipa.









terça-feira, 27 de outubro de 2009

A cor do horto gráfico


Levezinho e obscurantista, para condizer com estes dias de nevoeiro...
(FOTO: Hejha, Alemanha)

De: autor brasileiro  anónimo, selecção e adaptação minhas

Testículo: Texto pequeno
Abismado: Sujeito que caiu de um abismo
Pressupor: Colocar preço em alguma coisa
Biscoito: Fazer sexo duas vezes
Coitado: Pessoa vítima de coito
Padrão: Padre muito alto
Democracia: Sistema de governo do inferno
Barracão: Proíbe a entrada de caninos
Homossexual: Sabão em pó para lavar as partes íntimas
Ministério: Aparelho de som de dimensões muito reduzidas
Detergente: Acto de prender seres humanos
Eficiência: Estudo das propriedades da letra F
Conversão: Conversa prolongada
Halogéneo: Forma de cumprimentar pessoas muito inteligentes
Expedidor: Mendigo que mudou de classe social; alguém que mandou a dor para outro lugar
Luz solar: Sapato que emite luz por baixo
Cleptomaníaco: Mania por Eric Clapton
Tripulante: Especialista em salto triplo
Contribuir: Ir para algum lugar com vários índios
Aspirado: Carta de baralho completamente maluca
Assaltante: Um 'A' que salta
Determine: Prender a namorada do Mickey Mouse
Ortográfico: Horta feita com letras
Destilado: do lado contrário a esse
Pornográfico: O mesmo que colocar no desenho
Ratificar: Tornar-se um rato


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O som e as mãos

As palavras ficaram fechadas com um cadeado feito de música. Entregues todos os sons, restou uma pausa de semibreve de três longos dias, que me arrancaram à escrita. Fui o outro lado de mim, a voz que me sai da boca e não dos dedos, que picam o teclado deste computador. Tenho as mãos ainda húmidas de melodias. É preciso estender a voz ao sol, estancar o riacho de mínimas e colcheias que ainda circula dentro de mim, até que das mãos secas escorram dunas de ideias, a arear a folha branca que me espera.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Um gota de sangue apenas

Sinto-me exangue, como se houvesse acabado de sofrer o ataque de um vampiro. Uma gota, apenas uma gota sobrou, para escrever esta fraca imagem. Dormir. É urgente dormir.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Entre os actos

O acto de escrever não é igual para todos. Quando não escrevo, é como se um músculo atrofiasse, mirrando até se tornar invisível. Então a escrita desaparece, para um qualquer covil onde guardo as coisas esquecidas. Porém, a passagem do tempo dispersa em mim uma irritação minúscula, que me vai corroendo os ânimos: os gestos tornam-se mais tensos, a voz mais impaciente, o espírito inunda-se de dúvida, como se fosse impossível voltar a escrever, um equívoco ter escrito alguma coisa algum dia. Quando chego ao limite dessa preguiça resistente e apática, a mão destrava-se, e instantes depois a paz regressa-me ao peito: está tudo em ordem, tudo como é esperado. O mundo voltou a ser redondo, a dançar sobre si mesmo, numa valsa tão antiga como o Verbo. E eu sou feliz outra vez.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Convite



A casa, a chuva, a escrita

Quando a chuva me segura dentro de casa, agarrando-me o corpo e a vontade, fico partida em dois.
Metade de mim sente a urgência de cuidar do ninho; tirar os vincos aos trapos; recuperar a dignidade ao chão espezinhado e ao quarto desfigurado; compor os inúmeros objectos que nunca param quietos e que insistem em inventar novos lugares que não lhes ficam bem no corpo.
A outra metade atira-se à escrita, e é assim que dou por mim a repartir as horas entre uma coisa e outra. Agora que o ninho suspira, satisfeito e renovado, despacho a fome, de consciência limpa, e disponho-me a dedicar o resto do dia a uma longa narrativa que urge contar. À minha direita, atrás do cortinado florido, cor de abóbora, deslizam gotas de chuva pela vidraça e a luz parda e intermitente do céu, inchado de água, parece brincar às escondidas. Escondo-me eu também nas palavras, que escorrem em aguaceiro, numa estranha sintonia com este dia choroso de Outubro.

domingo, 18 de outubro de 2009

Seminário com José Fanha

Tema:
Promoção e Mediação da Leitura

A realizar-se na Biblioteca Municipal de Mafra, dias 4,11,18 e 25 de Novembro (quartas-feiras) das 19.00 às 21.00.
Destina-se ao público em geral e a mediadores de leitura.
Nº participantes: 25
Inscrição gratuita na biblioteca ou pelo telefone 261 815 422
Concepção e realização: José Fanha

sábado, 17 de outubro de 2009

Poesia, Vinho e Alfarroba

Deixámos as malas no hotel e almoçámos numa esplanada com vista para o castelo de Silves. Chegámos à biblioteca à hora marcada, mas o técnico fazia ainda o som da banda que iria actuar a seguir. Eu fui surripiada para uma reunião informal, e sentei-me com a Rita em cadeiras de duende, para falar sobre as minhas propostas de cursos e oficinas de Escrita Criativa. Estava tudo atrasado, mas ninguém parecia importar-se. Era sábado, o filho da Rita andava por ali, a correr, a brincar, como se a biblioteca fosse uma segunda casa.
Quando regressei ao átrio, o público já se instalara, ignorando o acordeonista/produtor musical/coordenador de cultura, que dizia insistentemente "um-dois, som, som, um-dois-três!". Por fim, tudo ficou pronto. A Rita, com quem tive a reunião, também participou na festa, dizendo poemas e puxando sei lá quantos mais cordelinhos invisíveis. A banda tocou o "Sr.Vinho" da Amália e seguiu com o pulsar fresco e animado de quem entrega a alma ao que faz. Houve prova de tintos e rosés e, quando espreitávamos a biblioteca onde um grupo irreverente de adolescentes fazia mais ruído do que é permitido ali, uma senhora veio oferecer-nos um chá e uma fatia de bolo de canela.
A noite teminou da melhor forma, no restaurante "ALFARROBA": "Cozinha Mediterrânea, Tradicional e Vegetariana". O Paulo, exausto, não descurou o seu papel de anfitrião, inventando ainda forças para acompanhar o ritmo da conversa e planear visitas futuras. Na casa de banho, somos surpreendidos por uma citação de Marco Aurélio, que, no caso de falharmos, nos aconselha a não desanimar. Não pude deixar de rir. Augusto, o proprietário do restaurante, foi uma excelente companhia durante todo o jantar, falando-nos da cozinha de autor, dos seus tempos em Moçambique e de projectos ousados e inovadores. Enquanto, de olhos brilhantes, nos falava com o orgulho de quem acertou na profissão, ia-nos mimoseando com acepipes inesperados, que pareciam saídos das mãos dos anjos.
Aqui fica a sugestão, se forem a Silves:
ALFARROBA - Rua Cândido dos Reis, 107-B Loja 5
Tel - 282 449 247

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Mundos mudos

O meu computador emudeceu. E eu com ele. Ficou sem boca (isto é, sem colunas) para se fazer ouvir e eu, solidária, fiquei sem nada para dizer. Mudos, os dois. Mudos ambos os mundos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Parabéns, Agustina!


A senhora Agustina Bessa-Luís completa hoje 87 anos. Em jeito de celebração, vou passar a tarde a estudar a sua obra, num curso breve de literatura que lhe é hoje dedicado.

"A grandeza dum espírito está na pluralidade e plenitude da sua sensibilidade. Todo o vasto espírito é sempre um tanto santo e outro tanto demoníaco. Todo o artista exagera ou dilui, aviva ou simplifica!"
(AGUSTINA BESSA-LUÍS, em entrevista)

FOTO: Agustina Bessa-Luís, fotografada por Paulo Ricca
Fonte: Pública, 179 (31.Outubro.1999)


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Versos

O coordenador chegou agitado à sala da biblioteca, desgrenhado, com um atraso oficial. Os alunos iam chegando, preenchendo o número reduzido de cadeiras, a espicaçar a intimidade. Ia falar-se de poesia. As senhoras cumprimentaram-se, cúmplices, com o orgulho íntimo de quem troca as novelas e as séries de televisão pelos versos. Pouco depois, Mário de Sá-Carneiro era o ar que respirávamos, aflitos por tanta aflição. Como era possível sofrer assim, desperdiçar a vida inteira, dar-se ao luxo de tanta inquietação?

– O problema dele era não trabalhar! – Diz uma anciã – que idade é que ele tinha, 23…? Eu com 26 já trabalhava há anos e já era casada!

A sala riu, aliviada. Um banho de realidade prosaica, desarmante.
Fugimos da escuridão e da cinza para os campos verdes e as rosas nas mãos de Eugénio de Andrade. O Fernando falava num tom explicativo, como quem põe as realidades da vida no lugar certo, desfazendo-se da teimosia dos equívocos. Por entre o riso e a interrogação, as analogias com a vida mundana davam cor ao invisível, e luz à cauda dos versos que não conseguíamos decifrar, transformando-os em estrelas cadentes que nos pousavam nas mãos.
Saímos para a poesia recatada dos nossos dias, mas nos olhos andava o Domingo de Eugénio, a dizer ao mundo que o encontro fora demasiado breve.
Por fim, entendi que o Fernando não chegara agitado, era assim sempre, apaixonado, multiplicado, por se entregar a pequenas coisas por um grande amor. E eu senti-me um pouco menos pequena, engordada pelo sabor daqueles versos que depositaram dentro de mim.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Nunca é tarde

Nunca é tarde para investirmos em nós próprios, mesmo que seja em perseguição de um sonho. Quem sabe se, o que começou por ser uma fantasia longínqua, não se irá tornar numa meta e, por fim, numa taça? Quantas vidas teremos nós de viver, para aprender a simplicidade das coisas? Deixemos de adiar as nossas vontades e de cultivar os suspiros profundos de resignação. Ergamos as taças que temos a felicidade de já possuir, e bebamos à saúde dos nossos sonhos. Obrigada, Rosarinho. És um anjo.

domingo, 11 de outubro de 2009

Poente

De regresso a casa, ao anoitecer, tive dificuldade em manter os olhos na estrada. O poente explodia cheio de cores, inundando o céu em tons de rosa, lilás, violeta, vermelho e laranja. Anoitecia à medida que as rodas do automóvel percorriam o alcatrão. Os tons purpúreos foram-se desvanecendo, dando lugar a um fogo tão poderoso, que as silhuetas das árvores, recortadas em contra-luz, pareciam sombras carbonizadas por um sol faminto.

sábado, 10 de outubro de 2009

Doces acasos


Hoje encontrei um casal que não via há muitos anos. O sítio estava longe de ter encanto, pois cruzámos os carrinhos de compras num corredor do Continente. Porém, os olhos brilharam. Trocámos contactos, combinámos um encontro para breve e despedimo-nos. Já dentro do carro, com as minhas compras, apercebi-me de que sorria ainda. Esquecera-me de deixar de sorrir. Conduzi de forma quase mecânica pela estrada arborizada, a recordar as duas semanas de férias passadas com o tio Henrique e a tia Maria Helena, que um dia convidaram a mais nova de cinco irmãos para ir com eles para o Algarve, por eu ser assim, dengosa, sem sair do colo deles. Foi a primeira vez que passei a fronteira e lembro-me ainda da conversa do meu tio com o fulano da alfândega, que não nos queria deixar passar, por eu não ter B.I. comigo. Foi uma criança deslumbrada que entrou no El Corte Inglés. Estava em Espanha! Tinha 12 anos. Foi junto deles que recebi o meu primeiro telegrama, outro privilégio principesco: Verocas, muitos parabéns! Passou de ano!, um beijinho dos pais. O alívio foi enorme, pois estava convencida de que iria reprovar. Lembro-me de que a minha tia foi escolher um anel e uma pulseira douradas, com florinhas azul-turquesa, que me fizeram sentir uma senhora. Olhava para a mão magra e para o meu pulso infantil e pensava: "recebi de presente, por ter passado de ano! Estou tão bonita!". Desde então, das raríssimas vezes em que o acaso nos reune, surge este carinho enorme. De 10 em 10 anos, os sentimentos adormecidos despertam, pois as emoções e as memórias - que libertam uma luz quente e saudosista - não querem saber das lâmpadas fluorescentes e frias do corredor de um supermercado.
Deixo aqui beijos e abraços melosos aos meus pais, ao tio Henrique e à tia Maria Helena.
(Foto: eu junto ao Tejo, com 10 anos, 1979)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

abraços precisam-se

Receberam-nos com dois abraços carinhosos e puseram-me um copo de Grandjó nas mãos. Ele terminava de preparar o jantar, ela entretinha-nos, mostrando a casa, conversando, perguntando-me acerca da escrita, fazendo-me sentir importante. Estivemos juntos como velhos amigos e foi como velhos amigos que nos despedimos, com mais abraços, a altas horas da noite, depois da sinceridade das conversas, do riso e do acender das opiniões. O jantar estava óptimo e o remate do crepe de chocolate com o tinto alentejano foi um consolo para a alma. Ficou a vontade de vos receber em nossa casa, urgentemente.
É bom estar com os amigos.
Obrigada, Lia e Nuno. Até (muito) breve.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Irving Penn


Picasso, por Irving Penn
Irving Penn morreu ontem, com 92 anos. Perde-se um dos Mestres da fotografia Fine Art.

Simone de Beauvoir

"Photographing a cake can be art" —Irving Penn

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Workshop com Nanã Sousa Dias

Aos amantes de fotografia analógica a P/B:
No próximo fim de semana, 10 e 11 de Outubro, Nanã Sousa Dias dará um Workshop de Iniciação ao Laboratório Analógico de Preto e Branco, perto da Ericeira. Neste momento, ainda existem 2 vagas. Mais informações através do email : nsd.workshops@gmail.com

Aproveitem!
Para ver a galeria deste fotógrafo, clique aqui:

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Anúncio Bridgestone

Para sorrirem, neste feriado. Obrigado à Rita G., pelo video, e parabéns ao Zé, que completa hoje 65 primaveras! Um Dia Feliz!


domingo, 4 de outubro de 2009

Segurar o vento

Tenho uma proposta para ti: vamos segurar o vento. Vamos agarrá-lo com uma corda bem forte e encerrá-lo num barracão escuro, até que ele morra sufocado, engasgado pelo próprio ar. Assim não haverá poeira. Vamos rir-nos dele, vingados e mais felizes, de mãos dadas, enquanto nos afastamos juntos. Para onde? Por uma estrada que iremos construir, com vagar, feita de um qualquer material macio e resistente, que nos faça flutuar, sem peso, sobre as águas que deixámos para trás.

sábado, 3 de outubro de 2009

Poeira

Hoje dediquei-me à Escrita Criativa e trabalhei temas mais negros como a Morte, o Amor, a Raiva, etc. De um deles, saíu isto:
Não há como recuar nas palavras que foram ditas. Não há como continuar. Chegámos ao fim de uma estrada poeirenta e pedregosa, que nos deixou as gargantas secas, os olhos lacrimejantes, os pés doridos. À frente, a estrada prossegue, imutável no seu desconforto. Ignorámos clareiras, recantos e lagos, permitindo que os nossos corpos caíssem, inevitavelmente, sobre esse velho desvio poeirento, que nos sufoca. Para trás ficaram as ondas que soubemos compor e que, contra todas as marés, insistiam em rebentar-nos no ventre, no rosto, na vontade de sermos um. Esses murmúrios de amantes há muito se calaram, tornando-nos surdos os ouvidos, num lamentável silêncio de afectos. E a nossa beira-mar soa cada vez mais longínqua, numa memória em surdina, que se evapora e se converte em miseráveis gotas de água e sal, desvanecendo-se, por fim, até ser quase nada. Algumas aves cruzaram o nosso olhar, fazendo-nos sorrir, pois nem sempre caminhámos em estradas de pó; mas a poeira que se anunciava foi-se entranhando nas roupas, nas mãos, nas bocas, no coração, deixando-nos cegos às suas asas. Talvez a poeira assente, sim, mas o vento que não podemos ignorar irá erguê-la novamente e repetir os dias de pó que já conhecemos de cor.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Jardins de Outono

Eis que o Outono se instala, cobrindo tudo com uma gaze fresca. Chega de mansinho, despindo os ramos das árvores e deixa-nos assim, melancólicos, por sabermos que, depois deste manto dourado, nos espera o mal-amado inverno. Os cabelos caem, solidários com as árvores, a pelagem dos cães modifica-se, a preparar-se para o frio. A pele regenera-se, despedindo-se do tom de bronze que o sol nos ofereceu, como se nos dissesse: “agora que terás de agasalhar o teu corpo, para quê essa cumplicidade com o sol?”. Respiro fundo e admito que assim é. O tempo renova-se, as chuvas anunciam-se, a paisagem transforma-se. Fecho a janela, viro-me para dentro e penso nas sementes que fui atirando à terra nas últimas estações. É preciso restaurar as palavras, limpá-las de todas as ervas daninhas, do lixo literário que o desamor e a preguiça foram acumulando. É tempo de preparar o futuro, que pode ser amanhã ou depois de amanhã. Conferir o legado, arrumar a casa da escrita, deixar a melhor versão, os melhores rebentos. Salvar o que tem de ser salvo. Pensar que, de hoje em diante, a responsabilidade é maior. Não que o seja, realmente, mas anima-me pensar que serei, um dia, um bom jardineiro. Alguém que se importe com as minhas palavras. Um só alguém que seja. Trabalhar. É urgente cultivar a terra, pois a pergunta paira sobre mim: se te fores, amanhã, o que queres deixar no teu jardim?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Dilemas

Queria ir espreitar os meus futuros se tivesse ido por aqui ou por ali. Poder escolher entre os dois, entre muitos, como um bolo numa montra: quero este. Mas o futuro é só um de cada vez e quando nos chega à mão, já vem fora do prazo.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Não te mexas

Não te mexas. Não saias do meu corpo, por favor, mas não entres na minha vida. Deixa estar assim, este amor perfeito na distância, sem a vulgaridade dos dias, como quem ama o mar distante. Deixa-me viver a vida dos outros, a vida que se espera de nós, e voar para dentro de ti de vez em quando, para te fazer criança outra vez. Não te mexas. Deixa que sejamos reticências, onde tudo cabe, até o futuro que poderíamos ser, mas que não seremos nunca. Estamos presos num castelo de gestos infantis, que erigimos num tempo sem muralhas. Fui ponte levadiça e deixei-te entrar. Encerrei-te dentro de mim para sempre. Por isso não te mexas, deixa estar assim. Deixa que o fosso da vida corrente se afaste de nós, para continuarmos reis do nosso castelo. E serás um Passado sempre presente, pois se abalássemos dessa fortaleza elevada em direcção à planície, que faríamos nós dessa paisagem? Para quê trocar um refúgio de memórias, pelo refugo dos dias? Quando a amargura do tempo tenta arrancar-me o desejo, o desejo mais profundo, lembro-me de nós. E torno a pegar nos braços, chamando por ti, para construirmos juntos um novo castelo.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pareces que foste ontem

Entraste-me na pele, atravessaste todas as minhas células e ficaste aqui, no núcleo de mim. Fui sendo várias pessoas, agigantando-me, aprendendo a ser o que não sabia ser contigo. A carne não é a mesma, tem história, tem tempo, tanto tempo. Mas quando lhe pergunto se ainda te conhece, diz-me que está contigo todos os dias, sem que eu saiba, cúmplice daquele outro bocado de matéria, feito de válvulas atravessadas pelo sangue, aquele pedaço pulsante para cima do qual atiram as culpas do amor. E esse, o coração? Esse ri, espantado com a minha inocência, por ver que entreguei ao tempo a responsabilidade de te arrancar do corpo. Como se ele, o tempo, fosse aspirador que aspirasse a ficar com a nossa história, sorvendo-a, camada por camada, até conseguir ver os nossos dias numa tela de cinema, porque fomos um filme invulgar, irrepetível. Não, o tempo não conseguiu penetrar-me como tu. Continuas aqui, no núcleo do que sou, na carne, na memória. Entras-me nos sonhos com o à-vontade de uma visita que é já da casa, com a destreza de quem nunca chegou a sair. E a cada vez que te visito, sempre me espanto e digo para comigo: pareces que foste ontem.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Misha Gordin e Jerry Uelsmann

Hoje fiz duas novas descobertas na fotografia a P/B. As primeiras três são de Misha Gordin, que trabalha com colagens ou no Photoshop. São impressionantes.


As três fotos seguintes são da autoria de Jerry Uelsmann, actualmente com 75 anos e que fez estas imagens maravilhosas no método tradicional... há 50 anos! É preciso estar-se muuuuito à frente. Truques? Terá muitos, mas sem recurso ao digital! Enjoy.





domingo, 27 de setembro de 2009

O grande Eça, sempre actual...

"Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações. A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse. A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva. À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade."
EÇA DE QUEIROZ, in 'Distrito de Évora (1867)
Desenho de João Abel Manta encontrado aqui:

sábado, 26 de setembro de 2009

Dia Mundial do Mar

"E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior!
Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens,
Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas,
Galdropes, escotilhas, caldeiras, coletores, válvulas;
Caí por mim dentro em montão, em monte,
Como o conteúdo confuso de uma gaveta despejada no chão!
Sede vós o tesouro da minha avareza febril,
Sede vós os frutos da árvore da minha imaginação,
Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência,
Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética,
Fornecei-me metáforas imagens, literatura,
Porque em real verdade, a sério, literalmente,
Minhas sensações são um barco de quilha pro ar,
Minha imaginação uma ancora meio submersa,
Minha ânsia um remo partido,
E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia!"
(FERNANDO PESSOA, excerto de "Ode Marítima")

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A Crise do Futuro (Miguel Carvalho)

Não resisto a postar aqui, com os devidos créditos e autorizações, um dos textos geniais escritos pelo jornalista e escritor Miguel Carvalho, publicado recentemente na revista Egoísta (tema "Crise de Bolso"). Leiam este e procurem a revista. Vale a pena.


"Se algo queremos do futuro é que venha bem passado. Conjugado o pretérito com osso e consumido o presente insosso, esperamos um futuro gourmet ou lá o que é. As maçãs terão o tamanho de cerejas e as cerejas o tamanho de melões, sem caroço. A Esquerda será macrobiótica ou não será, e a Direita aparecerá vegetariana à vista desarmada, mas com design. Talvez as mamas saibam a rebentos de soja. E os pirilaus a tofu. Os bebés serão concebidos e servidos a la carte: sexo, olhos e cabelo à escolha, oferta de catálogo previsível de doenças, manias e tropelias, desconto na opção gémeos. O futuro terá ministros sem corantes nem conservantes, deputados low-cost e eleições oito dias/sete noites, com pensão completa. O governo autorizará os genéricos para o optimismo e liberalizará a adrenalina contra o vírus da depressão. Teremos empregadas insufladas, mordomos a rodas para as tostas e Ambrósios a pedal, com aquecimento central. O psiquiatra será o nosso Pai Natal. O sexo será de última geração, com ecrã plasma e carregamentos de 50, 100 e 200 euros, com mensagens ilimitadas para redes congestionadas. A bimby handjob/blowjob fará o sucesso das classes mais abastadas. Os subúrbios serão desinfectados regularmente e os dormitórios terão, no mínimo, uma palavra-passe com seis dígitos. O Código Penal será revisto para criminalizar o consumo de rojões a céu aberto e a prática de revoluções aos molhos. Haverá Igrejas com consumo mínimo e seitas por catálogo. O gangue das misericórdias será caso de polícia. E a polícia terá seguranças privados. O futuro terá poetas a pilhas, pintores a bateria, dançarinos de corda, teatro às peças e cinema por SMS. A felicidade terá orçamentos rectificativos. E os governos cairão sempre de pé, mas de uma assentada. As crises serão permanentes. Com madeixas. Sorriremos com silicone. E choraremos para dentro, em garrafões de cinco litros. O desgosto e a tristeza serão pandémicas. Mas de marca."
NOTA - espreitem o blog "Devida Comédia", do Miguel, se andarem à procura de bons textos para ler. Eu sigo religiosamente.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A fronteira da preocupação

A preocupação, sem pensamento, é algo de estéril. Um problema ou tem solução, ou não tem. Se tiver uma ou mais soluções, é melhor que pensemos e analisemos o caso, até as encontrarmos; se não tem, não há nada a fazer. Então, para quê a ansiedade? Pensamos que é um estado racional, mas no fundo não passa de uma fraqueza emocional, como o ciúme, o medo, a preguiça, a insegurança, a inveja, enfim, tudo o que nos torna humanos e imperfeitos, tudo o que nos distingue uns dos outros, o que nos mostra a massa de que somos feitos. Ironicamente, as emoções que o justificam são precisamente essas e esse estado, o da preocupação, não passa de uma fronteira para a surpresa do alívio, ou a constatação de uma má notícia. Devemos, portanto, tornar essa fronteira o mais ténue possível e deixar de fazer o culto da ansiedade. Don't worry, be happy... but be careful and aware.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sem fôlego

O dia começou bem cedo, as horas levaram-me de arrasto, apressadas, sem fôlego, atirando-me para o crepúsculo com pressa. Por isso não tive tempo de construir um único pensamento, ocupada que andei a viver. É que às vezes é preciso não viver para olhar a vida do lado de fora. Parar. Como fazê-lo, se me encontrava mergulhada num redemoínho de minutos e horas, que me afogaram o dia?

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A torre medieval, poodles e as montanhas de Nietzsche


Aprendi que Montaigne passou grande parte da sua vida a ler um milhar de livros na sua biblioteca, situada no terceiro piso de uma torre num dos cantos de um castelo medieval, localizado no sudoeste de França, e que pertencera à sua família. Ao fim de treze anos a trabalhar no Parlamento de Bordéus, reformou-se...para ler. Aliás a história da filosofia está cheia de caprichos destes, de vidas e mortes de luxo, de viagens que se prolongavam durante meses (como Nietzsche e Schopenhauer). Aprendi que Montaigne dava mais crédito à sabedoria dos animais, do que à dos seres humanos e que os seus célebres "Ensaios" falam de esfíncteres, da erecção do pénis ou do facto de reis e rainhas também serem donos de traseiros; de que o acto de defecar era o único durante o qual não suportava, de modo algum, ser interrompido e de que ele "e os seus intestinos nunca falhavam um encontro quando saltava da cama".
Aprendi que no verão de 1580, Montaigne empreendeu uma viagem com quatro jovens nobres (um deles seu irmão) e uma dúzia de criados, a cavalo, planeando estar fora dezassete meses e que se passearam por Itália, Alemanha, Áustria e Suíça. Aprendi que era um homem livre de quaisquer preconceitos, inclusive face aos mais estranhos costumes das tribos da América do Sul ou a admitir que não tinha pachorra para livros "misteriosos", difíceis de ler, e que só gostava de "livros agradáveis e fáceis", que despertassem o seu interesse. E era Montaigne, o filósofo ensaísta e erudito, que lera um milhar de livros.
Aprendi que Schopenhauer deve ter sido um dos homens mais infelizes que alguma vez existiu, por considerar a própria vida digna de tristeza apenas; que tinha adoração por poodles, os quais tratava por Sir e que sempre os teve, um de cada vez, ao longo dessa triste vida sem o amor de uma mulher; que se tornou amigo de Goethe que para ele escreveu: "Se desejares ter prazer na vida / Deves dar mais valor ao mundo". Que até aos cerca de sessenta anos, os seus livros pouco ou nada venderam e que a sua última obra, de ensaios e aforismos ("Parerga e Paralipomena") se transformou num best-seller, sete anos antes da sua morte.
Aprendi que Nietzsche tinha um bigode farfalhudo, do qual nunca abdicou apesar do dito afugentar as mulheres; que considerava a maioria dos filósofos como "um bando de patetas"; que se tornou íntimo de Wagner e da sua mulher, Cosima, por quem se apaixonou secretamente; que aceitou um convite duma rica dama de meia-idade, entusiasta das artes, para uns meses na sua companhia, numa villa no sul da Itália, e que este lugar (o clima, a alimentação, os hábitos de ler e nadar com os amigos) o transformou; que adorava escalar montanhas suíças; que passava os invernos no mediterrâneo (Génova e Nice) e os verões nos Alpes; que acordava às 5h da manhã e que escrevia até ao meio-dia e que era nos seus longos passeios às montanhas agrestes que lhe surgiam os pensamentos "com qualquer valor"; que tinha, durante esses verões, um quarto alugado numa moradia, com vista para os pinheiros e para as montanhas, onde escreveu grande parte das suas obras; que apenas jantava umas fatias de presunto, um ovo e um pão; que mais tarde tentou dedicar-se à agricultura, mas que as costas e a visão deficiente não lho permitiram; que desde muito jovem odiava o álcool e desprezava quem dele se socorria ("Que quantidade de cerveja existe na inteligência alemã?") e que numas férias de uma semana em Lugano, com a sua irmã, a factura do hotel incluía catorze copos de leite; que um dia, numa Piaza de Turim, teve um ataque e beijou um cavalo; que foi transportado para a sua pensão e que passou uma fase em que acreditava ser - conforme a hora - Dioniso, Jesus, Deus, Napoleão, Buda, Alexandre o Grande, César, Voltaire, Wagner; e que acabou por ser enviado para um asilo na Alemanha, onde foi tratado pela irmã e pela mãe, de quem, ironicamente, dissera "não gosto da minha mãe e torna-se doloroso para mim ouvir a voz da minha irmã. Sempre fiquei doente quando estava ao pé delas."
Aprendi que nem tudo o que nos faz sentir melhor é bom para nós; e que nem tudo o que nos dói está livre de nos fazer algum bem.
Obrigada, Pedro, pelo empréstimo.

domingo, 20 de setembro de 2009

Cicuta, o prazer e a glória

Quando pensamos que todos os livros de auto-ajuda já foram escritos, eis que descobrimos um autor (Alain de Botton) que decide usar a Filosofia como pano de fundo. "O Consolo da Filosofia" é um livro divertido, surpreendente, estimulante e instrutivo, que nos faz viajar ao longo de 2400 anos, através de diversas correntes filosóficas, para nos revelar argumentos, parágrafos e mundanidades de 6 filósofos em particular. Filosofias aparte, aprendi que Sócrates era muito feio, cheirava mal e vestia-se com a mesma capa durante todo o ano; andava quase sempre descalço, tinha uma mulher com um péssimo feitio, gostava de abordar as pessoas ao final da tarde e que, no dia da votação em tribunal, perdeu para a taça de cicuta por uma pequena margem, pois os votos contra foram de 56%, de um total de quinhentos jurados que não passavam de velhos reformados e feridos de guerra, que ali estavam para animar a sua rotina e ganhar uns ébolos extra. Ao escutar o veredicto, Sócrates comentou: "nunca pensei que a margem fosse tão estreita" e bebeu a taça de veneno na presença dos seus amigos (Fédon relatou cada pormenor), dizendo estas últimas palavras ao grupo que chorava sem poder conter a sua tristeza: "Que modo estranho de se comportarem, meus estranhos amigos!"
Aprendi que Epicuro devotou a sua vida à procura do prazer: comer, beber, fornicar, estar rodeado de amigos e que, na sua época se formaram "escolas para o prazer" na Síria, judeia, Egipto, Itália e Gália; e que, tendo fama de glutão, encontrava prazer no simples acto de se alimentar com "água, pão, vegetais e um punhado de azeitonas" e que escreveu a um amigo; "manda-me um queijo, para que possa fazer um festim"; que construiu um pomar e uma horta com uns amigos, para cultivarem os seus próprios alimentos, para comer pouco, mas bem.
Aprendi que Séneca, que havia sido tutor de Nero, teve a benesse de umas férias de três anos no campo, para escrever sobre a natureza, enquanto esperava serenamente a ordem de morte, que se anunciava, da parte do imperador louco e cruel, que aos 28 anos já mandara matar a mãe, Agripina, o meio irmão Britânico, Octávia, a sua mulher e um grande número de senadores e militares que lançava aos leões e crocodilos; que Séneca desejou morrer como Sócrates, que tanto admirava, mas que o seu médico o enganou, dando-lhe a beber algo que por duas vezes não fez qualquer efeito; que a sua mulher Paulina, em desespero, cortou os pulsos, mas foi socorrida por centuriões que lhos ligaram, salvando-a; que o filósofo "pediu para ser colocado num banho a vapor, onde sufocou até morrer. em tormento, mas com serenidade, imperturbável perante as perturbações da Fortuna". Já não há heróis destes. Já não se vive nem se morre assim.

sábado, 19 de setembro de 2009

Vinho, vícios e filosofia

Depois de um belo manjar n' "O Lampião" (Turcifal, Torres Vedras) e de uma noitada no novo bar "Vinicius - Vinho e Vícios", que meteu cantorias, improvisos, boa disposição e muitos aplausos, graças a deus, o corpo pediu descanso e a mente exigiu que eu lhe exercitasse os músculos. Eu assim fiz e dei ao corpo seis horas de repouso. De manhã agarrei-me a um livro, li sobre Montaigne e Schopenhauer, e surpreendi-me com as curiosidades mundanas que as páginas me revelaram. Os livros são algo de maravilhoso. Este em particular pega em nós, fazendo-nos viajar no tempo através da mente de alguns dos maiores filósofos do mundo e faz com fiquemos íntimos deles. Esta noite ou amanhã acabo de o ler e dedico-lhe o próximo post.
Entretanto, se quiserem conhecer o bar e comer uns petiscos, é o único no Turcifal e está aberto às 6ªs e sábados e em vésperas de feriado. O ambiente é óptimo e as proprietárias são uma simpatia.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O azul e o pensamento



Já que o roxo e os tons púrpura estão na moda, sugiro uma bebida extravagante que descobri ontem, em casa dos meus queridos amigos Afonso e Catarina: blueberry vodka. Servida com gelo e hortelã e cortando os 16º de álcool com um pouco de néctar de fruta ou limão, é uma bebida de deuses gulosos.
Hoje, para me ridimir da minha costela epicurista que tanto se dedica aos pequenos prazeres da vida, li Séneca e as suas lições tornaram-me um pouco mais sábia. Amanhã dedicarei o post a este filósofo e irei partilhar convosco os textos deliciosos contidos no livro onde tenho aprendido tanto sobre Sócrates, Epicuro, Séneca, entre outros. Afinal, não será a vida feita de contrastes, de ventos favoráveis, desfavoráveis, frustração, sonho, teimosia, prazer, ignorância, sabedoria? Hoje uma bebida desconcertantemente azul, amanhã o pensamento.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Firmin, de Sam Savage

Na véspera do final de umas férias maravilhosas no sul de Espanha, surripiei este livro à Teresa e li-o de enfiada, para o devolver a tempo. Tal como Firmin, o rato, troquei a comida pelos livros, abdicando de doses de conquilhas, salada de tomate com orégãos, copos de vinho branco e taças de nozes com chantilly e caramelo, para ficar na praia, a ler a sua história:
É o 13º de uma ninhada de treze e os seus irmãos apropriam-se dos doze mamilos da mãe alcoólica, deixando-lhe apenas algumas gotas de leite com um sabor esquisito. Vivem instalados numa velha livraria e Firmin, que ao contrário dos irmãos anafados é franzino e frágil, começa a comer livros para sobreviver. Um dia descobre que consegue descodificar as palavras que eles contêm e opta por se limitar a comer as margens, arrependendo-se de ter destruído algumas obras, com o seu apetite. Então passa a devorar as palavras, em vez do papel. Aos poucos, o cérebro vai-e desenvolvendo à conta das muitas leituras, a ponto de Firmin se considerar, por vezes, humano. Lê os clássicos, tratados de filosofia, manuais técnicos, tudo o que encontra. Firmin é um rato solitário, romântico e sonhador. Deseja amar e compreender os humanos. Ama as belas mulheres e anseia por fazer amizades. Cinéfilo apaixonado, espreita todos os filmes do Rialto (inclusive os pornográficos) e imagina ser Fred Astaire, dançando com Ginger Rogers.
Esta novela deliciosa, em jeito de fábula, é, ao mesmo tempo, engraçada e trágica. Sam Savage disse numa entrevista que vai continuar nas "short stories", pois, com a saúde que tem, não pode dar-se ao luxo de iniciar um projecto que pode demorar anos a terminar. Depois de ler este livro MARAVILHOSO, só posso desejar que viva por muitos e bons anos, para nos abençoar com novos livros. Sam Savage é doutorado em Filosofia, pela Universidade de Yale, onde leccionou por pouco tempo, para se dedicar a outras actividades: trabalhou como mecânico de bicicletas, carpinteiro, pescador e impressor tipográfico. Aos 65 anos, estreou-se com "Firmin" e alcançou rapidamente um enorme sucesso nos EUA, Espanha, Brasil e Itália, tornando-se um símbolo da paixão pela literatura. Esta novela foi publicada por uma pequena editora de Minneapolis, fora dos grandes circuitos editorias de distribuição, o que não impediu o seu grande sucesso. É bom saber destes pequenos milagres. Obrigada, Teresa!




quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Filosofices e pirosices


Hoje estou assim, pirosa. Enquanto inspirava o ar fresco do fim do verão, regando as minhas petúnias, entornou-se-me este pensamento:
A vida é como uma floreira de petúnias, todos os dias nascem flores e outras murcham. Para cuidarmos dela, devemos arrancar as flores mortas e concentrarmo-nos nas que estão por nascer e nas que se mostram em todo o seu esplendor. Há mesmo uma época em que a petúnia deixa de florir. Há que esperar por uma nova estação, até que de novo ela renasça, com novas flores que nos animam. Como uma planta, a vida é um ciclo de aspecto por vezes tristonho e murcho, para logo nos consolar com pinceladas de cor, promissoras, como se Deus fosse um pintor inspirado e caprichoso, brincando com os seus pincéis num imenso jardim.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Homem na Escuridão

Regressei de umas férias maravilhosas no sul de Espanha e de volta trouxe alguns livros por ler, pois a água, a 26º, não parava de me chamar. Assim, e porque é preciso dar prioridade aos livros emprestados, apressei-me a avançar na leitura de mais uma obra de Paul Auster. Terminei de ler há instantes, já o sol se havia posto, os olhos esforçados e impacientes, que tentavam aproveitar os últimos raios de luz, junto à janela, recusando-se a largar as últimas páginas. É, até agora, o meu livro favorito deste autor. Histórias dentro de uma história, violência, humor, surrealismo puro. Muito bem escrito, muito bem engendrado. Uma forma originalíssima de inventar (n)a insónia. Recomendo, obviamente. Obrigada, Pedro.


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Setembro

Os 10 anos do Micas, na praia...

A guitarra do Luís, as vozes de todos (o álcool!), o riso, o ambiente de festa, a lua cheia, como ditava a fantasia do aniversariante. O Gugas tirou esta foto, sem saber como, e apanhou a lua em flagrante, também ela um pouco "entornada", em jeito de celebração.

Patas out of focus, como o Woody Allen...
Sempre em movimento, esvoaçando de livro em livro, ou de prato em prato, a tratar dos "meninos".

A última noite, o último "postalinho"...Foram duas semanas maravilhosas. Obrigada a todos, por tudo.