domingo, 30 de maio de 2010

Às vezes


Às vezes, quando saio para a minha caminhada quase diária, levo a máquina digital comigo e agarro pormenores como este. Há semanas que estas florzinhas silvestres, azul-arroxeadas, andavam a chamar a minha atenção. A vida, a cor e a beleza irrompendo de um solo árido, feito de torrões de terra seca e tristonha. Lembra-me a nossa vida, às vezes.

sábado, 29 de maio de 2010

Afinal...será?

Quanto a vocês, não sei. A mim fez-me rir. Fez-me pensar. Fez-me reavaliar as prioridades nas nossas preocupações. Um orador iluminado e irresistível. Umasurpresa. Obrigada, Rosarinho.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Estreias

Às voltas com pormenores da edição do livro, com as notas do curso que começo a dar amanhã, sem rede, cronometrando as duas horas de cada sessão, com o pânico que sempre se apodera de mim a cada estreia. Depois corre tudo bem e eu fico muito contente e aliviada. Até lá, é um sofrimento. Devia servir para alguma coisa, este conhecimento prévio, esta consciência das minhas inseguranças costumeiras, mas não. De nada serve saber que é só a irracionalidade do pânico, não fosse essa a condição dos apavorados.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Morte

O peso da morte é imenso. Por momentos de tempo incerto, essa tragédia que envolve o morto num manto negro e misterioso que tudo esconde e que nós, vivos, jamais entenderemos, torna-se na sua única identidade. Uma escuridão onde somos incapazes de navegar, sem a orientação desse fenómeno que rouba o último suspiro de alguém.
Aos poucos, o tempo trata de ir tornando esse peso mais leve, cada vez mais leve, até que o morto vai ressurgindo, devagar, reconquistando a sua identidade, a sua forma, a sua vida. Como se a ceifeira se afastasse, satisfeita, despindo, enfim, o morto desse manto que o subjugava, para o tornar novamente vivo aos nossos olhos saudosos. É então que acreditamos ter perdido alguém para sempre e, em vez de lágrimas, lhe dedicamos um sorriso triste, ao aceitar que o futuro foi interrompido e que tudo o que nos resta são recordações.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Insónia

4.22 da manhã. Dei por mim a ver videos do Bugs Bunny, do Helmer Fudd, do Daffy Duck, do Coyote. Até que dei com este, que me fez pensar: se deixamos que um só sonho se torne a razão de ser da nossa existência, que fazer, quando ele um dia se realiza? Obrigada, Nanã. Enjoy.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

esgotado!

As vagas para o curso de Escrita Criativa que irei dar na Ericeira a partir do dia 28 deste mês estão todas preenchidas. A organização perguntou-me se podia aceitar mais inscrições e eu disse que sim. O concelho de Mafra é uma terra curiosa.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Ouro e prata

Entrou no palco muito composta, calçada com uns sapatos dourados. O concerto foi curto e intenso. DIane Reeves e a banda transportaram-nos num arco-íris de ritmos, cores, melodias e cumplicidade com o público, que bateu palmas até as mãos ficarem a arder. Falava connosco cantando, improvizando, desde a apresentação da banda fantástica que a acompanha há tanto tempo, até coisas como: "this is not a concert. Just have fun, relax, enjoy and pretend this is my living-room" e "after 60 performaces, this is not a stage, this is our playground!"
Uma senhora. Uma força da natureza: a voz, a figura, o espírito e a força que nos transmitiu. Fez-nos rir, deslumbrou-nos. Ela e os excelentes músicos que a acompanham e que, juntos com ela, faziam transições de andamentos e ritmos que nos faziam rir e bater palmas, rendidos. Terminou falando-nos na mãe, com 86 anos, cuja personalidade ilustrou com um canto religioso e crescente que, no auge, nos levou a algo aproximado ao êxtase: "NO MATTER WHAT, IT'S GONNA BE A GOOD DAY! EVERYDAY!"
Saiu descalça, com os sapatos dourados na mão, que retirou temas antes, sem que tivessemos reparado. Os músicos foram apagando o último tema, à medida que saíam do palco, até restar apenas o baterista, que foi largando o seu trém de cozinha, até lhe restarem apenas as baquetas, que usou para continuar a marcar o tempo, enquanto saía. Regressaram alinhados, a dançar ao som das nossas palmas, que não cessavam. Não houve encore. Como podiam voltar a sentar-se, abrandar e recomeçar depois de um auge daqueles...? O público sentiu isso e não insistiu. Estou certa de que todos saíram do CCB de alma cheia.
Seguimos as duas para a Fábrica de Braço de Prata, onde eu vergonhosamente nunca havia ido. Instalámo-nos numa sala acolhedora rodeada de livros e de música, para ouvirmos o Nanã e outros tocarem em jam session. A adrenalina ainda em alta, com o concerto. Partilhámos uma tosta mista, bebemos cerveja (Maria) e dois grande copos de vinho branco da Companhia das Lezírias (eu), sugerido e servido gentilmente pelo próprio Nuno Nabais. Ouvimos os músicos que tocavam só por tocar, por simples vontade, pelo prazer do encontro e o amor à música.
Foi uma noite boa.
Hoje acordei com a frase: "It's gonna be a good day, everyday!"
E não pretendo deixá-la fugir.
Obrigada, Maria Emauz.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Miguel Miranda

Chegou-me pelo correio com uma dedicatória do autor. Eu feliz, e envergonhadíssima por não conhecer um homem que, além de médico, é já um escritor com obra substancial e vencedor de prémios literários, incluindo o Grande Prémio de Conto APE. Muitos parabéns, Miguel Miranda (doutor...), pelo dia de hoje e pela escrita intensa, rica e irresistível, que encontrei desde as primeiras páginas. Irei à procura de mais, não tenha dúvidas. Obrigada pelo presente, que ainda estou a degustar. Quem ama os livros como eu, sabe que receber pelo correio um livro enviado por um autor, com dedicatória, é sempre alimento para a alma. Tive essa felicidade repetida com o João Aguiar que, sem me conhecer pessoalmente, teve a generosidade de enviar-me dois livros seus, entre os quais "O Tigre Sentado", que existe em Macau e que foi muito mal distribuído por cá. Valham-nos pessoas como estas, atenciosas com os desejos dos leitores. A amizade pode nascer assim, de livros e palavras. Votos de um dia muito feliz, Miguel.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Jorge de Sena

Este foi o presente que recebi do meu filho no Natal passado, a meu pedido. Como os livros se amontoam e multiplicam nas mãos de quem tem paixão por eles, só há pouco tempo tive ocasião de ler as 662 páginas que terminei hoje. Há anos que tinha curiosidade em lê-lo e foram horas bem investidas. Ficou a sensação semelhante à que me dá a obra de Bethoven: está lá tudo, a literatura "quase" não precisa de mais nada. O sentido poético, o humor, a reflexão psicológica e filosófica; descrições de mão cheia, versos, diálogos tão vivos que dão carne e osso aos personagens. Um romance magistral que tem dentro amizade, amor, sexo, violência, política, História e muito, muito da vida que se vivia na Figueira da Foz e em Lisboa, no tempo em que se forjavam as primeiras revoluções contra o regime. Escrito com uma franqueza desarmante, sem pruridos, num tom que oscila entre a prosa poética e a linguagem mais crua. Recomendo vivamente.
Obrigada, P., por espicaçares a minha curiosidade e enriqueceres o meu mundo, sempre. 

domingo, 16 de maio de 2010

Feira do Livro prolongada

"Devido a um conjunto de situações atípicas - as condições atmosféricas adversas que se fizeram sentir durante alguns dias, a visita do Papa a Lisboa e as comemorações da vitória do Benfica no Campeonato Nacional - que condicionaram a visita à Feira do Livro de Lisboa, a 80ª Feira do Livro de Lisboa vai ser prolongada até ao próximo dia 23 de Maio."
É uma óptima notícia, para quem ainda não pôde fazer uma visita ou está com ganas de regressar. Hoje, Domingo, pelas 16.00 e também no próximo sábado e domingo estará a Alice Vieira, no stand da Leya.
Roubei a notícia no site oficial da feira

sábado, 15 de maio de 2010

Vaquices

Sábado à tarde. Há quem vá de fim de semana para a praia, aproveitar o primeiro sol; quem prefira ou se veja forçado a enfiar-se em centros comerciais; ou quem vá ver uma exposição ou peça de teatro; um almoço com família e amigos...enfim.
Eu?
Fiquei por aqui. Uma amiga nossa que costuma pastar ao longe, comendo pedaços da paisagem que vemos da nossa casa, afastou-se das colegas e, audaz e curiosa, veio visitar-me e apresentar-se. Eu que costumava sentir-me frustrada por não conseguir fotografar as vacas suficientemente perto com a zoom da minha modesta máquina, tirei a barriga de misérias, pois senti-lhe o cheiro, o bafo e pude até contar-lhe as pestanas. Foi uma forma simpática de interromper a lida doméstica. Perguntei-lhe o que andava aqui a fazer, no início do alcatrão que termina defronte à nossa casa, quando podia estar placidamente a devorar o verde, como as manas quadrúpedes que lanchavam a poucos metros. Ela olhou para mim e em resposta mugiu bem alto, a ponto de me assustar e fazer-me rir. Os cães ladravam, furiosos e indignados com a lata da vaca. Ela não se deixou intimidar e partiu ao fim de uns dez minutos, quando lhe apeteceu juntar-e às outras. Nesta casa acontecem coisas assim, como esta. E é uma das razões porque troquei a cidade pelo campo. O que querem?, são caprichos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Ricardo Araújo Pereira

"O País mais cristão do mundo"
"No ano de 1143, o Papa Inocêncio II reconheceu que Portugal era um país (mais ano menos ano, mais Papa menos Papa. Não me chateiem. O rigor histórico atrapalha quem quer trabalhar).
Oitocentos e sessenta e sete anos depois, temo que Bento XVI venha cá dizer-nos que talvez o seu antecessor se tenha precipitado
No ano de 1143, o Papa Inocêncio II reconheceu que Portugal era um país*. Oitocentos e sessenta e sete anos depois, temo que Bento XVI venha cá dizer-nos que talvez o seu antecessor se tenha precipitado. O Papa visita Portugal numa altura em que, ao que dizem pessoas versadas em economia, embora contradizendo outras pessoas igualmente versadas em economia, o País está à beira da bancarrota. É inquietante não perceber se o Papa vem abençoar-nos ou dar-nos a extrema-unção. Seria demasiado atentatório do protocolo que o Presidente Cavaco Silva tentasse convencer o Santo Padre a devolver-nos aquelas quatro onças de ouro que D. Afonso Henriques começou a pagar anualmente à Santa Sé? Podia ser uma boa ajuda para sair da crise, mas é provável que o Vaticano já tenha gasto tudo em hóstias e talha dourada.
Portugal pode ao menos aproveitar a visita do Papa para aprender com a Igreja, sobretudo nesta altura em que o País parece condenado a fazer à União Europeia o que a Igreja faz aos fiéis: pedir esmola. Na verdade, dificilmente haverá país que viva mais de acordo com a lei de Cristo do que Portugal: há anos que os portugueses têm vindo a despojar-se dos bens materiais e a abdicar da riqueza. Se os países morressem (e não é assim tão certo que o nosso não esteja com os pés para a cova), Portugal seria certamente dos que iriam para o céu.
Para o Papa, visitar Portugal é a decisão mais inteligente que poderia ter tomado. A Igreja tem sido abalada pelo escândalo de pedofilia, e não haverá nada mais sensato a fazer quando se está envolvido num escândalo do que viajar para um país em que os escândalos são corriqueiros. De todos os altos dignitários que vai encontrar, Bento XVI deve ser o que está menos atormentado por escândalos. Portugal é a Brobdingnag dos escândalos. Assim como Gulliver se sente mínimo em Brobdingnag, qualquer escândalo estrangeiro se sente pequenino em Portugal. O périplo do Papa pelo nosso país será o equivalente a uma pessoa que tem uma pequena nódoa na camisa ir rodear-se de pintores de parede com os fatos-macaco todos sarapintados. Quem se atreverá a censurar o Papa por comandar uma instituição que só pediu desculpa a Galileu mais de 350 anos depois do seu julgamento quando é essa, precisamente, a duração média de um julgamento em Portugal? Aqui, qualquer um se sente impoluto. Deve ser nisso que consiste a nossa celebrada hospitalidade."
(crónica publicada na revista "VISÃO", 6 de Maio 2010)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Curso de Escrita Criativa

Estão abertas as inscrições para o curso breve de Escrita Criativa "ESCREVO O MEU PRIMEIRO CONTO", que irei dar todas as 6ªas feiras, a partir de 28 de Maio, até 2 de Julho, entre as 19.00 e as 21.00, na Biblioteca Municipal da Ericeira. É vocacionado para escritores adultos amadores, com uma vertente teórica e outra prática.
Número limite de inscrições: 20
Entrada gratuita, mediante inscrição prévia, com o apoio da Câmara Municipal de Mafra.
Inscrições e informações: 261 860 553
biblioteca.ericeira@cm-mafra.pt

terça-feira, 11 de maio de 2010

Ai

Há coisas difíceis de fazer. Outras fáceis. Há outras que, não sendo difíceis nem fáceis, são chatinhas. Tão chatinhas que quando a hora se aproxima, cresce-me uma irritação miudinha que toma conta de mim. Eu bufo e resfolego, mas sei que não vou conseguir escapar. Não há como fugir, se não pretendo tornar-me uma fora-da-lei, aos olhos do Estado. Aparece todos os anos, implacável e zombeteira, pois sabe que eu, como loura e distraída que sou, só irei conseguir fazê-la chegar a bom porto ao fim de várias tentativas frustradas até que, por fim, grito de alívio, ao ver a mensagem no computador:

"A sua declaração de IRS foi entregue com sucesso".
Amanhã. Juro que não passa de amanhã.
Agora pronto, já jurei e lá terá de ser...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Um novo caminho

Há coisas que fazemos, porque tem de ser; outras que não fazemos, por falta de vontade.
Há coisas que fazemos por convicção, outras não fazemos, por falta de fé;
Há coisas que fazemos por inércia, outras não fazemos por inércia também;
Há coisas que fazemos, porque vão ao encontro do que mais desejamos, e coisas que não fazemos, porque nos atrapalham o alcance de um desejo.
Hoje fiz o que tinha de fazer, por convicção, para ir ao encontro do que mais desejo.
E o não-fazer ficou para trás, desprezado, para me deixar avançar.
Comecei um novo caminho.
Que fazer? Percorrê-lo.
O que não fazer? Desistir.
Construí-lo, passo a passo, com o sonho na mira, e os pés sulcados na terra.
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terça-feira, 4 de maio de 2010

Filosofices IV

Se eu voltasse a ser uma criança, havia de querer fazer uma série de perguntas que na altura não me ocorreram. Agora que sou crescida, até parece mal, mas mal que pergunte...

O que é que a palavra “tornozelo” tem a ver com “torno” e com “zelo”? Nada, não é? Então porque é que as juntaram? Às vezes parece que já não sabem que palavras hão-de inventar e começam a coser duas a duas, ao acaso:
“Pescoço” (coço os pés?)
“Moldura” (afinal, é mole ou é dura?)
“Barbaridade” (pôr barbas à idade? Uma idade bárbara?)
“Debalde” (e esfregona….?)
Caravela (ver a cara? Velar pela cara? Uma vela em forma de cara?)

Se respiramos com o peito, porque é que não usamos o verbo “respeitar”? Inspeita...expeita…inspeita…expeita. Respiro pelas palavras, perdão, haja respeito pelas palavras.

Se dizemos “almofada” e pomos os dentes debaixo dela, para a fada dos dentes, então porque é que não chamamos ao travesseiro, que é o macho, um “almoelfo”? Se não pudesse ser, ao menos, em vez de travesseiro, chamassem-lhe atravessador. É que é um objecto que dificilmente faz travessuras…ou faz e eu não sei? Então pronto, almofauno – que esses, os faunos, são bem mais travessos…

Se eu não tivesse encarnado, a minha alma morria? Não, ia buscar uma cor parecida, o cor-de-laranja ou o rosa, e misturava-lhe um bocadinho de luto.

Porque é que dizem que uma mulher está de saltos altos se ela, empoleirada em sapatos desses, tem tanta dificuldade em dar saltos? Muito menos, altos!

Ter unhas encravadas é termos flores a nascer-nos nos pés? E espremer um cravo, é torturá-lo até que ele nos confesse quantas abelhas é que conhece? É apertar-lhe as pétalas até que denuncie os seus companheiros? É tocar uma melodia num cravo, espremer-lhe as notas? Cravar dinheiro? Desculpem lá, mas é tudo muito complicado.
Pronto, isto era o que eu perguntava se fosse criança, mas agora sou crescida, já não dá.

domingo, 2 de maio de 2010

Mãe de um filho

Volto a postar o que publiquei no dia em que o meu filho completou 14 anos. Hoje, dia da mãe, pareceu-me apropriado. De resto, há coisas que são como o espírito de Natal: ideais para serem revividas e sentidas o ano inteiro. 
Um filho é a coisa mais verdadeira que se tem. Ser mãe é perder a paz para sempre, mas vale a pena. É um medo que nos engrandece e dá sentido ao nosso sangue. Retira-nos para sempre do egoísmo e oferece-nos um mundo novo e irrepetível de emoções sinceras, superiores e incomparáveis ao mundo atordoado em que vivemos e onde tentamos conquistar um cantinho ao sol. Um filho é ter o sol sempre cá dentro, mesmo em pleno temporal.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Trapos


Há coisas incompreensíveis. Uma delas é isto de engomar. Os panos multiplicam-se, por mais que cuidemos deles. É um ritual estúpido e interminável: usar, sujar e amarrotar, lavar, pendurar, retirar, engomar, guardar, retirar, usar, sujar…o melhor é nem pensar no tempo de vida que perdemos a tratar dos trapos. Hoje, enquanto engomava durante horas a fio até ver o fundo ao cesto – naquele estado de aparvoamento de quem repete, inutilmente, gestos cujos resultados irão durar tão pouco – pensava no tempo que já perdi da minha vida: se calcular cerca de 4 horas por semana e multiplicar pelas semanas que tem o ano, chego às 212 horas. O que significa que “passamos” 9 dias da nossa vida. E para quê? Porquê? Porque há mais de um século se convencionou que os trapos que usamos não podem ter vincos, é feio. É que é um trabalho perfeitamente estúpido, estar horas ali, a passar o ferro para a esquerda e para a direita, até que a roupa fique lisa, quando sabemos bem que horas ou dias depois iremos amarrotá-la toda outra vez. Odeio pensar que perco anualmente nove dias da minha vida a engomar. É que nem sequer dá gozo. Porque há coisas que dão trabalho, mas dão gozo, não é? Se andássemos todos amarrotados, já não parecia mal e já viram a quantidade de coisas úteis, mais inteligentes ou aprazíveis a que poderíamos dedicar-nos durante nove dias?
Poderão perguntar-me: se detestas assim tanto engomar, porque é que não pagas a uma empregada? Porque é um luxo ao qual não me posso dar, como é óbvio. E nos tempos em que posso, vai dar ao mesmo, ou não vai? 4h/semana a multiplicar por 24 ou 32 euros, dá 1272 ou 1696 euros por ano. Agora pensem bem no que poderiam fazer com esse dinheiro, sem ser pagar a alguém para vos engomar a porcaria dos trapos…
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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Obrigada

Para aproveitar mais um dia surpreendente de verão antecipado, afastei-me deste computador, peguei no manual de Escrita Criativa e nos apontamentos e fui para junto do sol preparar o curso e a pele. Ao fim da tarde, fui raptada por uma amiga que me levou a comer uma salada junto à costa e me levou para a areia, onde um S. Bernardo se banhava, nas águas de um pequeno braço do rio, que resolveu atravessar a praia depois dos temporais.
Regressada a casa, fiz carne de porco guisada com favas, acompanhei-me com dois copos de vinho branco e, espantada, fui ver esta lua maravilhosa que se postou sobre a paisagem. Há várias noites que os pássaros cantam, na semi-obscuridade, sem que o seu canto faça sentido. A lua, que parece ter engordado com o meu guisado, está tão inchada, que ilumina o vale inteiro, até à linha desordenada de pequenas luzes cor-de-laranja, que anunciam a cidade, ao fundo. O canto das aves é diverso, são vários bandos, aqui e acolá, e juntam-se ao croachar das rãs e ao pio da corujas. Parecem celebrar as noites inesperadas de verão, que empurram a memória do frio tão recente e já tão longínquo.
Interrompi o visionamento de alguns episódios da série antiga de Sherlock Holmes, para beber de um trago este cenário que encontrei no terraço, ao sair para libertar os cães. Escrevo na quase obscuridade, para não perder o luar que inunda o meu escritório. Uma noite generosa, perfeita, que me faz erguer os olhos ao céu e murmurar, Obrigada.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Aduf

Não, não falta um "e", o projecto chama-se assim mesmo, Aduf. Dentro da World Music, encheu-me as medidas. Está tudo no sítio e nada falha, e olhem que há recantos bem estranhos, ritmos, melodias, tempos nada fáceis...nestes tempos difíceis. É só para quem sabe muito. Estão todos de parabéns e para algo desta qualidade, só podemos desejar o maior dos sucessos.  

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Crónica de RAP

"Eis o flagelo do Eyjafjalla

Será que um islandês vendado escreve correctamente "Carrazeda de Ansiães" no seu computador?

3:45 Quinta-feira, 22 de Abr de 2010

Que reflexão merece a erupção do vulcão Eyjafjalla, situado em Eyjafjallajokull? Primeiro, uma constatação linguística: aquilo que, para nós, é escrever letras à balda no teclado, para os islandeses é toponímia. Eyjafjallajokull é o tipo de palavra que aparece se eu fechar os olhos e carregar aleatoriamente em teclas. Na Islândia, é um sítio. Será que um islandês vendado escreve correctamente "Carrazeda de Ansiães" no seu computador? Não sei, e a comunicação social parece mais interessada em seguir o rasto às nuvens de cinza do que em falar das questões que verdadeiramente interessam, como esta.
Outro problema importante é o de investigar o modo como um amante da natureza deve olhar para o vulcão. Não faz especial sentido que uma pessoa que sofre pela extinção do lince da Malcata se alegre com a extinção do Eyjafjalla. Não é verdade que o Eyjafjalla é tão natural como o lince? Um vulcão é uma espécie de borbulha do planeta. Desenvolve-se e fermenta silenciosamente até esguichar um doloroso pus (espero não estar a ser demasiado técnico). Mas faz parte da natureza como um carvalho ou um golfinho. A única diferença é que os vulcões estão para a natureza como os convidados bêbados estão para uma festa. O anfitrião, como o amante da natureza, quer ter a mesma gentileza para com todos os convidados, mas há um que entorna coisas e apalpa senhoras. É o vulcão. Por isso, querendo ou não, todos nós sabemos, no íntimo, que há natureza de primeira e natureza de segunda: uma que deve ser protegida e apreciada e outra que é simplesmente desagradável. No entanto, por vezes cometem-se injustiças - e eu estou particularmente atento ao facto de, na natureza, haver filhos e enteados. É uma observação que faço amiúde na qualidade de amante da natureza mas, principalmente, na de apreciador de caracóis. Muitas vezes estou a desfrutar de um pires de caracóis e percebo o olhar de repugnância que alguém me dirige. E, quase sempre, não tem a ver com o barulho repenicado que faço a tirar o bicho da casca, mas simplesmente com o facto de eu estar a comer caracóis. O mais interessante é que, na esmagadora maioria dos casos, quem me censura por comer caracóis bebe leite e come ovos. O leite, recordo, é uma gosma produzida no interior de uma vaca, e os ovos são - não há como negá-lo - a menstruação da galinha. É impressionante a hipocrisia destes moralistas da nutrição. Mas, ultrapassada esta lógica e inevitável digressão pelo tema dos caracóis, voltemos à questão do vulcão.
Se há pensamento que deve alegrar-nos, nesta altura, é este: Portugal foi poupado aos mais violentos fenómenos naturais. Não somos arrasados por tornados, nem devastados por tsunamis. Não temos vulcões que nos aflijam nem avalanchas que nos soterrem. A natureza não tem culpa nenhuma de que Portugal esteja como está. É certo que, volta e meia, aparecem umas chuvas mais abundantes e, lá de longe em longe, um terramoto. Mas em geral o nosso clima é ameno e simpático, por muito que a comunicação social se esforce para descobrir desastres naturais em qualquer rabanada de vento. Ainda na semana passada, a fazer fé nos jornais, houve um minitufão no Algarve e outro em Lisboa. Na impossibilidade de sermos visitados por tufões, temos minitufões. Note-se que a expressão "minitufão" nem sequer faz sentido. Não há, por exemplo, microgigantes. Um minitufão é, na verdade, um tufinho. Na semana passada Portugal foi, portanto, assolado por dois tufinhos. Não é especialmente assustador."
(RICARDO ARAÚJO PEREIRA, crónica publicada na Visão, a 22 de Abril)

sábado, 24 de abril de 2010

Jay Kay

Uma faceta menos conhecida do vocalista do grupo Jamiroquai, para vos fazer companhia e alegrar este sábado. E a seguir, abaixo, vejam o Alfalfa, que vale a pena.
 

And now...Alfalfa

E para alegrar mais um bocadinho, vejam este, para contrastar. Irresistível.
 

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Dia Mundial do Livro

Para festejar o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, um vídeo mimoso, que celebra duas das minhas paixões: livros e biscoitos. Já agora, parabéns ao Youtube, que faz hoje 5 aninhos.
 

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Dia da Terra

Dar o exemplo:
Cultivar o rigor da nossa consciência;
Reciclar embalagens, papel, vidros, plásticos, reaproveitar, reutilizar, poupar;
Andar menos de automóvel;
Caminhar mais;
Poupar energias (lâmpadas económicas, velas, grelhados a carvão, banhos pouco demorados, torneiras fechadas sempre que possível...);
Não fumar;
Não usar lacas e outros produtos tóxicos dispensáveis...
Porque sinto, então, que faço tão pouco? Sim, o exemplo começa por cada um de nós, mesmo que seja um esforço ridículo. Afinal, não são os pequenos gestos de todos os dias que podem fazer a diferença? Contamos com tão poucas vitórias e tanto está ainda por fazer. Paciente, a Terra aguenta as nossas asneiras, as nossas exigências, os nossos caprichos. Até quando?
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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Para sorrir e pensar

"Um maluco internado no hospício, diz para a rua: "Vocês aí dentro estão todos loucos"
Imagem: "Nau dos Loucos", Hieronymus Bosch, entre 1450 e 1500.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Feira de Londres 2010

Começou hoje a Feira de Londres, onde são entregues alguns prémios literários a autores, onde vão editores saber das últimas novidades e promover os seus livros mas recentes; onde o público em geral pode assistir a seminários, conhecer novas tecnologias, etc. Decorrerá até dia 21 deste mês.
Para saber mais, clicar aqui

Estou solidária

Como cantora, estou solidária com este video. Pelos músicos, claro, pois o meu instrumento, felizmente, anda sempre comigo e é extremamente fácil de transportar. Isto acontece, não só na United Airlines, como noutras companhias, inclusive na Tap ou na British Airways. Seja uma guitarra, um saxofone, um violoncelo ou um contrabaixo, os carregadores atiram-nos para o monte das bagagens, como se fossem meros caixotes de cartão. Depois vá-se lá dizer-lhes que acabaram de partir um cello do séc.XVII, avaliado em dezenas de milhares de euros...depois é um 31, com as seguradoras e os telefonemas, pois ninguém se responsabiliza, nem quer pagar. Com sentido de humor, este senhor resolveu compôr um tema country, a ilustrar o seu drama. Estou solidária. Cuidado: se têm amor a qualquer coisa frágil, paguem taxas, façam escabeche, ou obriguem as companhias a assinar termos de responsabilidade - mas nunca, NUNCA as mandem para o porão, pois isto não é piada: os carregadores trabalham mesmo assim. Obrigada, Riskas.

domingo, 18 de abril de 2010

Houdini

Temos dois cães, o Gastão (um Serra da Estrela) e o Chico (um podengo médio de pelo comprido). O Chico passa a vida a fugir de casa, para ir laurear a pevide. Não me perguntem como, se o deixamos preso à corrente, para evitar que salte o muro nas partes mais baixas, que ainda não têm cerca. Eu vou fazer a minha caminhada e, quando chego, ele não está lá: das duas, uma: ou descubro a longa corrente pendurada sobre o muro, com a patilha de segurança bem fechada (mas sem o Chico na ponta, no terreno do vizinho, como ele costuma fazer) ou, requintes da sua arte canina, deixa-me, de presente, além da longa corrente, também a coleira fechada, no nível máximo, no buraco mais apertado. Ganhámos o hábito de o soltar com cuidado e deixar aceder ao pátio de baixo, também murado, em cuja parte mais vulnerável já pusémos uma cerca bem alta: ele desce as escadas de pedra, todo contente, e nós ali ficamos, de guarda, pois não tem como sair sem passar por nós. Assim que sobe as escadas,agarramo-lo pela coleira e vai direitinho para casa.
Desde ontem, quando concluí que já não bastava deixá-lo preso cá fora, passei a fechá-lo em casa. Fica a ladrar e a uivar que nem um cão, pois aí não tem mesmo como fugir. Hoje, quando cheguei, ouvi-o ganir e arranhar uma porta. Tinha-se fechado na casa de banho pequena, com uma qualquer patada mal calculada, que fez com que a porta se fechasse. Para o consolar daquela prisão de 40 minutos, deixei-o sair ao pátio de baixo, no esquema que já descrevi, que funciona há vários meses. Fiquei junto da escada e, como ele nunca mais voltasse, desci para o chamar. Não estava lá. Ao fim de um quarto de hora, apanhei-o, já nos limites da aldeia, e só porque se encurralou sem querer junto a um portão. A-ah, apanhei-te! Exclamei eu, aliviada com a captura. Ele olhou para mim como se sorrisse e dissesse, Sim, apanhaste-me, porque eu deixei, mas assim que me apetecer, volto a pirar-me. Tens dúvidas?
Eu acho que o Houdini incorporou este nosso cão.

sábado, 17 de abril de 2010

Flagrante Delícia - blog e livro


Para os mais gulosos, recomendo vivamente este blog "FLAGRANTE DELÍCIA", convidado do jornal "Público", da autoria de Leonor de Sousa Bastos e imagens de Miguel Coelho. As fotografias e os textos literários, que acompanham as receitas, dão-lhes ainda mais sabor. Misturam desejo, amor, afecto e outros sentimentos doces com a doçura do seu recheio. Como poderão confirmar, têm tido excelentes críticas espalhadas pela imprensa, inclusive no New York Times (vejam, no blog, a versão inglesa). Ela é bonita, talentosa, dedicada à sua arte e parece ter inspirado a personagem Ana Pascal, interpretada por Maggie Gyllenhaal no filme "Stranger than Fiction", pois estudou Direito na cidade do Porto, sem ter terminado o curso, para se especializar em "pâtisserie".
Saíu agora o livro-álbum, com o mesmo nome do blog (ADORO a capa: um prato e 9 colheres com um design sugestivo...), pela editora Objectiva. Dará, com toda a certeza, um presente delicioso. Espreitem, no link abaixo, e confirmem o bom gosto que domina o trabalho da Leonor e do Miguel. Verão que, ao percorrerem as receitas que respeitam os sabores e apetites das várias estações do ano, irão ficar de água na boca. É impossível não ficar.
http://www.flagrantedelicia.com/diario/o-livro/

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A imagem para o cartaz

Esta imagem inédita, feita hoje de manhã no estúdio da nossa casa, nasceu como nasce a escrita de um texto original: feita com objectos que vamos coleccionando ao longo da vida, no cruzamento de famílias, amigos, lugares, gestos, hábitos. Recebi um telefonema da biblioteca, dizendo que precisavam de uma imagem para mandar fazer os cartazes de promoção do curso breve de Escrita Criativa, que irei dar entre Maio e Julho, com o nome "Escrevo o meu primeiro conto".
O pano onde assentam os artigos - tecido oferecido pela Rita Guerra, ao qual ainda não dei destino, e que irá transformar-se um dia num vestido, numa túnica, numa écharpe;
A caneta - oferecida pela minha irmã Sofia e o meu cunhado, da "gift-shop" que tiveram em Reguengos de Monsaraz;
A chávena de café - do velho serviço checo, que eu adoro, oferecido pela minha mãe, e que faz sempre vista no final de um jantar, pois cada chávena tem a sua cor e lembra o mundo das Mil e Uma Noites;
O relógio e a vela redonda em tom pérola - vieram da casa da Usseira, oferecidos pela Patrícia Reis;
A vela quadrada, vermelha - com cheiro de frutos silvestres, foi a lembrança do Miguel Soares, no último Natal, que reuniu o grupo de Islantilla;
O anjo, que espreita - herança da tia Nêta, da casa de Torres Vedras;
A pequena taça, em Christofle - oferta de Mário Assis Ferreira, no Natal, vinda do espólio do Hotel Estoril-Sol.
Caneta verde - escondida entre a vela quadrada e a chávena de café, a caneta feita de bagas de vidro, como uvas moscatel, herdada da minha querida avó Mimi.
Daqui a pouco, esta imagem estará espalhada por Mafra, a promover o meu primeiro curso. O fundo negro foi deixado para o texto.
Faltou-me a mão experiente da minha cunhada Meluxa, que teria feito esta esforçada composição muitíssimo melhor do que eu...
Obrigada, Nanã, por desceres ao estúdio para esta sessão, logo a começar o dia.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Imagina

Os mestres Tom Jobim e Chico Buarque, muito novinhos, com Paula Morelembaum, a gravar, descontraidamente, uma canção "facilzinha"... Obrigada, Nanã.

sábado, 10 de abril de 2010

Bem-estar

Estou certa de que o sol - longe de ser apenas uma luz quente que nos enferruja a pele - é também uma espécie de tónico para a alma. O que nos rodeia fica mais belo, os problemas mais pequenos, o corpo mais ágil. Sol e vento, os dois de braço dado, são forças opostas que oferecem equilíbrio ao calor. Hoje o meu filho perguntou-me
- Mãe, de onde vem o vento?
Não lhe soube responder. Não tenho respostas científicas para explicar o mundo, por isso disse-lhe que eram os deuses que bufavam de tédio, por não haver nuvens no céu. Ele sorriu, com ar condescendente, por ter uma mãe que não é normal. Depois foi para o pinhal e para junto dos eucaliptos e eu enfronhei-me nos "Sinais de Fogo" de Jorge de Sena, no baloiço, tapada com a manta de quadrados. A uns metros, o Chico, preso à corrente para não saltar o muro, gania baixinho, a querer ir ter com o Gugas; o Gastão ficou a roer um tronco no chão, ao meu lado. A fazer-nos companhia, estavam os deuses Bóreas e Zéfiro, num diálogo hesitante, ora zangado, ora ameno. O Gugas voltou, corado, a cheirar a eucalipto e a resina. Descascámos amendois e bebemos sumo de pera, enquanto os cães comiam as cascas e os corvos grasnavam ao longe. À noite, depois de uns ovos mexidos com farinheira e uma espetada mista grelhada, vamos ver o "Moulin Rouge". Foi um bom sábado.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A ostra

Manhã de Domingo de Páscoa. O dia dedicado à família, aos doces e petiscos, às amêndoas e aos coelhinhos de chocolate. E eu fui acordar com uma gastroenterite. Veio mesmo a calhar, não? Atirei-lhe com dois kompensans, um ultra-levur e duas cápsulas de Imodium e lá fui eu, na camioneta das 13.30, para o Campo Grande. Há coisas que se fazem mesmo por amor. O casarão a encher-se de família, a mesa a encher-se de pratos e travessas: tartes doces e salgadas, pãezinhos com salmão, fiambre fumado, queijo fresco, salpicão; bules de chá earl grey, sumos de frutas, bolo de canela, pão de nozes, salame de chocolate, amêndoas de açúcar, amêndoas, de chocolate, amêndoas com canela...e eu virada do avesso, a conversar com os intestinos, com o esófago, com os órgãos internos todos. A noite foi linda, à conversa com tudo o que me ia dentro, que de poético tinha pouco.
Hoje, que me encontro recuperada, penso naquela mesa, que desprezei, como o esquilo da "Idade do Gelo", perdido de amores pelas suas queridas bolotas: ali, ao alcance da ponta dos dedos e...escapou-se para sempre. Tudo por causa de uma maldita ostra. Ou de um ovo cozido. Ou de um camarão. Mas eu aposto que foi a ostra. E agora é que eu juro que nunca mais irei comer ostras na vida.
Querido amigo e vizinho Zé, realço que não tens culpa nenhuma disto, que a culpa é da outra, digo, da ostra :-)

sábado, 3 de abril de 2010

Palavras que odeio I

Vicissitude
Regozijo
Emplastro
Transeunte
Palavras que terminam em “eta” à excepção de Julieta
Idiossincrasia
Procrastinar
Palavras anti-eróticas, como: ressurreição, eucaristia, purgatório, eclesiástico, evangelho, diocese, catequese, diácono, pároco, orgasmo...
Cônjuge
Vilipendiar
Gonorreia
Ocorrência
Seborreia
Cefaleia
Hemorroidal
Decrepitude
Jejum
Desjejum...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Uma Família Feliz

Hoje, que se celebram os 205 anos sobre o nascimento de Hans Christian Andersen, deixo-vos na companhia de um dos seus contos menos conhecidos. Perdoem a tradução. Foi impossível encontrar a palavra portuguesa para "dock leaf", pelo que ficou "bardana". Vá-se lá saber o que é isso...enfim, é uma enorme folha. Dedico este post aos mais pequerruchos, bem como aos que ainda não perderam o sentido de humor, nem a sua costela de criança.

"A maior folha verde que temos neste país é com certeza a folha da bardana. Uma menina poderia usá-la como avental; se a pusesse na cabeça quando chovesse, faria de guarda-chuva — é tão grande como isso. Nenhuma bardana cresce sozinha; não, onde há uma, há sempre muitas outras. São um belo espectáculo — e todo esse esplendor costumava ser a comida dos caracóis. Há um género especial de caracóis que vive nas folhas, uma espécie de caracol que os ricos costumavam cozinhar e comer. Murmuravam "Delicioso!" - quando os comiam. E foi por isso que se começou a plantar bardanas.
Ora, havia uma velha mansão onde há muito tempo que se tinha deixado de comer caracóis. Os caracóis estavam mesmo quase extintos, mas não as bardanas, que cresciam e se multiplicavam. Espalhavam-se pelos caminhos e pelos canteiros de flores até não se ter mão nelas: o jardim era uma autêntica floresta de bardanas. Aqui e ali, havia uma macieira ou uma ameixieira; se não fosse isso, nem se percebia que tinha havido ali um jardim. Havia bardanas por todo o lado — e entre elas viviam os dois únicos sobreviventes dos caracóis, ambos muitíssimo velhos.
Eles próprios não sabiam que idade tinham, mas lembravam-se muito bem que, em tempos, tinha havido ali muitos mais, que a família tinha vindo do estrangeiro e que tinha sido especialmente para ela que a floresta de bardanas fora plantada. Nunca tinham saído dali, embora soubessem que havia uma outra coisa no mundo chamada Mansão. Era lá que os cozinhavam, era onde eles ficavam pretos e eram depois postos numa travessa de prata; mas o que acontecia depois, ninguém sabia. Quanto a isso, não imaginavam o que se sentia ao ser-se cozinhado e posto numa travessa de prata, mas parecia que era muito interessante e, com certeza, muito fino. O escaravelho, o sapo e a minhoca foram interrogados sobre o assunto, mas nenhum deles tinha sido cozinhado ou colocado numa travessa de prata.
Os velhos caracóis brancos eram os aristocratas daquele mundo — disso não tinham a menor dúvida. A floresta existia só para eles, tal como a antiga mansão e a sua travessa de prata.
Passavam os dias numa felicidade tranquila e isolada e, como não tinham filhos, adoptaram um pequeno caracol vulgar, que criaram como se fosse deles. O pequeno não cresceu, porque não passava de um caracol vulgar. No entanto, os velhotes, especialmente a mãe-caracol, achavam sempre que ele tinha crescido um bocadinho desde o dia anterior. E quando o pai-caracol parecia não ver a diferença, ela pedia-lhe que apalpasse a pequena casca. E ele lá apalpava e concordava que ela tinha razão.
Um dia caiu uma grande chuvada.
— Ouve o tum-tum-tum nas folhas da bardana! — exclamou o pai-caracol.
- É verdade, e olha que alguns pingos estão a passar — respondeu a mãe-caracol. — Olha, escorrem pelos caules. Meu Deus, vai ficar tudo molhado aqui em baixo! Ainda bem que temos as nossas belas casas, uma para cada um e outra para o nosso pequeno! Realmente, devemos ser os animais mais favorecidos! Vê-se bem que somos os príncipes deste mundo. Cada um de nós tem uma casa sua assim que nasce, além de uma floresta inteira plantada para nós. Às vezes penso onde é que ela acabará e o que haverá depois dela...
— Nada! — respondeu o pai-caracol. Ninguém pode viver melhor em outro lugar e não estou interessado em ir mais longe.
— Ah, mas eu estou! — continuou a mãe-caracol. — Gostaria mesmo de ir até à mansão e de ser cozinhada, seja lá isso o que for, e colocada na travessa de prata. Todos os nossos antepassados passaram por isso, o que mostra que deve ser qualquer coisa de especial.
— A mansão é bem capaz de já se ter desmoronado — disse o pai-caracol. — Ou de estar coberta por bardanas e as pessoas nem poderem sair de lá. Seja como for, não precisas de estar com tanta pressa. Andas sempre numa lufa-lufa, e agora o pequeno está a ficar como tu! Em três dias quase chegou ao cimo daquele caule; fico tonto só de o ver rastejar daquela maneira!
— Não estejas sempre a pôr defeitos na criança — disse a mãe-caracol. — Ele rasteja com tanto cuidado! Tenho a certeza de que há-de dar-nos grandes alegrias. E, afinal, não é ele a nossa razo de viver? Olha, já pensaste onde havemos de lhe arranjar uma noiva? Não achas que por aí, nalgum sítio desta floresta de bardanas, pode haver alguém da nossa espécie?
— Bem, acho que há muitas lesmas e coisas parecidas, dessas que andam por aí sem casa própria — respondeu o velho caracol. — Mas isso para nós seria descer, apesar de elas terem muitas peneiras. No entanto, podemos encarregar as formigas de procurar. Andam sempre numa azáfama, para um lado e para o outro; como se tivessem muito que fazer; podem muito bem saber de uma esposa para o nosso caracolzinho.
— Ah, sim — disseram as formigas —, conhecemos a noiva mais linda; mas é capaz de ser difícil, porque é uma rainha.
— Isso não tem qualquer importância! — exclamou o velho caracol. — E tem casa?
— Tem um palácio! — retorquiram as formigas. — Um magnífico palácio de formigas com setecentos corredores.
— Obrigada! — disse a mãe-caracol. — O nosso filho não vai para um formigueiro! Se é o melhor que podem arranjar, vamos encarregar os mosquitos brancos do assunto; eles voam até muito longe, com chuva ou com sol, e conhecem todos os cantos da floresta.
— Sim, sabemos de uma esposa para ele — responderam os mosquitos. — A uns cem passos de homem daqui, numa groselheira-brava, vive uma pequena caracoleta com casa. Vive sozinha, e está em muito boa idade de casar. E só a cem passos de homem daqui.
— Bem — disse o velho casal —, ela que venha cá ter com ele. Ele é dono de uma floresta inteira e ela só tem uma groselheira!
Então, os mosquitos foram buscar a jovem caracoleta. Levaram oito dias a fazer a viagem, mas isso não desagradou aos pais; mostrava que ela também pertencia a uma boa família de caracóis.
E chegou o dia do casamento. Seis pirilampos fizeram o melhor que podiam para fornecer a iluminação, mas, à parte isso, foi um acontecimento bastante pacato, porque os velhos caracóis não gostavam muito de festas e paródias. A mãe-caracol fez um discurso encantador, porque o pai-caracol estava demasiado comovido para falar. E depois entregaram toda a floresta ao jovem casal, afirmando, como sempre, que aquele era o melhor lugar do mundo e que, se o jovem par vivesse uma vida honesta e respeitável e tivesse muitos filhos, ainda podiam um dia ir à mansão e ser "cozinhados" (fosse qual fosse o significado de tal coisa...) e colocados numa travessa de prata.
Depois do discurso, os velhos caracóis meteram-se em casa e não tornaram a sair. Adormeceram. Os dois jovens passaram a reinar na floresta e tiveram muitos filhos, mas nunca foram cozinhados nem postos numa travessa de prata, de maneira que chegaram à conclusão de que a mansão tinha ruído e que as pessoas tinham morrido todas. E, como não havia ninguém para os contradizer, devia ser verdade. E a chuva batia nas folhas das bardanas para eles terem música, e o Sol brilhava para iluminar a floresta com muitas cores, e foram muito felizes; toda a família foi muito feliz; podem mesmo ter a certeza de que nunca houve família mais feliz!"
(HANS CHRISTIAN ANDERSEN)

Roubei a imagem aqui:
http://www.redebomdia.com.br/Noticias/Viva/3564/Musical+e+a+atracao+de+hoje+no+Sesi+Marilia

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Disse e muito bem

"Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive."
(PADRE ANTÓNIO VIEIRA)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Stranger Than Fiction

O meu filho ofereceu-me este filme há dias. Vi-o ontem à noite. É muitíssimo bom e interessa especialmente a quem escreve. Recomendo. Obrigada, filhote. Para visualizar, clique no "play", em baixo, à esquerda.

terça-feira, 30 de março de 2010

Chocolate

Os chocolates "Fin Carré" de leite, amêndoa e avelã custam 39 cêntimos no Lidl. Socorro, salvem-me, agarrem-me as mãos, fechem-me a boca. Assim não dá.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Puf

Tentei escrever três vezes, e por três vezes apaguei o que escrevi. Desisto...e apago-me. Puf. Acendo-me amanhã.

domingo, 28 de março de 2010

Desaparecida

No seguimento do último post, também eu andei quase uma semana desaparecida. Peço desculpa aos meus leitores, mas há fases assim, em que a vida se atravessa, sem me deixar tempo nem vontade para vir aqui. Tenho um curso de 6 sessões para preparar até ao dia 7 de Abril, intitulado "Escrevo o meu primeiro conto", vocacionado para escritores amadores e que irei dar na biblioteca de Mafra entre 28 de Maio e 2 de Julho; e deram-me até ao dia 15 de Abril para entregar a versão final do meu primeiro romance...falta-me ainda rever a terceira e última parte. O livro é grande...Depois há a vida, claro, o resto das coisas todas do costume. Ai.

terça-feira, 23 de março de 2010

Desaparecidos há 1 ano

O GASPAR e o BERNARDO, os dois cães mais amigos que eu já conheci, alegraram a nossa casa entre o inverno de 2006 e a primavera de 2009. Foi uma alegria intensa e breve que terminou há precisamente 1 ano, quando correram mata abaixo, como muitas vezes faziam, para regressarem minutos ou horas depois. Para nossa grande tristeza, quando partiram nesse dia, foi a última vez que os vimos.
Eram dois rafeiros: um de golden labrador, outro de rotweiller com serra da estrela. Andavam sempre juntos, como podem ver pelas fotografias.
A DORMIR...

OU ACORDADOS...


O GASPAR, o labrador, tinha um tique nervoso: às vezes roía as patas dianteiras até fazer ferida. Depois tinha de andar com aqueles abat-jours ridículos, para elas sararem. E adorava o calorzinho da lareira. Gostava de se pôr mesmo em frente dela, com a peitaça a ferver, assim:                                          
 

O BERNARDO, o castanho-escuro arruivado, tentava imitar-nos a falar, fazendo ruídos estranhos, tipo, UVAF! BEEH-BAH, até que um dia conseguiu dizer com a vogal bem aberta e a voz muito grossa: BAAB! Fartei-me de rir sozinha e tenho pena que mais ninguém tenha ouvido. Comia sempre deitado, com o prato entre as patas (mesmo quando já era adulto), assim:
E tinha a mania de atacar o canteiro e de enfiar as fuças na terra húmida, assim:
Éramos apaixonados por estes cães. Chorei durante semanas, e a primeira coisa que fazia ao acordar era ir directo à janela, na esperança de os encontrar ali, deitados junto ao portão azul. Mas tal nunca aconteceu. O passar dos meses foi dobrando o desgosto em pedacinhos cada vez mais pequenos, até que consegui guardá-lo num canto discreto e deixar de chorar a cada vez que pensava neles. Hoje faço apenas um sorriso triste e só espero que, onde quer que se encontrem, estejam bem, felizes e bem tratados. As saudades vão existir sempre e o Chico e o Gastão, que chegaram uns meses depois para nos consolar, são outros cães, com outra personalidade, outras manias, e outras formas de nos fazerem rir, desesperar ou alegrar-nos a casa. Por uns, pagam os outros. Estes não sabem o que é correr por essas matas fora, à caça de coelhos ou de uma cadela. Mas, se Deus quiser, hão-de andar connosco durante muito tempo ainda, sem um adeus tão prematuro como este foi.

A primeira vez em que o Gaspar e o Bernardo ficaram presos à corrente...

segunda-feira, 22 de março de 2010

Belíssimo

Venceram em Bolonha

Está a decorrer a "Bologna Children's Book Fair" e já foram divulgadas as obras vencedoras.

Na categora de FICÇÃO

Na categoria de NÃO-FICÇÃO

Na categoria de "OPERA PRIMA"
Para mais informações, vão aqui:
http://www.bookfair.bolognafiere.it/en/boragazziaward/vincitori

domingo, 21 de março de 2010

Livro do Desassossego I

Larguei a Anna Karénina ao fim de 150 páginas, para me entregar ao Pessoa. Teve de ser. Não consegui investir mais tempo em centenas de páginas de Tolstoi, com personagens cujas preocupações são os bailes, as festas, os pedidos formais de casamento, as roupas. No Livro do Desassossego, assim que leio um parágrafo, encontro frases que me enchem as medidas da mente e parecem explicar, por mim, os meus pensamentos.

"As coisas sonhadas só têm o lado de cá...não se lhes pode ver o outro lado...não se pode andar à roda delas...O mal das coisas da vida é que as podemos ir olhando por todos os lados...As coisas de sonho só têm o lado que vemos...Têm amores só puros como o nosso olhar."

"A vida só não nos persegue quando nos entregamos a ela."

"A arte de sonhar não é a arte de orientar os sonhos. Orientar é agir. O sonhador verdadeiro entrega-se a si próprio, deixa-se possuir por si próprio."

"Julga-te sempre mais triste e mais infeliz do que és. Isso não faz mal. É mesmo, por ilusão, um pouco escadas para o sonho."

"Abdicar da vida, para não abdicar de si próprio."

"Com este sonhar tanto, tudo na vida te fará sofreres mais. Será a tua cruz."

E não posso deixar de sorrir ao constatar que, no agir, podemos construir uma escada de acesso ao edifício dos nossos sonhos.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Emily Bear

Vejam os videos relacionados, especialmente aqueles em que Emily vai ao show da Ellen Degeneres. Maravilhosos.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Correio

Amanhã o Sr. António, o carteiro que recheia as caixas de correio desta terra, chegará, na sua mota, com um envelope em correio azul. Já traz ordens da junta de freguesia para não o enfiar à cão dentro da caixa, e para tocar à campaínha, para eu receber em mãos o que ele tem para mim: o meu primeiro contrato com uma editora. A oficialização de um novo ofício. O princípio formal de qualquer coisa que ainda está por escrever.
Sinto-me feliz como uma criança na manhã de Natal.
Roubei a foto no site de fotografia "Olhares". Autor: J.V.C.

terça-feira, 16 de março de 2010

Curso de Escrita Criativa

Estão abertas as inscrições para o curso de Escrita Criativa que a Patrícia Reis irá dar em Lisboa. O curso será no mês de Maio (duas vezes por semana, das 18.30 às 20.30) e terá apenas seis alunos. Aproveitem...
Ligar 21 842 98 20 e falar com a Ana Bento para mais informações.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Revisão da matéria

Revistos cerca de 140.000 caracteres. É feio quando as palavras começam a representar esse papel, como se as despisse de significado e encanto. Mas é urgente puxar-lhes o lustro, polir cada frase, perfumar cada letra com o aroma mais certo, até que não restem grandes dúvidas de que o nosso primeiro filho está pronto para o primeiro dia de escola. Irá ele ser bem tratado? Depois de sair do ninho quente, onde tem vivido, irá sobreviver no ambiente impiedoso e competitivo que o espera? 
Vou ficar junto ao portão, acenando-lhe de vez em quando. Vou permanecer atenta, escutando uma lágrima, os jogos de recreio, o riso, os primeiros amigos. Ansiosa, vou falar dele aos que por mim passam, com a ternura e o orgulho de quem o viu nascer. Espero não o envergonhar.

domingo, 14 de março de 2010

A dor e o músculo



Sempre belo. Tem um sabor a músculo dorido, a esforço e concentração, pois remete-me para os tempos de infância e adolescência e para os exercícios de ballet na barra, com o ponteiro da professora Gigui Calais. E estica...estica...fica...e volta...
Que saudades da inocência.

sábado, 13 de março de 2010

quinta-feira, 11 de março de 2010

Sonho suado

E como o sonho se transformou em projecto e o projecto em algo que poderemos tocar com as mãos lá para o outono, eis que interrompo a escrita de um novo livro de gaveta, para rever os cerca de quinhentos e quatro mil caracteres daquele que será o meu primeiro romance partilhado com os desejados leitores. Há suor que chega ao músculo e sonhos que se tornam em matéria viva. O meu suor irá tornar-se em folhas de papel vestidas com uma capa inspirada em imagens que eu guardara, há muito, na gaveta de outros sonhos e que agora os editores me pedem, a tentar cumprir o meu desejo. Só por isso vale a pena sonhar.
Roubei a imagem aqui:
http://tartaruginhafofy.wordpress.com/2008/05/20/sonhos/

quarta-feira, 10 de março de 2010

Escrevendo

Do livro em que estou a trabalhar

"Dissemos adeus. Sem perguntas nem incertezas. Sem perplexidade. E ainda assim, sem sairmos um do outro. Julgámos que era nesse dia que o faríamos, mas não, estávamos embutidos um no outro. Nada a fazer, senão esperar que a vida passasse. Dessa vez, foi o nosso amor que deixámos do lado de fora."

terça-feira, 9 de março de 2010

A Leya e os Anjos


Tenho de partilhar convosco este texto do Miguel Carvalho, que ilustra e denuncia uma realidade triste na vida dos livros em Portugal.


"O grupo Leya mandou destruir milhares de livros. Edições de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade e outros foram na leva. Pelos vistos, é prática habitual da maioria das editoras, conforme nos esclareceu a Ministra da Cultura, vagamente escandalizada. Armazenar e distribuir tem custos – os custos, sempre eles – incomportáveis. E o Estado português, que continua a dispor de recursos para muitos negócios duvidosos e escorregadios, recusa-se, em nome do equilíbrio financeiro, a gastar papel…com papel.
Confesso: não sei onde está a novidade que o episódio encerra: políticos de capa mole e iletrados, obviamente não gastariam um euro a salvar livros. Nas suas biografias, não cabe índice nem prefácio. Nas suas manigâncias e esquemas são gente de título e contracapa e nem para enfeite de escritório servem.
Não são os únicos, note-se.
Uma resma de editores que por aí anda não destoa desta sinfonia da desgraça. Alguns, conheço-os bem: têm lombada de gente grande e esclarecida, mas tanto vendem livros como esticadores para os colarinhos. Ou a mãe, se preciso for. Reclamam-se, com orgulho e a desfaçatez dos livros que não leram, devedores e seguidores do negócio e do sacrossanto mercado, a única religião que conhecem. Com uns e outros, no Estado e nas empresas, está o livro bem servido.
Identificados os criminosos, passemos aos cúmplices.
Neste País de intelectuais serventes e por servir, poucos se levantaram ainda em nome da decência educativa e cultural de um País onde ler, estudar e reflectir ainda parece um comportamento desviante. É claro: não vamos agora começar a boicotar os livros da Leya e os seus autores. O facto de, por vezes, me zangar com o Público, não faz com que deixe de comprar atum no Continente, se é que me entendem. Eu, que não sou daqueles que consideram que só vale a pena entrar nas guerras ganhas à partida, admito que, neste caso, a luta até seria contraproducente. “Manifs” à porta da Leya não me convencem. Tal como deixar de ler o Mia Couto não me faria mais coerente.
Espera-se, contudo, uma palavra dos intelectuais de vários ramos – alguns bem famosos e de edições sucessivas. Miguel Esteves Cardoso já escolheu o seu lado da trincheira, caso raro. Mas há um ruidoso silêncio de outros, tão lestos e certeiros a zurzir os poderes públicos e privados por razões de interesse pessoal ou pé de página. Se esses não falarem em nome das escolas, das prisões, dos hospitais e bibliotecas onde os livros destruídos não tiveram sequer a oportunidade de criar hábitos, despertar sonhos e desbravar mundos, o País fica a saber, em definitivo, que estirpe de intelectuais acoberta. E aí, sim, quase apetece dizer: não os Leya!"

M.C.

(Artigo publicado na revista "VISÂO", 5 de Março)



domingo, 7 de março de 2010

Mia Couto

Fui Sabendo de Mim 
por aquilo que perdia

Pedaços que saíram de mim
Com o mistério de serem poucos
E valerem só quando os perdia

Fui ficando
Por umbrais
Aquém do passo
Que nunca ousei

Eu vi
A árvore morta
E soube que mentia

(Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas" )

sexta-feira, 5 de março de 2010

Qual chuva, qual quê, tenho o sol cá dentro.

Imagem: Girassóis de Van Gogh

quinta-feira, 4 de março de 2010

Mais perto

Sinto-me assim, mais perto do sonho, a sair da escuridão para me embrenhar num clarão de luz viva. Pequena na imensidão de outros sonhadores, enquanto estendo a minha mão minúscula. Agarrem-me, não me deixem cair.

Roubei a imagem daqui:
http://mauriciogularte.wordpress.com/author/mauriciogularte/