ARTUR AGOSTINHO
Não se deixem enganar pelas riscas cor-de-rosa. Os dias são (d)escritos com todas as cores.
terça-feira, 22 de março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
Maria
Maria ajeitou as almofadas da cama e sentou-se a beber o chá de camomila e a comer as bolachas. Gostava de prolongar aquele momento, depois de a auxiliar trazer a pequena ceia que acompanhava a toma dos medicamentos, antes de dormir. Pegou no pacotinho de bolachas, abriu e tirou a primeira. Como rato, roeu, com método e moderação, meio centímetro a toda a volta, até atingir o desenho geométrico que tinha por hábito reproduzir a esferográfica, no seu caderno de capa roxa. O rebordo da bolacha apresentava-se agora rugoso e irregular. Maria usou a língua para limpar os vestígios de massa farinhenta, colados ao céu-da-boca, entre os dentes, nas gengivas. Ao mesmo tempo, observava o vapor saindo da chávena, a arrefecer sobre o tabuleiro. Quando considerou terminada a missão de limpeza, tornou a enfiar a bolacha na boca. Desta vez repetiu a operação com muita cautela, até chegar aos oito minúsculos orifícios arrumados em duas semicircunferências. Os incisivos não avançaram mais do que o necessário, para não se arriscar a morder um dos dezasseis furos. Não perdoaria a si mesma tal distracção. Era forçoso ir mordiscando a bolacha com extremo cuidado, esculpindo uma segunda bolacha mais pequena, onde poderia ler-se a palavra “Maria”, central, e sentir-se a textura dos pequenos pontos inscritos na massa. Maria posicionou à frente dos olhos o que restava do biscoito, para admirar a sua obra: ali estavam eles, intactos, rodeando as letras de pés duplos, os quais lembravam pezinhos de pássaros. O “I”, de uma só pata, podia ser um flamingo de cabeça escondida, um espeto ou um osso delgado, posto ao alto. Os “A’s” assemelhavam-se a cabanas de índio, duas pessoas de cabeças encostadas, a darem um passou-bem. Com uma satisfação infantil, Maria trincou, enfim, as duas extremidades que formavam um total de dezoito furos e só se deteve quando, na ponta dos dedos, sobrou apenas a palavra “Maria”. Tornara-se numa habilidosa artesã. Já só raramente lhe faltava o jeito. Estudando o brilho dos seus olhos, seria natural pensar-se que o pedaço minúsculo de bolacha constituía, quem sabe, o prémio pela sua minúcia, mas não. Esses poucos centímetros feitos de farinha de trigo, açúcar, gordura de palma, xarope de glucose, lecitina de girassol, bicarbonato e metabissulfito de sódio e glúten – há tantos anos gravados com o mais português dos nomes – eram a parte que Maria deitava ao lixo. Caso as senhoras da limpeza se dessem ao trabalho de vasculhar o que recolhiam diariamente na manhã seguinte, às sete em ponto, iriam encontrar, no fundo do caixote de plástico, seis Marias desprezadas.
domingo, 20 de março de 2011
Sophia
Entrámos no edifício imponente onde está instalada a Biblioteca Nacional, para vermos a exposição "Sophia, uma vida de poesia". Começo por discordar da escolha do nome. Sophia de Mello Breyner Andresen não dedicou a sua vida apenas à poesia como, aliás, o espólio da própria exposição demonstra.
À entrada, temos de deixar as carteiras dentro de um cacifo, onde colocámos uma moeda de 1 euro. Regulamento da casa e coisa nunca vista em tantas exposições espalhadas pelo mundo, com as mais ricas colecções. Será motivo para me indignar, ou para sentir vergonha dos utilizadores desta biblioteca, para quem não basta o dispositivo de segurança à saída?
Sophia teve direito a uma sala. Junto à porta encontra-se o catálogo para venda, completo e bem organizado, se bem que, para quem deseja ler as cartas nele reproduzidas, tenha de recorrer a uma lupa.
Silêncio. Eu e a minha amiga Ana Maria temos a sala só para nós, no momento em que iniciamos a visita. Logo verifico que ao meu lado tenho a companhia perfeita para conhecer Sophia um pouco melhor. Vejo-me numa verdadeira visita guiada. As palavras fluem da sua boca com naturalidade. Ávida e atenta, vou aprendo através da sua voz, que me fala na Sophia-criança, na Sophia-mulher, na Sophia escritora, na Sophia-deputada. Meia dúzia de mesas com tampo de vidro arrumam este precioso espólio com um tédio imenso e uma apresentação algo amadora: cadernos de notas, cartas, notícias em papel de jornal, fotografias, obras originais anotadas. O único recurso que encontramos à tecnologia é a digitalização esforçada de alguns documentos, que passam demasiado rapidamente, sem opção inter-activa: se quisermos ter tempo de ler 4 linhas, temos de esperar que a sequência retorne ao ponto de partida.
Impera a triste lei do menor esforço, sem fogo, sem chama nem calor.
A minha querida amiga, há dias dona de um exemplar do referido catálogo e de uma velha paixão pela escritora, compensa-me largamente e completa o texto interrompido de algumas cartas. Rimo-nos as duas ao verificar que ela sabe quase tudo sobre Sophia. Nesse instante sentimo-nos habilitadas a formular uma opinião sobre o uso que deram a este pequeno tesouro que confirma a vida riquíssima de Sophia. Entretanto, estão mais três pessoas na sala. Interrogamo-nos: porque não terão feito a exposição no Centro Cultural de Belém, que teria muitíssimos mais visitantes? Porque não recorreram às novas tecnologias que dariam maior visibilidade e dinâmica a estes conteúdos? Porque não destinaram um cantinho da sala para criar um cenário colorido, de modo a ilustrar o universo infantil da sua obra e cativar os mais pequenos? Uma vez que Sophia é uma autora conhecida internacionalmente, porque não recorreram a gravações áudio, traduzidas em várias línguas, para que portugueses e estrangeiros pudessem escutar os textos quase ilegíveis e conhecerem melhor o seu percurso? A luz das mesas é mortiça como o ar que se respira ali. Um ar sem ideias, sem vida nem calor. Uma senhora idosa aproxima-se e chama a nossa atenção: não estamos sozinhas, que falemos mais baixo, por favor... (como se estivéssemos a gritar ou a falar de futilidades como duas galinhas). Tenho vontade de responder-lhe: desculpe lá se estamos vivas, se ainda respiramos ou desejamos que Sophia continue a respirar.
Obrigada, querida Ana Maria, pela companhia maravilhosa e por tanto que me ensinaste sobre Sophia, a Fada Oriana da nossa infância. Uma mulher que, apesar de homenagens cinzentas como esta, continua a respirar dentro de nós. Que venham outras exposições que lhe façam a merecida homenagem, como tu fizeste, com tanta paixão.
quinta-feira, 17 de março de 2011
O segredo está na massa
Três e meia em ponto na sala de espera do dentista. Arrasto uma poltrona por uns metros, para poder ler e escrever com luz natural. Do consultório - que mantém a porta aberta assumindo o ambiente familiar e descontraído - chegam-me conversas animadas e o ruído do aspirador de saliva e da malfadada broca. É-me quase incompreensível, esta coisa de vir aqui por vontade própria e ainda por cima pagar. Pagar para sofrer. Deve constituir uma prova irrefutável de maturidade, como o dia em que começamos a comer bróculos e couves-bruxelas por auto-recriação, tomamos banho sem que nos ordenem, ou não deixamos de telefonar a agradecer um presente.
Passamos um mau bocado naquela cadeira.
A boca escancarada, os olhos a meia-haste, fixando o rectângulo de fibra de vidro que lança uma luz intensa e quente; as inúmeras ferramentas que entram e saiem da nossa boca, muito atarefadas a fazer obra.
Todas as 4ªas feiras às 15.30, por uns tempos, aqui estarei. Virei até que os meus dentes, depois de uma batalha feroz em equipa, reencontrem a sua dignidade.
Ironicamente, e mesmo respeitando as indicações da dentista ("uma hora sem comer, por causa da massa"), mastiguei, com paixão, uma sanduíche mista uma hora e meia mais tarde. A massa? Foi-se na massa do pão e em mim ficou nada mais do que uma cratera irritante e a sensação de um sacrifício inútil.
quarta-feira, 16 de março de 2011
terça-feira, 15 de março de 2011
Bem me parecia...
Pagar bilhete
(Por Maria do Rosário Pedreira)
"Há encontros de escritores que são feiras de vaidades, onde falsos génios deambulam de nariz arrebitado e não existem conversas que não sejam maledicentes. Há outros, demasiado profissionais, nos quais impera o academismo em excesso – e daí ao bocejo é um instantinho. Há ainda aqueles em que nos divertimos muito e ouvimos histórias que nos transformam. Mas, em qualquer encontro de escritores, há pessoas que valem a pena e nos fariam pagar bilhete só para privar com elas alguns minutos e as ouvir falar das coisas mais comezinhas. Não há muito tive um desses momentos de prazer com aquele que julgo o maior nome da cultura portuguesa – esse mesmo em que estão a pensar. Acordáramos ambos preocupados com o que se estava a passar na Líbia e, juntos, corremos à papelaria em busca de um jornal. Como já não havia aquele que compraríamos num dia normal, eu acabei por desistir (pensando que, mais tarde, recorreria à Internet para me pôr em dia), mas ele aceitou levar um outro, de que a papelaria ainda dispunha. Sentámo-nos depois num sofá lado a lado – e ele foi folheando com calma e comentando as notícias até chegar àquelas páginas de anúncios muito sugestivos, que não só oferecem serviços óbvios, como ainda os ilustram com ligas, nádegas, seios e outra iconografia do tipo. Olhou para mim e disse-me: “Já viu? Este é o maior bordel portátil da Europa!” Genial, como sempre."
Ver o blog "HORAS EXTRAORDINÁRIAS", de Maria do Rosário Pedreira aquisegunda-feira, 14 de março de 2011
sexta-feira, 11 de março de 2011
terça-feira, 8 de março de 2011
Mulher
Abriu a torneira, despiu-se, deitou-se na água quente e fechou os olhos. Afundou o rosto, deixando que os cabelos se colassem à pele. Tomou consciência de cada poro, de cada fio de cabelo. O mundo desapareceu. O coração batia, fazendo-se escutar no silêncio da tarde, no mutismo da casa vazia. Estava sozinha, não só. Apenas a sós. A Beatriz de Chico Buarque dançava na sua memória, as notas da melodia que amava boiavam no banho, encostando-se às suas coxas, ao cotovelo, entre os dedos da mão. Em breve eles iriam voltar, trazendo o ruído e o caos, a inundar o resto das horas com perguntas e apelos, com a arrogância da sua fome, o narcisismo das suas vontades.
A água agora morna lembrou-lhe o passar do tempo. Escutou a chave na porta, os risos abafados do marido e dos filhos. Chegavam com casacos e mochilas, botas, gorros, luvas e sacos. Chegavam com muitas coisas penduradas de todos os lados: da boca palavras, das mãos objectos, dos olhos o dia, do coração a saudade.
Da cozinha, empurrados pela corrente de ar, vieram os vapores do guisado já pronto. Sobre a mesa esperavam pratos, talheres, guardanapos, copos, a cesta do pão, o jarro com água. O gato de barriga cheia enroscado na poltrona de veludo, inútil e decorativo como todos os gatos.
Abandonou o banho, interrompendo a sua paz. Vinte e três minutos bem contados.
- Chegámos! - Disseram.
- O que é o jantar?
- Mãe, posso jantar a ver o Dexter?
- Mãe, posso ir a casa da Mafalda depois?
- Mamã, dás colinho, pois dás?
- Amor, compraste-me o que te pedi?
Ela sorriu e disse que sim a todos, como se, com essa afirmativa, reafirmasse a sua vida de mulher.
(imagem: Nanã Sousa Dias)segunda-feira, 7 de março de 2011
domingo, 6 de março de 2011
Para ti, P.
BEATRIZ
(Chico Buarque)
Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da actriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Olha
Será que ela é louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da actriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da actriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida
sábado, 5 de março de 2011
Sem chão
Por vezes sente-se um solitário urso polar, sem se ter de pé, sem chão nem esperança. E à sua volta flutuam destroços de sonhos que não conseguiu agarrar, que nem tábuas de salvação foram. Onde estarão os outros? Pergunta-se. Que jangadas terão encontrado no que é para mim apenas solidão? Sem saber para onde ir, utiliza a força que lhe resta nos músculos e tendões; sem entender que para si não há finais felizes, esbraceja ao acaso, sem sorte nem jeito. As águas geladas que corta são o tempo que passa, uma imensidão implacável que a fará naufragar, se no horizonte não surgir, enfim, o chão que a salve.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Nanã Sousa Dias
Workshop de Paisagem, dias 19 e 20 de Março 2011, na Ericeira. Para mais informações, contactar: nsd.workshops@gmail.com
quinta-feira, 3 de março de 2011
Cartas de leitores: John Barry
Hoje, depois de algumas reacções ao 2º aniversário do blog, inauguro uma nova etiqueta: "CARTAS DE LEITORES". É a melhor Celebração que encontro.
A que publico aqui hoje nasceu do post dedicado a John Barry, compositor das bandas sonoras dos filmes do 007 e do maravilhoso filme "OUT OF AFRICA", no dia da morte do compositor.
Mário de Sousa disse...
"Sem dúvida que existem filmes que nos causam arrepios, e pelas melhores razões. O John Barry reuniu talvez os maiores filmes, ícones de várias gerações. Conseguiu a proeza maior de ser transversal a várias delas e morrer actual.
De repente, a evocação do 007 fez desfilar pela minha mente recordações antigas de um tio, cunhado da minha mãe, amante incondicional das coisas boas da vida e do 007 também. ‘The Bond way of life’ era uma bandeira para ele. Morreu muito novo, talvez por ter vivido a vida de um modo mais intenso do que devia. Assoprou tanto na brasinha que todo o calor se dissipou num riscar de fósforo.
Vivia com a minha tia e as minhas primas em casa da minha avó, e foi lá que conheci a maior biblioteca de livros policiais e espionagem da minha vida. Foi com ele que aprendi a gostar de Dick Haskins, Ellery Queen, Edgar Wallace, Jack Hunter e a incontornável Agatha Christie. A minha avó arreliava-se com ele porque ‘aquilo não eram livros para uma criança’, mas eu era o filho que ele não tinha.
Estava-se no final da década de sessenta do século passado e o cinema S. Jorge e o Eden faziam as delícias dos amantes das ‘girls Bond’ e o meu tio Júlio não falhava uma soirée seguida de umas imperiais na Solmar ou na Trindade. Depois, ao outro dia ao almoço, contava-me aquelas aventuras rocambolescas e mostrava-me os livros do Ian Fleming; e eu ficava deliciado, em êxtase, a olhar para aquelas raparigas, invariavelmente de vestido comprido, saltos altos e uma perna elegante a deixar-se adivinhar por uma saia meio aberta ou meio fechada. Ele, o James Bond, impassível empunhava uma pistola de cano comprido.
Que raiva que eu sentia por não ter 16 anos para poder ir ao cinema com ele. Então, prometia-me que assim eu tivesse idade, me levaria e me explicaria detalhes que agora ainda não tinha idade para compreender.
Não teve tempo para cumprir a sua promessa. Morreu bem, se assim se pode dizer; um ataque cardíaco fulminante no emprego. Naquele tempo, ainda não havia 112, nem desfribiladores, nem paramédicos de luvas brancas e coletes fluorescentes. Morreu sozinho, no chão do escritório onde o estenderam e lhe desapertaram o nó da gravata.
Quando me disseram, chorei de tristeza e o James Bond perdeu para todo o sempre, o encanto que para mim tinha. Descobri da pior maneira, que o meu herói não era ele mas sim o meu tio Júlio.
16 de Fevereiro de 2011 01:53
(...)
No verão de 2009 tive a oportunidade de visitar a Casa Museu de Karen Blixen em Rungstedlund na Dinamarca. Vivi por essa altura, talvez os momentos mais emocionantes da minha vida.
É muito difícil de explicar o que é África, o que e o que se sente quando se lá está, mas principalmente o que se sente quando A deixamos. É uma sensação de saudade, de perda, de orfandade. É uma sensação sufocante que nos tira as forças, mas que nos faz perceber o quanto é doloroso estar-se ‘ Out of Africa’!
Não conheço os planaltos do Kenya mas tenho presentes as xanas de Angola, os planaltos da Namíbia, as planícies de Coldra, as florestas de Casamansa, os mangais das Guinés. A magia que exerce sobre nós é qualquer coisa de inexplicável, tão inexplicável como os acordes de ‘Out of Africa’. Nunca um trailer foi tão devastador para a minha sensibilidade como o deste filme.
África não se explica, vive-se; não se entende, aceita-se; não se apreende, entranha-se; e tal como uma moléstia ‘boa’, toma conta de nós para nunca mais nos largar. É uma ‘doença’ crónica, inexplicável, arrepiante; é uma droga dura que nos consome por apropriação.
África, é também uma paixão, um céu, um mapa de estrelas, um sol, um pôr-do-sol, ou um renascer; África só pode ser sem dúvida, o berço da humanidade. Só isso pode explicar o seu mistério.
É muito difícil entender as palavras ‘I had a farm in Africa…’. É iniciático… Só quem lá esteve, só quem lá vive ou viveu, só quem se rendeu aos seus desígnios consegue entender todo o misticismo se não a tragédia, destas palavras. É passado e o passado em África dói…
Vera, grato por lembrar John Barry.
John obrigado por tudo o que fizeste."
(MÁRIO DE SOUSA, meu "aluno" no curso de Escrita Criativa "Escrevo o meu primeiro conto", que conheci entre Maio e Julho de 2010, e que brinda este blog com cartas maravilhosas como esta, enviadas desde terras africanas)
2ª Imagem: vista parcial da casa de Karen Blixen no Quénia.
terça-feira, 1 de março de 2011
Dois anos
Caros blogueiros, este blog completa hoje dois anos. Para festejar convosco, venho convidá-los a que escrevam um texto ou simples comentário, dizendo porque o visitam, o que esperam encontrar, quais as vossas impressões e posts com que mais se identificaram, enfim, o que quiserem. Podem sugerir outros blogs que costumem seguir, partilhar uma ideia, dar sugestões. Fico à espera!
Saudações virtuais
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Patrícia Reis
Dia 5 nas livrarias, o novo Mistério do Micas. É bom, está no Plano Nacional de Leitura e recomendo a pais, professores, tios, avós, padrinhos e miúdos que, como eu, sejam malucos como eu era, para gastarem a semanada ou a mesada em livros. O mistério, desta vez, é no Oceanário! Edição Planeta Júnior.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Houdini
O alívio não durou muito: dois dias depois de construída a vedação, o Chico encontrou novas formas de saltar o muro. De volta para a oficina, para vedar as partes mais altas...e tu, Chico, de volta para a corrente...
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Pedro Tamen
"Com minha mão puxo a linha
junto-lhe a boca a ajudar,
e já não sei qual mais minha:
se a boca se o meu puxar"
Pedro Tamen, tradutor e poeta, venceu o prémio Literário Correntes d'Escritas 2011, instituído pelo Casino da Póvoa do Varzim, com a obra “O livro do sapateiro” editado pela Dom Quixote.
"O júri, constituido pelo escritores Fernando Pinto do Amaral (director do Plano Nacional de Leitura), valter hugo mãe, Almeida Faria, o jornalista Carlos Vaz Marques, a directora da revista "Egoista", Patricia Reis, distinguiu a obra de Tamen, por entre outras nove a concurso.
Entre eles estavam “O viajante sem sono” do Padre Tolentino Mendonça editado pela Assirio e Alvim, “Guia de conceitos básicos” de Nuno Judice editado pela Dom Quixote; “A inexistência de Eva” de Filipa Leal da Deriva ou “Curso intensivo de jardinagem” de Margarida Ferra da editora E etc
O prémio das Correntes é atribuido um ano à prosa, outro ano à poesia. Em 2009, tinha sido distinguido o poeta Gastão Cruz com a obra “A moeda do tempo”.
"O anúncio deste ano foi feito por Patricia Reis que em vez de explicar as razões do juri, optou por simplesmente dizer que é uma “obra maravilhosa” e leu um dos poemas de “O livro do Sapateiro”."
Roubei este texto no blog da Rádio Renascença, aqui
Pedro Mário Alles Tamen nasceu a 1 de Dezembro de 1934, em Lisboa. É licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, foi director da Editora Moraes e administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Entre 1987 e 1990 foi presidente do PEN Clube Português."
Em entrevista à LER, disse:
“As relações humanas não são um rio pacífico e sereno.”
“Nós somos actores das nossas vidas e dialogamos com os actores que estão ao nosso lado mas nunca, até ao fim, é perfeitamente clara a relação que estabelecemos com os outros, com os comparsas, com os companheiros ou com as companheiras.”
“A gente nunca aprende nada. O que o tempo e a vida fizeram foi permitir-me experimentar essas dificuldades [de comunicação] e fazer-me reflectir sobre elas, senti-las na pelo e tentar ultrapassá-las.”
“Mesmo aqueles que a gente não pode definir como vaidosos descaem inevitavelmente para falar de si mesmos. As pessoas levam-se muito a sério.”
“Os poetas, no seu reduto próprio de poetas, não são tipos normais. Em princípio, o poeta é aquele que vê um bocadinho mais do que os outros. Ou que, pelo menos, é capaz de exprimir coisas que vê e que os outros, mesmo quando vêem, não são capazes de formular. Estou a falar tanto dos poetas como dos artistas em geral: músicos, pintores, etc. A poesia é, para mim, um permanente arranhar o mundo, com unhas na cal, para tentar encontrar coisas que se pressentem por detrás do branco uniforme do mundo e da vida.”
“As pessoas estão muito mais dispersas, cada vez tratam mais ou pensam mais em tratar das suas vidinhas.”
“Há um endeusamento de falsos valores.”
(in Revista LER, Círculo de Leitores, Fevereiro 2011, em entrevista dada a Carlos Vaz Marques)Roubei as citações da entrevista aqui
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Eduardo Lourenço
Ontem à noite, em directo pela RTP, ao receber o Prémio Autor Nacional da SPA/RTP 2011, Eduardo Lourenço brindou-nos com um discurso maravilhoso, que só podia nascer de um espírito superior como o seu. Lembrou-me a prosa de Saramago, tecida palavra a palavra, morosamente, com as suas frases longas, onde cada vocábulo tem um destino perfeito. Começou por um silêncio que deixou a sala de pulmões cheios, em suspenso. Ninguém se atreveu a respirar antes que o pensamento de Eduardo fosse verbalizado. E quando, ao fim de generosos segundos, iniciou o seu discurso, foi como um néctar precioso, um hidromel vertido gota a gota, sem nunca perder o rumo ao que pretendia partilhar com todos nós, que o escutávamos com um imenso respeito. Mostrou-nos, com aparente lentidão, a torrente de ideias que lhe habita o cérebro ainda ágil. Ensinou-nos que a pressa não tem qualquer sentido e que podemos ser donos do tempo. No fim, vi muitos olhos brilhantes, iluminados pela renda delicada que saía da sua boca, como um novelo prateado nas mãos de um deus.
Parabéns, querido Eduardo, por este prémio tão merecido. Estamos gratos pelos livros e entrevistas com os quais nos enriquece, e somos mais ricos por testemunhar os seus muitos ensaios para compreender o país em que vivemos, o mundo e o pensamento humano.
Roubei a imagem aqui
domingo, 20 de fevereiro de 2011
À Cristina e ao "Vinicius Vinho e Vícios"
TEMPO FELIZ
Feliz o tempo que passou, passou
Tempo tão cheio de recordações
Tantas canções ele deixou, deixou
Trazendo paz a tantos corações
Que sons mais lindos tinha pelo ar
Que alegria de viver
Ah, meu amor, que tristeza me dá
Vendo o dia querendo amanhecer
E ninguém cantar
Mas, meu bem
Deixa estar, tempo vai
Tempo vem
E quando um dia esse tempo voltar
Eu nem quero pensar no que vai ser
Até o sol raiar
(VINICIUS DE MORAES)
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Lendo...
"Uma pessoa sempre responde com a sua vida inteira às perguntas mais importantes. Não importa o que diz entretanto, com que palavras e argumentos se defende. No fim, no fim de tudo, com os factos da sua vida responde às perguntas que o mundo lhe dirigiu com tanta insistência (...) Quem és tu?... Que querias realmente?... Que sabias realmente?... A que foste fiel ou infiel?... A quê ou a quem mostraste ser corajoso ou cobarde? ... (...) O importante é que no fim, uma pessoa responde com toda a sua vida."
(SÁNDOR MÁRAI", in "As velas ardem até ao fim"
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Kseniya Siminova
Kseniya Simonova foi a vencedora da edição Ucraniana do Ukraina Got Talent. Fez uma animação da invasão da Alemanha na Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial, tendo usado os dedos e uma superfície com areia. São 8 minutos de arte em mãos juvenis, às quais não conseguimos ficar indiferentes. O efeito é simplesmente maravilhoso, como poderão ver.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Chuva
Nove horas da manhã. Instalada no sofá, lendo "As velas ardem até ao fim", de Sandór Marai, vejo a luz esmorecer, como se o relógio tivesse avançado várias horas e o tempo saltado para o fim da tarde. O ar tornou-se espesso, a página amarela, de papel antigo. A chuva abateu-se, aliviando o peso excessivo do céu, para devolver a luminosidade e a brancura ao papel. Entreabri a janela para sentir o cheiro da terra húmida. A tijoleira mais escura, as folhas verdes pingando, gota a gota, sobre os pés de plantas e flores enterrados em grãos cor de café. Torno a fechar a janela e regresso ao meu livro. O serra da estrela olha-me pela vidraça, arfando sem sentido, graças ao seu eterno casaco de pelo generoso, tricotado para paisagens feitas de neve. Sacode o corpanzil inteiro, de vez em quando, indiferente ao desconforto. Quer entrar, não para fugir da chuva, mas para se deitar aos meus pés, armado em bicho fiel. Não deixo. Está de castigo, como o sol, encerrado num quarto escuro feito de nuvens de antracite, que sufocam o seu calor. O musgo cresce, cobrindo a pedra, avançando sobre as ranhuras do muro. Tudo se transforma em água, tudo imerge sob a chuva sem fim, até que me sinto cavalo-marinho dentro da minha própria casa e avanço entre páginas feitas de algas e corais.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Rosário Alves
Pingos de Luar: É tão tarde que ainda é cedo
"Desperta-me um cansaço antigo
anterior ao parto das sombras por uma luz
ainda prenhe de noites
os passos que sinto mansos como algodão
são os da madrugada ainda umbilical
é hora de olhar em volta
de buscar na claridade insone
a consistência do andar
ergo-me
desequilibro-me
caio
aninho-me nas raízes descalças das árvores
onde o Inverno sempre me acolhe
volto a sentir o calor secular
e.terno da terra
a luz permanece irrepreensível no interior
humedecido das pálpebras
um pouco mais, penso
é tão tarde que ainda é cedo...
repouso as pestanas no rosto
com a luz apontada à alma
e adormeço os sentidos
...cinco."
(in blog "PINGOS DE LUAR", cujos poemas inéditos são da autoria de ROSÁRIO ALVES)
Casamento
"O casamento não são duas pessoas a olharem uma para a outra, são duas pessoas a olharem para o mesmo caminho."
Obrigada, P.
Obrigada, P.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Henry James
Ao terminar "A Fé de um Escritor". de Joyce Carol Oates (muito bom), retomei a leitura de "Autor Autor", de David Lodge e estou a achá-lo maravilhoso. Ficamos a conhecer Henry James por dentro (e muito da vida dos seus contemporâneos). Concluímos que a vida literária é um abismo de emoções, incógnitas, frustrações, contradições, surpresas e reviravoltas. Uma angústia quase constante relativa à reacção do público e da crítica. Um poço de ansiedade quanto ao reconhecimento. Descobrimos, neste livro que ultrapassa a mera biografia romanceada de Henry James, o lado perfeitamente humano do escritor que, afinal, sofria com as mesmas angústias que nós, que sentimos necessidade de escrever e ansiamos por retirar os nossos textos da gaveta e expôr o lado mais sincero, para que gostem de nós.
Não basta talento ou ser-se genial como o autor d' "A fera na selva", cujo alerta passamos a compreender, depois de ler esta biografia. É preciso trabalhar muitíssimo. Estarmos dispostos a fazer, refazer, cortar, virar do avesso e, sobretudo, esperar. Esperar muito tempo...e não esperar grande coisa.
Valerá a pena?
Claro que sim, se escrever for uma necessidade. O resto, será o inevitável.
No fim, só Deus e o tempo saberão o que o autor irá colher da sua obra e se esta ficará na memória dos leitores de gerações futuras. Afinal, as interrogações têm também o seu lado criativo e sedutor. E se o escritor se interroga quando escreve, procurando respostas, a sede do leitor e o que procura quando lê permanecerá para sempre um mistério.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Becoming Jane
Vi-o esta tarde, pela primeira vez. O filme deu-me tudo o que eu esperava: a reprodução da época, as mansões maravilhosas, as paisagens, os costumes e décors e, claro, uma visão mais íntima da mulher que foi Jane Austen, antes de se tornar numa grande escritora.
Continuo uma romântica sem remédio.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Ana Laíns
Conheci a Ana ontem, a horas tardias, numa actuação expontânea num bar em Sintra, entre amigos. Fiquei rendida: à simpatia, à atitude, e sobretudo à musicalidade e afinação impressionantes. À VOZ. Já tem dois discos de fado gravados e eu nunca tinha ouvido falar dela. Algo falhou. Este video dá uma amostra do que vi e ouvi ontem da sua figura e da sua voz. Quando cantou o refrão: "Ó gente da minha terra / Agora é que eu percebi..." deixou-me arrepiada e de lágrimas nos olhos, coisa que não é fácil. Não imita ninguém e dá tudo o que tem quando canta. Obrigada, Ana, pelos momentos de emoção que nos proporcionaste ontem. Desejo-te o maior sucesso: bem que mereces.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Augusto Brázio
Milhares de fotografias de Augusto Brázio para construir este teledisco de David Fonseca, realizado por ambos: "Hold Still", com Rita Redshoes. (2005)
Sim, é lamechas e a lamechice (às vezes) é como o que é Nacional: o que é lamechas é bom.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Ser feliz ou ter razão?
(INÍCIO DE CITAÇÃO)
Obrigada, Rute.
"Oito da noite, numa avenida movimentada. O casal já está atrasado
para jantar na casa de uns amigos. O endereço é novo e ela consultou no mapa antes de sair. Ele conduz o carro. Ela orienta e pede para que vire, na próxima rua, à esquerda. Ele tem certeza de que é à direita. Discutem. Percebendo que além de atrasados, poderiam ficar mal-humorados, ela deixa que ele decida. Ele vira à direita e percebe, então, que estava errado.
Embora com dificuldade, admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno. Ela sorri e diz que não há nenhum problema se chegarem alguns minutos atrasados.
Mas ele ainda quer saber:
- Se tinhas tanta certeza de que eu estava indo pelo caminho errado, devias ter insistido um pouco mais...
E ela diz:
- Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz. Estávamos à beira de uma discussão, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite!
MORAL DA HISTÓRIA
Esta pequena história foi contada por uma empresária, durante uma
palestra sobre simplicidade no mundo do trabalho. Ela usou a cena para ilustrar quanta energia nós gastamos apenas para demonstrar que temos razão, independentemente, de tê-la ou não. Desde que ouvi esta história, tenho me perguntado com mais freqüência: 'Quero ser feliz ou ter razão?"
Outro pensamento parecido, diz o seguinte: "Nunca se justifique; os amigos não precisam e os inimigos não acreditam".
(FIM DE CITAÇÃO) Obrigada, Rute.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Adeus, John Barry
O compositor John Barry, conhecido pela banda sonora de todos os filmes do Agente 007, deixou-nos. Autor da música de "Midnight Cowboy", ou de "Danças com Lobos", foi, a meu ver, no filme "Out of Africa" ("África Minha") que se mostrou mais inspirado. A sua música diz tudo.
domingo, 30 de janeiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
Clube dos Escribas
A nossa Captain apareceu com uma caixa de bolinhos sortidos, água e cafézinhos para quem quisesse e um presente inesperado: um livrinho de encadernação artesanal com todos os nossos textos! Soltámos "Ohs!" e "Ahs", lemos os textos mais recentes, alguns que ainda não conhecíamos.
Agasalhámo-nos bem e saímos para a Praça do Saldanha, a cumprir um plano que vinha sendo adiado desde a segunda sessão, devido ao mau tempo. A P. mandou-nos sentar nos bancos da paragem de autocarro, atravessou a rua e foi colocar um dálmata de loiça, daqueles bem pirosos, perto do duque de pedra. Em tamanho real, de cachorro com 4 meses, ele ali ficou, meio desamparado, sem saber o que fazer. As pessoas olhavam para a P. e para o seu saco de cartão vazio, julgando-a louca; olhavam para nós, que observávamos o espaço e o ambiente à nossa volta e tomávamos notas. O que estaria este grupo de malucos a fazer? A praça era a de sempre, qual era a novidade?, sem perceberem que meia hora mais tarde iria transformar-se no que fizéssemos dela. Regressámos à pequena sala da 004 e à nossa clarabóia, que nos ilumina. Escrevemos e lemos para os outros o nosso texto. Como sempre, os olhares foram distintos, cada um com a sua voz.
Agasalhámo-nos bem e saímos para a Praça do Saldanha, a cumprir um plano que vinha sendo adiado desde a segunda sessão, devido ao mau tempo. A P. mandou-nos sentar nos bancos da paragem de autocarro, atravessou a rua e foi colocar um dálmata de loiça, daqueles bem pirosos, perto do duque de pedra. Em tamanho real, de cachorro com 4 meses, ele ali ficou, meio desamparado, sem saber o que fazer. As pessoas olhavam para a P. e para o seu saco de cartão vazio, julgando-a louca; olhavam para nós, que observávamos o espaço e o ambiente à nossa volta e tomávamos notas. O que estaria este grupo de malucos a fazer? A praça era a de sempre, qual era a novidade?, sem perceberem que meia hora mais tarde iria transformar-se no que fizéssemos dela. Regressámos à pequena sala da 004 e à nossa clarabóia, que nos ilumina. Escrevemos e lemos para os outros o nosso texto. Como sempre, os olhares foram distintos, cada um com a sua voz.
Chegou um pastel de nata com uma vela e cantámos os parabéns à Dada, que fez anos ontem.
Logo depois a Mestra surpreendeu-nos com outro exercício: tu, Dada, vais escrever sobre o Pedro, tu Miguel, vais escrever sobre a Margarida, tu Ana, sobre a Rute, tu Vera, sobre o João, e os outros...vice-versa, claro. Foi aí que se abriram as torneiras. Uma choradeira pegada!
Houve um pequeno discurso dedicado a cada um: o que aprendemos, o que representa a nossa escrita, o que se modificou em nós. Mais lágrimas. Guardei o meu guardanapo amarelo, húmido de emoções, dentro do livrinho-surpresa. Sentimentalismos.
No fim, o concenso e o alívio: a confirmação de que continuaremos juntos aos sábados de manhã, em encontros um pouco mais espaçados. Iremos escrever mais, trabalhar mais, colaborar nos projectos de escrita de cada um.
Os dados estão lançados, os laços foram criados. E é por isso que iremos continuar a encher de palavras as nossas folhas brancas e tornar mais sinceros os nossos dias.
Dedico este texto a todos os escribas e em especial à nossa Oh Captain, my Captain: Patrícia Reis.
Dedico este texto a todos os escribas e em especial à nossa Oh Captain, my Captain: Patrícia Reis.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Isto é que era!
Vejam e partilhem, antes que o senhor apareça morto ou estranhamente abastado...de patente vendida a quem fecha o segredo a sete chaves, porque isto de carros movidos a ar estragaria o negócio a muita gente.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Rute Reimão
Neste dia bem-vindo de Primavera, depois de tanto frio, escolho esta ilustração belíssima da RUTE REIMÃO, publicada na revista Pais&Filhos, por ocasião dos 20 anos da revista. Muitas das ilustrações da Rute, cujo trabalho eu amo, inspiram histórias, só por si, e são assim, generosas no efeito visual, no impulso de um sonho, à mistura com coisas dos tempos antigos, onde se escondem caligrafias de tinta permanente e trapos das nossas bisavós.
("Quando os filhos deixam o ninho", RUTE REIMÃO)
domingo, 23 de janeiro de 2011
O Clube dos Escribas
Roubei este texto que me comove do blog da PATRÍCIA REIS. Tenho a honra e a sorte de pertencer a este "clube" e depois de três sessões não posso deixar de copiar o que a nossa "Mestra" escreveu a propósito da partilha de ontem:
"Releio tudo com calma e cuidado. Assinalo aqui e lembro-me da primeira sessão e da forma como na terceira nos lambuzámos de doce de abobóra que a Vera trouxe em pão ainda morno. Trocámos ideias e histórias, colocámos a imaginação ao serviço da escrita e fomos por aí, sem merdas. Sim, sem merdas. Nada de grandes teorias ou prelecções sobre pontuação. Admirar a história, a viragem da história, esquecer o padre e ver a terrorista, pensar em ser um banco de jardim ou um sem abrigo, querer apanhar o norte e só sair às quartas-feiras, ter saudades de um amigo e escrever sobre isso e sobre a morte, expôr o melhor, o que nos vai na alma. A escrita de um é de todos. Nada podia ser mais gratificante.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Doce de abóbora
Esta é a abóbora que tenho na minha cozinha, e com a qual irei fazer compota. A sopa de grelos, com courgette, alho francês, nabo e muitas cenourinhas está ao lume, a apurar. Lá para o fim da tarde vou ao TPC do curso de Escrita Criativa e passear os cães ao pinhal. Há dias assim, caseiros, caseiros.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Workshop com Nanã Sousa Dias
ATENÇÃO: última chamada para o Workshop de Fotografia de Paisagem no dias 22 e 23 de Janeiro, perto da Ericeira.
Para mais informações, contacte através do email:
nsd.workshops@gmail.com
Para mais informações, contacte através do email:
nsd.workshops@gmail.com
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Filosofices V
Se eu voltasse a ser uma criança, havia de querer fazer uma série de perguntas que na altura não me ocorreram. Agora que sou crescida, até parece mal, mas mal que pergunte...
Versão é um verso muito grande?
Uma cancela cancela o quê?
E porque é que o penteado é tão parecido com o enteado, se não tem nada a ver? Ou tem...? Pente, de pentear? Pentear o enteado? Não percebo quem patenteou isto.
Se disser que estou renitente é porque sofro de uma crise de renite?
E se os preços não forem grande coisa, podemos dizer que é um preçário precário?
A mim é-me indiferente que o "eme" seja Maiúsculo ou minúsculo, jáime les mots, mas sempre ouvi dizer que o tamanho não é importante, que se geme à mesma.
Se me falares em despiste automóvel quer dizer que o deixaste nú? Vestiste o vestido é um pleonasmo? Despiste é verbo ou substantivo? Ai, não percebo nada.
E as ameias e merlões dos castelos? Isso então é que é mesmo confuso: os merlões, se forem cortados em bico, chamam-se merlões chanfrados, o que é de loucos, e nunca tive a certeza se as ameias eram a meias ou não...
Pronto, isto era o que eu perguntava se fosse criança, mas agora sou crescida, já não dá.
(pesquise em "Filosofices" I, II, III e IV para mais)
domingo, 16 de janeiro de 2011
Sem a letra "U"
Na 2ª sessão de Escrita Criativa com a Patrícia Reis, tivemos dez minutos para escrever a história da Lebre e da Tartaruga...sem utilizar a letra "U". Julgam que é fácil? Bom, pior seria sem a letra "A", mas mesmo assim há uma palavra que faz uma falta terrível.
Tive dois erros, sem direito a chocolate. Vejam lá se dão com eles :)
"Era a vez da história sobre a lebre e o cágado postos na linha de partida para achar o vencedor.
Esta narradora encontra-se em estado de terrível aflicção por saber-se proibida de escrever a vogal do fim das cinco vogais, tornando impossível este exercício!
Lá estão eles, a lebre e o cágado, e não passo disto. Eles na grelha de partida, sem poder arrancar, sem paciência, receando já não sair do mesmo sítio...enfim, o disparo! Lá vão os dois. O mais veloz deixa o rasto de poeira para o réptil? Anfíbio? comer, e desaparece no horizonte. O cágado, coitado, arrasta-se com vagar e avança devagar...mas avança, a defender o ditado que protege e explica a meta dos mais vagarosos.
Bem adiante, perto do maior dos chaparros, a lebre pára para coçar a orelha direita e dormir a sesta merecida. Acorda e constata que o cágado vem a chegar e, espantada, dá novos saltos e corridas, mas tropeça, cai e parte a pata direita da frente. Chorosa, deixa-se ficar, lamentando o azar que teve.
Entretanto o cágado chega e vence, na glória dos lentos!
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Em água e sal
Marco Rodrigues no seu mais recente álbum. Letra de Inês Pedrosa, música e arranjo de Tiago Machado.
Uma lufada de ar fresco naquilo que considero estar meio saturado, o fado, e que precisa ser reinventado...como aqui o foi, tâo bem, de tantas formas.
Obrigada, Patrícia.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Gavetas
Para ilustrar a palavra de ordem entre os escribas (eles sabem quem são), trago um texto que tenho em gaveta, porque somos assim, como o quadro de Dalí, compostos por gavetas irregulares e semi-abertas (ou semi-fechadas?) na solidão de um quarto, pedindo uma espécie de socorro ao mundo que vive lá fora, sob a luz, num gesto de mão que não sabemos bem se representa aceno e convite, medo ou proibição. E o corpo assim, descarnado, o esqueleto quase em exposição, cada gaveta uma costela.
Quando era pequena, tinha a mania de bafejar os vidros das janelas e fazer desenhos. Era uma maneira de matar as horas de inverno e fazer alguma coisa alegre daquela condensação fria e triste, enquanto se ia revelando o mundo lá fora, à medida que o desejo avançava. Recordando isso, saíu-me isto...
Hálito
Sou criança sem recreio
Atrás de um vidro de inverno
Lanço pequenas nuvens brancas
Sobre os olhos desta casa
Na tela limpa, sem receio
Transformo os dedos em pintores
No hálito morno das minhas asas
Desenho amores que desprezei
No longo inferno das minhas dores.
Em dias maltratados
Limpá-los, é tudo o que sei
Com aerossóis e jornais do dia
Onde letras miúdas de injuriados
Contam a ofensa das fortunas
Dos submarinos e foguetões
Pontes e estradas e até carris
E fecho a janela, com débil prudência
Ao mundo de bandidos e ladrões
E temo escapar por um triz
Já não traço sóis nem tantas meninas
Não trago amores nem luas frias
Não espreito as abelhas nas flores do jardim
Escondida à janela cristalina
Escondida do mundo, perdida em mim
A pureza teimosa do vidro
Que os meus dedos já não embalam
Quer ser jardim, menina, cupido
Mas ao olhar as lágrimas frias
Escorrendo em gelo derretido
Só vejo ruas, olho os candeeiros
E a cinza invernosa, sem abrigo
E, ai de mim! Terei de os limpar
Quando a janela deixar de chorar
Os olhos da minha meninice
Não são anseios, não são retiros
Nas mãos confirmo um novo pesar
As sombras risíveis da velhice
E guardo o meu hálito já crescido
Para a amargura dos meus suspiros
(Poema meu, Setembro 2010, imagem: "O Contador Antropomórfico", 1936, SALVADOR DALÍ)
domingo, 9 de janeiro de 2011
Julie&Julia
Ontem à noite vi este filme, que desconhecia. Maravilhoso e divertido. Mais um papel fantástico de Meryl Streep, que representa o papel da Chef de cuisine Julia Child. A actriz Amy Adams, que faz de Julie Powell e em quem reparei há poucos dias no filme "A Vida Num Só Dia", é surpreendente. A realização de Nora Ephron é feminina quanto baste e sem mácula, como sempre. Uma parte da acção é passada nos nossos dias, outra ilustra magnificamente os Anos 50. Aconselho vivamente, a verem "Julie&Julia", baseado em duas histórias verídicas e a terem o frigorífico e/ou a despensa recheados, pois dá cá uma fome...!
Bon appétit!
sábado, 8 de janeiro de 2011
Escrever com a Patrícia
Cheguei ao Atelier 004 dez minutos atrasada. Com estudos feitos na Escola Alemã, (que é conhecida pelo seu alto grau de exigência e rigor), a Patrícia fugiu à postura "portuga" e lia já um excerto do livro "A Fé de um Escritor", de Joyce Carol Oates. Sobre a mesa, pastas com folhas A4, canetas e lápis, água, cafezinho e bolos! O riso foi uma constante, os textos foram nascendo, com emoção à mistura. Ela a insistir: não vou ensinar-vos a escrever. Mas pôs todos a escrever e é isso que importa. Disseram-se coisas como: Somos pessoas diferentes todos os dias, Estás proibida de deitar fora o que escreves; Para a próxima sessão, trago Vodka preto!
Espreitámos a vida uns dos outros, para nos conhecermos, através das perguntas que a Patrícia ia fazendo a cada um de nós.
Serão quatro sessões apenas. Uma oficina de escrita criativa que poderá estender-se a mais sessões, tudo depende de nós e do ritmo das palavras.
Foi uma forma excelente de passar esta manhã de sábado. Regressei com um exemplar do último número da "Egoísta", dedicado à fotografia (desta vez só imagem, sem texto) e quando cheguei a casa já tinha pedidos de amizade no facebook da parte de alguns dos meus colegas de curso. O trabalho de casa ficará para amanhã. Ficou a vontade de que a semana tivesse mais sábados, para estar lá outra vez em breve, muito breve.
Obrigada, Patrícia, por me levares sempre mais longe.
Coelhíssimos
Ontem revi o filme "Miss Potter", que AMO. Quando o vejo tenho mais uma vez a nítida sensação de que nasci na época errada, de que a minha alma está ali, naqueles lagos, naquelas quintas e paisagens, e que, como Beatrix, fugi da cidade para o campo na tentativa de ser mais feliz. Nada do que tenho se compara ao que encontro neste filme, mas ando um pouco mais próximo. Fiquei com vontade de encomendar "The Complete Works of Beatrix Potter" pela Amazon, juntamente com a sua biografia que inclui ilustrações das várias quintas que comprou e habitou, no Lake District, a fim de preservar a vida rural e agrícola e evitar que as propriedades fossem repartidas e vendidas para construção. Preciso de verde, muito verde na minha vida: vegetação e esperança em grandes quantidades.
Ao pesquisar sobre a vida e obra de Beatrix Potter (nomeadamente sobre a personagem Peter Rabbit) dei, algures num qualquer blog, com estes exemplares gigantescos e fofíssimos. Quanto a vocês, não sei, eu sou incapaz de comer coelho. Olhem para estes bicharocos e digam-me lá se não tenho razão...
Para lerem o artigo completo e ficarem a conhecer melhor este último "coelhinho", venham aqui
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
O carteiro
O carteiro parou com a sua mota junto do muro e buzinou insistentemente. Julguei que tinha alguma encomenda para eu assinar, mas não. Estava preocupado com um dos cães que, preso com a longa corrente, estava equilibrado no muro arredondado, acima do seu capacete preto. Ladrava o serra da estrela, ladrava o cão de caça empoleirado, e ele continuava a buzinar e a gritar "sai daí, ó!". A rir, da janela cá de cima do quarto, dei-lhe os bons dias e sosseguei-o:
- Não se preocupe, ele faz isso a toda a hora!
Com cautela, sempre a sorrir, o carteiro colocou o correio na caixa, cuidando que o serra, cuja cabeçorra aparecia intermitentemente sobre o muro, ao nível da mão dele, não lhe desse uma dentada amigável. Gritei-lhe ainda um Obrigada! e ele arrancou na sua mota de alta cilindrada com buzina de automóvel, depois de me acenar um adeus.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
"A piece of cake"
Pessoalmente, prefiro bolo-raínha, à base de frutos secos, sem as frutas cristalizadas, mas o bolo-rei é muito mais bonito sobre a mesa.
Tirem uns minutos para comer uma fatia e fazer um brinde. É fácil, porque a tradição ainda é o que era...se quisermos.
Desejo a todos um feliz Dia de Reis.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Inverno
A vela de canela acesa, a chávena de chocolate quente sobre a mesa, a chuva lá fora, Debussy a preencher o silêncio. O tic-tic-tic dos indicadores no teclado, o texto que avança, o tempo que se vai consumindo na paz destes dias de inverno.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Ai
Uma pilha de roupa em atraso, a chuva que não pára, um espirro permanente na ponta do nariz, a caixa de kleenex ao lado. Ai.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Feliz Ano Novo
Das coisas mais maravilhosas que já ouvi na minha vida. Que vos sirva de inspiração e consolo para estes tempos difíceis.
Dedico este video ao meu filho.
Obrigada, Nanã.
Dedico este video ao meu filho.
Obrigada, Nanã.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Balzac (1799-1850)
Depois da euforia natalícia, os dias tornaram a ser vulgares. Para sair da minha vulgaridade, descubro a vida e a obra de Honoré de Balzac.
Escreveu mais de uma centena de obras, muitas delas menores, assinadas com pseudónimo, para ganhar dinheiro e pagar dívidas. Aos 27 anos já tinha escrito nove romances. Só a colecção "A Comédia Humana" inclui 95 obras acabadas e outras 48 que não chegou a terminar. Entre outros géneros escreveu peças de teatro, novelas, contos, panfletos e tratados filosóficos. Isto só assim, para vos dar um aperitivo.
De origens modestas, foi desprezado e entregue a uma ama. Na sua primeira infãncia, esteve quatro anos sem ver a família, a favor do seu irmão mais novo, filho ilegítimo do amante da mãe (é preciso ver que a senhora fora dada em casamento aos 21 anos com um velho de mais de cinquenta, como paga de negócios e que por isso nunca foi capaz de amar o marido ou de lhe ser fiel).
Mais tarde, à excepção da sua progenitora, burguesa com negócios mercenários, que lhe emprestava dinheiro à distância (sim, emprestava, o filho chegou a dever-lhe 50 mil francos!) teve pouco ou nenhum apoio da família. O pai mandou-o para um colégio interno bastante austero e rigoroso onde Balzac, com uma mesada ridícula (que mais tarde o pai cortou), passava vergonhas junto dos colegas mais abastados. Era mau aluno, indisciplinado, e mandavam-no frequentemente para uma masmorra, de castigo. Foi aí que aproveitou para ler tudo o que apanhava pela frente, até dicionários, que lia com gosto, à falta de outros livros. Chegou a ser enviado para casa num estado de quase coma. Ao vê-lo, uma parente comentou: "é neste estado que nos devolvem um rapaz tão bonito!".
Só uma das irmãs acreditou desde cedo no seu talento e no sonho em tornar-se escritor e lhe desejou muito sucesso, na sua vida na capital. Mas no fim da sua adolescência o pai pô-lo no mercado de trabalho. Depois de Honoré ficar farto de leis ao trabalhar como estagiário numa sociedade de advogados através de um amigo do pai, ao longo de três anos, recusou sociedade e mudou-se para umas águas-furtadas em Paris, verdadeiramente espartanas, a viver com quase nada e onde apenas contou com o auxílio de uma senhora idosa. No romance "O Notário", escreveu sobre um rapaz obrigado a lidar com "as rodas oleosas de cada fortuna, a disputa horrenda de herdeiros sob corpos ainda não totalmente frios, e o coração humano às voltas com o Código Penal.". Confessa que ali seria "como todos os outros, vivendo com fome num lugar onde nada lhe davam para satisfazer o seu apetite."
Tinha vinte anos quando confessou essa sua frustração e a intenção de se tornar escritor, pois desesperava-o a ideia de ser "um funcionário, uma máquina, um mercenário numa escola de equitação, comendo e bebendo e dormindo em horários fixos."
Aos vinte e dois anos conseguiu publicar alguns contos, com a ajuda de um amigo. Ao fim de várias obras mediocres, com os cobradores à porta e os editores à perna, Balzac trabalhava uma média de vinte horas por dia (!) e ainda assim arranjou maneira de serem consideradas obras-primas por alguns críticos. Quando mais tarde descobriu o projecto colossal d "A Comédia Humana", entrou pela casa da irmã adentro a dizer "estou prestes a tornar-me num génio!"...e tinha razão. Assumiu as obras que escrevera anteriormente e começou a assinar como "Honoré de Balzac", até para dar um ar mais aristocrático ao seu nome e esconder as origens modestas. Tornou-se mestre na análise das classes sociais, a construir personagens e a descrever ambientes e lugares, criando as famosas mulheres "balzaquianas" e influenciando autores como Flaubert, Proust, Zola, Italo Calvino, Dickens, Dostoievski, Henry James, Camilo Castelo Branco, Eça, Machado de Assis...chegava a dedicar-se quinze horas a um excerto, rabiscando sobre uma ardósia, escrevendo, apagando, rasurando, reescrevendo num estado quase febril, até ficar satisfeito com aquele pedaço de prosa, limpo, simplificado, puro.
Escreveu, viajou, gastou, esbanjou, sem nunca parar de escrever.
Na verdade era feio e gordo, mas viveu rodeado de mulheres que se apaixonavam por ele. Quando a fortuna chegou, gastou-a numa vida viciosa e entregou-se a projectos que tinham como base boas ideias, que não conseguia levar a bom porto por não perceber nada de negócios (por exemplo, edições extremamente baratas, de papel de má qualidade, nomeadamente das obras compiladas de Molière; a exploração de minas de prata...que afinal não tinham prata; uma sociedade com uma amante numa impressora que lhe deixou dívidas tremendas, etc.).
Morreu aos 51 anos, pouco depois de ter finalmente contraído matrimónio com uma nobre polaca que amou e namorou durante dezoito anos por correspondência, e com quem fez longas viagens clandestinas, uma vez que a senhora era casada e só enviuvou e pôde casar com ele quando Honoré tinha cinco meses de vida.
Já não se ama assim. Já não há vidas nem homens destes. Já não se constrói uma obra literária assim, a escopro e martelo, ao longo de uns breves e admiráveis trinta anos de escrita.
Somos tão pequeninos.
De origens modestas, foi desprezado e entregue a uma ama. Na sua primeira infãncia, esteve quatro anos sem ver a família, a favor do seu irmão mais novo, filho ilegítimo do amante da mãe (é preciso ver que a senhora fora dada em casamento aos 21 anos com um velho de mais de cinquenta, como paga de negócios e que por isso nunca foi capaz de amar o marido ou de lhe ser fiel).
Mais tarde, à excepção da sua progenitora, burguesa com negócios mercenários, que lhe emprestava dinheiro à distância (sim, emprestava, o filho chegou a dever-lhe 50 mil francos!) teve pouco ou nenhum apoio da família. O pai mandou-o para um colégio interno bastante austero e rigoroso onde Balzac, com uma mesada ridícula (que mais tarde o pai cortou), passava vergonhas junto dos colegas mais abastados. Era mau aluno, indisciplinado, e mandavam-no frequentemente para uma masmorra, de castigo. Foi aí que aproveitou para ler tudo o que apanhava pela frente, até dicionários, que lia com gosto, à falta de outros livros. Chegou a ser enviado para casa num estado de quase coma. Ao vê-lo, uma parente comentou: "é neste estado que nos devolvem um rapaz tão bonito!".
Só uma das irmãs acreditou desde cedo no seu talento e no sonho em tornar-se escritor e lhe desejou muito sucesso, na sua vida na capital. Mas no fim da sua adolescência o pai pô-lo no mercado de trabalho. Depois de Honoré ficar farto de leis ao trabalhar como estagiário numa sociedade de advogados através de um amigo do pai, ao longo de três anos, recusou sociedade e mudou-se para umas águas-furtadas em Paris, verdadeiramente espartanas, a viver com quase nada e onde apenas contou com o auxílio de uma senhora idosa. No romance "O Notário", escreveu sobre um rapaz obrigado a lidar com "as rodas oleosas de cada fortuna, a disputa horrenda de herdeiros sob corpos ainda não totalmente frios, e o coração humano às voltas com o Código Penal.". Confessa que ali seria "como todos os outros, vivendo com fome num lugar onde nada lhe davam para satisfazer o seu apetite."
Tinha vinte anos quando confessou essa sua frustração e a intenção de se tornar escritor, pois desesperava-o a ideia de ser "um funcionário, uma máquina, um mercenário numa escola de equitação, comendo e bebendo e dormindo em horários fixos."
Aos vinte e dois anos conseguiu publicar alguns contos, com a ajuda de um amigo. Ao fim de várias obras mediocres, com os cobradores à porta e os editores à perna, Balzac trabalhava uma média de vinte horas por dia (!) e ainda assim arranjou maneira de serem consideradas obras-primas por alguns críticos. Quando mais tarde descobriu o projecto colossal d "A Comédia Humana", entrou pela casa da irmã adentro a dizer "estou prestes a tornar-me num génio!"...e tinha razão. Assumiu as obras que escrevera anteriormente e começou a assinar como "Honoré de Balzac", até para dar um ar mais aristocrático ao seu nome e esconder as origens modestas. Tornou-se mestre na análise das classes sociais, a construir personagens e a descrever ambientes e lugares, criando as famosas mulheres "balzaquianas" e influenciando autores como Flaubert, Proust, Zola, Italo Calvino, Dickens, Dostoievski, Henry James, Camilo Castelo Branco, Eça, Machado de Assis...chegava a dedicar-se quinze horas a um excerto, rabiscando sobre uma ardósia, escrevendo, apagando, rasurando, reescrevendo num estado quase febril, até ficar satisfeito com aquele pedaço de prosa, limpo, simplificado, puro.
Escreveu, viajou, gastou, esbanjou, sem nunca parar de escrever.
Na verdade era feio e gordo, mas viveu rodeado de mulheres que se apaixonavam por ele. Quando a fortuna chegou, gastou-a numa vida viciosa e entregou-se a projectos que tinham como base boas ideias, que não conseguia levar a bom porto por não perceber nada de negócios (por exemplo, edições extremamente baratas, de papel de má qualidade, nomeadamente das obras compiladas de Molière; a exploração de minas de prata...que afinal não tinham prata; uma sociedade com uma amante numa impressora que lhe deixou dívidas tremendas, etc.).
Morreu aos 51 anos, pouco depois de ter finalmente contraído matrimónio com uma nobre polaca que amou e namorou durante dezoito anos por correspondência, e com quem fez longas viagens clandestinas, uma vez que a senhora era casada e só enviuvou e pôde casar com ele quando Honoré tinha cinco meses de vida.
Já não se ama assim. Já não há vidas nem homens destes. Já não se constrói uma obra literária assim, a escopro e martelo, ao longo de uns breves e admiráveis trinta anos de escrita.
Somos tão pequeninos.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Natal
AMOR
CONFORTO
SAÚDE
ALEGRIA
PAZ
ABUNDÂNCIA
SUCESSO
HARMONIA
BOA VONTADE
HUMOR
TERNURA
SABEDORIA
12 PRESENTES QUE PUS NO VOSSO SAPATINHO,
PARA QUE SEJAM FELIZES.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
lendo...
"Porque será que estamos condenados a ser assim tão solitários? Qual a razão de tudo isto? Há tanta, mas tanta gente neste mundo, todos à espera de qualquer coisa uns dos outros, e, contudo, todos irremediavelmente afastados. Porquê? Continuará a Terra a girar unicamente para alimentar a solidão dos homens?
Virei-me de costas sobre a laje de pedra, fitei o céu por cima de mim e pus-me a pensar na quantidade imensa de satélites que naquele preciso momento deviam girar à volta da Terra. No fio do horizonte era ainda possível distinguir uma réstia de luz, e as estrelas começavam a brilhar no céu de um profundo tom púrpura. Procurei com o olhar a luz de um satélite, mas havia demasiada claridade para distinguir fosse o que fosse a olho nú. As estrelas que estavam à vista permaneciam imóveis, cada uma no seu sítio, como se cravadas no céu. Fechei os olhos e prestei atenção para ver se conseguia ouvir os descendentes do Sputnik que continuavam a dar voltas à Terra, tendo como único elo de ligação ao planeta a gravidade. Solitários pedaços de metal que se encontram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. Sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa."
(excerto de "Sputnik, meu amor", de HARUKI MURAKAMI, 2002)
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Charles Dickens
Vi este filme com o meu filho. Maravilhoso. Realizado por Robert Zemeckis, com 7 personagens interpretadas por Jim Carrey. Uma versão irresistível do conto "A Christmas Carol", com o melhor da tecnologia, para nos fazer sonhar.
Adeus, Outono
Por razão nenhuma de especial, tenho andado arredada da internet (emails, facebook, blogs, inclusive o meu). O espírito anda a pairar por outros cenários. Venho aqui mostrar estes cogumelos que fotografei há três dias, numa caminhada perto de casa: uma explosão dourada no meio da erva. Não resisti a esta despedida de mais um Outono.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Chiado
Na 2ª feira fui a Lisboa. Cada vez me sinto mais uma turista na cidade onde nasci. Já não me entendo a andar de Metro, é tudo muito moderno e sofisticado. Escolhi a zona do Chiado para fazer tempo até chegar a hora de assistir ao ensaio do meu filho na Big Band Junior do Hot Clube.
Souberam-me bem estas horas na cidade, apesar da confusão urbana e do que vou relatar a seguir: isolo-me demasiado no meu recanto bucólico e às tantas sinto falta das multidões, das caras estranhas, do Metro, das ruas e das luzes, das lojas, do ritmo.
Souberam-me bem estas horas na cidade, apesar da confusão urbana e do que vou relatar a seguir: isolo-me demasiado no meu recanto bucólico e às tantas sinto falta das multidões, das caras estranhas, do Metro, das ruas e das luzes, das lojas, do ritmo.
Depois de um bom tempo na livraria da Fnac, de onde saí com uma lista de livros para incluir na carta ao Pai Natal, resolvi ir fazer um pouco de companhia ao Pessoa e lanchar n '"A Brasileira". Sentada na esplanada junto à estátua do poeta, fui abordada várias vezes por mendigos. No campo, onde vivo há quatro anos, não os há. Só nesse momento me apercebi de que já não faziam parte dos meus dias há muito tempo. Os pedintes habitam nas grandes cidades, onde a vida é mais cara e mais difícil, e onde há mais gente a quem pedir, o que não deixa de ser irónico. Uma mulher mostrava uma pobreza recente, acabada de estrear, ainda inconformada e espantada com a sua má sorte.
Os turistas marcaram também presença, sentando-se na cadeira de bronze, a eternizar o encontro anacrónico com o Pessoa.
Já não estou habituada aos preços inflacionados da capital. Estou acostumada a pagar entre 50 e 60 cêntimos por um café. Ali paguei 1,50: pedi um café curto com adoçante e veio um café cheio (e demorado...) com açúcar. Estou habituada a comer tostas mistas com pão saloio que custam cerca de 2 euros e chegam para duas pessoas ou quase. Ali paguei 3 euros e veio morna, atrasada e em pão de forma tipo Panrico. O chocolate quente veio morno. Mandei-o para trás, para que fizessem o grande favor de reaquecer. No total, desembolsei 7,25 euros por um péssimo serviço, já para não falar nos desgraçados dos pedintes que nos deixam constrangidos e cheios de sentimentos de culpa por estarmos ali, em pleno luxo, numa afronta à sua triste pobreza. O Pessoa não serviu para me tranquilizar, pelo contrário, honrou-me com o seu Desassossego. Depois de beber o meu café morno (o adoçante também chegou com atraso...), ergui-me e fui falar com a gerente, que nem de propósito...era brasileira. Desculpou-se, que eu tinha razão, que os rapazes (que eram 4, para 12 mesas pequenas...) não recebiam formação, blablabla.
A minha amiga Isabel é que tem razão: se o coitado do Pessoa pudesse, levantava-se e escolhia outro café.
A tradição já não é o que era, ou sou eu que estou a transformar-me num bicho do mato?
Os turistas marcaram também presença, sentando-se na cadeira de bronze, a eternizar o encontro anacrónico com o Pessoa.
Já não estou habituada aos preços inflacionados da capital. Estou acostumada a pagar entre 50 e 60 cêntimos por um café. Ali paguei 1,50: pedi um café curto com adoçante e veio um café cheio (e demorado...) com açúcar. Estou habituada a comer tostas mistas com pão saloio que custam cerca de 2 euros e chegam para duas pessoas ou quase. Ali paguei 3 euros e veio morna, atrasada e em pão de forma tipo Panrico. O chocolate quente veio morno. Mandei-o para trás, para que fizessem o grande favor de reaquecer. No total, desembolsei 7,25 euros por um péssimo serviço, já para não falar nos desgraçados dos pedintes que nos deixam constrangidos e cheios de sentimentos de culpa por estarmos ali, em pleno luxo, numa afronta à sua triste pobreza. O Pessoa não serviu para me tranquilizar, pelo contrário, honrou-me com o seu Desassossego. Depois de beber o meu café morno (o adoçante também chegou com atraso...), ergui-me e fui falar com a gerente, que nem de propósito...era brasileira. Desculpou-se, que eu tinha razão, que os rapazes (que eram 4, para 12 mesas pequenas...) não recebiam formação, blablabla.
A minha amiga Isabel é que tem razão: se o coitado do Pessoa pudesse, levantava-se e escolhia outro café.
A tradição já não é o que era, ou sou eu que estou a transformar-me num bicho do mato?
domingo, 12 de dezembro de 2010
Parabéns, Patrícia
Parabéns, querida amiga, pelos teus 40 anos. Estás longe, a 8 ou 9 horas de diferença no fuso horário, mas sempre no meu coração. Votos de uma celebração feliz.
Aqui estão os livros maravilhosos da Patrícia Reis, para quem não conhece. Todos com a chancela da Dom Quixote:
Aqui estão os livros maravilhosos da Patrícia Reis, para quem não conhece. Todos com a chancela da Dom Quixote:
sábado, 11 de dezembro de 2010
sol portátil
- Soooool, que bom! Hoje está perfeito para passear! Praia, aqui vou eu!
Ao ler aquele comentário da amiga no facebook, ela afastou a cortina e confirmou o céu cinzento, a ameaçar chuva. Ora a amiga vivia perto, estava em casa. Teria ela um sol privativo? Portátil? Então pensou que bom seria, podermos transportar o sol assim, dentro de uma mala térmica, e lançá-lo bem alto para que ficasse suspenso no ar, formando uns quantos metros quadrados de verão sobre a nossa cabeça, como um pequeno oásis.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
A cobra
A mulher encontrou uma cobra na banheira e em vez de se assustar sorriu, cheia de paz e pensou que aquilo era um sinal de que já começava a mudar de pele.
Obrigada, P.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Livros Pedidos
O atelier 004 começou a fazer livros personalizados, a pedido. Excelente notícia! Elaboram livros para todas as ocasiões (namoro, casamento, divórcio, aniversário, baptizado...), com o selo de qualidade de quem edita a revista Egoísta há 10 anos.
Para mais informações, espreite o site:
http://livrospedidos.blogs.sapo.pt/ ou o twitter em egoista004
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Prémio Leya 2010
Devido a "limitações na composição narrativa e fragilidades estilísticas", o juri que compõe o Prémio Leya (no valor de 100 mil euros) presidido por Manuel Alegre decidiu, por unanimidade, não atribuir o prémio este ano. Foram 325 obras a concurso (!) - entre as quais inéditos de autores consagrados dos vários países lusófonos - e, ao que parece, nenhuma das quatro obras finalistas tinha qualidade suficiente...
Para mais informação, clique aqui
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