Não se deixem enganar pelas riscas cor-de-rosa. Os dias são (d)escritos com todas as cores.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
terça-feira, 28 de junho de 2011
Cinco
Chegaram com mochilas e sacos. Foram farejando os cantos, instalando-se, a encontrar o seu lugar na casa. Sempre juntos. Mesmo na diferença. Agarraram com mãos e bocas ávidas a liberdade que lhes foi dada. Uma bandeja feita de transgressões de que por vezes é feita a felicidade. E no auge do sangue juvenil que lhes corria nas veias, admiraram um céu cheio de estrelas, coreografaram as águas numa dança agitada e algo perigosa, mimaram os sentidos, riram, disparataram, beberam clandestinamente as horas nocturnas. Até que os olhos os venceram e a madrugada os rendeu. Inventaram recordações e sonhos, inspirados pela surpresa desses dias cúmplices. As manhãs encontraram-nos a dormir, exaustos, de barriga cheia, como gatos ao sol. Surgiam pela hora do almoço, sonolentos, espantados com aquele corpo de semi-criança, que não conseguira enganar a vastidão da noite. Colavam-se à casa, recusando-se a sair para lá dos montes verdes e dos pinheiros. Nem sequer para irem ao encontro do mar. Nem tampouco em busca do ruído das multidões, de que eram feitos os seus breves anos. Juntos. Diferentes, mas sempre juntos. Os cães à roda deles, felizes com tantos braços e pernas, tantos cheiros e vozes para explorar com a sua lealdade canina. Os cinco rapazes ficaram, para prolongar a cumplicidade das horas e adiar o adeus. Até que à mulher, grata e cansada, nada mais restou do que sentir o alívio e a tristeza de os ver partir.
Roubei a imagem aqui
Roubei a imagem aqui
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Sonho
As janelas abertas do quarto, o ar morno a inundar os lençóis. A mulher sonhou que Pégaso entrava e a levava dali, para um mundo vibrante. Iluminado. Tão cheio com os mistérios da noite que os insones confirmam. Pégaso depô-la junto de uma fonte, na praça, e relinchou, como que a instruí-la. Ela compreendeu e entrou na fonte cuja água tilintava em transparências de vidro. Mergulhou devagar o corpo todo. Até o cabelo e a face. Quando abriu os olhos e a água escorreu, tudo era prata. Mercúrio líquido, argênteo. Tornou a montar o cavalo para voarem ao encontro da lua. Arrumando as suas asas, o cavalo alado pousou a mulher num chão de areia cor de cinza, que brilhava. E ali adormeceram os dois viajantes. Ela não esquece o abdómen quente, o batimento daquele coração animal. Não quer acordar daquele adormecimento feito de sonho. Mas o sol, ciumento, vem despertá-la. De olhos abertos, a mulher viu dourar-se o mundo. Tudo se enrubesceu de acolhimento. Tudo era vivo. Fértil. Então a mulher alongou-se até à escuridão de prata, e guardou a lua na sua algibeira de linho branco. Estendeu a outra mão e agarrou o sol, que guardou do mesmo modo. Por fim deitou-se e adormeceu num vazio sem noite nem dia. Sonhou que era dona do tempo, deusa da luz. Sentiu-se grata pelos tesouros que roubara. E pelas asas do animal que dormia a seu lado, Pégaso, um cão de pelo branco, cúmplice de um crime feito de estrelas.
sábado, 11 de junho de 2011
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Enid Blyton
Hoje vi o filme "Enid", sobre a vida de Enid Blyton, protagonizado por Helena Bonham Carter. A mulher tinha os seus defeitos e deixou para segundo plano algumas das pessoas que mais deveria ter acarinhado: a família. No entanto, não posso deixar de admirar uma mulher que começava a escrever sem qualquer plano, simplesmente fechando os olhos e entregando-se ao poder inexplicável da imaginação, pressionando as letras da sua máquina com os indicadores, e escrevendo entre 6 e 10 mil palavras por dia. Caramba, publicou 700 livros e outras 5 mil obras, entre contos, poemas e peças de teatro! Quem não a conhece através do Noddy, dos Cinco, do Clube dos Sete, do Mistério, das Gémeas ou das Quatro Torres? Todos crescemos a ler as suas histórias, que continuam a ser reeditadas no mundo inteiro.
Aqui deixo um excelente documentário, com o melhor e o pior da sua vida e do seu carácter.
Aqui deixo um excelente documentário, com o melhor e o pior da sua vida e do seu carácter.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Vida
Adiei a lida da casa (odeio esta expressão: "lidar com a casa"...?) e atirei-me à biografia de Benjamin Moser, sobre Clarice Lispector. O tempo voou. Interrompi a leitura para uma caminhada a meio da tarde. No regresso, fiz um pequeno desvio e fui visitar uns vizinhos. Ele passou por mim empurrando um carrinho de mão onde levava uma porta sabe-se lá para onde. Quando voltou eu já conversava alegremente com a sua mulher, tentando explicar o que eram petúnias, enquanto a cadelinha Luna saltava a meus pés. Saí com a oferenda de uma garrafa de ginginha caseira. Em casa, depois de um banho, lancei-me de novo à Clarice. Passei pelas brasas, mas fui acordada pela luz do sol poente, que batia na portada azul e se derramava sobre a colcha azul e branca. Entrei na infância de Clarice. Para trás ficaram as páginas terríveis que narravam as perseguições da sua família em tempo de guerra, durante a Revolução Russa. Começava agora uma nova vida, longe de perfeita. O cenário? O Recife brasileiro. Uma menina bonita, inconsciente da sua pobreza, que se divertia a roubar rosas de um jardim vizinho e a imitar as vozes e trejeitos dos professores.
O jantar fez-se sozinho, composto de queijo e enchidos fatiados, salmão salpicado com pimenta preta, limão e salsa, taças de vinho branco e bolinhos de coco. Anoiteceu, por fim. Bebi o café vendo "Uma Questão de Honra", fascinada com o desempenho magistral de Jack Nicholson, contracenando com Tom Cruise: You can't handle the truth! A famosa frase colérica. O homem intocável foi preso, os rapazes absolvidos da acusação de homicídio e o jovem advogado ganhou o seu primeiro caso em tribunal. Ah, eu e a literatura. Eu e o cinema. Na pequenez dos meus dias, espreitando a desgraça e a honra de grandes vidas. Sentindo-me imensa no levar desta vida minúscula.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Livros
A beleza do livro
(PATRÍCIA REIS, crónica Expresso edição de 4 de junho)
(PATRÍCIA REIS, crónica Expresso edição de 4 de junho)
"Entregar um livro ao público é como levar o filho à escola pela primeira vez: o miúdo já sem fraldas mas ainda com o boneco e, por vezes, a fralda de pano. Fica pendurado na professora e à mercê de uma mão cheia de desconhecidos. Um livro novo, depois de mais de três anos de trabalho, torna-se estrangeiro para quem o escreve, é um território que pode ser lido, interpretado, amado ou odiado. Por quem conhecemos e por todos os outros, potenciais leitores, sem rosto, sem referências que nos confortam.
A seguir, a pergunta central é a de saber: depois de “Por este Mundo Acima” que vou escrever? Devo escolher outro trilho? E será isso uma boa ideia ou pode prejudicar todos os frutos recolhidos? Se escrever é condição e não profissão, uma necessidade ou terapia, para tantos, é ainda um exercício de algum masoquismo, porque nos expomos e não temos certeza de nada. Há, de certa forma, um regresso à insegurança infantil de não se ter a certeza, até porque quando temos a certeza somos apelidados de “convencidos” ou “arrogantes”.
Na Festa da Literatura no Funchal em finais de Maio, primeira edição da responsabilidade dos Booktailors, alguém disse: “Podia ser só uma mulher gira”. Outra presunção? Certamente. Quem é que quer ser apenas uma mulher gira? Ou um homem? Ou até uma criança? Desejamos sempre que a beleza venha de mão dada com a inteligência e o sentido de humor, prática pouco exercitada por estas bandas onde dizer mal é mais fácil do que dizer bem; por isso festejar o sucesso do outro é, desculpem dizer, uma enorme maçada. Como a beleza alheia. Mesmo que a beleza seja de uma tristeza infinita.
Eu encontro beleza nos livros e por isso leio e releio. Gosto de ter amigos que são escritores e outros que não estão sequer interessados em saber o nome do próximo ou anterior Prémio Nobel. Na multiplicidade é que está o ganho. Mesmo que não seja giro."
sexta-feira, 3 de junho de 2011
domingo, 29 de maio de 2011
sexta-feira, 27 de maio de 2011
pecado
Uma salada de alface, rúcula, milho e nozes. E ainda sementes salteadas de sésamo e abóbora, temperadas com vinagre balsâmico, orégãos e erva-doce, algo que o marido jamais experimentaria. Dois copos de vinho branco depois, a mulher entendeu que desenvolvera a arte de estar sozinha. Defronte ao televisor, via um qualquer drama cuja acção decorria sob o frio e a chuva da Irlanda. Um filme lento e desconcertante, só para si. Terminando a segunda taça de vinho branco, a mulher sorriu, aliviada por constatar que não perdera a sua individualidade. Era inteira. Fiel à teimosia da sua própria alma. Ali ficou, em paz, sem azedume. Sem o fastio de uma voz cansada, de uns olhos que já haviam visto tudo e que há muito tinham perdido o dom da compaixão. Com uma prazer que não esperava, compreendeu que eram dois. Que sempre seriam dois. Ele. Ela. Duas matérias isoladas. E que só no serem múltiplos conseguia sobreviver.
Depois de beber um café e de comer uma bolacha de canela, foi ter com o marido ao anexo onde ele se encontrava a trabalhar. Deu-lhe um beijo. Nesse beijo ia uma quase infidelidade. Dentro de si experimentou a euforia dos amantes. Na boca ficou o sabor salgado dos seus lábios. A mulher compreendeu que se iludia mais uma vez, como borboleta ao redor da lâmpada. Esvoaçando de ideia em ideia, ofuscada pela luz: a sua vida não podia ser feita de doçura apenas. Os dias careciam de fel, de sal, de cada nuance de um sentimento, que vai de um extremo ao outro. E ser inteira era estar só, mas também significava unir-se naquele beijo. Ao homem que a esperava do outro lado da sua alma, tal qual o lado sombrio da lua. Podia dar-se sem que nada lhe arrancassem do peito. Oferecer o que não era seu sem com isso se tornar criminosa. Procurar nele o que não tinha. E assim, o ser inteira era transformar-se. Ser todos os dias uma mulher diferente.
Saíu para o jardim e deixou a chuva cair. Confiava na chuva. Os cabelos molhados pingavam. Os olhos fechados à magia do momento. Só os ruídos da noite. O calor nocturno trouxe pirilampos e também o canto de rãs e grilos. A mulher abriu os olhos e sorriu, aliviada por ver que esse instante lhe pertencia. Que para sempre ficaria guardado na sua memória, como um pecado inocente.
Saíu para o jardim e deixou a chuva cair. Confiava na chuva. Os cabelos molhados pingavam. Os olhos fechados à magia do momento. Só os ruídos da noite. O calor nocturno trouxe pirilampos e também o canto de rãs e grilos. A mulher abriu os olhos e sorriu, aliviada por ver que esse instante lhe pertencia. Que para sempre ficaria guardado na sua memória, como um pecado inocente.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Encontros
Acabo de regressar de uma das minhas caminhadas. Todos os dias um pouco mais longe, duplicando o esforço, na ida e no regresso. É urgente manter a forma. Melhorá-la, se for possível. O corpo queixa-se, eu insisto. Não há-de ser mais teimoso do que eu. Prestes a fazer inversão de marcha e regressar a casa, dou com três ovelhas a pastar placidamente, na tarde primaveril. Olharam para mim, balindo, enquanto ruminavam com preguiça. Do lado de cá da vedação, a erva é ainda fresca. Uma das ovelhas, mais atrevida, olha-me fixamente, com os seus olhos esbugalhados e inexpressivos. Acho-lhe graça. Insiste em fazer contacto comigo, enfiando o focinho através dos buraços da vedação, tentando chegar à minha mão estendida. Arranco punhados de erva e fico ali, a dar-lhe lanche e a conversar com ela, fingindo que a ovelha é capaz de entender o que lhe digo: é bom, não é? Erva fresquinha, pois, vês? Hmm, ervinha boa! Quem é que é linda, quem é?
Hoje é dia de interromper esta vida campestre e ir até à capital, para o lançamento oficial do livro "Por este mundo acima", da Patrícia Reis, com apresentação de valter hugo mãe. Para já, as minhas mãos ainda cheiram a erva e tenho os olhos cheios de verde. Daqui a pouco, terei nas mãos as páginas de um novo livro e os olhos cheios de gente que ama as palavras e as pessoas... como eu. Senão, não me arrancavam daqui. Acreditem.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Richard Jenkins
Vi-o esta tarde, como companhia durante duas refeições. Gravei-o na box, como tantas vezes faço, por instinto, sem fazer ideia de que filme se trata, se é excelente ou péssimo, porque os TVcines do Meo satélite não incluem o nome do realizador, ano, país ou actores. Depois guardo ou apago. Os primeiros minutos de um filme dão para ver se ele vale ou não a pena. E esta é uma história inspiradora, que nos deixa algumas interrogações importantes. Ainda por cima tem humor, ternura e uma imensa subtileza. Só para os mais atentos. Sem glamour. Sem malta gira, sem sexo ou corpos jovens e tonificados, sem paisagens que nos tirem o fôlego. E no entanto...é tão bom. Excelente interpretação de Richard Jenkins.
domingo, 15 de maio de 2011
Rosa Passos
...sendo que o destinatário destes versos, para quem Rosa Passos canta, pode ser um homem, a esperança, a coragem, a alegria,... enfim. Escutem e encontrem o vosso próprio significado. Eu encontrei o meu.
Obrigada, Ana e Pat.
sábado, 14 de maio de 2011
Alice Vieira
Trago aqui, em jeito de amostra, a sabedoria e a generosidade dos conselhos de Alice Vieira, escritora há três décadas, e que vive os dias assim, com descontracção e optimismo e muita, muita simpatia para com os outros. Adoro esta mulher, que me ajuda a crescer e que, além do seu indiscutível valor, sempre acede a partilhar connosco o que a vida lhe ensinou. Não é qualquer um que o faz.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Prémio Camões 2011
"“É a coisa mais inesperada que poderia esperar”, disse o poeta Manuel António Pina, que acabara de saber que lhe fora atribuído o Prémio Camões de 2011, no valor de cem mil euros. “Nem sabia que estava hoje a ser discutida a atribuição do prémio”, acrescentou.
Todos os jurados levavam nas suas listas o nome de Manuel António Pina e não precisaram sequer de meia hora para chegar a uma decisão unânime na reunião que mantiveram esta manhã na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Pina torna-se assim o 23º Prémio Camões e o décimo português a receber esta consagração, se excluirmos o autor angolano nascido em Portugal, Luandino Vieira, que recusou o prémio em 2006.
O júri integrou dois jurados portugueses (a ensaísta e poetisa Rosa Martelo e o ensaísta e professor de literatura brasileira Abel Barros Baptista), dois brasileiros (o poeta António carlos Secchim e a ficcionista Edla Van Steen) e ainda dois representantes dos países africanos de expressão portuguesa: a poetisa e ficcionista angolana Ana Paula Tavares e a ensaísta são-tomense Inocência Mata.
Nascido no Sabugal, Guarda, em 1943, Manuel António Pina foi jornalista durante várias décadas e estreou-se na poesia em 1974 com o livro “Ainda Não É o Fim nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde”. No ano anterior publicara o seu primeiro livro para crianças, “O País das Pessoas de Pernas para o Ar”. Consensualmente reconhecido como um dos melhores cronistas de língua portuguesa – ainda hoje assina uma crónica diária no Jornal de Notícias –, Manuel António Pina publicou dezenas de livros de poesia e de literatura para crianças, mas só em 2003 se aventurou na ficção “para adultos”, com “Os Papéis de K.”.
Se a sua obra de ficção é menos conhecida internacionalmente, a sua poesia está traduzida na generalidade das línguas europeias. O seu mais recente livro de poemas, intitulado “Os Livros” (Assírio & Alvim, 2003) venceu os prémios de poesia da Associação Portuguesa de Escritores e a da Fundação Luís Miguel Nava."
in jornal PÚBLICO, 12 Maio 2011)
terça-feira, 10 de maio de 2011
Patrícia Reis
Daqui a poucos dias chegará às livrarias esta excelente sugestão de leitura. Um texto muito bem escrito e envolvente sobre a amizade e o amor aos livros, num cenário pós-apocalíptico. Tive o privilégio de o ler antes de se encontrar vestido de livro e é com orgulho que o vejo quase quase nas mãos de bons leitores. Estejam atentos.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Subterrâneo
A vida não lhe acontecia. Era assim há vários anos. A mulher já se convencera de que o melhor seria arrasar o cume das suas altas expectativas e mudar-se de vez para um qualquer buraco debaixo das pedras. Como um bicho subterrâneo. Compreendera, enfim, que a língua que falava, o corpo infantil que lhe morava dentro, era invisível aos olhos dos que habitavam um universo de gente crescida. Jamais haveria lugar para si. Indefinida. Hesitante, como saco transparente esvoaçando numa rua em movimento. Não sendo criança nem adulta, não tinha onde pousar, não sabia para onde ir. Andava assim, perdida, escarafunchando torrões de terra húmida, para encontrar um lugar na escuridão.
Até que o telefone tocou e a vida aconteceu.
Tantos livros, tantas horas de recreio enfiada em mundos de papel, enquanto os meninos jogavam à bola e as meninas saltavam à corda. Tantos suspiros ao ver os outros passarem por si, velozes, enquanto os seus pés se pregavam ao chão, como um sonho que assusta. Afundava-se numa noite eterna, assistindo à construção de um templo celestial. Vitórias de outros, grandes e pequenos, que arranhavam os céus. Conquistas que apenas conseguia farejar, por instantes, até ser novamente arrasada por aquele deus castigador que lhe morava nos ombros, colando a sua alma às sombras. Vivia no chão, assistindo ao céu tornado negro, sem azul.
Quando desligou o telefone, entendeu que uma nova realidade lhe acontecia. Uma luz que já não esperava. E sentiu os pés leves, leves, erguendo-se acima do solo. Quando se atreveu a estender os braços, deu-se conta de que sempre tivera asas, sem saber. Então respirou fundo, preparando o embate do vento... e voou.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Solidão
Como escolhi sair da cidade e viver num lugar recôndito que nem aldeia é, tenho uma vizinha que é daqueles espécimens rústicos. Atarracada, feições anónimas, o perpétuo avental de flores, pernas arqueadas, a pele esturricada e engelhada pelo sol, as mãos calejadas pela vida dura de quem não as usa para escrever nem para tratar das petúnias de luvas de jardinagem às florzinhas - como é o meu caso -, mas sim para lavar roupa no tanque, cavar e semear a terra, cortar lenha.
Falávamo-nos só de bom-dia e boa-tarde. Pouco mais. O único assunto de conversa eram os cães: Joana, a cadela da D. Maria José, e os nossos. Até ao dia em que ela, ao ver-me fazer festas à cadela (que me mete dó por estar encerrada na passagem da vizinhança, num espaço que pouco passa de 1m2), chega-se e diz-me:
- Olhe, não me faça festas à cadela.
- ...?...
- Ela está aqui para dar sinal, ela assim fica mole, não guarda.
Revoltada e já refeita do espanto, reagi assim:
- Ai não quer que eu faça festas à Joana? Tá bem.
Virei costas e fui-me embora.
Um dos poucos prazeres que o desgraçado do bicho tinha, sendo uma golden labrador rafeira, ou seja, mimuças por natureza, eram as minhas festinhas que ela antecipava ao ver-me passar, pois conhece-me desde pequenina e claro que, como animal inteligente que é (o mesmo não se pode dizer da dona), sabe distinguir perfeitamente a senhora simpática de um qualquer estranho que passe: pelo aspecto, pelo faro, enfim, é para todos óbvio, certo?
Passaram-se várias estações sem que eu nunca mais correspondesse à atitude dengosa da cadelinha Joana, encostada à rede, de rabinho a dar a dar, à espera das festas, e sem que as duas vizinhas se tornassem a falar. Só de pensar na sua proibição ficava irritada: como é que se pode ser tão estúpido?
Até que há dias a Joana andava solta e veio atrás de mim, quando eu me preparava para fazer a caminhada habitual, em que me afasto vários quilómetros da casota dela. Ao fim de menos de 1 km, voltei para trás, para a devolver a casa, pois não pretendia deseducá-la, fazê-la afastar-se demasiado de casa, provocar o seu atropelamento ou uma fuga.
- D. Maria José...?
Ela apareceu e perguntou-me:
- Estava a incomodá-la?
(A Joana, feliz da vida e já toda enlameada, saltava à minha volta, sujando-me as calças todas, claro, e eu a rir e a fingir-me zangada)
- Não, D. Maria José, a Joana nunca me incomoda. Venho só dizer-lhe que se calhar é melhor prendê-la agora, porque ...
E lá expliquei.
Adoptando a postura de uma menina de escola arrependida, fazendo-se ainda mais pequenina do que já é, a velhota disse:
- Podemos voltar a ser amigas? A senhora desculpe...
- Desculpo o quê, D. Maria José?
- Aquilo que eu disse no outro dia...ficou zangada comigo, pois...
("no outro dia" foi quase há um ano)
- Eu? Eu nunca tive nada contra si, D. Maria José. Mas confesso que estranhei, sabe que a Joana me conhece perfeitamente, não vai deixar de lhe guardar a casa por eu lhe fazer festas. Só que me faz pena vê-la aqui sempre presa, percebe?
- Eu sei, desculpe, sim? Eu é que não estava boa naquele dia, sabe? A senhora desculpe. Podemos ser amigas?
E eu lá respondi que sim, sabendo que não posso contar com ela para jogar trivial pursuit, ajudar-me a preencher a declaração electrónica do IRS, ir aos saldos, ou partilhar uma série de coisas que a desgraçada nem sabe que existem, como, por exemplo, este blog.
- Qualquer coisa que a senhora precise, esteja à vontade.
E eu retribuí a oferta da pobre mulher, sentindo-me aliviada por ver que o mundo ainda fazia algum sentido.
E ela:
- Não me esqueço do que a senhora e o seu marido fizeram por nós, sabe? Não me esqueço!
(Referia-se às boleias que lhes demos até ao Centro de Dia, a ela e ao marido, para não terem de ir a pé)
E assim tornei a fazer festas à Joana. Voltámos ao bom-dia e ao boa-tarde e metemos agora dois dedos de conversa de vez em quando. Boleias já não dou, pois o marido da D. Maria José morreu e ela já não vai lá sozinha. A filha aparece de vez em quando, muito atarefada e carrancuda, num belíssimo carro que destoa, ali estacionado defronte à casinha caiada e modesta.
Agora, quando passo pela D. Maria José e a cumprimento, vendo-a estender as roupas humildes numa corda miserável ou cortando lenha como uma valente, não posso deixar de pensar que a solidão desta mulher deve ser imensa. Ainda bem que tem a Joana. Reparei que ultimamente a leva para dentro de casa mais vezes. E sempre que vejo a casota vazia dou por mim a sorrir.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Apesar de tudo
Apesar da chuva, dos relâmpagos e travões,
Apesar dos carros atolados em estradas e rotundas
Apesar de ter andado meia perdida pelos caminhos
Cheguei a casa sã e salva
Apesar de ter um Renault twingo benetton
Apesar de ele não ser um submarino
Apesar de o ter feito atravessar verdadeiros lagos
Feitos de chuvas repentinas
O meu carrito não se afogou nem se perdeu, e levou-me sã e salva até casa
Apesar da crise
Apesar da chuva
Apesar de todos os "se's" que nos servem de travão ou marcha-atrás
É preciso ir, insistir, não desistir
Apesar de não as vermos tanto como queríamos
Apesar de a vida, muitas vezes, não nos deixar
Encontramos pessoas que nos dão um chapéu de chuva
Um casaco, um abraço, um abrigo
Como se fosse ontem, hoje, sempre
E nos dizem "Fica aqui até a chuva passar"
E por isso chegamos a casa sãos e salvos
Apesar de tudo
Os livros são como essas pessoas melhores que temos na vida.
Os que não esquecemos, apesar do pó
Os que amamos sempre, apesar de não os lermos todos os dias
Aqueles aos quais pedimos socorro, quando buscamos salvação na tempestade.
Apesar do pouco dinheiro no bolso
Apesar do desespero
Apesar da preguiça
E porque, apesar da chuva, existem os livros, é preciso visitar a Feira do Livro de Lisboa, conhecer os autores, os novos espaços lúdicos, trazer livros autografados com dois dedos de conversa, conhecer gente que ama os livros como nós.
Apesar de ser Abril e de o ditado popular não ter sido esquecido
Apesar de não dar jeito nenhum
A feira do Livro vale a pena
Apesar de tudo
SITE DA FEIRA AQUI
Os sentidos na infância
SABORES/TACTO
SONS/IMAGENS
IMAGINAÇÃO: OS 5 SENTIDOS EM ACÇÃO
E aqui imagens vivas, para melhor matar saudades de um tempo de inocência que não volta e que guardamos como um bem precioso.
Os chocolates REGINA, as pastilhas "Pirata" e as pirâmides de chocolate que comprava no Sr. Narciso, o café mesmo colado à nossa porta...
SONS/IMAGENS
Alguns dos discos em vinil que eu mais ouvi, entre os 8 e os 12 anos
IMAGENS/SONS
Algumas das séries que mais me apaixonavam e que eu via à hora do lanche, com uma grande caneca de leite com Nesquick e uma pilha de bolachas "Maria" com doce...
IMAGENS/TACTO
O puzzle de 500 peças que fiz tantas vezes, e cuja imagem conheço de cor, sem saber que se tratava da Divina Comédia de Dante, segundo um quadro de Domenico de Michelino, do séc.XV
Alguns dos livros que li vezes sem conta...as colecções inteiras, claro!
E aqui imagens vivas, para melhor matar saudades de um tempo de inocência que não volta e que guardamos como um bem precioso.
(ACRESCENTADO QUASE 2 SEMANAS MAIS TARDE, EM HOMENAGEM AO MÁRIO DE SOUSA, QUE AQUI DEIXOU, EM TRÊS COMENTÁRIOS, UMA HISTÓRIA QUE ME COMOVEU.)

Subscrever:
Mensagens (Atom)






















