quarta-feira, 8 de junho de 2011

Enid Blyton

Hoje vi o filme "Enid", sobre a vida de Enid Blyton, protagonizado por Helena Bonham Carter. A mulher tinha os seus defeitos e deixou para segundo plano algumas das pessoas que mais deveria ter acarinhado: a família. No entanto, não posso deixar de admirar uma mulher que começava a escrever sem qualquer plano, simplesmente fechando os olhos e entregando-se ao poder inexplicável da imaginação, pressionando as letras da sua máquina com os indicadores, e escrevendo entre 6 e 10 mil palavras por dia. Caramba, publicou 700 livros e outras 5 mil obras, entre contos, poemas e peças de teatro! Quem não a conhece através do Noddy, dos Cinco, do Clube dos Sete, do Mistério, das Gémeas ou das Quatro Torres? Todos crescemos a ler as suas histórias, que continuam a ser reeditadas no mundo inteiro.
Aqui deixo um excelente documentário, com o melhor e o pior da sua vida e do seu carácter.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Vida

Adiei a lida da casa (odeio esta expressão: "lidar com a casa"...?) e atirei-me à biografia de Benjamin Moser, sobre Clarice Lispector. O tempo voou. Interrompi a leitura para uma caminhada a meio da tarde. No regresso, fiz um pequeno desvio e fui visitar uns vizinhos. Ele passou por mim empurrando um carrinho de mão onde levava uma porta sabe-se lá para onde. Quando voltou eu já conversava alegremente com a sua mulher, tentando explicar o que eram petúnias, enquanto a cadelinha Luna saltava a meus pés. Saí com a oferenda de uma garrafa de ginginha caseira. Em casa, depois de um banho, lancei-me de novo à Clarice. Passei pelas brasas, mas fui acordada pela luz do sol poente, que batia na portada azul e se derramava sobre a colcha azul e branca. Entrei na infância de Clarice. Para trás ficaram as páginas terríveis que narravam as perseguições da sua família em tempo de guerra, durante a Revolução Russa. Começava agora uma nova vida, longe de perfeita. O cenário? O Recife brasileiro. Uma menina bonita, inconsciente da sua pobreza, que se divertia a roubar rosas de um jardim vizinho e a imitar as vozes e trejeitos dos professores.
O jantar fez-se sozinho, composto de queijo e enchidos fatiados, salmão salpicado com pimenta preta, limão e salsa, taças de vinho branco e bolinhos de coco. Anoiteceu, por fim. Bebi o café vendo "Uma Questão de Honra", fascinada com o desempenho magistral de Jack Nicholson, contracenando com Tom Cruise: You can't handle the truth! A famosa frase colérica. O homem intocável foi preso, os rapazes absolvidos da acusação de homicídio e o jovem advogado ganhou o seu primeiro caso em tribunal. Ah, eu e a literatura. Eu e o cinema. Na pequenez dos meus dias, espreitando a desgraça e a honra de grandes vidas. Sentindo-me imensa no levar desta vida minúscula.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Livros

A beleza do livro
(PATRÍCIA REIS, crónica Expresso edição de 4 de junho)

"Entregar um livro ao público é como levar o filho à escola pela primeira vez: o miúdo já sem fraldas mas ainda com o boneco e, por vezes, a fralda de pano. Fica pendurado na professora e à mercê de uma mão cheia de desconhecidos. Um livro novo, depois de mais de três anos de trabalho, torna-se estrangeiro para quem o escreve, é um território que pode ser lido, interpretado, amado ou odiado. Por quem conhecemos e por todos os outros, potenciais leitores, sem rosto, sem referências que nos confortam.

A seguir, a pergunta central é a de saber: depois de “Por este Mundo Acima” que vou escrever? Devo escolher outro trilho? E será isso uma boa ideia ou pode prejudicar todos os frutos recolhidos? Se escrever é condição e não profissão, uma necessidade ou terapia, para tantos, é ainda um exercício de algum masoquismo, porque nos expomos e não temos certeza de nada. Há, de certa forma, um regresso à insegurança infantil de não se ter a certeza, até porque quando temos a certeza somos apelidados de “convencidos” ou “arrogantes”.

Na Festa da Literatura no Funchal em finais de Maio, primeira edição da responsabilidade dos Booktailors, alguém disse: “Podia ser só uma mulher gira”. Outra presunção? Certamente. Quem é que quer ser apenas uma mulher gira? Ou um homem? Ou até uma criança? Desejamos sempre que a beleza venha de mão dada com a inteligência e o sentido de humor, prática pouco exercitada por estas bandas onde dizer mal é mais fácil do que dizer bem; por isso festejar o sucesso do outro é, desculpem dizer, uma enorme maçada. Como a beleza alheia. Mesmo que a beleza seja de uma tristeza infinita.

Eu encontro beleza nos livros e por isso leio e releio. Gosto de ter amigos que são escritores e outros que não estão sequer interessados em saber o nome do próximo ou anterior Prémio Nobel. Na multiplicidade é que está o ganho. Mesmo que não seja giro."

sexta-feira, 27 de maio de 2011

pecado

Uma salada de alface, rúcula, milho e nozes. E ainda sementes salteadas de sésamo e abóbora, temperadas com vinagre balsâmico, orégãos e erva-doce, algo que o marido jamais experimentaria. Dois copos de vinho branco depois, a mulher entendeu que desenvolvera a arte de estar sozinha. Defronte ao televisor, via um qualquer drama cuja acção decorria sob o frio e a chuva da Irlanda. Um filme lento e desconcertante, só para si. Terminando a segunda taça de vinho branco, a mulher sorriu, aliviada por constatar que não perdera a sua individualidade. Era inteira. Fiel à teimosia da sua própria alma. Ali ficou, em paz, sem azedume. Sem o fastio de uma voz cansada, de uns olhos que já haviam visto tudo e que há muito tinham perdido o dom da compaixão. Com uma prazer que não esperava, compreendeu que eram dois. Que sempre seriam dois. Ele. Ela. Duas matérias isoladas. E que só no serem múltiplos conseguia sobreviver.

Depois de beber um café e de comer uma bolacha de canela, foi ter com o marido ao anexo onde ele se encontrava a trabalhar. Deu-lhe um beijo. Nesse beijo ia uma quase infidelidade. Dentro de si experimentou a euforia dos amantes. Na boca ficou o sabor salgado dos seus lábios. A mulher compreendeu que se iludia mais uma vez, como borboleta ao redor da lâmpada. Esvoaçando de ideia em ideia, ofuscada pela luz: a sua vida não podia ser feita de doçura apenas. Os dias careciam de fel, de sal, de cada nuance de um sentimento, que vai de um extremo ao outro. E ser inteira era estar só, mas também significava unir-se naquele beijo. Ao homem que a esperava do outro lado da sua alma, tal qual o lado sombrio da lua. Podia dar-se sem que nada lhe arrancassem do peito. Oferecer o que não era seu sem com isso se tornar criminosa. Procurar nele o que não tinha. E assim, o ser inteira era transformar-se. Ser todos os dias uma mulher diferente.
Saíu para o jardim e deixou a chuva cair. Confiava na chuva. Os cabelos molhados pingavam. Os olhos fechados à magia do momento. Só os ruídos da noite. O calor nocturno trouxe pirilampos e também o canto de rãs e grilos. A mulher abriu os olhos e sorriu, aliviada por ver que esse instante lhe pertencia. Que para sempre ficaria guardado na sua memória, como um pecado inocente.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Encontros

Acabo de regressar de uma das minhas caminhadas. Todos os dias um pouco mais longe, duplicando o esforço, na ida e no regresso. É urgente manter a forma. Melhorá-la, se for possível. O corpo queixa-se, eu insisto. Não há-de ser mais teimoso do que eu. Prestes a fazer inversão de marcha e regressar a casa, dou com três ovelhas a pastar placidamente, na tarde primaveril. Olharam para mim, balindo, enquanto ruminavam com preguiça. Do lado de cá da vedação, a erva é ainda fresca. Uma das ovelhas, mais atrevida, olha-me fixamente, com os seus olhos esbugalhados e inexpressivos. Acho-lhe graça. Insiste em fazer contacto comigo, enfiando o focinho através dos buraços da vedação, tentando chegar à minha mão estendida. Arranco punhados de erva e fico ali, a dar-lhe lanche e a conversar com ela, fingindo que a ovelha é capaz de entender o que lhe digo: é bom, não é? Erva fresquinha, pois, vês? Hmm, ervinha boa! Quem é que é linda, quem é? 
Hoje é dia de interromper esta vida campestre e ir até à capital, para o lançamento oficial do livro "Por este mundo acima", da Patrícia Reis, com apresentação de valter hugo mãe. Para já, as minhas mãos ainda cheiram a erva e tenho os olhos cheios de verde. Daqui a pouco, terei nas mãos as páginas de um novo livro e os olhos cheios de gente que ama as palavras e as pessoas... como eu. Senão, não me arrancavam daqui. Acreditem.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Richard Jenkins

Vi-o esta tarde, como companhia durante duas refeições. Gravei-o na box, como tantas vezes faço, por instinto, sem fazer ideia de que filme se trata, se é excelente ou péssimo, porque os TVcines do Meo satélite não incluem o nome do realizador, ano, país ou actores. Depois guardo ou apago. Os primeiros minutos de um filme dão para ver se ele vale ou não a pena. E esta é uma história inspiradora, que nos deixa algumas interrogações importantes. Ainda por cima tem humor, ternura e uma imensa subtileza. Só para os mais atentos. Sem glamour. Sem malta gira, sem sexo ou corpos jovens e tonificados, sem paisagens que nos tirem o fôlego. E no entanto...é tão bom. Excelente interpretação de Richard Jenkins.

domingo, 15 de maio de 2011

Rosa Passos

...sendo que o destinatário destes versos, para quem Rosa Passos canta, pode ser um homem, a esperança, a coragem, a alegria,... enfim. Escutem e encontrem o vosso próprio significado. Eu encontrei o meu. Obrigada, Ana e Pat.

sábado, 14 de maio de 2011

Alice Vieira

Trago aqui, em jeito de amostra, a sabedoria e a generosidade dos conselhos de Alice Vieira, escritora há três décadas, e que vive os dias assim, com descontracção e optimismo e muita, muita simpatia para com os outros. Adoro esta mulher, que me ajuda a crescer e que, além do seu indiscutível valor, sempre acede a partilhar connosco o que a vida lhe ensinou. Não é qualquer um que o faz.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Prémio Camões 2011


"“É a coisa mais inesperada que poderia esperar”, disse o poeta Manuel António Pina, que acabara de saber que lhe fora atribuído o Prémio Camões de 2011, no valor de cem mil euros. “Nem sabia que estava hoje a ser discutida a atribuição do prémio”, acrescentou.


Todos os jurados levavam nas suas listas o nome de Manuel António Pina e não precisaram sequer de meia hora para chegar a uma decisão unânime na reunião que mantiveram esta manhã na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Pina torna-se assim o 23º Prémio Camões e o décimo português a receber esta consagração, se excluirmos o autor angolano nascido em Portugal, Luandino Vieira, que recusou o prémio em 2006.

O júri integrou dois jurados portugueses (a ensaísta e poetisa Rosa Martelo e o ensaísta e professor de literatura brasileira Abel Barros Baptista), dois brasileiros (o poeta António carlos Secchim e a ficcionista Edla Van Steen) e ainda dois representantes dos países africanos de expressão portuguesa: a poetisa e ficcionista angolana Ana Paula Tavares e a ensaísta são-tomense Inocência Mata.


Nascido no Sabugal, Guarda, em 1943, Manuel António Pina foi jornalista durante várias décadas e estreou-se na poesia em 1974 com o livro “Ainda Não É o Fim nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde”. No ano anterior publicara o seu primeiro livro para crianças, “O País das Pessoas de Pernas para o Ar”. Consensualmente reconhecido como um dos melhores cronistas de língua portuguesa – ainda hoje assina uma crónica diária no Jornal de Notícias –, Manuel António Pina publicou dezenas de livros de poesia e de literatura para crianças, mas só em 2003 se aventurou na ficção “para adultos”, com “Os Papéis de K.”.


Se a sua obra de ficção é menos conhecida internacionalmente, a sua poesia está traduzida na generalidade das línguas europeias. O seu mais recente livro de poemas, intitulado “Os Livros” (Assírio & Alvim, 2003) venceu os prémios de poesia da Associação Portuguesa de Escritores e a da Fundação Luís Miguel Nava."
in jornal PÚBLICO, 12 Maio 2011)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Patrícia Reis

Daqui a poucos dias chegará às livrarias esta excelente sugestão de leitura. Um texto muito bem escrito e envolvente sobre a amizade e o amor aos livros, num cenário pós-apocalíptico. Tive o privilégio de o ler antes de se encontrar vestido de livro e é com orgulho que o vejo quase quase nas mãos de bons leitores. Estejam atentos.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Subterrâneo

A vida não lhe acontecia. Era assim há vários anos. A mulher já se convencera de que o melhor seria arrasar o cume das suas altas expectativas e mudar-se de vez para um qualquer buraco debaixo das pedras. Como um bicho subterrâneo. Compreendera, enfim, que a língua que falava, o corpo infantil que lhe morava dentro, era invisível aos olhos dos que habitavam um universo de gente crescida. Jamais haveria lugar para si. Indefinida. Hesitante, como saco transparente esvoaçando numa rua em movimento. Não sendo criança nem adulta, não tinha onde pousar, não sabia para onde ir. Andava assim, perdida, escarafunchando torrões de terra húmida, para encontrar um lugar na escuridão.
Até que o telefone tocou e a vida aconteceu.
Tantos livros, tantas horas de recreio enfiada em mundos de papel, enquanto os meninos jogavam à bola e as meninas saltavam à corda. Tantos suspiros ao ver os outros passarem por si, velozes, enquanto os seus pés se pregavam ao chão, como um sonho que assusta. Afundava-se numa noite eterna, assistindo à construção de um templo celestial. Vitórias de outros, grandes e pequenos, que arranhavam os céus. Conquistas que apenas conseguia farejar, por instantes, até ser novamente arrasada por aquele deus castigador que lhe morava nos ombros, colando a sua alma às sombras. Vivia no chão, assistindo ao céu tornado negro, sem azul.
Quando desligou o telefone, entendeu que uma nova realidade lhe acontecia. Uma luz que já não esperava. E sentiu os pés leves, leves, erguendo-se acima do solo. Quando se atreveu a estender os braços, deu-se conta de que sempre tivera asas, sem saber. Então respirou fundo, preparando o embate do vento... e voou.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Solidão

Como escolhi sair da cidade e viver num lugar recôndito que nem aldeia é, tenho uma vizinha que é daqueles espécimens rústicos. Atarracada, feições anónimas, o perpétuo avental de flores, pernas arqueadas, a pele esturricada e engelhada pelo sol, as mãos calejadas pela vida dura de quem não as usa para escrever nem para tratar das petúnias de luvas de jardinagem às florzinhas - como é o meu caso -, mas sim para lavar roupa no tanque, cavar e semear a terra, cortar lenha.
Falávamo-nos só de bom-dia e boa-tarde. Pouco mais. O único assunto de conversa eram os cães: Joana, a cadela da D. Maria José, e os nossos. Até ao dia em que ela, ao ver-me fazer festas à cadela (que me mete dó por estar encerrada na passagem da vizinhança, num espaço que pouco passa de 1m2), chega-se e diz-me:
- Olhe, não me faça festas à cadela.
- ...?...
- Ela está aqui para dar sinal, ela assim fica mole, não guarda.
Revoltada e já refeita do espanto, reagi assim:
- Ai não quer que eu faça festas à Joana? Tá bem.
Virei costas e fui-me embora.
Um dos poucos prazeres que o desgraçado do bicho tinha, sendo uma golden labrador rafeira, ou seja, mimuças por natureza, eram as minhas festinhas que ela antecipava ao ver-me passar, pois conhece-me desde pequenina e claro que, como animal inteligente que é (o mesmo não se pode dizer da dona), sabe distinguir perfeitamente a senhora simpática de um qualquer estranho que passe: pelo aspecto, pelo faro, enfim, é para todos óbvio, certo?
Passaram-se várias estações sem que eu nunca mais correspondesse à atitude dengosa da cadelinha Joana, encostada à rede, de rabinho a dar a dar, à espera das festas, e sem que as duas vizinhas se tornassem a falar. Só de pensar na sua proibição ficava irritada: como é que se pode ser tão estúpido?
Até que há dias a Joana andava solta e veio atrás de mim, quando eu me preparava para fazer a caminhada habitual, em que me afasto vários quilómetros da casota dela. Ao fim de menos de 1 km, voltei para trás, para a devolver a casa, pois não pretendia deseducá-la, fazê-la afastar-se demasiado de casa, provocar o seu atropelamento ou uma fuga.
- D. Maria José...?
Ela apareceu e perguntou-me:
- Estava a incomodá-la?
(A Joana, feliz da vida e já toda enlameada, saltava à minha volta, sujando-me as calças todas, claro, e eu a rir e a fingir-me zangada)
- Não, D. Maria José, a Joana nunca me incomoda. Venho só dizer-lhe que se calhar é melhor prendê-la agora, porque ...
E lá expliquei.
Adoptando a postura de uma menina de escola arrependida, fazendo-se ainda mais pequenina do que já é, a velhota disse:
- Podemos voltar a ser amigas? A senhora desculpe...
- Desculpo o quê, D. Maria José?
- Aquilo que eu disse no outro dia...ficou zangada comigo, pois...
("no outro dia" foi quase há um ano)
- Eu? Eu nunca tive nada contra si, D. Maria José. Mas confesso que estranhei, sabe que a Joana me conhece perfeitamente, não vai deixar de lhe guardar a casa por eu lhe fazer festas. Só que me  faz pena vê-la aqui sempre presa, percebe?
- Eu sei, desculpe, sim? Eu é que não estava boa naquele dia, sabe? A senhora desculpe. Podemos ser amigas?
E eu lá respondi que sim, sabendo que não posso contar com ela para jogar trivial pursuit, ajudar-me a preencher a declaração electrónica do IRS, ir aos saldos, ou partilhar uma série de coisas que a desgraçada nem sabe que existem, como, por exemplo, este blog.
- Qualquer coisa que a senhora precise, esteja à vontade.
E eu retribuí a oferta da pobre mulher, sentindo-me aliviada por ver que o mundo ainda fazia algum sentido.
E ela:
- Não me esqueço do que a senhora e o seu marido fizeram por nós, sabe? Não me esqueço!
(Referia-se às boleias que lhes demos até ao Centro de Dia, a ela e ao marido, para não terem de ir a pé)
E assim tornei a fazer festas à Joana. Voltámos ao bom-dia e ao boa-tarde e metemos agora dois dedos de conversa de vez em quando. Boleias já não dou, pois o marido da D. Maria José morreu e ela já não vai lá sozinha. A filha aparece de vez em quando, muito atarefada e carrancuda, num belíssimo carro que destoa, ali estacionado defronte à casinha caiada e modesta. 
Agora, quando passo pela D. Maria José e a cumprimento, vendo-a estender as roupas humildes numa corda miserável ou cortando lenha como uma valente, não posso deixar de pensar que a solidão desta mulher deve ser imensa. Ainda bem que tem a Joana. Reparei que ultimamente a leva para dentro de casa mais vezes. E sempre que vejo a casota vazia dou por mim a sorrir.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Apesar de tudo

Apesar da chuva, dos relâmpagos e travões,
Apesar dos carros atolados em estradas e rotundas
Apesar de ter andado meia perdida pelos caminhos

Cheguei a casa sã e salva

Apesar de ter um Renault twingo benetton
Apesar de ele não ser um submarino
Apesar de o ter feito atravessar verdadeiros lagos
Feitos de chuvas repentinas

O meu carrito não se afogou nem se perdeu, e levou-me sã e salva até casa

Apesar da crise
Apesar da chuva
Apesar de todos os "se's" que nos servem de travão ou marcha-atrás

É preciso ir, insistir, não desistir

Apesar de não as vermos tanto como queríamos
Apesar de a vida, muitas vezes, não nos deixar

Encontramos pessoas que nos dão um chapéu de chuva
Um casaco, um abraço, um abrigo
Como se fosse ontem, hoje, sempre
E nos dizem "Fica aqui até a chuva passar"

E por isso chegamos a casa sãos e salvos
Apesar de tudo

Os livros são como essas pessoas melhores que temos na vida.

Os que não esquecemos, apesar do pó
Os que amamos sempre, apesar de não os lermos todos os dias
Aqueles aos quais pedimos socorro, quando buscamos salvação na tempestade.

Apesar do pouco dinheiro no bolso
Apesar do desespero
Apesar da preguiça

E porque, apesar da chuva, existem os livros, é preciso visitar a Feira do Livro de Lisboa, conhecer os autores, os novos espaços lúdicos, trazer livros autografados com dois dedos de conversa, conhecer gente que ama os livros como nós.

Apesar de ser Abril e de o ditado popular não ter sido esquecido
Apesar de não dar jeito nenhum

A feira do Livro vale a pena

Apesar de tudo

SITE DA FEIRA AQUI

Os sentidos na infância

SABORES/TACTO
Os chocolates REGINA, as pastilhas "Pirata" e as pirâmides de chocolate que comprava no Sr. Narciso, o café mesmo colado à nossa porta...





SONS/IMAGENS
Alguns dos discos em vinil que eu mais ouvi, entre os 8 e os 12 anos



IMAGENS/SONS
Algumas das séries que mais me apaixonavam e que eu via à hora do lanche, com uma grande caneca de leite com Nesquick e uma pilha de bolachas "Maria" com doce...



IMAGENS/TACTO
O puzzle de 500 peças que fiz tantas vezes, e cuja imagem conheço de cor, sem saber que se tratava da Divina Comédia de Dante, segundo um quadro de Domenico de Michelino, do séc.XV


IMAGINAÇÃO: OS 5 SENTIDOS EM ACÇÃO
Alguns dos livros que li vezes sem conta...as colecções inteiras, claro!





E aqui imagens vivas, para melhor matar saudades de um tempo de inocência que não volta e que guardamos como um bem precioso.




(ACRESCENTADO QUASE 2 SEMANAS MAIS TARDE, EM HOMENAGEM AO MÁRIO DE SOUSA, QUE AQUI DEIXOU, EM TRÊS COMENTÁRIOS, UMA HISTÓRIA QUE ME COMOVEU.)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Underwood, Wonderland

Depois de uma notícia publicada na imprensa, as máquinas de escrever, para os mais nostálgicos, estão na ordem do dia. Corre para aí que se anuncia o fim deste suporte de escrita, com o fecho de uma fábrica algures na Índia, que resistia ao desenvolvimento das novas tecnologias.
Desenganem-se, vá. Em primeiro lugar, porque ainda existem imensas por esse mundo fora; em segundo, porque não é bem assim...senão, vejam esta notícia saida Washington Post

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terça-feira, 26 de abril de 2011

Navegando...

"Uma manhã, pelas três horas, enquanto eles sonhavam tranquilamente sob a sua mortalha de nevoeiro, ouviram como que um ruído de vozes, cujo timbre lhes pareceu estranho e desconhecido. Olhavam uns para os outros, os que estavam no tombadilho, interrogando-se num relance dos olhos:
- Quem é que falou?
Não, ninguém; ninguém dissera nada.
E, efectivamente, aquilo tinha toda a aparência de vir de fora.
Então o que estava encarregado da trompa, e que a pusera de parte desde a véspera, correu acima, soprando com toda a sua força para soltar o longo mugido de alarme.
Só aquilo já fazia estremecer, no silêncio. E depois, como se, pelo contrário, houvesse sido convocada uma aparição por esse som vibrante, uma coisa grande, imprevista se desenhara em pardacento, se erguera ameaçadora, muito alta, ao pé deles: mastros, vergas, cordame, um desenho de navio, que se esboçara no ar, por toda a parte ao mesmo tempo e de um só traço, como fantasmagorias para assustar, que, de um só jacto de luz, são criadas sobre velas pandas. E outros homens apareciam ali, a tocar-lhes, debruçados na amurada, mirando-os com os olhos muito abertos, num despertar de surpresa e de espanto.
Atiraram-se aos remos, aos mastros de sobressalente, aos croques, tudo quanto se lhes deparou de comprido e de sólido, - e apontavam-nos para fora, para manter a distância daquela coisa e dos visitantes que lhes chegavam. E os outros também assustados, estendiam para eles paus enormes para os repelir.
Mas houve apenas um ligeiríssimo estalido nas vergas, por cima das cabeças, e as mastreações, por um momento enganchadas, logo se desembaraçaram sem avaria alguma; o choque, muito suave, por aquela calma, estava completamente amortecido; fora mesmo tão fraco, que realmente parecia que o outro navio não tinha massa, que era uma coisa mole, quase sem peso...
Então, passada a surpresa, os homens puseram-se a rir; reconheciam-se uns aos outros:
- Ó gente do Maria!
- Eh! Gaos, Laumec, Guermeur!
A aparição era o Raínha Bertha, capitão Larvoer, também de Paimpol; aqueles marinheiros eram das aldeias dos arredores; o alto, de barba preta cerrada, mostrando os dentes quando se ria, era Kerjegou, um de Ploudaniel; e os outros vinham de Plounés ou de Plounerin,
- Porque é que vocês não tocaram a trompa, bando de selvagens?"
("O Pescador da Islândia", de PIERRE LOTI)
Obrigada, Bé, por não deitar fora os livros velhos do seu pai e se lembrar desta sua vizinha meia louca, que sente um prazer imenso em desfolhar as páginas bafientas e amarelecidas de edições a 6$00, forradas a papel vegetal. Neste caso, trata-se de uma obra de Pierre Loti, oficial de Marinha e escritor, que, entre outros autores, influenciou Marcel Proust na forma magistral de construir uma descrição narrativa. Sendo eu filha de oficial, sinto especial comoção em descobrir livros que me fazem recordar os tempos da minha infância. Ando a roubar dias solarengos desta Primavera, escapando-me para os mares gelados da Bretanha e da Islândia, no conforto preguiçoso da minha casa, semeada em terra firme.
Roubei a imagem aqui

sábado, 23 de abril de 2011

Agustina

Em jeito de celebração do Dia do Livro. Obrigada, P.

Lídia Jorge

Como só me aconteceu com poucos livros, li "O Dia dos Prodígios" duas vezes seguidas. Porque fiquei assim, com uma vontade urgente de regressar a Vilamaninhos e à Carminha limpando a sua janela, na primeira página. Deixo aqui uma fatia de prosa sem diálogo, em jeito de amostra de uma escrita singular, de um livro assombroso. José Pássaro Volante, Branca, José Jorge Júnior, Jesuína Palha, Macário, Manuel Gertrudes e outros personagens inesquecíveis, no prodígio das palavras que trocam uns com os outros, movimentando-se num cenário descrito em pormenor, num jeito que espicaça a nossa imaginação e os nossos sentidos. Livro maravilhoso e muito, muito português, terminado em 1978, em Boliqueime, no Algarve, de onde a autora é natural.

"Já pela tarde Carminha abriu a janela do quarto para olhar verdadeiramente a rua, e pensou. O futuro é o presente a andar lentamente para trás. Na verdade abafava-se dentro de casa ou à janela, e mesmo sobre a calçada se ouvia o sussurro dos gafanhotos pedalando de pasto em pasto. Os telhados ondulavam sobre as paredes como se fossem cair e as paredes das casas abriam bocas como se fossem romper-se. Desabar no chão. As caiações eram tão últimas que já resplandeciam de amarelo e se listavam de ocre definitivo. As lagartixas postavam-se esgalgadas como se fossem donas de todos os muros. Pelos quintais as piteiras de folhas e espinhos estavam espetadas e ferozes como se fossem unhas. Aceradas. Atrás das casas as oliveiras  estavam cinzentas como se fossem mariolão do mato. Mas sem flores. O rio em baixo tão seco como se fosse uma estrada de pó, o mar distante como se fosse uma fotografia. E do outro lado, a linha da terra esbatia-se cinzenta na luz como se fosse deserto. Carminha recolheu o olhar sobre os pés. Os ladrilhos tão fendidos como se fossem mosaico, o algermolho de vinagre como se fosse purgante, o orégão cheiroso como se fosse incenso. E as paredes. Levantadas como se fossem prisão de todos os móveis. Carminha desviou o cortinado. Pelas ruas as sombras nítidas como se fossem pintadas. Independentes dos seres. As gateiras tão largas como se fossem para bácoros. E as cavalariças. Sabia-se. Tão cheias de palha como se fossem só para galinhas. Pelas cozinhas, espirros tão fortes como detonações de cuspo e ar. Pelos postigos, cabeças pretas espreitando como se fossem vigias,  e no largo homens suando como se fossem de sal. E o sol tão rubro como um forno incendiado. Um afrontamento na alma. A tarde inteira a cair como se fosse uma porta. E Carminha pensou. O pó desta casa. Pode-se pegar pelas pontas e dobrá-lo. Fazer com ele um embrulho como papel de jornal."
(LÍDIA JORGE, 1º romance, 1980)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Filosofices VI

Se eu voltasse a ser uma criança, havia de querer fazer uma série de perguntas que na altura não me ocorreram. Agora que sou crescida, até parece mal, mas mal que pergunte...

Se eu te tratar por tu consigo dizer contigo, mas se o tratasse por você tinha de conseguir dizer consigo?

Porque é que os segundos do relógio não se chamam terceiros? Em primeiro lugar, vêm as horas; em segundo, os minutos; em terceiro, os segundos, ou não é? Então, pronto, chamavam horas às horas, primeiros aos minutos e aí, sim, fazia sentido chamar segundos aos segundos…digo eu.

Porque é que as prisões não se chamam “detergente”, se detêm gente? E o detergente propriamente dito, não devia chamar-se deternódoas ou detersujo? São coisas que não consigo perceber.

Não gosto de caçadores, mas gostava que os homens caçassem a dor. isso é que era, não era?

Já uma vez falei das ameias e dos merlões chanfrados - que parecem doidos, mas não são - e continuo sem perceber: porque é que as ameias se chamam assim? Eram partilhadas pelos seteiros? Dois em cada buraco, a meias? E já agora, porque é que as meias dão a entender que se ficam por metades, se são uma peça inteira? Há meias desirmanadas…podemos dizer então que são quartas? Se eu dissesse “perdi uma quarta”, todos entenderiam, certo? É tudo uma questão de lógica, acho eu. Mas se alguém me perguntar se eu gostei das meias que me ofereceu, posso sempre responder: “amei-as!”

E o verbo "demonstrar" é tirar o monstro?

Pronto, isto era o que eu perguntava se fosse criança, mas agora sou crescida, já não dá.

(pesquise em "Filosofices" I, II, III, IV e V para mais)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Óculos de sol

Arrumar os cantos à casa, com vagar, acaba sempre por representar várias viagens no tempo: uma fotografia que espreita, uma carta, um postal, um guardanapo escrevinhado, um torrão de açucar que guardámos num aceso de sentimentalismo. De filhos e sobrinhos que crescem tão depressa nem é bom falar. Fico-me pela música, por imagens que me fazem sorrir, a pensar nas figuras que fazemos quando somos novos - a brincar ou em trabalho - neste caso concreto, em ambas, pois tive a sorte de escolher uma profissão de que gosto e com a qual me divirto. Aqui, no Verão de 1993, nos Açores, no espectáculo "Uma Noite na Obra", da autoria de Júlio Isidro. Parece que estou a ouvir-me cantar aquele número meio cómico, acompanhada pela nossa banda...


Óculos de sol (intérprete: Madalena Iglesias)

Já arranjei muito bem
Tudo quanto convém
P'ra praia levar
O pente, o espelho, o baton
E um creme muito bom
P'ra me bronzear
O meu rádio portátil
E o bikini encarnado
Também estão no meu rol
E como é bom de ver
Não podia esquecer
Os meus óculos de sol
Refrão: Que levo p'ra chorar uuuuhuh
Sem ninguém ver
P'ra não dar uuuuhuh
A perceber
P'ra ocultar uuuuhuh
O meu sofrer
Pois eu sei que te hei-de encontrar
Talvez deitado à beira-mar
Com outra lado
E eu vou passar
A tarde a chorar

terça-feira, 19 de abril de 2011

Patrícia Reis

Finalmente, ao fim de três anos e meio de muito trabalho, vai sair o novo romance de Patrícia Reis, mesmo a tempo da feira do livro. Como já vai sendo habitual nesta autora, tem um título maravilhoso: "Por este mundo acima". A acção passa-se num cenário pós-apocalíptico e é um tributo inesquecível à amizade. Como a Patrícia Reis costuma dizer, afinal, o mais importante são as pessoas. Este livro é uma excelente ilustração deste princípio. Poderão encontrá-lo na Feira do Livro e nas livrarias a partir de maio. Da minha parte, assim que puder vou comprar - não um - mas vários, para oferecer a quem é importante. Será um bom presente, um bom (pre)texto para dizer aos outros aquilo que por vezes não sabemos dizer.

domingo, 17 de abril de 2011

Citando...

Limpando o escritório ao som do álbum "Back to Bacharach" de Steve Tyrell, escuto uma frase de Hal David que me chamou a atenção:

"A room is not a house
A house is not a home"

Bem visto. Se pensarmos bem no que pode significar.

Bom Domingo

Fiquem-se com este video ma-ra-vi-lho-so, em jeito de celebração do Dia Mundial da Voz.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ao domicílio

Ao fim da manhã recebemos a visita do Zé Manel e da Bé, nossos queridos vizinhos. Traziam dois sacos: um com hortaliças e frutas semeadas e colhidas por eles próprios; outro com livros velhos, aos quais a Bé já sabe que não consigo resistir. Pearl S.Buck, Tolstoi e Condessa de Ségur à mistura com laranjas, limões, espinafres, nabiças e coentros. Tudo oferta, em nome da boa vizinhança. Aqui no campo é assim. Pode aparecer uma aranha verde na mangueira, uma coruja na lareira ou um ninho de pássaros na árvore de Natal guardada na oficina; mas também temos frutas, legumes e literatura ao domicílio, embrulhados em cavaqueira e galhofa, enquanto os cães ladram, excitados com a visita matinal. Obrigada Zé Manel e Bé, por enriquecerem e alegrarem os nossos dias com boas recordações.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Boa semana

Por brincadeira, os pais de Jonathan, de apenas 3 anos, filmaram-no a dirigir o 4º movimento da 5ª Sinfonia de Beethoven, pela Orquestra Filarmónica de Berlim, sob a regência de Herbert von Karajan. Irresistível, este video, que se tornou num campeão de audiências  no mundo inteiro. Vejam porquê.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A corda

Elvis Veiguinha fez este pequeno filme como exercício para a Academia de Cinema de Nova Iorque. Os miúdos que transportam a dita são o meu filho (o louro) e os meus dois sobrinhos, Sebastião e Micas. Este já fica de recordação e ninguém me tira. Obrigada Elvis e P.

A Corda - Rodrigo Leão from Elvis Veiguinha on Vimeo.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Infâncias

No cafezinho ao lado do dentista, dei com uma montra que me levou de regresso à infância. Frascos com rebuçados a vulso (Dr. Bayard, limão, coco), pastilhas Gorila, caixas de Smarties e Maltesers, Toffee Crispy, Sugus de laranja e de morango.
- Boa tarde. Um néctar de pêssego, por favor.
- Boa tarde, menina. Não quer experimentar o novo néctar de cereja?
Que sim, que adorava tudo o que fosse de cereja e que aceitava a sugestão. Para meu azar, como estava anestesiada até à alma (sou uma doente difícil, insensível aos truques para adormecer a dor, pelo que, para a anestesia fazer efeito, tive de levar dose de cavalo), quase não lhe senti o gosto, apenas um travo que me lembrou vagamente o sabor das cerejas.
O ambiente não podia ser mais familiar. Uma criança no carrinho com uma roca na mão a fazer tchi-tchic-tchic, mães e irmãos que vêm buscar os miúdos à escola, mesmo ao lado. Todos se conhecem. Eu, com o meu caderno e a minha caneta (que me borra os dedos de tinta preta, por sinal), sou uma intrusa. Olham-me curiosos, sem hostilidade. Chegou o sol e trouxe uma pequena felicidade. Escuto as conversas, como cantava o Rui Reininho. A quantidade de diminutivos que utilizam é directamente proporcional ao nível de bem-estar. Pessoas entram e saem:
- Quer um cafezinho, doutor?
- Um quequezinho, faxavor, Sr. José.
- Vai um suminho de laranja, não é verdade, D. Mariana?
- Deseja uma caixinha, para levar?
- Arranja-me mais uma cadeirinha?
- Deseja que aqueça um bocadinho. doutora?
Termino o meu sumo, olho para os dedos pintados de preto e deito a caneta fora. O marido chega e despeço-me do senhor que me atira um:
- Adeusinho, menina!

segunda-feira, 28 de março de 2011

Lídia Jorge

"Um tempo velho. E a sua própria casa, a casa da sua mãe e da sua velha avó, que conheceu ainda entre as paredes e um cajadinho de vários nós. Igual àquela ali defronte. Todas as outras paredes. Da grossura de braçadas de gente, portas implantadas em umbrais de castelo, mas cheias de nada. De terra, peso, pedra miúda, argamassa de areia velha e cal viva, amortecida de anos, minada de bicheza rastejante, voante, pequenos quadrúpedes roedores, ratos, bichos que nunca aparecem, mas existem e têm dentes afiados, porque na noite há aqueles tris tris que não se suspendem nem batendo forte com o sapato. É a costureirinha, ainda a penar. Agora ouves. É a tesoura sobre a máquina. É o seu pedal. São bichos. Minha mãe. Como estes, os que comem a madeira, os carpinteiros que não se vêem, não têm barriga nem patas, apenas abocanham e rilham, rilham. E têm orifício de cu. A prova disso é esta poeira, aos montões de manhã; quando se bate a cama. Assim os outros, os que devoram as paredes, comem a cal que em tempos foi viva, e a terra. A chuva depois do telhado ido pelo vento. A chuva entra e abre as fendas, separa as pedras, a caminho do chão. Abaladas a gente, mãe, a nossa casa cairá assim. Não te mortifiques antes de tempo. Uma mortificação de cada vez. Agora porque ele vai ir. Depois porque tarda a vir. E o teu desejo é casar. Depois a boda e o dinheiro para ela. Só depois te mortificarás por pensar que estás longe desta casa. Na ordem das coisas essa será a quinta mortificação. Não mistures os sofrimentos. Dizia o prior, teu pai. Mortificando-se por me ter e por não me ter. E agora a mim me mortifica a ceia. Duas bogas de sal, quatro batatinhas. Guarda a limpeza que é quase noite. Carminha. Vires pôr-te aqui, olhando as nuvens vermelhas, quando afinal. Chegou quem é exactamente a tua medida."
(LÍDIA JORGE, in "O Dia dos Prodígios", primeiro romance publicado da autora, em 1980)

domingo, 27 de março de 2011

Domingo

A estação comeu uma hora ao inverno e deu-nos mais tempo feito de luz primaveril. Um pequeno-almoço tardio e domingueiro, ao som do noticiário que torna mais amarga a refeição. Por mim era o silêncio. Só nós e as nossas palavras. Só o som de mais uma manhã. Mas é preciso saber, sair da concha, para ter como pensar. O que pensar. Um cientista luso-americano descobriu o elixir da juventude e agora, teremos de viver para sempre?
O céu escurece, as nuvens incham e ameaçam cair. Apanho a roupa do estendal e agarro-me ao Dia dos Prodígios, uma edição com alguns erros de paginação que, por isso, me custou apenas um euro. Começo a ler o primeiro romance de Lídia Jorge e sinto-me mal pelo pouco dinheiro que dei por ele. Pergunto-me como cheguei aqui sem conhecer os passos inaugurais da sua escrita.
Lá em baixo, o meu filho toca saxofone com o Mestre que, finalmente, acedeu a intervir como professor ocasional. Complementar a técnica clássica com a abordagem do jazz. A Big Band Junior dá os seus frutos, acendendo a paixão ao aprendiz, que agora estuda o seu instrumento sem dar pelo passar das horas. Escuto a tentativa de um solo num tema do álbum de Mafalda Sachetti, e percebo que os dois, Mestre e aprendiz, vão no bom caminho.

sábado, 26 de março de 2011

Tarde

Estou de tia. Passeio verde-abaixo-verde-acima, a espezinhar a  paisagem para abrir o apetite.  Cachorros para o almoço com batata palha, ice tea de pêssego e salada com sementes de abóbora e girassol. De barriga cheia, o filho e os dois sobrinhos agarraram-se ao computador, claro. Mas juntos. Há gargalhadas. Os cães deitados ao lado deles. A chuva, que teve a cortesia de esperar pelo fim da nossa caminhada, cai agora, despenteada pelo vento. Vamos fazer biscoitos e chá earl grey para o lanche. A casa irá ganhar o cheiro morno e doce de bolinhos acabados de fazer e engordar ainda mais esta mania de ser caseira. Hoje mais. Muito mais.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Cuca Roseta

Uma jovem e grande cantora, ainda por cima linda de morrer. Apropriado para o nosso fado, que também tem uma primavera e um renascer. (a rima foi involuntária, desculpem)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Maria

Maria ajeitou as almofadas da cama e sentou-se a beber o chá de camomila e a comer as bolachas. Gostava de prolongar aquele momento, depois de a auxiliar trazer a pequena ceia que acompanhava a toma dos medicamentos, antes de dormir. Pegou no pacotinho de bolachas, abriu e tirou a primeira. Como rato, roeu, com método e moderação, meio centímetro a toda a volta, até atingir o desenho geométrico que tinha por hábito reproduzir a esferográfica, no seu caderno de capa roxa. O rebordo da bolacha apresentava-se agora rugoso e irregular. Maria usou a língua para limpar os vestígios de massa farinhenta, colados ao céu-da-boca, entre os dentes, nas gengivas. Ao mesmo tempo, observava o vapor saindo da chávena, a arrefecer sobre o tabuleiro. Quando considerou terminada a missão de limpeza, tornou a enfiar a bolacha na boca. Desta vez repetiu a operação com muita cautela, até chegar aos oito minúsculos orifícios arrumados em duas semicircunferências. Os incisivos não avançaram mais do que o necessário, para não se arriscar a morder um dos dezasseis furos. Não perdoaria a si mesma tal distracção. Era forçoso ir mordiscando a bolacha com extremo cuidado, esculpindo uma segunda bolacha mais pequena, onde poderia ler-se a palavra “Maria”, central, e sentir-se a textura dos pequenos pontos inscritos na massa. Maria posicionou à frente dos olhos o que restava do biscoito, para admirar a sua obra: ali estavam eles, intactos, rodeando as letras de pés duplos, os quais lembravam pezinhos de pássaros. O “I”, de uma só pata, podia ser um flamingo de cabeça escondida, um espeto ou um osso delgado, posto ao alto. Os “A’s” assemelhavam-se a cabanas de índio, duas pessoas de cabeças encostadas, a darem um passou-bem. Com uma satisfação infantil, Maria trincou, enfim, as duas extremidades que formavam um total de dezoito furos e só se deteve quando, na ponta dos dedos, sobrou apenas a palavra “Maria”. Tornara-se numa habilidosa artesã. Já só raramente lhe faltava o jeito. Estudando o brilho dos seus olhos, seria natural pensar-se que o pedaço minúsculo de bolacha constituía, quem sabe, o prémio pela sua minúcia, mas não. Esses poucos centímetros feitos de farinha de trigo, açúcar, gordura de palma, xarope de glucose, lecitina de girassol, bicarbonato e metabissulfito de sódio e glúten – há tantos anos gravados com o mais português dos nomes – eram a parte que Maria deitava ao lixo. Caso as senhoras da limpeza se dessem ao trabalho de vasculhar o que recolhiam diariamente na manhã seguinte, às sete em ponto, iriam encontrar, no fundo do caixote de plástico, seis Marias desprezadas.

domingo, 20 de março de 2011

Sophia

Entrámos no edifício imponente onde está instalada a Biblioteca Nacional, para vermos a exposição "Sophia, uma vida de poesia". Começo por discordar da escolha do nome. Sophia de Mello Breyner Andresen não dedicou a sua vida apenas à poesia como, aliás, o espólio da própria exposição demonstra.
À entrada, temos de deixar as carteiras dentro de um cacifo, onde colocámos uma moeda de 1 euro. Regulamento da casa e coisa nunca vista em tantas exposições espalhadas pelo mundo, com as mais ricas colecções. Será motivo para me indignar, ou para sentir vergonha dos utilizadores desta biblioteca, para quem não basta o dispositivo de segurança à saída?
Sophia teve direito a uma sala. Junto à porta encontra-se o catálogo para venda, completo e bem organizado, se bem que, para quem deseja ler as cartas nele reproduzidas, tenha de recorrer a uma lupa.
Silêncio. Eu e a minha amiga Ana Maria temos a sala só para nós, no momento em que iniciamos a visita. Logo verifico que ao meu lado tenho a companhia perfeita para conhecer Sophia um pouco melhor. Vejo-me numa verdadeira visita guiada. As palavras fluem da sua boca com naturalidade. Ávida e atenta, vou aprendo através da sua voz, que me fala na Sophia-criança, na Sophia-mulher, na Sophia escritora, na Sophia-deputada. Meia dúzia de mesas com tampo de vidro arrumam este precioso espólio com um tédio imenso e uma apresentação algo amadora: cadernos de notas, cartas, notícias em papel de jornal, fotografias, obras originais anotadas. O único recurso que encontramos à tecnologia é a digitalização esforçada de alguns documentos, que passam demasiado rapidamente, sem opção inter-activa: se quisermos ter tempo de ler 4 linhas, temos de esperar que a sequência retorne ao ponto de partida.
Impera a triste lei do menor esforço, sem fogo, sem chama nem calor.
A minha querida amiga, há dias dona de um exemplar do referido catálogo e de uma velha paixão pela escritora, compensa-me largamente e completa o texto interrompido de algumas cartas. Rimo-nos as duas ao verificar que ela sabe quase tudo sobre Sophia. Nesse instante sentimo-nos habilitadas a formular uma opinião sobre o uso que deram a este pequeno tesouro que confirma a vida riquíssima de Sophia. Entretanto, estão mais três pessoas na sala. Interrogamo-nos: porque não terão feito a exposição no Centro Cultural de Belém, que teria muitíssimos mais visitantes? Porque não recorreram às novas tecnologias que dariam maior visibilidade e dinâmica a estes conteúdos? Porque não destinaram um cantinho da sala para criar um cenário colorido, de modo a ilustrar o universo infantil da sua obra e cativar os mais pequenos? Uma vez que Sophia é uma autora conhecida internacionalmente, porque não recorreram a gravações áudio, traduzidas em várias línguas, para que portugueses e estrangeiros pudessem escutar os textos quase ilegíveis e conhecerem melhor o seu percurso? A luz das mesas é mortiça como o ar que se respira ali. Um ar sem ideias, sem vida nem calor. Uma senhora idosa aproxima-se e chama a nossa atenção: não estamos sozinhas, que falemos mais baixo, por favor... (como se estivéssemos a gritar ou a falar de futilidades como duas galinhas). Tenho vontade de responder-lhe: desculpe lá se estamos vivas, se ainda respiramos ou desejamos que Sophia  continue a respirar.
Obrigada, querida Ana Maria, pela companhia maravilhosa e por tanto que me ensinaste sobre Sophia, a Fada Oriana da nossa infância. Uma mulher que, apesar de homenagens cinzentas como esta, continua a respirar dentro de nós. Que venham outras exposições que lhe façam a merecida homenagem, como tu fizeste, com tanta paixão.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O segredo está na massa

Três e meia em ponto na sala de espera do dentista. Arrasto uma poltrona por uns metros, para poder ler e escrever com luz natural. Do consultório - que mantém a porta aberta assumindo o ambiente familiar e descontraído - chegam-me conversas animadas e o ruído do aspirador de saliva e da malfadada broca. É-me quase incompreensível, esta coisa de vir aqui por vontade própria e ainda por cima pagar. Pagar para sofrer. Deve constituir uma prova irrefutável de maturidade, como o dia em que começamos a comer bróculos e couves-bruxelas por auto-recriação, tomamos banho sem que nos ordenem, ou não deixamos de telefonar a agradecer um presente.
Passamos um mau bocado naquela cadeira.
A boca escancarada, os olhos a meia-haste, fixando o rectângulo de fibra de vidro que lança uma luz intensa e quente; as inúmeras ferramentas que entram e saiem da nossa boca, muito atarefadas a fazer obra.
Todas as 4ªas feiras às 15.30, por uns tempos, aqui estarei. Virei até que os meus dentes, depois de uma batalha feroz em equipa, reencontrem a sua dignidade.
Ironicamente, e mesmo respeitando as indicações da dentista ("uma hora sem comer, por causa da massa"), mastiguei, com paixão, uma sanduíche mista uma hora e meia mais tarde. A massa? Foi-se na massa do pão e em mim ficou nada mais do que uma cratera irritante e a sensação de um sacrifício inútil.

terça-feira, 15 de março de 2011

Bem me parecia...

Pagar bilhete

(Por Maria do Rosário Pedreira)

"Há encontros de escritores que são feiras de vaidades, onde falsos génios deambulam de nariz arrebitado e não existem conversas que não sejam maledicentes. Há outros, demasiado profissionais, nos quais impera o academismo em excesso – e daí ao bocejo é um instantinho. Há ainda aqueles em que nos divertimos muito e ouvimos histórias que nos transformam. Mas, em qualquer encontro de escritores, há pessoas que valem a pena e nos fariam pagar bilhete só para privar com elas alguns minutos e as ouvir falar das coisas mais comezinhas. Não há muito tive um desses momentos de prazer com aquele que julgo o maior nome da cultura portuguesa – esse mesmo em que estão a pensar. Acordáramos ambos preocupados com o que se estava a passar na Líbia e, juntos, corremos à papelaria em busca de um jornal. Como já não havia aquele que compraríamos num dia normal, eu acabei por desistir (pensando que, mais tarde, recorreria à Internet para me pôr em dia), mas ele aceitou levar um outro, de que a papelaria ainda dispunha. Sentámo-nos depois num sofá lado a lado – e ele foi folheando com calma e comentando as notícias até chegar àquelas páginas de anúncios muito sugestivos, que não só oferecem serviços óbvios, como ainda os ilustram com ligas, nádegas, seios e outra iconografia do tipo. Olhou para mim e disse-me: “Já viu? Este é o maior bordel portátil da Europa!” Genial, como sempre."
Ver o blog "HORAS EXTRAORDINÁRIAS", de Maria do Rosário Pedreira aqui



segunda-feira, 14 de março de 2011

terça-feira, 8 de março de 2011

Mulher

Abriu a torneira, despiu-se, deitou-se na água quente e fechou os olhos. Afundou o rosto, deixando que os cabelos se colassem à pele. Tomou consciência de cada poro, de cada fio de cabelo. O mundo desapareceu. O coração batia, fazendo-se escutar no silêncio da tarde, no mutismo da casa vazia. Estava sozinha, não só. Apenas a sós. A Beatriz de Chico Buarque dançava na sua memória, as notas da melodia que amava boiavam no banho, encostando-se às suas coxas, ao cotovelo, entre os dedos da mão. Em breve eles iriam voltar, trazendo o ruído e o caos, a inundar o resto das horas com perguntas e apelos, com a arrogância da sua fome, o narcisismo das suas vontades.
A água agora morna lembrou-lhe o passar do tempo. Escutou a chave na porta, os risos abafados do marido e dos filhos. Chegavam com casacos e mochilas, botas, gorros, luvas e sacos. Chegavam com muitas coisas penduradas de todos os lados: da boca palavras, das mãos objectos, dos olhos o dia, do coração a saudade.
Da cozinha, empurrados pela corrente de ar, vieram os vapores do guisado já pronto. Sobre a mesa esperavam pratos, talheres, guardanapos, copos, a cesta do pão, o jarro com água. O gato de barriga cheia enroscado na poltrona de veludo, inútil e decorativo como todos os gatos.
Abandonou o banho, interrompendo a sua paz. Vinte e três minutos bem contados.
- Chegámos! - Disseram.
- O que é o jantar?
- Mãe, posso jantar a ver o Dexter?
- Mãe, posso ir a casa da Mafalda depois?
- Mamã, dás colinho, pois dás?
- Amor, compraste-me o que te pedi?
Ela sorriu e disse que sim a todos, como se, com essa afirmativa, reafirmasse a sua vida de mulher.
(imagem: Nanã Sousa Dias)

domingo, 6 de março de 2011

Para ti, P.


BEATRIZ
(Chico Buarque)

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da actriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da actriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da actriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

sábado, 5 de março de 2011

Sem chão

Por vezes sente-se um solitário urso polar, sem se ter de pé, sem chão nem esperança. E à sua volta flutuam destroços de sonhos que não conseguiu agarrar, que nem tábuas de salvação foram. Onde estarão os outros? Pergunta-se. Que jangadas terão encontrado no que é para mim apenas solidão? Sem saber para onde ir, utiliza a força que lhe resta nos músculos e tendões; sem entender que para si não há finais felizes, esbraceja ao acaso, sem sorte nem jeito. As águas geladas que corta são o tempo que passa, uma imensidão implacável que a fará naufragar, se no horizonte não surgir, enfim, o chão que a salve.

sexta-feira, 4 de março de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

Cartas de leitores: John Barry

Hoje, depois de algumas reacções ao 2º aniversário do blog, inauguro uma nova etiqueta: "CARTAS DE LEITORES". É a melhor Celebração que encontro.
A que publico aqui hoje nasceu do post dedicado a John Barry, compositor das bandas sonoras dos filmes do 007 e do maravilhoso filme "OUT OF AFRICA", no dia da morte do compositor.

Mário de Sousa disse...

"Sem dúvida que existem filmes que nos causam arrepios, e pelas melhores razões. O John Barry reuniu talvez os maiores filmes, ícones de várias gerações. Conseguiu a proeza maior de ser transversal a várias delas e morrer actual.

De repente, a evocação do 007 fez desfilar pela minha mente recordações antigas de um tio, cunhado da minha mãe, amante incondicional das coisas boas da vida e do 007 também. ‘The Bond way of life’ era uma bandeira para ele. Morreu muito novo, talvez por ter vivido a vida de um modo mais intenso do que devia. Assoprou tanto na brasinha que todo o calor se dissipou num riscar de fósforo.

Vivia com a minha tia e as minhas primas em casa da minha avó, e foi lá que conheci a maior biblioteca de livros policiais e espionagem da minha vida. Foi com ele que aprendi a gostar de Dick Haskins, Ellery Queen, Edgar Wallace, Jack Hunter e a incontornável Agatha Christie. A minha avó arreliava-se com ele porque ‘aquilo não eram livros para uma criança’, mas eu era o filho que ele não tinha.

Estava-se no final da década de sessenta do século passado e o cinema S. Jorge e o Eden faziam as delícias dos amantes das ‘girls Bond’ e o meu tio Júlio não falhava uma soirée seguida de umas imperiais na Solmar ou na Trindade. Depois, ao outro dia ao almoço, contava-me aquelas aventuras rocambolescas e mostrava-me os livros do Ian Fleming; e eu ficava deliciado, em êxtase, a olhar para aquelas raparigas, invariavelmente de vestido comprido, saltos altos e uma perna elegante a deixar-se adivinhar por uma saia meio aberta ou meio fechada. Ele, o James Bond, impassível empunhava uma pistola de cano comprido.

Que raiva que eu sentia por não ter 16 anos para poder ir ao cinema com ele. Então, prometia-me que assim eu tivesse idade, me levaria e me explicaria detalhes que agora ainda não tinha idade para compreender.

Não teve tempo para cumprir a sua promessa. Morreu bem, se assim se pode dizer; um ataque cardíaco fulminante no emprego. Naquele tempo, ainda não havia 112, nem desfribiladores, nem paramédicos de luvas brancas e coletes fluorescentes. Morreu sozinho, no chão do escritório onde o estenderam e lhe desapertaram o nó da gravata.

Quando me disseram, chorei de tristeza e o James Bond perdeu para todo o sempre, o encanto que para mim tinha. Descobri da pior maneira, que o meu herói não era ele mas sim o meu tio Júlio.

16 de Fevereiro de 2011 01:53

(...)

No verão de 2009 tive a oportunidade de visitar a Casa Museu de Karen Blixen em Rungstedlund na Dinamarca. Vivi por essa altura, talvez os momentos mais emocionantes da minha vida.

É muito difícil de explicar o que é África, o que e o que se sente quando se lá está, mas principalmente o que se sente quando A deixamos. É uma sensação de saudade, de perda, de orfandade. É uma sensação sufocante que nos tira as forças, mas que nos faz perceber o quanto é doloroso estar-se ‘ Out of Africa’!

Não conheço os planaltos do Kenya mas tenho presentes as xanas de Angola, os planaltos da Namíbia, as planícies de Coldra, as florestas de Casamansa, os mangais das Guinés. A magia que exerce sobre nós é qualquer coisa de inexplicável, tão inexplicável como os acordes de ‘Out of Africa’. Nunca um trailer foi tão devastador para a minha sensibilidade como o deste filme.

África não se explica, vive-se; não se entende, aceita-se; não se apreende, entranha-se; e tal como uma moléstia ‘boa’, toma conta de nós para nunca mais nos largar. É uma ‘doença’ crónica, inexplicável, arrepiante; é uma droga dura que nos consome por apropriação.

África, é também uma paixão, um céu, um mapa de estrelas, um sol, um pôr-do-sol, ou um renascer; África só pode ser sem dúvida, o berço da humanidade. Só isso pode explicar o seu mistério.

É muito difícil entender as palavras ‘I had a farm in Africa…’. É iniciático… Só quem lá esteve, só quem lá vive ou viveu, só quem se rendeu aos seus desígnios consegue entender todo o misticismo se não a tragédia, destas palavras. É passado e o passado em África dói…

Vera, grato por lembrar John Barry.
John obrigado por tudo o que fizeste."
 
(MÁRIO DE SOUSA, meu "aluno" no curso de Escrita Criativa "Escrevo o meu primeiro conto", que conheci entre Maio e Julho de 2010, e que brinda este blog com cartas maravilhosas como esta, enviadas desde terras africanas)
2ª Imagem: vista parcial da casa de Karen Blixen no Quénia.

terça-feira, 1 de março de 2011

Dois anos

Caros blogueiros, este blog completa hoje dois anos. Para festejar convosco, venho convidá-los a que escrevam um texto ou simples comentário, dizendo porque o visitam, o que esperam encontrar, quais as vossas impressões e posts com que mais se identificaram, enfim, o que quiserem. Podem sugerir outros blogs que costumem seguir, partilhar uma ideia, dar sugestões. Fico à espera!
Saudações virtuais