quinta-feira, 25 de agosto de 2011

"A arte não pode ser política, nem sujeição social, nem glosa duma ideia que faz época; nem mesmo pode estar de qualquer forma aliada ao conceito «progresso». É algo mais. É o próprio alento humano para lá da morte de 
todas as quimeras, da fadiga de todas as perguntas sem solução."

(AGUSTINA BESSA-LUÍS)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Sabedoria

A sabedoria anda por aí, espalhada pelos filmes, nas páginas dos livros, na boca das pessoas, empurrada pelo vento. E nós, na distracção dos dias, percorrendo as ruas e chutando pedras no caminho, vamos por vezes tão alienados que somos incapazes de ver o que nos vibra nos olhos e ouvidos, o que se encontra debaixo dos nossos pés. A sabedoria banalizou-se, na respiração acelerada em que vivemos. Na abundância oferecida às golfadas, como água em bocas secas. Na ânsia de devorar o tempo. E no meio desse redemoinho é difícil ouvir o coração bater e renovar o sangue viciado. Quem me dera que o mundo metesse travões a fundo, para podermos apear-nos e ir a pé. Talvez desse modo fosse possível reparar no caminho que percorremos e, quiçá, mudarmos de rumo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Renovação

Por vezes as relações humanas são como os seres vegetais. Ramos secos que já não vingam, esforçados, desistentes, fracassados. E se lhes tivermos amor, precisamos de reunir coragem e segurar nas mãos decididas a tesoura de podar. Desbastando sem piedade, suspirando ao ver acumularem-se no solo pequenas flores que despontavam no extremo dos ramos moribundos, sabemos que o tempo irá trazer renovação. E um dia olhamos atentamente e descobrimos as folhas tenras, a promessa de uma flor, onde  a vida já não parecia possível.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A fatalidade do Não

A palavra de que eu gosto mais é não. Chega sempre um momento na nossa vida em que é necessário dizer não. O não é a única coisa efectivamente transformadora, que nega o status quo. Aquilo que é tende sempre a instalar-se, a beneficiar injustamente de um estatuto de autoridade. É o momento em que é necessário dizer não. A fatalidade do não - ou a nossa própria fatalidade - é que não há nenhum não que não se converta em sim. Ele é absorvido e temos que viver mais um tempo com o sim. 

José Saramago, in 'Folha de S. Paulo (1991)'
Roubei no site "CITADOR"

domingo, 14 de agosto de 2011

Universo

Um verso apenas
Para enumerar as paixões
Para chorar nossas penas
Ou quebrar ilusões
Um verso só
Músculo ínfimo
Minúsculo, íntimo
Transformado em pó
Se no início era o verbo
E nele existe movimento
Em quietude me pergunto
Será o inverso o fim?
Neste meu pensamento
Inscrevi um mundo imerso
Com uma palavra apenas
Fiz nascer algo perverso
Um verso apenas
Um verso só
Eis o meu solitário 
Universo


(VERA DE VILHENA)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Uma boa surpresa

O carteiro afastou-se na sua mota. Para trás deixou um rasto de cães ladrando com fúria. Despedi-me do sol, já alto, e vim vasculhar o correio virtual. Um postal de parabéns enviado pela escritora Alice Vieira: imagens a transbordar de natureza campestre, uma canção de fundo, numa voz feminina, a celebrar os meus sonhos e isto de eu estar no mundo e torná-lo melhor, como se eu fosse importante e fizesse falta. Enterneço-me e sorrio pelo privilégio desta amizade à distância. Admiro a força e generosidade desta mulher que, na vertigem em que o seu corpo se encontra, inventa ainda tempo para mimar os amigos e contagiar-nos com a seu bom humor.
Lembro-me que ainda não fui ao correio. Desço as escadas e acaricio o serra da estrela que faz a sesta à sombra, amolecido pelo calor da tarde. Retiro o recheio da caixa branca. Desta vez não traz contas para pagar, mas uma boa surpresa: um postal brilhante e colorido, a transbordar de infantilidade e inocência, minuciosamente preenchido, transformado em carta. Anuncia e explica a escolha do presente. Chega-me de uma amiga do coração, descoberta ainda a cheirar a novo como tinta fresca: a Ana Maria. Ambas lemos, há pouco tempo, a biografia de Clarice Lispector, que deixa em nós a urgência de conhecer a obra integral da escritora. Uma sugestão preciosa da Patrícia Reis, que pelo caminho vai semeando boas leituras. E é com prazer que retiro do grande envelope o meu presente: "Perto do Coração Selvagem", o primeiro romance publicado de Clarice Lispector, escrito na adolescência.
Obrigada, amiga! Receber coisas destas pelo correio é um consolo para a alma. E estamos todos a precisar tanto de consolo, não acham?

Mais

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Restart

Malas no carro, beijos e abraços, agradecimentos mútuos, votos de boa viagem e de continuação de boas férias. O carro partiu embalado por mãos que acenavam em despedida. Entre a bagagem um frasco de doce de amora, depois de uma investida a seis pelas matas carregadas de silvas e frutos silvestres. Soube a pouco. O tempo voou. Ficaram por cumprir muitas horas: tardes de preguiça entregues à leitura, a praia, outros filmes e lugares, os crepes com molho de chocolate, o desfecho de tantas conversas interrompidas pelo riso, pela arrogância das ideias que se entrelaçam noutras. Ficou a promessa de um fim de semana de outono, com lareira e vinho tinto, a paisagem fresca e fértil, retemperada pelas chuvas.
Fecho a porta e regresso à vida de antes. À palavra escrita. À preguiça. Aos livros. À solidão deliberada de quem trocou a vertigem urbana pelo silêncio de uma paisagem campestre. Respiro fundo e deixo entrar a resignação. Passo os olhos por esta meia dúzia de dias e chego à conclusão de que existe um certo conforto na tristeza de ver alguém partir. A prova palpável de que vivemos algo que vale a pena repetir.
Obrigada Vasco, Rita e Matilde.
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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A tristeza dos portugueses

"Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal. 
Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.
Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristesacompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós." 

Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa'

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Recomeço

Por vezes é preciso chegarmos ao fim da estrada 
para sabermos aonde queremos ir.


Imagem: "Pier end", autor desconhecido.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Booker Prize

Já se conhecem os títulos que integram a long list do Man Booker Prize 2011:
Julian Barnes, The Sense of an Ending
Sebastian Barry, On Canaan's Side
Carol Birc, Jamrach's Menagerie
Patrick deWitt, The Sisters Brothers
Esi Edugyan, Half Blood Blues
Yvette Edwards, A Cupboard Full of Coats
Alan Hollinghurst, The Stranger's Child
Stephen Kelman, Pigeon English
Patrick McGuinness, The Last Hundred Days
AD Miller, Snowdrops
Alison Pick, Far to Go
Jane Rogers, The Testament of Jessie Lamb
DJ Taylor, Derby Day



No dia 6 de Setembro irá ser divulgada a short list. No dia 18 de Outubro conhece-se o vencedor.
Roubei a notícia aqui

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Stop

Às vezes é preciso respeitar o cansaço. Usar todas as nossas forças para travar.

sábado, 23 de julho de 2011

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Please wait...

INSTALLING SUMMER.....
███████████████░░░░░░░░░░░░░░ 44% DONE.
Installation failed. 404 error: Season not found. The season you are looking for might have 
been removed, had its name changed, or is temporarily unavailable. Please try again.......
Roubei a imagem aqui
Obrigada, Ana Maria.

sábado, 16 de julho de 2011

duelo gramático

Meu, um velho pronome, estava velho e gasto. E andava sempre mal disposto, pois ninguém respeitava o seu nome. Um dia cruzou-se com um substantivo freak, que com um sorriso de quem está bem na vida lhe perguntou:

- Oi, meu. Tudo bem?
- Não te conheço. Como é que sabes o meu nome? Como é que te chamas?
- Calma, meu. Tu és o meu amigo. Certo? Tá-se bem.
- Chamas-te Calma? Ok, Calma. Sim, eu sou o Meu. Mas diz-me lá, porra, COMO É QUE TU SABIAS O MEU NOME? O nome é MEU!
- Ah, tá-se bem. O teu nome é Meu.
- O raio que é teu, Calma! O nome é meu! É MEU OUVISTE?
- A malta assim não se entende, meu. Deixa-me apresentar-me...
- Ai pois não nos entendemos, não! Mas então não te chamas Calma?
- Não, pá. Onde é que foste buscar essa ideia, meu?
- Quando eu te perguntei como é que te chamavas, respondeste-me "Calma, meu".
- Aaah, já percebi. Nessa altura ainda não sabia o teu nome. Estava só a dizer-te para teres calma, meu.
- Ah, também já percebi. E já vi que tens a mania de terminar as frases com o meu nome.
- Ya, meu. Tá-se bem.
Meu suspira e responde, algo envergonhado:
- E afinal como é que te chamas? És um substantivo, certo?
- Sou, mas não sou lá muito certo...!
Riem-se agora os dois. E o substantivo responde.
- Sou o Amenidade. Mas todos me tratam por Amen.
- Boa. Hey-man!
- Vês, Meu? Já estás mais na boa, assim tá melhor. E tens de aprender a ser menos possessivo, meu. Mudar essa tua natureza.
- Amen.
- Sim...?
- Sim o quê?
- Ias a dizer-me alguma coisa?
- Não, estava só a concordar contigo.
- Ah. Tá-se bem, meu.
- Tá-se.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Visual

Hoje apeteceu-me mudar o visual deste blog e torná-lo mais leve, mais céu, a condizer com a estação. Troquei o encarnado-escuro pelo azul celeste e branco. Já basta o que basta, a nossa vida andar tão pesada. Dias light precisam-se. A ver se saímos do chão e começamos a voar como os anjos.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

terça-feira, 5 de julho de 2011

Confiança

Na escuridão, a mulher deu a mão à irmã e deixou-se conduzir.


Vá, confia em mim, tu és capaz!


À sua frente, um abismo que ela, na sua cegueira quase total,  não conseguia ver. Mas havia a confiança e por isso saltou. Enquanto caía, não pôde deixar de pensar que aquela era uma viagem maravilhosa, a mais bela que fizera. Só por existir o salto. Aquele saltar cegamente, de olhos abertos e inundados de coragem. E que o chão que a esperava só tinha a importância que ela lhe desse.
Imagem: NANÃ SOUSA DIAS. Roubei aqui

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Uma boa sugestão de som para este verão. É malta da Hungria e são bons. Enjoy.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Cinco

Chegaram com mochilas e sacos. Foram farejando os cantos, instalando-se, a encontrar o seu lugar na casa. Sempre juntos. Mesmo na diferença. Agarraram com mãos e bocas ávidas a liberdade que lhes foi dada. Uma bandeja feita de transgressões de que por vezes é feita a felicidade. E no auge do sangue juvenil que lhes corria nas veias, admiraram um céu cheio de estrelas, coreografaram as águas numa dança agitada e algo perigosa, mimaram os sentidos, riram, disparataram, beberam clandestinamente as horas nocturnas. Até que os olhos os venceram e a madrugada os rendeu. Inventaram recordações e sonhos, inspirados pela surpresa desses dias cúmplices. As manhãs encontraram-nos a dormir, exaustos, de barriga cheia, como gatos ao sol. Surgiam pela hora do almoço, sonolentos, espantados com aquele corpo de semi-criança, que não conseguira enganar a vastidão da noite. Colavam-se à casa, recusando-se a sair para lá dos montes verdes e dos pinheiros. Nem sequer para irem ao encontro do mar. Nem tampouco em busca do ruído das multidões, de que eram feitos os seus breves anos. Juntos. Diferentes, mas sempre juntos. Os cães à roda deles, felizes com tantos braços e pernas, tantos cheiros e vozes para explorar com a sua lealdade canina. Os cinco rapazes ficaram, para prolongar a cumplicidade das horas e adiar o adeus. Até que à mulher, grata e cansada, nada mais restou do que sentir o alívio e a tristeza de os ver partir.
Roubei a imagem aqui

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Sonho

As janelas abertas do quarto, o ar morno a inundar os lençóis. A mulher sonhou que Pégaso entrava e a levava dali, para um mundo vibrante. Iluminado. Tão cheio com os mistérios da noite que os insones confirmam. Pégaso depô-la junto de uma fonte, na praça, e relinchou, como que a instruí-la. Ela compreendeu e entrou na fonte cuja água tilintava em transparências de vidro. Mergulhou devagar o corpo todo. Até o cabelo e a face. Quando abriu os olhos e a água escorreu, tudo era prata. Mercúrio líquido, argênteo. Tornou a montar o cavalo para voarem ao encontro da lua. Arrumando as suas asas, o cavalo alado pousou a mulher num chão de areia cor de cinza, que brilhava. E ali adormeceram os dois viajantes. Ela não esquece o abdómen quente, o batimento daquele coração animal. Não quer acordar daquele adormecimento feito de sonho. Mas o sol, ciumento, vem despertá-la. De olhos abertos, a mulher viu dourar-se o mundo. Tudo se enrubesceu de acolhimento. Tudo era vivo. Fértil. Então a mulher alongou-se até à escuridão de prata, e guardou a lua na sua algibeira de linho branco. Estendeu a outra mão e agarrou o sol, que guardou do mesmo modo. Por fim deitou-se e adormeceu num vazio sem noite nem dia. Sonhou que era dona do tempo, deusa da luz. Sentiu-se grata pelos tesouros que roubara. E pelas asas do animal que dormia a seu lado, Pégaso, um cão de pelo branco, cúmplice de um crime feito de estrelas.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Enid Blyton

Hoje vi o filme "Enid", sobre a vida de Enid Blyton, protagonizado por Helena Bonham Carter. A mulher tinha os seus defeitos e deixou para segundo plano algumas das pessoas que mais deveria ter acarinhado: a família. No entanto, não posso deixar de admirar uma mulher que começava a escrever sem qualquer plano, simplesmente fechando os olhos e entregando-se ao poder inexplicável da imaginação, pressionando as letras da sua máquina com os indicadores, e escrevendo entre 6 e 10 mil palavras por dia. Caramba, publicou 700 livros e outras 5 mil obras, entre contos, poemas e peças de teatro! Quem não a conhece através do Noddy, dos Cinco, do Clube dos Sete, do Mistério, das Gémeas ou das Quatro Torres? Todos crescemos a ler as suas histórias, que continuam a ser reeditadas no mundo inteiro.
Aqui deixo um excelente documentário, com o melhor e o pior da sua vida e do seu carácter.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Vida

Adiei a lida da casa (odeio esta expressão: "lidar com a casa"...?) e atirei-me à biografia de Benjamin Moser, sobre Clarice Lispector. O tempo voou. Interrompi a leitura para uma caminhada a meio da tarde. No regresso, fiz um pequeno desvio e fui visitar uns vizinhos. Ele passou por mim empurrando um carrinho de mão onde levava uma porta sabe-se lá para onde. Quando voltou eu já conversava alegremente com a sua mulher, tentando explicar o que eram petúnias, enquanto a cadelinha Luna saltava a meus pés. Saí com a oferenda de uma garrafa de ginginha caseira. Em casa, depois de um banho, lancei-me de novo à Clarice. Passei pelas brasas, mas fui acordada pela luz do sol poente, que batia na portada azul e se derramava sobre a colcha azul e branca. Entrei na infância de Clarice. Para trás ficaram as páginas terríveis que narravam as perseguições da sua família em tempo de guerra, durante a Revolução Russa. Começava agora uma nova vida, longe de perfeita. O cenário? O Recife brasileiro. Uma menina bonita, inconsciente da sua pobreza, que se divertia a roubar rosas de um jardim vizinho e a imitar as vozes e trejeitos dos professores.
O jantar fez-se sozinho, composto de queijo e enchidos fatiados, salmão salpicado com pimenta preta, limão e salsa, taças de vinho branco e bolinhos de coco. Anoiteceu, por fim. Bebi o café vendo "Uma Questão de Honra", fascinada com o desempenho magistral de Jack Nicholson, contracenando com Tom Cruise: You can't handle the truth! A famosa frase colérica. O homem intocável foi preso, os rapazes absolvidos da acusação de homicídio e o jovem advogado ganhou o seu primeiro caso em tribunal. Ah, eu e a literatura. Eu e o cinema. Na pequenez dos meus dias, espreitando a desgraça e a honra de grandes vidas. Sentindo-me imensa no levar desta vida minúscula.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Livros

A beleza do livro
(PATRÍCIA REIS, crónica Expresso edição de 4 de junho)

"Entregar um livro ao público é como levar o filho à escola pela primeira vez: o miúdo já sem fraldas mas ainda com o boneco e, por vezes, a fralda de pano. Fica pendurado na professora e à mercê de uma mão cheia de desconhecidos. Um livro novo, depois de mais de três anos de trabalho, torna-se estrangeiro para quem o escreve, é um território que pode ser lido, interpretado, amado ou odiado. Por quem conhecemos e por todos os outros, potenciais leitores, sem rosto, sem referências que nos confortam.

A seguir, a pergunta central é a de saber: depois de “Por este Mundo Acima” que vou escrever? Devo escolher outro trilho? E será isso uma boa ideia ou pode prejudicar todos os frutos recolhidos? Se escrever é condição e não profissão, uma necessidade ou terapia, para tantos, é ainda um exercício de algum masoquismo, porque nos expomos e não temos certeza de nada. Há, de certa forma, um regresso à insegurança infantil de não se ter a certeza, até porque quando temos a certeza somos apelidados de “convencidos” ou “arrogantes”.

Na Festa da Literatura no Funchal em finais de Maio, primeira edição da responsabilidade dos Booktailors, alguém disse: “Podia ser só uma mulher gira”. Outra presunção? Certamente. Quem é que quer ser apenas uma mulher gira? Ou um homem? Ou até uma criança? Desejamos sempre que a beleza venha de mão dada com a inteligência e o sentido de humor, prática pouco exercitada por estas bandas onde dizer mal é mais fácil do que dizer bem; por isso festejar o sucesso do outro é, desculpem dizer, uma enorme maçada. Como a beleza alheia. Mesmo que a beleza seja de uma tristeza infinita.

Eu encontro beleza nos livros e por isso leio e releio. Gosto de ter amigos que são escritores e outros que não estão sequer interessados em saber o nome do próximo ou anterior Prémio Nobel. Na multiplicidade é que está o ganho. Mesmo que não seja giro."

sexta-feira, 27 de maio de 2011

pecado

Uma salada de alface, rúcula, milho e nozes. E ainda sementes salteadas de sésamo e abóbora, temperadas com vinagre balsâmico, orégãos e erva-doce, algo que o marido jamais experimentaria. Dois copos de vinho branco depois, a mulher entendeu que desenvolvera a arte de estar sozinha. Defronte ao televisor, via um qualquer drama cuja acção decorria sob o frio e a chuva da Irlanda. Um filme lento e desconcertante, só para si. Terminando a segunda taça de vinho branco, a mulher sorriu, aliviada por constatar que não perdera a sua individualidade. Era inteira. Fiel à teimosia da sua própria alma. Ali ficou, em paz, sem azedume. Sem o fastio de uma voz cansada, de uns olhos que já haviam visto tudo e que há muito tinham perdido o dom da compaixão. Com uma prazer que não esperava, compreendeu que eram dois. Que sempre seriam dois. Ele. Ela. Duas matérias isoladas. E que só no serem múltiplos conseguia sobreviver.

Depois de beber um café e de comer uma bolacha de canela, foi ter com o marido ao anexo onde ele se encontrava a trabalhar. Deu-lhe um beijo. Nesse beijo ia uma quase infidelidade. Dentro de si experimentou a euforia dos amantes. Na boca ficou o sabor salgado dos seus lábios. A mulher compreendeu que se iludia mais uma vez, como borboleta ao redor da lâmpada. Esvoaçando de ideia em ideia, ofuscada pela luz: a sua vida não podia ser feita de doçura apenas. Os dias careciam de fel, de sal, de cada nuance de um sentimento, que vai de um extremo ao outro. E ser inteira era estar só, mas também significava unir-se naquele beijo. Ao homem que a esperava do outro lado da sua alma, tal qual o lado sombrio da lua. Podia dar-se sem que nada lhe arrancassem do peito. Oferecer o que não era seu sem com isso se tornar criminosa. Procurar nele o que não tinha. E assim, o ser inteira era transformar-se. Ser todos os dias uma mulher diferente.
Saíu para o jardim e deixou a chuva cair. Confiava na chuva. Os cabelos molhados pingavam. Os olhos fechados à magia do momento. Só os ruídos da noite. O calor nocturno trouxe pirilampos e também o canto de rãs e grilos. A mulher abriu os olhos e sorriu, aliviada por ver que esse instante lhe pertencia. Que para sempre ficaria guardado na sua memória, como um pecado inocente.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Encontros

Acabo de regressar de uma das minhas caminhadas. Todos os dias um pouco mais longe, duplicando o esforço, na ida e no regresso. É urgente manter a forma. Melhorá-la, se for possível. O corpo queixa-se, eu insisto. Não há-de ser mais teimoso do que eu. Prestes a fazer inversão de marcha e regressar a casa, dou com três ovelhas a pastar placidamente, na tarde primaveril. Olharam para mim, balindo, enquanto ruminavam com preguiça. Do lado de cá da vedação, a erva é ainda fresca. Uma das ovelhas, mais atrevida, olha-me fixamente, com os seus olhos esbugalhados e inexpressivos. Acho-lhe graça. Insiste em fazer contacto comigo, enfiando o focinho através dos buraços da vedação, tentando chegar à minha mão estendida. Arranco punhados de erva e fico ali, a dar-lhe lanche e a conversar com ela, fingindo que a ovelha é capaz de entender o que lhe digo: é bom, não é? Erva fresquinha, pois, vês? Hmm, ervinha boa! Quem é que é linda, quem é? 
Hoje é dia de interromper esta vida campestre e ir até à capital, para o lançamento oficial do livro "Por este mundo acima", da Patrícia Reis, com apresentação de valter hugo mãe. Para já, as minhas mãos ainda cheiram a erva e tenho os olhos cheios de verde. Daqui a pouco, terei nas mãos as páginas de um novo livro e os olhos cheios de gente que ama as palavras e as pessoas... como eu. Senão, não me arrancavam daqui. Acreditem.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Richard Jenkins

Vi-o esta tarde, como companhia durante duas refeições. Gravei-o na box, como tantas vezes faço, por instinto, sem fazer ideia de que filme se trata, se é excelente ou péssimo, porque os TVcines do Meo satélite não incluem o nome do realizador, ano, país ou actores. Depois guardo ou apago. Os primeiros minutos de um filme dão para ver se ele vale ou não a pena. E esta é uma história inspiradora, que nos deixa algumas interrogações importantes. Ainda por cima tem humor, ternura e uma imensa subtileza. Só para os mais atentos. Sem glamour. Sem malta gira, sem sexo ou corpos jovens e tonificados, sem paisagens que nos tirem o fôlego. E no entanto...é tão bom. Excelente interpretação de Richard Jenkins.

domingo, 15 de maio de 2011

Rosa Passos

...sendo que o destinatário destes versos, para quem Rosa Passos canta, pode ser um homem, a esperança, a coragem, a alegria,... enfim. Escutem e encontrem o vosso próprio significado. Eu encontrei o meu. Obrigada, Ana e Pat.

sábado, 14 de maio de 2011

Alice Vieira

Trago aqui, em jeito de amostra, a sabedoria e a generosidade dos conselhos de Alice Vieira, escritora há três décadas, e que vive os dias assim, com descontracção e optimismo e muita, muita simpatia para com os outros. Adoro esta mulher, que me ajuda a crescer e que, além do seu indiscutível valor, sempre acede a partilhar connosco o que a vida lhe ensinou. Não é qualquer um que o faz.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Prémio Camões 2011


"“É a coisa mais inesperada que poderia esperar”, disse o poeta Manuel António Pina, que acabara de saber que lhe fora atribuído o Prémio Camões de 2011, no valor de cem mil euros. “Nem sabia que estava hoje a ser discutida a atribuição do prémio”, acrescentou.


Todos os jurados levavam nas suas listas o nome de Manuel António Pina e não precisaram sequer de meia hora para chegar a uma decisão unânime na reunião que mantiveram esta manhã na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Pina torna-se assim o 23º Prémio Camões e o décimo português a receber esta consagração, se excluirmos o autor angolano nascido em Portugal, Luandino Vieira, que recusou o prémio em 2006.

O júri integrou dois jurados portugueses (a ensaísta e poetisa Rosa Martelo e o ensaísta e professor de literatura brasileira Abel Barros Baptista), dois brasileiros (o poeta António carlos Secchim e a ficcionista Edla Van Steen) e ainda dois representantes dos países africanos de expressão portuguesa: a poetisa e ficcionista angolana Ana Paula Tavares e a ensaísta são-tomense Inocência Mata.


Nascido no Sabugal, Guarda, em 1943, Manuel António Pina foi jornalista durante várias décadas e estreou-se na poesia em 1974 com o livro “Ainda Não É o Fim nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde”. No ano anterior publicara o seu primeiro livro para crianças, “O País das Pessoas de Pernas para o Ar”. Consensualmente reconhecido como um dos melhores cronistas de língua portuguesa – ainda hoje assina uma crónica diária no Jornal de Notícias –, Manuel António Pina publicou dezenas de livros de poesia e de literatura para crianças, mas só em 2003 se aventurou na ficção “para adultos”, com “Os Papéis de K.”.


Se a sua obra de ficção é menos conhecida internacionalmente, a sua poesia está traduzida na generalidade das línguas europeias. O seu mais recente livro de poemas, intitulado “Os Livros” (Assírio & Alvim, 2003) venceu os prémios de poesia da Associação Portuguesa de Escritores e a da Fundação Luís Miguel Nava."
in jornal PÚBLICO, 12 Maio 2011)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Patrícia Reis

Daqui a poucos dias chegará às livrarias esta excelente sugestão de leitura. Um texto muito bem escrito e envolvente sobre a amizade e o amor aos livros, num cenário pós-apocalíptico. Tive o privilégio de o ler antes de se encontrar vestido de livro e é com orgulho que o vejo quase quase nas mãos de bons leitores. Estejam atentos.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Subterrâneo

A vida não lhe acontecia. Era assim há vários anos. A mulher já se convencera de que o melhor seria arrasar o cume das suas altas expectativas e mudar-se de vez para um qualquer buraco debaixo das pedras. Como um bicho subterrâneo. Compreendera, enfim, que a língua que falava, o corpo infantil que lhe morava dentro, era invisível aos olhos dos que habitavam um universo de gente crescida. Jamais haveria lugar para si. Indefinida. Hesitante, como saco transparente esvoaçando numa rua em movimento. Não sendo criança nem adulta, não tinha onde pousar, não sabia para onde ir. Andava assim, perdida, escarafunchando torrões de terra húmida, para encontrar um lugar na escuridão.
Até que o telefone tocou e a vida aconteceu.
Tantos livros, tantas horas de recreio enfiada em mundos de papel, enquanto os meninos jogavam à bola e as meninas saltavam à corda. Tantos suspiros ao ver os outros passarem por si, velozes, enquanto os seus pés se pregavam ao chão, como um sonho que assusta. Afundava-se numa noite eterna, assistindo à construção de um templo celestial. Vitórias de outros, grandes e pequenos, que arranhavam os céus. Conquistas que apenas conseguia farejar, por instantes, até ser novamente arrasada por aquele deus castigador que lhe morava nos ombros, colando a sua alma às sombras. Vivia no chão, assistindo ao céu tornado negro, sem azul.
Quando desligou o telefone, entendeu que uma nova realidade lhe acontecia. Uma luz que já não esperava. E sentiu os pés leves, leves, erguendo-se acima do solo. Quando se atreveu a estender os braços, deu-se conta de que sempre tivera asas, sem saber. Então respirou fundo, preparando o embate do vento... e voou.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Solidão

Como escolhi sair da cidade e viver num lugar recôndito que nem aldeia é, tenho uma vizinha que é daqueles espécimens rústicos. Atarracada, feições anónimas, o perpétuo avental de flores, pernas arqueadas, a pele esturricada e engelhada pelo sol, as mãos calejadas pela vida dura de quem não as usa para escrever nem para tratar das petúnias de luvas de jardinagem às florzinhas - como é o meu caso -, mas sim para lavar roupa no tanque, cavar e semear a terra, cortar lenha.
Falávamo-nos só de bom-dia e boa-tarde. Pouco mais. O único assunto de conversa eram os cães: Joana, a cadela da D. Maria José, e os nossos. Até ao dia em que ela, ao ver-me fazer festas à cadela (que me mete dó por estar encerrada na passagem da vizinhança, num espaço que pouco passa de 1m2), chega-se e diz-me:
- Olhe, não me faça festas à cadela.
- ...?...
- Ela está aqui para dar sinal, ela assim fica mole, não guarda.
Revoltada e já refeita do espanto, reagi assim:
- Ai não quer que eu faça festas à Joana? Tá bem.
Virei costas e fui-me embora.
Um dos poucos prazeres que o desgraçado do bicho tinha, sendo uma golden labrador rafeira, ou seja, mimuças por natureza, eram as minhas festinhas que ela antecipava ao ver-me passar, pois conhece-me desde pequenina e claro que, como animal inteligente que é (o mesmo não se pode dizer da dona), sabe distinguir perfeitamente a senhora simpática de um qualquer estranho que passe: pelo aspecto, pelo faro, enfim, é para todos óbvio, certo?
Passaram-se várias estações sem que eu nunca mais correspondesse à atitude dengosa da cadelinha Joana, encostada à rede, de rabinho a dar a dar, à espera das festas, e sem que as duas vizinhas se tornassem a falar. Só de pensar na sua proibição ficava irritada: como é que se pode ser tão estúpido?
Até que há dias a Joana andava solta e veio atrás de mim, quando eu me preparava para fazer a caminhada habitual, em que me afasto vários quilómetros da casota dela. Ao fim de menos de 1 km, voltei para trás, para a devolver a casa, pois não pretendia deseducá-la, fazê-la afastar-se demasiado de casa, provocar o seu atropelamento ou uma fuga.
- D. Maria José...?
Ela apareceu e perguntou-me:
- Estava a incomodá-la?
(A Joana, feliz da vida e já toda enlameada, saltava à minha volta, sujando-me as calças todas, claro, e eu a rir e a fingir-me zangada)
- Não, D. Maria José, a Joana nunca me incomoda. Venho só dizer-lhe que se calhar é melhor prendê-la agora, porque ...
E lá expliquei.
Adoptando a postura de uma menina de escola arrependida, fazendo-se ainda mais pequenina do que já é, a velhota disse:
- Podemos voltar a ser amigas? A senhora desculpe...
- Desculpo o quê, D. Maria José?
- Aquilo que eu disse no outro dia...ficou zangada comigo, pois...
("no outro dia" foi quase há um ano)
- Eu? Eu nunca tive nada contra si, D. Maria José. Mas confesso que estranhei, sabe que a Joana me conhece perfeitamente, não vai deixar de lhe guardar a casa por eu lhe fazer festas. Só que me  faz pena vê-la aqui sempre presa, percebe?
- Eu sei, desculpe, sim? Eu é que não estava boa naquele dia, sabe? A senhora desculpe. Podemos ser amigas?
E eu lá respondi que sim, sabendo que não posso contar com ela para jogar trivial pursuit, ajudar-me a preencher a declaração electrónica do IRS, ir aos saldos, ou partilhar uma série de coisas que a desgraçada nem sabe que existem, como, por exemplo, este blog.
- Qualquer coisa que a senhora precise, esteja à vontade.
E eu retribuí a oferta da pobre mulher, sentindo-me aliviada por ver que o mundo ainda fazia algum sentido.
E ela:
- Não me esqueço do que a senhora e o seu marido fizeram por nós, sabe? Não me esqueço!
(Referia-se às boleias que lhes demos até ao Centro de Dia, a ela e ao marido, para não terem de ir a pé)
E assim tornei a fazer festas à Joana. Voltámos ao bom-dia e ao boa-tarde e metemos agora dois dedos de conversa de vez em quando. Boleias já não dou, pois o marido da D. Maria José morreu e ela já não vai lá sozinha. A filha aparece de vez em quando, muito atarefada e carrancuda, num belíssimo carro que destoa, ali estacionado defronte à casinha caiada e modesta. 
Agora, quando passo pela D. Maria José e a cumprimento, vendo-a estender as roupas humildes numa corda miserável ou cortando lenha como uma valente, não posso deixar de pensar que a solidão desta mulher deve ser imensa. Ainda bem que tem a Joana. Reparei que ultimamente a leva para dentro de casa mais vezes. E sempre que vejo a casota vazia dou por mim a sorrir.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Apesar de tudo

Apesar da chuva, dos relâmpagos e travões,
Apesar dos carros atolados em estradas e rotundas
Apesar de ter andado meia perdida pelos caminhos

Cheguei a casa sã e salva

Apesar de ter um Renault twingo benetton
Apesar de ele não ser um submarino
Apesar de o ter feito atravessar verdadeiros lagos
Feitos de chuvas repentinas

O meu carrito não se afogou nem se perdeu, e levou-me sã e salva até casa

Apesar da crise
Apesar da chuva
Apesar de todos os "se's" que nos servem de travão ou marcha-atrás

É preciso ir, insistir, não desistir

Apesar de não as vermos tanto como queríamos
Apesar de a vida, muitas vezes, não nos deixar

Encontramos pessoas que nos dão um chapéu de chuva
Um casaco, um abraço, um abrigo
Como se fosse ontem, hoje, sempre
E nos dizem "Fica aqui até a chuva passar"

E por isso chegamos a casa sãos e salvos
Apesar de tudo

Os livros são como essas pessoas melhores que temos na vida.

Os que não esquecemos, apesar do pó
Os que amamos sempre, apesar de não os lermos todos os dias
Aqueles aos quais pedimos socorro, quando buscamos salvação na tempestade.

Apesar do pouco dinheiro no bolso
Apesar do desespero
Apesar da preguiça

E porque, apesar da chuva, existem os livros, é preciso visitar a Feira do Livro de Lisboa, conhecer os autores, os novos espaços lúdicos, trazer livros autografados com dois dedos de conversa, conhecer gente que ama os livros como nós.

Apesar de ser Abril e de o ditado popular não ter sido esquecido
Apesar de não dar jeito nenhum

A feira do Livro vale a pena

Apesar de tudo

SITE DA FEIRA AQUI

Os sentidos na infância

SABORES/TACTO
Os chocolates REGINA, as pastilhas "Pirata" e as pirâmides de chocolate que comprava no Sr. Narciso, o café mesmo colado à nossa porta...





SONS/IMAGENS
Alguns dos discos em vinil que eu mais ouvi, entre os 8 e os 12 anos



IMAGENS/SONS
Algumas das séries que mais me apaixonavam e que eu via à hora do lanche, com uma grande caneca de leite com Nesquick e uma pilha de bolachas "Maria" com doce...



IMAGENS/TACTO
O puzzle de 500 peças que fiz tantas vezes, e cuja imagem conheço de cor, sem saber que se tratava da Divina Comédia de Dante, segundo um quadro de Domenico de Michelino, do séc.XV


IMAGINAÇÃO: OS 5 SENTIDOS EM ACÇÃO
Alguns dos livros que li vezes sem conta...as colecções inteiras, claro!





E aqui imagens vivas, para melhor matar saudades de um tempo de inocência que não volta e que guardamos como um bem precioso.




(ACRESCENTADO QUASE 2 SEMANAS MAIS TARDE, EM HOMENAGEM AO MÁRIO DE SOUSA, QUE AQUI DEIXOU, EM TRÊS COMENTÁRIOS, UMA HISTÓRIA QUE ME COMOVEU.)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Underwood, Wonderland

Depois de uma notícia publicada na imprensa, as máquinas de escrever, para os mais nostálgicos, estão na ordem do dia. Corre para aí que se anuncia o fim deste suporte de escrita, com o fecho de uma fábrica algures na Índia, que resistia ao desenvolvimento das novas tecnologias.
Desenganem-se, vá. Em primeiro lugar, porque ainda existem imensas por esse mundo fora; em segundo, porque não é bem assim...senão, vejam esta notícia saida Washington Post

Roubei a imagem aqui

terça-feira, 26 de abril de 2011

Navegando...

"Uma manhã, pelas três horas, enquanto eles sonhavam tranquilamente sob a sua mortalha de nevoeiro, ouviram como que um ruído de vozes, cujo timbre lhes pareceu estranho e desconhecido. Olhavam uns para os outros, os que estavam no tombadilho, interrogando-se num relance dos olhos:
- Quem é que falou?
Não, ninguém; ninguém dissera nada.
E, efectivamente, aquilo tinha toda a aparência de vir de fora.
Então o que estava encarregado da trompa, e que a pusera de parte desde a véspera, correu acima, soprando com toda a sua força para soltar o longo mugido de alarme.
Só aquilo já fazia estremecer, no silêncio. E depois, como se, pelo contrário, houvesse sido convocada uma aparição por esse som vibrante, uma coisa grande, imprevista se desenhara em pardacento, se erguera ameaçadora, muito alta, ao pé deles: mastros, vergas, cordame, um desenho de navio, que se esboçara no ar, por toda a parte ao mesmo tempo e de um só traço, como fantasmagorias para assustar, que, de um só jacto de luz, são criadas sobre velas pandas. E outros homens apareciam ali, a tocar-lhes, debruçados na amurada, mirando-os com os olhos muito abertos, num despertar de surpresa e de espanto.
Atiraram-se aos remos, aos mastros de sobressalente, aos croques, tudo quanto se lhes deparou de comprido e de sólido, - e apontavam-nos para fora, para manter a distância daquela coisa e dos visitantes que lhes chegavam. E os outros também assustados, estendiam para eles paus enormes para os repelir.
Mas houve apenas um ligeiríssimo estalido nas vergas, por cima das cabeças, e as mastreações, por um momento enganchadas, logo se desembaraçaram sem avaria alguma; o choque, muito suave, por aquela calma, estava completamente amortecido; fora mesmo tão fraco, que realmente parecia que o outro navio não tinha massa, que era uma coisa mole, quase sem peso...
Então, passada a surpresa, os homens puseram-se a rir; reconheciam-se uns aos outros:
- Ó gente do Maria!
- Eh! Gaos, Laumec, Guermeur!
A aparição era o Raínha Bertha, capitão Larvoer, também de Paimpol; aqueles marinheiros eram das aldeias dos arredores; o alto, de barba preta cerrada, mostrando os dentes quando se ria, era Kerjegou, um de Ploudaniel; e os outros vinham de Plounés ou de Plounerin,
- Porque é que vocês não tocaram a trompa, bando de selvagens?"
("O Pescador da Islândia", de PIERRE LOTI)
Obrigada, Bé, por não deitar fora os livros velhos do seu pai e se lembrar desta sua vizinha meia louca, que sente um prazer imenso em desfolhar as páginas bafientas e amarelecidas de edições a 6$00, forradas a papel vegetal. Neste caso, trata-se de uma obra de Pierre Loti, oficial de Marinha e escritor, que, entre outros autores, influenciou Marcel Proust na forma magistral de construir uma descrição narrativa. Sendo eu filha de oficial, sinto especial comoção em descobrir livros que me fazem recordar os tempos da minha infância. Ando a roubar dias solarengos desta Primavera, escapando-me para os mares gelados da Bretanha e da Islândia, no conforto preguiçoso da minha casa, semeada em terra firme.
Roubei a imagem aqui

sábado, 23 de abril de 2011

Agustina

Em jeito de celebração do Dia do Livro. Obrigada, P.

Lídia Jorge

Como só me aconteceu com poucos livros, li "O Dia dos Prodígios" duas vezes seguidas. Porque fiquei assim, com uma vontade urgente de regressar a Vilamaninhos e à Carminha limpando a sua janela, na primeira página. Deixo aqui uma fatia de prosa sem diálogo, em jeito de amostra de uma escrita singular, de um livro assombroso. José Pássaro Volante, Branca, José Jorge Júnior, Jesuína Palha, Macário, Manuel Gertrudes e outros personagens inesquecíveis, no prodígio das palavras que trocam uns com os outros, movimentando-se num cenário descrito em pormenor, num jeito que espicaça a nossa imaginação e os nossos sentidos. Livro maravilhoso e muito, muito português, terminado em 1978, em Boliqueime, no Algarve, de onde a autora é natural.

"Já pela tarde Carminha abriu a janela do quarto para olhar verdadeiramente a rua, e pensou. O futuro é o presente a andar lentamente para trás. Na verdade abafava-se dentro de casa ou à janela, e mesmo sobre a calçada se ouvia o sussurro dos gafanhotos pedalando de pasto em pasto. Os telhados ondulavam sobre as paredes como se fossem cair e as paredes das casas abriam bocas como se fossem romper-se. Desabar no chão. As caiações eram tão últimas que já resplandeciam de amarelo e se listavam de ocre definitivo. As lagartixas postavam-se esgalgadas como se fossem donas de todos os muros. Pelos quintais as piteiras de folhas e espinhos estavam espetadas e ferozes como se fossem unhas. Aceradas. Atrás das casas as oliveiras  estavam cinzentas como se fossem mariolão do mato. Mas sem flores. O rio em baixo tão seco como se fosse uma estrada de pó, o mar distante como se fosse uma fotografia. E do outro lado, a linha da terra esbatia-se cinzenta na luz como se fosse deserto. Carminha recolheu o olhar sobre os pés. Os ladrilhos tão fendidos como se fossem mosaico, o algermolho de vinagre como se fosse purgante, o orégão cheiroso como se fosse incenso. E as paredes. Levantadas como se fossem prisão de todos os móveis. Carminha desviou o cortinado. Pelas ruas as sombras nítidas como se fossem pintadas. Independentes dos seres. As gateiras tão largas como se fossem para bácoros. E as cavalariças. Sabia-se. Tão cheias de palha como se fossem só para galinhas. Pelas cozinhas, espirros tão fortes como detonações de cuspo e ar. Pelos postigos, cabeças pretas espreitando como se fossem vigias,  e no largo homens suando como se fossem de sal. E o sol tão rubro como um forno incendiado. Um afrontamento na alma. A tarde inteira a cair como se fosse uma porta. E Carminha pensou. O pó desta casa. Pode-se pegar pelas pontas e dobrá-lo. Fazer com ele um embrulho como papel de jornal."
(LÍDIA JORGE, 1º romance, 1980)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Filosofices VI

Se eu voltasse a ser uma criança, havia de querer fazer uma série de perguntas que na altura não me ocorreram. Agora que sou crescida, até parece mal, mas mal que pergunte...

Se eu te tratar por tu consigo dizer contigo, mas se o tratasse por você tinha de conseguir dizer consigo?

Porque é que os segundos do relógio não se chamam terceiros? Em primeiro lugar, vêm as horas; em segundo, os minutos; em terceiro, os segundos, ou não é? Então, pronto, chamavam horas às horas, primeiros aos minutos e aí, sim, fazia sentido chamar segundos aos segundos…digo eu.

Porque é que as prisões não se chamam “detergente”, se detêm gente? E o detergente propriamente dito, não devia chamar-se deternódoas ou detersujo? São coisas que não consigo perceber.

Não gosto de caçadores, mas gostava que os homens caçassem a dor. isso é que era, não era?

Já uma vez falei das ameias e dos merlões chanfrados - que parecem doidos, mas não são - e continuo sem perceber: porque é que as ameias se chamam assim? Eram partilhadas pelos seteiros? Dois em cada buraco, a meias? E já agora, porque é que as meias dão a entender que se ficam por metades, se são uma peça inteira? Há meias desirmanadas…podemos dizer então que são quartas? Se eu dissesse “perdi uma quarta”, todos entenderiam, certo? É tudo uma questão de lógica, acho eu. Mas se alguém me perguntar se eu gostei das meias que me ofereceu, posso sempre responder: “amei-as!”

E o verbo "demonstrar" é tirar o monstro?

Pronto, isto era o que eu perguntava se fosse criança, mas agora sou crescida, já não dá.

(pesquise em "Filosofices" I, II, III, IV e V para mais)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Óculos de sol

Arrumar os cantos à casa, com vagar, acaba sempre por representar várias viagens no tempo: uma fotografia que espreita, uma carta, um postal, um guardanapo escrevinhado, um torrão de açucar que guardámos num aceso de sentimentalismo. De filhos e sobrinhos que crescem tão depressa nem é bom falar. Fico-me pela música, por imagens que me fazem sorrir, a pensar nas figuras que fazemos quando somos novos - a brincar ou em trabalho - neste caso concreto, em ambas, pois tive a sorte de escolher uma profissão de que gosto e com a qual me divirto. Aqui, no Verão de 1993, nos Açores, no espectáculo "Uma Noite na Obra", da autoria de Júlio Isidro. Parece que estou a ouvir-me cantar aquele número meio cómico, acompanhada pela nossa banda...


Óculos de sol (intérprete: Madalena Iglesias)

Já arranjei muito bem
Tudo quanto convém
P'ra praia levar
O pente, o espelho, o baton
E um creme muito bom
P'ra me bronzear
O meu rádio portátil
E o bikini encarnado
Também estão no meu rol
E como é bom de ver
Não podia esquecer
Os meus óculos de sol
Refrão: Que levo p'ra chorar uuuuhuh
Sem ninguém ver
P'ra não dar uuuuhuh
A perceber
P'ra ocultar uuuuhuh
O meu sofrer
Pois eu sei que te hei-de encontrar
Talvez deitado à beira-mar
Com outra lado
E eu vou passar
A tarde a chorar

terça-feira, 19 de abril de 2011

Patrícia Reis

Finalmente, ao fim de três anos e meio de muito trabalho, vai sair o novo romance de Patrícia Reis, mesmo a tempo da feira do livro. Como já vai sendo habitual nesta autora, tem um título maravilhoso: "Por este mundo acima". A acção passa-se num cenário pós-apocalíptico e é um tributo inesquecível à amizade. Como a Patrícia Reis costuma dizer, afinal, o mais importante são as pessoas. Este livro é uma excelente ilustração deste princípio. Poderão encontrá-lo na Feira do Livro e nas livrarias a partir de maio. Da minha parte, assim que puder vou comprar - não um - mas vários, para oferecer a quem é importante. Será um bom presente, um bom (pre)texto para dizer aos outros aquilo que por vezes não sabemos dizer.

domingo, 17 de abril de 2011

Citando...

Limpando o escritório ao som do álbum "Back to Bacharach" de Steve Tyrell, escuto uma frase de Hal David que me chamou a atenção:

"A room is not a house
A house is not a home"

Bem visto. Se pensarmos bem no que pode significar.

Bom Domingo

Fiquem-se com este video ma-ra-vi-lho-so, em jeito de celebração do Dia Mundial da Voz.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ao domicílio

Ao fim da manhã recebemos a visita do Zé Manel e da Bé, nossos queridos vizinhos. Traziam dois sacos: um com hortaliças e frutas semeadas e colhidas por eles próprios; outro com livros velhos, aos quais a Bé já sabe que não consigo resistir. Pearl S.Buck, Tolstoi e Condessa de Ségur à mistura com laranjas, limões, espinafres, nabiças e coentros. Tudo oferta, em nome da boa vizinhança. Aqui no campo é assim. Pode aparecer uma aranha verde na mangueira, uma coruja na lareira ou um ninho de pássaros na árvore de Natal guardada na oficina; mas também temos frutas, legumes e literatura ao domicílio, embrulhados em cavaqueira e galhofa, enquanto os cães ladram, excitados com a visita matinal. Obrigada Zé Manel e Bé, por enriquecerem e alegrarem os nossos dias com boas recordações.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Boa semana

Por brincadeira, os pais de Jonathan, de apenas 3 anos, filmaram-no a dirigir o 4º movimento da 5ª Sinfonia de Beethoven, pela Orquestra Filarmónica de Berlim, sob a regência de Herbert von Karajan. Irresistível, este video, que se tornou num campeão de audiências  no mundo inteiro. Vejam porquê.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A corda

Elvis Veiguinha fez este pequeno filme como exercício para a Academia de Cinema de Nova Iorque. Os miúdos que transportam a dita são o meu filho (o louro) e os meus dois sobrinhos, Sebastião e Micas. Este já fica de recordação e ninguém me tira. Obrigada Elvis e P.

A Corda - Rodrigo Leão from Elvis Veiguinha on Vimeo.