quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Morreu Steve Jobs


"Estamos cá para deixar uma marca no universo"


"Visionário, criativo, irascível, místico, carismático, um dos maiores inovadores, senão o maior, da era digital. Morreu aos 56 anos e deixou a sua marca na vida de milhões de pessoas.

Saiu de cena há menos de dois meses com uma missiva curta e directa: "Sempre disse que se chegasse o dia em que não conseguisse cumprir com as minhas funções e expectativas como presidente executivo da Apple, seria o primeiro a informar-vos. Infelizmente, esse dia chegou".
Ontem à noite, Steve Jobs não resistiu mais à doença contra a qual lutou desde 2004, um cancro no pâncreas.
A sua morte acontece no dia a seguir à estreia do seu sucessor, Tim Cook, no palco dos lançamentos da Apple que Jobs tornou míticos. Uma espécie de última homenagem ao homem que revolucionou não apenas uma indústria, mas a forma como as pessoas comunicam e se relacionam no século XXI.
Jobs foi quase sempre precoce. Nasceu em 1955, em São Francisco, cidade que seria capital, na sua adolescência, do movimento hippie. Ainda na escola telefonou um dia ao então presidente da HP, William Hewlett, o próprio, para lhe pedir peças para um projecto que queria desenvolver.
Conseguiu não só as peças como um estágio de verão na empresa. Fã de Bob Dylan e também dos Beatles, Jobs cresce num ambiente favorável à sua natureza anti status quo que ao longo dos anos iria reforçar.
Foi adoptado por Clara e Paul Jobs que prometeram à sua mãe biológica, Joanne Simpson, dar uma educação universitária a Steve. As coisas não correram exactamente como planeado: ao fim de um semestre, Jobs desistiu do Reed College. Um dos seus primeiros empregos foi como designer de jogos para vídeo na Atari, emprego esse que viria a deixar para poder viajar para a Índia.

Fundou a Apple com apenas 21 anos, em sociedade com o amigo Steve Wozniak, e foi pai pela primeira vez aos 23 anos, de uma rapariga, Lisa, cuja paternidade negou durante vários anos. Posteriormente teve mais três filhos no seu casamento com a actual mulher, Laurene Powell.
O primeiro produto Apple - o Apple 1 - foi construído na garagem dos pais de Steve Jobs, como mandam as boas novelas épicas de negócios do século XXI ( e de sempre). O sonho americano começava em 1976 e o financiamento foi parcialmente obtido com a venda de uma carrinha VW de Jobs. O Apple 1 era garantidamente uma proposta diferente: não tinha teclado nem ecrã, tinha de ser montado pelos clientes e custava 666.66 dólares.
No ano seguinte, os dois sócios apresentaram o Apple II que foi recebido com grande entusiasmo. Era o princípio de uma nova era suportada em evidências hoje tão banais quanto o facto de as pessoas preferirem usar um rato para interagir com o computador e poderem clicar em imagens "para fazer coisas" em vez de escrever textos com instruções à máquina. Os interfaces gráficos assumiam-se, assim, desde o primeiro momento como uma poderosa arma Apple. Depois de um bem sucedido lançamento do Macintosh em 1984, Jobs sairia da Apple em 1986 na sequência de confrontos regulares com colegas e com o CEO que ele próprio tinha ido recrutar à Pepsi, John Sculley .
O que poderia ser para muitos um fim de linha, revelou-se para Jobs um novo começo.
Fundou a NeXT e seguiram-se 10 anos de um outro caminho, à margem da Apple, onde conheceria momentos de extraordinária oportunidade, como foi o da compra dos estúdios Pixar a George Lucas, ainda antes de sucessos como Toy Story.
Em 1996, num volte-face digno dos filmes, a Apple compra a NeXT e Jobs está de regresso à sua criação original. Mais velho, mais experiente e igual e em tudo o resto, Jobs inicia à frente da Apple uma nova e genial etapa, em que seriam criados alguns dos objectos e plataformas que moldam o mundo de hoje: iTunes (2003), Iphone (2007), App Store (2008), iPad (2010).

Jobs deixa uma empresa que vende mais 275 milhões de iPods 100 milhões de iPhones e 25 milhões iPads em todo o mundo. Deixa mais do que isso: uma visão e um exemplo de que é mesmo possível mudarmos o mundo. "
(in SAPO.pt NOTÍCIAS)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Dia Mundial dos Animais

[1º+dia,+junto+à+porta.JPG]
Em Abril de 2009 o meu marido saíu para ir ao supermercado e chegou com um cão. Estava no canil de Torres Vedras e ia ser abatido. O Chico (que adoptámos como rafeiríssimo e se revelou um podengo  médio de pelo cerdoso puro) cresceu e tornou-se num cão espectacular: é meigo, saudável, muito esperto, brincalhão e cómico.
Nunca nos arrependemos de o ter salvo, pelo contrário, estamos agradecidos pela alegria que ele dá à nossa casa. A ideia de adoptar um animal só é complicada e irrealizável antes de se concretizar. Depois, a vida dá um jeito e acabamos por descobrir que foi uma excelente decisão. Chegamos mesmo a interrogar-nos sobre quão mais vazia era a nossa vida antes de contarmos com a sua companhia. Um pouco como a ideia de ter filhos: tê-los é uma experiência trabalhosa, sim, mas abençoada. É tão fácil adoptar um animal. Eles precisam da sua ajuda. 
Saiba como ajudar:
http://www.animaisderua.org/
http://www.liveloveandcare.org/
http://www.lpda-pt.com/

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Cookies

A massa pronta para os biscoitos. O meu filho de 15 anos ordenou:

- Mãe, a partir de agora, tens de fazer biscoitos todos os fins de semana. Com receita a dobrar! Deixas a massa pronta e na 6ª feira, quando eu chegar cedo do Conservatório, fazes as bolinhas e metes no forno.

A estratégia é simples: em primeiro lugar, para se empanturrar de biscoitos no fim de semana; em segundo, para poder chegar a casa, roubar pedaços de massa crua e, pouco depois, sentir o perfume dos biscoitos  acabados de fazer. Sabe bem o que quer na vida, este rapaz. Vai longe!   

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Maria Luíza

MARIA LUÍZA NUNES DA SILVA

1898 - 2011

Ontem morreu a minha bisavó. Era, desde 2009, a mulher mais velha de Portugal. Era mãe do padrasto do meu pai (perceberam?), ou seja, mãe do meu avô Zé, segundo marido da minha avó paterna, Mimi. Ele, o meu avô Zé, morreu em Junho de 2005, quando eu própria estava internada no hospital, com uma infecção grave nos olhos. lembro-me de ele recordar um diálogo que tinha volta e meia com a mãe e que fazia sempre rir toda a gente, por razões óbvias: 

Maria Luíza: Anda lá almoçar comigo, Zé, nunca sais, és um chato!

Zé: Ó mãe! A mãe esquece-se que eu sou um velho! 

Com mais de noventa anos, a Maria Luíza ainda subia a Rua das Pretas, em Lisboa. Era a 11ª mulher mais velha do mundo. Morreu com 113 anos de idade. Só lamento que o meu filho, hoje com quase 16 anos, não tenha chegado a conhecer a trisavó, que já estava internada num lar há vários anos, mas que, apesar de se mover de cadeira de rodas, ainda bebia o seu cházinho e dava dois dedos de conversa. É nestes momentos que sentimos a tristeza de adiarmos indefinidamente coisas que não podem ser adiadas. E a morte também não pôde esperar mais. A minha bisavó deixou uma imensa prole atrás de si. Se quiserem encontrar mais informação, espreitem AQUI

domingo, 25 de setembro de 2011

Comer orar amar

Eu sei, já vem tarde. Todos conhecem este filme, baseado no livro de Elizabeth Gilbert e numa história verídica. E é engraçado como me cruzei com ele só agora, com decisões já tomadas que por coincidência vão ao encontro da mensagem deste filme. Os contornos das histórias mudam mas, no fundo, andamos todos à procura do mesmo, certo? Para quem não conhece o filme, recomendo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sangria

Ergueu-se da cadeira e pensou: Ai é? Não consigo escrever? 
Preparou uma salada de rúcula com queijo parmesão ralado e vinagre balsâmico, que colocou junto a duas fatias de salmão fumado temperadas com pimenta preta, um pouco de salsa e cebola picadas e sumo de limão. Com um esgar desafiador para consigo mesma serviu-se de dois copos generosos de sangria e bebeu-os com alguma sofreguidão, na esperança de entornar a prosa fértil sugada do seu espírito através dos efeitos do álcool. Para surpresa sua, as palavras surgiram sem dificuldade e, ao chegar ao ponto final do seu texto, a mulher olhou assustada para o copo vazio e disse-lhe


Contigo não há mais conversas. Julgas que chegas aqui, sem mais nem menos, e me arrancas aquilo que quero dizer? EU é que escrevo, não és tu!


Se não fosse capaz de entornar as palavras, ao menos que as fosse dispondo, uma a uma, morosamente. Uma prosa tecida ponto a ponto, sóbria, de passos seguros, para que não perdesse o controlo da sua própria história. 
Deitou-se, fechou os olhos e, teimosa, desperdiçou o artifício fácil. A arrogância da sua preguiça. E quando se cansou de navegar através de ondas feitas do sumo cálido e morno das amoras, dos mirtilos, morangos e framboesas, adormeceu. Certa de que o sabor das bagas seria suficiente para tecer sozinha o seu manto silvestre.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Sean Connery

Vi anteontem um filme feito à minha medida: inspirador, divertido, emotivo, estimulante. Uma história centrada em William Forrester, um escritor famoso que vive há décadas encerrado no último andar do seu apartamento situado no Bronx. Acontece o encontro com um rapaz negro e muitíssimo talentoso, com apenas 16 anos de idade, a quem é dada a oportunidade de realizar um sonho. A história e o que está na sua essência (a amizade, a lealdade para consigo mesmo, a integridade) fazem lembrar o filme "Perfume de Mulher", com Al Pacino.  Recomendo a quem gosta de bons filmes, e em especial aos que amam a escrita e os livros. Um filme precioso.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

domingo, 18 de setembro de 2011

Tempo preso

Às vezes deixo a mão correr como uma lenga-lenga a escrever por aí abaixo. Hoje saíu-me isto, em dois ou três minutos. Experimentem, pode ser terapêutico....

Tempo livre, tempo livro
Tempo preso, preso à porta
Porta perra, dobradiça
Movediça, enguiço, enguiça
Linguiça, porta fora
Porta-moedas, noves fora
Nada à vista
Nada às cegas
Cego nó na noz-moscada
Mosca-morta, mascavada
Mascavado, açúcar branco
Branco negro, negra vida
Vida nossa, bossa-nova,o nosso pão
Duro e pouco
Poupa a fome, poupa o tempo
Tempo livre, tempo preso
Preso à porta, não se importa
O portão ou a cancela
Vem cancelar a saída
Em seguida  diz ao vento
Que é pedra, sentimento
Sinto muito, diz o vento
Num lamento, ventania
Vem, avia a tua dor
Tão dorida de coçar
Coça o braço, o nó, o laço
Num abraço de coragem
Vem comigo, não te escapes
Nesse escape, asfixia
O ar sujo que respira
Fundo e voa
Tempo preso, tempo ileso
Tempo livre

sábado, 17 de setembro de 2011

quem me dera

Apetecia-me fugir para um lugar assim. São capazes de compreender este meu estranho desejo?


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Maravilhas da natureza

Video fascinante que mostra águias-marinhas em técnicas de caça inacreditáveis: o modo certeiro com que apanham o peixe à superfície ou no fundo das águas, a forma de se sacudirem em pleno voo, como cães, o peso que carregam. Obrigada, Nanã. E votos de bom fim de semana para todos.
ARKive video - Osprey - overview

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Escrita


Hoje, frente a uma tigela de gaspacho e um copo de vinho branco (ok, dois), revi mais um filme romanceado sobre o mito da vida dos escritores, que tantas fantasias faz nascer na mente dos autores principiantes: cenários hollywoodescos em cor sépia, cujo protagonista, em voz off, sob uma cuidada banda sonora, vai narrando a angústia dos seus dias como escritor, confessando-nos a miséria do seu quotidiano, intercalada com a salvação que chega com um cheque miraculoso, pelo correio, graças a um conto ou outro publicado no jornal. Ou mesmo a confiança de um adiantamento para que o escritor, a partir de um conto, escreva o seu primeiro romance! E claro que não pode faltar a grande história de amor proibido com final dramático. Sorrindo, consciente de que alimentava o meu lado ingénuo com histórias da carochinha, encontrei uma boa frase, na boca do suposto editor famoso e experiente. Dizia mais ou menos isto: é claro que sente que não tem o que escrever! Um escritor não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo; ou bem que se vive, ou bem que se escreve; se está sentado na cadeira a escrever, não pode ir lá para fora viver; o difícil está em fazer muito com pouco. Esse é um dos encantos da escrita.

É isso, tirar o melhor partido do que se viveu. Fazer o máximo com o pouco que se tem. Não se trata de ir viver para ter sobre o que escrever, mas sim escrever sobre aquilo que se viveu. Nem que seja o ter ficado anos preso num quarto escuro, pois na escuridão cabe o mundo inteiro. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Curriculum vitae

Nos tempos que correm, parece-me adequado deixar aqui esta sugestão para os que andam (ou andarão) à procura de trabalho numa empresa. Como diz a expressão "Não há uma segunda oportunidade para provocar uma primeira boa impressão".

domingo, 11 de setembro de 2011

"José e Pilar"

Hoje, no dia em que se completam 10 anos sobre a catástrofe ocorrida em Nova Iorque, apercebo-me de que quase tudo foi dito acerca do ataque às torres gémeas, de entre tantos artigos que têm sido publicados, tantos filmes, livros e documentários; e justas homenagens feitas às vítimas e a todos aqueles que se transformaram em heróis mais ou menos anónimos. É certo que os momentos mais dramáticos da História nunca poderão ser desprezados nem esquecidos, mas notícias felizes precisam-se. As almas estão famintas de consolo e de alimento. Por isso escolho homenagear um ibérico que é para nós motivo de orgulho: José Saramago.
Este documentário é candidato aos óscares de Hollywood. Aqui fica o trailer de lançamento. Para mais informação, espreitem o site da Fundação Saramago aqui

sábado, 10 de setembro de 2011

BBJ - Big Band Junior

Aproxima-se o início do segundo ano da BBJ. Aqui fica o video promocional para orgulho desta mãe :) Para quem não sabe, o meu é o loirinho de óculos, saxofonista.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

When Nuno Met Lia

Para o Nuno e a Lia, que casam hoje! Os mais sinceros votos de felicidades. Lá estaremos para celebrar o acontecimento :)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Lembrar. SEMPRE.

Nunca é de mais lembrar. Sobretudo (desculpa, P., eu sei que é um casaco:)) nos tempos que correm, em que impera o pessimismo. E pior, o derrotismo. Fé precisa-se. Venha ela de onde vier. A fé que se tem em Deus. Em nós mesmos. Nos que amamos. As derrocadas acontecem. Sempre aconteceram e irão continuar a acontecer. Mas essa fé, essa forma apaixonada e crente de estar e de ver o mundo, é capaz de diluir a sua importância. Pergunto-vos: somos ou não capazes de escolher a forma como nos iremos sentir face a qualquer obstáculo? Temos ou não a força interior para escolher entre ficar desesperado ou reagir de forma construtiva? Porquê deixarmo-nos paralisar pelo medo, quando podemos enfrentá-lo e avançar? A maioria dos nossos receios nunca se concretiza. Já pensaram nisso? Face à questão pessimismo/realismo/optimismo, é ou não é melhor optarmos por assumir uma atitude optimista ao invés da oposta? Porquê carregarmos um fardo tão pesado, quando o podemos tornar mais leve? Volto a repetir uma frase maravilhosa de um autor anónimo, que encontrei citada num livro e que uma grande amiga já tinha partilhado comigo:

Os anjos voam porque se fazem leves. 

E agora recebam de peito aberto esta canção e deixem a inspiração entrar.

sábado, 3 de setembro de 2011

"Rentrée"

Resoluções da "rentrée":
- expandir a zona de conforto
- Enfrentar os medos
- Deixar de dizer "tenho que". Trocar por "posso"
- Sorrir. Sorrir sempre.
- Fazer mais exercício físico
- Não desistir
- Dar mimos aos que amo
- Falar com estranhos
- Escutar
- Rodar os ombros. Não desesperar
- Abandonar as queixas e os sentimentos de culpa
- Rodear-me de gente iluminada. Fugir do resto.
- Estabelecer prioridades
- Dar, dar, dar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

As crónicas de Narnia

Nunca perdemos por completo o nosso lado infantil. Todos temos uma fatia de criança que nunca nos abandona. Nem mesmo quando achamos que somos muito crescidos. Se assim não fosse, não se escreviam livros de fantasia, nem se fariam filmes, nem peças de teatro, nem ilustrações, músicas, danças, jogos, brinquedos. Não se daria vida a animais falantes, faunos, gigantes, minotauros, feiticeiras e portas mágicas. E quão mais pobre seria este nosso universo...! Aceitar a imaginação que nasceu connosco e nos acompanhou ao longo da infância é poder, em qualquer idade, atravessar o espelho e entrar em mundos maravilhosos. Viver, na segurança do nosso recanto, aventuras com final feliz. É dar uma oportunidade à inocência. Entregar-nos a uma doce evasão que nos faz sorrir e nos retempera as energias. Erguendo-nos os pés do chão, dando-nos alento para enfrentar a realidade. Fazendo-nos esquecer o lado fastidioso da vida. Mesmo que por instantes apenas.  
E por isso hoje escolhi ser criança outra vez. Durante a tarde, de olhos brilhantes e respiração suspensa frente ao televisor, vi, pela primeira vez, este filme baseado na obra de C.S. Lewis. Maravilhoso.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Setembro

Agosto terminou e eis que a vida vai regressando à sua respiração habitual. É preciso chocalhar a preguiça da estação, tomar fôlego, tirar a poeira da mesa, guardar as havaianas. Devíamos pôr este verão de castigo. Portou-se muito mal, o menino. Andou a fingir que trabalhava, deu imensas faltas, teve péssimas notas no teste final. Mas passa sempre de ano, o patife. Decerto ainda teremos uns dias de consolo, uma espécie de aulas de compensação, de uma segunda chamada, para recuperar a dignidade estival. E enquanto esses dias não chegam, dou um jeito à casa, ponho a correspondência em dia, junto-me à corrente que anuncia a "rentrée". Regresso à escrita com novo fôlego. Leio, pela terceira vez, um livro que me lembra aquilo que já sei e que tendo a esquecer. Insistir. É urgente insistir até entranhar. Lembrar que a vida não é para se ver da janela. Que os anjos voam porque se fazem leves. Que somos estudantes numa imensa universidade. Que é preciso sermos escultores todos os dias. Devagarinho, cinzelando, dando forma, corrigindo, até encontrarmos a nossa imagem mais verdadeira e varrer, sem culpa nem remorso, o que ficou para trás. Pois é parte da obra. Também as sobras foram e serão o nosso alimento. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

"A arte não pode ser política, nem sujeição social, nem glosa duma ideia que faz época; nem mesmo pode estar de qualquer forma aliada ao conceito «progresso». É algo mais. É o próprio alento humano para lá da morte de 
todas as quimeras, da fadiga de todas as perguntas sem solução."

(AGUSTINA BESSA-LUÍS)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Sabedoria

A sabedoria anda por aí, espalhada pelos filmes, nas páginas dos livros, na boca das pessoas, empurrada pelo vento. E nós, na distracção dos dias, percorrendo as ruas e chutando pedras no caminho, vamos por vezes tão alienados que somos incapazes de ver o que nos vibra nos olhos e ouvidos, o que se encontra debaixo dos nossos pés. A sabedoria banalizou-se, na respiração acelerada em que vivemos. Na abundância oferecida às golfadas, como água em bocas secas. Na ânsia de devorar o tempo. E no meio desse redemoinho é difícil ouvir o coração bater e renovar o sangue viciado. Quem me dera que o mundo metesse travões a fundo, para podermos apear-nos e ir a pé. Talvez desse modo fosse possível reparar no caminho que percorremos e, quiçá, mudarmos de rumo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Renovação

Por vezes as relações humanas são como os seres vegetais. Ramos secos que já não vingam, esforçados, desistentes, fracassados. E se lhes tivermos amor, precisamos de reunir coragem e segurar nas mãos decididas a tesoura de podar. Desbastando sem piedade, suspirando ao ver acumularem-se no solo pequenas flores que despontavam no extremo dos ramos moribundos, sabemos que o tempo irá trazer renovação. E um dia olhamos atentamente e descobrimos as folhas tenras, a promessa de uma flor, onde  a vida já não parecia possível.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A fatalidade do Não

A palavra de que eu gosto mais é não. Chega sempre um momento na nossa vida em que é necessário dizer não. O não é a única coisa efectivamente transformadora, que nega o status quo. Aquilo que é tende sempre a instalar-se, a beneficiar injustamente de um estatuto de autoridade. É o momento em que é necessário dizer não. A fatalidade do não - ou a nossa própria fatalidade - é que não há nenhum não que não se converta em sim. Ele é absorvido e temos que viver mais um tempo com o sim. 

José Saramago, in 'Folha de S. Paulo (1991)'
Roubei no site "CITADOR"

domingo, 14 de agosto de 2011

Universo

Um verso apenas
Para enumerar as paixões
Para chorar nossas penas
Ou quebrar ilusões
Um verso só
Músculo ínfimo
Minúsculo, íntimo
Transformado em pó
Se no início era o verbo
E nele existe movimento
Em quietude me pergunto
Será o inverso o fim?
Neste meu pensamento
Inscrevi um mundo imerso
Com uma palavra apenas
Fiz nascer algo perverso
Um verso apenas
Um verso só
Eis o meu solitário 
Universo


(VERA DE VILHENA)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Uma boa surpresa

O carteiro afastou-se na sua mota. Para trás deixou um rasto de cães ladrando com fúria. Despedi-me do sol, já alto, e vim vasculhar o correio virtual. Um postal de parabéns enviado pela escritora Alice Vieira: imagens a transbordar de natureza campestre, uma canção de fundo, numa voz feminina, a celebrar os meus sonhos e isto de eu estar no mundo e torná-lo melhor, como se eu fosse importante e fizesse falta. Enterneço-me e sorrio pelo privilégio desta amizade à distância. Admiro a força e generosidade desta mulher que, na vertigem em que o seu corpo se encontra, inventa ainda tempo para mimar os amigos e contagiar-nos com a seu bom humor.
Lembro-me que ainda não fui ao correio. Desço as escadas e acaricio o serra da estrela que faz a sesta à sombra, amolecido pelo calor da tarde. Retiro o recheio da caixa branca. Desta vez não traz contas para pagar, mas uma boa surpresa: um postal brilhante e colorido, a transbordar de infantilidade e inocência, minuciosamente preenchido, transformado em carta. Anuncia e explica a escolha do presente. Chega-me de uma amiga do coração, descoberta ainda a cheirar a novo como tinta fresca: a Ana Maria. Ambas lemos, há pouco tempo, a biografia de Clarice Lispector, que deixa em nós a urgência de conhecer a obra integral da escritora. Uma sugestão preciosa da Patrícia Reis, que pelo caminho vai semeando boas leituras. E é com prazer que retiro do grande envelope o meu presente: "Perto do Coração Selvagem", o primeiro romance publicado de Clarice Lispector, escrito na adolescência.
Obrigada, amiga! Receber coisas destas pelo correio é um consolo para a alma. E estamos todos a precisar tanto de consolo, não acham?

Mais

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Restart

Malas no carro, beijos e abraços, agradecimentos mútuos, votos de boa viagem e de continuação de boas férias. O carro partiu embalado por mãos que acenavam em despedida. Entre a bagagem um frasco de doce de amora, depois de uma investida a seis pelas matas carregadas de silvas e frutos silvestres. Soube a pouco. O tempo voou. Ficaram por cumprir muitas horas: tardes de preguiça entregues à leitura, a praia, outros filmes e lugares, os crepes com molho de chocolate, o desfecho de tantas conversas interrompidas pelo riso, pela arrogância das ideias que se entrelaçam noutras. Ficou a promessa de um fim de semana de outono, com lareira e vinho tinto, a paisagem fresca e fértil, retemperada pelas chuvas.
Fecho a porta e regresso à vida de antes. À palavra escrita. À preguiça. Aos livros. À solidão deliberada de quem trocou a vertigem urbana pelo silêncio de uma paisagem campestre. Respiro fundo e deixo entrar a resignação. Passo os olhos por esta meia dúzia de dias e chego à conclusão de que existe um certo conforto na tristeza de ver alguém partir. A prova palpável de que vivemos algo que vale a pena repetir.
Obrigada Vasco, Rita e Matilde.
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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A tristeza dos portugueses

"Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal. 
Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.
Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristesacompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós." 

Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa'

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Recomeço

Por vezes é preciso chegarmos ao fim da estrada 
para sabermos aonde queremos ir.


Imagem: "Pier end", autor desconhecido.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Booker Prize

Já se conhecem os títulos que integram a long list do Man Booker Prize 2011:
Julian Barnes, The Sense of an Ending
Sebastian Barry, On Canaan's Side
Carol Birc, Jamrach's Menagerie
Patrick deWitt, The Sisters Brothers
Esi Edugyan, Half Blood Blues
Yvette Edwards, A Cupboard Full of Coats
Alan Hollinghurst, The Stranger's Child
Stephen Kelman, Pigeon English
Patrick McGuinness, The Last Hundred Days
AD Miller, Snowdrops
Alison Pick, Far to Go
Jane Rogers, The Testament of Jessie Lamb
DJ Taylor, Derby Day



No dia 6 de Setembro irá ser divulgada a short list. No dia 18 de Outubro conhece-se o vencedor.
Roubei a notícia aqui

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Stop

Às vezes é preciso respeitar o cansaço. Usar todas as nossas forças para travar.

sábado, 23 de julho de 2011

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Please wait...

INSTALLING SUMMER.....
███████████████░░░░░░░░░░░░░░ 44% DONE.
Installation failed. 404 error: Season not found. The season you are looking for might have 
been removed, had its name changed, or is temporarily unavailable. Please try again.......
Roubei a imagem aqui
Obrigada, Ana Maria.

sábado, 16 de julho de 2011

duelo gramático

Meu, um velho pronome, estava velho e gasto. E andava sempre mal disposto, pois ninguém respeitava o seu nome. Um dia cruzou-se com um substantivo freak, que com um sorriso de quem está bem na vida lhe perguntou:

- Oi, meu. Tudo bem?
- Não te conheço. Como é que sabes o meu nome? Como é que te chamas?
- Calma, meu. Tu és o meu amigo. Certo? Tá-se bem.
- Chamas-te Calma? Ok, Calma. Sim, eu sou o Meu. Mas diz-me lá, porra, COMO É QUE TU SABIAS O MEU NOME? O nome é MEU!
- Ah, tá-se bem. O teu nome é Meu.
- O raio que é teu, Calma! O nome é meu! É MEU OUVISTE?
- A malta assim não se entende, meu. Deixa-me apresentar-me...
- Ai pois não nos entendemos, não! Mas então não te chamas Calma?
- Não, pá. Onde é que foste buscar essa ideia, meu?
- Quando eu te perguntei como é que te chamavas, respondeste-me "Calma, meu".
- Aaah, já percebi. Nessa altura ainda não sabia o teu nome. Estava só a dizer-te para teres calma, meu.
- Ah, também já percebi. E já vi que tens a mania de terminar as frases com o meu nome.
- Ya, meu. Tá-se bem.
Meu suspira e responde, algo envergonhado:
- E afinal como é que te chamas? És um substantivo, certo?
- Sou, mas não sou lá muito certo...!
Riem-se agora os dois. E o substantivo responde.
- Sou o Amenidade. Mas todos me tratam por Amen.
- Boa. Hey-man!
- Vês, Meu? Já estás mais na boa, assim tá melhor. E tens de aprender a ser menos possessivo, meu. Mudar essa tua natureza.
- Amen.
- Sim...?
- Sim o quê?
- Ias a dizer-me alguma coisa?
- Não, estava só a concordar contigo.
- Ah. Tá-se bem, meu.
- Tá-se.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Visual

Hoje apeteceu-me mudar o visual deste blog e torná-lo mais leve, mais céu, a condizer com a estação. Troquei o encarnado-escuro pelo azul celeste e branco. Já basta o que basta, a nossa vida andar tão pesada. Dias light precisam-se. A ver se saímos do chão e começamos a voar como os anjos.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

terça-feira, 5 de julho de 2011

Confiança

Na escuridão, a mulher deu a mão à irmã e deixou-se conduzir.


Vá, confia em mim, tu és capaz!


À sua frente, um abismo que ela, na sua cegueira quase total,  não conseguia ver. Mas havia a confiança e por isso saltou. Enquanto caía, não pôde deixar de pensar que aquela era uma viagem maravilhosa, a mais bela que fizera. Só por existir o salto. Aquele saltar cegamente, de olhos abertos e inundados de coragem. E que o chão que a esperava só tinha a importância que ela lhe desse.
Imagem: NANÃ SOUSA DIAS. Roubei aqui

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Uma boa sugestão de som para este verão. É malta da Hungria e são bons. Enjoy.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Cinco

Chegaram com mochilas e sacos. Foram farejando os cantos, instalando-se, a encontrar o seu lugar na casa. Sempre juntos. Mesmo na diferença. Agarraram com mãos e bocas ávidas a liberdade que lhes foi dada. Uma bandeja feita de transgressões de que por vezes é feita a felicidade. E no auge do sangue juvenil que lhes corria nas veias, admiraram um céu cheio de estrelas, coreografaram as águas numa dança agitada e algo perigosa, mimaram os sentidos, riram, disparataram, beberam clandestinamente as horas nocturnas. Até que os olhos os venceram e a madrugada os rendeu. Inventaram recordações e sonhos, inspirados pela surpresa desses dias cúmplices. As manhãs encontraram-nos a dormir, exaustos, de barriga cheia, como gatos ao sol. Surgiam pela hora do almoço, sonolentos, espantados com aquele corpo de semi-criança, que não conseguira enganar a vastidão da noite. Colavam-se à casa, recusando-se a sair para lá dos montes verdes e dos pinheiros. Nem sequer para irem ao encontro do mar. Nem tampouco em busca do ruído das multidões, de que eram feitos os seus breves anos. Juntos. Diferentes, mas sempre juntos. Os cães à roda deles, felizes com tantos braços e pernas, tantos cheiros e vozes para explorar com a sua lealdade canina. Os cinco rapazes ficaram, para prolongar a cumplicidade das horas e adiar o adeus. Até que à mulher, grata e cansada, nada mais restou do que sentir o alívio e a tristeza de os ver partir.
Roubei a imagem aqui

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Sonho

As janelas abertas do quarto, o ar morno a inundar os lençóis. A mulher sonhou que Pégaso entrava e a levava dali, para um mundo vibrante. Iluminado. Tão cheio com os mistérios da noite que os insones confirmam. Pégaso depô-la junto de uma fonte, na praça, e relinchou, como que a instruí-la. Ela compreendeu e entrou na fonte cuja água tilintava em transparências de vidro. Mergulhou devagar o corpo todo. Até o cabelo e a face. Quando abriu os olhos e a água escorreu, tudo era prata. Mercúrio líquido, argênteo. Tornou a montar o cavalo para voarem ao encontro da lua. Arrumando as suas asas, o cavalo alado pousou a mulher num chão de areia cor de cinza, que brilhava. E ali adormeceram os dois viajantes. Ela não esquece o abdómen quente, o batimento daquele coração animal. Não quer acordar daquele adormecimento feito de sonho. Mas o sol, ciumento, vem despertá-la. De olhos abertos, a mulher viu dourar-se o mundo. Tudo se enrubesceu de acolhimento. Tudo era vivo. Fértil. Então a mulher alongou-se até à escuridão de prata, e guardou a lua na sua algibeira de linho branco. Estendeu a outra mão e agarrou o sol, que guardou do mesmo modo. Por fim deitou-se e adormeceu num vazio sem noite nem dia. Sonhou que era dona do tempo, deusa da luz. Sentiu-se grata pelos tesouros que roubara. E pelas asas do animal que dormia a seu lado, Pégaso, um cão de pelo branco, cúmplice de um crime feito de estrelas.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Enid Blyton

Hoje vi o filme "Enid", sobre a vida de Enid Blyton, protagonizado por Helena Bonham Carter. A mulher tinha os seus defeitos e deixou para segundo plano algumas das pessoas que mais deveria ter acarinhado: a família. No entanto, não posso deixar de admirar uma mulher que começava a escrever sem qualquer plano, simplesmente fechando os olhos e entregando-se ao poder inexplicável da imaginação, pressionando as letras da sua máquina com os indicadores, e escrevendo entre 6 e 10 mil palavras por dia. Caramba, publicou 700 livros e outras 5 mil obras, entre contos, poemas e peças de teatro! Quem não a conhece através do Noddy, dos Cinco, do Clube dos Sete, do Mistério, das Gémeas ou das Quatro Torres? Todos crescemos a ler as suas histórias, que continuam a ser reeditadas no mundo inteiro.
Aqui deixo um excelente documentário, com o melhor e o pior da sua vida e do seu carácter.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Vida

Adiei a lida da casa (odeio esta expressão: "lidar com a casa"...?) e atirei-me à biografia de Benjamin Moser, sobre Clarice Lispector. O tempo voou. Interrompi a leitura para uma caminhada a meio da tarde. No regresso, fiz um pequeno desvio e fui visitar uns vizinhos. Ele passou por mim empurrando um carrinho de mão onde levava uma porta sabe-se lá para onde. Quando voltou eu já conversava alegremente com a sua mulher, tentando explicar o que eram petúnias, enquanto a cadelinha Luna saltava a meus pés. Saí com a oferenda de uma garrafa de ginginha caseira. Em casa, depois de um banho, lancei-me de novo à Clarice. Passei pelas brasas, mas fui acordada pela luz do sol poente, que batia na portada azul e se derramava sobre a colcha azul e branca. Entrei na infância de Clarice. Para trás ficaram as páginas terríveis que narravam as perseguições da sua família em tempo de guerra, durante a Revolução Russa. Começava agora uma nova vida, longe de perfeita. O cenário? O Recife brasileiro. Uma menina bonita, inconsciente da sua pobreza, que se divertia a roubar rosas de um jardim vizinho e a imitar as vozes e trejeitos dos professores.
O jantar fez-se sozinho, composto de queijo e enchidos fatiados, salmão salpicado com pimenta preta, limão e salsa, taças de vinho branco e bolinhos de coco. Anoiteceu, por fim. Bebi o café vendo "Uma Questão de Honra", fascinada com o desempenho magistral de Jack Nicholson, contracenando com Tom Cruise: You can't handle the truth! A famosa frase colérica. O homem intocável foi preso, os rapazes absolvidos da acusação de homicídio e o jovem advogado ganhou o seu primeiro caso em tribunal. Ah, eu e a literatura. Eu e o cinema. Na pequenez dos meus dias, espreitando a desgraça e a honra de grandes vidas. Sentindo-me imensa no levar desta vida minúscula.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Livros

A beleza do livro
(PATRÍCIA REIS, crónica Expresso edição de 4 de junho)

"Entregar um livro ao público é como levar o filho à escola pela primeira vez: o miúdo já sem fraldas mas ainda com o boneco e, por vezes, a fralda de pano. Fica pendurado na professora e à mercê de uma mão cheia de desconhecidos. Um livro novo, depois de mais de três anos de trabalho, torna-se estrangeiro para quem o escreve, é um território que pode ser lido, interpretado, amado ou odiado. Por quem conhecemos e por todos os outros, potenciais leitores, sem rosto, sem referências que nos confortam.

A seguir, a pergunta central é a de saber: depois de “Por este Mundo Acima” que vou escrever? Devo escolher outro trilho? E será isso uma boa ideia ou pode prejudicar todos os frutos recolhidos? Se escrever é condição e não profissão, uma necessidade ou terapia, para tantos, é ainda um exercício de algum masoquismo, porque nos expomos e não temos certeza de nada. Há, de certa forma, um regresso à insegurança infantil de não se ter a certeza, até porque quando temos a certeza somos apelidados de “convencidos” ou “arrogantes”.

Na Festa da Literatura no Funchal em finais de Maio, primeira edição da responsabilidade dos Booktailors, alguém disse: “Podia ser só uma mulher gira”. Outra presunção? Certamente. Quem é que quer ser apenas uma mulher gira? Ou um homem? Ou até uma criança? Desejamos sempre que a beleza venha de mão dada com a inteligência e o sentido de humor, prática pouco exercitada por estas bandas onde dizer mal é mais fácil do que dizer bem; por isso festejar o sucesso do outro é, desculpem dizer, uma enorme maçada. Como a beleza alheia. Mesmo que a beleza seja de uma tristeza infinita.

Eu encontro beleza nos livros e por isso leio e releio. Gosto de ter amigos que são escritores e outros que não estão sequer interessados em saber o nome do próximo ou anterior Prémio Nobel. Na multiplicidade é que está o ganho. Mesmo que não seja giro."

sexta-feira, 27 de maio de 2011

pecado

Uma salada de alface, rúcula, milho e nozes. E ainda sementes salteadas de sésamo e abóbora, temperadas com vinagre balsâmico, orégãos e erva-doce, algo que o marido jamais experimentaria. Dois copos de vinho branco depois, a mulher entendeu que desenvolvera a arte de estar sozinha. Defronte ao televisor, via um qualquer drama cuja acção decorria sob o frio e a chuva da Irlanda. Um filme lento e desconcertante, só para si. Terminando a segunda taça de vinho branco, a mulher sorriu, aliviada por constatar que não perdera a sua individualidade. Era inteira. Fiel à teimosia da sua própria alma. Ali ficou, em paz, sem azedume. Sem o fastio de uma voz cansada, de uns olhos que já haviam visto tudo e que há muito tinham perdido o dom da compaixão. Com uma prazer que não esperava, compreendeu que eram dois. Que sempre seriam dois. Ele. Ela. Duas matérias isoladas. E que só no serem múltiplos conseguia sobreviver.

Depois de beber um café e de comer uma bolacha de canela, foi ter com o marido ao anexo onde ele se encontrava a trabalhar. Deu-lhe um beijo. Nesse beijo ia uma quase infidelidade. Dentro de si experimentou a euforia dos amantes. Na boca ficou o sabor salgado dos seus lábios. A mulher compreendeu que se iludia mais uma vez, como borboleta ao redor da lâmpada. Esvoaçando de ideia em ideia, ofuscada pela luz: a sua vida não podia ser feita de doçura apenas. Os dias careciam de fel, de sal, de cada nuance de um sentimento, que vai de um extremo ao outro. E ser inteira era estar só, mas também significava unir-se naquele beijo. Ao homem que a esperava do outro lado da sua alma, tal qual o lado sombrio da lua. Podia dar-se sem que nada lhe arrancassem do peito. Oferecer o que não era seu sem com isso se tornar criminosa. Procurar nele o que não tinha. E assim, o ser inteira era transformar-se. Ser todos os dias uma mulher diferente.
Saíu para o jardim e deixou a chuva cair. Confiava na chuva. Os cabelos molhados pingavam. Os olhos fechados à magia do momento. Só os ruídos da noite. O calor nocturno trouxe pirilampos e também o canto de rãs e grilos. A mulher abriu os olhos e sorriu, aliviada por ver que esse instante lhe pertencia. Que para sempre ficaria guardado na sua memória, como um pecado inocente.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Encontros

Acabo de regressar de uma das minhas caminhadas. Todos os dias um pouco mais longe, duplicando o esforço, na ida e no regresso. É urgente manter a forma. Melhorá-la, se for possível. O corpo queixa-se, eu insisto. Não há-de ser mais teimoso do que eu. Prestes a fazer inversão de marcha e regressar a casa, dou com três ovelhas a pastar placidamente, na tarde primaveril. Olharam para mim, balindo, enquanto ruminavam com preguiça. Do lado de cá da vedação, a erva é ainda fresca. Uma das ovelhas, mais atrevida, olha-me fixamente, com os seus olhos esbugalhados e inexpressivos. Acho-lhe graça. Insiste em fazer contacto comigo, enfiando o focinho através dos buraços da vedação, tentando chegar à minha mão estendida. Arranco punhados de erva e fico ali, a dar-lhe lanche e a conversar com ela, fingindo que a ovelha é capaz de entender o que lhe digo: é bom, não é? Erva fresquinha, pois, vês? Hmm, ervinha boa! Quem é que é linda, quem é? 
Hoje é dia de interromper esta vida campestre e ir até à capital, para o lançamento oficial do livro "Por este mundo acima", da Patrícia Reis, com apresentação de valter hugo mãe. Para já, as minhas mãos ainda cheiram a erva e tenho os olhos cheios de verde. Daqui a pouco, terei nas mãos as páginas de um novo livro e os olhos cheios de gente que ama as palavras e as pessoas... como eu. Senão, não me arrancavam daqui. Acreditem.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Richard Jenkins

Vi-o esta tarde, como companhia durante duas refeições. Gravei-o na box, como tantas vezes faço, por instinto, sem fazer ideia de que filme se trata, se é excelente ou péssimo, porque os TVcines do Meo satélite não incluem o nome do realizador, ano, país ou actores. Depois guardo ou apago. Os primeiros minutos de um filme dão para ver se ele vale ou não a pena. E esta é uma história inspiradora, que nos deixa algumas interrogações importantes. Ainda por cima tem humor, ternura e uma imensa subtileza. Só para os mais atentos. Sem glamour. Sem malta gira, sem sexo ou corpos jovens e tonificados, sem paisagens que nos tirem o fôlego. E no entanto...é tão bom. Excelente interpretação de Richard Jenkins.

domingo, 15 de maio de 2011

Rosa Passos

...sendo que o destinatário destes versos, para quem Rosa Passos canta, pode ser um homem, a esperança, a coragem, a alegria,... enfim. Escutem e encontrem o vosso próprio significado. Eu encontrei o meu. Obrigada, Ana e Pat.

sábado, 14 de maio de 2011

Alice Vieira

Trago aqui, em jeito de amostra, a sabedoria e a generosidade dos conselhos de Alice Vieira, escritora há três décadas, e que vive os dias assim, com descontracção e optimismo e muita, muita simpatia para com os outros. Adoro esta mulher, que me ajuda a crescer e que, além do seu indiscutível valor, sempre acede a partilhar connosco o que a vida lhe ensinou. Não é qualquer um que o faz.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Prémio Camões 2011


"“É a coisa mais inesperada que poderia esperar”, disse o poeta Manuel António Pina, que acabara de saber que lhe fora atribuído o Prémio Camões de 2011, no valor de cem mil euros. “Nem sabia que estava hoje a ser discutida a atribuição do prémio”, acrescentou.


Todos os jurados levavam nas suas listas o nome de Manuel António Pina e não precisaram sequer de meia hora para chegar a uma decisão unânime na reunião que mantiveram esta manhã na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Pina torna-se assim o 23º Prémio Camões e o décimo português a receber esta consagração, se excluirmos o autor angolano nascido em Portugal, Luandino Vieira, que recusou o prémio em 2006.

O júri integrou dois jurados portugueses (a ensaísta e poetisa Rosa Martelo e o ensaísta e professor de literatura brasileira Abel Barros Baptista), dois brasileiros (o poeta António carlos Secchim e a ficcionista Edla Van Steen) e ainda dois representantes dos países africanos de expressão portuguesa: a poetisa e ficcionista angolana Ana Paula Tavares e a ensaísta são-tomense Inocência Mata.


Nascido no Sabugal, Guarda, em 1943, Manuel António Pina foi jornalista durante várias décadas e estreou-se na poesia em 1974 com o livro “Ainda Não É o Fim nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde”. No ano anterior publicara o seu primeiro livro para crianças, “O País das Pessoas de Pernas para o Ar”. Consensualmente reconhecido como um dos melhores cronistas de língua portuguesa – ainda hoje assina uma crónica diária no Jornal de Notícias –, Manuel António Pina publicou dezenas de livros de poesia e de literatura para crianças, mas só em 2003 se aventurou na ficção “para adultos”, com “Os Papéis de K.”.


Se a sua obra de ficção é menos conhecida internacionalmente, a sua poesia está traduzida na generalidade das línguas europeias. O seu mais recente livro de poemas, intitulado “Os Livros” (Assírio & Alvim, 2003) venceu os prémios de poesia da Associação Portuguesa de Escritores e a da Fundação Luís Miguel Nava."
in jornal PÚBLICO, 12 Maio 2011)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Patrícia Reis

Daqui a poucos dias chegará às livrarias esta excelente sugestão de leitura. Um texto muito bem escrito e envolvente sobre a amizade e o amor aos livros, num cenário pós-apocalíptico. Tive o privilégio de o ler antes de se encontrar vestido de livro e é com orgulho que o vejo quase quase nas mãos de bons leitores. Estejam atentos.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Subterrâneo

A vida não lhe acontecia. Era assim há vários anos. A mulher já se convencera de que o melhor seria arrasar o cume das suas altas expectativas e mudar-se de vez para um qualquer buraco debaixo das pedras. Como um bicho subterrâneo. Compreendera, enfim, que a língua que falava, o corpo infantil que lhe morava dentro, era invisível aos olhos dos que habitavam um universo de gente crescida. Jamais haveria lugar para si. Indefinida. Hesitante, como saco transparente esvoaçando numa rua em movimento. Não sendo criança nem adulta, não tinha onde pousar, não sabia para onde ir. Andava assim, perdida, escarafunchando torrões de terra húmida, para encontrar um lugar na escuridão.
Até que o telefone tocou e a vida aconteceu.
Tantos livros, tantas horas de recreio enfiada em mundos de papel, enquanto os meninos jogavam à bola e as meninas saltavam à corda. Tantos suspiros ao ver os outros passarem por si, velozes, enquanto os seus pés se pregavam ao chão, como um sonho que assusta. Afundava-se numa noite eterna, assistindo à construção de um templo celestial. Vitórias de outros, grandes e pequenos, que arranhavam os céus. Conquistas que apenas conseguia farejar, por instantes, até ser novamente arrasada por aquele deus castigador que lhe morava nos ombros, colando a sua alma às sombras. Vivia no chão, assistindo ao céu tornado negro, sem azul.
Quando desligou o telefone, entendeu que uma nova realidade lhe acontecia. Uma luz que já não esperava. E sentiu os pés leves, leves, erguendo-se acima do solo. Quando se atreveu a estender os braços, deu-se conta de que sempre tivera asas, sem saber. Então respirou fundo, preparando o embate do vento... e voou.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Solidão

Como escolhi sair da cidade e viver num lugar recôndito que nem aldeia é, tenho uma vizinha que é daqueles espécimens rústicos. Atarracada, feições anónimas, o perpétuo avental de flores, pernas arqueadas, a pele esturricada e engelhada pelo sol, as mãos calejadas pela vida dura de quem não as usa para escrever nem para tratar das petúnias de luvas de jardinagem às florzinhas - como é o meu caso -, mas sim para lavar roupa no tanque, cavar e semear a terra, cortar lenha.
Falávamo-nos só de bom-dia e boa-tarde. Pouco mais. O único assunto de conversa eram os cães: Joana, a cadela da D. Maria José, e os nossos. Até ao dia em que ela, ao ver-me fazer festas à cadela (que me mete dó por estar encerrada na passagem da vizinhança, num espaço que pouco passa de 1m2), chega-se e diz-me:
- Olhe, não me faça festas à cadela.
- ...?...
- Ela está aqui para dar sinal, ela assim fica mole, não guarda.
Revoltada e já refeita do espanto, reagi assim:
- Ai não quer que eu faça festas à Joana? Tá bem.
Virei costas e fui-me embora.
Um dos poucos prazeres que o desgraçado do bicho tinha, sendo uma golden labrador rafeira, ou seja, mimuças por natureza, eram as minhas festinhas que ela antecipava ao ver-me passar, pois conhece-me desde pequenina e claro que, como animal inteligente que é (o mesmo não se pode dizer da dona), sabe distinguir perfeitamente a senhora simpática de um qualquer estranho que passe: pelo aspecto, pelo faro, enfim, é para todos óbvio, certo?
Passaram-se várias estações sem que eu nunca mais correspondesse à atitude dengosa da cadelinha Joana, encostada à rede, de rabinho a dar a dar, à espera das festas, e sem que as duas vizinhas se tornassem a falar. Só de pensar na sua proibição ficava irritada: como é que se pode ser tão estúpido?
Até que há dias a Joana andava solta e veio atrás de mim, quando eu me preparava para fazer a caminhada habitual, em que me afasto vários quilómetros da casota dela. Ao fim de menos de 1 km, voltei para trás, para a devolver a casa, pois não pretendia deseducá-la, fazê-la afastar-se demasiado de casa, provocar o seu atropelamento ou uma fuga.
- D. Maria José...?
Ela apareceu e perguntou-me:
- Estava a incomodá-la?
(A Joana, feliz da vida e já toda enlameada, saltava à minha volta, sujando-me as calças todas, claro, e eu a rir e a fingir-me zangada)
- Não, D. Maria José, a Joana nunca me incomoda. Venho só dizer-lhe que se calhar é melhor prendê-la agora, porque ...
E lá expliquei.
Adoptando a postura de uma menina de escola arrependida, fazendo-se ainda mais pequenina do que já é, a velhota disse:
- Podemos voltar a ser amigas? A senhora desculpe...
- Desculpo o quê, D. Maria José?
- Aquilo que eu disse no outro dia...ficou zangada comigo, pois...
("no outro dia" foi quase há um ano)
- Eu? Eu nunca tive nada contra si, D. Maria José. Mas confesso que estranhei, sabe que a Joana me conhece perfeitamente, não vai deixar de lhe guardar a casa por eu lhe fazer festas. Só que me  faz pena vê-la aqui sempre presa, percebe?
- Eu sei, desculpe, sim? Eu é que não estava boa naquele dia, sabe? A senhora desculpe. Podemos ser amigas?
E eu lá respondi que sim, sabendo que não posso contar com ela para jogar trivial pursuit, ajudar-me a preencher a declaração electrónica do IRS, ir aos saldos, ou partilhar uma série de coisas que a desgraçada nem sabe que existem, como, por exemplo, este blog.
- Qualquer coisa que a senhora precise, esteja à vontade.
E eu retribuí a oferta da pobre mulher, sentindo-me aliviada por ver que o mundo ainda fazia algum sentido.
E ela:
- Não me esqueço do que a senhora e o seu marido fizeram por nós, sabe? Não me esqueço!
(Referia-se às boleias que lhes demos até ao Centro de Dia, a ela e ao marido, para não terem de ir a pé)
E assim tornei a fazer festas à Joana. Voltámos ao bom-dia e ao boa-tarde e metemos agora dois dedos de conversa de vez em quando. Boleias já não dou, pois o marido da D. Maria José morreu e ela já não vai lá sozinha. A filha aparece de vez em quando, muito atarefada e carrancuda, num belíssimo carro que destoa, ali estacionado defronte à casinha caiada e modesta. 
Agora, quando passo pela D. Maria José e a cumprimento, vendo-a estender as roupas humildes numa corda miserável ou cortando lenha como uma valente, não posso deixar de pensar que a solidão desta mulher deve ser imensa. Ainda bem que tem a Joana. Reparei que ultimamente a leva para dentro de casa mais vezes. E sempre que vejo a casota vazia dou por mim a sorrir.