quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O velório do Manel

Ninguém tira selfies em velórios ou enterros. Se não envolver figuras públicas, se a morte pertencer a um simpático anónimo, não se transforma num evento, digno de partilhar nas revistas e redes sociais. Não, ninguém tira selfies na presença da morte. Ninguém quer recordar a hora do último adeus.  

Hoje assisti a um velório que me fez sentir como se tivesse sido lançada para um qualquer filme americano. Assim que chegámos, perguntaram-me:
- Meu amor, queres beber o quê? E só então reparei que, enquanto o morto aguardava na capela, cá fora, nesta noite espantosa de verão em pleno Outono, tinha sido improvisado um bar, à roda do tronco de uma grande árvore e todos bebiam, riam e conversavam. A viúva era a que falava mais alto, a que fazia as honras, como se recebesse os convidados na sua casa. Apressei-me a guardar na carteira a minha expressão triste, que não tinha lugar ali. Depois de me servir a bebida, a Maria disse, com ar sério:
- São 5 euros. 
E eu já ia tirar a nota da carteira onde guardara a expressão triste, juro, mas não, era uma piada, como se, no lugar dela, estivesse o Manel, a servir-nos copos no Cascais Jazz Club. Como sempre fazia.
Depois de um copo de vinho tinto (que se revelou um gin tónico, mas não tive coragem de dizer uma palavra e emborquei o gin), entrámos na capela. O Nanã retirou o saxofone tenor do saco. A Margarida cantava um tema de blues, maravilhosamente, acompanhada pelo Fidu. Chegou o Jean-Marc, com o trompete, e juntou-se-lhes. Por fim, o Zeca Neves, a tocar no contrabaixo que o Paulo Neves deixara na capela nessa tarde. A Maria Viana cantou, despedindo-se do seu Manel, depois de desanuviar o ambiente, enxotar a tristeza dos nossos olhos fúnebres, com a piada:
- Então, vens tocar ao vivo? Ou melhor, ao morto?
E eles tocaram. E cantaram. E nós batemos palmas ao fim de cada solo e no final de cada tema, como se estivéssemos no clube. Quase aposto que houve momentos em que o caixão foi esquecido, porque a música soou mais alto do que a morte que ali estava, em silêncio.
Ao meu lado, havia uma mesa longa com bolinhos caseiros e termos de café. Lá fora, o álcool continuava a sair. A entrar no sangue. O serão terminou no café do outro lado da rua, com mais copos, brindes à saúde do Manel e partilha de histórias.
No regresso a casa, ao pararmos na bomba de gasolina para pormos gasóleo, a menina que atendia, em horário nocturno, lançava aviões de papel: dentro do carro, pude vê-la, do outro lado do longo vidro, atirando os aviõezinhos não sei a quem, se miúdo se graúdo. Foi uma noite surrealista? Foi. Às vezes o surrealismo é bem mais simpático do que a realidade. É preciso retirar a poeira às convenções.
Aqui deixo um abraço solidário à Maria Viana, que hoje se tornou viúva. Que haja sempre boa música na sua vida. 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

A espera no recolhimento

Estes dias não me apanharam fora de casa: foram feitos de leituras, de revisão de páginas e páginas e páginas, de agendamento de visitas a escolas, os livros, os autores, a escrita, esse namoro que é uma espiral sem fim.
As horas sucedem-se ao ritmo do melhor que os meus olhos e a concentração têm para dar. Este verão tardio olha-me, cheio de espanto, pelo desprezo a que o votei: nem um pé na água, nem um ombro nu, a aproveitar este calor em pleno Outono, as águas turquesas, o mar.  É assim, o corpo já desistiu, já fez a sua despedida, está pronto para a lareira, o vinho tinto, as castanhas, as leituras de inverno, o frio e o nevoeiro. Pensar no corpo agora é um desencontro. Já subi à minha árvore de folhas douradas, não quero saber de mim mas do vento, das folhas, das árvores nuas, da brisa morna que traz o inverno. Para me despir, só se as minhas vestes forem vegetais e o mar cinzento, num céu de cobre, sem turistas nem guarda-sóis. Novembro virá não tarda, trazendo morte e nascimento. Aguardo com o meu hálito de Outono, na mão a folha dourada, uma alcova a embalar um novo ser. É preciso ser mãe nas quatro estações, ainda que feita de promessas semi-cumpridas.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Alice Vieira

Em jeito de votos de bom fim de semana, deixo-vos com um poema do novo livro de Alice Vieira. Desinteressadamente, escolhi este, dedicado ao lugar onde moro, pertinho, pelo menos...Da...
ERICEIRA
«vivi muitos anos frente ao mar

o sol chegava sempre muito tarde
qando as mulheres já tinham regressado a casa
para o almoço e os homens falavam de marés vivas no café central
sabíamos as horas pelo uivo do farol e
havia um amigo que nos dizia que
aquela praia não tinha banhistas mas
apenas devotos e outro
encharcava-se em wisky e escrevia
romances de anjos que às vezes
vinham de avião e caíam nas rochas
para nos salvar
às vezes os barcos não voltavam e as mulheres
acabavam por adormecer na areia esperando
milagres em que já tinham aprendido a
não acreditar
e os turistas sorriam muito e
tiravam muitas fotografias
e os jornais falavam de obras que
eram urgentes e ninguém fazia
as crianças lançavam estrelas de papel
que subiam mais alto no céu que as verdadeiras
e à noite ouviam histórias de marinheiros que
erravam pelo mundo e perguntavam que
faremos se alguma noite nos baterem à porta
pedindo para entrar
mas como caíam de sono nunca
ouviam a resposta que ninguém tinha
para lhes dar
foi pela coragem desse tempo que
jurei sempre
mesmo agora em que te espero como a
um barco desaparecido embora
já nada tenha para te dar e nada
reste de mim nem da praia nem da casa
esquecida ao longe com o nevoeiro
o farol os naufrágios os marinheiros errantes
nesta fotografia a preto e branco onde me vejo
pés enterrados na areia da vazante
o meu corpo embalando o sono de 
uma criança morta
eu
há tantos anos
eu sem pensar em nada»

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Anjos

Não sei quem é o autor desta belíssima ilustração, mas tenho pena. 
Dedico este anjo à Vanessa e à Virgínia. 
Elas sabem porquê. :-)


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O teu silêncio

O teu silêncio

Uma taça onde cabem todas as palavras
que não dizes.
Nela guardas a muda censura,
A dizer o pardo infinito,
Pleno de abstracta incerteza
Tanta, que não cabe na minha mão.

De repente, falas,
E cospes e gritas.
E na tua voz se quebra
o consolo do mutismo
Onde tudo podia ser, 
Até as palavras mais doces.

E o silêncio, que era pardacento,
A abreviar as nossas mágoas,
Sem nome nem lembrança,
É agora raiva escarlate,
Embutida nos teus vocábulos.

Foi-se o silêncio.

E quando regressa

é tarde:

Na taça de ambos

Apenas cabe o arrependimento.

sábado, 11 de outubro de 2014

Carta da montanha


                                                                    © Nanã Sousa Dias
                                                                                   
De olhos cerrados, o frio lambendo-me a pele
Escuto apenas o som sibilino do vento
na carta derramei um socorro, aliado
O milhafre prendeu as minhas lágrimas
Em garras furtivas, na plumagem negra de negro destino
como a flor de Oscar Wilde, o rouxinol
oferece o tom escarlate à rosa injuriada

No peito guardo a esperança vestida
Com o adejar da minha ave
a folha nívea embalada nas asas
sombrias de um amigo alado
com mil cuidados
se ergue no abismo do meu recolhimento

Quanto tempo terei de aguardar?

O azul que me envolve o peito é cortina de gaze
um véu sobre o outro e outro
e outro ainda
tal como a noite se veste de mil véus até se entrevar

O recorte do horizonte é linha serena
desde pequena que o vejo crescer
Flutuando no desejo, neblina de tantas auroras
e só agora me tento salvar.

O milhafre descola, enfim!
É tempo de espera. É tempo de esperança.
A brisa levanta os meus suspiros, feitos de asas e orações.
(© VERA DE VILHENA, poemas inéditos)

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Aventuras

Uma das maiores ironias da vida é que, se nos portarmos sempre bem e nunca quebrarmos as regras do bom-senso, pouco levamos desta vida para contar aos anjos...ou mesmo aos de cá, na terra, enquanto estamos vivos. A aventura começa precisamente aí: nas pequenas transgressões, ao passarmos para o Outro Lado do Espelho.
Dedico esta lição de vida a uma das pessoas que me ensinou isto: o meu tio Duarte: tio, tenho a certeza de que os anjos terão imenso prazer em ouvir as suas aventuras. E aqui fica um grande beijinho para o meu pai, que perdeu um irmão.
Tio Duarte com o meu irmão Eduardo, Murtal, 1963

terça-feira, 7 de outubro de 2014

passo a passo

Um passo diante do outro, a acompanhar o pulsar do sangue. Na estrada solitária apenas os ruídos da terra, o voo cruzado de um pássaro, o ladrar dos cães que guardam casas modestas, as hortas, os pomares, os galinheiros, como se fossem tesouros feitos de patos e couves e laranjas e abóboras e melões. A ansiedade dos meus dias vai-se evolando, levada pelas serpentinas de fumo das queimadas a que se entregam os homens, de mangas de camisa arregaçadas, a testa e o pescoço tisnados por tantos sóis: um perfume feito de verdores, ervas e folhagem carcomida pelos restos da estação que terminou. É Outono, enfim. A brisa ainda é morna e o céu, mesmo cinzento, oferece uma luz de líquido bronze, quebradiço como as folhas que fogem dos ramos, em busca de um novo horizonte, na esperança de reencarnar. Passo a passo.     

sábado, 4 de outubro de 2014

A fotografia

Eram ambos mestres no arte do fingimento. Enganavam até os amigos mais próximos. Ela segura a fotografia na mão, controlando a raiva que tem presa nos dedos, para não partir a moldura que os filhos deram. Ali estão eles, os pais, a sorrir. Longe, muito longe da felicidade. Ninguém diria. Ela sabe o segredo: tem um sorriso bonito e sorriu para a fotografia. Nessa tarde e em muitas outras tardes. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Dia Mundial da Música

Porque a música também é respiração e silêncio, ou inquietude, escolho estes dois temas de alguém que nos faz muita falta: Bernardo Sassetti.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

só isto

Uma semana de silêncio? Ups. Pronto, já o quebrei. É só isto que tenho hoje.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Na 5ª feira :-)

Esta quinta-feira, na Livraria Barata, lá estaremos, para o lançamento do Coisandês. Conto convosco!

domingo, 21 de setembro de 2014

Cães na tempestade

A insónia empurra-me o sono para o meio-dia
Uma lança de luz espreita da portada azul,
ferindo a penumbra do meu quarto;
Estalam trovões, um arrastar de mesas e cadeiras:
a empregada doméstica dos deuses, limpando o espaço divino,
a generosos baldes de água, lavando o céu e a terra,
trabalho celeste que não me deixa dormir.

E os cães.
Os cães que ladram, cuspindo a sua voz
para rasgar o medo em dois.
O som contínuo, das unhas na porta,
uiva deixa-me entrar!
É o bicho que teima em fugir
para o interior da toca de pedra:
feito para enfrentar lobos na serra
Guardar ovelhas no pasto
Nada quer com trovoadas.

E, no labirinto da minha vigília,
perdida numa vertigem de alamedas
que preenchem a fronteira entre dois mundos desisto.
A minha hora não se cumpre:
Abro a porta e recebo o aroma da terra morna,
O pivete do pelo molhado do animal
que entrou ele, o alívio e o dilúvio
Que misturo com os meus versos
e o ritmo acelerado do belo porte canino
que, arfando, parece dizer-me obrigada
por me salvares da tempestade.
(© VERA DE VILHENA, inéditos)

sábado, 20 de setembro de 2014

Azul-cobalto

© Nanã Sousa Dias
Azul-cobalto

Sobre a mesa o prato, o grão de pimenta
rosa, roçando a fibra
da toalha magenta;
A vidraça ampara a chuva escorrendo
e, no bordado de flores alfazema, acolho
a jarra de vinho - aconchego de um néctar 
de amoras a demorar-me na boca.

O céu saliva um doce lilás,
tecido em hortênsias das ilhas distantes:
é o mar, que me leva e enleva nas ondas de espuma
do sal de Setembro vestindo os rochedos.

Será fome? Será medo?
A dentada da chuva, lambendo a estação
como quem diz adeus.
nos olhos agarro o meu horizonte
de azul cobalto - mar alto no peito 
se bem que, a meu jeito,
sou a beira-mar.

© VERA DE VILHENA, poemas inéditos, Setembro 2014

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Setembro

alguns fados no canto da memória,
um texto sem fim que página a página,
morosamente,
vou dissecando com o meu bisturi

a chuva, os cães, a casa,
a chuva,
janelas que abrem, janelas que fecham,
Tijolo encharcado, quadriculando as horas, os prazos,
cansaço em duras folhas que calco
E vou calculando
o ânimo na mão fechada
À espera do dia de poder ser,
cumprir o trabalho, as contas, alertas
e panos e trapos, secos, molhados,
o sol que espreita em toque-e-fuga
De novo a chuva com boca de água
Vem dizer que o nosso verão morreu.

 O ar cheira a recomeços. Recomeço-me, pois.
Reconheço-me, meço-me
pelos pequenos passos,
pinga aqui, pinga ali, o vento, a folha, a empurrar o cansaço,
a humidade dos dias encravada nas unhas,
a luz da tarde é líquido mel,
setembro avança dourando a uva arrancada
e os corvos já gritam, ralhando comigo,
não percas o fio às palavras, faz-te pássaro
e vem connosco
eu grito de volta que a hora é de ócio e
no hálito morno da minha preguiça
invento uma forma de recomeçar.
(©VERA DE VILHENA, poemas inéditos) - dedico este meu Setembro à Virgínia do Carmo

sábado, 13 de setembro de 2014

Graça Pires

 «Percorro os fonemas como se dançasse,
Envolta numa túnica de água
guarnecida de espelhos.
Sou Ariadne vestida de espanto.
Nos meus dedos cintilam longuíssimos fios
de um novelo de versos e de sonhos
com que me quero salvar.
Já não me lembro de que mitologia saí.
O meu labirinto tem a forma de um pássaro
conivente com a noite.»
(in «Labirintos», 1997, © GRAÇA PIRES, imagem © Sharon Johnstone)

«Caminhamos por entre as árvores
com a boca a saber a menta e a malvas.
Trazemos nas mãos um herbário
de tão fugaz esperança
que nenhuma outra se tece sem desvios
na dobra do peito.
Talvez existam anjos com olhos de musgo
à beira dos abismos por onde se esgueiram 
os dias que nos roubam a eternidade.
Talvez a turbulência verde na borda dos ribeiros
unja de seiva a passagem do tempo.»
(in «A incidência da luz», 2011, © GRAÇA PIRES)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Leituras

Foi-me feito um desafio que aceitei mas que não tenciono cumprir à risca. É uma missão impossível, além de que nunca tive jeito para as contas. Nós, que amamos os livros, temos uma dificuldade imensa em escolher apenas 10, já se sabe. Aqui vai, por ordem cronológica e sem nenhuma ordem de preferência, alguns livros que marcaram diferentes fases na minha vida:
0 - (eu sei, é batota, têm sorte de eu não começar com números negativos) - Contos de Grimm, Perrault, Hans Christian Andersen, Enid Blytton, Sophia... - tantos! 
0,5 - Condessa de Ségur e outros da Colecção Azul - vários, a despedida da infância...
0,75 - policiais - Simenon, Agatha Christie, Earl Stanley Gardner...
1 - Eça de Queiroz (não consigo escolher apenas um...)
2 - Metamorfose - F. Kafka
3 - Richard Bach - vários
4 - As Três Sereias, Irving Wallace
5 - As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley
6 - O Perfume, Patrick Suskind
7 - Fernando Pessoa (não consigo escolher um)
8 - Saramago - vários
9 - Crónica de uma Morte Anunciada+outros, Gabriel García Márquez
9.5 - A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo - Carlos Ruiz Zafón
9.9 - Walden ou a vida ns bosques - Thoreaux
10 - José Luís Peixoto - vários
Aaaiii, ficaram de fora M. Yourcenar, Duras, V. Woolf, Joanne Harris, João Aguiar, Tom Sharpe,  David Lodge, Gustave Flaubert, Paris é uma Festa!+ outros, de Ernest Hemingway, Isabel Allende, Rosemunde Pilcher, Jorge Amado, Simone de Beauvoir...ai.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Caleidoscópios

Oss caleidoscópios sempre exerceram sobre mim um estranho fascínio; talvez por ser uma das muitas formas que eu tinha, na infância, de mergulhar em mundos mágicos sendo tão míope como sempre fui. Ali, de olho mergulhado num dos extremos de um tubo de cartão, provocando os movimentos das peças minúsculas, sentia-me encantada e segura, incapaz de me perder, de apanhar chuva, de ser perseguida por um carneiro mal-humorado ou de esfolar os joelhos.
Este é um caleidoscópio humano, uma campanha de sensibilização a favor da multiplicação das boas ideias: The power of ex. TED. Vale a pena ver em full screen.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Mentira

polígrafo
Mentira

Tantas camadas sobre cambadas sobre camadas,
Que já não é possível ver a matéria original;
Tantos sorrisos sobre risos sobre sorrisos;
Que já não consigo chorar.
Tanta mentira sobremaneira sobre mentira,
Que me tornei incapaz de dizer a verdade;
Tanta pose sobre posse sobre pose,
Que é impossível gritar, Fui possuído!;
Tanto muro sobre esconjuro sobre muro,
Que já não encontramos a raiz;
Tanto artifício sobre malefício sobre artifício,
Que já não sentimos a nossa pele;
Tanto que fingimos que conseguimos dizer,

Que é impossível a arte articular.

(© Vera de Vilhena, poemas inéditos)

domingo, 7 de setembro de 2014

Língua afiada

«Agora, fechada nesta sala, sinto-me velha e gasta. A minha lâmina já não é o que era. Vêm visitar-me com olhos curiosos e leem o meu magnífico currículo com algum desprezo, como se tivesse sido eu a inventar a lei da gravidade. Que culpa é que eu tenho? Se eu existi e tive uma época de glória, não foi por decisão minha. Apenas dei o meu melhor e tal não podem censurar-me. 
Mau grado a idade avançada, sinto-me bem viva e com muito para dar. Aqui encerrada há tantos anos, nesta inatividade que é de enlouquecer qualquer um, foram-me chegando histórias que me provocam um desejo de regressar ao ativo: só para castigar uns quantos, se é que me entendem. Sei que os tempos mudaram, é certo, e que já não se fazem espetáculos como os de outrora; mas confesso-vos que, se me deixassem, ainda era capaz de fazer perder a cabeça a muitos homens…»
(in «Coisandês, a vida nas coisas», excerto do conto «Língua Afiada», pág.35)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Irra, até que enfim!

Abriu a página do facebook e libertou o desabafo:
«- IRRA, ATÉ QUE ENFIM! Mais não posso dizer, o decoro não mo permite.»
Logo os comentários choveram:
- Estavas a ver que não! :-)
- Não sei do que falas, mas até que enfim, estou feliz por ti!
Uma mais atrevida perguntou:
- Apareceu-te o periodo que já estava atrasado, foi? Já te estavas a imaginar de fraldas e biberons outra vez, ahahaha!
- Boa! Não há male que sempre dure!
(male????)
-  Fixe! Quem espera sempre alcança!
E mais uma série de provérbios que lhe diziam exactamente aquilo que pretendia ouvir. O facto de ninguém ter a mínima ideia daquilo a que ela se referia com o: Irra até que enfim, não tinha qualquer importância:
- Estou feliz por ti, amiga!
- Deviam-te dinheiro, queres ver? Ai, este país vai de mal a pior!
- Tavas a ver que não!
- Boa!
- Que alívio, hein?
- Vá, conta lá!
Não faziam ideia. É que não faziam a mínima.
O engraçado é que aquela cambada de gente ignorante, relativamente à sua situação, bem intencionada, é certo, lhe havia trazido um estranho consolo.
O facebook era aquilo. Também podia ser aquilo. A solidariedade virtual, de café de esquina, pronta a servir.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

"Coisandês, a vida nas coisas" - lançamento

Meus Caros,

Venho convidar-vos para o lançamento oficial deste meu pequeno livro para leitores dos 10 aos 110 anos de idade. 
Ganhou o prémio Revelação APE/Babel e, ao fim de alguns percalços de publicação, viu este ano a luz do dia, e poderá agora chegar, enfim, às mãos dos seus leitores.
«Coisandês - a vida nas coisas» é isso mesmo: um conjunto de contos em que as coisas-objectos ganham vida e ficamos a conhecer alguns dos seus pensamentos, sonhos, emoções e aventuras.
As ilustrações no interior, a carvão, e de capa inteira, são de Vanessa Bettencourt. O prefácio é de Júlio Isidro.

(clique na imagem para aumentar)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Morte, livros e figos

Balanço do mês de Agosto:
Churrascadas cá em casa com família e amigos, filho de férias comigo (uma fartura, para tirar a barriga de misérias), um irmão "alentejano" de fim de semana connosco, Golfinho Azul, aulas de voz, 45 primaveras completadas e 15 do Micas (15! Como é que é possível); o candeeiro dos meus sonhos (enfim!), de presente de anos (obrigada Nanã); Hugo e Marta, Marta e Hugo e viva o amor, 47 livros vendidos, um convite para publicar um novo livro (depois revelo) e a notícia triste de duas mortes: uma em Hollywood, outra muito nossa: Robin Williams e Luís Pedro Fonseca. O rever de alguns rostos do passado nas cerimónias fúnebres, festivas, singulares, do Luís Pedro...e luz, muita luz nesta morte inesperada. E a Bix (cadela dos uns tios meus) também nos deixou, foi para o céu dos cães, saltar de nuvem em nuvem, a  tomar banhos de chuva, como cão de água que era.
A leitura irresistível d' O Pecado de Porto Negro, de Norberto Morais e o início de uma nova amizade. O mergulho em Capote, A Sangue Frio, edição de letra minúscula que, ainda assim, lá vou cumprindo, antes de atacar o monte de livros emprestados pela Patrícia Reis, uma amiga para todas as horas.
61 páginas revistas de um total de 302 (Philipp Vitor, um jovem escritor de ficção científica, a ser publicado na Amazon). Um verão a fingir, muito indeciso, num jogo de dá-e-tira; o meu banco BES a passar para "Novo Banco" e do resto dos noticiários nem vale a pena falar; dias de neura, dias de paz; hormonas instáveis, nem sei porquê, o corpo lá saberá mas não me diz ou diz e eu não entendo;  e uma insónia que me devolveu a vontade de escrever, para celebrar a rentrée.
A descoberta da verdade acerca da polinização dos figos. Ainda assim não deixarei de comê-los.
O meu Agosto. Mais coisa menos coisa.
Caro Setembro,
Traz-me um cesto recheado de coisas boas (e figos, já agora), para quem merece e tem o meu coração, como diz a P.

Antecipadamente grata

V

sábado, 23 de agosto de 2014

Até Setembro

Este blogue encontra-se em modo de férias. Em Setembro irá regressar em todo o seu esplendor.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Os sonhos e o riso

Boa semana para todos. Não se esqueçam de lutar pelos vossos sonhos e o vosso riso. Faz tanta falta...! Maximizem o ecrã e tentem lá não rir  com este video. :-)



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

À espera de um céu



Coberta por um céu encoberto, sufocada em silêncio e quietude, já quase esquecia o contorno das estrelas, o ruído macio das aves nocturnas. O meu céu era sem brilho nem luz. Um silêncio tecido em solidão. Depois chegou-me um céu azul-claro, cobrindo-se de véus transparentes, vestindo o contorno das árvores ainda nuas, até ser indigo, marinho de alto mar. A lua, minha companhia em madrugadas de escrita, surgiu de novo, trazendo o espanto de uma estrela cadente, depois outra, e outra, invadindo-me o peito de "ohs!" e "ahs!".
Vou sendo noite estrelada, na brisa morna que transportam as mãos dos amigos distantes. E o meu sorriso desempoeirado estende-se na raíz da gratidão.
Agora, para cumprir a noite, é vestir-me com asas de anjo e voar.

sábado, 2 de agosto de 2014

Promessa


Ontem nada. Amanhã uma churrascada para onze pessoas cá em casa e a chegada do filho para férias, um consolo. Segunda-feira darei aula de voz. Para quando a redenção do tempo perdido? Para quando o fim das desculpas? Afundo-me porque não me cumpro ou não me cumpro porque me afundo? E este cumprir fará sentido? Quem me obriga a tal promessa? Talvez as minhas certezas sejam o maior engano. Terça-feira. Terça-feira descruzo os dedos à força. Senão, quarta-feira pego na tesoura e vão fora.
Por falta de uso.
E a consciência me dirá se existe arrependimento ou o alívio dos dedos decepados.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Só isto

http://olhares.sapo.pt/agua-escorrendo-foto19934.html
Nos dias em que nada acontece, em que as horas são tão pequenas e insignificantes, o que dizer? Um festejo familiar que se resguarda na privacidade de um blogue privado; horas de sol, a dourar a pele; limitações de uso cibernético que se prendem com percalços financeiros acabados de resolver (por ora...) e conversas impossíveis de reproduzir. De resto? É o mundo a ser na mesma e eu também. O que significa que estamos longe de estar bem. E escrevemos o quê? É melhor optar pelo silêncio, dizer que aproveitámos para rever gente que amamos, DVD's que não víamos há muito, e referir, por alto, a organização da casa, das fotos digitais no disco do computador, da tentativa de conquistar um pouco mais de espaço, já que o tempo, esse, nos escorre pelos dedos como água impura.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Novo dia

Uma nova mensagem para sair disparada da espiral onde me encontrava perdida. Uma luz, um objecto querido, simbólico, a mostrar que a saída é possível e existe. A assinalar a trégua e o perdão. Para trás fica o choro e o desespero. Por mais que o abismo insista em puxar-me, saberei sempre iludi-lo. Nem que seja por um segundo, com travões forjados na mais espantosa das vontades. E o fogo também se apaga com a luz de um novo dia. Ainda bem que sempre vem um novo dia.

domingo, 13 de julho de 2014

Espiral

Sempre odiei equívocos.  Vivo mergulhada num deles há anos. Demasiados. Não sei como sair, como desfazê-lo. É uma espiral, em redemoinho do qual não é fácil sair. Sinto-me afundar dentro ou fora dele, para onde quer que vá, que esbraceje na corrente. Acorrentada ando eu há muito tempo. Correntes cujos anéis eu mesma forjei, um a um, na paciência da loucura. Que farei com esta lucidez que me chega em momentos de fogo, quando tudo parece arder dentro de mim? Quem me dera a coragem dos incendiários; ter o pretexto para a invenção de uma nova raiz. Tudo em mim é podridão, a gritar por um Recomeço que me salve.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Monstros

O tempo passa e eu não me cumpro. Nem sei se a promessa que fiz é uma mentira, simples teimosia. Um capricho de deuses profanos.  Se o escritor deve escrever sem pensar no leitor, que farei eu em absoluta solidão? Ser apenas eu? Eu comigo mesma? É ingrata, a mais absoluta solidão. Era preciso que a nossa companhia fosse grande, profunda. Descerrar o ferrolho de todas as portas, libertando os monstros? E se os monstros não meterem medo? Se os meus monstros forem ridículos? Há tanto tempo andam domesticados, que não é fácil deixá-los ser monstros outra vez. Atrás de portas aguardaram, pacientemente, a chegada da minha maturidade, que nunca chegou a chegar. Sou meia-mulher de meia-idade com meia-vida. Longe de ser completa. Não sei como tornar selvagem e livre o que há muito não sabe o que fazer com a luz. É na escuridão que os monstros refulgem, revelando os olhos maléficos que transformam em incerteza toda a luz solar, a ser negrume onde tudo cabe. E têm sido só meus, estes monstros. Com eles me entendo, sem mais ninguém. Que farei eu com monstros partilhados à luz do dia, sob o sol da tarde? Na minha cama, na minha solidão de meia-mulher me entendo. Como poderei eu ser mulher inteira, montando os meus monstros no carrossel, em plena feira? Dêem-me algodão doce e deixem-me brincar. E quando a lua surgir e todos dormirem, eu e os meus monstros ridículos, no comboio-fantasma, seremos unos, na intimidade da noite que só a nós pertence.

terça-feira, 8 de julho de 2014

A pele e o horizonte

M. acordou a meio da noite sem saber o que fazer ao corpo. Era como se a alma lhe quisesse sair de dentro, romper-lhe a pele. O corpo um cárcere, encerrando gritos que era incapaz de dar na escuridão do quarto, enquanto o marido dormia ao seu lado, tentando enroscar-se naquele corpo inquieto, que lhe fugia.
M. saiu da cama. Na mente dançavam infinitas frases que deveria escrever. O computador desligado dormia, sensato. O dia rompendo, tão cedo, pensou ela, julgando, na preguiça das suas manhãs bem dormidas, que o sol comparecia mais tarde ao encontro com o horizonte. Que sorte, pensou M., invejando aquela certeza de o sol contar com um horizonte a cada novo dia.
M. interrogava-se por onde andariam os seus próprios horizontes. E talvez por isso a alma andasse a querer sair-lhe do corpo, na certeza de ali não ter como ser sol, iluminar a pulsação do habitáculo que a prendia. A pele ainda grita, hesitante entre a ofensa e a tristeza de ver aquela alma oprimida, a querer fugir. Vai, gritou-lhe, vai ser horizonte fora de mim, que aqui apenas podes ser pernas e braços e pés e mãos...de um corpo paralisado.
E a alma foi, despida.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Mahler

Gustav Mahler nasceu a 7 de Julho de 1860. Deixo aqui uma das suas peças mais emblemáticas, "popularizada" no filme de Visconti "Morte em Veneza": o Adagietto, Sinfonia nº 5, aqui interpretado pela Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Leonard Bernstein.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

?

Decidi que me irei estar na tintas para uma série de coisas. Muitas vezes esgotamos energias no que não merece. E iremos canalizá-las para onde? Que faremos nós com a energia que nos sobra, depois de tudo o que tem de ser? Que formas temos nós de nos reinventarmos? Ultimamente só tenho interrogações. As respostas andam tão longe. E terei eu alguma vez tido respostas? Não liguem, não liguem ao que escrevo hoje, aliás, ao que escrevo seja quando for. Que sei eu? Tento apenas sobreviver nas minhas emoções. Sobreviver. Já que, de resto, é tão difícil. Mas emoções tenho, isso sim, para dar e vender. Mas quem quereria comprá-las? Quem quereria engordar as suas incertezas e pagar por isso? Nada mais tenho do que incertezas. E um vazio. Um vazio tremendo que não sei como preencher.
Nem uma linha.
Em mim apenas existe o engano.
Não sei como cumprir o papel a que me propus, não sei porquê.
E agora?
O que faço?

terça-feira, 1 de julho de 2014

Reticente

A sério? Quase uma semana sem vir ao blogue? Pois é, e então? Vem daí algum mal ao mundo? É alguma catástrofe? Vá, não é, não é. Onde é que está escrito que tenho de vir aqui todos os dias? Deixar o quê, se não tenho nada para dar? Dizer o quê? Que o meu cão teve um ataque de epilepsia ou uma reacção ao Frontline? Que teve convulsões e espumou à minha frente e eu julguei que morria? Que não tenho conseguido escrever uma linha? Que estou revoltada com uma série de coisas que continuam a acontecer neste país? Vá, tenham paciência, a paciência que eu não tenho. Outros dias virão, não quero estes, estou aqui atrás da porta, à espera que algo mude, muda, entretanto, sem boca, sem palavras, até que um texto decente possa aqui ser escrito, com a devida pontuação, pontificada a vida, a nossa...até lá, tenho apenas reticências...

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Morreu Ana Maria Matute

Para um bom adeus, aqui fica o texto escrito por CRISTINA CARVALHO no âmbito da 

apresentação de Ana Maria Matute e do livro “A Torre de Vigia”, edição Planeta 

Manuscrito, no Instituto Cervantes em  Lisboa, no dia 13 de Outubro de 2011


«A literatura é algo que, usando palavras, não se pode definir nem soletrar. É uma expressão artística ambiciosa, que usa sangue e corpo, que tem de ser livre – como todas as expressões de arte ou como a própria vida – 
Deverá ser simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de folhas de árvore.
Quanto a mim, o papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. As palavras escritas devem formar um todo compreensível, - um romance, um conto, um poema. As palavras que servem as ideias, têm de ser dádiva. As palavras não podem viver subterraneamente de modo incompreensível ou navegar ao sabor da moda; as letras não devem agrupar-se em palavras que não tenham significado. Isso não é bom. Não é essa a interrogação que a literatura precisa. Não é isso que perdura. Não é isso que prende. E está à vista de todos.
O pensamento existe. A estética da linguagem, também existe. O ideal também existe. As histórias existem. Os livros existem. A pessoa existe e a pessoa é a interrogação. É a pessoa que escreve histórias que deseja que a outra pessoa as leia, mas sobretudo, que as compreenda.
Ana Maria Matute é totalmente clara. Ela não escreve sobre o eterno Eu e o Tu e o Tu e o Eu mas abraça sim, toda a humanidade. Por exemplo, em Paraíso Inabitado, Matute revela a inteira psicologia da vida desde os primeiros anos da protagonista, Adriana, que são os nossos primeiros anos rumo a um salto assombroso nesse perigoso e absurdo abismo que é a adolescência, túnel sombrio de dúvidas e indecisões que só o próprio adolescente consegue resolver. 
Atravessando a vida com tantos livros escritos, tantos prémios que a consagraram universalmente, há um que destaco porque me toca particularmente, porque o sentido mais humano da literatura ainda que fantástico e submetido, aparentemente, ao reino do surreal e do maravilhoso que muito aprecio e elevo, é também, pelo que sei, o livro que a escritora mais gostou de escrever: Olvidado rei Gudú. Como ela própria afirma - , el libro que siempre quiso escribir y por el que le gustaría ser recordada! "Es un libro mágico, como la vida misma". 

Toda a magia e mistério da vida é extraordinariamente bem escrito e descrito em Olvidado Rei Gudú, seus mistérios e superstições onde todas as emoções humanas são reveladas num registo de assombrosa fantasia e de poderoso conhecimento da imaginativa mente humana.
Com uma vastíssima obra que passa por muitos romances entre os quais destaco as traduções em língua portuguesa: Olvidado Rei Gudú, Aranmanoth, outro romance no género fantástico apresentado com uma escrita tão doce e envolvente, conta-nos a infância e o crescimento de duas crianças enamoradas. 
Ainda em Paraiso Inabitado e de novo pela voz de uma criança se percorre a vida e os complexos estágios do crescimento numa escrita aparentemente leve e simplificada que nos conduz às mais elaboradas reflexões.
E o livro que hoje apresentamos, A Torre de Vigia.
Ao entrar na leitura deste livro imergimos imediatamente num cenário onírico, denso e misterioso onde sobressai a Natureza por vezes assustadora, outras vezes duma beleza escaldante. Todo este ambiente enevoado e surreal de homens-lobis, ventanias, campos de neve de fome e de frio mais as doçuras do estio, de ameias de castelos, baronesas e barões, veados, javalis, gansos, lobos, cavalos brancos e cavalos pretos, jovens iniciados cavaleiros, peles de ursos, flechas, salões, cozinhas e alcovas, todo este universo existe, atavicamente, em todos nós. Está nos mais altos e escondidos sótãos da nossa memória. Este universo foi, neste livro, posto a descoberto. É uma vida inteira a descobrir universos, a desvendar sonhos, uns atrás dos outros.
E com a ironia sempre presente, vivemos mais uma vez uma certa infância ou como uma criança pode e consegue sublimar atos ou situações terríveis através da construção dos sonhos.
Nesta história somos transportados, como num quadro musical em ambiente medieval, somos transportados em nuvens de cheiros, cores e sabores, interrogações, desespero e espanto.
Este livro, o primeiro duma trilogia medieval, fala-nos de um filho de boas famílias, a sua travessia da infância e entrada na adolescência com grande desassossego. A castelã, a baronesa de Mohl, linda, ruiva e branca que o inicia no amor carnal aos treze anos. Também essa atitude, brutal e estranha, fá-lo perceber os mais rudimentares indícios da constituição psicológica do ser humano. Tudo o que de mais escondido está, para além da fronteira do conhecimento, rente às superstições mais subterrâneas que todos nós temos e que desejamos esconder. Conseguimos perceber este jovem a pensar e a transformar-se todos os dias, o que causa alguma angústia.
As personagens avassaladoras quer animais quer humanas são fascinantes. Krim-Cavalo é um ser inesquecível, lendário e protetor do jovem iniciado. Eu penso mesmo que Krim-Cavalo podia ser o jovem, ele mesmo. Este jovem sem nome. Este fantasma. O barão e a baronesa de Mohl, outras personagens tão excessivas quanto misteriosas. O próprio pai, um poderoso desgraçado que, sem amor para dar, é como se personificasse a eterna noite dos homens.
“A Torre de Vigia” é pois, uma história de desejos, de descoberta, a eterna luta entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas e ao ler este romance pensei sempre no homem à face da Terra, vi-o a tentar avançar não sei para onde, nem porquê, nem para que destino ou fatalidade.
É esta a arte de Ana Maria Matute: a literatura, esse milagre.
Escreveu também contos e muitas histórias para a infância e juventude.
Os prémios e reconhecimentos literários são inúmeros. 
Em 2010 recebeu o Prémio Cervantes, o mais alto galardão espanhol atribuído à literatura.
A arte literária é mais uma insignificância do cosmos. Quantos e quantos quilómetros de linhas já foram escritas? Quanto pensamento glorioso já oferecemos aos nossos deuses? Quantos restam? Quantos encantos e desencantos vamos sofrendo? O que é que aprendemos? O que é que valemos? Que interesse tem tudo? Tanta interrogação…
Sei, sinto que Ana Maria Matute tem absoluta consciência das penas que uma pessoa suporta ao longo desta permanência por aqui. Os seus livros são documentos de extraordinária importância que desenham a vida e as experiências do quotidiano de alguém que conviveu com a guerra civil de Espanha e a segunda grande guerra mundial e o pós-guerra. A sua literatura é um grito de libertação através do poder imagético de cada um. A fantasia está expressa em muitos dos seus livros atingindo o pico em Olvidado Rei Gudú e Aranmanoth e ainda, muito embora estes livros sejam um hino à poderosa fantasia humana, é também a constatação da triste realidade da condição humana. 
Ana Maria Matute enche-me de orgulho como mulher, como escritora, como exemplo de conhecimento, de experiência, de sabedoria, de humanidade e celebro-a em todas as suas vertentes e capacidades. Exalto-a e elevo-a. Desejo-lhe, com toda a admiração e a par desta complexa e temporária passagem pelo planeta Terra, muita saúde e as maiores felicidades em tudo, na sua condição humana e na sua literatura.»

domingo, 22 de junho de 2014

Água

Duas da tarde. Na cama. Não de cama. Apenas enroscada no ócio que o Domingo traz, lendo as últimas páginas do Memorial. Vejo a luz esmorecer, o relógio comendo as horas, rumo ao fim da tarde. O ar tornou-se espesso, a página amarela, de papel antigo. A chuva abateu-se, aliviando o chumbo do céu, para devolver a luminosidade e a brancura à folha. Entreabri a janela a fim de sentir o cheiro da terra. A tijoleira escurecida, a folhagem pingando, gota a gota, sobre os pés de plantas e flores enterrados em grãos cor de café. Torno a fechar a janela e regresso ao meu livro. Os cães dormitam no soalho, em volta da minha cama. Um privilégio raro que hoje lhes concedo, só porque sim. O sol ficou encerrado num quarto escuro feito de nuvens de antracite, que lhe sufocam o calor, e é um hálito das sombras que eu respiro. O musgo avança, seduzindo a pedra. E assim permanecendo a chuva, perfurando os dias, o ar seria manto tecido com asas de fada, um filtro de verdores subtis. Até que eu já não fosse mulher, fosse cavalo-marinho no interior de uma casa aquátil, gruta guardada por dois peixes-sentinela, e eu lendo, ainda, as nervuras de algas e corais.
É a chuva. A chuva que me leva em pensamentos de água. 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sonho


Hoje é o dia em que perdemos Saramago. Completam-se quatro anos sobre o dia em que eu, pouco depois de saber da morte do nosso querido autor, fui dar uma sessão de Escrita Criativa, na biblioteca da Ericeira, aos meus alunos adultos, escritores amadores. Pus de parte o que tinha preparado e dedicámos-lhe um bom tempo da sessão. É para mim fácil de lembrar: 2009, e o dia dos anos da minha querida irmã Sofia.
Hoje:
Nada fiz de jeito, exceptuando ter lavado a loiça, alimentado os cães e recebido de braços abertos uma notícia extraordinária.
Um sonho que estava muito distante e que, num gesto, ficou mais próximo. Passou de sonho a projecto. E alguém acertado irá realizá-lo. A vida pode trazer-nos surpresas extraordinárias, que se erguem do quase nada, do vento, da espera. De repente, uma brisa, uma ventania trocam o lugar às coisas, o que estava distante fica mais perto e tudo parece possível. Provavelmente é mais um sonho. Mas enquanto nele estou afundada sou sílfide, leve, leve, pousando no néctar das mais doces ilusões. E não quero acordar. Não quero.

Roubei a imagem aqui

terça-feira, 17 de junho de 2014

Terra

A feira do livro terminou, as notícias falam em cerca de quinhentos mil visitantes. Passou o calor terrível, o dia esteve perfeito. Ao fim da tarde o homem andava de enxada (ou ancinho ou lá o que é) a arrancar as ervas indesejáveis; o Gastão deixou-se ficar deitado no cimo das escadas de pedra, admirando e estudando o movimento detectável nos seus domínios: o vale. Arfando, um pouco aliviado por andar descartando, desde Março, a sua pelagem de serra da estrela: ainda assim, é um animal imponente, de juba e corpanzil consideráveis. A Bolota jogou à bola (nova, comprada na Inter Sport no dia da sessão de autógrafos no Oeiras-parque): uma bola novinha em folha, que a deixa tão excitada, que nem se lembra de comer: recorda-me o esquilo da Idade do Gelo, com a sua bolota (nem de propósito, tratando-se da Bolota, a nossa cadela). Quando sentiu o cheiro verde e fresco, juntou-se a mim: a dona ali estava, sentada com duas cadeiras e duas tigelas, descascando vagens de ervilhas acabadinhas de apanhar da terra. Volta e meia, lá saltava uma para a sua bocarra. Tenho uma cadela que se pela por ervilhas cruas, vá-se lá perceber. Não pude deixar de experimentar uma, para compreendê-la. E compreendi. Assim mesmo, da mão para a boca, soube muitíssimo bem. Amanhã será a vez dos pinhões, também acabados de apanhar.
É nestas horas que eu tenho a certeza de valer a pena o contacto com a terra. É certo que lá em cima, no escritório, alguns emails me aguardam, há novas notificações no facebook e à noite irei ver, na box, os primeiros episódios de uma série que recebi em DVD. Mas é assim, este casamento perfeito entre a terra e o futuro, que nos faz felizes. O melhor dos dois mundos.