Para um bom adeus, aqui fica o texto escrito por CRISTINA CARVALHO no âmbito da
apresentação de Ana Maria Matute e do livro “A Torre de Vigia”, edição Planeta
Manuscrito, no Instituto Cervantes em Lisboa, no dia 13 de Outubro de 2011
«A literatura é algo que, usando palavras, não
se pode definir nem soletrar. É uma expressão artística ambiciosa, que usa
sangue e corpo, que tem de ser livre – como todas as expressões de arte ou como
a própria vida –
Deverá ser
simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de
folhas de árvore.
Quanto a mim, o
papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo.
Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações,
desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. As palavras escritas
devem formar um todo compreensível, - um romance, um conto, um poema. As
palavras que servem as ideias, têm de ser dádiva. As palavras não podem viver
subterraneamente de modo incompreensível ou navegar ao sabor da moda; as letras
não devem agrupar-se em palavras que não tenham significado. Isso não é bom.
Não é essa a interrogação que a literatura precisa. Não é isso que perdura. Não
é isso que prende. E está à vista de todos.
O pensamento
existe. A estética da linguagem, também existe. O ideal também existe. As
histórias existem. Os livros existem. A pessoa existe e a pessoa é a
interrogação. É a pessoa que escreve histórias que deseja que a outra pessoa as
leia, mas sobretudo, que as compreenda.
Ana Maria Matute
é totalmente clara. Ela não escreve sobre o eterno Eu e o Tu e o Tu e o Eu mas
abraça sim, toda a humanidade. Por exemplo, em Paraíso Inabitado,
Matute revela a inteira psicologia da vida desde os primeiros anos da
protagonista, Adriana, que são os nossos primeiros anos rumo a um salto
assombroso nesse perigoso e absurdo abismo que é a adolescência, túnel sombrio
de dúvidas e indecisões que só o próprio adolescente consegue resolver.
Atravessando a
vida com tantos livros escritos, tantos prémios que a consagraram
universalmente, há um que destaco porque me toca particularmente, porque o
sentido mais humano da literatura ainda que fantástico e submetido,
aparentemente, ao reino do surreal e do maravilhoso que muito aprecio e elevo,
é também, pelo que sei, o livro que a escritora mais gostou de escrever:
Olvidado rei Gudú. Como
ela própria afirma - , el libro que siempre quiso escribir y por el que le
gustaría ser recordada! "Es un libro mágico, como la vida
misma".
Toda a magia e
mistério da vida é extraordinariamente bem escrito e descrito em Olvidado Rei Gudú,
seus mistérios e superstições onde todas as emoções humanas são reveladas num
registo de assombrosa fantasia e de poderoso conhecimento da imaginativa mente
humana.
Com uma
vastíssima obra que passa por muitos romances entre os quais destaco as
traduções em língua portuguesa: Olvidado Rei Gudú, Aranmanoth, outro romance no
género fantástico apresentado com uma escrita tão doce e envolvente, conta-nos
a infância e o crescimento de duas crianças enamoradas.
Ainda em Paraiso Inabitado
e de novo pela voz de uma criança se percorre a vida e os complexos estágios do
crescimento numa escrita aparentemente leve e simplificada que nos conduz às
mais elaboradas reflexões.
E o livro que
hoje apresentamos, A Torre de Vigia.
Ao entrar na
leitura deste livro imergimos imediatamente num cenário onírico, denso e
misterioso onde sobressai a Natureza por vezes assustadora, outras vezes duma
beleza escaldante. Todo este ambiente enevoado e surreal de homens-lobis,
ventanias, campos de neve de fome e de frio mais as doçuras do estio, de ameias
de castelos, baronesas e barões, veados, javalis, gansos, lobos, cavalos
brancos e cavalos pretos, jovens iniciados cavaleiros, peles de ursos, flechas,
salões, cozinhas e alcovas, todo este universo existe, atavicamente, em todos
nós. Está nos mais altos e escondidos sótãos da nossa memória. Este universo
foi, neste livro, posto a descoberto. É uma vida inteira a descobrir universos,
a desvendar sonhos, uns atrás dos outros.
E com a ironia
sempre presente, vivemos mais uma vez uma certa infância ou como uma criança
pode e consegue sublimar atos ou situações terríveis através da construção dos
sonhos.
Nesta história
somos transportados, como num quadro musical em ambiente medieval, somos
transportados em nuvens de cheiros, cores e sabores, interrogações, desespero e
espanto.
Este livro, o
primeiro duma trilogia medieval, fala-nos de um filho de boas famílias, a sua
travessia da infância e entrada na adolescência com grande desassossego. A
castelã, a baronesa de Mohl, linda, ruiva e branca que o inicia no amor carnal
aos treze anos. Também essa atitude, brutal e estranha, fá-lo perceber os mais
rudimentares indícios da constituição psicológica do ser humano. Tudo o que de
mais escondido está, para além da fronteira do conhecimento, rente às
superstições mais subterrâneas que todos nós temos e que desejamos esconder.
Conseguimos perceber este jovem a pensar e a transformar-se todos os dias, o
que causa alguma angústia.
As personagens
avassaladoras quer animais quer humanas são fascinantes. Krim-Cavalo é um ser
inesquecível, lendário e protetor do jovem iniciado. Eu penso mesmo que
Krim-Cavalo podia ser o jovem, ele mesmo. Este jovem sem nome. Este fantasma. O
barão e a baronesa de Mohl, outras personagens tão excessivas quanto
misteriosas. O próprio pai, um poderoso desgraçado que, sem amor para dar, é
como se personificasse a eterna noite dos homens.
“A Torre de
Vigia” é pois, uma história de desejos, de descoberta, a eterna luta entre o
bem e o mal, entre a luz e as trevas e ao ler este romance pensei sempre no
homem à face da Terra, vi-o a tentar avançar não sei para onde, nem porquê, nem
para que destino ou fatalidade.
É esta a arte de
Ana Maria Matute: a literatura, esse milagre.
Escreveu também
contos e muitas histórias para a infância e juventude.
Os prémios e
reconhecimentos literários são inúmeros.
Em 2010 recebeu o
Prémio Cervantes, o mais alto galardão espanhol atribuído à literatura.
A arte literária
é mais uma insignificância do cosmos. Quantos e quantos quilómetros de linhas
já foram escritas? Quanto pensamento glorioso já oferecemos aos nossos deuses?
Quantos restam? Quantos encantos e desencantos vamos sofrendo? O que é que aprendemos?
O que é que valemos? Que interesse tem tudo? Tanta interrogação…
Sei, sinto que
Ana Maria Matute tem absoluta consciência das penas que uma pessoa suporta ao
longo desta permanência por aqui. Os seus livros são documentos de
extraordinária importância que desenham a vida e as experiências do quotidiano
de alguém que conviveu com a guerra civil de Espanha e a segunda grande guerra
mundial e o pós-guerra. A sua literatura é um grito de libertação através do
poder imagético de cada um. A fantasia está expressa em muitos dos seus livros
atingindo o pico em
Olvidado Rei Gudú e Aranmanoth e ainda, muito embora estes
livros sejam um hino à poderosa fantasia humana, é também a constatação da
triste realidade da condição humana.
Ana Maria Matute
enche-me de orgulho como mulher, como escritora, como exemplo de conhecimento,
de experiência, de sabedoria, de humanidade e celebro-a em todas as suas
vertentes e capacidades. Exalto-a e elevo-a. Desejo-lhe, com toda a admiração e
a par desta complexa e temporária passagem pelo planeta Terra, muita saúde e as
maiores felicidades em tudo, na sua condição humana e na sua literatura.»