Na distância, a trovoada arregaçou as saias do vestido e partiu, pé ante pé, sem ter dançado comigo. No salão de baile apenas as ervas inundadas de ouro, a melodia do vento. Do cimo das árvores, explode o aplauso mudo de mil pássaros, que assistem, dos seus camarotes, à partida da tempestade. Talvez a escuridão a traga de volta, para uma valsa nocturna, encerrada em cortinas negras. Mas só em sonhos poderei dançar.
Não se deixem enganar pelas riscas cor-de-rosa. Os dias são (d)escritos com todas as cores.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
À espera
Na distância, a trovoada arregaçou as saias do vestido e partiu, pé ante pé, sem ter dançado comigo. No salão de baile apenas as ervas inundadas de ouro, a melodia do vento. Do cimo das árvores, explode o aplauso mudo de mil pássaros, que assistem, dos seus camarotes, à partida da tempestade. Talvez a escuridão a traga de volta, para uma valsa nocturna, encerrada em cortinas negras. Mas só em sonhos poderei dançar.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Um pouco mais
Porque estamos a precisar, porque nos deixa um pouco mais felizes, porque isto está verdadeiro, bem feito, com alma. Não liguem à imagem, que é de outro tema, acabadinho de ser lançado. O video é outro, bem mais sentimental e ensolarado. :-)
Bom fim de semana, sim? :-)
Bom fim de semana, sim? :-)
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Birdman
Muito bom filme. Recomendo. Excelente realização, argumento, casting. Tudo bom. Óscar de melhor filme? Merecidíssimo.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Da solidão
Da solidão, um ritual
da trovoada da tarde, a música da terra
suor de tambores, cordas vibrando,
harmonias de chuva,
bailados de sombras
no intervalo da luz.
Da solidão, o presente
paralisia do tempo, a face molhada
humidade leitosa, ruído, queixume,
parede escorrendo,
lamento do ramo
da haste, da flor.
Da solidão, a promessa
chegada à beira do nervo, da carne
da boca, da língua, da corda acordando
palavras morrendo
no abismo da folha
tão só, a procura
do poema
de estar só.
(© Vera de Vilhena, inédito)
sexta-feira, 27 de março de 2015
Cinco contos
Era assim, noutro tempo. Guardávamos estas e outras na carteira, numa época em que mal usávamos computadores, e em que tudo o que escrevíamos ficava impresso em papel.
Em arrumações, no pequeno escritório no qual finjo trabalhar, na minha casa (e digo finjo porque o que vamos correndo por gosto não nos cansa), dei com cinco contos que julgava perdidos. Não destes, que já não fazem falta - já que estamos rotulados com a palavra Europa a ferro e fogo, doa o que doa -, mas dos outros, os contos que se escrevem e se lêem.
Cinco contos que julgava perdidos irremediavelmente, desde o dia em que descobrimos, com a ajuda de um engenheiro informático amigo, que o meu velho computador, já reformado entretanto, apagava os ficheiros danificados, ao invés de os meter de quarentena. Eis que dou com as folhas dispersas, impressas com cinco contos que se escondiam entre resmas de papel de rascunho, cujo verso sempre aproveito.
Cinco contos que ando a reescrever cerca de dez anos depois. Cinco contos que decidi não incluir, ao candidatar-me ao Prémio Revelação APE/Babel, na categoria de literatura para a infância e juventude, e que redescubro agora, uns para uma hipotética sequela do Coisandês (que, para minha felicidade, ganhou o prémio), outros para adultos. Devemos escrever sem pensar nos leitores, dizem. Alguns foram escritos assim, e por isso transgridem, não são adequados a crianças. Ou estarei a menosprezar a sua maturidade? É difícil saber. Pelo sim pelo não, deixei ficar as transgressões e troquei em miúdos estes cinco contos: uns em moedas, outros em notas; uns para jovens, outros para adultos.
Apesar disso, não deixam de ser, no todo, cinco contos. E ainda bem que temos papel.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Tomas Tranströmer
Estocolmo, 1931-26 Março 2015
Poeta, tradutor e psicólogo sueco
PÁSSAROS MATINAIS
Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.
Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.
Não há vazios por aqui.
Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.
terça-feira, 24 de março de 2015
Adeus, Herberto Helder
A Bicicleta pela Lua Dentro - Mãe, Mãe
A bicicleta pela lua dentro - mãe, mãe -
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer senão sonhar
ao contrário quando novembro empunha -
mãe, mãe - as tellhas dos seus frutos?
As nuvens, aviões, mercúrio.
Novembro - mãe - com as suas praças
descascadas.
A neve sobre os frutos - filho, filho.
Janeiro com outono sonha então.
Canta nesse espanto - meu filho - os satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Aviões passam no teu nome -
minha mãe, minha máquina -
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve.
Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as árvores crescem ao contrário.
Apresento-te novembro: avião
limpo como um alfabeto. E as praças
dão a sua neve descascada.
Mãe, mãe — como janeiro resplende
nos satélites. Filho — é a tua memória.
E as letras estão em ti, abertas
pela neve dentro. Como árvores, aviões
sonham ao contrário.
As estátuas, de polvos na cabeça,
florescem com mercúrio.
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro,
é a neve avançando na sua bicicleta.
O alfabeto, a lua.
Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Era pesada, ao colo, cheia de neve.
la dizendo o teu nome de janeiro.
Enxofre — mãe — era o teu nome.
As letras cresciam em torno da terra,
as telhas vergavam ao peso
do que me lembro. Começo a lembrar-me:
era o atum negro do teu nome,
nos meus braços como neve de janeiro.
Novembro — meu filho — quando se atira a flecha,
e as praças se descascam,
e os satélites avançam,
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem
(eu vi): era pesada.
O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas.
Laranjas de pedra - mãe. Resplendentes,
estátuas negras no teu nome,
no meu colo.
Era a neve que nunca mais acabava.
Começo a lembrar-me: a bicicleta
vergava ao peso desse grande atum negro.
A praça descascava-se.
E eis o teu nome resplendente com as letras
ao contrário, sonhando
dentro de mim sem nunca mais acabar.
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua
batia pelo ar fora.
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios
do meu nome negro, e nunca mais
acabava de nevar.
Era novembro.
Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio
crescendo com toda a força em volta
da terra. Mãe - se morreste, porque fazes
tanta força com os pés contra o teu nome,
no meu colo?
Eu ia lembrar-me: os satélites todos
resplendentes na praça. Era a neve.
Era o tempo descascado
sonhando com tanto peso no meu colo.
Ó mãe, atum negro —
ao contrário, ao contrário, com tanta força.
Era tudo uma máquina com as letras
lá dentro. E eu vinha cantando
com a minha paisagem negra pela neve.
E isso não acabava nunca mais pelo tempo
fora. Começo a lembrar-me.
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos
de peixe, tua coluna
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha
cantando na neve que nunca mais
acabava.
O teu nome negro com tanta força —
minha mãe.
Os satélites e as praças. E novembro
avançando em janeiro com seus frutos
destelhados ao colo. As
estátuas, e eu sonhando, sonhando.
Ao contrário tão morta — minha mãe —
com tanta força, e nunca
— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora.
Herberto Helder, in 'Poemas Completos'
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer senão sonhar
ao contrário quando novembro empunha -
mãe, mãe - as tellhas dos seus frutos?
As nuvens, aviões, mercúrio.
Novembro - mãe - com as suas praças
descascadas.
A neve sobre os frutos - filho, filho.
Janeiro com outono sonha então.
Canta nesse espanto - meu filho - os satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Aviões passam no teu nome -
minha mãe, minha máquina -
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve.
Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as árvores crescem ao contrário.
Apresento-te novembro: avião
limpo como um alfabeto. E as praças
dão a sua neve descascada.
Mãe, mãe — como janeiro resplende
nos satélites. Filho — é a tua memória.
E as letras estão em ti, abertas
pela neve dentro. Como árvores, aviões
sonham ao contrário.
As estátuas, de polvos na cabeça,
florescem com mercúrio.
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro,
é a neve avançando na sua bicicleta.
O alfabeto, a lua.
Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Era pesada, ao colo, cheia de neve.
la dizendo o teu nome de janeiro.
Enxofre — mãe — era o teu nome.
As letras cresciam em torno da terra,
as telhas vergavam ao peso
do que me lembro. Começo a lembrar-me:
era o atum negro do teu nome,
nos meus braços como neve de janeiro.
Novembro — meu filho — quando se atira a flecha,
e as praças se descascam,
e os satélites avançam,
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem
(eu vi): era pesada.
O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas.
Laranjas de pedra - mãe. Resplendentes,
estátuas negras no teu nome,
no meu colo.
Era a neve que nunca mais acabava.
Começo a lembrar-me: a bicicleta
vergava ao peso desse grande atum negro.
A praça descascava-se.
E eis o teu nome resplendente com as letras
ao contrário, sonhando
dentro de mim sem nunca mais acabar.
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua
batia pelo ar fora.
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios
do meu nome negro, e nunca mais
acabava de nevar.
Era novembro.
Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio
crescendo com toda a força em volta
da terra. Mãe - se morreste, porque fazes
tanta força com os pés contra o teu nome,
no meu colo?
Eu ia lembrar-me: os satélites todos
resplendentes na praça. Era a neve.
Era o tempo descascado
sonhando com tanto peso no meu colo.
Ó mãe, atum negro —
ao contrário, ao contrário, com tanta força.
Era tudo uma máquina com as letras
lá dentro. E eu vinha cantando
com a minha paisagem negra pela neve.
E isso não acabava nunca mais pelo tempo
fora. Começo a lembrar-me.
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos
de peixe, tua coluna
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha
cantando na neve que nunca mais
acabava.
O teu nome negro com tanta força —
minha mãe.
Os satélites e as praças. E novembro
avançando em janeiro com seus frutos
destelhados ao colo. As
estátuas, e eu sonhando, sonhando.
Ao contrário tão morta — minha mãe —
com tanta força, e nunca
— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora.
Herberto Helder, in 'Poemas Completos'
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| Funchal, 1930 - Cascais, 24 Março 2015 |
domingo, 22 de março de 2015
gota de março
No Dia Mundial da Água, nesta tarde de céu cinza-claro, a anunciar chuva, deixo uma cantilena fresca, acabada de colher dos meus dedos.

Gota a gota
pingue pingue
enche o rio
que escorre
a esperança de ti
e de mim
não se apara
não se afaga
e o sentido mordido
pela fúria
pensamento
adormecido
água escorre
no chão seco
e branco e negro
mármore bolo
doce em boca
aguada
das ideias
primavera
sem travão
em gota fina
bebe a alma
o corpo nu
transpira o medo
a pele vomita
a toxina
gota agreste
planta a terra
seca, mãe
do meu futuro
em sombras
mornas
na folhagem
a matar-me
a solidão.
(© Vera de Vilhena, inéditos)
Roubei a imagem aqui
sábado, 21 de março de 2015
Dédalo
É agora, ébria de mim,
O momento de ser eu,
Sem erro nem desvio,
Sem destilar
a
minha
dor.
Ser eu, mais ninguém,
A morder a mágoa de mim mesma;
Sem cinto nem travão,
No impulso etéreo
Que me
leve
aonde
for.
É agora que choro, sem crosta nem
escudo,
Que verei quem se encontra
em mim.
Onde estou eu, quando me revelo?
Por onde vai o meu ser verdadeiro?
Sem firmeza, sem crença,
Denúncia ou enleio.
Para onde vou,
enquanto
c
a
i
o?
(...)
(excerto de «Dédalo», in «Fora do Mundo, Poética Edições, 2014)
quinta-feira, 19 de março de 2015
Pai
| Meu pai, 1972 |
O meu pai é marinheiro. Oficial da Marinha. Reformou-se como comandante, desembarcou de vez e foi morar com a minha mãe para a grande casa de férias, que alberga uma enorme parte das minhas recordações. Na casa, espalhado pelas paredes toscas, pintadas de branco-espuma, em armários e gavetas, sobre os móveis, sempre houve um rol de objectos que contam histórias do mar antigo e recente: astrolábios, sextantes, compassos, bússolas, cartas e triângulos náuticos, lemes, nós, pequenas réplicas de embarcações, bandeiras náuticas, altímetros... mas também cintos de chumbo, barbatanas, óculos de mergulho, rações de emergência para náufragos, dentaduras de tubarão e até um pequeno crocodilo embalsamado, em cuja bocarra aberta surgiam teias que ninguém queria retirar.
Uma amiga, que há treze anos acompanha o que vou escrevendo, disse-me um dia que eu tenho "essa coisa do mar, por causa do teu pai". Deve ser a tal história, quem sai aos seus. Haverá coisa mais literária do que um farol, sempre de sentinela, num cabo ou promontório batido pelas ondas? Pronto. Parece que os meus textos estão cheios de coisas marítimas, metáforas, lembranças, alusões a cheiros e texturas, inclusive o perfume que se escapava, em serpentinas, dos vários cachimbos do pai João Manuel. Há muito tempo que deixou de fumar. Mas ainda cuida do jardim, que pede ao meu pai esforços que me custa imaginar, além dos muitos gatos que vão tendo desde que lhes ofereci o primeiro - Fellini - ao engravidar do meu filho.
O meu pai, em terra firme desde que se reformou das viagens que o levavam para longe de casa durante meses, permanece, de uma forma ou de outra, ligado ao mar que lhe está no sangue. Um dos seus hobbies é a construção de barcos, a partir de kits sofisticadíssimos, cuja perícia e paciência implicam anos de trabalho. Tem cinco filhos e já construiu vários, entre os quais o Bismark, um imponente couraçado da II Guerra Mundial. Para mim, escolheu uma réplica bem diferente, que aguardo com impaciência. O meu filho também: é o Soleil Royal, um galeão lindo de Luís XIV. Já estou a vê-lo, partindo do porto de Havre ou de Brest, envolto em brumas.
Hoje, que sinto na pele a impiedade do tempo que nunca deixa de navegar connosco, levando-nos para um alto-mar de onde, um dia, jamais regressaremos, só desejo que Deus lhe dê saúde, que o meu pai continue, por mais algumas marés, a fechar e a abrir as escotilhas da casa enorme, a cuidar da sua tripulação de gatos junto da minha mãe, e a construir a sua frota num mar de faz-de-conta, enquanto eu, na ferrugem das palavras salgadas pela memória, vou tecendo uma rede de páginas de espuma, como quem apanha conchas à beira-mar, para que o passado não fuja.
Dedico este texto ao meu pai.
![]() |
| Os cinco filhos e a mãe dos mesmos (Vera Mãe), Agosto 1969 |
![]() |
Eu, Eduardo, Sofia, Mariana, Pedro
Os cinco filhos, que é raro ver reunidos numa fotografia, porque a vida não deixa
|
quarta-feira, 18 de março de 2015
Fibra
O tempo continua a ser de renovação. De resoluções. Num Janeiro que se pretender estender até ao limite das possibilidades. É a vida a precisar de vitaminas, antioxidantes, todo um rol de nutrientes que tornem elástica a pele dos dias. Uma vida desidratada, ressequida, ressentida. É urgente alimentar a raíz das unhas, expulsar as células mortas, esfoliar as horas, para que a carne seja músculo e o corpo, na fímbria da incerteza, seja fibra de outras convições.
sexta-feira, 13 de março de 2015
Soundscapes
Nesta 6ª feira 13 deixo-vos com os ruídos naturais do mundo, cada vez mais ameaçados. Bernie Krause, músico que há quatro décadas optou por gravar os sons da natureza, diz que o mundo está cada vez mais silencioso. Escutem-no nesta conferência do TED.
terça-feira, 10 de março de 2015
Novo brinquedo
Eis-me a estrear o LibreOffice Writer no meu portátil novinho e eu feliz, aliviada por
ter sido possível converter, sem dificuldade, todos os documentos
que tinha no velho Word 2003. Para já, pude ver que lá terei de gramar
com a lagartinha encarnada sob as palavras escritas em desacordo com
o Acordo Ortográfico, mas não importa.
Agora
o tipo de letra assumido, por defeito, é simpático, chama-se
Liberation Serif e há todo um conjunto de novidades a explorar:
clonar formatação, um Ómega para inserir “Carácter especial”
(sic. A sério, é sempre bom saber que estamos a um clique de
inserir um carácter especial, vai dar-me um jeitão para a
construção de personagens), uma montanha de novos tipos de letra
(apesar de acabarmos por escolher apenas uma dúzia deles, tal como
os canais de televisão), um galeria que me permite inserir no texto
fundos com malmequeres, imagens, como abelhinhas, sons como o de uma
vaca (muito útil)... E agora vou publicar
isto no blogue, para ver como fica. Pareço uma criança, mas como li algures que estamos na Semana da Incontinência Urinária (olhem que
bem escolhido, de tantas efemérides que inventam, esta estava a
fazer imensa falta), tenho desculpa.
...
Já experimentei, não funciona bem. Bem feito, quem me manda fazer copy/paste com aquela salganhada. Resta-me o ficheiro no LibreOffice Writer e a partilha da minha satisfação infantil.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Os velhos dicionários
Em arrumações no escritório, em fase de mudanças de fundo no pequeno espaço onde finjo trabalhar, dou, mais uma vez, com os velhos dicionários da Porto Editora: Português-Inglês, Inglês-Português, Português-Francês, Francês-Português, Dicionário de Sinónimos, Dicionários de Verbos, Latim... abro um, ao acaso, na primeira página, e encontro a assinatura do meu pai e uma data: 1972. Sorrio, ao lembrar-me de que o meu pai, tal como eu, tem o hábito de escrever o nome e a data nos livros, incluindo os dicionários. O sentimento de posse, do género perdoável.
Os dicionários, gordos, poeirentos, velhos, inúteis, olham-me com aflição, como quem implora, por favor, não te desfaças de nós só porque nos tornámos obsoletos; imagina que a electricidade pode faltar, tudo falhar, a internet, a bateria do computador, o próprio computador, o tablet... que farás tu, quando a tecnologia te faltar? Nós aqui estamos, com a fidelidade de sempre, velhos mas sábios. Sábios, porque velhos. E em nós encontrarás, sempre, a palavra latina para "absurdamente", a inglesa para "perdição" ou sinónimos de "abandono". Recusam reformar-se, sem saberem que há muito se tornaram desnecessários. Fingindo acreditar nos seus argumentos, retiro-lhes a humilhação do pó, suspiro pelo espaço roubado, sem sentido, e torno a arrumá-los nas prateleiras atulhadas de coisas inúteis e preciosas.
Os dicionários, gordos, poeirentos, velhos, inúteis, olham-me com aflição, como quem implora, por favor, não te desfaças de nós só porque nos tornámos obsoletos; imagina que a electricidade pode faltar, tudo falhar, a internet, a bateria do computador, o próprio computador, o tablet... que farás tu, quando a tecnologia te faltar? Nós aqui estamos, com a fidelidade de sempre, velhos mas sábios. Sábios, porque velhos. E em nós encontrarás, sempre, a palavra latina para "absurdamente", a inglesa para "perdição" ou sinónimos de "abandono". Recusam reformar-se, sem saberem que há muito se tornaram desnecessários. Fingindo acreditar nos seus argumentos, retiro-lhes a humilhação do pó, suspiro pelo espaço roubado, sem sentido, e torno a arrumá-los nas prateleiras atulhadas de coisas inúteis e preciosas.
sexta-feira, 6 de março de 2015
Viragem
Peço desculpa aos que seguem este blogue. Venho apenas explicar que estou em fase de transição de gadgets, dependente de tecnologias que me chegam em upgrade, mas que me impedem, por alguns dias, de vir aqui ao ritmo habitual. Em breve julgo reunir condições para regressar em força. Novo ano, tempo de viragem. Não há imagens a ilustrar, é mesmo só isto, que já é muito. Escrevo a partir do tablet, apenas para deixar esta mensagem. Fiquem bem e até breve!
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Penando
Por
onde andam as suas resoluções? Desfeitas como sempre, entre os dedos cujas
unhas não pára de roer. E diz sempre que irá deixar de roê-las, mas nunca
cumpre a promessa. Rói mesmo quando o mundo lhe diz que não tem quaisquer
motivos para tal infantilidade. De que te queixas agora? Vá, diz, que terríveis
problemas tens tu a resolver? Que grandes espadas pairam sobre a tua cabeça? Só
se for por causa das resoluções sem solução. Decisões tão gelatinosas, tão
trementes como alforrecas morrendo de susto na areia. São disparates que escreve,
julgando que valem alguma coisa, mas não valem um caracol. Olha, nunca tinha
usado esta expressão, não valer um caracol.
É
a chamada escrita automática, que de automático nada tem, que a mente não se
desliga só porque a isso nos dispomos; em especial se passarmos a vida a corrigir
os erros de escrita dos outros: que tolerância haveríamos de ter para com os
nossos próprios erros? E por isso a mente não se deixa ir, está sempre alerta,
de borracha e caneta encarnada em punho, a travar, a retroceder, a refazer, a quebrar o embalo das
linhas que a mão vai traçando. Não, esses não perdoamos. E vá-se lá saber por
que razão estou a usar a forma plural, se estou absolutamente só nisto de tentar escrever. Os
outros escrevem, já se sabe, eu sou a perita em tentar. Apenas. Parece que o único tema que me resta é este, a arte
de não escrever. A escrita, um equívoco nas minhas mãos. Fosse eu digna de pena, e poderia dizer que escrevo de uma penada. E assim vou penando, de unhas roídas até ao sabugo. Olha, outra, nunca tinha escrito sabugo.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Luta
![]() |
| © BRUEGEL, A queda dos anjos rebeldes |
Hoje dominas a arte de não realizar o que escolheste por missão. De
que servirá escrever? Que diferença fará ao mundo? A falta de fé, a consciência de que é
apenas um capricho teu, de que estás só em absoluto, é, talvez, o que te impede
de escrever. O medo de falhar por inteiro: de descobrir que de nada vale, toda
esta entrega a um anjo que há muito se revoltou.
Queres desistir, libertar-te, pedir misericórdia ao anjo rebelde.
Estás
só na tua teimosia. Um demónio segura-te as mãos. Só tu sabes que são amarras forjadas num capricho. Que em ti nada solidifica. A luz não existe. Apenas sabes mentir com fraca chama. Em ti mesma acendes a mentira. E o que se
revela é de uma imensa tristeza. Estás incapaz de esculpir uma palavra mais.
De nada serve, diz o demónio.
Escreve, apesar de tudo, responde o anjo.
Falta-te a fé em algo que não encontras dentro de ti.
E
por isso escreves: para descobrir. Mesmo que, por ora, o demónio sorria, a cantar vitória.
Ao longe erguem-se enormes asas azuis. E tu escreves, apesar de tudo, para que o anjo te dê a mão e te leve a navegar nas tuas correntes.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
No outro lado do espelho
Sentou-se no café com o seu tablet. Um novo brinquedo muito sério. Concluiu, com satisfação, que, com aquele presente, comprar um computador portátil deixara de ser uma necessidade. Até a pequena
máquina digital perdera o sentido: talvez mesmo um descartar extensível aos seus cadernos, aquele íntimo caos composto por papéis infindos, que se iam dispersando,
desistentes, em gavetas atulhadas de tarecos, caixas de cartão empoeiradas, bolsos e malas
velhas, versos, pequenos textos, ideias, esboços que, em muitos casos, acabavam por nunca cumprir o seu destino.
Ela sorriu, vendo o seu universo de gestos enriquecido com novos confortos concentrados num só objecto. A tecnologia foi para ela, por instantes, um amigo - feito de plástico, borracha, compostos electrónicos e outros mistérios e saberes que ela jamais dominaria - ainda assim, um parceiro de confidências que desejou abraçar, como quem abraça um amigo.
E escrevendo isto descobriu também que, uma vez domesticado o bicho nas suas manhas, poderia, ali mesmo, no café da aldeia (que até tinha internet), publicar o texto no seu blogue.
Sentiu-se uma Alice no outro Lado do espelho, num mundo absurdo que teria de compreender; tão depressa amigável como rival ou ameaça: para que serviria aquele botão? E se fosse por ali, aonde iria dar? Um mundo estranho a explorar, com os seus dedos juvenis, saltitando sobre o teclado.
Ela sorriu, vendo o seu universo de gestos enriquecido com novos confortos concentrados num só objecto. A tecnologia foi para ela, por instantes, um amigo - feito de plástico, borracha, compostos electrónicos e outros mistérios e saberes que ela jamais dominaria - ainda assim, um parceiro de confidências que desejou abraçar, como quem abraça um amigo.
E escrevendo isto descobriu também que, uma vez domesticado o bicho nas suas manhas, poderia, ali mesmo, no café da aldeia (que até tinha internet), publicar o texto no seu blogue.
Sentiu-se uma Alice no outro Lado do espelho, num mundo absurdo que teria de compreender; tão depressa amigável como rival ou ameaça: para que serviria aquele botão? E se fosse por ali, aonde iria dar? Um mundo estranho a explorar, com os seus dedos juvenis, saltitando sobre o teclado.
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Samuel Barber
Este "adagio for strings" é, a par com a sinfonia nr 5, o adagietto, de Mahler, a peça mais triste e bonita que conheço. É estranho como algo tão triste pode ser belo a este ponto. Não se deixem inundar pela tristeza, é apenas o poder que a Música exerce sobre nós.
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