Ontem estive em quinteto com o Nanã (saxofones e flauta), o Alexandre Alves (bateria), o Nuno Oliveira (contrabaixo) e o George Esteves (piano acústico, em estreia connosco), no auditório do porto de Sines. Não posso deixar de agradecer à Maria Viana, à A.P.S, à Câmara Municipal de Sines, à Ana Rita Rosa, que nos acompanhou sempre, e ao serviço impecável do restaurante "Casa do Médico", com vista para a baía de Sines, pela qualidade impecável do serviço e a simpatia e boa disposição com que nos receberam. Ficou a vontade de regressar!
Não se deixem enganar pelas riscas cor-de-rosa. Os dias são (d)escritos com todas as cores.
sábado, 16 de maio de 2015
quinta-feira, 14 de maio de 2015
A Casota
Foram experimentar o restaurante que abriu no lugar da "Casita" (seria do "Casita", mas era tratado assim, no feminino, ou não estivesse à frente do restaurante uma excelente cozinheira, aqui da terra), onde se comia muito bem. Outros donos. Um jovem casalinho. Parece que agora era petisco. Vamos lá ver isso, pensaram.
Já sentados, com pão e azeitonas (manteiga,? Népia. Azeitonas ao natural: ervas? Alho? Népia), pediram:
"Olhe, traga guardanapos, por favor..."
Vinho da casa: "Pias". Venha um jarro.
Lá escolheram os petiscos. Acompanhamentos:
Arroz branco - carolino, frio, tipo gesso.
Migas: secas, granuladas.
Batatas fritas: congeladas
Petisco:
Farinheira: fria, não foi furada, salgada, crua
Pataniscas: safou-se, safou-nos, ligeira falta de sal, mas simpáticas, deixaram-se comer até ao fim (eram três)
Coisas na ementa que estavam na ementa mas "já não tinham": morcela, frango frito... (eram sete e meia quando chegámos, mas "já não tinham", o frango? Tinha "de ser de encomenda". ??? Vamos jantar fora, mas temos de encomendar antes de sair de casa?)
A comida chegou e nós, naturalmente:
"Olhe, pode trazer pratos grandes, daquele mesmo serviço, de barro?"
Não tinham: os petiscos, incluindo pataniscas e arroz eram servidos assim, em pratos de sobremesa. Pedimos mais pratos...
A garrafeira tinha 3 garrafas...vazias.
"Vão desejar sobremesa?"
"NÃO!! Que whiskies é que tem?"
(Private joke, "zéquetem, não temos, temos ....")
Milagre!:
"Temos Cardhu..."
"Alto! Pode parar aí: um Cardhu em balão sec...eehhh...sem gelo!"
Chegou um minimini cálice, menomeno cheio.
Pouco depois, lá foi preciso pedir outro whisky, para completar meio Cardhu.
Descafeinado, conta, por favor.
22,60 eur
"E então? O que é que acharam? Abrimos há pouco tempo... (como se não soubéssemos...) gostamos de saber a opinião dos nossos clientes...
Eu dei-a: a sopa embatatada, as azeitonas sem sabor, a ausência da manteiga, o arroz carolino, a farinheira crua e fria. E parei por ali. Para não assustar. E para quê? Não pretendíamos voltar. Será que foi chorar para a cozinha?
Adeus, até nunca mais. Que pena, tão perto de casa...o único perto de casa...! Mas...
A "Casita" passou a "Casota".
Que saudades do bife nho nho e da açorda de lagosta. Consequências da emigração. Parece que estão para a Suiça. Por lá, algures, deve-se comer bem.
Já sentados, com pão e azeitonas (manteiga,? Népia. Azeitonas ao natural: ervas? Alho? Népia), pediram:
"Olhe, traga guardanapos, por favor..."
Vinho da casa: "Pias". Venha um jarro.
Lá escolheram os petiscos. Acompanhamentos:
Arroz branco - carolino, frio, tipo gesso.
Migas: secas, granuladas.
Batatas fritas: congeladas
Petisco:
Farinheira: fria, não foi furada, salgada, crua
Pataniscas: safou-se, safou-nos, ligeira falta de sal, mas simpáticas, deixaram-se comer até ao fim (eram três)
Coisas na ementa que estavam na ementa mas "já não tinham": morcela, frango frito... (eram sete e meia quando chegámos, mas "já não tinham", o frango? Tinha "de ser de encomenda". ??? Vamos jantar fora, mas temos de encomendar antes de sair de casa?)
A comida chegou e nós, naturalmente:
"Olhe, pode trazer pratos grandes, daquele mesmo serviço, de barro?"
Não tinham: os petiscos, incluindo pataniscas e arroz eram servidos assim, em pratos de sobremesa. Pedimos mais pratos...
A garrafeira tinha 3 garrafas...vazias.
"Vão desejar sobremesa?"
"NÃO!! Que whiskies é que tem?"
(Private joke, "zéquetem, não temos, temos ....")
Milagre!:
"Temos Cardhu..."
"Alto! Pode parar aí: um Cardhu em balão sec...eehhh...sem gelo!"
Chegou um minimini cálice, menomeno cheio.
Pouco depois, lá foi preciso pedir outro whisky, para completar meio Cardhu.
Descafeinado, conta, por favor.
22,60 eur
"E então? O que é que acharam? Abrimos há pouco tempo... (como se não soubéssemos...) gostamos de saber a opinião dos nossos clientes...
Eu dei-a: a sopa embatatada, as azeitonas sem sabor, a ausência da manteiga, o arroz carolino, a farinheira crua e fria. E parei por ali. Para não assustar. E para quê? Não pretendíamos voltar. Será que foi chorar para a cozinha?
Adeus, até nunca mais. Que pena, tão perto de casa...o único perto de casa...! Mas...
A "Casita" passou a "Casota".
Que saudades do bife nho nho e da açorda de lagosta. Consequências da emigração. Parece que estão para a Suiça. Por lá, algures, deve-se comer bem.
domingo, 10 de maio de 2015
Mia Couto
MUDANÇA DE IDADE
Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.
domingo, 3 de maio de 2015
A minha mãe
"Estás cada vez mais parecida com a tua mãe", é o que oiço frequentemente. Para mim é um elogio, uma vez que a minha mãe sempre foi um exemplo de elegância e de charme. Os álbuns da casa-mãe estão cheios de fotografias da senhora que foi a modelo preferida do meu pai, num tempo sem photoshop, em que a máquina captava a verdade que os olhos viam. À minha mãe agradeço ter-me deixado ler todos os livros que eu escolhia das estantes, da casa de Lisboa e, sobretudo, da de Sesimbra, cuja biblioteca é maravilhosa. Muitos livros em francês, infelizmente, de contrário a minha primeira formação literária teria sido ainda mais rica. Também lhe devo, e ao meu pai, a formação musical: para sempre me ficou a influência do jazz e da bossa-nova, a recordação de muitos invernos na salinha da casa de Sesimbra, a ouvir Frank Sinatra, Paul Simon, Chico Buarque, Paul Williams, Carmina Burana, de Carl Orff... e os filmes, claro, boas "fitas", como ela dizia, acrescentando, quando eu torcia o nariz: "tem de ver, Vera". E eu via. E ainda bem: musicais, filmes italianos, franceses, ingleses, americanos. E as séries boas da época, que me deixava ver, mesmo que acabassem um bocadinho para o tarde...
A casa estava sempre cheia de gente, pudera, só filhos, éramos cinco e depois vieram os namorados, que engordavam ainda mais o grupo à mesa. Em Lisboa e, especialmente, em Sesimbra, a mãe cozinhava para todos, experimentando pratos com sabores do mundo, comida chinesa, tipo, galinha com amêndoas, algas e soja (acompanhado com chá de jasmim em chávenas autênticas, de porcelana "casca de ovo"), carne à bolonhesa (receita maravilhosa, que tantas vezes faço e o meu filho adora), souflé de peixe servido em conchas de vieira...tinha assim uma paciência incrível para fazer pratos criativos. E não falhavam as velas altas na mesa, acesas à hora do jantar, apagadas com uma campânula de prata, de haste comprida, rituais que se perderam, como compôr álbuns de fotografias em folhas enormes de cartolina, com legendas escritas a branco. Ainda hoje telefono à minha mãe para tirar uma dúvida qualquer de culinária (é um privilégio de que não abdico, enquanto puder). A ela devo tantas dicas de beleza, de bom-senso, o saber estar, o ter savoir-faire, e fazer a coisa certa, aquela que nos dita a consciência (ainda que por vezes fosse um pouco sob o lema "façam o que eu digo, não façam o que eu faço). Nunca foi mãe-galinha, mas sabe ser mãe leoa quando é preciso, apesar dos seus quase 81 anos. Parabéns, mãe! Que se mantenha assim, bonita, lúcida e com saúde, enquanto desejar.
| Lisboa, 1970: a elegância em pessoa. 5 filhos postos no mundo. Eu tinha poucos meses. |
| Natal 1971, na casa da Marquês de Tomar. as estantes sempre recheadas de livros. |
| Lisboa, 1970. 4 filhos à mesa (eu não consto, ainda mal me sentava, quanto mais à mesa grande). Lá estão os castiçais com as velas, vêem? Sempre acesas ao jantar. |
| Anos 70, com a mana Sofia, na tal salinha na casa de Sesimbra, em cuja lareira se assaram muitas castanhas. |
| Em Sesimbra, 1976, eu na muda do dente, com 7 anos, a minha mãe pouco mais nova do que eu sou agora |
terça-feira, 28 de abril de 2015
Por favor
Existo? Confirmem, por favor.
Mostrem-me o reflexo dos meus sonhos, que me viram à mesa, a virar a mesa, comendo e bebendo, amando os meus filhos e netos, o cão, o gato, a flor, o céu que me passa nos olhos, que passo a passo me transporta para outros lugares.
Existo? Gostem, por favor.
Gostem do que escrevo, do que sinto, do que penso, do que minto, dos livros que leio, do quadro que pinto, do bolo, do prato, do vestido novo, do sapato, do que grito ou confesso de porta escancarada a cada estranho, enquanto estranho palavras que mal reconheço.
Existo? Comentem, por favor.
Digam-me o que pensam, e sentem e vivem e talvez eu tenha tempo de ler quanto me dizem, e gostar e responder até cansar e o assunto morrer.
Existo? Partilhem, por favor.
Espalhem o que amo e odeio, o que prendo entre os dedos, o alerta, a compaixão, o drama, a vitória, esquecimento ou memória dos outros que são meus e de outros que o não foram, que celebro como quem rouba a terra de alguém, enterrando os mortos, celebrando quem nunca pude abraçar, em lugares onde não estive.
Existo? Sigam-me, por favor.
Venham atrás de mim, por aqui, de mão dada, mão estendida a pedir, a cada dia, a cada hora, a cada amanhã por acontecer, a cada segundo por existir.
Estranha forma de solidão, estranha forma de agarrar o que andamos a viver.
Mostrem-me o reflexo dos meus sonhos, que me viram à mesa, a virar a mesa, comendo e bebendo, amando os meus filhos e netos, o cão, o gato, a flor, o céu que me passa nos olhos, que passo a passo me transporta para outros lugares.
Existo? Gostem, por favor.
Gostem do que escrevo, do que sinto, do que penso, do que minto, dos livros que leio, do quadro que pinto, do bolo, do prato, do vestido novo, do sapato, do que grito ou confesso de porta escancarada a cada estranho, enquanto estranho palavras que mal reconheço.
Existo? Comentem, por favor.
Digam-me o que pensam, e sentem e vivem e talvez eu tenha tempo de ler quanto me dizem, e gostar e responder até cansar e o assunto morrer.
Existo? Partilhem, por favor.
Espalhem o que amo e odeio, o que prendo entre os dedos, o alerta, a compaixão, o drama, a vitória, esquecimento ou memória dos outros que são meus e de outros que o não foram, que celebro como quem rouba a terra de alguém, enterrando os mortos, celebrando quem nunca pude abraçar, em lugares onde não estive.
Existo? Sigam-me, por favor.
Venham atrás de mim, por aqui, de mão dada, mão estendida a pedir, a cada dia, a cada hora, a cada amanhã por acontecer, a cada segundo por existir.
Estranha forma de solidão, estranha forma de agarrar o que andamos a viver.
quinta-feira, 23 de abril de 2015
quarta-feira, 22 de abril de 2015
Cabeça-de-vento
Crónica: Raquel Serejo Martins
Pintura: "Cabeça de vento" de Ana Cristina Dias
![]() |
| Detalhe |
«A primeira vez que lhe chamaram cabeça de vento estava na escola primária.
Talvez mesmo na primeira classe.
Os meninos de bata amarela.
Canários em linha, como molas de roupa sem roupa não numa corda mas dentro de uma gaiola.
Guarda uma memória amarela.
Os meninos sentados, plantados nas carteiras, um campo de girassóis de olhos encandeados por um sol negro de ardósia, duas dúzias de olhos cegos de espanto por perceber que os estranhos desenhos eram palavras e que as palavras eram feitas de letras, uma matrioska, parecia marosca.
P-a-t-o.
G-a-t-o.
Parecia estranho, era estranho, porque para ela, um gato, sete vidas, quatro patas, um rabo, muitos bigodes e dois olhos amarelos como os berlindes que guardava no bolso.
Olhava para o enorme quadro negro e gato nenhum, nem escondido, denunciado por um rabo de fora.
Ouvia a explicação na voz de locutor de rádio sem música do professor e perdia-se, fugia, para lá das enormes janelas, tão grandes que a deixavam ver a cidade inteira.
Mentira, sabe que é feio mentir, se a cidade uma laranja, uma tangerina porque a cidade pequena, via apenas meia tangerina, o que já é muito ver para uma janela.
E de olhos na janela, para lá do vidro, perdia-se à procura do gato, procurava ao sol à soleira das portas, à porta da peixaria, camuflado entre os cortinados de uma janela, entre dois vasos com sardinheiras, a atravessar a estrada dentro ou fora da passadeira, pelas árvores, pelos muros, pelos telhados.
Chamavam-lhe cabeça-de-vento e diziam que fazia muitas avarias.
Ou tinha muitas ideias e nem todas corriam bem.
Convém ser boa a correr.
Não era o seu caso. Corria, tropeçava, caía, como se uma sequência com lógica.
Os joelhos pele de crocodilo, crosta sobre a crosta da primeira ferida.
E a correr, entre a lebre a tartaruga, ela um peixe.
Dentro de água ninguém a apanha, ninguém lhe ganha.
Ia ao fundo como se fosse à lua.
Para mais na cidade um rio, nos seus Verões um rio.
Quando ia ao fundo deixava todos de olhos pendentes e respiração suspensa, como a sua debaixo de água, até ao seu regresso, hesitantes quanto a mergulhar também, no limite do susto, até que emergia ofegante, sorridente, e sempre com uma pedra na mão, prova oval e concreta da sua audácia.
Tinha no quarto um frasco de vidro onde em vez de bolachas ou biscoitos guardava pedras do fundo do rio. A avó sabia que tantas as pedras como as vezes que ficou com o coração nas mãos por saber como o rio é matreiro com os invasores.
Porém ela um peixe.
E apesar das pedras, a avó nunca a chamou cabeça-de-vento, talvez soubesse que ela um peixe, inconsciência, audácia, guelras e barbatanas.
De olhos tristes com um sorriso perdoava-lhe todas as asneiras.
Mesmo quando os berlindes lhe fugiram do bolso, como se tivessem pezinhos.
Fugiram, avó! – Um eufemismo.
Fugiram-me do bolso e sem querer fizeram cair o professor no corredor da escola.
Mau humor fracturado em dois sítios, fato de fazenda de três peças e braço esquerdo engessado ao peito, passou a ser conhecido entre os girassóis como o pau-de-giz.
Tem tempo para a tristeza a menina. – Ouvia-se a avó dizer como se de uma ordem se tratasse, ao tempo, à tristeza e a todos os que queriam corrigir a menina.
Pelo que em casa da avó um mundo diferente, o tempo sem sobressaltos e o seu cocuruto em sossego.
Um mundo pequeno. A avó não tinha muito. Uma casa. Um gato. Uma figueira e na figueira quando figos pássaros.
A avó não tinha muito mas tinha muitas histórias para contar.
Conta outra vez a da menina que tinha um tapete voador.
E a avó contava, a mesma história, sempre de forma diferente, como se não atinasse com a história, pelo que sempre uma surpresa, um espanto.
Era uma vez um tapete que de tanto voar, voou mais do que avião, tanto como foguetão, chegou à lua, fez da menina astronauta.
A avó nunca andou de avião.
A avó só conhece os aviões de os ver passar no céu lá longe, pequenos como pardais, lá longe, na lentidão dos caracóis deixando um rabo de fumo.
A avó nunca viu foguetões, nem mesmo na televisão, que serve para as notícias e não mais, sabe sem saber bem o que são, imagina-os como foguetes gigantes, velozes e barulhentos como os que lançam na festa de Nossa Senhora da Assunção, grandes como camionetas, capazes de levar gente dentro, capazes de aterrar na lua, pelo menos quando gorda e cheia, apesar de tudo somado lhe parecer fraca brincadeira, porque fraco passeio para piqueniques.
Porém a menina gosta de ir à lua.
Foi a primeira astronauta da turma.
Pelo que a avó, se o avô a dormir a sesta, ia ao bengaleiro buscar a boina e o chapéu de levar à missa ao Domingo, dois capacetes, enfiava a boina na cabeça da neta até às orelhas, que assim devidamente protegida, 10-8-7-4 começa de imediato a contagem decrescente, contava ao contrário sem ainda bem saber contar, estado de euforia uma única vez interrompido, não para abortar a missão lunar, nem impedir a humanidade de dar mais um salto, mas por se lembrar, em respeito pelo original, que lhes faltava uma bandeira, a avó sabia que era imprescindível levar uma bandeira.
Temos de fazer uma bandeira. – disse antes de descolar o foguetão.
Tenho uma velha almofada solteira, cortamos uma galho seco à figueira.
O que é uma bandeira? – Pergunta a menina ansiosa perante a nova palavra e a novidade.
Uma bandeira! Como te posso explicar, é como uma fotografia. Estás a ver a fotografia do avô que guardo na caixa de costura, tem o bigode do teu avô, os óculos do teu avô, o chapéu do teu avô, o sorriso do teu avô, os seus vinte anos, o bolo de chocolate de que tanto gostava, o dia em que me pediu em casamento, o dia em que nasceu a tua mãe, o dia em que tu nasceste, é um quadradinho de papel que tem dentro todas as histórias de um país e os sonhos também.
Então a minha bandeira tem de ter uma bicicleta! O pai disse que se eu me portasse bem me oferecia uma bicicleta no meu dia de anos.»
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| pintura em livro |
(retirado integralmente do blogue Clube de Leitores)
sábado, 18 de abril de 2015
Abril na Lx Factory
Sol posto, instala-se o frio. Sabe bem ir por dentro, até ao outro extremo, onde se encontra o restaurante malaio. Somos sete à mesa. Alguém nos apresenta o João Pestana, este, não o outro, que está bem longe de chegar. Ocupamos a mesa reservada para um grupo de teatro que só chegará depois do início da nossa tertúlia. Perfeito. Os seis pratos que partilhamos, acompanhados por vinho branco e tinto, são generosos em cores e sabores. Camarão, carne de porco e muitos vegetais e especiarias do Oriente. Chega o José Luís Outono. Falamos de viagens, de música, de comida, claro, ou não fôssemos portugueses. Partilhamos sobremesas, bebemos café, cantamos os parabéns à Virgínia em cante alentejano, com a melodia da "Internacional" e do "Grândola vila morena". Risos.
Subimos ao primeiro andar, onde alguns participantes já aguardam. A Virgínia faz as devidas apresentações, com a simpatia e o tom informal que lhe são próprios e, à pergunta da Raquel, feita em tom de brincadeira - onde estava no 25 de Abril? -, instala-se o mote: as idades variam, há diferentes gerações e distintas são as memórias. A tertúlia ganha um carácter de quase terapia de grupo: celebrando, exorcizando, em confissões, memórias, desabafos, alertas, o que foram aqueles dias de 1974, o que significou a revolução, o antes e o depois, a ditadura, a censura, o espanto, a liberdade, sempre a liberdade como pano de fundo deste encontro salpicado de versos de poetas presentes uns, ausentes outros. Leitura de versos e prosas em papel, em iphones e tablets, na coabitação promíscua em que as palavras se vão arrumando nos tempos modernos, versos que se resgatam em gadgets cujas baterias estão prestes a terminar. Mas sempre chegam, as palavras que falam de liberdade.
Obrigada, Virgínia, por este encontro. Gostei de poder abraçar, enfim, uma amiga até hoje virtual: a poetisa Graça Pires; de conhecer um pouco ao recheio dos livros da Poética e dos seus autores, tais como Eufrázio Filipe, Gisela Ramos Rosa, Lídia Borges, Maria Isabel Fidalgo, Manuel Veiga, Rui Miguel Fragas e, claro, Rosário Ferreira Alves, cuja escrita conheço desde os versos que ela já escrevia, quando andávamos juntas na faculdade.
Descemos à livraria. Por fim o espumante oferecido pelo José Pinho, uma saúde à Virgínia, uma espreitadela aos desenhos maravilhosos do João Pestana, no seu Moleskine, mais fotografias que saíram desfocadas e dois dedos de conversa com a Raquel, que há tanto eu queria conhecer melhor.
Alcântara, sexta-feira à noite: uma operação stop com direito a balão, sem consequências, felizmente. A celebração que nos corre nas veias não pode ser detida nem censurada. Continuamos com as nossas palavras e com a liberdade do movimento sobre rodas. Foi este o nosso Abril. Livre, apesar de tudo.
![]() |
| Raquel Serejo Martins lendo excertos do seu romance "Pretérito Perfeito" |
![]() |
| Virgínia do Carmo, editora da Poética |

quarta-feira, 15 de abril de 2015
À espera
Na distância, a trovoada arregaçou as saias do vestido e partiu, pé ante pé, sem ter dançado comigo. No salão de baile apenas as ervas inundadas de ouro, a melodia do vento. Do cimo das árvores, explode o aplauso mudo de mil pássaros, que assistem, dos seus camarotes, à partida da tempestade. Talvez a escuridão a traga de volta, para uma valsa nocturna, encerrada em cortinas negras. Mas só em sonhos poderei dançar.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Um pouco mais
Porque estamos a precisar, porque nos deixa um pouco mais felizes, porque isto está verdadeiro, bem feito, com alma. Não liguem à imagem, que é de outro tema, acabadinho de ser lançado. O video é outro, bem mais sentimental e ensolarado. :-)
Bom fim de semana, sim? :-)
Bom fim de semana, sim? :-)
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Birdman
Muito bom filme. Recomendo. Excelente realização, argumento, casting. Tudo bom. Óscar de melhor filme? Merecidíssimo.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Da solidão
Da solidão, um ritual
da trovoada da tarde, a música da terra
suor de tambores, cordas vibrando,
harmonias de chuva,
bailados de sombras
no intervalo da luz.
Da solidão, o presente
paralisia do tempo, a face molhada
humidade leitosa, ruído, queixume,
parede escorrendo,
lamento do ramo
da haste, da flor.
Da solidão, a promessa
chegada à beira do nervo, da carne
da boca, da língua, da corda acordando
palavras morrendo
no abismo da folha
tão só, a procura
do poema
de estar só.
(© Vera de Vilhena, inédito)
sexta-feira, 27 de março de 2015
Cinco contos
Era assim, noutro tempo. Guardávamos estas e outras na carteira, numa época em que mal usávamos computadores, e em que tudo o que escrevíamos ficava impresso em papel.
Em arrumações, no pequeno escritório no qual finjo trabalhar, na minha casa (e digo finjo porque o que vamos correndo por gosto não nos cansa), dei com cinco contos que julgava perdidos. Não destes, que já não fazem falta - já que estamos rotulados com a palavra Europa a ferro e fogo, doa o que doa -, mas dos outros, os contos que se escrevem e se lêem.
Cinco contos que julgava perdidos irremediavelmente, desde o dia em que descobrimos, com a ajuda de um engenheiro informático amigo, que o meu velho computador, já reformado entretanto, apagava os ficheiros danificados, ao invés de os meter de quarentena. Eis que dou com as folhas dispersas, impressas com cinco contos que se escondiam entre resmas de papel de rascunho, cujo verso sempre aproveito.
Cinco contos que ando a reescrever cerca de dez anos depois. Cinco contos que decidi não incluir, ao candidatar-me ao Prémio Revelação APE/Babel, na categoria de literatura para a infância e juventude, e que redescubro agora, uns para uma hipotética sequela do Coisandês (que, para minha felicidade, ganhou o prémio), outros para adultos. Devemos escrever sem pensar nos leitores, dizem. Alguns foram escritos assim, e por isso transgridem, não são adequados a crianças. Ou estarei a menosprezar a sua maturidade? É difícil saber. Pelo sim pelo não, deixei ficar as transgressões e troquei em miúdos estes cinco contos: uns em moedas, outros em notas; uns para jovens, outros para adultos.
Apesar disso, não deixam de ser, no todo, cinco contos. E ainda bem que temos papel.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Tomas Tranströmer
Estocolmo, 1931-26 Março 2015
Poeta, tradutor e psicólogo sueco
PÁSSAROS MATINAIS
Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.
Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.
Não há vazios por aqui.
Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.
terça-feira, 24 de março de 2015
Adeus, Herberto Helder
A Bicicleta pela Lua Dentro - Mãe, Mãe
A bicicleta pela lua dentro - mãe, mãe -
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer senão sonhar
ao contrário quando novembro empunha -
mãe, mãe - as tellhas dos seus frutos?
As nuvens, aviões, mercúrio.
Novembro - mãe - com as suas praças
descascadas.
A neve sobre os frutos - filho, filho.
Janeiro com outono sonha então.
Canta nesse espanto - meu filho - os satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Aviões passam no teu nome -
minha mãe, minha máquina -
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve.
Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as árvores crescem ao contrário.
Apresento-te novembro: avião
limpo como um alfabeto. E as praças
dão a sua neve descascada.
Mãe, mãe — como janeiro resplende
nos satélites. Filho — é a tua memória.
E as letras estão em ti, abertas
pela neve dentro. Como árvores, aviões
sonham ao contrário.
As estátuas, de polvos na cabeça,
florescem com mercúrio.
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro,
é a neve avançando na sua bicicleta.
O alfabeto, a lua.
Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Era pesada, ao colo, cheia de neve.
la dizendo o teu nome de janeiro.
Enxofre — mãe — era o teu nome.
As letras cresciam em torno da terra,
as telhas vergavam ao peso
do que me lembro. Começo a lembrar-me:
era o atum negro do teu nome,
nos meus braços como neve de janeiro.
Novembro — meu filho — quando se atira a flecha,
e as praças se descascam,
e os satélites avançam,
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem
(eu vi): era pesada.
O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas.
Laranjas de pedra - mãe. Resplendentes,
estátuas negras no teu nome,
no meu colo.
Era a neve que nunca mais acabava.
Começo a lembrar-me: a bicicleta
vergava ao peso desse grande atum negro.
A praça descascava-se.
E eis o teu nome resplendente com as letras
ao contrário, sonhando
dentro de mim sem nunca mais acabar.
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua
batia pelo ar fora.
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios
do meu nome negro, e nunca mais
acabava de nevar.
Era novembro.
Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio
crescendo com toda a força em volta
da terra. Mãe - se morreste, porque fazes
tanta força com os pés contra o teu nome,
no meu colo?
Eu ia lembrar-me: os satélites todos
resplendentes na praça. Era a neve.
Era o tempo descascado
sonhando com tanto peso no meu colo.
Ó mãe, atum negro —
ao contrário, ao contrário, com tanta força.
Era tudo uma máquina com as letras
lá dentro. E eu vinha cantando
com a minha paisagem negra pela neve.
E isso não acabava nunca mais pelo tempo
fora. Começo a lembrar-me.
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos
de peixe, tua coluna
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha
cantando na neve que nunca mais
acabava.
O teu nome negro com tanta força —
minha mãe.
Os satélites e as praças. E novembro
avançando em janeiro com seus frutos
destelhados ao colo. As
estátuas, e eu sonhando, sonhando.
Ao contrário tão morta — minha mãe —
com tanta força, e nunca
— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora.
Herberto Helder, in 'Poemas Completos'
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer senão sonhar
ao contrário quando novembro empunha -
mãe, mãe - as tellhas dos seus frutos?
As nuvens, aviões, mercúrio.
Novembro - mãe - com as suas praças
descascadas.
A neve sobre os frutos - filho, filho.
Janeiro com outono sonha então.
Canta nesse espanto - meu filho - os satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Aviões passam no teu nome -
minha mãe, minha máquina -
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve.
Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as árvores crescem ao contrário.
Apresento-te novembro: avião
limpo como um alfabeto. E as praças
dão a sua neve descascada.
Mãe, mãe — como janeiro resplende
nos satélites. Filho — é a tua memória.
E as letras estão em ti, abertas
pela neve dentro. Como árvores, aviões
sonham ao contrário.
As estátuas, de polvos na cabeça,
florescem com mercúrio.
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro,
é a neve avançando na sua bicicleta.
O alfabeto, a lua.
Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Era pesada, ao colo, cheia de neve.
la dizendo o teu nome de janeiro.
Enxofre — mãe — era o teu nome.
As letras cresciam em torno da terra,
as telhas vergavam ao peso
do que me lembro. Começo a lembrar-me:
era o atum negro do teu nome,
nos meus braços como neve de janeiro.
Novembro — meu filho — quando se atira a flecha,
e as praças se descascam,
e os satélites avançam,
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem
(eu vi): era pesada.
O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas.
Laranjas de pedra - mãe. Resplendentes,
estátuas negras no teu nome,
no meu colo.
Era a neve que nunca mais acabava.
Começo a lembrar-me: a bicicleta
vergava ao peso desse grande atum negro.
A praça descascava-se.
E eis o teu nome resplendente com as letras
ao contrário, sonhando
dentro de mim sem nunca mais acabar.
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua
batia pelo ar fora.
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios
do meu nome negro, e nunca mais
acabava de nevar.
Era novembro.
Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio
crescendo com toda a força em volta
da terra. Mãe - se morreste, porque fazes
tanta força com os pés contra o teu nome,
no meu colo?
Eu ia lembrar-me: os satélites todos
resplendentes na praça. Era a neve.
Era o tempo descascado
sonhando com tanto peso no meu colo.
Ó mãe, atum negro —
ao contrário, ao contrário, com tanta força.
Era tudo uma máquina com as letras
lá dentro. E eu vinha cantando
com a minha paisagem negra pela neve.
E isso não acabava nunca mais pelo tempo
fora. Começo a lembrar-me.
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos
de peixe, tua coluna
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha
cantando na neve que nunca mais
acabava.
O teu nome negro com tanta força —
minha mãe.
Os satélites e as praças. E novembro
avançando em janeiro com seus frutos
destelhados ao colo. As
estátuas, e eu sonhando, sonhando.
Ao contrário tão morta — minha mãe —
com tanta força, e nunca
— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora.
Herberto Helder, in 'Poemas Completos'
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| Funchal, 1930 - Cascais, 24 Março 2015 |
domingo, 22 de março de 2015
gota de março
No Dia Mundial da Água, nesta tarde de céu cinza-claro, a anunciar chuva, deixo uma cantilena fresca, acabada de colher dos meus dedos.

Gota a gota
pingue pingue
enche o rio
que escorre
a esperança de ti
e de mim
não se apara
não se afaga
e o sentido mordido
pela fúria
pensamento
adormecido
água escorre
no chão seco
e branco e negro
mármore bolo
doce em boca
aguada
das ideias
primavera
sem travão
em gota fina
bebe a alma
o corpo nu
transpira o medo
a pele vomita
a toxina
gota agreste
planta a terra
seca, mãe
do meu futuro
em sombras
mornas
na folhagem
a matar-me
a solidão.
(© Vera de Vilhena, inéditos)
Roubei a imagem aqui
sábado, 21 de março de 2015
Dédalo
É agora, ébria de mim,
O momento de ser eu,
Sem erro nem desvio,
Sem destilar
a
minha
dor.
Ser eu, mais ninguém,
A morder a mágoa de mim mesma;
Sem cinto nem travão,
No impulso etéreo
Que me
leve
aonde
for.
É agora que choro, sem crosta nem
escudo,
Que verei quem se encontra
em mim.
Onde estou eu, quando me revelo?
Por onde vai o meu ser verdadeiro?
Sem firmeza, sem crença,
Denúncia ou enleio.
Para onde vou,
enquanto
c
a
i
o?
(...)
(excerto de «Dédalo», in «Fora do Mundo, Poética Edições, 2014)
quinta-feira, 19 de março de 2015
Pai
| Meu pai, 1972 |
O meu pai é marinheiro. Oficial da Marinha. Reformou-se como comandante, desembarcou de vez e foi morar com a minha mãe para a grande casa de férias, que alberga uma enorme parte das minhas recordações. Na casa, espalhado pelas paredes toscas, pintadas de branco-espuma, em armários e gavetas, sobre os móveis, sempre houve um rol de objectos que contam histórias do mar antigo e recente: astrolábios, sextantes, compassos, bússolas, cartas e triângulos náuticos, lemes, nós, pequenas réplicas de embarcações, bandeiras náuticas, altímetros... mas também cintos de chumbo, barbatanas, óculos de mergulho, rações de emergência para náufragos, dentaduras de tubarão e até um pequeno crocodilo embalsamado, em cuja bocarra aberta surgiam teias que ninguém queria retirar.
Uma amiga, que há treze anos acompanha o que vou escrevendo, disse-me um dia que eu tenho "essa coisa do mar, por causa do teu pai". Deve ser a tal história, quem sai aos seus. Haverá coisa mais literária do que um farol, sempre de sentinela, num cabo ou promontório batido pelas ondas? Pronto. Parece que os meus textos estão cheios de coisas marítimas, metáforas, lembranças, alusões a cheiros e texturas, inclusive o perfume que se escapava, em serpentinas, dos vários cachimbos do pai João Manuel. Há muito tempo que deixou de fumar. Mas ainda cuida do jardim, que pede ao meu pai esforços que me custa imaginar, além dos muitos gatos que vão tendo desde que lhes ofereci o primeiro - Fellini - ao engravidar do meu filho.
O meu pai, em terra firme desde que se reformou das viagens que o levavam para longe de casa durante meses, permanece, de uma forma ou de outra, ligado ao mar que lhe está no sangue. Um dos seus hobbies é a construção de barcos, a partir de kits sofisticadíssimos, cuja perícia e paciência implicam anos de trabalho. Tem cinco filhos e já construiu vários, entre os quais o Bismark, um imponente couraçado da II Guerra Mundial. Para mim, escolheu uma réplica bem diferente, que aguardo com impaciência. O meu filho também: é o Soleil Royal, um galeão lindo de Luís XIV. Já estou a vê-lo, partindo do porto de Havre ou de Brest, envolto em brumas.
Hoje, que sinto na pele a impiedade do tempo que nunca deixa de navegar connosco, levando-nos para um alto-mar de onde, um dia, jamais regressaremos, só desejo que Deus lhe dê saúde, que o meu pai continue, por mais algumas marés, a fechar e a abrir as escotilhas da casa enorme, a cuidar da sua tripulação de gatos junto da minha mãe, e a construir a sua frota num mar de faz-de-conta, enquanto eu, na ferrugem das palavras salgadas pela memória, vou tecendo uma rede de páginas de espuma, como quem apanha conchas à beira-mar, para que o passado não fuja.
Dedico este texto ao meu pai.
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| Os cinco filhos e a mãe dos mesmos (Vera Mãe), Agosto 1969 |
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Eu, Eduardo, Sofia, Mariana, Pedro
Os cinco filhos, que é raro ver reunidos numa fotografia, porque a vida não deixa
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quarta-feira, 18 de março de 2015
Fibra
O tempo continua a ser de renovação. De resoluções. Num Janeiro que se pretender estender até ao limite das possibilidades. É a vida a precisar de vitaminas, antioxidantes, todo um rol de nutrientes que tornem elástica a pele dos dias. Uma vida desidratada, ressequida, ressentida. É urgente alimentar a raíz das unhas, expulsar as células mortas, esfoliar as horas, para que a carne seja músculo e o corpo, na fímbria da incerteza, seja fibra de outras convições.
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