Não se deixem enganar pelas riscas cor-de-rosa. Os dias são (d)escritos com todas as cores.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
sábado, 19 de setembro de 2015
Nua
Nua
Tudo ela despiu:
O laço e a luva,
O casaco, o vestido;
E despiu a nuvem,
Despiu a chuva;
E, mau grado o vento,
Com passos pequenos,
Desarmou o sentido.
Pôs de lado a lágrima,
A fresta fechada;
Quis ser criatura
De entre todas a mais
nua.
Desfolhada da pele,
Desnudou-se do chão;
Despiu-se da fenda
E da porta da rua.
Tudo ela despiu:
A velhice dos móveis,
O pó das memórias
Que o tempo riscou;
Arrumou recatos,
Dores, vergonhas,
Na crença dos cegos,
Em sombra muda,
avançou.
Despiu o almoço
O moço, o cão;
Deu corda ao relógio,
Desarmou o grito
E a mansidão.
Despiu com atraso,
Do avesso, a alma
Gretada de há tanto
Andar enlameada.
Despida da fome,
E das suas muralhas,
Liberta da sede,
Cobriu-se de nada.
Nua e leve,
Desnudou o cansaço
Do corpo que soa,
Num lento compasso.
E com mãos vazias,
Num gesto inteiro,
Despiu a mortalha
Do seu cativeiro.
Despojou o medo,
Buscou o martelo
Que quebrasse a pedra
Entorpecida.
Trajada a preceito,
De corpo apenas,
Desarmou receios e até
suas penas,
Em busca de um dia
mais-que-perfeito
E na estrada branca
Viajou no ventre
Que em tardio repente
Em si mesma gerou;
E sempre que um “se”
Invadiu suas veias,
De sangue novo se
alimentou.
Jamais tornaria ao doce
vazio:
Porquanto,
Intimamente,
Tudo ela despiu
(in «Fora do Mundo», pp.20-21 (Poética Edições, 2014)
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Os dois cartuchos
O mago tinha dois cartuchos de magia trocada, comprados na Feira das
Curiosidades, num encontro de druídas muito velhos. Tão velhos que alguns deles
já não davam conta do que faziam. Nunca sabiam dizer o que iria sair da terra: podia
ser um milagre ou uma desgraça. Um duende prestável ou um monstro que tudo arrasava.
Na noite de lua cheia o mago plantou as sementes do primeiro cartucho e
foi dormir. Na manhã seguinte tinham nascido cenouras de açúcar, beringelas de
amora, coentros de cacau, aipos de mel…. ingredientes da terra que apenas serviram
para confeccionar pratos agridoces. Nessa noite os convivas saíram de sua casa
um pouco enjoados, o que é compreensível.
Na lua cheia que veio depois o mago semeou o conteúdo do segundo cartucho
de papel pardo. Cansado de tanto desalento, pediu à lua alguma grandeza de
espírito; que se apiedasse daquela gente tão carente de salvação. Sem saber o
que deitava na terra húmida, pegou na foice e plantou rebentos de visões,
sementes de iniciativa e bolbos de ânimo mesclados de fortuna. Quando o sol
subiu no horizonte, a urbe parecia transformada. Todos trabalhavam e sorriam.
Compravam e vendiam. Inventavam e construíam. Falhavam e insistiam, sem nunca
perder o sorriso. A cidade cresceu e nem sete dias passados já se tornara uma
lenda nas cidades vizinhas.
Nunca mais precisaram dele.
O mago partiu e jamais tornou a ser visto.
![]() |
| Roubei a imagem aqui |
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Sem lugar
D. Ian Grave bateu à porta do coveiro. No corpo a morte caducava,
sem saber muito bem o que fazer à embalagem. Era uma morte ecologista, não
pretendia deixar o corpo assim, ao Deus dará. Egoísta, a alma elevava-se, já,
flutuando a conquistar o céu. Barry, o coveiro, abriu.
- Encontre-me sepultura, Ian rogou - estou aqui que não posso
e a morte a caducar-me.
- Lamento, mas não há lugar. Terá de se dirigir à sua última
morada.
Não seria aquela. Não naquele dia, pelo menos. Que pena,
pensou Ian Grave em voz alta, eu que já tinha escolhido a colina acolá, junto aos ciprestes azuis.
- Aah...mas são verdes.
- se o senhor diz... para mim são azuis.
Ian Grave nunca admitia que era daltónico, além de que achava a ideia de os ciprestes serem azuis muito mais bonita. Mas não teria ciprestes. Nem azuis nem verdes.
Lá foi viver mais um pouco, a fazer tempo. Era daqueles que
nunca encontrava o seu lugar neste mundo. Nem sequer no outro.
![]() |
| Roubei a imagem aqui |
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
boa semana, sim? :-)
Dancem sem pruridos nem ralações, como se ninguém estivesse a ver. Uma terapia, garanto!
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Recomeço ?
![]() |
| Por inverosímil que pareça, a vista do meu quarto e do meu escritório, na estação das chuvas. |
- Estou aqui.
E então ela escreve. Para que o tempo não faça queixa dela.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Infortúnios
"Se todos os infortúnios do mundo fossem colocados juntos e posteriormente repartidos em partes iguais por cada um de nós, ficaríamos muito felizes se pudéssemos ter apenas, de novo, só os nossos."
(filósofo Sócrates, Atenas, 469 a.C. - Atenas, 399 a.C.)
Obrigada, Ana.
(filósofo Sócrates, Atenas, 469 a.C. - Atenas, 399 a.C.)
![]() |
| Roubei a imagem aqui |
sábado, 5 de setembro de 2015
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Revolta
Só tenho revolta. E um estúpido sentido de justiça que não parece ter lugar no mundo em que vivemos. Cheguei ao meu limite. E agora? Agora só me resta lutar. E logo eu, que não faço mal a uma mosca (forma de dizer, pois já matei imensas), terei de manter esta raiva, para não perder a coragem e remeter-me ao silêncio e ao conformismo.
Para ilustrar tudo isto, uma imagem singela do estado do meu olho esquerdo que, ao que me dizem os médicos, mesmo após o transplante de córnea não irá recuperar a visão.
Para ilustrar tudo isto, uma imagem singela do estado do meu olho esquerdo que, ao que me dizem os médicos, mesmo após o transplante de córnea não irá recuperar a visão.
Como podem ver, não estou para literaturas. A realidade só me deixa gritar isto.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Fugir
E eis que chega Setembro. Entregue o último capítulo ontem, como revisora literária, nada me resta senão cuidar de mim. Uma ida ao hospital a preparar uma operação. A 12ª operação aos olhos. Levo uma esperança tímida dentro do bolso. Na 6ª feira pego no microfone e nos dias seguintes aguarda-me a escrita e lançar sementes para o outono e o Inverno. O dia tristonho, sem vontade. Já percebeu que Agosto terminou. A pele amarela, a fazer-se folha de plátano caída. As contas caindo como um colar de pérolas que rebenta na minhas mãos. Uma bola de neve que esmaga. Só me apetece fugir para fora de mim. Ser outro. Outro ser.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
terça-feira, 21 de julho de 2015
Haja humor
terça-feira, 14 de julho de 2015
Ilha
( © Vera de Vilhena, romance em construção)
domingo, 12 de julho de 2015
A chama
Daniel
Preston, psicoterapeuta mais conhecido por “D. Pression”, está incapaz de
encontrar prazer nos tesouros da cidade londrina. Não há montra nem peça que prendam a sua atenção inteira. Os doentes sugam-lhe a
felicidade, a paz, além de lhe porem alcunhas crueis. Depois há aquele sentimento que
não pode ter, nem sabe como arrancar do peito e da consciência.
Solta
um grito em pleno parque e assusta os pombos. Um deles deixa cair o recheio dos
intestinos sobre o seu ombro esquerdo, do lado do coração. Deprimido, arranca
para o escritório. É urgente limpar-se antes de ela chegar. Recompor-se.
Ela
chega. Senta-se. Desabafa. Ele mal a escuta, ocupado que está em amá-la em
segredo. Ofendida, ela sai, batendo com a porta.
Ardendo,
calada, a vela sobre a secretária nada diz. A chama dança, com a força do ar
deslocado pela porta zangada, ondeando como bailarina exótica, a barriga musculada da chama, dança
do ventre em fogo, para lá e para cá, a censurá-lo com um tss tss…a tua bela doente
saiu, reparaste? Doente anda ele, com a paixão que não pode sentir, por causa
da maldita ética profissional. Sopra a vela, como quem pede um desejo. O pavio
apaga-se, deixando-o iluminado, a sós com a sua própria chama. D. Pression sai
porta fora e chama por ela. É no corredor que lhe diz:
-
O meu silêncio chama por si, arde em pavio impossível de apagar, como aquelas
velas irritantes nos bolos, sabe?
É
um chamamento desesperado, palavras ateadas sem jeito.
Ela
ri-se e dá-lhe um longo beijo. Nesse colar de bocas vão as chamas que há muito
tentava acender nele. No beijo, um incêndio.
sábado, 11 de julho de 2015
Perdida, a cadela
Nunca passa fome. Vive da gratidão dos que, por vê-la,
arranjam um pedaço de pão, um osso, uma casca de fruta, um biscoito. O nome por
que é conhecida não faz qualquer sentido.
- Perdida! Anda cá, toma!
Perdidos são os que andam sem consolo na vida, sem projecto
nem futuro. Sem dignidade. É cadela de rua, sim, mas tão orgulhosa que, quando
a chamam pelo nome, não responde. E é nesse não responder que sempre se
encontra.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Sem ser chamado
![]() |
| Roubei a imagem aqui |
As
suas acções nunca tinham um fio condutor. Por várias vezes encontrou a linha
impedida e perdia oportunidades como quem deixa cair a senha na rua, para ir ao
café só por dois minutos, até chegar a sua vez. Andava desencontrado com o
mundo, sem voz nem mensagem. Uma noite, de madrugada, cortou os pulsos, interrompendo
o que sempre fora uma má ligação.
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Rosas de sangue
As
roseiras daquela casa davam rosas cor de sangue fresco. Algo nunca visto, pois
mesmo em pleno inverno não deixavam de florir. Pensava-se em milagres, num qualquer
plano divino para mostrar a força da Mãe Natureza, as bênçãos de uma santa
família. Mas não, era apenas uma estranha combinação química, pelos mortos ali
enterrados em noites de lua cheia.
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Raízes e revisões
Revisão literária, reescrita de tantos textos, tantas páginas escritas por terceiros. Têm sido assim os meus dias, as horas centradas nos livros dos outros, sem direito para o que é meu. O ofício em primeiro lugar. Em primeiro lugar o sustento. Para segundo plano os caprichos. Quase, quase um dever cumprido. Logo virá o tempo da escrita. Sem desculpas. Sem mais adiamentos. É urgente escrever para mim, terminar o que inaugurei há treze anos. Nem que seja para ter paz. Quase. Quase a tocar nesse tempo com a ponta dos dedos. O solo ressequido aguarda. Em breve poderei revolver os torrões de açucar mascavado. Sentir, de novo, o perfume natural das minhas próprias palavras. Sob a pá que a mulher enterra, junto àquela árvore, bem que podiam estar as minhas pobres personagens, que há tanto tempo aguardam, paralisadas em silêncio. Esperem, só mais um pouco, tenham só mais um pouco de paciência. Em breve irei socorrer-vos, enfiar-me na terra convosco, a buscar as raízes que deixei para trás.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
















