sábado, 21 de março de 2015

Dédalo



É agora, ébria de mim,
O momento de ser eu,
Sem erro nem desvio,
Sem destilar
a
minha
dor.

Ser eu, mais ninguém,
A morder a mágoa de mim mesma;
Sem cinto nem travão,
No impulso etéreo
Que me
leve
aonde
for.

É agora que choro, sem crosta nem escudo,
Que verei quem se encontra
em mim.

Onde estou eu, quando me revelo?
Por onde vai o meu ser verdadeiro?
Sem firmeza, sem crença,
Denúncia ou enleio.

Para onde vou,
enquanto
c
a
i
o?
(...)

(excerto de «Dédalo», in «Fora do Mundo, Poética Edições, 2014)

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pai

Meu pai, 1972
O meu pai tem quase 84 anos. Quando telefonei esta tarde, para o carinho da praxe, considerando a data de hoje, estava de saída para o veterinário (dois dos onze gatos tinham consulta), depois de já ter ajudado a preparar, imagino eu, o almoço para si e para a minha mãe, e realizado todos os gestos a que se entrega há tantos anos, numa rotina cinzelada pelo tempo.
O meu pai é marinheiro. Oficial da Marinha. Reformou-se como comandante, desembarcou de vez e foi morar com a minha mãe para a grande casa de férias, que alberga uma enorme parte das minhas recordações. Na casa, espalhado pelas paredes toscas, pintadas de branco-espuma, em armários e gavetas, sobre os móveis, sempre houve um rol de objectos que contam histórias do mar antigo e recente: astrolábios, sextantes, compassos, bússolas, cartas e triângulos náuticos, lemes, nós, pequenas réplicas de embarcações, bandeiras náuticas, altímetros... mas também cintos de chumbo, barbatanas, óculos de mergulho, rações de emergência para náufragos, dentaduras de tubarão e até um pequeno crocodilo embalsamado, em cuja bocarra aberta surgiam teias que ninguém queria retirar.
Uma amiga, que há treze anos acompanha o que vou escrevendo, disse-me um dia que eu tenho "essa coisa do mar, por causa do teu pai". Deve ser a tal história, quem sai aos seus. Haverá coisa mais literária do que um farol, sempre de sentinela, num cabo ou promontório batido pelas ondas? Pronto. Parece que os meus textos estão cheios de coisas marítimas, metáforas, lembranças, alusões a cheiros e texturas, inclusive o perfume que se escapava, em serpentinas, dos vários cachimbos do pai João Manuel. Há muito tempo que deixou de fumar. Mas ainda cuida do jardim, que pede ao meu pai esforços que me custa imaginar, além dos muitos gatos que vão tendo desde que lhes ofereci o primeiro - Fellini - ao engravidar do meu filho.
O meu pai, em terra firme desde que se reformou das viagens que o levavam para longe de casa durante meses, permanece, de uma forma ou de outra, ligado ao mar que lhe está no sangue. Um dos seus hobbies é a construção de barcos, a partir de kits sofisticadíssimos, cuja perícia e paciência implicam anos de trabalho. Tem cinco filhos e já construiu vários, entre os quais o Bismark, um imponente couraçado da II Guerra Mundial. Para mim, escolheu uma réplica bem diferente, que aguardo com impaciência. O meu filho também: é o Soleil Royal, um galeão lindo de Luís XIV. Já estou a vê-lo, partindo do porto de Havre ou de Brest, envolto em brumas.
Hoje, que sinto na pele a impiedade do tempo que nunca deixa de navegar connosco, levando-nos para um alto-mar de onde, um dia, jamais regressaremos, só desejo que Deus lhe dê saúde, que o meu pai continue, por mais algumas marés, a fechar e a abrir as escotilhas da casa enorme, a cuidar da sua tripulação de gatos junto da minha mãe, e a construir a sua frota num mar de faz-de-conta, enquanto eu, na ferrugem das palavras salgadas pela memória, vou tecendo uma rede de páginas de espuma, como quem apanha conchas à beira-mar, para que o passado não fuja.
Dedico este texto ao meu pai.
Os cinco filhos e a mãe dos mesmos (Vera Mãe), Agosto 1969

Eu, Eduardo, Sofia, Mariana, Pedro
Os cinco filhos, que é raro ver reunidos numa fotografia, porque a vida não deixa

quarta-feira, 18 de março de 2015

Fibra

O tempo continua a ser de renovação. De resoluções. Num Janeiro que se pretender estender até ao limite das possibilidades. É a vida a precisar de vitaminas, antioxidantes, todo um rol de nutrientes que tornem elástica a pele dos dias. Uma vida desidratada, ressequida, ressentida. É urgente alimentar a raíz das unhas, expulsar as células mortas, esfoliar as horas, para que a carne seja músculo e o corpo, na fímbria da incerteza, seja fibra de outras convições. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Soundscapes

Nesta 6ª feira 13 deixo-vos com os ruídos naturais do mundo, cada vez mais ameaçados. Bernie Krause, músico que há quatro décadas optou por gravar os sons da natureza, diz que o mundo está cada vez mais silencioso. Escutem-no nesta conferência do TED.

terça-feira, 10 de março de 2015

Novo brinquedo

Eis-me a estrear o LibreOffice Writer no meu portátil novinho e eu feliz, aliviada por ter sido possível converter, sem dificuldade, todos os documentos que tinha no velho Word 2003. Para já, pude ver que lá terei de gramar com a lagartinha encarnada sob as palavras escritas em desacordo com o Acordo Ortográfico, mas não importa.
Agora o tipo de letra assumido, por defeito, é simpático, chama-se Liberation Serif e há todo um conjunto de novidades a explorar: clonar formatação, um Ómega para inserir “Carácter especial” (sic. A sério, é sempre bom saber que estamos a um clique de inserir um carácter especial, vai dar-me um jeitão para a construção de personagens), uma montanha de novos tipos de letra (apesar de acabarmos por escolher apenas uma dúzia deles, tal como os canais de televisão), um galeria que me permite inserir no texto fundos com malmequeres, imagens, como abelhinhas, sons como o de uma vaca (muito útil)... E agora vou publicar isto no blogue, para ver como fica. Pareço uma criança, mas como li algures que estamos na Semana da Incontinência Urinária (olhem que bem escolhido, de tantas efemérides que inventam, esta estava a fazer imensa falta), tenho desculpa.
...
Já experimentei, não funciona bem. Bem feito, quem me manda fazer copy/paste com aquela salganhada. Resta-me o ficheiro no LibreOffice Writer e a partilha da minha satisfação infantil.



segunda-feira, 9 de março de 2015

Os velhos dicionários

Em arrumações no escritório, em fase de mudanças de fundo no pequeno espaço onde finjo trabalhar, dou, mais uma vez, com os velhos dicionários da Porto Editora: Português-Inglês, Inglês-Português, Português-Francês, Francês-Português, Dicionário de Sinónimos, Dicionários de Verbos, Latim... abro um, ao acaso, na primeira página, e encontro a assinatura do meu pai e uma data: 1972. Sorrio, ao lembrar-me de que o meu pai, tal como eu, tem o hábito de escrever o nome e a data nos livros, incluindo os dicionários. O sentimento de posse, do género perdoável.
Os dicionários, gordos, poeirentos, velhos, inúteis, olham-me com aflição, como quem implora, por favor, não te desfaças de nós só porque nos tornámos obsoletos; imagina que a electricidade pode faltar, tudo falhar, a internet, a bateria do computador, o próprio computador, o tablet... que farás tu, quando a tecnologia te faltar? Nós aqui estamos, com a fidelidade de sempre, velhos mas sábios. Sábios, porque velhos. E em nós encontrarás, sempre, a palavra latina para "absurdamente", a inglesa para "perdição" ou sinónimos de "abandono". Recusam reformar-se, sem saberem que há muito se tornaram desnecessários. Fingindo acreditar nos seus argumentos, retiro-lhes a humilhação do pó, suspiro pelo espaço roubado, sem sentido, e torno a arrumá-los nas prateleiras atulhadas de coisas inúteis e preciosas.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Viragem

Peço desculpa aos que seguem este blogue. Venho apenas explicar que estou em fase de transição de gadgets, dependente de tecnologias que me chegam em upgrade, mas que me impedem, por alguns dias, de vir aqui ao ritmo habitual. Em breve julgo reunir condições para regressar em força. Novo ano, tempo de viragem. Não há imagens a ilustrar, é mesmo só isto, que já é muito. Escrevo a partir do tablet, apenas para deixar esta mensagem. Fiquem bem e até breve! 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Penando



Por onde andam as suas resoluções? Desfeitas como sempre, entre os dedos cujas unhas não pára de roer. E diz sempre que irá deixar de roê-las, mas nunca cumpre a promessa. Rói mesmo quando o mundo lhe diz que não tem quaisquer motivos para tal infantilidade. De que te queixas agora? Vá, diz, que terríveis problemas tens tu a resolver? Que grandes espadas pairam sobre a tua cabeça? Só se for por causa das resoluções sem solução. Decisões tão gelatinosas, tão trementes como alforrecas morrendo de susto na areia. São disparates que escreve, julgando que valem alguma coisa, mas não valem um caracol. Olha, nunca tinha usado esta expressão, não valer um caracol.
É a chamada escrita automática, que de automático nada tem, que a mente não se desliga só porque a isso nos dispomos; em especial se passarmos a vida a corrigir os erros de escrita dos outros: que tolerância haveríamos de ter para com os nossos próprios erros? E por isso a mente não se deixa ir, está sempre alerta, de borracha e caneta encarnada em punho, a travar, a retroceder, a refazer, a quebrar o embalo das linhas que a mão vai traçando. Não, esses não perdoamos. E vá-se lá saber por que razão estou a usar a forma plural, se estou absolutamente só nisto de tentar escrever. Os outros escrevem, já se sabe, eu sou a perita em tentar. Apenas. Parece que o único tema que me resta é este, a arte de não escrever. A escrita, um equívoco nas minhas mãos. Fosse eu digna de pena, e poderia dizer que escrevo de uma penada. E assim vou penando, de unhas roídas até ao sabugo. Olha, outra, nunca tinha escrito sabugo.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Luta


© BRUEGEL, A queda dos anjos rebeldes

Hoje dominas a arte de não realizar o que escolheste por missão. De que servirá escrever? Que diferença fará ao mundo? A falta de fé, a consciência de que é apenas um capricho teu, de que estás só em absoluto, é, talvez, o que te impede de escrever. O medo de falhar por inteiro: de descobrir que de nada vale, toda esta entrega a um anjo que há muito se revoltou.
Queres desistir, libertar-te, pedir misericórdia ao anjo rebelde.
Estás só na tua teimosia. Um demónio segura-te as mãos. Só tu sabes que são amarras forjadas num capricho. Que em ti nada solidifica. A luz não existe. Apenas sabes mentir com fraca chama. Em ti mesma acendes a mentira. E o que se revela é de uma imensa tristeza. Estás incapaz de esculpir uma palavra mais.
De nada serve, diz o demónio.
Escreve, apesar de tudo, responde o anjo.
Falta-te a fé em algo que não encontras dentro de ti.
E por isso escreves: para descobrir. Mesmo que, por ora, o demónio sorria, a cantar vitória.
Ao longe erguem-se enormes asas azuis. E tu escreves, apesar de tudo, para que o anjo te dê a mão e te leve a navegar nas tuas correntes.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

No outro lado do espelho

 Sentou-se no café com o seu tablet. Um novo brinquedo muito sério. Concluiu, com satisfação, que, com aquele presente, comprar um computador portátil deixara de ser uma necessidade. Até a pequena máquina digital perdera o sentido: talvez mesmo um descartar extensível aos seus cadernos, aquele íntimo caos composto por papéis infindos, que se iam dispersando, desistentes, em gavetas atulhadas de tarecos, caixas de cartão empoeiradas, bolsos e malas velhas, versos, pequenos textos, ideias, esboços que, em muitos casos, acabavam por nunca cumprir o seu  destino.
Ela sorriu, vendo o seu universo de gestos enriquecido com novos confortos concentrados num só objecto. A tecnologia foi para ela, por instantes, um amigo - feito de plástico, borracha, compostos electrónicos e outros mistérios e saberes que ela jamais dominaria - ainda assim, um parceiro de confidências que desejou abraçar, como quem abraça um amigo.
E escrevendo isto descobriu também que, uma vez domesticado o bicho nas suas manhas, poderia, ali mesmo, no café da aldeia (que até tinha internet), publicar o texto no seu blogue.
Sentiu-se uma Alice no outro Lado do espelho, num mundo absurdo que teria de compreender; tão depressa amigável como rival ou ameaça: para que serviria aquele botão? E se fosse por ali, aonde iria dar? Um mundo estranho a explorar, com os seus dedos juvenis, saltitando sobre o teclado.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Samuel Barber

Este "adagio for strings" é, a par com a sinfonia nr 5, o adagietto, de Mahler, a peça mais triste e bonita que conheço. É estranho como algo tão triste pode ser belo a este ponto. Não se deixem inundar pela tristeza, é apenas o poder que a Música exerce sobre nós.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Besos de sangre

Dedicado a todos os apaixonados, em nome do charme e da sedução (mais pela imagem do que pelo tema que, para o meu gosto, é algo pobre...mas está bem explorado). E que o Dia de S, Valentim (ou o do Stº António, pronto) seja como o Natal: todos os dias. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Espera

 


Desesperam, os dias feitos de reticências, em que nada se finaliza, se rompe, se confirma. Um silêncio branco, a mistura de todos os sons, todas as cores e possibilidades.e nem uma, nem uma cor que possa chamar sua. A espera - odiosa feiticeira - a deixar-nos como enforcados ao vento, bonifrates ocultos na sombra, oscilando, sem comando; o pêndulo de um relógio encostado à parede, sem saída. Apenas isto, que é nada. Para quando, o movimento? O ruído de asas rasgando o silêncio?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Sempre

"Fornax" © Beth Moon
As árvores aguardam a morte como deuses anciãos, rendidos ao cansaço. A estação fria lambe o fim da tarde com o seu hálito de chuva miudinha, sob o manto estrelado cor de rato. O tempo escorre, gota a gota, enquanto o vento vai polvilhando a paisagem com os queixumes dos velhos ramos, que se julgam incapazes de abraçar uma nova estação. Mas sempre haverá uma nova estação.

Vera de Vilhena

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Não fujas

Imagem roubada aqui

Não, não fujas de mim,
ainda é cedo, pousa os braços nos meus,
que eu mal começava a sentir o teu calor
e já tu me escapas;
despertando em mim o arrepio
de me ver mergulhada no frio
a que eu já dissera adeus.

Não, não cerres a porta,
não cerres os dentes, nem nada;
para me deixar no avesso da sorte,
os meus dias em carne viva,
O grito de quem suplica, de voz enferrujada.

Provei a taça de um tempo cálido,
molhei a minha boca na tua.
Por favor fica, não fujas de mim,
que eu já não sei ter na língua a amargura,
se um manto de mel me deixou assim, nua.

(© Vera de Vilhena, inédito)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Lacrime di Giulietta

Maravilhoso. Vale a pena verem até ao fim.  Atenção, nada é deixado ao acaso, ao sabor do desenho: TODOS os pormenores estão arrumados correctamente na pauta, até as folhas da árvore.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Gratidão

Quando o azar lembra um bebé adormecido, inocente no sono dos mais inocentes, sem reconhecer a nossa existência - fiel e infeliz companheira na cumplicidade de tanta má sorte -, andamos com pezinhos de lã, para que tão cedo ele não desperte, na esperança de prolongarmos a fase abençoada, em que as peças da vida parecem encaixar numa harmonia que já não julgávamos possível. As expectativas quase ao nível zero. O que vai surgindo deixa-nos nos olhos a mais grata expressão de espanto. Nas mãos, a gratidão e a esperança, sim, que é semente cultivada, a tentar que a maré construa corpo, solidificando o nossa sorte. Que estes dias não sejam feitos de vento mas rijos, tendões e músculos, carne e pele tonificadas por muitos amanhãs. Para que a vida se vá erguendo das cinzas...e a nossa esperança possua alicerces. Não seja apenas ilusão, o etéreo conforto dos infelizes que, a cada dia, inventam novas razões para sorrir.
Obrigada, mana Rita G. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

Bolota

Faz três anos que adoptámos a Bolota. Nunca tinha tido uma cadela e estou fã. É maluca e adorável. Mimosa, brincalhona, esperta. Bendito o dia em que a fomos buscar ao canil de Torres Vedras, onde ela vivia há cerca de um ano. Ficará sempre na lista das melhores decisões.







Aqui o link para o post escrito no dia em que a Bolota chegou

sábado, 24 de janeiro de 2015

All about that bass

 Duas versões do mesmo tema. Este primeiro tocado e interpretado ao jeito de Nina Simone, por Kate Davis...mas em bom :-)
Because you know I'm all about that bass
'bout that bass, no treble
I'm all 'bout that bass, 'bout that bass, no treble
I'm all 'bout that bass, 'bout that bass, no treble
I'm all 'bout that bass, 'bout that bass

Yeah it's pretty clear, I ain't no size two
But I can shake it, shake it like I'm supposed to do
Cause I got that boom boom that all the boys chase
All the right junk in all the right places
I see the magazines working that Photoshop
We know that shit ain't real
Come on now, make it stop
If you got beauty beauty just raise 'em up
Cause every inch of you is perfect
From the bottom to the top
Yeah, my momma she told me don't worry about your size
She says, boys they like a little more booty to hold at night
You know I won't be no stick-figure, silicone Barbie doll
So, if that's what's you're into
Then go ahead and move along
 
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Dia bom

Tirada por mim, perto de casa
 Foi um dia bom.
o telemóvel a tocar pela manhã, duas vezes. Duas boas notícias. Uma óptima, outra boa. E o dia logo a ganhar cor.
Depois as horas passando em beatitude, em normalidade, até que chega o momento de receber uma nova amiga pela primeira vez na nossa casa: tudo tem de estar bem, os cheiros, a luz, a música, o posto de rádio ao qual se retira a poeira, a lembrar que a música também é importante na nossa vida; ou deveria, não só os livros, as leituras, a escrita, a fotografia, o estudo do instrumento, mas a música, como companheira das horas mais leves, de ócio. A música pela música.
O tempo voa e é tão bom quando voa assim. Quando deixa a vontade de voos maiores, mais prolongados, mais longínquos, a explorar novos territórios.
Jantamos fora no consolo de sabermos que os meses seguintes serão um pouco mais leves, só um pouco mais leves. O dia fechando-se com dedicatórias em frontispícios, livros trocados, além dos abraços, da saudade que já sentimos por uma amizade fresca, cheia de raminhos verdes, a querer rebentar. aqui estaremos para novos encontros. E tão maior será o nosso jardim.
Pousar a cabeça na almofada pensando "que bom estarmos vivos", sentirmos o privilégio de sermos ainda donos das nossas horas, das nossas vontades. Nem sempre, mas às vezes.
Hoje foi, sem dúvida, um dia bom, aconchegado em esperança. E estamos tão precisados de esperança.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Cantilena 1

MS #36 © Nanã Sousa Dias
Cantilena da viúva

Pingo, pingo, enche a poça
Quem te descalçou a bota?
Foi o velho da ribeira
que anda à volta da fogueira.
Barro, barro na cabaça
vai a rolar pela praça
E lá dentro vai a velha
qu saiu pela janela,
com a panela na mão,
a gritar com a voz no chão,
Ai jesus que lá vou eu
Rua abaixo até ao rio
Já não tenho quem me acuda
nem a galinha me ajuda.
Foi a torta, saiu mal,
levou vidro em vez de sal.
Era a velha a querer matar 
o marido p'ra depois,
se juntar aos outros dois
rapagões de casa cheia
e ela sem um pé de meia...
E agora, quem cozinha?
Bato à porta da vizinha
Diz o velho interesseiro
que há-de cair bem primeiro
Que o carregue o diabo
mais o vinho entornado
antes de matar a porca
muito vinho ele emborca.
Diz a velha mesmo antes 
de cair atrás da porta.
Foi um sonho que lhe deu
Que o marido já morreu.

(inéditos, © Vera de Vilhena)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Anginas

Anginas - será o plural feminino de "anjo"? Não me parece justo.
I wonder, nestes dias de frio e de chuva. Cuidem-se, que os anjos também se constipam e, ao ficarem de cama, não podem cuidar de todos nós.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Happy unhappy Day :-)

Só para dar o exemplo, neste que dizem ser o dia mais triste do ano, lá porque é a terceira 2ª feira de Janeiro (vá-se lá perceber o critério...), deixo-vos com um video que já foi visto cerca de 552 milhões de vezes no Youtube. Caramba, devemos estar, realmente, a precisar que nos alegrem :-)
Então tomem lá e divirtam-se! (só para contrariar as estatísticas, vá)
E já agora.....OBRIGADA PELAS 60.000 (e quinze!) visitas a este blogue! :-)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Mia Gentile

Fiquem-se com este Mix engraçadíssimo da cantora Mia Gentile, brincando com os jungles-tipo. Reconheço-os bem, pois no passado gravei uns quantos destes :-) Bom fim de semana, sim? Divirtam-se, que eu também.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Miss Marple

Estou fã do novo remake de Miss Marple (enfim, novo para nós, portugueses, pois foi gravado no Reino Unido entre 2004 e 2008). Geraldine McEwan vai lindamente, com o seu sorriso, o brilho dos seus olhos, o porte de pássaro. Por enquanto teremos o prazer de vê-la protagonizar a famosa personagem criada por Agatha Christie; mas como, em 2008, Geraldine se reformou da série, na 4ª temporada em diante o papel será desempenhado por Julia McKenzie. Não há uma apresentação, um excerto ou genérico que lhe faça justiça, infelizmente. Deixo-vos com um tributo a Geraldine, em vários episódios de Miss Marple.
Dá na Fox Crime, 2ª feira, 23.10. E eu gravo todos.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Vida Perdida


© Nanã Sousa Dias

ando em busca da vida que perdi.
alguém viu passar os dias
que escorreram de mim?

se os virem, se pelo caminho se cruzarem
com a vida que maltratei,
peçam-lhe por mim perdão,
que me deixe viver aquilo que agora sei.

dizem-me os ventos
que anda perdida na rua,
chorando, tremendo nua.

algo disse que a ofendeu,
gestos que dei, mas não eram meus…

 e a chuva anuncia, com mágoa no olhar:
– Vi a tua vida, há tanto perdida,

doente, cansada
de ter solidão e inverno no peito
E mais nada

deitou-se a seu jeito, envelhecida
na estrada vazia
e morreu.

(Vera de Vilhena, inédito, 2015)

sábado, 10 de janeiro de 2015

Novo sentido

 Este é o poder da música. Neste arranjo soberbo, quase mágico, um video que circulava há anos no Youtube, mostrando, para nos fazer sorrir, uma cacofonia de notas, a comicidade de um gato revelando ao mundo que adora retirar sons do piano, tudo ganha sentido aos nossos ouvidos - fazendo-nos sorrir, novamente, mas tocando, desta feita, uma outra corda da nossa sensibilidade. Escutem com atenção este sentido no caos, como a velha secretária de um escritor.
Será que este gato escutava, dentro de si, uma qualquer orquestração semelhante, quando parecia improvisar? Nunca saberemos. ;-)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Exangue




Os passos maiores do que as pernas que não tenho. Dispondo palavras a cumprir a ideia do ofício, sem que tenha sumo, ou carne ou sangue para dispôr na travessa. E esta fome, só eu sinto esta fome que não se sacia e diz o outro que é escrevendo, escrevendo que a ideia surge e ela nada, nada de nascer deste terreno infértil.
Onde está? Onde anda tudo o que é urgente dizer? Escorreu de mim, para um abismo de silêncios,   rindo-se desta inaptidão, dando o braço a tantos outros que são, esses sim, os homens que escrevem. Eu não, eu minto, engano. Em mim apenas uma vontade sem estrutura. 

 É este corpo sem pulsação, impulsivo no pulsar lento destes membros de madeira exangue, a seiva exausta, nestes olhos de vidro frio, que nada vêem, nada vivem. 
Que obra constrói um escritor que não escreve? Perdoá-lo-ão, por se inscrever, escrevendo-se por dentro? 

Serei eu feita de segredos que nem eu mesma consigo desvendar?

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Em carne e osso

Já tenho dito isto, por outras palavras, como alerta. Penso nisto bastantes vezes. É urgente não esquecermos como viver em carne e osso. Faz falta estar, com o corpo todo, junto dos que mais amamos. E reaprender a saborear os momentos pelo que são. Contra mim falo, que tantas vezes me esqueço. Este ano estou decidida a contrariar a tendência e a fazer por abraçar mais as pessoas que amo. 
Menos palavras, menos imagens. Mais acções.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Happy

E porque estamos em festa, a inaugurar 2015, um video que nos obriga a sorrir e a dançar, ao som de "Happy", de Parrell Williams :-)
Sugiro que vejam os videos relacionados destes meninos, que reagem às velhas tecnologias (walkman, telefone, máquina de escrever, computador de 1980, etc).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

enquanto deixo, não deixo

© Nanã Sousa Dias
10 Resoluções para o ano novo:

 1 - Deixar de buscar soluções para problemas que as não têm
 2 - Deixar de adiar as soluções para os problemas solucionáveis
 3 - Deixar as minhas unhas e peles em paz 
 4 - Deixar de me entregar à preguiça que não me deixa
 5 - Deixar de me queixar
 6 - Não deixar que as nuvens negras me escureçam
 7 - Não deixar de escrever o que me vier à cabeça
 8 - Não deixar de deixar em paz o que me atormenta
 9 - Não deixar que a falta de riqueza me empobreça
10 - Não deixar de me acordar quando adormeça.

sábado, 27 de dezembro de 2014

In a better world (2010)

 
Comovente, dramático, intenso. Nele encontrei o que de mais puro existe na humanidade, na raiva, no arrependimento, no perdão, na amizade. No amor. Imperdível. É falado em sueco, mas mal reparei nisso, confesso. Aviso à navegação: final feliz.



quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Desejos



Em jeito de oferenda natalícia, no dia em que celebramos o nascimento do menino Jesus...
 
«A Casa suspirou, abrindo fendas minúsculas nas paredes. Aqueles seus olhos insatisfeitos pareciam não lhe pertencer. Também ela sabia que o mundo era maior do que aquilo que podia observar a partir das suas janelas, pois escutara os relatos de viagens que os donos realizavam, quando a encerravam durante muitos dias e muitas noites. Por mais que a vida do jardim se modificasse à passagem das estações, não parecia suficiente; por mais contacto que tivesse com pessoas distintas e testemunhasse o crescimento das crianças, o lugar era sempre o mesmo. Era a sua casa. E na verdade seria assim tão terrível pertencer a uma casa, a um lugar seguro?
            Como eram ingratos, os seus olhos, pensava a Casa.

            A Janela, porém, não se conformava com a sua imobilidade.
À noite, sonhava em partir, como tapete voador quadriculado, sobrevoando outras casas; as torres das igrejas, lagos e planícies; cidades modernas e bem iluminadas; florestas e desertos; aldeias paradas no tempo. À hora em que todos dormiam e a escuridão brilhava lá fora, no esplendor das suas trevas, podia apenas imaginar, sob as pálpebras cerradas, que percorria esses lugares encantadores.
Por vezes, a Janela da Casa perguntava à Lua:
− Tu, que tens um corpo de redonda luz, que vês quando a Noite vem?
E a Lua, inchada no seu orgulho, sempre respondia:
− Tudo vejo em sombras tingidas de azul. Mas o que mais admiro, é o meu corpo de prata, estendido sobre as águas negras.
            Como era vaidosa, a Lua, pensava a Janela.»
(© Vera de Vilhena, excerto inédito, in "O jardim dos desejos) 
FESTAS FELIZES PARA TODOS

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

David Lodge

Já li várias obras de David Lodge, um dos meus escritores preferidos. «A Vida em Surdina» só veio confirmar a impressão que tinha. Esta é uma história apresentada de forma inteligente, divertida, desconcertante, por vezes e, no que respeita à relação de Desmond Bates, o protagonista, com o pai (de contornos bastante autobiográficos, como o próprio admite na nota de autor) comovente, em especial no fim. Tânia Ganho está de parabéns, como tradutora, sendo que este livro, em particular, deve ter constituído um desafio, a par com a diversão por criar equivalências em português, para dar resposta aos muitos trocadilhos. O tema da surdez e o constrangimento que pode provocar a nível social, e não só, vieram ao encontro de situações com as quais eu mesma me tenho deparado, a par dos meus problemas de visão. A vida académica como pano de fundo, um dos cenários em que se desennrola a acção, é já tema recorrente nas obras de David Lodge, compreensivelmente, já que o autor, doutorado na Universidade de Birmingham, leccionou Literatura Moderna Inglesa até 1987, até optar por se reformar antes do tempo previsto, para se dedicar em exclusivo à escrita. E ainda bem para nós que o fez, pois a sua carreira é admirável e os seus livros um prazr para os leitores que apreciam também, como eu, um tipo de escrita moderno, que surpreende.
 
Sinopse
 «Quando decide pedir a reforma antecipada, o professor universitário Desmond Bates nunca pensou vir a sentir saudades da azáfama das aulas. A verdade é que a monotonia do dia-a-dia não o satisfaz. Para tal contribui também o facto de a carreira da sua mulher, Winifred, ir de vento em popa, reduzindo o papel de Desmond ao de mero acompanhante e dono de casa. Mas o que o aborrece verdadeiramente é a sua crescente perda de audição, fonte constante de atrito doméstico e constrangimento social. Desmond apercebe-se de que, na imaginação das pessoas, a surdez é cómica, enquanto a cegueira é trágica, mas para o surdo é tudo menos uma brincadeira. Contudo, vai ser a sua surdez que o levará a envolver-se, inadvertidamente, com uma jovem cujo comportamento imprevisível e irresponsável ameaça desestabilizar por completo a sua vida.»
Para mais informação, espreitem a crítica do New York Times

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sangue e poesia II

 
(Conclusão da crónica iniciada ontem)
Foram-se ambos, marido e carteiro, no Smart, rumo ao hospital. A mota ficou junto ao portão. O Gastão tomou um segundo pequeno-almoço, depois do aperitivo. Arfava, satisfeito, de consciência tranquila por uma manhã produtiva de trabalho. Comeu com sofreguidão, de apetite desperto pela degustação do sangue, e foi ladrar mais um pouco à mota, cujo cheiro, que sentia do lado de cá do portão, lhe espicaçava a raiva antiga pela classe.
Só então fui ver o que o carteiro me trouxera: sempre eram os livros. Doze exemplares do «Fora do Mundo». O papel pardo algo manchado, com remetente "Legendas e reticências", contendo os meus livros de poesia, corados de vergonha, por terem sido a causa do transtorno.
Às tantas os homens regressaram. Veio uma carrinha dos CTT. O Sr. Jorge, a vítima, de mão ligada.
- Levou pontos? - Perguntei ao Nanã.
- Não. Não dão pontos com mordidelas de cães.
Fazia sentido. Não fosse infectar.
O colega do Sr. Jorge e o meu marido puseram a mota no interior da carrinha, não sem dificuldade. O carteiro a querer ajudar, de mão ligada e dorida.
O Gastão preso no estendal, estranhamente calmo, talvez com pena do homem, que até é bem simpático.
O Sr. Jorge irá ficar uma semana de baixa, pois não pode conduzir.
- Olhe, dona Vera, é da maneira que aproveito para comprar os presentes de Natal com mais calma.
Mas que homem é este? Um santo? Um anjo?
Não, é só um carteiro.
E ainda maldizem o atendimento nos serviços públicos.
Não me canso de repetir: tenho um imenso respeito pelos carteiros e hoje mais ainda por um em especial: o Sr. Jorge.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Sangue e poesia I

(Iª de 2 partes)
O meu marido foi à janela. O carteiro trazia qualquer coisa, uma encomenda que precisava de assinatura.
- Estás à espera de alguma coisa?
- Não - Disse eu estremunhada - Ah, sim, devem ser os livros da Poética. 
Ele desceu. Eu fiquei na cama, entregue à preguiça, até porque tinha ficado a ler até ao fim "A vida em surdina", do David Lodge, com insónia, até quase às 6h da manhã.
Os cães não paravam de ladrar. Normal, tratando-se do carteiro, um ódio de estimação, especialmente do serra da estrela cá de casa, o Gastão. Pouco tempo depois o marido subiu ao quarto.
- Vais ter de te levantar. O Gastão mordeu o carteiro na mão. Vou ter de ir com ele ao hospital.
Assim começou o nosso dia.
Já com um lenço agarrado à mão, o jovem carteiro caminhava para um lado e para o outro, visivelmente nervoso, com a adrenalina em alta, amparando a mão, que pingava.
Sugeri que entrasse, enquanto o meu marido se preparava para sair; ofereci-lhe um chá, água oxigenada. A tudo ele disse que não, que não era preciso. E sempre a sorrir. Até teve humor suficiente para pedir desculpa, por estar a sujar o chão da entrada.
Eu consternada. Aflita com a situação. Às tantas era ele, mais calmo, que me tentava acalmar a mim: 
- A culpa foi minha, sabe? Ele está a fazer o papel dele, eu é que invadi o território dele. Ainda por cima tinha o dono ao pé, estava a protegê-lo, é normal, dona Vera. Eu gosto muito de cães, sabe?
A mão pingava.

domingo, 7 de dezembro de 2014

BBC Music

Um tema dos Beach Boys (1966) usado para celebrar o lançamento da BBC Music. Quanta abundância....! Está fantástico.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Dois Mundos

«Caminhando, chegam-me lanças de luz
Entre os ramos dos pinheiros.
O vento traz-me ondas de incenso
Composto de folhas frescas
Que um agricultor vai cremando.
O verdor da salsa, a emoldurar as bermas da estrada,
Serpenteando e descendo,
Inunda-me as narinas e abre-me o apetite
Por alimentos frescos,
Temperados com azeite maduro
E vinagre de frutos vermelhos.
Há pombos atravessando-se diante dos meus olhos,
Recolhendo-se ao pombal da D. Alberta.
A tarde finda.
Os meus passos acontecem
Ao ritmo de um Tony Bennett,
Na surpresa de tantos duetos tardios.
Na sombra, arranco, à passagem,
Fragmentos de cedros,
Que esfrego nas mãos enquanto um melro me olha,
Calando a melodia e dançando
Sobre as flores silvestres.
Tenho paz neste meu isolamento.
Não estou longe do mundo –
– este é apenas o meu mundo.
Preciso de me lembrar,
Como quem anota uma tarefa num post it:
Visitar o outro mundo de vez em quando.»
(© Vera de Vilhena, in "Fora do Mundo", Poética Edições, 2014)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Sentir tudo outra vez


Quando era miúda tinha uma solução fácil: voltava ao princípio, à 1ª página, para sentir tudo outra vez. Não é o que fazíamos todos nós, que sempre amámos os livros? 
Depois crescemos e achamos que temos de ler outros livros. Muitos livros. Quando somos novos temos todo o tempo do mundo, ele nem existe, por isso podemos voltar ao princípio quantas vezes desejarmos, até que o tempo venha dizer-nos que chegou...como quem ralha:
- Chega! Lê outro. Está na hora de pegar noutro e deixar esse descansar dos teus olhos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Nevoeiro


O farol, o nevoeiro

A Ericeira banhada em nevoeiro.
A paisagem, tornando-se leitosa,
Esfuma-se na linha do horizonte;
A terra unindo-se ao céu,
Envolta num lençol translúcido
Onde as formas se perdem,
Ganhando ares de mistério.

Filmei as pás das enormes ventoinhas
De energia eólica, sumindo em neblina.
Apenas o longo tronco dos moinhos se erguia
Rumo ao céu.
As pás girando, invisíveis, arranhando
Surgindo apenas num instante,
Prestes a roçar o chão,
Para logo sumir no leito celeste.

Amado nevoeiro!
Escuto a sirene dos navios,
Vejo a dança do olho ciclope,
Cuja luz corta o manto níveo;
E os longos triângulos de vapor
Formados pelos faróis dos automóveis.
Arvoredos que nos pousam
Na Sintra Romântica
Ou em histórias de Dickens.

Algo de belo existe na aura de mistério
Que o nevoeiro traz,
Transformando as árvores em espectros
E fazendo-nos acreditar que nada é o que parece,
E o que vêem, realmente, os nossos olhos,
Senão a mais pura Incerteza?

(©Vera de Vilhena, inédito, pré-publicação - "Fora do Mundo", Poética Edições)



domingo, 23 de novembro de 2014

Nature boy

Fechem os olhos, ponham o som alto, descolem os pés do chão, flutuando, na companhia desta versão de "Nature Boy", interpretada por Jason Gould...filho de Barbra Streisand. Bentitos genes. E muito bom gosto no arranjo. Obrigada, Rita! :-) E dedico ao meu filho Hugo, que hoje, precisamente à 1.15 da manhã, em que publico este post........nascia, faz 19 anos, para dar um novo sentido ao meu existir neste mundo.

sábado, 22 de novembro de 2014

Carruagem 22 (III de III)

E eis que regresso da minha segunda ida ao bar. A mãe da revista Maria e o rapaz da camisola branca estão de saída.  Há agora dois lugares vazios. Bebi um café e comi um Kitkat, apesar de serem oito e meia. Um gesto de puro tédio, ingerir um chocolate de qualidade duvidosa e bolacha de baunilha, e até isto, de estar aqui a descrever um chocolate de bomba de gasolina. 
O revisor veio perguntar-me se sou a Vera de Vilhena. Cairia no ridículo de me supor famosa, não fosse eu saber que os tempos são outros e que tudo é agora informatizado e muito sofisticado, a julgar pelo aparelho que o homem segura. Era para confirmar, uma vez que a reserva e a compra do bilhete foram tratados via electrónica, pelo Colégio Internacional de Vilamoura, que pagou as minhas despesas de transporte e alojamento, fazendo-me sentir, pela primeira vez, uma escritora no mundo.
O senhor despede-se com um sorriso e segue rumo à carruagem 21. Sinto-me algo constrangida por saber que agora aquelas pessoas, que me rodeiam, sabem o meu nome. Assim, por uma coisa estúpida. Sinto-me nua e escondo-me novamente no meu caderno preto. 
Dois lugares à minha direita, a criança-bebé, que não dormiu ainda, está a perder a paciência. Chora. Refila. Esperneia, maltratando os dois assentos que ocupa, deitada. E eu invejo-a por não poder espernear assim, com umas galochas cor-de-rosa e uns collants brancos quentinhos. A mãe tem piedade de nós e retira da mochila sem fundo, da Minnie, um objecto com poderes mágicos: uma chucha. Pronto, vá, toma. Adiamos, por agora, o ó-ó sem chucha. Cresces só amanhã. A bebé agradece e fecha os olhos, enfim. 
FIM

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Carruagem 22 - (II de III)



Se me erguer do assento e caminhar até ao bar, que fica próximo da carruagem 22, como mais uns minutos ao tempo e aproveito para espreitar a minha mala, o meu guarda-chuva novo encarnado e os meus ramos de flores.
Está tudo em ordem.
A senhora à minha frente, que começou por ler a revista "Maria", já passou às confidências com a mulher que lhe fica na diagonal. Todos ficámos a saber que...
- Antes tinha ideias de ter mais filhos, mas depois mudei de ideias.
O filho único, vestido com uma camisola branca e sentado dois lugares à sua esquerda, do outro lado do corredor, fixa, apático, o ecrã do telemóvel. E eu espero que ele não a tenha escutado.
O homem que ouve música com in-ears, desde que se sentou, olha de vez em quando para mim agora, provavelmente intrigado, perguntando-se, Que raio terá ela tanto para escrever.
Estou quase a levantar-me, já não aguento. E continuo sem fome. Alguma coisa terei de consumir no bar, só para disfarce. Para consumir o tempo. Para justificar a minha presença ali.
Um desespero patético que nos obriga a gestos sem sentido. Tornamo-nos mentirosos no tédio. Inventando gestos, coçando-nos onde não sentimos comichão; penteando uma madeixa de cabelo que não estava fora do lugar; lendo sem reter o texto, preenchendo páginas de um caderno, para que a mão se convença de que os dedos, que seguram a caneta, têm algo a dizer; sorrindo para as crianças sem que o carinho seja verdadeiro, já que o seu jeito frenético há muito nos cansa.
Somos mentirosos no tédio.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Carruagem 22 (I de III)



Carruagem 22. Lugar 47. De regresso do Algarve.
De volta ao meu assento, depois de uma sanduiche americana e de um chá preto no bar. As sete pessoas que deixara, encerradas em mutismo, estavam agora em amena cavaqueira, salvo os dois homens junto à janela. As mulheres-mãe, acompanhadas pelos filhos, já conversavam; os meninos trocavam agora brinquedos e guloseimas
- Então? Não ofereces um à menina?
Pergunto-me se é apenas simpatia, ou também uma forma de encurtar a viagem. Conversam como velhas amigas, sabendo que jamais tornarão a encontrar-se. São quase oito horas da noite e falta ainda uma hora de viagem.
Dormir é impossível.
Não me apetece entrar na conversa de chacha das duas mulheres. Resguardando-me n'A Ana de Londres, da Cristina Carvalho, chego à parte em que a acção decorre em Ribamar, uma aldeia que poucos conhecem, tão perto da minha casa. A autora tem casa perto de mim, somos quase vizinhas, cúmplices. Claro que a luz não ajuda à leitura. Dificilmente encontro a luz ideal para ler. Invejo os jovens que podem anular a viagem com os seus portáteis, neste comboio Intercidades com Internet wireless: fogem para dentro do computador, evadindo-se destas horas de espera.
Para as crianças também é fácil, se tiverem mães previdentes. Com elas trazem uma parafernália de brinquedos e comportam-se, imagino, como se estivessem em casa; expondo, sobre a pequena mesa de fórmica, peças de puzzle, livros, Barbies louras e um rol de outros brinquedos, que não páram de sair das mochilas da Minnie e do Winnie de Pooh.
Estou a levantar-me de novo não tarda. Não porque tenha fome; mas o homem acaba de anunciar que estamos a chegar a Grândola e eu desespero. O tempo desliza, sem passar nos carris. Longe, ainda. Tão longe de casa...