domingo, 11 de outubro de 2015

domingo

O dia morno e cinzento, os trapos para arrumar, a caruma para varrer, o vento, sempre o vento. Os cães a quererem brincar, a ladrar aos caçadores que passam rumo à clareira, junto à mata, com os atrelados que trazem os cães cúmplices da matança. Cuidado, bichos, escondam-se! A tentativa falhada de escrever ficção, um resto de Poirot com tema de Halloween, Um Domingo dormente antes de fritar um arroz basmati e uns bifinhos com molho de amendoim. Um domingo que é nada e amanhã é já segunda, e eu sem entender por que razão não lhe chamaram primeira. A primeira-feira.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Erva

Cheguei-me à beira da terra e belisquei-a. 
Estava ainda aguada do orvalho da noite. 
Da erva escorreram gotas grávidas de húmus, 
Que deslizaram e se infiltraram, 
Rumo ao coração da terra, 
Em líquido verde-água e transparência fria. 
A terra era esponja que guarda as lágrimas nocturnas, 
O pranto dos homens, tantas desilusões
Lançadas pela vidraça dos seus quartos solitários. 
É preciso beliscar a terra de vez em quando. 
Torcer as suas feridas 
Para que seja capaz de absorver mágoas futuras, 
Urdidas em desejos por cumprir.
Nesse  dia  perguntei-te  por  onde  andavam  os  meus 
sonhos 
E tu respondeste que há muito os havias enterrado, 
Porque eram já desistentes, 
Empoeirados, 
De há tanto tempo andarem entregues ao abandono 
De quem desiste de sonhar. 
Na cerimónia fúnebre dos meus projectos 
Soubeste tu plantar uma tímida flor. 
Veremos se, beliscando a terra, 
Apertando a erva, 
Dali nasce a semente como Terra-Mãe, 
Cuja bacia se estende, a deixar sair um filho. 
Belisquemos a terra, pois.
Tentemos dela retirar a seiva que nos faz viver.
O néctar que nos  pode ser salvação. 
Mas não e queixes, se a terra disser que não.


(in «Fora do Mundo», pág.58, Poética Edições, 2014)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Corpo dormidor

Dormiu como há muito não dormia. Sem ruídos nem consciência, sem recordação das mudanças de pose daquele corpo dormidor, na sessão onírica em que apenas a escuridão observa o seu repouso. A vida arrumando-se em silêncio, timidamente, as horas cumprindo um papel rasurado, amachucado em desperdício. Ainda a urgência de uma noite que lhe dê protecção, o consolo de um azul-estrelado, a dar fim ao eclipse que lhe deixa, no rosto redondo, um tímido beijo de luz.
Noite Estrelada, van Gogh

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Alzheimer

Saber, para compreender e dar apoio a quem dele mais precisa. Quero acreditar que num futuro não muito distante haverá um bendito comprimido que evite este drama.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O escritor-fantasma

Ali, preto no branco, estava a lista de autores, obras e discursos escritos na sombra, durante décadas. Todas as provas, deixadas em testamento. Foi um escândalo mundial. Aquilo envolvia até um prémio Nobel. A coisa acabou em suicídios em série, demissões, tribunais, sátiras sem fim. Morto, o escritor-fantasma já não precisava de ganhar a vida. Ainda que tarde, lá conseguiu a sua fama. E foi sem dificuldade que a viúva arranjou editora para os contos e romances que o infeliz marido guardava, há tanto tempo, na gaveta, desolado com tantas cartas de recusa que diziam sempre o mesmo, sem qualquer criatividade, e com a frieza de uma circular:
«Apesar da inquestionável qualidade da sua obra, lamentamos informar que a mesma não se enquadra no nosso plano editorial.»
Ainda hoje o seu espectro paira pela casa. As resmas de papel, guardadas no gavetão da secretária, têm vindo a desaparecer misteriosamente. 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

6 anos depois

«Entraste-me na pele, atravessaste todas as minhas células e ficaste aqui, no núcleo de mim. Fui sendo várias pessoas, agigantando-me, aprendendo a ser o que não sabia ser contigo. A carne não é a mesma, tem história, tem tempo, tanto tempo. Mas quando lhe pergunto se ainda te conhece, diz-me que está contigo todos os dias, sem que eu saiba, cúmplice daquele outro bocado de matéria, feito de válvulas atravessadas pelo sangue, aquele pedaço pulsante para cima do qual atiram as culpas do amor. E esse, o coração? Esse ri, espantado com a minha inocência, por ver que entreguei ao tempo a responsabilidade de te arrancar do corpo. Como se ele, o tempo, fosse aspirador que aspirasse a ficar com a nossa história, sorvendo-a, camada por camada, até conseguir ver os nossos dias numa tela de cinema, porque fomos um filme invulgar, irrepetível. Não, o tempo não conseguiu penetrar-me como tu. Continuas aqui, no núcleo do que sou, na carne, na memória. Entras-me nos sonhos com o à-vontade de uma visita que é já da casa, com a destreza de quem nunca chegou a sair. E a cada vez que te visito, sempre me espanto e digo para comigo: pareces que foste ontem.»
(VERA DE VILHENA, blogue, 29 setembro 2009)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

mais leve

gotas de esperança caindo, uma depois da outra, em lagoa clorofilina com fundo de algas e corais, mergulhados na transparência de águas sem peso a deixar-me mais leve, mais leve...

sábado, 19 de setembro de 2015

Nua

Nua

Tudo ela despiu:
O laço e a luva,
O casaco, o vestido;
E despiu a nuvem,
Despiu a chuva;
E, mau grado o vento,
Com passos pequenos,
Desarmou o sentido.

Pôs de lado a lágrima,
A fresta fechada;
Quis ser criatura
De entre todas a mais nua.
Desfolhada da pele,
Desnudou-se do chão;
Despiu-se da fenda
E da porta da rua.

Tudo ela despiu:
A velhice dos móveis,
O pó das memórias
Que o tempo riscou;
Arrumou recatos,
Dores, vergonhas,
Na crença dos cegos,
Em sombra muda, avançou.

Despiu o almoço
O moço, o cão;
Deu corda ao relógio,
Desarmou o grito
E a mansidão.

Despiu com atraso,
Do avesso, a alma
Gretada de há tanto
Andar enlameada.

Despida da fome,
E das suas muralhas,
Liberta da sede,
Cobriu-se de nada.
Nua e leve,
Desnudou o cansaço
Do corpo que soa,
Num lento compasso.

E com mãos vazias,
Num gesto inteiro,
Despiu a mortalha
Do seu cativeiro.

Despojou o medo,
Buscou o martelo
Que quebrasse a pedra
Entorpecida.
Trajada a preceito,
De corpo apenas,
Desarmou receios e até suas penas,
Em busca de um dia mais-que-perfeito

E na estrada branca
Viajou no ventre
Que em tardio repente
Em si mesma gerou;
E sempre que um “se”
Invadiu suas veias,
De sangue novo se alimentou.

Jamais tornaria ao doce vazio:
Porquanto,
Intimamente,
Tudo ela despiu

(in «Fora do Mundo», pp.20-21 (Poética Edições, 2014)

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Os dois cartuchos

O mago tinha dois cartuchos de magia trocada, comprados na Feira das Curiosidades, num encontro de druídas muito velhos. Tão velhos que alguns deles já não davam conta do que faziam. Nunca sabiam dizer o que iria sair da terra: podia ser um milagre ou uma desgraça. Um duende prestável ou um monstro que tudo arrasava.
Na noite de lua cheia o mago plantou as sementes do primeiro cartucho e foi dormir. Na manhã seguinte tinham nascido cenouras de açúcar, beringelas de amora, coentros de cacau, aipos de mel…. ingredientes da terra que apenas serviram para confeccionar pratos agridoces. Nessa noite os convivas saíram de sua casa um pouco enjoados, o que é compreensível.
Na lua cheia que veio depois o mago semeou o conteúdo do segundo cartucho de papel pardo. Cansado de tanto desalento, pediu à lua alguma grandeza de espírito; que se apiedasse daquela gente tão carente de salvação. Sem saber o que deitava na terra húmida, pegou na foice e plantou rebentos de visões, sementes de iniciativa e bolbos de ânimo mesclados de fortuna. Quando o sol subiu no horizonte, a urbe parecia transformada. Todos trabalhavam e sorriam. Compravam e vendiam. Inventavam e construíam. Falhavam e insistiam, sem nunca perder o sorriso. A cidade cresceu e nem sete dias passados já se tornara uma lenda nas cidades vizinhas.
Nunca mais precisaram dele.
O mago partiu e jamais tornou a ser visto.
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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Sem lugar

D. Ian Grave bateu à porta do coveiro. No corpo a morte caducava, sem saber muito bem o que fazer à embalagem. Era uma morte ecologista, não pretendia deixar o corpo assim, ao Deus dará. Egoísta, a alma elevava-se, já, flutuando a conquistar o céu. Barry, o coveiro, abriu.
- Encontre-me sepultura, Ian rogou - estou aqui que não posso e a morte a caducar-me.
- Lamento, mas não há lugar. Terá de se dirigir à sua última morada.
Não seria aquela. Não naquele dia, pelo menos. Que pena, pensou Ian Grave em voz alta, eu que já tinha escolhido a colina acolá, junto aos ciprestes azuis.
- Aah...mas são verdes. 
- se o senhor diz... para mim são azuis.
Ian Grave nunca admitia que era daltónico, além de que achava a ideia de os ciprestes serem azuis muito mais bonita. Mas não teria ciprestes. Nem azuis nem verdes.
Lá foi viver mais um pouco, a fazer tempo. Era daqueles que nunca encontrava o seu lugar neste mundo. Nem sequer no outro.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

boa semana, sim? :-)

Dancem sem pruridos nem ralações, como se ninguém estivesse a ver. Uma terapia, garanto!

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Recomeço ?

Por inverosímil que pareça, a vista do meu 
quarto e do meu escritório, na estação das chuvas.
Não é a primeira vez que ela escreve aquela palavra verde-esperança. Quando o mundo fala de refugiados, de greves e de eleições, ela só deseja conseguir fazer a sua parte. Está farta de ter desistido. Quer voltar a ser aquela que insiste e é capaz. O corpo parece-lhe hoje um pouco mais organizado, pode ser que consiga, sim, é melhor tentar. Tentar é pouco, é melhor conseguir, não pode dar-se ao luxo de menos. Arruma os seus ais num saco e vai relembrar a si mesma o que tem para fazer. Afinal, é por isso que anda assim, desistida, triste por andar fora de si. Melhor que aproveite, antes que o seu tempo acabe. O tempo não espera para sempre. Chega um dia em que é nunca mais e esse dia está cada vez mais perto. Por mais que ela diga a si mesma que o tempo não existe, ele segreda-lhe, como fantasma ao ouvido:
- Estou aqui.
E então ela escreve. Para que o tempo não faça queixa dela. 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Infortúnios

"Se todos os infortúnios do mundo fossem colocados juntos e posteriormente repartidos em partes iguais por cada um de nós, ficaríamos muito felizes se pudéssemos ter apenas, de novo, só os nossos."
(filósofo Sócrates, Atenas, 469 a.C. - Atenas, 399 a.C.)
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Obrigada, Ana.

sábado, 5 de setembro de 2015

Vera TV Series Fox Crime

Mais uma série de qualidade na Fox Crime. Estreou no dia 25 de Agosto. Protagonizado pela maravilhosa Brenda Blethyn, que conhecemos, por exemplo, de filmes como "Saving Grace ("O jardim da Alegria", 2000) e "Secrets and Lies" ("Segredos e Mentiras", 1996).

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Revolta

Só tenho revolta. E um estúpido sentido de justiça que não parece ter lugar no mundo em que vivemos. Cheguei ao meu limite. E agora? Agora só me resta lutar. E logo eu, que não faço mal a uma mosca (forma de dizer, pois já matei imensas), terei de manter esta raiva, para não perder a coragem e remeter-me ao silêncio e ao conformismo.
Para ilustrar tudo isto, uma imagem singela do estado do meu olho esquerdo que, ao que me dizem os médicos, mesmo após o transplante de córnea não irá recuperar a visão.
Como podem ver, não estou para literaturas. A realidade só me deixa gritar isto.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Fugir

E eis que chega Setembro. Entregue o último capítulo ontem, como revisora literária, nada me resta senão cuidar de mim. Uma ida ao hospital a preparar uma operação. A 12ª operação aos olhos. Levo uma esperança tímida dentro do bolso. Na 6ª feira pego no microfone e nos dias seguintes aguarda-me a escrita e lançar sementes para o outono e o Inverno. O dia tristonho, sem vontade. Já percebeu que Agosto terminou. A pele amarela, a fazer-se folha de plátano caída. As contas caindo como um colar de pérolas que rebenta na minhas mãos. Uma bola de neve que esmaga. Só me apetece fugir para fora de mim. Ser outro. Outro ser.