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| Reflexo de selfie, ao chegar a casa, antes de escrever isto. |
Não se deixem enganar pelas riscas cor-de-rosa. Os dias são (d)escritos com todas as cores.
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Auto-liberdade
Existem as flores
Papoila encravada
Escrevo para dizer que escrevo.
Enquanto os cravos vermelhos são tudo
O que os olhos alcançam
por estes dias e eu,
Escondida em vida silvestre,
Continuo a abraçar papoilas
Cujo tom escarlate, salpicando os prados,
Sempre me lembrou a liberdade
mais verdadeira
Onde a natureza escuta os nossos gritos
E nos afaga a solidão
Com a doçura de um beijo molhado no vento.
Sim, são papoilas, os meus cravos.
Escrevo para dizer que escrevo.
Enquanto os salgueiros compõem a manta morta;
Húmus, folhas secas, cadáveres e raminhos,
Decomposição mal disfarçada,
Em festins e algazarras, encravada em ideais;
Dentes de leão na brisa caindo, desmembrados,
Sobre quatro décadas de terra que era fértil.
Escrevo para dizer que escrevo a liberdade.
Que a cada dia tentamos segurar
Como quem prende nos dedos uma rosa de espinhos…
Nada somos no silêncio
E é por isso que existem as flores.
(in Fora do Mundo, Poética Edições, 2014, p. 117)
sexta-feira, 22 de abril de 2016
60 anos - Bodas de Diamante
| 1974 |
| 1972 |
OS
ÁLBUNS DE FOTOGRAFIAS
Depois de folhear os álbuns de
fotografias dos meus pais, os velhos e pesados álbuns de Sesimbra, recebi muito
mais do que esperava. Em princípio, pretendia apenas caçar as imagens
preferidas e digitalizá-las, com a ajuda do Nanã, para construir o meu próprio
inventário de recordações.
Ao fim de duas tardes de trabalho em
roda dessas fotografias, cujas cores, há muito perdidas, o Nanã ia recuperando,
ficou a aceitação dos meus primeiros vinte anos de vida. Não foi somente o
averiguar de memórias, mas sim a confirmação
do passado. Quando, num curto espaço de tempo, nos tornamos observadores da
nossa própria vida, revisitando o berço, as casas, as metamorfoses do corpo,
tomamos consciência do lugar que ocupamos na nossa família. Hoje, com trinta e
oito anos, revejo-a com olhos adultos e sorrio: afinal, não há ali nada de
dramático, injusto, errado: são apenas vidas a ganhar forma, a transformar-se.
A chegada e a partida de uns, os rostos de outros (demasiados) que se retiraram
para sempre − não apenas da nossa vida, mas da deles: “Olha…”, digo, às imagens
que me recordam as pessoas há muito desaparecidas: os padrinhos, os eternos
amigos (que afinal não eram eternos), o avô, a avó, o outro avô, a outra avó, o
cão, o outro cão, a saudade. Lugares e paisagens transfigurados
(irremediavelmente perdidos), barcos que já não poderão levar-nos pelas águas
de tantos verões. Filha de um oficial de marinha, encontro agora o verdadeiro
espaço que esse elemento ocupou na nossa família. Vejo, com uma nitidez
inventada, as inúmeras viagens a dois que os meus pais iam fazendo, entre
filhos. Fomos crescendo, entregues a nós próprios, desenvolvendo um instinto de
sobrevivência que, em parte, se foi manifestando sob a forma de egoísmo. Sei
que eu e os meus irmãos (rapazes) saímos à minha mãe nas doses generosas desse
traço de carácter, mas até nessa verdade encontro perdão. Conciliei-me com as
viagens frequentes que os levavam para parte incerta. Pelo menos, assim eu as
encarava, sob o olhar ingénuo da minha (pouca) idade. Afinal, eram dois. Um
casal. É preciso tempo para se ser apenas dois. A minha mãe sempre bonita,
sonora, franca, uma fortaleza elegante. O pai, insondável, meigo, silencioso,
um rochedo no mar alto. Rochedo e fortaleza. O mar outra vez. Cinco filhos. A
casa sempre cheia, em movimento e caos. Ruído, gritos, modas, queixumes, risos,
portas que batem com estrondo. É preciso respirar, sair. Hoje, que há muito
vivo longe da sua asa e os vejo a envelhecer, resta-me a nostalgia e
compreendo, finalmente: às vezes, é preciso ser egoísta. Traumas? Alguns.
Contudo, nenhum de nós foi enclausurado em quartos escuros, pelo contrário,
crescemos com dias solarengos e arejados, correndo pelos campos, ou navegando
rumo ao azul escuro e límpido. Não raro se fecharam os olhos, muitas regras se
quebraram. Caímos, chorámos, aprendemos. Fomos fortes, sempre que nos
levantámos. Crescemos. Os meus pais ali, presentes, por entre os seus próprios
temporais.
No segundo álbum, a infância
abandona-me, até que me transformo numa mulher. Fiz as pazes com a minha
ingenuidade e com os erros que se escondem por detrás das Veras que vou
encontrando ao longo das páginas: intimidades e angústias que vou reconhecendo
à medida que me cruzo com datas, vestidos, lugares. Afinal, eram tão poucos os
anos, tão frágil a sabedoria. Namorados e amores que me acenam, mesmo sem
aparecerem na fotografia, pois toda a vida que circunda aquele rectângulo de
papel surge de repente, mostrando o invisível. É enternecedor assistir de perto
a essa mudança desconcertante, veloz, desapiedada. Algures, por entre as
fotografias, encontro o carácter fugidio do tempo. Assusto-me. À medida que
avanço em direcção ao fim, concluo, com tristeza, que a vida nos foi separando
e que as reportagens sempre atentas do pai se vão limitando ao casamento dos
filhos, aos baptizados, ao aniversário de alguém que, em boa hora, serviu para
reunir outra vez uma família que vai engordando e dispersando-se, como os ramos
de uma árvore ao vento. Os momentos valiosos de cada um, que máquina nenhuma
registou, são as folhas que ninguém conseguirá agarrar. Espalhámo-nos pelo
país, os netos cresceram sem grandes cumplicidades entre eles. Nós, os irmãos,
estamos prestes a ser avós, mal tendo ocasião de acompanhar a vida dos nossos
sobrinhos. Tios, primos e sobrinhos ganharam para mim uma conotação natalícia…
É urgente que nos reunamos
regularmente. Há que construir novos álbuns, prender os dias ao papel.
Fecho estes com orgulho, apesar de
tudo.
Esta é a minha família. A minha
vida.
(Verocas, Bracial, 14 de Abril de 08)
Beijos e abraços aos meus quatro irmãos e, em especial, aos meus queridos pais, nesta data digna de muitas celebrações.
| mãe, 5 filhos e algumas visitas: a mesa tantas vezes cheia... |
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Adeus, Prince
Aqui fica um pouco da sensualidade das produções de Prince. Queria o tema «When doves cry", o primeiro tema que conheci dele, há muitos, muitos anos, mas não consegui incorporar o video. Este video, também antigo, e em vez de Purple Rain, tão emblemático, será talvez uma forma menos triste de lhe dizer adeus.
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Cabeças
«Fiquei de lá passar às oito. Quando cheguei a casa eram ainda
cinco.
Tinha a intenção de escrever um bocado, como tenho feito ultimamente, mas...zero. Peguei num livro interrompido do Hemingway e nem assim fui capaz de me concentrar; podia beber um whisky para descontrair, mas era demasiado cedo e ela não gosta do cheiro; acabei na minha passadeira: quatrocentas calorias. Apressei-me a cortar o cabelo no centro comercial, daquelas casas em que não vêem pessoas, só “cabeças”, tipo matadouro: cheguei a ouvi-las dizer:
Tinha a intenção de escrever um bocado, como tenho feito ultimamente, mas...zero. Peguei num livro interrompido do Hemingway e nem assim fui capaz de me concentrar; podia beber um whisky para descontrair, mas era demasiado cedo e ela não gosta do cheiro; acabei na minha passadeira: quatrocentas calorias. Apressei-me a cortar o cabelo no centro comercial, daquelas casas em que não vêem pessoas, só “cabeças”, tipo matadouro: cheguei a ouvi-las dizer:
– Ó Isabel, não
me marques mais cabeças, que já tenho o Domingo cheio! Pra qu’é que serve a
agenda, pá?!
Ou esta frase
“riquinha”:
– Porra, pá,
tantas cabeças por dia, uma pessoa ’té nem tem tempo de ir mijar! E estou cá
c’uma larica que nem me aguento!
Isto enquanto
esfregava a minha. E com força, como se eu não a lavasse há uma semana.
– Estou a ser
bruta? Você diga!
(Que sim, que
estava a magoar um bocadinho).
– Ai, o senhor
desculpe, mas é que aqui a gente ao fim de semana é isto.»
(ainda "em obras de (re) construção", mas para breve).
sábado, 16 de abril de 2016
terça-feira, 12 de abril de 2016
Jogo de sombras
Ando a sentir-me qual Julien Carax, n' «A Sombra do Vento», de Carlos Ruíz Zafón, trabalhando durante o dia nos romances dos outros, e à noite no meu. Uma questão de equilíbrio, e sem a maldição da personagem de Zafón, graças a deus. Também não tão glamorosa ou encantatória, mas não se pode ter tudo.
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Retoques
Há algo de extraordinário no poder de reconstrução que a escrita possui. Personagens há muito paralisadas em tempos e lugares, limitadas pelas acções e palavras que realizaram numa outra vida e que, saindo do baú, podem ser arejadas, dizer mais ou menos coisas, ter novas ideias e alegrias, outros receios e hesitações; mais uma oportunidade de se explicarem por palavras suas, distintas, já que houve ocasião de pensarem melhor, de amadurecer. Poderão agora encontrar-se com a família e os amigos, os vizinhos, os estranhos da avenida, que andaram na sua órbita; presenteá-los com novos diálogos, surpreendê-los, escolherem empreender uma viagem diferente, inventarem outras formas de se perder ou salvar, mesmo que o escritor lhes apresente os velhos obstáculos. De caneta na mão, numa tarde soalheira, o escritor vê o protagonista sair de casa e murmura, Lá vai ele outra vez ao fim de tantos anos, por aquela rua... o que irá ele dizer hoje? - perguntando-se, O que diria ele, se o tivesse ido buscar numa noite de chuva...?
Quando é que um livro está terminado? Quando é que é definitivo?
Lembra-me aquela história do pintor que dá ainda os últimos retoques nos seus quadros já pendurados na sala de exposições...e já vendidos. Assim são alguns escritores.
Quando é que um livro está terminado? Quando é que é definitivo?
Lembra-me aquela história do pintor que dá ainda os últimos retoques nos seus quadros já pendurados na sala de exposições...e já vendidos. Assim são alguns escritores.
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| © William Hogarth, Time Smoking a Picture (c. 1761, Metropolitan Museum) |
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Jacob Collier
Este miúdo é adorável. Sigo-o desde 2012, quando o conheci numa versão multitrack do "Isn't She Lovely", de Stevie Wonder.
Finalmente vem aí o seu primeiro álbum de originais! E nome do mesmo faz todo o sentido: "In My Room". É tudo feito por ele, um enorme talento, genuíno, irresistível. Este miúdo vai longe. Ora escutem. Eu sou fã.
Finalmente vem aí o seu primeiro álbum de originais! E nome do mesmo faz todo o sentido: "In My Room". É tudo feito por ele, um enorme talento, genuíno, irresistível. Este miúdo vai longe. Ora escutem. Eu sou fã.
terça-feira, 5 de abril de 2016
quarta-feira, 30 de março de 2016
Quase
Enrodilhada nesta tarde de chuva e numa tese interminável, que revejo desde o dia 1 de Dezembro. Grata por ter trabalho regular, a partir de casa. Gratidão imensa por esta boa aposta. Saí ao sol apenas para comprar um par de sapatos - sábado serei Cinderela cantora, de formiguinha a cigarra, de cigarra a formiga novamente, os pés enfiados em chinelos quentes. A chuva na minha janela e a tese a chegar ao fim, quase...quase.. .a permitir-me regressar aos meus projectos. Suspiro, solidária com as tímidas petúnias, fustigadas pelo vento. Como eu, não podem fugir.
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| Do meu "escritário" |
domingo, 27 de março de 2016
Mais luz
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| © Nanã Sousa Dias |
Afundo os meus pés
Numa alameda de brumas,
Como anjo perdido
Na terra dos homens;
Flutuando sob a luz,
Num chão invisível,
Onde teimo em quebrar
As minhas plumas.
Não moram ali, as minhas nuvens.
Quedando-me na queda relembro, enfim,
Que o chão que pisava
Era véu rasteiro, sem corpo ou alicerce,
Um fantasma friorento
Que se evola, ferozmente,
Quando o dia aquece.
(...)
(in «Fora do Mundo, excerto, p. 50)
quarta-feira, 16 de março de 2016
quarta-feira, 9 de março de 2016
Antonio Serrano
Para nos aquecer neste dia de chuva. O que eu gosto deste miúdo a tocar. Já tive o privilégio de o ouvir ao vivo, por duas ocasiões, e fiquei fã.
quarta-feira, 2 de março de 2016
terça-feira, 1 de março de 2016
Um pouco mais de luz
Manhã passada em Coimbra e um regresso de corpo mais leve. Adeus pomada e compressas, até ver! E VER é agora a minha missão, ao longo de longos meses ainda, enquanto, aos poucos, vou recuperando autonomia e dignidade, os gestos a serem meus outra vez, uma colecção maior de gestos que me deixa com um sorriso parvo. Diria, um sorriso parvo na cara, não fosse pleonasmo já que a boca está sempre ali, mas apetece, apesar de o ter também por dentro. Março começou e deu-me este piscar de olho à esperança.
Uma sopa e um café em Óbidos, um salto a Torres Vedras e, prestes a chegar a casa onde os cães nos aguardam sem saber que já terão direito a aninhar-se de novo no conforto do lar, perto dos donos, uma visita ao Golfinho Azul, também ele de rosto novo, com um novo olhar sobre a Praia de S. Lourenço. O sol brilha, os pássaros cantam, a vida é bela, pelo menos hoje.
Uma sopa e um café em Óbidos, um salto a Torres Vedras e, prestes a chegar a casa onde os cães nos aguardam sem saber que já terão direito a aninhar-se de novo no conforto do lar, perto dos donos, uma visita ao Golfinho Azul, também ele de rosto novo, com um novo olhar sobre a Praia de S. Lourenço. O sol brilha, os pássaros cantam, a vida é bela, pelo menos hoje.
domingo, 28 de fevereiro de 2016
Autoria
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| Efígie de César (s/d) |
O poema "Muere Lentamente", atribuído por engano a Pablo Neruda, circula há anos na Internet sem que nada nem ninguém seja capaz de deter a bola de neve, ao ponto de, em Espanha, muitas pessoas terem recebido esses versos como votos online de um feliz Ano Novo: "Morre lentamente quem não viaja, Quem não lê, Quem não ouve música, Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito, Repetindo todos os dias o mesmo trajeto..."
Assim começa o poema que não se chama Morre Lentamente, mas A Morte Devagar, e não é do poeta chileno como assegurou a Fundação Pablo Neruda, mas da escritora e poeta brasileira. MARTHA MEDEIROS. Não é "Muere Lentamente" o único "falso Neruda" que encontram os internautas. Também costumam atribuir ao autor do Canto Geral os poemas "Queda Prohibido" (que é de Alfredo Cuervo, escritor e jornalista espanhol), e "Nunca Te Quejes", autor desconhecido para a Fundação Pablo Neruda.
Este é um dos problemas do uso indiscriminado e ingénuo da Internet: uma ferramenta maravilhosa de informação, mas também uma terrível fonte de desinformação, quando utilizada sem reservas.
Outro boato que circula há cerca de um ano é o de que o texto "A Geração à Rasca - Por Nossa Culpa" foi escrito por Mia Couto: não é verdade. Para confirmarem o rumor, aqui fica o link do texto original, no blog ASSOBIO REBELDE
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
O chão pode esperar
Regressa à vida pé ante pé, a cabeça forçosamente erguida, mesmo que não sinta altivez no coração ou pensamento, são as ordens dos médicos. Sorrindo, ocorre-lhe que é estranha terapia, aquilo de não a deixarem pousar os olhos no chão, como quem exclama, de mão no ombro do outro
Não desanime! Cabeça erguida, sempre!
Aos poucos vai recuperando alguns gestos - aqueles que todos realizam na certeza inconsciente de serem gestos assegurados na eternidade - caminhar, ler, escrever, cozinhar. Até o que ela odeia já pode fazer: passar a ferro. Imagina ela, não perguntou, mas se há vapores culinários, decerto lhe será possível pôr os trapos enrugados em dia. Esforços não. Gestos bruscos também não. E a cabeça erguida, sempre! Desanimar é que também não.
Ela sente o consolo de ver uma tímida agenda formando-se com visitas às escolas, em sessões de autor com um dos seus livros. O trabalho aguarda, em documentos Word, salivando, o motor libertando uma voz rouca, de animal, com ganas de investir com o corpo inteiro; e ela ansiando por ver, esperando pela revelação do seu próprio investimento, que não seria fácil contabilizar, de entre os dez anos que lhe foram roubados. Quer libertar o seu peso, tornar-se mais leve, mais livre para si e para os que estão perto. Quer ir mais longe.
Por hoje, foi celebrar com uma caminhada. O corpo da estrada em obras também, em bizarra sintonia, a fazer-se macio e a ganhar um pouco mais de vida. Ela recupera o aroma das queimadas, do sol na pele. As pernas deslocando-se, pé ante pé, para não assustarem a terra. De cabeça erguida, quase sempre, avança, apesar do medo. O céu não é o limite, pois lá em cima moram as estrelas, as nuvens e os anjos. Entretanto o chão pode esperar.
Não desanime! Cabeça erguida, sempre!
Aos poucos vai recuperando alguns gestos - aqueles que todos realizam na certeza inconsciente de serem gestos assegurados na eternidade - caminhar, ler, escrever, cozinhar. Até o que ela odeia já pode fazer: passar a ferro. Imagina ela, não perguntou, mas se há vapores culinários, decerto lhe será possível pôr os trapos enrugados em dia. Esforços não. Gestos bruscos também não. E a cabeça erguida, sempre! Desanimar é que também não.
Ela sente o consolo de ver uma tímida agenda formando-se com visitas às escolas, em sessões de autor com um dos seus livros. O trabalho aguarda, em documentos Word, salivando, o motor libertando uma voz rouca, de animal, com ganas de investir com o corpo inteiro; e ela ansiando por ver, esperando pela revelação do seu próprio investimento, que não seria fácil contabilizar, de entre os dez anos que lhe foram roubados. Quer libertar o seu peso, tornar-se mais leve, mais livre para si e para os que estão perto. Quer ir mais longe.
Por hoje, foi celebrar com uma caminhada. O corpo da estrada em obras também, em bizarra sintonia, a fazer-se macio e a ganhar um pouco mais de vida. Ela recupera o aroma das queimadas, do sol na pele. As pernas deslocando-se, pé ante pé, para não assustarem a terra. De cabeça erguida, quase sempre, avança, apesar do medo. O céu não é o limite, pois lá em cima moram as estrelas, as nuvens e os anjos. Entretanto o chão pode esperar.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Invisível
A vida fazendo-se em torno do corpo, limbo e malabarismo, labirinto de gotas químicas, a roubar à memória atenções que são puro desperdício do que é maior e aguarda. Que sendo tão pouco me faz respirar.
Horários, contagens, gotículas e substancias, a minimizar o desconforto e o meu desconsolo de os ver reinventando-se. A chantagem da dor. O corpo vencendo a batalha; o espírito em apatia, tornando-se rancor, na vertigem sem queda nem terra onde pousar a sua embaciada luz, bafejada pelo cansaço, invisível sem transparência. Intangível porque nada.
A vida em (sala de) espera, os ossos arrastando-se na mesma estrada, quilometrando os passos em corredores indistintos. Os olhos de mãos em mãos que examinam, a avaliar a resposta do corpo, que nada entende, não quer entender este jogo: é preciso somar mais um dia, à soma de muitos dias. Porque sim. Porque não. Apenas a incerteza dá sinais de confirmar-se num novo dia, em falsa esperança, data escorrendo como concha de água, na minha mão sedenta.
A culpa é um fugitivo ocultado nas sombras. O castigo é uma invenção dos deuses e há homens semideuses e semáforos, e homens seminus e semínimos, que pouco ou nada podem senão cumprir, passo a passo.
E a culpa dentro de mim, por culpa desta minha invisibilidade. Não fosse o desespero, quase apetecia rir, dar uma palmada nas costas do destino, amigo devasso que há décadas me vai devassando e me tem debaixo de olho. Mas permaneço de olhos postos no chão. Há muito perdi o meu olhar. Semiferida que ando, grito pelo olhar de um semideus, ainda que morto.
Horários, contagens, gotículas e substancias, a minimizar o desconforto e o meu desconsolo de os ver reinventando-se. A chantagem da dor. O corpo vencendo a batalha; o espírito em apatia, tornando-se rancor, na vertigem sem queda nem terra onde pousar a sua embaciada luz, bafejada pelo cansaço, invisível sem transparência. Intangível porque nada.
A vida em (sala de) espera, os ossos arrastando-se na mesma estrada, quilometrando os passos em corredores indistintos. Os olhos de mãos em mãos que examinam, a avaliar a resposta do corpo, que nada entende, não quer entender este jogo: é preciso somar mais um dia, à soma de muitos dias. Porque sim. Porque não. Apenas a incerteza dá sinais de confirmar-se num novo dia, em falsa esperança, data escorrendo como concha de água, na minha mão sedenta.
A culpa é um fugitivo ocultado nas sombras. O castigo é uma invenção dos deuses e há homens semideuses e semáforos, e homens seminus e semínimos, que pouco ou nada podem senão cumprir, passo a passo.
E a culpa dentro de mim, por culpa desta minha invisibilidade. Não fosse o desespero, quase apetecia rir, dar uma palmada nas costas do destino, amigo devasso que há décadas me vai devassando e me tem debaixo de olho. Mas permaneço de olhos postos no chão. Há muito perdi o meu olhar. Semiferida que ando, grito pelo olhar de um semideus, ainda que morto.
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