segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Tardes em naftalina

De Raquel Serejo Martins

My Old Home, © Ana Cristina Dias
«O calor insuportável, o acordar antes do despertador, a noite feita de um sono solto, intermitente, o sol já inflamado, o céu vazio de nuvens, de pássaros, o vidro da janela morno, quase quente, os pés descalços pelo chão do quarto, pelo mosaico da casa-de-banho, o seu rosto no espelho, os olhos lembram berlindes.
Oferece-se um sorriso, o sorriso matinal possível, breve e azul, o cabelo despenteado lembra-lhe sempre as mesmas palavras da mãe, passa um pente por esse cabelo.
Precisa de água como um peixe precisa de água, desesperadamente.
O banho da manhã incapaz de arrefecer o corpo, de levar pelo ralo, o calor dos lençóis colado ao calor do corpo.
De olhos fechados, tenta esquecer a noite debaixo do chuveiro, afogar o cansaço.
Esquece o presente e em consequência chega tarde ao trabalho.
Não se esquece da garrafa de água, o calor obriga-a a circular pela cidade sempre com uma garrafa de água, como se a garrafa de água uma garrafa de oxigénio, como se o seu corpo dentro de um fato de mergulho.
A viagem para o trabalho uma epopeia.
Epopeia nenhuma, nem furos nos pneus, nem falhas nos travões, igual, igual o caminho, talvez mais rápida.
Na rádio ouve notícias de cidades a norte submersas em água por causa de chuvas diluvianas. O mundo em desequilíbrio perfeito.
Com dificuldade arruma as mãos no volante, os olhos na estrada.
As ruas quase vazias. Os semáforos numa sincronia rubra a obrigar os carros a parar.
Procura e encontra um espaço para estacionar sob a sombra de uma árvore.
Um jacarandá, uma sombra azul e parca.
O asfalto sem a habitual dureza a prender-lhe os saltos dos sapatos, os passos, quase a vontade.
Custa-lhe caminhar. No corpo um peso para lá do peso do corpo. Abraça-se, precisa verificar, o fato de linho, leve, não de borracha.
Custa-lhe respirar. O ar insuportável, irrespirável.
Senta-se à secretária, vinte minutos depois da hora em que era suposto sentar-se à secretária.
A secretária como se um boião de aquário.
Na secretária um pisa-papéis em bronze em forma de peixe.
A manhã passa, sem languidez, análises, pesquisas, contas, quadros, mapas, faxes, telefonemas, uma bica sem açúcar, e-mails, processos, relatórios.
Depois a tarde, as horas rubras da tarde, do calor maior, o silêncio sob a ausência de silêncio, as palavras em voz baixa, melodias vagas de rádios, deslizar de cadeiras, dedos sobre teclas e botões, cabeças a pensar, sem tempo para divagações, apenas conclusões.
Do ponto de vista das lâmpadas presas ao tecto lembram os membros de uma orquestra a afinar os instrumentos, a azáfama da tarde, formigas no lufa-lufa do carreiro, ninguém em sentido contrário, a cidade um formigueiro, indiferente ao papa-formigas.
A tarde, passa como a manhã, sentada à secretária.
Sentou-se pontualmente à secretária.
As horas do dia indistinguíveis.
No escritório uma temperatura de frigorífico garantida por um aparelho de ar condicionado com dez anos de garantia.
A tarde passa entre análises, pesquisas, contas, quadros, mapas, faxes, telefonemas, mais uma bica sem açúcar, e-mails, processos, relatórios.
Até que uma assinatura no fim de uma página, a faz reparar na data, transforma o dia, de abstracto a concreto, um dia de Julho.
Uma tarde de Julho.
Julho quase no fim. Mês de pêssegos e alperces.
E fecha os olhos, cinco segundos, o tempo de um respirar, uma tarde inteira dentro de cinco segundos, imagina-se na casa dos avós, o corredor sem fim, um labirinto em linha recta, dezoito metros de corredor onde tudo podia acontecer, ela a pedalar um triciclo pelo corredor, a alegria dos pés fora do chão, os riscos paralelos de três rodas no soalho.
E no corredor um armário, O armário do corredor, quatro portas, quatro chaves de ferro forjado, a pega em forma de coração, um gigante, como se um mostrengo a atormentar o tormentoso Cabo.
Um armário como se um castelo fechado a quatro chaves, na torre de vigia, num sono vigilante, o gato da casa, a prestar vassalagem unicamente a si próprio, desinteressado do trânsito do corredor.
Demorou a conquistar o armário.
Demorou quatro dias a abrir as quatro portas.
Dentro do armário encontrou roupas da avó, o vestido de casamento, dois vestidos de festa, vestidos de noite, escuros como a noite, talvez para que os corpos se confundam com a noite, vestidos decotados nas costas, polvilhados a lantejoulas, um brilho falso de estrelas.
Não consegue imaginar a avó de lantejoulas.
A avó sempre de avental, branco, alvo, imaculado, se um ramo de rosas brancas e um véu, lembraria uma noiva feliz no cume de um bolo de amêndoa e ovos.
A avó de avental à hora do chá, sempre chá preto com dois gomos de limão, acompanhado com uma cigarrilha que fumava numa elegância plácida.
A avó dizia It’s tea time e com pontualidade britânica preparava o chá.
Nunca percebeu se a avó falava a língua de Virgínia Woolf e de Mrs. Dalloway, ou se sabia apenas frases feitas, palavras soltas.
Há coisas que nunca teve coragem de perguntar.
Lembra-se, sempre que a avó a repreendia, o que acontecia com uma frequência mais do que suficiente e que a insatisfazia bastante, que começava os reproches não pelo seu nome próprio, em riste e completo, Sara Luísa, como sempre faziam os pais, mas com o prefixoyoung lady, que em pequena a reduzia à sua condição de ignorante.
Depois cresceu, ficou maior do que a avó, também começou a fumar, as mesmas cigarrilhas amargas, que quem sai aos seus não é de Genebra.
Lembra-se de um tempo, ridículo e breve, em que se sentiu uma big woman, em que pensou que o tamanho era medida suficiente para descurar as consequências das suas acções e omissões.
Depois cresceu mais, os outros dizem que cresceu, dizem que ficou comedida nos gestos e nas palavras.
Não nos pensamentos.
Nos pensamentos não permite que a incomodem.
Em consequência mente. Mente sem pudor sempre que é preciso. Protege-se.
Empenha-se em cultivar pensamentos esdrúxulos, difíceis de medrar, adubados a palavras de poetas assassinados, regados a água de chuva, gosta de andar à chuva, mesmo em dias de Inverno, a água canalizada de chuveiro, que mais não pode fazer quando não chove, a copos de whiskey, que em simultâneo a preservam de constipações e lhe desafinam o fígado.
Dentro do armário lençóis de linho, cobertores de lã e um cheiro a naftalina misturado com alfazema, sabão azul e sol de Verão, um cheiro, também somos feitos de cheiros, que desde então procura, sem nunca encontrar, sempre que abre a porta de um qualquer armário.
Dentro do armário o seu corpo.
Dentro do armário um barulho de búzios.
Dentro do armário uma gaivota e uma cegonha, o ninho da cegonha, a torre da igreja onde a cegonha fez o ninho, a igreja, os sinos a tocar, uma procissão, uma banda e um maestro com pinta de pirata disfarçado de almirante.
Dentro do armário um piano de cauda, dois pinguins, um tigre, uma girafa azul, um índio e dois cowboys, dois pares de patins, uma princesa, sete anões, um lobo mau, três peixes-voadores, um bando de andorinhas, um espantalho, um balão de ar, uma baleia, uma fada madrinha, um submarino, uma costureira perita, um polícia sinaleiro, um carro de bombeiros, um pião, uma amiga imaginária com um vestido vermelho igual ao seu, a quem contava todos segredos, que não gostava de sopa, agora gosta, de dormir sesta, que sabia escrever o seu nome com todas as letras, contar até 38, que já perdeu quatro dentes, quase uma mão cheia de dentes. Cuidado que morde!
Dentro do armário corridas em patins, as duas de mãos dadas, impossível cair, magoar os joelhos, partir o nariz.
Dentro do armário podiam apanhar um avião para Paris.
Viste a Sara?
Onde é que está a Sara?
Escondia-se do mundo.
Escondia-se pelo gosto simples de se esconder, de desaparecer.
Um dia abriram uma porta, abriram todas as portas, uma a uma à vez.
O seu corpo sem respirar dentro do armário, o seu corpo a girar como a chave girava na fechadura da porta. O seu coração no peito entre o tamanho de um botão e de uma baleia.
Dentro do armário não está!
Divertia-se com a preocupação das vozes, dos passos em volta à sua procura.
Mas onde é que se enfiou a Sara?
No buraco de uma agulha!
Sara!
Sara!
E não sabe dizer quantas vezes deu por si, em casa de estranhos, uma vez num museu, um castelo mobilado a preceito, a enfiar sorrateiramente o nariz porta dentro de armários com mesmo um aspecto suspeito, mas vestidos de noiva, nem lençóis de linho, nem cobertores de lã.
O vigilante com o dedo indicador a tocar-lhe no ombro, uma insistência de campainha de prédio de dezoito andares, um labirinto em linha recta onde tudo podia acontecer.
Ela a desfazer-se num sorriso sinónimo de pedido de desculpa pelo seu comportamento atrevido, ela de olhos no chão, nos atacadores dos sapatos, à espera de uma repreensão que invariavelmente começaria com as palavras young lady… enquanto reprime a vontade de o interromper com a pergunta: Desculpe, por ventura sabe onde é que está a Sara?»
(Roubei aqui)

domingo, 11 de outubro de 2015

domingo

O dia morno e cinzento, os trapos para arrumar, a caruma para varrer, o vento, sempre o vento. Os cães a quererem brincar, a ladrar aos caçadores que passam rumo à clareira, junto à mata, com os atrelados que trazem os cães cúmplices da matança. Cuidado, bichos, escondam-se! A tentativa falhada de escrever ficção, um resto de Poirot com tema de Halloween, Um Domingo dormente antes de fritar um arroz basmati e uns bifinhos com molho de amendoim. Um domingo que é nada e amanhã é já segunda, e eu sem entender por que razão não lhe chamaram primeira. A primeira-feira.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Erva

Cheguei-me à beira da terra e belisquei-a. 
Estava ainda aguada do orvalho da noite. 
Da erva escorreram gotas grávidas de húmus, 
Que deslizaram e se infiltraram, 
Rumo ao coração da terra, 
Em líquido verde-água e transparência fria. 
A terra era esponja que guarda as lágrimas nocturnas, 
O pranto dos homens, tantas desilusões
Lançadas pela vidraça dos seus quartos solitários. 
É preciso beliscar a terra de vez em quando. 
Torcer as suas feridas 
Para que seja capaz de absorver mágoas futuras, 
Urdidas em desejos por cumprir.
Nesse  dia  perguntei-te  por  onde  andavam  os  meus 
sonhos 
E tu respondeste que há muito os havias enterrado, 
Porque eram já desistentes, 
Empoeirados, 
De há tanto tempo andarem entregues ao abandono 
De quem desiste de sonhar. 
Na cerimónia fúnebre dos meus projectos 
Soubeste tu plantar uma tímida flor. 
Veremos se, beliscando a terra, 
Apertando a erva, 
Dali nasce a semente como Terra-Mãe, 
Cuja bacia se estende, a deixar sair um filho. 
Belisquemos a terra, pois.
Tentemos dela retirar a seiva que nos faz viver.
O néctar que nos  pode ser salvação. 
Mas não e queixes, se a terra disser que não.


(in «Fora do Mundo», pág.58, Poética Edições, 2014)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Corpo dormidor

Dormiu como há muito não dormia. Sem ruídos nem consciência, sem recordação das mudanças de pose daquele corpo dormidor, na sessão onírica em que apenas a escuridão observa o seu repouso. A vida arrumando-se em silêncio, timidamente, as horas cumprindo um papel rasurado, amachucado em desperdício. Ainda a urgência de uma noite que lhe dê protecção, o consolo de um azul-estrelado, a dar fim ao eclipse que lhe deixa, no rosto redondo, um tímido beijo de luz.
Noite Estrelada, van Gogh

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Alzheimer

Saber, para compreender e dar apoio a quem dele mais precisa. Quero acreditar que num futuro não muito distante haverá um bendito comprimido que evite este drama.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O escritor-fantasma

Ali, preto no branco, estava a lista de autores, obras e discursos escritos na sombra, durante décadas. Todas as provas, deixadas em testamento. Foi um escândalo mundial. Aquilo envolvia até um prémio Nobel. A coisa acabou em suicídios em série, demissões, tribunais, sátiras sem fim. Morto, o escritor-fantasma já não precisava de ganhar a vida. Ainda que tarde, lá conseguiu a sua fama. E foi sem dificuldade que a viúva arranjou editora para os contos e romances que o infeliz marido guardava, há tanto tempo, na gaveta, desolado com tantas cartas de recusa que diziam sempre o mesmo, sem qualquer criatividade, e com a frieza de uma circular:
«Apesar da inquestionável qualidade da sua obra, lamentamos informar que a mesma não se enquadra no nosso plano editorial.»
Ainda hoje o seu espectro paira pela casa. As resmas de papel, guardadas no gavetão da secretária, têm vindo a desaparecer misteriosamente. 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

6 anos depois

«Entraste-me na pele, atravessaste todas as minhas células e ficaste aqui, no núcleo de mim. Fui sendo várias pessoas, agigantando-me, aprendendo a ser o que não sabia ser contigo. A carne não é a mesma, tem história, tem tempo, tanto tempo. Mas quando lhe pergunto se ainda te conhece, diz-me que está contigo todos os dias, sem que eu saiba, cúmplice daquele outro bocado de matéria, feito de válvulas atravessadas pelo sangue, aquele pedaço pulsante para cima do qual atiram as culpas do amor. E esse, o coração? Esse ri, espantado com a minha inocência, por ver que entreguei ao tempo a responsabilidade de te arrancar do corpo. Como se ele, o tempo, fosse aspirador que aspirasse a ficar com a nossa história, sorvendo-a, camada por camada, até conseguir ver os nossos dias numa tela de cinema, porque fomos um filme invulgar, irrepetível. Não, o tempo não conseguiu penetrar-me como tu. Continuas aqui, no núcleo do que sou, na carne, na memória. Entras-me nos sonhos com o à-vontade de uma visita que é já da casa, com a destreza de quem nunca chegou a sair. E a cada vez que te visito, sempre me espanto e digo para comigo: pareces que foste ontem.»
(VERA DE VILHENA, blogue, 29 setembro 2009)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

mais leve

gotas de esperança caindo, uma depois da outra, em lagoa clorofilina com fundo de algas e corais, mergulhados na transparência de águas sem peso a deixar-me mais leve, mais leve...

sábado, 19 de setembro de 2015

Nua

Nua

Tudo ela despiu:
O laço e a luva,
O casaco, o vestido;
E despiu a nuvem,
Despiu a chuva;
E, mau grado o vento,
Com passos pequenos,
Desarmou o sentido.

Pôs de lado a lágrima,
A fresta fechada;
Quis ser criatura
De entre todas a mais nua.
Desfolhada da pele,
Desnudou-se do chão;
Despiu-se da fenda
E da porta da rua.

Tudo ela despiu:
A velhice dos móveis,
O pó das memórias
Que o tempo riscou;
Arrumou recatos,
Dores, vergonhas,
Na crença dos cegos,
Em sombra muda, avançou.

Despiu o almoço
O moço, o cão;
Deu corda ao relógio,
Desarmou o grito
E a mansidão.

Despiu com atraso,
Do avesso, a alma
Gretada de há tanto
Andar enlameada.

Despida da fome,
E das suas muralhas,
Liberta da sede,
Cobriu-se de nada.
Nua e leve,
Desnudou o cansaço
Do corpo que soa,
Num lento compasso.

E com mãos vazias,
Num gesto inteiro,
Despiu a mortalha
Do seu cativeiro.

Despojou o medo,
Buscou o martelo
Que quebrasse a pedra
Entorpecida.
Trajada a preceito,
De corpo apenas,
Desarmou receios e até suas penas,
Em busca de um dia mais-que-perfeito

E na estrada branca
Viajou no ventre
Que em tardio repente
Em si mesma gerou;
E sempre que um “se”
Invadiu suas veias,
De sangue novo se alimentou.

Jamais tornaria ao doce vazio:
Porquanto,
Intimamente,
Tudo ela despiu

(in «Fora do Mundo», pp.20-21 (Poética Edições, 2014)

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Os dois cartuchos

O mago tinha dois cartuchos de magia trocada, comprados na Feira das Curiosidades, num encontro de druídas muito velhos. Tão velhos que alguns deles já não davam conta do que faziam. Nunca sabiam dizer o que iria sair da terra: podia ser um milagre ou uma desgraça. Um duende prestável ou um monstro que tudo arrasava.
Na noite de lua cheia o mago plantou as sementes do primeiro cartucho e foi dormir. Na manhã seguinte tinham nascido cenouras de açúcar, beringelas de amora, coentros de cacau, aipos de mel…. ingredientes da terra que apenas serviram para confeccionar pratos agridoces. Nessa noite os convivas saíram de sua casa um pouco enjoados, o que é compreensível.
Na lua cheia que veio depois o mago semeou o conteúdo do segundo cartucho de papel pardo. Cansado de tanto desalento, pediu à lua alguma grandeza de espírito; que se apiedasse daquela gente tão carente de salvação. Sem saber o que deitava na terra húmida, pegou na foice e plantou rebentos de visões, sementes de iniciativa e bolbos de ânimo mesclados de fortuna. Quando o sol subiu no horizonte, a urbe parecia transformada. Todos trabalhavam e sorriam. Compravam e vendiam. Inventavam e construíam. Falhavam e insistiam, sem nunca perder o sorriso. A cidade cresceu e nem sete dias passados já se tornara uma lenda nas cidades vizinhas.
Nunca mais precisaram dele.
O mago partiu e jamais tornou a ser visto.
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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Sem lugar

D. Ian Grave bateu à porta do coveiro. No corpo a morte caducava, sem saber muito bem o que fazer à embalagem. Era uma morte ecologista, não pretendia deixar o corpo assim, ao Deus dará. Egoísta, a alma elevava-se, já, flutuando a conquistar o céu. Barry, o coveiro, abriu.
- Encontre-me sepultura, Ian rogou - estou aqui que não posso e a morte a caducar-me.
- Lamento, mas não há lugar. Terá de se dirigir à sua última morada.
Não seria aquela. Não naquele dia, pelo menos. Que pena, pensou Ian Grave em voz alta, eu que já tinha escolhido a colina acolá, junto aos ciprestes azuis.
- Aah...mas são verdes. 
- se o senhor diz... para mim são azuis.
Ian Grave nunca admitia que era daltónico, além de que achava a ideia de os ciprestes serem azuis muito mais bonita. Mas não teria ciprestes. Nem azuis nem verdes.
Lá foi viver mais um pouco, a fazer tempo. Era daqueles que nunca encontrava o seu lugar neste mundo. Nem sequer no outro.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

boa semana, sim? :-)

Dancem sem pruridos nem ralações, como se ninguém estivesse a ver. Uma terapia, garanto!

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Recomeço ?

Por inverosímil que pareça, a vista do meu 
quarto e do meu escritório, na estação das chuvas.
Não é a primeira vez que ela escreve aquela palavra verde-esperança. Quando o mundo fala de refugiados, de greves e de eleições, ela só deseja conseguir fazer a sua parte. Está farta de ter desistido. Quer voltar a ser aquela que insiste e é capaz. O corpo parece-lhe hoje um pouco mais organizado, pode ser que consiga, sim, é melhor tentar. Tentar é pouco, é melhor conseguir, não pode dar-se ao luxo de menos. Arruma os seus ais num saco e vai relembrar a si mesma o que tem para fazer. Afinal, é por isso que anda assim, desistida, triste por andar fora de si. Melhor que aproveite, antes que o seu tempo acabe. O tempo não espera para sempre. Chega um dia em que é nunca mais e esse dia está cada vez mais perto. Por mais que ela diga a si mesma que o tempo não existe, ele segreda-lhe, como fantasma ao ouvido:
- Estou aqui.
E então ela escreve. Para que o tempo não faça queixa dela. 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Infortúnios

"Se todos os infortúnios do mundo fossem colocados juntos e posteriormente repartidos em partes iguais por cada um de nós, ficaríamos muito felizes se pudéssemos ter apenas, de novo, só os nossos."
(filósofo Sócrates, Atenas, 469 a.C. - Atenas, 399 a.C.)
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Obrigada, Ana.

sábado, 5 de setembro de 2015

Vera TV Series Fox Crime

Mais uma série de qualidade na Fox Crime. Estreou no dia 25 de Agosto. Protagonizado pela maravilhosa Brenda Blethyn, que conhecemos, por exemplo, de filmes como "Saving Grace ("O jardim da Alegria", 2000) e "Secrets and Lies" ("Segredos e Mentiras", 1996).

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Revolta

Só tenho revolta. E um estúpido sentido de justiça que não parece ter lugar no mundo em que vivemos. Cheguei ao meu limite. E agora? Agora só me resta lutar. E logo eu, que não faço mal a uma mosca (forma de dizer, pois já matei imensas), terei de manter esta raiva, para não perder a coragem e remeter-me ao silêncio e ao conformismo.
Para ilustrar tudo isto, uma imagem singela do estado do meu olho esquerdo que, ao que me dizem os médicos, mesmo após o transplante de córnea não irá recuperar a visão.
Como podem ver, não estou para literaturas. A realidade só me deixa gritar isto.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Fugir

E eis que chega Setembro. Entregue o último capítulo ontem, como revisora literária, nada me resta senão cuidar de mim. Uma ida ao hospital a preparar uma operação. A 12ª operação aos olhos. Levo uma esperança tímida dentro do bolso. Na 6ª feira pego no microfone e nos dias seguintes aguarda-me a escrita e lançar sementes para o outono e o Inverno. O dia tristonho, sem vontade. Já percebeu que Agosto terminou. A pele amarela, a fazer-se folha de plátano caída. As contas caindo como um colar de pérolas que rebenta na minhas mãos. Uma bola de neve que esmaga. Só me apetece fugir para fora de mim. Ser outro. Outro ser.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

Haja humor

Pena o público, no final, dar cabo do "swing" no "Mack the Knife", ao bater as palmas no tempo e não no contratempo, mas isso...é um "clássico" :-) EnJOY.

                                          

terça-feira, 14 de julho de 2015

Ilha


«Agora tenho imenso tempo. Sou uma ilha rodeada de tempo por todos os lados. Os meus filhos já saíram de casa e não é a solidão que me aflige, Sara, é o resto da minha vida sem ti. Era inevitável entrarmos ambos para o clube dos divorciados. Tentativas por instinto, erros de percurso. Só restam os filhos. A paixão vai-se e, na melhor das hipóteses, fica o amor e os filhos. A amizade e os filhos. O rancor e os filhos. A indiferença e os filhos. Soube do teu divórcio por acaso. Por que é que não me disseste nada? Eu sei porquê, não precisas de responder. Dizem que a vida é curta, mas não é verdade. A vida demora uma eternidade. Dá margem para demolirmos todas as nossas certezas, para perdermos o chão muitas vezes, para vivermos várias vidas, mesmo as que não são nossas...não verdadeiramente.»
( © Vera de Vilhena, romance em construção)

domingo, 12 de julho de 2015

A chama

Daniel Preston, psicoterapeuta mais conhecido por “D. Pression”, está incapaz de encontrar prazer nos tesouros da cidade londrina. Não há montra nem peça que prendam a sua atenção inteira. Os doentes sugam-lhe a felicidade, a paz, além de lhe porem alcunhas crueis. Depois há aquele sentimento que não pode ter, nem sabe como arrancar do peito e da consciência.
Solta um grito em pleno parque e assusta os pombos. Um deles deixa cair o recheio dos intestinos sobre o seu ombro esquerdo, do lado do coração. Deprimido, arranca para o escritório. É urgente limpar-se antes de ela chegar. Recompor-se.
Ela chega. Senta-se. Desabafa. Ele mal a escuta, ocupado que está em amá-la em segredo. Ofendida, ela sai, batendo com a porta.
Ardendo, calada, a vela sobre a secretária nada diz. A chama dança, com a força do ar deslocado pela porta zangada, ondeando como bailarina exótica, a barriga musculada da chama, dança do ventre em fogo, para lá e para cá, a censurá-lo com um tss tss…a tua bela doente saiu, reparaste? Doente anda ele, com a paixão que não pode sentir, por causa da maldita ética profissional. Sopra a vela, como quem pede um desejo. O pavio apaga-se, deixando-o iluminado, a sós com a sua própria chama. D. Pression sai porta fora e chama por ela. É no corredor que lhe diz:
- O meu silêncio chama por si, arde em pavio impossível de apagar, como aquelas velas irritantes nos bolos, sabe?
É um chamamento desesperado, palavras ateadas sem jeito.

Ela ri-se e dá-lhe um longo beijo. Nesse colar de bocas vão as chamas que há muito tentava acender nele. No beijo, um incêndio.

sábado, 11 de julho de 2015

Perdida, a cadela

Nunca passa fome. Vive da gratidão dos que, por vê-la, arranjam um pedaço de pão, um osso, uma casca de fruta, um biscoito. O nome por que é conhecida não faz qualquer sentido.
- Perdida! Anda cá, toma!

Perdidos são os que andam sem consolo na vida, sem projecto nem futuro. Sem dignidade. É cadela de rua, sim, mas tão orgulhosa que, quando a chamam pelo nome, não responde. E é nesse não responder que sempre se encontra.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Sem ser chamado

Roubei a imagem aqui
As suas acções nunca tinham um fio condutor. Por várias vezes encontrou a linha impedida e perdia oportunidades como quem deixa cair a senha na rua, para ir ao café só por dois minutos, até chegar a sua vez. Andava desencontrado com o mundo, sem voz nem mensagem. Uma noite, de madrugada, cortou os pulsos, interrompendo o que sempre fora uma má ligação.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Rosas de sangue

As roseiras daquela casa davam rosas cor de sangue fresco. Algo nunca visto, pois mesmo em pleno inverno não deixavam de florir. Pensava-se em milagres, num qualquer plano divino para mostrar a força da Mãe Natureza, as bênçãos de uma santa família. Mas não, era apenas uma estranha combinação química, pelos mortos ali enterrados em noites de lua cheia.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Raízes e revisões

Revisão literária, reescrita de tantos textos, tantas páginas escritas por terceiros. Têm sido assim os meus dias, as horas centradas nos livros dos outros, sem direito para o que é meu. O ofício em primeiro lugar. Em primeiro lugar o sustento. Para segundo plano os caprichos. Quase, quase um dever cumprido. Logo virá o tempo da escrita. Sem desculpas. Sem mais adiamentos. É urgente escrever para mim, terminar o que inaugurei há treze anos. Nem que seja para ter paz. Quase. Quase a tocar nesse tempo com a ponta dos dedos. O solo ressequido aguarda. Em breve poderei revolver os torrões de açucar mascavado. Sentir, de novo, o perfume natural das minhas próprias palavras. Sob a pá que a mulher enterra, junto àquela árvore, bem que podiam estar as minhas pobres personagens, que há tanto tempo aguardam, paralisadas em silêncio. Esperem, só mais um pouco, tenham só mais um pouco de paciência. Em breve irei socorrer-vos, enfiar-me na terra convosco, a buscar as raízes que deixei para trás.
 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Luto para sempre


As três folhas amarrotadas pelo uso das mãos, as mãos revelando os primeiros indícios da idade, a idade nas veias, pequenos riachos de águas inchadas, azuis, estendidas na planície da pele, os dedos magros, o lugar vago da aliança, para sempre vazio, uma vaga aberta e inútil, agora que ela se vestia de luto, para dizer adeus ao seu primeiro amor.Os olhos inchados lendo, a custo:
« Quando formos adultos e casarmos…
Tu interrompias-me, Sara, como quem afasta uma tragédia, a testa franzida, os olhos bem abertos:
– Casar contigo?! Nem morta!
Para nós não havia futuro, dizias. Teimavas em lembrar-me que era temporário, insistias em não acreditar em nós, neste futuro que foi chegando. Não estamos aqui? Não chegámos até aqui? Se estás a ler esta carta, sabes que já é futuro e nós continuamos aqui. O tempo não conseguiu silenciar-nos. Só a morte é capaz de calar para sempre.
(...)
Cada vez que me punhas de parte, a tua vida sem mim era para sempre. Era sempre para sempre. Mas fraquejavas sempre. E também na reconciliação eu conquistava a prova de que não podias viver sem mim.
Depois veio a vida e ensinou-me que afinal podias. Mas isso foi depois.

(romance em construção)

terça-feira, 16 de junho de 2015

...

#Dune 27 © Nanã Sousa Dias
O chão onde pousa os pés é uma passadeira de reticências... ... ... ... ... ... ...
apetece-lhe gritar, mas tem medo de assustar os pontinhos, ficar sem chão e...

c
     a
        i
            
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quarta-feira, 3 de junho de 2015

João Aguiar

Faz hoje cinco anos que perdemos o jornalista e escritor João Aguiar, que anda tão esquecido. O seu nome está normalmente associado ao romance histórico "A voz dos deuses" (que já vai em quase 30 edições), cujo protagonista é Viriato, o bravo lusitano. Acontece que, além dessa obra, escreveu muitas outras. Do que li, as minhas preferências vão para "O Navegador Solitário" e "Diálogo das Compensadas". Prolífico, dono de um excelente sentido de humor, de imaginação, domínio da palava escrita e rigor histórico, foi também autor de uma considerável obra dedicada aos leitores mais jovens, sendo a colecção mais conhecida O Bando dos Quatro.
Tive o privilégio de me corresponder com ele nos últimos anos da sua vida. João Aguiar foi de uma extrema simpatia: inclusive, enviou-me, com dedicatória, dois livros seus, "O Priorado do Cifrão", sátira escrita no âmbito da febre originada pelo famoso bestseller de Dan Brown, e "O Tigre Sentado", que quase não teve distribuição em Portugal mas em Macau. O autor d' "Os Comedores de Pérolas" morreu demasiado cedo, aos 67 anos, e foi impedido de nos presentear com outros livros que não foi a tempo de escrever.
E por falar nisso, já é tempo de reeditarem alguns dos seus livros, não? A 9ª edição do Navegador Solitário está esgotada e é, sem dúvida, um dos melhores que escreveu. Os Comedores de Pérolas foi reeditado em 2013, com uma capa bem mais apelativa do que as anteriores. Deixou, para todas as idades, dos 10 aos 100, 33 livros. É obra. Não o esqueçamos, por favor.
Dedico este post ao Nanã.





terça-feira, 2 de junho de 2015

Não me queixo

O ofício de escritor pode ser frágil e colorido como um vitral.
A feira formada por corredores cheios de cor, forrados de livros, livros, livros. Era Dia da Criança, mas as crianças estavam na escola, não podiam pedir autógrafos aos escritores. 
Cheguei já a barriga dava horas, o pequeno-almoço distante, o estômago a implorar por alimento. Depois de me ir buscar a Ribamar, perto da Ericeira, a minha editora deixou-me instalada na mesa de autor, com alguns exemplares do Coisandês, e foi buscar-me almoço. Chegou o fotógrafo da Activa, para uma pequena entrevista. A nós juntou-se a jornalista Catarina Fonseca, que me ajudou a passar aquela hora de constrangimento de uma autora novata, que está ali a uma 2ª feira a meio da tarde. 
Às quatro chegou o Alexandre Honrado, que me fez rir e com quem simpatizei de imediato. Ele e a Catarina, que já terminara a pequena entrevista e despachara as fotos da "avodrasta", deram um longo abraço cúmplice de camaradas.  
Ainda revi a minha colega Joana Macieira e de novo provei os seus "Queques com Alma", desta vez um de aveia e chocolate, maravilhoso. 
Passeei-me pela feira, parei para lanchar, quando os pés já pediam: um scone simples, uma limonada de maracujá e um café, tudo muito bom. Os feirantes gostam de mimar quem anda por ali, a namoriscar os livros. 
E foi precisamente nos livros que me desforrei do meu fracasso: "Memórias de Adriano", de M. Yourcenar (Ulisseia, Grupo Babel), "A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector (Relógio d'Água) e dois do Nobel islandês Haldór Laxness: "Gente Independente" e "Os Peixes Também Sabem Cantar" (Cavalo de Ferro). 
No pavilhão da Chiado Editora, fui dar com a minha Ilha de Melquisedech embalada em papel transparente, pack 2 em 1, com um livro sobre cristais...preço do pack: 5 euros. Por momentos não soube se havia de rir ou de chorar. Optei por rir e colocar o meu livro em primeiro plano, para os ajudar a despachá-lo ainda mais depressa. 
Quando regressei ao pavilhão da Babel, estava a autora Maria Teresa Maia Gonzalez, minha colega na área juvenil, e que eu ainda não tinha tido o prazer de conhecer. 
Da minha editora ainda recebi três miminhos, ao fim da tarde: um boné da colecção "Sisters", e um bloco e um mouse pad da Mafalda.  
A Maria José veio trazer-me a casa, chegámos já era noite, distraímo-nos à conversa e, quando reparámos, já íamos em Torres Vedras. 
Autógrafos, zero. Mas o balanço do dia foi bom. Tenho aprendido a manter baixas as expectativas. E o que vem é bem-vindo. Tive, decerto, um dia bem mais simpático do que muito boa gente. Não há lugar para queixumes.
Alexandre Honrado
Joana Macieira
Maria Teresa Maia Gonzalez

segunda-feira, 1 de junho de 2015

December Boys


Para celebrar o Dia Mundial da Criança, partilho um filme comovente que vi ontem, ao serão: "December Boys" (2007), Hollywood HD. E agora vou ali à Feira do Livro com o Coisandês e já volto :-)