Reencontrei um livro que fez parte da minha infância e, que me lembre, tem a particularidade de ter sido o único, na época, a provocar-me pesadelos. Foi com um sorriso e muita emoção que tornei a percorrer a memória desse tempo, dessas histórias e, em especial, das ilustrações que magicamente têm o condão de nos transportar. Ao olhar para estas ilustrações, sou criança outra vez.
Não se deixem enganar pelas riscas cor-de-rosa. Os dias são (d)escritos com todas as cores.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
domingo, 25 de outubro de 2015
Beatrix Potter
Há universos infantis maravilhosos. Um dos meus preferidos, no que diz respeito a ilustração, é o de Beatrix Potter. Apesar de ter visto as suas histórias e desenhos recusados pelas editoras sessenta e nove vezes (é verdade, só à septuagésima tentativa é que uma editora disse "sim"), teve sucesso imediato e tornou-se na autora de livros infantis mais vendida de sempre! (moral: se acreditam no vosso valor e no vosso sonho, não desistam). Depois de um enorme desgosto amoroso, com a morte do seu noivo e editor, em 1905, usando parte dos primeiros royalties que obteve com a venda dos seus livros, comprou a propriedade Hill Top, no Lake District. A vida campestre tinha muito mais a ver consigo do que a vida social, na cidade; por isso Beatrix tentou ultrapassar o seu desgosto e saiu, enfim, da casa de seus pais, apesar de ainda solteira, mudando-se definitivamente para Hill Top, na Escócia (e que pode ser visitada como casa-museu). Ao longo dos anos, foi comprando em leilão e mantendo as quintas adjacentes, para que estas fossem preservadas e cultivadas, ao invés de aparceladas e vendidas para construção.
No final da sua vida, Beatrix Potter deixou à National Trust 4 mil acres de terras e 15 propriedades, com paisagens e lagos belíssimos, e uma flora e fauna que fizeram parte de muitas das suas histórias.
Em 2006 a sua vida foi adaptada ao cinema, com o filme «O mundo encantado de Beatrix Potter» («Miss Potter»).
Esta grande mulher esteve-se nas tintas para as convenções da sua época e fez muito pela conservação da paisagem, da agricultura e dos trabalhadores que cultivavam as terras da região. Foi também cientista e dedicou-se, nomeadamente, ao estudo dos fungos (ex: cogumelos), se bem que seja célebre pelas suas ilustrações. Aqui ficam algumas que, na época, foram verdadeiramente revolucionárias. Animais da quinta com roupinhas :-) e desenhados com todo o rigor científico.
No final da sua vida, Beatrix Potter deixou à National Trust 4 mil acres de terras e 15 propriedades, com paisagens e lagos belíssimos, e uma flora e fauna que fizeram parte de muitas das suas histórias.
Em 2006 a sua vida foi adaptada ao cinema, com o filme «O mundo encantado de Beatrix Potter» («Miss Potter»).
Esta grande mulher esteve-se nas tintas para as convenções da sua época e fez muito pela conservação da paisagem, da agricultura e dos trabalhadores que cultivavam as terras da região. Foi também cientista e dedicou-se, nomeadamente, ao estudo dos fungos (ex: cogumelos), se bem que seja célebre pelas suas ilustrações. Aqui ficam algumas que, na época, foram verdadeiramente revolucionárias. Animais da quinta com roupinhas :-) e desenhados com todo o rigor científico.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
domingo, 18 de outubro de 2015
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Agustina
«Eu não me levo muito a sério. É a melhor maneira de viver. Aquele que se leva a sério está sempre numa situação de inferioridade perante a vida.»
Deve ter toda a razão. E nós estamos sempre a esquecer-nos dos seus conselhos sábios. Diz que é muito conhecida e pouco lida. Acho que, mais uma vez, tem razão. Dizemos "Agustina" e não é preciso acrescentar mais nada. Todos sabem quem é, tem artigo antes do nome, sempre, é A Agustina, apesar de ser dona de um apelido marcante - Bessa-Luís - Agustina Bessa-Luís é todo um nome literário, aconchegado em palavras, gerações, famílias, lugares nortenhos e personagens, escritos e descritos em letra miudinha, a construir e a contar esta enorme mulher pequena.
Parabéns, Agustina, pelos seus 93 anos.
Deve ter toda a razão. E nós estamos sempre a esquecer-nos dos seus conselhos sábios. Diz que é muito conhecida e pouco lida. Acho que, mais uma vez, tem razão. Dizemos "Agustina" e não é preciso acrescentar mais nada. Todos sabem quem é, tem artigo antes do nome, sempre, é A Agustina, apesar de ser dona de um apelido marcante - Bessa-Luís - Agustina Bessa-Luís é todo um nome literário, aconchegado em palavras, gerações, famílias, lugares nortenhos e personagens, escritos e descritos em letra miudinha, a construir e a contar esta enorme mulher pequena.
Parabéns, Agustina, pelos seus 93 anos.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Tardes em naftalina
De Raquel Serejo Martins
![]() |
| My Old Home, © Ana Cristina Dias |
«O calor insuportável, o acordar antes do despertador, a noite feita de um sono solto, intermitente, o sol já inflamado, o céu vazio de nuvens, de pássaros, o vidro da janela morno, quase quente, os pés descalços pelo chão do quarto, pelo mosaico da casa-de-banho, o seu rosto no espelho, os olhos lembram berlindes.
Oferece-se um sorriso, o sorriso matinal possível, breve e azul, o cabelo despenteado lembra-lhe sempre as mesmas palavras da mãe, passa um pente por esse cabelo.
Precisa de água como um peixe precisa de água, desesperadamente.
O banho da manhã incapaz de arrefecer o corpo, de levar pelo ralo, o calor dos lençóis colado ao calor do corpo.
De olhos fechados, tenta esquecer a noite debaixo do chuveiro, afogar o cansaço.
Esquece o presente e em consequência chega tarde ao trabalho.
Não se esquece da garrafa de água, o calor obriga-a a circular pela cidade sempre com uma garrafa de água, como se a garrafa de água uma garrafa de oxigénio, como se o seu corpo dentro de um fato de mergulho.
A viagem para o trabalho uma epopeia.
Epopeia nenhuma, nem furos nos pneus, nem falhas nos travões, igual, igual o caminho, talvez mais rápida.
Na rádio ouve notícias de cidades a norte submersas em água por causa de chuvas diluvianas. O mundo em desequilíbrio perfeito.
Com dificuldade arruma as mãos no volante, os olhos na estrada.
As ruas quase vazias. Os semáforos numa sincronia rubra a obrigar os carros a parar.
Procura e encontra um espaço para estacionar sob a sombra de uma árvore.
Um jacarandá, uma sombra azul e parca.
O asfalto sem a habitual dureza a prender-lhe os saltos dos sapatos, os passos, quase a vontade.
Custa-lhe caminhar. No corpo um peso para lá do peso do corpo. Abraça-se, precisa verificar, o fato de linho, leve, não de borracha.
Custa-lhe respirar. O ar insuportável, irrespirável.
Senta-se à secretária, vinte minutos depois da hora em que era suposto sentar-se à secretária.
A secretária como se um boião de aquário.
Na secretária um pisa-papéis em bronze em forma de peixe.
A manhã passa, sem languidez, análises, pesquisas, contas, quadros, mapas, faxes, telefonemas, uma bica sem açúcar, e-mails, processos, relatórios.
Depois a tarde, as horas rubras da tarde, do calor maior, o silêncio sob a ausência de silêncio, as palavras em voz baixa, melodias vagas de rádios, deslizar de cadeiras, dedos sobre teclas e botões, cabeças a pensar, sem tempo para divagações, apenas conclusões.
Do ponto de vista das lâmpadas presas ao tecto lembram os membros de uma orquestra a afinar os instrumentos, a azáfama da tarde, formigas no lufa-lufa do carreiro, ninguém em sentido contrário, a cidade um formigueiro, indiferente ao papa-formigas.
A tarde, passa como a manhã, sentada à secretária.
Sentou-se pontualmente à secretária.
As horas do dia indistinguíveis.
No escritório uma temperatura de frigorífico garantida por um aparelho de ar condicionado com dez anos de garantia.
A tarde passa entre análises, pesquisas, contas, quadros, mapas, faxes, telefonemas, mais uma bica sem açúcar, e-mails, processos, relatórios.
Até que uma assinatura no fim de uma página, a faz reparar na data, transforma o dia, de abstracto a concreto, um dia de Julho.
Uma tarde de Julho.
Julho quase no fim. Mês de pêssegos e alperces.
E fecha os olhos, cinco segundos, o tempo de um respirar, uma tarde inteira dentro de cinco segundos, imagina-se na casa dos avós, o corredor sem fim, um labirinto em linha recta, dezoito metros de corredor onde tudo podia acontecer, ela a pedalar um triciclo pelo corredor, a alegria dos pés fora do chão, os riscos paralelos de três rodas no soalho.
E no corredor um armário, O armário do corredor, quatro portas, quatro chaves de ferro forjado, a pega em forma de coração, um gigante, como se um mostrengo a atormentar o tormentoso Cabo.
Um armário como se um castelo fechado a quatro chaves, na torre de vigia, num sono vigilante, o gato da casa, a prestar vassalagem unicamente a si próprio, desinteressado do trânsito do corredor.
Demorou a conquistar o armário.
Demorou quatro dias a abrir as quatro portas.
Dentro do armário encontrou roupas da avó, o vestido de casamento, dois vestidos de festa, vestidos de noite, escuros como a noite, talvez para que os corpos se confundam com a noite, vestidos decotados nas costas, polvilhados a lantejoulas, um brilho falso de estrelas.
Não consegue imaginar a avó de lantejoulas.
A avó sempre de avental, branco, alvo, imaculado, se um ramo de rosas brancas e um véu, lembraria uma noiva feliz no cume de um bolo de amêndoa e ovos.
A avó de avental à hora do chá, sempre chá preto com dois gomos de limão, acompanhado com uma cigarrilha que fumava numa elegância plácida.
A avó dizia It’s tea time e com pontualidade britânica preparava o chá.
Nunca percebeu se a avó falava a língua de Virgínia Woolf e de Mrs. Dalloway, ou se sabia apenas frases feitas, palavras soltas.
Há coisas que nunca teve coragem de perguntar.
Lembra-se, sempre que a avó a repreendia, o que acontecia com uma frequência mais do que suficiente e que a insatisfazia bastante, que começava os reproches não pelo seu nome próprio, em riste e completo, Sara Luísa, como sempre faziam os pais, mas com o prefixoyoung lady, que em pequena a reduzia à sua condição de ignorante.
Depois cresceu, ficou maior do que a avó, também começou a fumar, as mesmas cigarrilhas amargas, que quem sai aos seus não é de Genebra.
Lembra-se de um tempo, ridículo e breve, em que se sentiu uma big woman, em que pensou que o tamanho era medida suficiente para descurar as consequências das suas acções e omissões.
Depois cresceu mais, os outros dizem que cresceu, dizem que ficou comedida nos gestos e nas palavras.
Não nos pensamentos.
Nos pensamentos não permite que a incomodem.
Em consequência mente. Mente sem pudor sempre que é preciso. Protege-se.
Empenha-se em cultivar pensamentos esdrúxulos, difíceis de medrar, adubados a palavras de poetas assassinados, regados a água de chuva, gosta de andar à chuva, mesmo em dias de Inverno, a água canalizada de chuveiro, que mais não pode fazer quando não chove, a copos de whiskey, que em simultâneo a preservam de constipações e lhe desafinam o fígado.
Dentro do armário lençóis de linho, cobertores de lã e um cheiro a naftalina misturado com alfazema, sabão azul e sol de Verão, um cheiro, também somos feitos de cheiros, que desde então procura, sem nunca encontrar, sempre que abre a porta de um qualquer armário.
Dentro do armário o seu corpo.
Dentro do armário um barulho de búzios.
Dentro do armário uma gaivota e uma cegonha, o ninho da cegonha, a torre da igreja onde a cegonha fez o ninho, a igreja, os sinos a tocar, uma procissão, uma banda e um maestro com pinta de pirata disfarçado de almirante.
Dentro do armário um piano de cauda, dois pinguins, um tigre, uma girafa azul, um índio e dois cowboys, dois pares de patins, uma princesa, sete anões, um lobo mau, três peixes-voadores, um bando de andorinhas, um espantalho, um balão de ar, uma baleia, uma fada madrinha, um submarino, uma costureira perita, um polícia sinaleiro, um carro de bombeiros, um pião, uma amiga imaginária com um vestido vermelho igual ao seu, a quem contava todos segredos, que não gostava de sopa, agora gosta, de dormir sesta, que sabia escrever o seu nome com todas as letras, contar até 38, que já perdeu quatro dentes, quase uma mão cheia de dentes. Cuidado que morde!
Dentro do armário corridas em patins, as duas de mãos dadas, impossível cair, magoar os joelhos, partir o nariz.
Dentro do armário podiam apanhar um avião para Paris.
Viste a Sara?
Onde é que está a Sara?
Escondia-se do mundo.
Escondia-se pelo gosto simples de se esconder, de desaparecer.
Um dia abriram uma porta, abriram todas as portas, uma a uma à vez.
O seu corpo sem respirar dentro do armário, o seu corpo a girar como a chave girava na fechadura da porta. O seu coração no peito entre o tamanho de um botão e de uma baleia.
Dentro do armário não está!
Divertia-se com a preocupação das vozes, dos passos em volta à sua procura.
Mas onde é que se enfiou a Sara?
No buraco de uma agulha!
Sara!
Sara!
E não sabe dizer quantas vezes deu por si, em casa de estranhos, uma vez num museu, um castelo mobilado a preceito, a enfiar sorrateiramente o nariz porta dentro de armários com mesmo um aspecto suspeito, mas vestidos de noiva, nem lençóis de linho, nem cobertores de lã.
O vigilante com o dedo indicador a tocar-lhe no ombro, uma insistência de campainha de prédio de dezoito andares, um labirinto em linha recta onde tudo podia acontecer.
Ela a desfazer-se num sorriso sinónimo de pedido de desculpa pelo seu comportamento atrevido, ela de olhos no chão, nos atacadores dos sapatos, à espera de uma repreensão que invariavelmente começaria com as palavras young lady… enquanto reprime a vontade de o interromper com a pergunta: Desculpe, por ventura sabe onde é que está a Sara?»
(Roubei aqui)
domingo, 11 de outubro de 2015
domingo
O dia morno e cinzento, os trapos para arrumar, a caruma para varrer, o vento, sempre o vento. Os cães a quererem brincar, a ladrar aos caçadores que passam rumo à clareira, junto à mata, com os atrelados que trazem os cães cúmplices da matança. Cuidado, bichos, escondam-se! A tentativa falhada de escrever ficção, um resto de Poirot com tema de Halloween, Um Domingo dormente antes de fritar um arroz basmati e uns bifinhos com molho de amendoim. Um domingo que é nada e amanhã é já segunda, e eu sem entender por que razão não lhe chamaram primeira. A primeira-feira.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015
Erva
Cheguei-me à beira da terra e belisquei-a.
Estava ainda aguada do orvalho da noite.
Da erva escorreram gotas grávidas de húmus,
Que deslizaram e se infiltraram,
Rumo ao coração da terra,
Em líquido verde-água e transparência fria.
A terra era esponja que guarda as lágrimas nocturnas,
O pranto dos homens, tantas desilusões
Lançadas pela vidraça dos seus quartos solitários.
É preciso beliscar a terra de vez em quando.
Torcer as suas feridas
Para que seja capaz de absorver mágoas futuras,
Urdidas em desejos por cumprir.
Nesse dia perguntei-te por onde andavam os meus
sonhos
E tu respondeste que há muito os havias enterrado,
Porque eram já desistentes,
Empoeirados,
De há tanto tempo andarem entregues ao abandono
De quem desiste de sonhar.
Na cerimónia fúnebre dos meus projectos
Soubeste tu plantar uma tímida flor.
Veremos se, beliscando a terra,
Apertando a erva,
Dali nasce a semente como Terra-Mãe,
Cuja bacia se estende, a deixar sair um filho.
Belisquemos a terra, pois.
Tentemos dela retirar a seiva que nos faz viver.
O néctar que nos pode ser salvação.
Mas não e queixes, se a terra disser que não.
(in «Fora do Mundo», pág.58, Poética Edições, 2014)
terça-feira, 6 de outubro de 2015
Corpo dormidor
Dormiu como há muito não dormia. Sem ruídos nem consciência, sem recordação das mudanças de pose daquele corpo dormidor, na sessão onírica em que apenas a escuridão observa o seu repouso. A vida arrumando-se em silêncio, timidamente, as horas cumprindo um papel rasurado, amachucado em desperdício. Ainda a urgência de uma noite que lhe dê protecção, o consolo de um azul-estrelado, a dar fim ao eclipse que lhe deixa, no rosto redondo, um tímido beijo de luz.
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| Noite Estrelada, van Gogh |
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Alzheimer
Saber, para compreender e dar apoio a quem dele mais precisa. Quero acreditar que num futuro não muito distante haverá um bendito comprimido que evite este drama.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
O escritor-fantasma
Ali, preto no branco, estava a
lista de autores, obras e discursos escritos na sombra, durante
décadas. Todas as provas, deixadas em testamento. Foi um escândalo mundial. Aquilo envolvia até um
prémio Nobel. A coisa acabou em suicídios em série, demissões, tribunais, sátiras sem fim. Morto, o escritor-fantasma já não precisava de ganhar a vida. Ainda que tarde, lá conseguiu a sua fama. E foi sem dificuldade que a viúva arranjou editora para os contos e romances que o infeliz marido guardava, há tanto tempo, na gaveta, desolado com tantas cartas de recusa que diziam sempre o mesmo, sem qualquer criatividade, e com a frieza de uma circular:
«Apesar da inquestionável qualidade da sua obra, lamentamos informar que a mesma não se enquadra no nosso plano editorial.»
Ainda hoje o seu espectro paira pela casa. As resmas de papel, guardadas no gavetão da secretária, têm vindo a desaparecer misteriosamente.
«Apesar da inquestionável qualidade da sua obra, lamentamos informar que a mesma não se enquadra no nosso plano editorial.»
Ainda hoje o seu espectro paira pela casa. As resmas de papel, guardadas no gavetão da secretária, têm vindo a desaparecer misteriosamente.
terça-feira, 29 de setembro de 2015
6 anos depois
«Entraste-me na pele, atravessaste todas as minhas células e ficaste aqui, no núcleo de mim. Fui sendo várias pessoas, agigantando-me, aprendendo a ser o que não sabia ser contigo. A carne não é a mesma, tem história, tem tempo, tanto tempo. Mas quando lhe pergunto se ainda te conhece, diz-me que está contigo todos os dias, sem que eu saiba, cúmplice daquele outro bocado de matéria, feito de válvulas atravessadas pelo sangue, aquele pedaço pulsante para cima do qual atiram as culpas do amor. E esse, o coração? Esse ri, espantado com a minha inocência, por ver que entreguei ao tempo a responsabilidade de te arrancar do corpo. Como se ele, o tempo, fosse aspirador que aspirasse a ficar com a nossa história, sorvendo-a, camada por camada, até conseguir ver os nossos dias numa tela de cinema, porque fomos um filme invulgar, irrepetível. Não, o tempo não conseguiu penetrar-me como tu. Continuas aqui, no núcleo do que sou, na carne, na memória. Entras-me nos sonhos com o à-vontade de uma visita que é já da casa, com a destreza de quem nunca chegou a sair. E a cada vez que te visito, sempre me espanto e digo para comigo: pareces que foste ontem.»
(VERA DE VILHENA, blogue, 29 setembro 2009)
(VERA DE VILHENA, blogue, 29 setembro 2009)
sábado, 26 de setembro de 2015
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
terça-feira, 22 de setembro de 2015
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
sábado, 19 de setembro de 2015
Nua
Nua
Tudo ela despiu:
O laço e a luva,
O casaco, o vestido;
E despiu a nuvem,
Despiu a chuva;
E, mau grado o vento,
Com passos pequenos,
Desarmou o sentido.
Pôs de lado a lágrima,
A fresta fechada;
Quis ser criatura
De entre todas a mais
nua.
Desfolhada da pele,
Desnudou-se do chão;
Despiu-se da fenda
E da porta da rua.
Tudo ela despiu:
A velhice dos móveis,
O pó das memórias
Que o tempo riscou;
Arrumou recatos,
Dores, vergonhas,
Na crença dos cegos,
Em sombra muda,
avançou.
Despiu o almoço
O moço, o cão;
Deu corda ao relógio,
Desarmou o grito
E a mansidão.
Despiu com atraso,
Do avesso, a alma
Gretada de há tanto
Andar enlameada.
Despida da fome,
E das suas muralhas,
Liberta da sede,
Cobriu-se de nada.
Nua e leve,
Desnudou o cansaço
Do corpo que soa,
Num lento compasso.
E com mãos vazias,
Num gesto inteiro,
Despiu a mortalha
Do seu cativeiro.
Despojou o medo,
Buscou o martelo
Que quebrasse a pedra
Entorpecida.
Trajada a preceito,
De corpo apenas,
Desarmou receios e até
suas penas,
Em busca de um dia
mais-que-perfeito
E na estrada branca
Viajou no ventre
Que em tardio repente
Em si mesma gerou;
E sempre que um “se”
Invadiu suas veias,
De sangue novo se
alimentou.
Jamais tornaria ao doce
vazio:
Porquanto,
Intimamente,
Tudo ela despiu
(in «Fora do Mundo», pp.20-21 (Poética Edições, 2014)
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Os dois cartuchos
O mago tinha dois cartuchos de magia trocada, comprados na Feira das
Curiosidades, num encontro de druídas muito velhos. Tão velhos que alguns deles
já não davam conta do que faziam. Nunca sabiam dizer o que iria sair da terra: podia
ser um milagre ou uma desgraça. Um duende prestável ou um monstro que tudo arrasava.
Na noite de lua cheia o mago plantou as sementes do primeiro cartucho e
foi dormir. Na manhã seguinte tinham nascido cenouras de açúcar, beringelas de
amora, coentros de cacau, aipos de mel…. ingredientes da terra que apenas serviram
para confeccionar pratos agridoces. Nessa noite os convivas saíram de sua casa
um pouco enjoados, o que é compreensível.
Na lua cheia que veio depois o mago semeou o conteúdo do segundo cartucho
de papel pardo. Cansado de tanto desalento, pediu à lua alguma grandeza de
espírito; que se apiedasse daquela gente tão carente de salvação. Sem saber o
que deitava na terra húmida, pegou na foice e plantou rebentos de visões,
sementes de iniciativa e bolbos de ânimo mesclados de fortuna. Quando o sol
subiu no horizonte, a urbe parecia transformada. Todos trabalhavam e sorriam.
Compravam e vendiam. Inventavam e construíam. Falhavam e insistiam, sem nunca
perder o sorriso. A cidade cresceu e nem sete dias passados já se tornara uma
lenda nas cidades vizinhas.
Nunca mais precisaram dele.
O mago partiu e jamais tornou a ser visto.
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terça-feira, 15 de setembro de 2015
Sem lugar
D. Ian Grave bateu à porta do coveiro. No corpo a morte caducava,
sem saber muito bem o que fazer à embalagem. Era uma morte ecologista, não
pretendia deixar o corpo assim, ao Deus dará. Egoísta, a alma elevava-se, já,
flutuando a conquistar o céu. Barry, o coveiro, abriu.
- Encontre-me sepultura, Ian rogou - estou aqui que não posso
e a morte a caducar-me.
- Lamento, mas não há lugar. Terá de se dirigir à sua última
morada.
Não seria aquela. Não naquele dia, pelo menos. Que pena,
pensou Ian Grave em voz alta, eu que já tinha escolhido a colina acolá, junto aos ciprestes azuis.
- Aah...mas são verdes.
- se o senhor diz... para mim são azuis.
Ian Grave nunca admitia que era daltónico, além de que achava a ideia de os ciprestes serem azuis muito mais bonita. Mas não teria ciprestes. Nem azuis nem verdes.
Lá foi viver mais um pouco, a fazer tempo. Era daqueles que
nunca encontrava o seu lugar neste mundo. Nem sequer no outro.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2015
boa semana, sim? :-)
Dancem sem pruridos nem ralações, como se ninguém estivesse a ver. Uma terapia, garanto!
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Recomeço ?
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| Por inverosímil que pareça, a vista do meu quarto e do meu escritório, na estação das chuvas. |
- Estou aqui.
E então ela escreve. Para que o tempo não faça queixa dela.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Infortúnios
"Se todos os infortúnios do mundo fossem colocados juntos e posteriormente repartidos em partes iguais por cada um de nós, ficaríamos muito felizes se pudéssemos ter apenas, de novo, só os nossos."
(filósofo Sócrates, Atenas, 469 a.C. - Atenas, 399 a.C.)
Obrigada, Ana.
(filósofo Sócrates, Atenas, 469 a.C. - Atenas, 399 a.C.)
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sábado, 5 de setembro de 2015
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Revolta
Só tenho revolta. E um estúpido sentido de justiça que não parece ter lugar no mundo em que vivemos. Cheguei ao meu limite. E agora? Agora só me resta lutar. E logo eu, que não faço mal a uma mosca (forma de dizer, pois já matei imensas), terei de manter esta raiva, para não perder a coragem e remeter-me ao silêncio e ao conformismo.
Para ilustrar tudo isto, uma imagem singela do estado do meu olho esquerdo que, ao que me dizem os médicos, mesmo após o transplante de córnea não irá recuperar a visão.
Para ilustrar tudo isto, uma imagem singela do estado do meu olho esquerdo que, ao que me dizem os médicos, mesmo após o transplante de córnea não irá recuperar a visão.
Como podem ver, não estou para literaturas. A realidade só me deixa gritar isto.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Fugir
E eis que chega Setembro. Entregue o último capítulo ontem, como revisora literária, nada me resta senão cuidar de mim. Uma ida ao hospital a preparar uma operação. A 12ª operação aos olhos. Levo uma esperança tímida dentro do bolso. Na 6ª feira pego no microfone e nos dias seguintes aguarda-me a escrita e lançar sementes para o outono e o Inverno. O dia tristonho, sem vontade. Já percebeu que Agosto terminou. A pele amarela, a fazer-se folha de plátano caída. As contas caindo como um colar de pérolas que rebenta na minhas mãos. Uma bola de neve que esmaga. Só me apetece fugir para fora de mim. Ser outro. Outro ser.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
terça-feira, 21 de julho de 2015
Haja humor
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