O silêncio do tempo, a conta-gotas. Ainda o ano mal começou já este cansaço. Falta a magia, a crença num qualquer milagre. Não há sonho no despertar para a manhã de cinza. No corpo o cheiro da uma solidão entranhada. Nuas de todos os gestos, nem as mãos falam por mim. Do céu desce uma chuva miúda, água, apenas. No meu ombro já não pousam anjos.
Não se deixem enganar pelas riscas cor-de-rosa. Os dias são (d)escritos com todas as cores.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
Fontes
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| Caligrafia de Jane Austen, em carta enviada à irmã, Cassandra, 1796 |
– Ó vô, é
verdade que quando eras novo as pessoas escreviam mesmo?
Sentado na
poltrona, o velho pousou os óculos sobre a mesa de apoio, virou a cabeça e
respondeu:
– O que é
isso de escrever mesmo? Tu já sabes escrever, que eu vi.
– Sim, já
sei, pois, mas só com a ponta destes dois dedos – e dizendo isto espetou os
indicadores sapudos, que ainda tinham covinhas e refegas, como se fosse tirar
macacos mas não tirou – eu digo assim com a mão toda, escrever a sério, num
papel.
O velho fez
por se lembrar onde vira, pela última vez, uma caneta que ainda tinha um resto
de tinta na carga. Já devia ter secado. Afinal, ninguém usava essas coisas, e
há muito que atirara aquele objecto inútil para o fundo de uma das gavetas da
secretária. Enquanto vasculhava, o neto insistiu:
– E é
verdade que na escola vos obrigavam a escrever as letras grandes e pequenas,
com as voltinhas todas, como aquelas fontes do Word 3000, a imitar o antigo?
Divagando devido à idade avançada, o velho não
soube a que fontes se referia ele, se eram de água cristalina ou fontes de
informação e conhecimento. Se era uma fonte de problemas, de chocolate ou de
champanhe. A saliva cresceu-lhe na boca e fez-lhe sede. Talvez ainda restasse
uma cerveja no frigorífico. “Tenho de ir comprar mais”, murmurou o velho.
(excerto de um pequeno conto escrito hoje)
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
Bumba na Fofinha
Tão engraçados, os videos desta maluca. A brincar a brincar se dizem muitas verdades. Um prémio merecido, para o seu blogue.
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
Em mim
Porque este meu primeiro livro de poesia faz hoje 3 anos, deixo um dos poema escrito no alpendre, à mesa de um café ou junto do mar.
Em mim
«Se acreditar em mim, sonho.
Se sonho, levito.
Se pouso os meus pés, luto…
Mas não venço.
De luto, perco a fé em mim —
— A arquitectura dos meus projectos.
Sem alicerces que me segurem,
Vou flutuando, saindo de mim;
E de tanto perder, resguardo-me em quimeras,
Acreditando, sem fé,
Sonhando, sem noite.
E tenha, ou não, no peito a confiança,
Só a dança do sonho existe em mim.»
terça-feira, 28 de novembro de 2017
Christmas Three
Este é o meu trio mais recente, pois o Natal está aí e já estamos em modo natalício :-)
Se quiserem contratar-nos, é fácil, basta um primeiro contacto para:
nanasousadias@gmail.com
veravilh@gmail.com
EnJOY e Boas Festas!
Se quiserem contratar-nos, é fácil, basta um primeiro contacto para:
nanasousadias@gmail.com
veravilh@gmail.com
EnJOY e Boas Festas!
Aos escondidos
De tanto adiar a escrita da trilogia, dedicada a outros projectos, os personagens da 2º volume d' «A Ilha de Melquisedech» esconderam-se de mim. E agora, encontrá-los? Um sarilho. Procuro pela casa, vasculhando os potes da cozinha, as cestas, as fissuras da pedra, os tachos e panelas de cobre, suspensos do tecto, em gavetas, arcas e gavetões, entre as camisolas de inverno, mantas e cobertores - não vão eles ter sentido um frio abandono que mais parece desamor... mas os malandros continuam bem escondidos. Terei de lhes pegar com jeito, levá-los com falinhas mansas, torrões de açúcar e mezinhas caseiras, para que venham até mim como corças num bosque desencantado. É sempre assim, ficam ofendidos pela espera e com razão: Sukkar, o duende de Hidromel, Furfuris, o ajudante do moleiro Grotti, as ondinas, que há muito não visitam a superfície do Lago dos Segredos, adormecidas nas suas grutas de cristal; Mnemina, Evangelina, Zacarias, Aracne, Scribendi, Graziela, Rigoletto... todos permanecem em silêncio, amuados, até o corcunda Ratatosk, exilado na Ilha de Nullius.
Mais me envergonha a forma como tratei as novas personagens, que mal haviam começado a ver contada a sua história, quando as deixei paralisadas num gesto, como injusta maldição: Mutatis, nascido no Outro Mundo, os espantalhos Iratus, Rusticus e Pertinax, e os humanos Benjamin Somers, Katherine e Rosemary Doolittle, Sr. Alfa e Sr. Beta, Cécile Picard, Francine Clément, Marie e Olivier La Fontaine, os irmãos Carlos e Luis Asunción e até uma família de Sintra, em Portugal, que irá participar nesta aventura. Do vilão que dará nome ao segundo volume nem me atrevo a falar, para já, não vá ele amaldiçoar eternamente esta trilogia.
Mostrem-se! A vossa espera terminou. Estou pronta.
Mais me envergonha a forma como tratei as novas personagens, que mal haviam começado a ver contada a sua história, quando as deixei paralisadas num gesto, como injusta maldição: Mutatis, nascido no Outro Mundo, os espantalhos Iratus, Rusticus e Pertinax, e os humanos Benjamin Somers, Katherine e Rosemary Doolittle, Sr. Alfa e Sr. Beta, Cécile Picard, Francine Clément, Marie e Olivier La Fontaine, os irmãos Carlos e Luis Asunción e até uma família de Sintra, em Portugal, que irá participar nesta aventura. Do vilão que dará nome ao segundo volume nem me atrevo a falar, para já, não vá ele amaldiçoar eternamente esta trilogia.
Mostrem-se! A vossa espera terminou. Estou pronta.
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segunda-feira, 27 de novembro de 2017
domingo, 26 de novembro de 2017
Black Mirror
Comecei este fim de semana a ver mais uma das famosas séries produzidas pela Netflix: Black Mirror. Este série é surpreendente e deixa-nos francamente preocupados. Creio ser esse o objectivo principal dos criadores: pôr-nos a pensar. Neste video, é feita uma análise a um episódio em particular, com um tipo de realização à parte dos restantes, luminoso e leve que, na verdade, nada tem de "light".
Os episódios são independentes e os cenários e realização, casting etc distintos, como uma caixa de chocolates sortidos. Uma série a não perder. Não se assustem com o primeiro episódio, que "é muito, muito fora", avisou-me o meu filho. Vi apenas três e já me conquistou.
Os episódios são independentes e os cenários e realização, casting etc distintos, como uma caixa de chocolates sortidos. Uma série a não perder. Não se assustem com o primeiro episódio, que "é muito, muito fora", avisou-me o meu filho. Vi apenas três e já me conquistou.
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
Gota a gota
Entregar o número da revista de Dezembro e começar, desde logo, a receber material para o número de Janeiro oferece-me um consolo e um amparo só entendidos por aqueles que, tal como eu, andaram muitos anos na esperança de encontrar trabalho de semana em semana, de mês em mês, como quem procura moedas perdidas nos bolsos, nas gavetas, sob os escombros das suas duvidosas opções de vida, escolhas menos certas, que os levam ao engano da fantasia que jamais se cumpre. De vez em quando, um balão de oxigénio, para de novo tombar no deserto. Outras vezes, um aguaceiro, chuvas caindo de repente, com abundância, a tornar quase impossível a gestão do tempo. E agora isto, a bênção de um trabalho em água corrente - ainda que em fina torrente -, um alívio, poder cumpri-lo a partir do meu "escritário", o mundo virtual a fazer a magia de anular o tempo e a distância. Dia a dia, gota a gota, um ofício que posso desempenhar por bons anos ainda, com a saúde que me resta.
É no mínimo irónico alguém ter como novo ofício a Revisão, depois de perder a visão de um dos olhos. Lembra-me um homem de uma perna só, empregado numa fábrica de próteses, um surdo numa academia de música, um maneta malabarista. É preciso sabermos brincar, não é? Rir do que não tem graça. Para que passe a ter. E, em especial, não esquecer a gratidão. Essa tenho de sobra, para com os anjos, como a chuva matando a fome da terra.
É no mínimo irónico alguém ter como novo ofício a Revisão, depois de perder a visão de um dos olhos. Lembra-me um homem de uma perna só, empregado numa fábrica de próteses, um surdo numa academia de música, um maneta malabarista. É preciso sabermos brincar, não é? Rir do que não tem graça. Para que passe a ter. E, em especial, não esquecer a gratidão. Essa tenho de sobra, para com os anjos, como a chuva matando a fome da terra.
quarta-feira, 22 de novembro de 2017
Terra seca

O chão queima, não consigo pousar, diz um anjo. A terra murcha, à sede, a ameaçar-lhe as asas com o hálito febril. O solo já coberto de anjos caídos como folhas secas. O choro deles vai compondo serpentinas invisíveis - hoje há vento, dizem os cegos - e só alguns conseguem ver: sonhadores furtivos caminhando sobre o manto estaladiço, em busca de sonhos quebrados que possam bordar, no tecido do tempo, e usar ao peito; sonhos em segunda mão, flores remendadas na lapela gasta de um mendigo. Talvez um dia sejam, também eles, anjos na terra. Talvez seja possível pousar num amanhecer, sem se tornarem cinza.
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Assim, sim.
Visto ontem, finalmente, este filme tão falado, de 2013. "La Cage Dorée" correspondeu às minhas expectativas. É muito bom ver actores portugueses a fazerem um excelente trabalho e servidos com todos os ingredientes do bom cinema. Assim, sim.
terça-feira, 3 de outubro de 2017
A minha pena

terça-feira, 15 de agosto de 2017
sexta-feira, 11 de agosto de 2017
Salvação

Um Deus Desconhecido escutou as minhas preces de ontem, que eram sem fé. Pousou-me na areia, no dia seguinte, para que eu pudesse recordar a rebentação das ondas, o aroma das algas, os reflexos infinitos de sol no mar, debaixo do corpo uma toalha verde-água, nas mãos o livro de Steinbeck, ao meu lado o homem que partilha a minha vida, quando ambos nos cruzamos no mesmo universo de vontades, no mesmo tempo, no mesmo lugar.
Um fim de tarde perfeito, quando o vento já arrepiava a pele: ameijoas à Bulhão Pato e um vinho branco alentejano, na companhia de amigos que, em boa hora, encontrámos, antes de entrar na marisqueira cujos donos tratamos por "tu", apesar de o ritmo de visitas e de consumo ficar muito aquém daquele que seria desejado.
Há dias que são uma espécie de salvação, por mais modestos. Um passo atrás no precipício de uma não-vida.
Hoje vivi.
quinta-feira, 10 de agosto de 2017
Suspiros
A escrever sem pensar no que tenho para dizer, receio descobrir-me seca, nada existir digno de dizer. Avoluma-se uma não-vida, que me esvazia, a calar todas as letras. Fico à espera que algo aconteça e nada, é uma paragem cardíaca nos dedos, a paralisia do pensamento, o desalento levou a luz inteira e na penumbra não consigo caminhar sem cair. Deixo que os dedos dancem no teclado, é um cliché, um cliché, fugiram-me as palavras mais húmidas, tudo o que tenho chega-me aos dedos desidratado.
Agosto a um terço, os outros, que vivem, a banhos, e eu em seco, só a água insossa e o vinho, o café e o chá, o sumo, sem onda nem espuma, sem barcos nem velas, sem algas ou o piar das gaivotas nem nada, sem braçada nem sol, da esperança, o queixume. Mais um Verão desperdiçado. Vida sem vida, só o suspiro que traz a miragem da beira-mar, onde não estou.

quarta-feira, 26 de julho de 2017
Vida
Depois de um serão divertido, entre amigas, saltitando de casa em casa, na Ericeira, comendo e bebendo, mais bebendo que comendo, retomo o trabalho de manhã, ainda a reunir as partículas.
A minha mãe faz 83 anos. Falámos um bom bocado ao telefone, como tantas vezes fazemos. Contamos as novidades uma à outra, ela diz, mais uma vez:
- Pois vocês sabem sempre tudo, por causa da Internet.
O marido foi passar o dia a Lisboa, deixei-o ir, mandei entregar beijos aos amigos com quem iria jantar mas já não vou. À tarde, fazendo por ignorar o fogo que devora o País e as janelas da casa, que mostram um dia perfeito de verão, aguardo o pdf completo do próximo número da «CRISTINA», a fim de o correr de alto a baixo, para que possa seguir para a gráfica e estar nas bancas, daqui a uns dias. O meu filho diz-me que não fuma há duas semanas e que vai começar a ir às aulas de código. Telefonou-me só para dizer isso:
- Sabia que ias gostar de saber.
Entretanto, acabo de ver a série «Narcos», da Netflix, quando finalmente capturam Pablo Escobar. Faço a última - juro, a última! - leitura do meu primeiro romance. Os cães fazem-me companhia, a Bolota dá-me a pata de vez em quando, como quem diz, Estou aqui, não te esqueças.
Gosto da minha vida. Alguma coisa devo ter feito bem, para chegar aqui. Com amor, a quem contribui para ela.
segunda-feira, 24 de julho de 2017
e-manuscrito
Uma ideia excelente e ousada. Veremos quantos autores aderem a este projecto. A coisa boa disto, é que, uma vez lido por apenas 2,99€, se um leitor gostar muito da obra pode sempre comprar o livro tradicional, que é o que fazemos, afinal, quando o mesmo acontece com um livro emprestado, ou trazido da biblioteca, certo?
quarta-feira, 19 de julho de 2017
Antes a vida
É com surpresa que me apercebo de que não escrevo aqui há mais de um mês.A vida a passar-me por cima, como onda, eu a tentar não me afogar, chegar inteira à areia quente e poder, enfim, respirar a outro ritmo. Um novo trabalho a partir de casa, com carácter regular: a nova revista «CRISTINA», de que sou agora Copy Desk, ou seja, revisora. Revista por mim, de uma ponta à outra. Orgulho-me de participar neste novo projecto. Grata por ter trabalho, para mais, a partir do meu "escritário", em casa.
Surgem convites para cantar em trio e em quinteto. Bons músicos, uma alegria e um privilégio, sempre, ainda que o mereça.
A editora envia-me as primeiras propostas de capa para a 2ª edição d' «A Ilha de
Melquisedech - Mnemon». Uma edição enriquecida com novas ilustrações e texto revisto por mim.
Dou os últimos (?) retoques no meu primeiro romance. Difícil, deixá-lo ir. Ainda não está a meu gosto, nunca estará. Mas aproxima-se o dia em que terei de escrever FIM.
Cansaço. Um cansaço bom. Antes os dias a transbordar, do que a vida vazia. Apetece o mar, ser outras pessoas, outros eus. Parar. Mas parar seria afogar-me de novo.
Surgem convites para cantar em trio e em quinteto. Bons músicos, uma alegria e um privilégio, sempre, ainda que o mereça.
Melquisedech - Mnemon». Uma edição enriquecida com novas ilustrações e texto revisto por mim.
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| fundo para a ementa do Festival da Estação Dourada |
Cansaço. Um cansaço bom. Antes os dias a transbordar, do que a vida vazia. Apetece o mar, ser outras pessoas, outros eus. Parar. Mas parar seria afogar-me de novo.
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| Outra vida, outro eu. |
sábado, 17 de junho de 2017
Fora do Mundo
O corpo escorre, a verter água por todos os poros. Procuro desesperadamente um leque. Encontro-o, enfim. Parto em busca de um segundo, juro que o tenho. Na mira, uma oferta para amanhã, à minha colega de feira, mas fico-me pela intenção, que o segundo não me aparece. Lavo um chapéu, a tirar-lhe a poeira. Não esquecer. Não esquecer de o levar comigo. Talvez até um borrifador com água. estou por tudo, o dia abrasa e amanhã Lisboa, uma vertigem de livros pelo meio da miragem, ondas de fogo a distorcer a imagem que os olhos vêem. Começo a escrever depois das sete, antes disso a cabeça não obedece, amuada com os 36º graus sobre a pele e no ar que respiro. Quer ficar de molho, a mente, em água fresca, mas o corpo desde manhã que anda para cá e para lá, teimando em não se render.
Amanhã é dia de feira, o último, e a minha primeira vez com a poesia, no lugar da ficção. Confesso-me só, pregada num título, a fingir a dor de um exílio que deveras sinto. A tarde inteira em apelos, venham, apareçam, e o desconcerto de implorar tanto, quando aos outros dou tão pouco, fechada neste paraíso tornado prisão. Fora do Mundo.
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