Mostrar mensagens com a etiqueta oficinas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta oficinas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Crónica: As palavras são trampolins

Chegaram e foram-se arrumando à volta das pequenas mesas. As folhas A4 e os lápis à sua frente. A banda sonora do Harry Potter como fundo, para criar ambiente. Apresentei-me, frisei que não estavam ali para ser avaliados mas para descontrair, desabafar, divertirem-se. Acho que acabaram por perceber :-) Perguntaram-me várias vezes se podiam isto, se podiam aquilo, e eu a explicar que podiam tudo, menos escrever palavrões. O jogo oral dos objectos foi muito engraçado e as coisas que saíam do saco pareciam mostrar-se numa ordem combinada, até ao último objeto mágico...
Aqui ficam alguns desabafos, ingredientes e ementas. Encontrei ali timidez, talento e muita imaginação. Cada leitura em voz alta teve direito a salva de palmas. Porque os aplausos fazem muita falta, não acham?

Desabafo:
«Estou farto de ti
Eu detesto a tua mente
É fixe estar aqui
Quem me dera ter um amor ardente!»

Exercício da varinha mágica do aprendiz de feiticeiro, depois da leitura da receita presente n' "A Ilha de Melquisedech", para os inspirar...
Ingredientes:
(rapazes)
2 olhos de gato
Estômago de cavalo
Gosma de mosca com picante
1 sobrancelha de ciclope
Lágrimas de escaravelho
Gordura e sangue de humano
3 fezes de mamute
5 bagas venenosas

(meninas)
1 lágrima de ciclope
3 escamas de serpente voadora
orelha de extraterrestre
1 dente de fada
4 cabelos de sereia
Rosa negra (ingrediente secreto)

"Um Chef louco fez uma louca receita"
1 olho de vidro
5 pelos de sovaco
6 meias das sereias
1 corno de touro
2 minotauros
56 unhas de pés de feiticeira - a trabalheira para contar! Mais valia a medida de uma chávena de café :-)
2 vacas
"E chamou-lhe Grafão (entre grifo e dragão)..mas o ingrediente secreto é batata frita."

Outros ingredientes e temperos:
Lixívia
Ácido
Lava
Sangue de extraterrestre
2 l de xixi de sapo
2 rabos de elefante
2 kg de bicos de pássaro
3 arrotos
10 asas de morcego
1 cabeça de águia (vitória do Benfica, sic)

Ementa:
«Lasagna de rã e cérebro de macaco com fruta enrolada em minhocas
Para a lasagna:
13 patas de rã
51 escaravelhos
250 gr de fezes de gaivota
2 unhas de dedo do pé com fungos
10 moscas enroladas em fezes de cão
Meter no forno a 180º e bon appétit»

Parabéns ao 5º C e 6º C da EB23 da Escola Professor Armando Lucena, Malveira, obrigada às Professoras Luísa Luz e Nazaré Mota, e um beijinho especial para a Dália Santos e para a Carla Rodrigues, pela simpatia e paixão com que organizam e acompanham estes encontros.
Para mais, leia aqui
A turma do 5º C

A turma do 6º C, uma boa surpresa :-)


domingo, 13 de outubro de 2013

O Outono desprendendo-se dos dedos

Na sessão de despedida do curso "O Outono na ponta dos dedos" ninguém escreveu. A manhã foi dedicada à leitura e comentários aos contos nascidos nas últimas duas semanas mas, no fim, decidimos marcar uma sessão extra, pois quem corre por gosto não deseja terminar a corrida tão cedo. A Marília trouxe um bolo-rei da Baixa lisboeta, doce de maçã caseiro e bolachinhas. Eu fiz uma fornada de biscoitos e o inevitável chá Earl grey. Conversámos muito, trabalhámos pouco, mas terminámos a sessão da melhor maneira, lendo, de forma partilhada entre todas e por feliz sugestão da Maria João, o conto "As crianças ficam", de Alice Munro, que acabou de ser galardoada com o prémio Nobel. A despedida, à porta, foi longa, uma lamechice. O dia cinzento não nos roubou o calor da alma. Bem hajam, meninas, pela entrega e por ficarem assim, renitentes, sem deixarem que o Outono se deprenda dos vossos dedos.

sábado, 28 de setembro de 2013

O Outono na ponta dos dedos

Sobre a mesa de madeira rústica um boião cheio de biscoitos, uma vela de cravo e canela a arder, e um envelope para cada uma: no interior, uma fotografia assinada pelo próprio, em jeito de oferenda pela escolha de imagem na sessão anterior. A João chegou com as suas próprias oferendas, kits com mimos para o corpo destas mulheres que somos nós, a precisar - não só de alimentar a alma com livros e textos - mas de mimosear a nossa pele.
A Rosarinho trouxe avelãs, que dispus numa tigela de barro.
Leram os seus textos, falámos sobre eles e acerca dos temas que se escondiam entrelinhas, deixando-nos perder, por instantes, em considerações sobre as nossas vidas.
Depois de uma pequena pausa para um chá com biscoitos e avelãs, saltámos para as personagens. Cada uma recebeu um rolinho com um desafio de escrita. Pareciam trocados, mas traziam malandrice, que é segredo nosso. No ar anda uma cumplicidade maior e o orgulho de uma humilde transformação, que se infiltra de sessão para sessão, a fazer crescer os textos e a libertar a ousadia.
Falámos dos filhos, do "Contracorpo" da Patrícia Reis, cujo exemplar acabei por emprestar a uma delas. Uma chuva repentina caiu copiosamente, agigantando a nossa consciência de conforto, enquanto espreitávamos, de vez em quando, as gotas escorrendo ao longo das vidraças e a gaze aquosa cobrindo o vale. Do lado poente, o arvoredo balançava, acompanhando a tempestade das palavras.
Fomos personagens falando sobre personagens. Rindo, palrando, soltando disparates. Acima de tudo, fomos mulheres.
O fim do curso aproxima-se, e sinto-me grata por adivinhar que isso as entristece. Nada mais compensador do que o sentimento de mútua entrega; de reciprocidade. Bem hajam, minhas meninas.

NOTA
Imagem: quadro de John Everett Millais (1829-1896), um dos fundadores da Irmandade Pré-Rafaelita, que fez por recuperar o estilo "Quattrocento", da arte italiana, dando atenção aos detalhes, à efusão das cores e à complexidade das composições.
Roubei a imagem aqui

sábado, 21 de setembro de 2013

Escrita a 8 mãos

Mais uma sessão matinal de escrita criativa cá em casa: Outono na ponta dos dedos. Uma manhã de sol e bastante vento, para estes lados. Recebi as minhas alunas de avental. Duas de nós meteram as mãos na massa, tendendo bolinhas para os biscoitos que foram a cozer. A Rosário trouxe amêndoas. Tive de por um pacotinho de lenços sobre a mesa. A escrita pode ser uma terapia. Talvez o seja sempre. Escondemo-nos dos outros para escrever, mas também nos revelamos ou escondemos na escrita. Vieram autores à conversa, Mia Couto, Laura Esquivel, Joanne Harrys, Romain Gary, Albert Spinoza.
A João interrompeu a realização de um exercício para retirar os tabuleiros do forno. Quando desci com as fotografias do Nanã na mão, a casa já se inundara de perfumes doces. A meio da sessão houve chá earl Grey, aromatizado com bergamota, para acompanhar os biscoitos feitos com amor, sim. 
A 2ª pessoa do singular foi rainha de quase todos os textos. 3 poemas de Russel Edson sobre a mesa, a mostrar que a poesia pode ser assim, infantil, surrealista, desconcertante.
O tempo voou como folhas secas ao vento. Obrigada por tudo, meninas escrevinhadoras.

sexta-feira, 4 de março de 2011

sábado, 29 de janeiro de 2011

Clube dos Escribas

A nossa Captain apareceu com uma caixa de bolinhos sortidos, água e cafézinhos para quem quisesse e um presente inesperado: um livrinho de encadernação artesanal com todos os nossos textos! Soltámos "Ohs!" e "Ahs", lemos os textos mais recentes, alguns que ainda não conhecíamos.
Agasalhámo-nos bem e saímos para a Praça do Saldanha, a cumprir um plano que vinha sendo adiado desde a segunda sessão, devido ao mau tempo. A P. mandou-nos sentar nos bancos da paragem de autocarro, atravessou a rua e foi colocar um dálmata de loiça, daqueles bem pirosos, perto do duque de pedra. Em tamanho real, de cachorro com 4 meses, ele ali ficou, meio desamparado, sem saber o que fazer. As pessoas olhavam para a P. e para o seu saco de cartão vazio, julgando-a louca; olhavam para nós, que observávamos o espaço e o ambiente à nossa volta e tomávamos notas. O que estaria este grupo de malucos a fazer? A praça era a de sempre, qual era a novidade?, sem perceberem que meia hora mais tarde iria transformar-se no que fizéssemos dela. Regressámos à pequena sala da 004 e à nossa clarabóia, que nos ilumina. Escrevemos e lemos para os outros o nosso texto. Como sempre, os olhares foram distintos, cada um com a sua voz.
Chegou um pastel de nata com uma vela e cantámos os parabéns à Dada, que fez anos ontem.
Logo depois a Mestra surpreendeu-nos com outro exercício: tu, Dada, vais escrever sobre o Pedro, tu Miguel, vais escrever sobre a Margarida, tu Ana, sobre a Rute, tu Vera, sobre o João, e os outros...vice-versa, claro. Foi aí que se abriram as torneiras. Uma choradeira pegada!
Houve um pequeno discurso dedicado a cada um: o que aprendemos, o que representa a nossa escrita, o que se modificou em nós. Mais lágrimas. Guardei o meu guardanapo amarelo, húmido de emoções, dentro do livrinho-surpresa. Sentimentalismos.
No fim, o concenso e o alívio: a confirmação de que continuaremos juntos aos sábados de manhã, em encontros um pouco mais espaçados. Iremos escrever mais, trabalhar mais, colaborar nos projectos de escrita de cada um.
Os dados estão lançados, os laços foram criados. E é por isso que iremos continuar a encher de palavras as nossas folhas brancas e  tornar mais sinceros os nossos dias.
Dedico este texto a todos os escribas e em especial à nossa Oh Captain, my Captain: Patrícia Reis.

domingo, 23 de janeiro de 2011

O Clube dos Escribas

Roubei este texto que me comove do blog da PATRÍCIA REIS. Tenho a honra e a sorte de pertencer a este "clube" e depois de três sessões não posso deixar de copiar o que a nossa "Mestra" escreveu a propósito da partilha de ontem:
"Releio tudo com calma e cuidado. Assinalo aqui e lembro-me da primeira sessão e da forma como na terceira nos lambuzámos de doce de abobóra que a Vera trouxe em pão ainda morno. Trocámos ideias e histórias, colocámos a imaginação ao serviço da escrita e fomos por aí, sem merdas. Sim, sem merdas. Nada de grandes teorias ou prelecções sobre pontuação. Admirar a história, a viragem da história, esquecer o padre e ver a terrorista, pensar em ser um banco de jardim ou um sem abrigo, querer apanhar o norte e só sair às quartas-feiras, ter saudades de um amigo e escrever sobre isso e sobre a morte, expôr o melhor, o que nos vai na alma. A escrita de um é de todos. Nada podia ser mais gratificante.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Workshop com Nanã Sousa Dias

ATENÇÃO: última chamada para o Workshop de Fotografia de Paisagem no dias 22 e 23 de Janeiro, perto da Ericeira.

Para mais informações, contacte através do email:
nsd.workshops@gmail.com


domingo, 16 de janeiro de 2011

Sem a letra "U"

Na 2ª sessão de Escrita Criativa com a Patrícia Reis, tivemos dez minutos para escrever a história da Lebre e da Tartaruga...sem utilizar a letra "U". Julgam que é fácil? Bom, pior seria sem a letra "A", mas mesmo assim há uma palavra que faz uma falta terrível.
Tive dois erros, sem direito a chocolate. Vejam lá se dão com eles :)

"Era a vez da história sobre a lebre e o cágado postos na linha de partida para achar o vencedor.
Esta narradora encontra-se em estado de terrível aflicção por saber-se proibida de escrever a vogal do fim das cinco vogais, tornando impossível este exercício!
Lá estão eles, a lebre e o cágado, e não passo disto. Eles na grelha de partida, sem poder arrancar, sem paciência, receando já não sair do mesmo sítio...enfim, o disparo! Lá vão os dois. O mais veloz deixa o rasto de poeira para o réptil? Anfíbio? comer, e desaparece no horizonte. O cágado, coitado, arrasta-se com vagar e avança devagar...mas avança, a defender o ditado que protege e explica a meta dos mais vagarosos.
Bem adiante, perto do maior dos chaparros, a lebre pára para coçar a orelha direita e dormir a sesta merecida. Acorda e constata que o cágado vem a chegar e, espantada, dá novos saltos e corridas, mas tropeça, cai e parte a pata direita da frente. Chorosa, deixa-se ficar, lamentando o azar que teve.
Entretanto o cágado chega e vence, na glória dos lentos!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Escrever com a Patrícia

Cheguei ao Atelier 004 dez minutos atrasada. Com estudos feitos na Escola Alemã, (que é conhecida pelo seu alto grau de exigência e rigor), a Patrícia fugiu à postura "portuga" e lia já um excerto do livro "A Fé de um Escritor", de Joyce Carol Oates. Sobre a mesa, pastas com folhas A4, canetas e lápis, água, cafezinho e bolos! O riso foi uma constante, os textos foram nascendo, com emoção à mistura. Ela a insistir: não vou ensinar-vos a escrever. Mas pôs todos a escrever e é isso que importa. Disseram-se coisas como: Somos pessoas diferentes todos os dias, Estás proibida de deitar fora o que escreves; Para a próxima sessão, trago Vodka preto!
Espreitámos a vida uns dos outros, para nos conhecermos, através das perguntas que a Patrícia ia fazendo a cada um de nós.
Serão quatro sessões apenas. Uma oficina de escrita criativa que poderá estender-se a mais sessões, tudo depende de nós e do ritmo das palavras.
Foi uma forma excelente de passar esta manhã de sábado. Regressei com um exemplar do último número da "Egoísta", dedicado à fotografia (desta vez só imagem, sem texto) e quando cheguei a casa já tinha pedidos de amizade no facebook da parte de alguns dos meus colegas de curso. O trabalho de casa ficará para amanhã. Ficou a vontade de que a semana tivesse mais sábados, para estar lá outra vez em breve, muito breve.
Obrigada, Patrícia, por me levares sempre mais longe.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Conto com eles

(dedicado aos alunos do 1º Curso de Escrita Criativa “Escrevo o meu primeiro conto”)

Considero-me uma daquelas pessoas abençoadas: pagam-me para fazer aquilo de que gosto: cantar, escrever, fazer leituras atentas, dar oficinas de Escrita Criativa.
Na 1ª sessão do curso “Escrevo o meu primeiro conto”, enfrentei, com um nervoso miudinho de que só eu tinha consciência, um grupo de estranhos que esperava de mim a segurança e a experiência de quem ensina algo a alguém. Não as podia ter: era a primeira vez que ia tentar transmitir, em doze horas apenas, o que tenho aprendido nos últimos oito anos sobre a escrita de contos, o que os caracteriza, o percurso desse género literário, as ferramentas de que dispomos, os vícios de que nos devemos livrar, as leituras que não podemos dispensar, como nos organizarmos, onde buscar as ideias, a inspiração, a vontade, o rigor, enfim, uma missão de grande responsabilidade. Na 3ª sessão, já havia esquecido os meus fantasmas. Esta gente misturada – diversa como uma caixa de bolinhos sortidos – fez com que me arrependesse de não ter partido para tais oficinas mais cedo. Talvez este seja o tempo de acontecer. Talvez tudo tenha um tempo certo. Muito mais do que seis sessões com um grupo heterogéneo de pessoas sem nada melhor para fazer às 6ªas feiras, senti um entusiasmo crescente da parte dos “meus alunos”, que me ensinaram tanto. Todos nos rimos com as tiradas da D. Helena, perdoámos as longas intervenções apaixonadas da Maria Henriqueta, nos enternecemos e deslumbrámos com os belos textos do Mário, sorrimos com o “conto secreto” da Ana, nos “miacoutámos” durante várias horas, inventando neologismos, reproduzindo a doçura do escritor moçambicano, homenageámos Saramago cuja morte nos surpreendeu horas antes duma das sessões, partilhámos intimidades, trocámos contactos e muita correspondência virtual. Tudo isso transformou estes encontros numa experiência ímpar, irrepetível. Sei que o final do curso não foi um fim, mas um começo. Ouvi confidências e desabafos que me fizeram um bem imenso à alma, acolhi o apoio e o entusiasmo que manifestaram face ao que eu própria escrevo, senti-me útil por ajudar, ensinar, confortar e dar conselhos. As expectativas transbordaram generosamente da minha taça. Na despedida, saí com um ramo de rosas, sete, o número mágico e simbólico, que para mim representou também 6+1 = ao número de sessões + a vontade de estar novamente convosco.
Terminado o curso, faremos o que qualquer português que se preze sabe fazer como ninguém: estar horas à mesa a conversar, comer, beber, rir, cantar, declamar ou fazer discursos. Excepção feita e convite extensível à Carmen Cóbar que, sendo guatemalteca, teve a coragem de escrever em português. Uns mais tímidos, outros mais arrojados; uns mais inseguros, outros mais convictos; uns, amantes de prosa, outros de poesia; mas todos unidos pelo amor à literatura e aos livros, que, por entre letras e palavras, linhas e páginas, vão reunindo um punhado de boa gente que se vai Contando em cada Conto, e encantando quem se deixa Encantar.
CONTO CONVOSCO, queridos alunos (perceberam o trocadilho? Ferramenta preciosa para um escritor: saber jogar com as palavras, não se esqueçam! CONFIEM NAS PALAVRAS! Explorem e saboreiem o seu imenso valor).
Votos de boas leituras para todos e, sobretudo… de BOA ESCRITA!
Estou por aqui, sempre que precisarem de mim.

sábado, 3 de julho de 2010

A despedida


FOI UMA EXPERIÊNCIA GRATA E FELIZ. OBRIGADA A TODOS.
Amanhã escrevei um texto dedicado aos nossos encontros, pois ontem duas alunas desencaminharam-me e cheguei a casa as 3h da manhã...e acordei às 7.30 para a minha 2ª aula de desenho.
Não há condições...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Crónica: Cursando sobre contos 1

Exercício com tema à escolha: eles fizeram-no na aula e eu também, por simples e boa solidariedade. Todos escrevemos. Escolhi o tema "A personificação de um objecto que trazem convosco"...e saíu isto.

TEMPO

O meu telemóvel, pousado à minha direita, na mesa, parecia puxar-me a manga do casaco a lembrar-me, impiedosamente, o passar do tempo. Tanto que eu o cronometrara, em casa, ao tempo, essa substância inventada pelo Homem, uma bússola apenas útil. Uma bússola que nos prende e atrofia, condicionados que nos tornámos por segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos.  Presos a um artifício. Ali estava ele, impávido e poderoso, tentando intimidar-me no seu andamento constante. Superior a mim, que não tinha como avançar, só por ser muito senhora da minha vontade, julgava eu. E ele com tanto. Tanto tempo cheio. Ele, o telemóvel, dono do tempo, impositivo, arrogante. Eu à sua mercê. Trocou-me as voltas: atirou-me para o lado oposto do tempo vazio, que sobrava, para o tempo que me faltou.
Vitoriosa fiquei eu, pois sabia algo que ele desconhecia. Fizera-me um favor. O favor de passar, impiedosamente. Com certo desprezo, digo-lhe que o tempo não existe. O que ficou, foi tudo o que queria dizer. As palavras sobraram na boca dos participantes, que inventaram tempo para aqui estar e que tanto tinham a dizer.
Assim ele passou a correr, assustado com o nosso entusiasmo, comendo os minutos à pressa, devorando pedaços de si próprio, como se roesse as unhas.  
Ao vê-lo, fugindo, ainda exclamei, triunfante, bem alto, para que o meu aparelho moderno escutasse:
- Estás a ver? Foge, cobarde sem vergonha! Não precisamos de ti! Que os donos do tempo que não existe... somos nós!
(1ª sessão, 28 Maio 2010, Ericeira)


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Curso de Escrita Criativa

Estão abertas as inscrições para o curso breve de Escrita Criativa "ESCREVO O MEU PRIMEIRO CONTO", que irei dar todas as 6ªas feiras, a partir de 28 de Maio, até 2 de Julho, entre as 19.00 e as 21.00, na Biblioteca Municipal da Ericeira. É vocacionado para escritores adultos amadores, com uma vertente teórica e outra prática.
Número limite de inscrições: 20
Entrada gratuita, mediante inscrição prévia, com o apoio da Câmara Municipal de Mafra.
Inscrições e informações: 261 860 553
biblioteca.ericeira@cm-mafra.pt

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A imagem para o cartaz

Esta imagem inédita, feita hoje de manhã no estúdio da nossa casa, nasceu como nasce a escrita de um texto original: feita com objectos que vamos coleccionando ao longo da vida, no cruzamento de famílias, amigos, lugares, gestos, hábitos. Recebi um telefonema da biblioteca, dizendo que precisavam de uma imagem para mandar fazer os cartazes de promoção do curso breve de Escrita Criativa, que irei dar entre Maio e Julho, com o nome "Escrevo o meu primeiro conto".
O pano onde assentam os artigos - tecido oferecido pela Rita Guerra, ao qual ainda não dei destino, e que irá transformar-se um dia num vestido, numa túnica, numa écharpe;
A caneta - oferecida pela minha irmã Sofia e o meu cunhado, da "gift-shop" que tiveram em Reguengos de Monsaraz;
A chávena de café - do velho serviço checo, que eu adoro, oferecido pela minha mãe, e que faz sempre vista no final de um jantar, pois cada chávena tem a sua cor e lembra o mundo das Mil e Uma Noites;
O relógio e a vela redonda em tom pérola - vieram da casa da Usseira, oferecidos pela Patrícia Reis;
A vela quadrada, vermelha - com cheiro de frutos silvestres, foi a lembrança do Miguel Soares, no último Natal, que reuniu o grupo de Islantilla;
O anjo, que espreita - herança da tia Nêta, da casa de Torres Vedras;
A pequena taça, em Christofle - oferta de Mário Assis Ferreira, no Natal, vinda do espólio do Hotel Estoril-Sol.
Caneta verde - escondida entre a vela quadrada e a chávena de café, a caneta feita de bagas de vidro, como uvas moscatel, herdada da minha querida avó Mimi.
Daqui a pouco, esta imagem estará espalhada por Mafra, a promover o meu primeiro curso. O fundo negro foi deixado para o texto.
Faltou-me a mão experiente da minha cunhada Meluxa, que teria feito esta esforçada composição muitíssimo melhor do que eu...
Obrigada, Nanã, por desceres ao estúdio para esta sessão, logo a começar o dia.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

"Nunca mais é férias!"

Hoje penso ter dado a última oficina de Escrita Criativa deste ano lectivo. Não sou professora e apenas me encontro com alunos para umas poucas sessões, em que o tempo parece correr mais depressa, com a ajuda de jogos e da fuga à rotina das aulas. Na verdade, comparativamente ao trabalho muitas vezes ingrato de um professor, encontro-me numa situação privilegiada. Costumo dizer-lhes: não me tratem por "stora", mas sim por Vera, não estou aqui para ensinar gramática, dar notas ou corrigir erros de ortografia, mas sim para que aprendam algo de novo, enquanto se divertem!

Num dos jogos que faço, intitulado "Vamos desabafar", incito-os para que escrevam uma ou duas quadras sinceras, começando por "Eu detesto...", "Estou farto...", "Quem me dera..." e a verdade é que estão todos fartos da escola: as mochilas pesam mais, a cadeira tenta expulsá-los do assento, o sol, prestes a anunciar o Verão, chama-os com malícia, e o canto das aves parece ser uma espécie de cúmplice, nesse jogo. Os lápis estão pequeninos, de tanto serem afiados, e já que estamos quase no final do ano, não vale a pena comprar outros; as canetas, obrigadas a escrever mais uma redacção, já não têm nada para dizer, nas mãos dos seus donos; a campainha da escola, de tanto tocar, soa dissonante, rouca, irritante aos ouvidos dos alunos; como soldados, eles saltam de cadeira em cadeira, enquanto os professores, numa corrida contra o tempo, tentam cumprir o programa nos poucos dias que lhes restam.

Depois do aquecimento e de puxar o lustro às primeiras palavras, volto a desafiá-los para que escrevam um pequeno poema, sem medo: e o curioso é que, de entre todos os temas que sugiro, o cenário eleito é, sem dúvida, a praia: conchas, sol, mar, verão, maré, ondas, gaivotas, voar, areia, gelado, rouxinol, férias, bicicleta, bola, peixes, algas... e os verbos a servir os sonhos: brincar, nadar, sonhar, parar, jogar, saltar, viajar...

Deixo-vos com dois poemas de alunos do 6º ano, que espero não levem a mal o meu atrevimento.


"É bom quando estou a ver o mar
Faz-me sentir tranquila e relaxar
Estar de férias, tempo para brincar
É uma altura em que me faz relembrar

Quem me dera poder voar
Sentir que estou no ar
Lá irei cantar
Até não aguentar

Eu gosto dos meus amigos
Com eles não corro perigos.
Amigos verdadeiros
São os mais porreiros”
(Débora Gomes)




“Natureza:

As flores são bonitas,
São alegres e coloridas
Mas chega a poluição
E apanha-as desprevenidas

O vento desconhecido
Vagueia pelo mar
Dos mais escondidos recantos
Até um simples glaciar

A chuva cai
E o chão fica molhado
A vida cresce
Cresce por todo lado

O sol brilha no ar
Sempre quente
Sempre a rir
Sempre a sonhar”
(Fábio)



AQUI FICA O MEU CARINHO E PERDOEM-ME TER-VOS OBRIGADO A ESCREVER TANTO. AINDA BEM QUE ESCREVERAM!