Mostrar mensagens com a etiqueta Celebrações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Celebrações. Mostrar todas as mensagens

domingo, 1 de março de 2020

branco-pérola



Este pequeno texto não tem grande pretensão literária, pois assim anda o meu espírito nos últimos meses. Não estou preocupada. Culpa zero, ao contrário do que é em mim habitual. Como um cão vadio que salta o muro e sempre regressa a casa, para junto dos donos, assim anda a minha veia. E se não voltar, adoeceu de vez, apanhada por um vírus qualquer, foi atropelada ou alguém a levou, pouco importa. Escrever sempre foi uma necessidade. O que fazer quando não a sentimos, senão deixar de escrever? Poderiam apontar-me o paradoxo, enquanto me lêem, mas não me refiro a estas pequenas confissões, falo do resto, dar andamento ao que me aguarda. Os livros terão de esperar. Ao contrário do meu amor pelos cães, ando neste estranho desapego.
Continuo especialmente dedicada à casa e à jardinagem, mal pego num livro, muito menos na pena e não tenho pena alguma.
Para celebrar o aniversário deste blogue empoeirado, venho partilhar convosco um presente que recebi em Fevereiro. A maior parte das pessoas verá nas imagens apenas um automóvel. Um carro fofo, vá, bem ao gosto vintage. Sobretudo para as senhoras. O carro é um mimo, não se resiste. Para mais com tecto panorâmico e em tom pérola.
Acontece que eu não conduzia há quase quatro anos. Dependia por inteiro de terceiros para sair de casa sobre rodas, sendo que vivo num lugar bucólico, é certo, mas bem isolado.
Enfim recuperei a minha liberdade e tenho agora o melhor dos dois mundos. Embora com limitações devido aos problemas de visão, posso pegar em mim e no meu "paneleirinho", como lhe chama o meu marido com carinho, e livrá-lo da rota dos supermercados, da engomadoria e da farmácia; posso mandar fazer bainhas numas calças, pôr um fecho-éclair num casaco e despachar todas essas tarefas domésticas, que nada possuem de criativo mas que têm de ser feitas. E também posso ir aos viveiros comprar terra e adubos, vasos, plantas, flores e sementes, ir ao café, ver montras, passear pelas ruas, almoçar com amigas ou simplesmente percorrer os poucos quilómetros que me separaram do mar, só para lhe dizer bom-dia, ouvir a rebentação, pôr os pés na areia...
E tudo ao meu ritmo, como se fosse dona do tempo.
A Primavera está a chegar e os meus dias já começaram a florescer.
Estou tão feliz com o meu novo amigo. Nunca pensei abraçar um carro, mas foi o que fiz, quando me trouxe de regresso a casa, pela primeira vez. É bom poder ir e voltar. E Ficar é um verbo que tem agora todo um outro significado. Escolher, como verbo Auxiliar. Amanhã vou vadiar um bocadinho também. Pode ser que, pelo caminho, me cruze com a minha veia.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Jacob, who else?

Não conheço ninguém que celebre a vida com tanta alegria como este miúdo. O talento e o estilo inconfundíveis de Jacob Collier.
.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Saudade

O dia de hoje tem um sabor ambíguo. A minha Mãe, que nos deixou há seis meses, faria hoje 85 anos. Fiquei com o nome dela: “Não me lembrava de nenhum em especial e sempre gostei do meu”, justificou-se um dia à terceira filha, a mais nova de cinco filhos num plano de quatro. Troquei-lhe as voltas. O cordão umbilical também, duas voltas ao pescoço, já a revelar a minha falta de jeito e total ausência de sentido de orientação no mundo que, encolhendo os ombros, lá me acolheu. Completa-se também um ano da publicação deste meu romance, o primeiro. Chamei-lhe «Entre Mulheres» pelo facto de o protagonista ter, na sua órbita, um conjunto delas, que deixaram a sua marca: avós, criadas e empregadas externas, mulher, mãe, filha, cunhada, namorada e outras tantas, que vão compondo o manto das suas memórias e planos, por vezes tecidos à margem da sua percepção e ingenuidade. Enquanto reescrevia esta história, apercebi-me de que uma força interior me obrigava a incluir muitas das memórias da minha própria mãe, reflectidas na Maria José Munro, mãe do protagonista. Mal sabia eu que três meses depois do lançamento iríamos receber a notícia da sua doença e que, outros três meses mais tarde, estaríamos a chorá-la. A herança que nos deixou foi imensa, daquela que não se pode entregar numa loja de penhores e a que poderemos sempre recorrer em silêncio, na hora de perguntar: O que faria a minha mãe? O que diria, nesta situação? As saudades são incalculáveis, um sentimento com que vamos aprendendo a viver. E a diluir. Nem que seja escrevendo. Um beijo até si, Mãe.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Gastão

Mal se encontram palavras para explicar a tristeza de perder um amigo de 4 patas. As fotografias - alguns dos inúmeros momentos captados ao longo destes 10 anos, na sua companhia -, foram tiradas pelo dono, meu marido, e por mim. A música é um tema original composto pelo próprio (dono), há 2 anos: Passo de Gastão: a linha do baixo a lembrar os passos pesados e bamboleantes deste cãozarrão incrível, que por vezes lembrava um pequeno urso, outras um belo lobo de orelhas arrumadas em baixo. Ficam as memórias. Mas a tristeza de o seu tempo ter chegado ao fim é imensa. Pela casa, em cada canto, nos gestos da nossa rotina, está a força da sua  ausência. Este novo e estranho silêncio, a que teremos de nos habituar. Hoje o carteiro passou e fez falta, a imponência da tua indignação, Gastãozola, o teu corpanzil a correr de um lado ao outro da casa, a ralhar com aquele homem atrevido, que regularmente aqui passa de mota, grande parte das vezes para deixar contas e recados oficiais antipáticos; tinhas toda a razão, pois tão raro é hoje em dia chegar pelo correio algo gentil para a alma, como cartas manuscritas, um postal, um presente, um livro. Guardavas a nossa casa, uma sentinela atenta, mas pousavas a cabeçorra sobre a mesa de jantar ou nas nossas pernas, a pedir 'pãozinho', a palavra mágica. A 'manita di plata', a namorar o petisco. Os olhos castanhos enormes, para cá e para lá, a explicar: 'é aquilo ali que eu quero, ali, ó'. Uivavas sentado no cimo das escadas do terraço, só porque sim, e eu chamava-te 'cãotor'. Uivavas em casa quando o dono começava a estudar saxofone, para te juntares em dueto, às primeiras notas. Além da mania de sacar guardanapos, que mastigavas e comias, gostavas de roubar o nosso chinelo do pé ou ir apanhar o sapato mais à mão, para mostrar que estavas contente por nos ver de manhã ou por entrar em casa - ninguém te ensinou esse truque, era uma arte só tua. Nos anos vividos em todo o teu esplendor, entravas em casa a atirar com a porta, para desatar a correr escada- acima-escada-abaixo, a contornar os móveis como podias, e lá vou eu outra vez galgando degraus e reaparecendo para nova corrida, alegria pura de viver. Adormecias naquela posição como que de corpo desarticulado, uma espécie de coreografia do Lago dos Cisnes, e fazias-nos sorrir e enternecer quando, à nossa passagem, esticavas a patorra para nos deter ou pedir festas e massagens. Quando fazias asneira, de pouco ou nada servia ralhar contigo: a personalidade era muita em ti, parente de lobo; olhavas impávido, como quem explica, 'roubei porque te distraíste, não tenho culpa'. Um dia foram 3 farinheiras de uma feijoada; noutro, um pedaço de queijo da serra. Como larápio tinhas bom gosto, é preciso admitir. Pela casa novelos do teu casaco em constante renovação, com o passar das estações. Vou varrendo a casa e despedindo-me de ti. Por muito tempo ainda darás um ar de tua graça em recantos mais escondidos, em mantas de lã, nas nossas peúgas e camisolas, em todas as peças de roupa. Um serra da estrela de pêlo comprido: um compromisso e uma batalha perdida. E agora olha, vou perdendo os vestígios de ti, a cada dia. As memórias agarro, essas não me fogem. 
Eras bonito e elegante, com o teu 'casa-cão', assustador para os intrusos e meigo com os amigos da casa. Perfeito, portanto. 
 Adeus, querido Gastão. Obrigada pelos anos que nos deste.
Música e execução: Nanã Sousa Dias

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Prémio Camões

Ao contrário da minha reação quanto ao Nobel dado a Bob Dylan, em 2016, fico feliz com o Prémio Camões atribuído a Chico Buarque. Este sim, tem feito muito pela língua e literatura lusófona. Considerando a sua vasta obra poética e de prosa, a mestria nos jogos de palavras, no efeito poético, no poder narrativo, na riqueza de vocabulário, sensibilidade, enfim, tanto haveria a dizer sobre a sua escrita, é mais que merecido. Muitos parabéns, Chico!

sexta-feira, 1 de março de 2019

10 anos

Querido blogue,

Ironicamente, já que vocês são uma espécie de concorrentes, fica sabendo que foi o facebook a lembrar-me de que hoje completas 10 anos. Deves estar ofendido comigo e não te censuro. Nem sempre te dei atenção. Não veio qualquer mal ao mundo por causa disso, tens de admitir. No princípio, obrigava-me a escrever diariamente - numa primeira tentativa de nomear-te, com a presunção de ser dona do meu ânimo, escolhi a designação nulla die sine linea, mas depressa me avisaram de que o nome já existia...claro. Se não escrevesse, ao menos não deixar de partilhar algo que valesse a pena, um filme, um ilustrador, uma canção, um fotógrafo, um poema, uma entrevista, um livro... Pequenas narrativas ou prosas minhas originais, nascidas em ti, foram surripiadas, transformadas em verso, para serem publicados no Fora do Mundo (Poética Edições, 2014). Não te zangaste. Contigo partilhei também, em 1ª mão, as minhas Filosofices, uma brincadeira pueril quanto à fonética  das palavras, desafios da imaginação, um toque de humor e loucura. Em certos momentos da vida, ao longo da última década, mal me lembrei de que existias. Votei-te ao desprezo, traí-te, abandonei-te à fome, o corpo tão magro e miserável, coitado. Ainda assim, moribundo, resististe.  Sobram-te uma dúzia de leitores que, sem conta no facebook, ainda te visitam. Espreitam e estranham o meu silêncio, "Não tens lá ido", como quem faz uma censura velada, com carinho, a quem se recusa a visitar um velho parente. Dez anos, para um blogue, é muito. Como eu, envelheceste. Perdeste paixão, vigor, elasticidade; andas de articulações doridas, angustiado com o teu futuro, sofrendo de uma insistente falta de vontade. Não sei como este fundo, a tua pele, não passou ainda a rosa-velho, sinceramente. Anyway, como diriam os americanos, olha, não prometo cuidar melhor de ti de hoje em diante, tu sabes que entre nós não há dessas coisas, há franqueza e verdade. Se tiver alguma coisa para te dizer, digo. Já bastam os filtros enganadores que se usam por aí, de alegria, o corpo em paraísos privados, dias glamorosos, relações perfeitas, a mascarar a tristeza, a solidão e a incerteza com fotografias que mentem, como os advérbios de modo. Contigo, não. És um bom ouvinte, sabes ficar calado, à espera que passe o monólogo da minha indiferença. E nisto, olha, passaram dez anos. Ando muito apagada, tu sabes. Preciso de recuperar a minha luz, mas é um processo de cura que só eu posso fazer. Tem paciência. E já agora, parabéns. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Maria


Hoje, no Dia Nacional do Mar, deixo-vos com um poema que o protagonista do meu novo romance escreveu, na varanda da sua casa, enquanto pensava em Maria, uma bela mulher, muito ligada ao mar.
(Para ler com uma valsa)
Maria
Ao mar iria,
Mas o mar ia mareá-la.
Sem ti,
Ela sentiria
Um lamento que vem agitá-la.
No rosto grita a lágrimas
Secá-la, ela recusa.
Quer o sal que a enviúva
Salvador do seu desgosto.
Por ela chama o pescador
Ao ver as ondas de uma mulher,
A brisa leva-lhe os desejos
E a veste em espuma de beira-mar.
Pesca a dor nas tuas mágoas
E emudece a saudade vã;
Que só a idade do teu ofício,
Enredada em sacrifício,
Em mãos vazias sabes calar.
(in «Entre mulheres - diário de um lisboeta», pp.200-201, Poética edições, 2018)


terça-feira, 23 de outubro de 2018

Bibliotecas municipais

Por mais anos que decorram desde que foi criada a rede de bibliotecas municipais, não deixo de me espantar com os luxos que oferece. É verdade, luxos. Porque se há muita gente que não pode comprar todos os livros que deseja ler ou possuir, é também um imenso privilégio ouvir falar pela primeira vez de um certo autor, ficar interessada em duas ou três obras suas e, de imediato, poder requisitá-lo numa biblioteca perto de casa. Neste caso, "O Filho do Desconhecido", de Alan Hollinghurst, tradução da maravilhosa Tânia Ganho, Dom Quixote, 2011, 1ª edição, 683 pp. Segundo a minha querida amiga Patrícia Reis, uma outra obra do mesmo autor merecia uma busca: "A Linha da Beleza": a biblioteca do meu modesto concelho também o tem.
Poucos minutos após ter enviado e-mail com a requisição, obtenho a resposta da Teresa Rodrigues, responsável pela biblioteca de Mafra (sede), com a qual tenho as mais amistosas relações:

"Olá Vera, espero que esteja tudo bem.

O livro que pediu está disponível, mas é da biblioteca da Póvoa da Galega, já o pedi para vir para Mafra, quando chegar, aviso.
Bjinhos"

Caímos no erro de baixar as expectativas, fazendo esgares à forma como o nosso País (não) funciona, mas depois temos coisas destas: um livro de Alan Hollinghurst existe na Biblioteca Municipal da Póvoa da Galega e é entregue na nossa biblioteca habitual, sendo que avisam para o telemóvel, da sua chegada. O único contra: uma vez que se trata de um empréstimo, não é possível manuseá-lo como se fosse nosso, rabiscá-lo, sublinhá-lo, tal como aconteceria com o exemplar de um familiar ou de um amigo. Não se pode ter tudo por pouco dinheiro. Pouco...? Nenhum! É, ou não, um imenso luxo?
Recado à editora (a todas, aliás, à excepção da Sibila, de Inês Pedrosa, que acarinha os tradutores): na capa devia constar o nome de quem traduziu a obra. Na capa, sim. Não apenas no frontispício. E já agora, pagar uma percentagem dos direitos de autor (não retirados aos direitos do próprio autor, é evidente).
Afinal, uma boa tradução pode salvar um livro ou matá-lo.
O José Fanha, que já baptizou umas quantas, tem toda a razão: queridas bibliotecas.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Entre Mulheres

NAS LIVRARIAS A PARTIR DE 25 DE JULHO
Sinopse do romance:
Percorrendo um espelho de memórias, que parte das ruas de Lisboa e se ramifica na infância, nas conjecturas e dilemas, numa sofrível determinação, na incerteza e nostalgia de um homem a sós, o leitor vai descobrindo o seu próprio reflexo. A reinvenção dos laços familiares quebrados, a sua justiça ou merecimento, dificilmente serão previsíveis ou consentidos. O projecto da escrita, devorado com absurdo idealismo, vai simbolizando a metamorfose a que assistimos página a página, impulsionada pela descoberta da leitura e o erotismo de alguns encontros. Neste romance, as mulheres que flutuam na esfera de emoções do protagonista – filho, marido, irmão, pai e amante –, constituem o pilar da sua salvação. Apesar de tudo. Ou não fosse a vida.
A capa: 
Pretendia para este livro uma capa quente, que remetesse para algo sensual, embora não se trate de um romance erótico, nem nada que se pareça. Assim que decidi publicá-lo, passei os olhos pelas fotografias fine Art do meu marido, Nanã Sousa Dias, no site americano photo.net, onde ele tem quase seiscentas fotografias e, assim que me cruzei de novo com esta, a preto e branco no original, imaginei o que poderia fazer com ela: "virada a chocolate, dedicado à Antónia (personagem) e cortada, de modo a enquadrar-se no formato de livro". O designer da poética edições compreendeu bem a minha ideia, o atelier 004 deu uma pequena ajuda na fonte de letra, a minha querida editora Virgínia do Carmo teve todas as atenções para com os pormenores, fez os últimos ajustes e eis que a capa surgiu, a partir desta fotografia...

© Nanã Sousa Dias, United Tones of Black & White #7

quinta-feira, 1 de março de 2018

9 Anos

Hoje é o nono aniversário deste blogue, criado num tempo em que as redes sociais não tinham o peso de hoje. As mesmas vieram roubar, de ano para ano, muitas das nossas horas. Ainda assim, há quem teime em manter uma fidelidade exclusiva a estes recantos mais íntimos. Para não perderem a corrida, os bloggers criaram páginas oficiais ou passaram a partilhar os conteúdos no Facebook acabando, até, por aumentar o número de leitores. E se este blogue não teve ainda mais visitantes, foi apenas porque, devido aos novos hábitos que todos desenvolvemos, em especial com a rede social de Mark Zuckerberg, muitas vezes foi passado para segundo plano por esta autora que vos escreve, cujos conteúdos foram publicados diretamene no Facebook
O caminho faz-se caminhando? Nem sempre. Também é feito aos tropeços, aos saltos, até ao pé coxinho. Especializei-me nesta modalidade, ainda que raramente salte descalça como fazia na meninice, ao jogar à macaca. Por que será que deixámos de fazer macaquices e nos levamos tão a sério?
Agradeço a todos os que marcam presença nesta casa virtual, dos mais antigos aos mais recentes. Custa acreditar que, numa dimensão modesta, o blogue está a chegar às 150 mil visitas. Bem hajam, por estarem desse lado. 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Gota a gota

Entregar o número da revista de Dezembro e começar, desde logo, a receber material para o número de Janeiro oferece-me um consolo e um amparo só entendidos por aqueles que, tal como eu, andaram muitos anos na esperança de encontrar trabalho de semana em semana, de mês em mês, como quem procura moedas perdidas nos bolsos, nas gavetas, sob os escombros das suas duvidosas opções de vida, escolhas menos certas, que os levam ao engano da fantasia que jamais se cumpre. De vez em quando, um balão de oxigénio, para de novo tombar no deserto. Outras vezes, um aguaceiro, chuvas caindo de repente, com abundância, a tornar quase impossível a gestão do tempo. E agora isto, a bênção de um trabalho em água corrente - ainda que em fina torrente -, um alívio, poder cumpri-lo a partir do meu "escritário", o mundo virtual a fazer a magia de anular o tempo e a distância. Dia a dia, gota a gota, um ofício que posso desempenhar por bons anos ainda, com a saúde que me resta.
É no mínimo irónico alguém ter como novo ofício a Revisão, depois de perder a visão de um dos olhos. Lembra-me um homem de uma perna só, empregado numa fábrica de próteses, um surdo numa academia de música, um maneta malabarista. É preciso sabermos brincar, não é? Rir do que não tem graça. Para que passe a ter. E, em especial, não esquecer a gratidão. Essa tenho de sobra, para com os anjos, como a chuva matando a fome da terra.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Salvação


Resultado de imagem para a um deusdesconhecido livros do brasil

Um Deus Desconhecido escutou as minhas preces de ontem, que eram sem fé. Pousou-me na areia, no dia seguinte, para que eu pudesse recordar a rebentação das ondas, o aroma das algas, os reflexos infinitos de sol no mar, debaixo do corpo uma toalha verde-água, nas mãos o livro de Steinbeck, ao meu lado o homem que partilha a minha vida, quando ambos nos cruzamos no mesmo universo de vontades, no mesmo tempo, no mesmo lugar.
Um fim de tarde perfeito, quando o vento já arrepiava a pele: ameijoas à Bulhão Pato e um vinho branco alentejano, na companhia de amigos que, em boa hora, encontrámos, antes de entrar na marisqueira cujos donos tratamos por "tu", apesar de o ritmo de visitas e de consumo ficar muito aquém daquele que seria desejado.
Há dias que são uma espécie de salvação, por mais modestos. Um passo atrás no precipício de uma não-vida.
Hoje vivi.  

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Vida

Depois de um serão divertido, entre amigas, saltitando de casa em casa, na Ericeira, comendo e bebendo, mais bebendo que comendo, retomo o trabalho de manhã, ainda a reunir as partículas.
A minha mãe faz 83 anos. Falámos um bom bocado ao telefone, como tantas vezes fazemos. Contamos as novidades uma à outra, ela diz, mais uma vez:
- Pois vocês sabem sempre tudo, por causa da Internet.
O marido foi passar o dia a Lisboa, deixei-o ir, mandei entregar beijos aos amigos com quem iria jantar mas já não vou. À tarde, fazendo por ignorar o fogo que devora o País e as janelas da casa, que mostram um dia perfeito de verão, aguardo o pdf completo do próximo número da «CRISTINA», a fim de o correr de alto a baixo, para que possa seguir para a gráfica e estar nas bancas, daqui a uns dias.
O meu filho diz-me que não fuma há duas semanas e que vai começar a ir às aulas de código. Telefonou-me só para dizer isso:
- Sabia que ias gostar de saber.
Entretanto, acabo de ver a série «Narcos», da Netflix, quando finalmente capturam Pablo Escobar. Faço a última - juro, a última! - leitura do meu primeiro romance. Os cães fazem-me companhia, a Bolota dá-me a pata de vez em quando, como quem diz, Estou aqui, não te esqueças.
Gosto da minha vida. Alguma coisa devo ter feito bem, para chegar aqui. Com amor, a quem contribui para ela.

domingo, 14 de maio de 2017

Se um dia

Esta noite sonhei que milhões de portugueses se mantinham colados às televisões do mundo inteiro, aonde quer que vivesse um português, mas não era para ver futebol. Nem desastres. Nem eleições. Sonhei que andavam há semanas, imagine-se!, dançando ao som da mesma valsa ad libitum, enamorados por uma voz, o condão de ser pura em cada verso, cantando por todos nós, salvando-nos, como se os corações do mundo se fossem quebrar em dois, a qualquer instante, transformados em cristal, a respiração em suspenso, o braço dado - Só mais uma volta, não caias, salva-nos! -, rogando-lhe que entregasse todas as palavras aninhadas assim, na ternura das cordas, e num piano conduzindo a melodia de veludo que ninguém consegue abandonar. As salvas de palmas e os votos, neste meu sonho, foram para aquela que era a poesia cantando o amor, e o país inteiro, a Europa e o mundo, todos se rendiam, no meu sonho, à súplica de um mendigo com voz de frágil pássaro, flautista de Hämelin seduzindo e levando consigo todos aqueles capazes de amar pelos dois.
E ainda não tinha acordado, eu, quando a valsa dos irmãos, que todos unia numa prece sem Deus, avançava e subia até à dimensão da esperança, infiltrando-se, camada por camada, na pele de quem por ela se deixava adormecer, para sonhar também. E uma voz dentro de mim dizia:
-  Seria tão bom, tão bom que um dia fosse possível, a um poema simples, inteiro, sem demasias, vencer...! Ser escutado com o coração e a mente, deixando para trás o fogo de artifício, ganhando a todos, até aos de valor, a dar peso à nossa conquista...!
Na lenda que o meu sonho ia tecendo, a feiticeira criadora nunca deixava cair o duende da floresta, imerso no seu cântico enfeitiçado:
- "Cuida das palavras, meu irmão, não te distraias, não te percas no caminho, repara que despertámos as pedras e encantámos as fadas, vamos embalar o seu espanto e mostrar que é possível dizer tudo na penumbra de um beijo".
Foi então que acordei. As nossas pessoas, milhões de gente, de muitas línguas, ainda traziam os lenços e os olhos molhados, o vinho e o champanhe nos copos, as vozes roucas e o coração cheio. À luz lilás do amanhecer, pequenas gotas de orvalho eram resquícios da festa. No ar o cheiro morno da felicidade.
Despertei e fui dar de frente com um sonho acontecido.
Se um dia alguém perguntar por nós, digam que nos fomos salvar.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Adeus, Luísa

ASAS - de Maria Luísa Baptista
É no teu corpo que invento
Asas para o sofrimento
Que escorre do meu cansaço.
Só quem ama tem razão
Para entender a emoção
Que me dás no teu abraço.
Eu quero lançar raízes
E viver dias felizes
Na outra margem da vida.
Solta os cabelos ao vento,
Muda em riso esse lamento,
Apressemos a partida.
Aceita o meu desafio,
Embarca neste navio,
Rumo ao sonho e ao futuro.
Corta comigo as amarras
Que nos prendem como garras
A um passado tão duro.
Esquece o tempo e a dor,
Pensa só no nosso amor,
Vem, dá-me a tua mão.
Sobe comigo a encosta,
Porque quando a gente gosta
Ninguém cala o coração.
Despedimo-nos hoje da nossa querida amiga Maria Luísa, que gostava de escrever versos para fado, muitos dos quais ficaram muito bem entregues na voz da Katia Guerreiro, com quem tinha uma relação maternal e de grande amizade. Nunca esquecerei esse momento, a Katia junto do caixão, cantando Asas, mais uma vez, com uma voz que lhe nascia da dor. Adeus, querida Luísa. Um abraço forte ao nosso amigo João.

domingo, 11 de setembro de 2016

Qualidade devida



Já lá vão 15 anos sobre um dia muito triste da história mundial e eu aqui, num dos recantos mais pacíficos do planeta, a viver um dia bom, com paz de sobra, que de bom grado cederia a quem precisa, uma fatia ou duas e ainda sobrava. 
A companhia dos cães, dos pássaros, das árvores, num dia que amanheceu cinzento e que abriu, a revelar-nos o azul que é seu, até anoitecer. 


Atravessei o pequeno pinhal até à casa dos vizinhos, que me ajudaram a concluir o presente para os 90 anos de idade da minha avó, segunda mulher do meu avô; depois de muito riso, muitos carinhos em dois dos quatro cães que estão sempre junto de nós, descemos ao pomar, à caça de figos maduros. 

Regresso com um envelope A4 e uma cesta de figos, além de um par de maçãs e de frascos com doce caseiro. 


Resultado de imagem para compota de morango frasco

Telefono ao meu filho, só para saber, e sei que está bem. No final desta tarde perfeita sento-me sob a pérgula, entregue à leitura de algumas páginas de um livro de contos de Selma Lagerlöf: a lua já se recorta no manto celeste, um copo de vinho branco e a companhia dos meus próprios cães. 



Jantei uma coisa qualquer, que é o que as mulheres normalmente fazem na ausência dos homens, e sinto a gratidão de viver dias assim. A paz,  a amizade e a qualidade de vida, bens essenciais que não deveriam ser um privilégio de alguns mas algo ao alcance de todos. Precisamos de paz em cada canto.
Dedico este pequeno texto aos meus queridos amigos e vizinhos Bé e Zé Manel.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Luz de Setembro

Cá estou, a 24h de entregar mais um livro com revisão de texto da minha lavra, e que tantas horas me tem roubado. O verão passou ao largo, mal chegará para um abraço. Resta estender as mãos ao Outono que aí vem, uma estação cheia de encantos, se nos deixarmos seduzir.

O que irá trazer-nos este mês de Setembro, na liquidez da sua luz dourada?

© Nanã Sousa Dias