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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Contra o meu silêncio

À medida que a idade avança - e no mês passado completei cinquenta anos -, tendo para uma sinceridade maior. Como se não houvesse tempo a desperdiçar e escrevesse agora apenas para mim, diários sem maquilhagem nem vestidos de seda que façam os outros dizer "que bonito". A confessar a simplicidade dos meus dias, se eles forem simples; a tristeza, se forem tristes; a solidão se forem sós; a alegria, se forem felizes; o tédio, se nada forem. Em vez de me calar se nada tiver, escreverei que nada tenho. Tudo menos o silêncio multiplicado que paralisa e adormece.
Por hoje digo que o Outono chegou. O corpo desistiu de se acobrear. Acobardou-se, amuou. As toalhas, os fatos de banho e os grandes lenços de praia foram lavados e guardados, mal chegando a recordar o sabor do sal ou a rebentação das ondas. Foi um Verão muito mal aproveitado, mas também ele tem culpas, que chegou com atraso. Ainda não foi desta que pintei os muros da minha casa. Em breve as chuvas e temporais, pintar para quê? Agora é tarde. O jardim de vasos também aguarda. Uma espera que já criou raízes. Para começar, as escadas de madeira da piscina desmanchada levaram vasos com plantas. Agrada-me o efeito, a planta da Bé a crescer e a avançar como um longo cacho de uvas brancas, a espinhosa do meu irmão, vinda do Algarve de mota, com ele, a dar as primeiras  flores. Espero que não cometa suicídio, ao descobrir que veio das terras quentes para a zona Oeste, das mais húmidas do país. As poucas floreiras permanecem vazias. Os sacos de terra fertilizada, os vasos, plantas, treliças, ervas, arbustos, flores trepadeiras e todo um pequeno universo de jardinagem chamam por mim, nos viveiros.  O investimento não foi possível. Ainda não. Mas tenho o conforto e o ânimo de um projecto por cumprir. Um prazer adiado. Como escreveu Jorge Luis Borges, "a verdade é que vivemos a adiar tudo o que é adiável". E a terra pode esperar.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Culpas e desculpas

Nas notas biográficas autorizadas que circulam por aí, sobre esta que vos escreve, o texto acaba com a frase "Mantém o blogue...e  o site....". E como hoje tive de enviar uma pequena biografia para uma revista que há-de publicar um novo texto meu, de ficção, dei-me conta de que já chega de silêncio, é preciso alimentar a máquina sem a desculpa de que somos pequenos e pouco lidos, não nos resta tempo, as redes sociais levam tudo, nada temos para dizer, blablabla. Ou se tem ou não se tem. E a ter é preciso dar-lhes  de comer,  como se fossem animais de estimação. Pelo menos água, caramba, para não morrerem à sede. Por isso aqui venho tirar o pó a este canto e deixar-me de suspiros. A tristeza anda de costas largas, bem sei, às vezes sinto-me presa por um fio, um sentimento de "p'ra quê?" em relação a tudo, mas a preguiça leva com uma boa parte das culpas. Pedem-me um texto e eu escrevo-o. Se tiver um prazo, melhor ainda. Mas com a minha própria "casa" está visto que faz jus ao ditado Em casa de ferreiro espeto de pau. Mas o que vem a ser isto? Quase dois meses, a sério? Shame on me. É certo que ninguém se rala, mas mesmo assim.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Saudade

O dia de hoje tem um sabor ambíguo. A minha Mãe, que nos deixou há seis meses, faria hoje 85 anos. Fiquei com o nome dela: “Não me lembrava de nenhum em especial e sempre gostei do meu”, justificou-se um dia à terceira filha, a mais nova de cinco filhos num plano de quatro. Troquei-lhe as voltas. O cordão umbilical também, duas voltas ao pescoço, já a revelar a minha falta de jeito e total ausência de sentido de orientação no mundo que, encolhendo os ombros, lá me acolheu. Completa-se também um ano da publicação deste meu romance, o primeiro. Chamei-lhe «Entre Mulheres» pelo facto de o protagonista ter, na sua órbita, um conjunto delas, que deixaram a sua marca: avós, criadas e empregadas externas, mulher, mãe, filha, cunhada, namorada e outras tantas, que vão compondo o manto das suas memórias e planos, por vezes tecidos à margem da sua percepção e ingenuidade. Enquanto reescrevia esta história, apercebi-me de que uma força interior me obrigava a incluir muitas das memórias da minha própria mãe, reflectidas na Maria José Munro, mãe do protagonista. Mal sabia eu que três meses depois do lançamento iríamos receber a notícia da sua doença e que, outros três meses mais tarde, estaríamos a chorá-la. A herança que nos deixou foi imensa, daquela que não se pode entregar numa loja de penhores e a que poderemos sempre recorrer em silêncio, na hora de perguntar: O que faria a minha mãe? O que diria, nesta situação? As saudades são incalculáveis, um sentimento com que vamos aprendendo a viver. E a diluir. Nem que seja escrevendo. Um beijo até si, Mãe.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

De mãos atadas

Um silêncio sem luz. Uma escuridão que é minha. Voluntária. Os meses deste ano, pela metade, no condão espesso de me encontrarem muda. Só em pensamento as palavras migram, sem a mínima intenção de pousar. Quanto maior a dor, mais implode e fere, resistindo a diluir-se na melhor receita que aprendi. A liquidez da escrita, a corrente de uma narrativa inventada, para fugir noutros mundos.  Noutras vidas. Tento recordar a mim mesma que importa. Que importa? Não. Não. Afasto os jogos linguísticos, o cinismo, a amargura da indiferença. Pelo que me lembro, a escrita é terapia. Está visto, não sinto  a urgência de me salvar, talvez queira sofrer tudo o que me é devido, sem batota, guardando os dedos. As palavras de mãos atadas. Apertem bem, não vá a dor fugir.
Leio, releio e reescrevo o que não é meu. O meu trabalho: os textos dos outros. Todos os dias. Dezenas de horas a cada semana, os meses passam e nada de mim. Então e eu? Já me posso mexer daqui? Libertar-me?
Desatei hoje os primeiros nós, as palavras ainda entorpecidas, dormentes, o que me salva sem circular como devia.
Para quando, de novo, o sangue a correr-me nas veias?

sexta-feira, 1 de março de 2019

10 anos

Querido blogue,

Ironicamente, já que vocês são uma espécie de concorrentes, fica sabendo que foi o facebook a lembrar-me de que hoje completas 10 anos. Deves estar ofendido comigo e não te censuro. Nem sempre te dei atenção. Não veio qualquer mal ao mundo por causa disso, tens de admitir. No princípio, obrigava-me a escrever diariamente - numa primeira tentativa de nomear-te, com a presunção de ser dona do meu ânimo, escolhi a designação nulla die sine linea, mas depressa me avisaram de que o nome já existia...claro. Se não escrevesse, ao menos não deixar de partilhar algo que valesse a pena, um filme, um ilustrador, uma canção, um fotógrafo, um poema, uma entrevista, um livro... Pequenas narrativas ou prosas minhas originais, nascidas em ti, foram surripiadas, transformadas em verso, para serem publicados no Fora do Mundo (Poética Edições, 2014). Não te zangaste. Contigo partilhei também, em 1ª mão, as minhas Filosofices, uma brincadeira pueril quanto à fonética  das palavras, desafios da imaginação, um toque de humor e loucura. Em certos momentos da vida, ao longo da última década, mal me lembrei de que existias. Votei-te ao desprezo, traí-te, abandonei-te à fome, o corpo tão magro e miserável, coitado. Ainda assim, moribundo, resististe.  Sobram-te uma dúzia de leitores que, sem conta no facebook, ainda te visitam. Espreitam e estranham o meu silêncio, "Não tens lá ido", como quem faz uma censura velada, com carinho, a quem se recusa a visitar um velho parente. Dez anos, para um blogue, é muito. Como eu, envelheceste. Perdeste paixão, vigor, elasticidade; andas de articulações doridas, angustiado com o teu futuro, sofrendo de uma insistente falta de vontade. Não sei como este fundo, a tua pele, não passou ainda a rosa-velho, sinceramente. Anyway, como diriam os americanos, olha, não prometo cuidar melhor de ti de hoje em diante, tu sabes que entre nós não há dessas coisas, há franqueza e verdade. Se tiver alguma coisa para te dizer, digo. Já bastam os filtros enganadores que se usam por aí, de alegria, o corpo em paraísos privados, dias glamorosos, relações perfeitas, a mascarar a tristeza, a solidão e a incerteza com fotografias que mentem, como os advérbios de modo. Contigo, não. És um bom ouvinte, sabes ficar calado, à espera que passe o monólogo da minha indiferença. E nisto, olha, passaram dez anos. Ando muito apagada, tu sabes. Preciso de recuperar a minha luz, mas é um processo de cura que só eu posso fazer. Tem paciência. E já agora, parabéns. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Luta

Olho para os livros, que me aguardam, e nada mais tenho que tristeza. Uma quase culpa, sem culpa. Para onde escorrem as  minhas horas? O que fazem do corpo, sem mim? O meu estragou-se. Quem me dera o tempo em que ler era liberdade, não esta luta, batalha perdida. Esta impossibilidade do corpo. 
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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Textura

Já subi e desci muitas vezes os degraus que dão acesso à cave, na minha casa, e embora esta parede e este tecto estejam aqui há 13 anos, nunca os tinha visto. Refiro-me a ver. A parede tem uma colecção de vassouras "velhas", entre aspas porque foram compradas e nunca usadas, e esta forma redonda, quase feminina do tecto abaulado sempre me passou despercebida. Esteve ali, desde que foi feita pelo construtor, sem que eu me tenha detido nos degraus e estendido o braço, para lhe tocar com a palma da mão, a sentir-lhe a textura. É fria e ligeiramente rugosa, mas senti-la deu-me um estranho conforto. Muitas vezes assim é a nossa vida: coisas e pessoas que sempre estiveram ali, mas nas quais mal reparamos. Hoje notei-lhe a presença, toquei-lhe e logo este recanto ganhou outro significado. A partir de hoje é mais minha, passou a fazer parte de mim, não está só ali. Conquistou a sua razão de ser. Imaginem a quantidade de tesouros que temos, sem que houvesse oportunidade de se fazerem possuir por nós. 


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Claras resoluções

Esta noite tomei uma decisão quanto à geografia da escrita e do trabalho ao computador. Agora que está aí o frio e a chuva, o escritório, com a sua excelente luz natural, vai ficar reservado para a escrita tradicional, a organização de papelada, o arquivo de correspondência..., e o meu portátil veio comigo para o quarto. É quase um pecado, escrever e trabalhar assim a qualquer hora do dia, enfiada na cama. Agora é que eu me desgraço de vez. 
Estou a tentar habituar-me a funcionar sem rato, o que para já é frustrante, mas quanto menos objectos, melhor. Ainda vou descobrindo a função de uma ou outra tecla que, para mim, eram ainda um mistério. "Guardar imagem como"? Ali está, na fila de baixo, do lado direito do teclado, entre "alt gr" e "ctrl", não fazia ideia que este sinalzinho de menu servia para tal. Que outros mistérios haverá por desvendar? Pernas dobradas em /||\, para apoio, o foco de leitura virado para o teclado, o alimentador junto à mesa-de-cabeceira e Internet fibra (mudança recente), que agora me permite ligação à rede com bom sinal, aqui no quarto. Veremos quanto tempo dura esta minha resolução. Sou perita em desfazê-las, como quem bate claras em castelo mas, para já, é definitivo, para os meses frios que se avizinham. Que interesse tem esta mensagem num blog? Absolutamente nenhum. É o que temos hoje. Cansaço. Preguiça. Sono. Mas com conforto. Lá isso. Dentes já lavados, basta pôr de lado o computador e escorregar, para dormir. É o que vou fazer já de seguida. Bater sonhos em castelo. Boa noite.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Éter

Ao fim de umas semanas de silêncio, aqui regresso. Os dias têm-se feito com os textos dos outros, inúmeras horas no conforto do lar, sim, mas à volta das palavras, sempre as palavras, em papel, em Word ou PDF, para um novo número da revista mensal cuja revisão/copy desk está a meu cargo, um romance entregue na editora que publicou a minha poesia, e na ponta dos dedos dormentes a esperança de que o livro saia neste Verão, que saia, de uma vez, a espera, sempre a espera e uma incerteza que muitos não experimentam nem compreendem, não podem compreender se tudo lhes é tão leve, almoços, jantares, saudades de muitos que não vejo, uma leitura arrastada e penosa da obra mais recente de Paul Auster - culpa minha e dos meus olhos, não do autor -, que não largo por mera teimosia e respeito, mais por cansaço que paixão, está quase está quase a chegar ao fim. Uns cuidados sofríveis com a casa, dispersos como cardos ao vento, o corpo a crescer, a galopar para fora de mim, a tornar-me estranha, a minha pele cada vez mais distante dos ossos, a crueldade de chegar à idade madura, em que o corpo se rebela contra nós, mulheres. A revisão de um futuro livro, ainda texto, belo e triste, que me caiu nas mãos e me deixou os olhos húmidos, e outros, outros prazeres e vícios, outras falhas e deveres, nem que sejam as da consciência e do bom senso. Tanto fica por fazer. A escrita é um casulo tecido em culpa, é preciso refrear o impulso do medo, não desistir, como quem esconde o boião das tentações mais doces. Bem basta todas as vezes em que nos perdemos no caminho mais fácil. Fica-me esta vontade de ser pequenina outra vez, mesmo pequenina - não apenas magra -, uma urgência de nada fazer, ser poeira apenas, sem transportar a carne, o peso, a culpa, tornar-me eternamente etérea, sem peso nem pensamento. Só inocência. A minha entregou-se na aragem tardia e já não tenho asas para a reaver.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Uma aventura

Lembro-me de estar na sala de aula, no Secundário, e a minha querida professora de Português informar os alunos da turma dirigindo-se, em particular, a mim e à minha melhor amiga nessa época:
- Está a decorrer o concurso «Uma Aventura», para jovens, e quem quiser pode concorrer com um conto. A história vencedora vai ser publicada em livro, pela Caminho.
Fiquei de antenas no ar, mas deixei passar a oportunidade. Na altura andava mais dedicada a namoros do que à escrita. A minha amiga entregou um conto. Lembro-me da história: um senhor perdeu os óculos e estes passaram por uma série de aventuras, até irem parar dentro de um peixe. Um dia, o dito senhor está sentado à mesa de um restaurante e, ao arranjar a sua dourada (pargo? Safio? Um carapau gigante...?), dá de caras com os seus óculos perdidos.
Que idade teríamos? 14, 15, 16 anos?
Tenho pena de não ter concorrido. Quem sabe quais teriam sido os diferentes caminhos na minha vida, com esse pequeno gesto? O namoro com as palavras de ficção surgiu mais tarde, cerca de dez anos depois. Mas a minha amiga Ana Margarida concorreu. E ganhou. E viu o seu pequeno conto publicado. Fiquei feliz e orgulhosa por ela. Inveja zero. Como disse, andava namoradeira. Para quê a ficção, se eu andava mergulhada em romance, mistério e aventura? 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Cinza

O silêncio do tempo, a conta-gotas. Ainda o ano mal começou já este cansaço. Falta a magia, a crença num qualquer milagre. Não há sonho no despertar para a manhã de cinza. No corpo o cheiro da uma solidão entranhada. Nuas de todos os gestos, nem as mãos falam por mim. Do céu desce uma chuva miúda, água, apenas. No meu ombro já não pousam anjos. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Aos escondidos

De tanto adiar a escrita da trilogia, dedicada a outros projectos, os personagens da 2º volume d' «A Ilha de Melquisedech» esconderam-se de mim. E agora, encontrá-los? Um sarilho. Procuro pela casa, vasculhando os potes da cozinha, as cestas, as fissuras da pedra, os tachos e panelas de cobre, suspensos do tecto, em gavetas, arcas e gavetões, entre as camisolas de inverno, mantas e cobertores - não vão eles ter sentido um frio abandono que mais parece desamor... mas os malandros continuam bem escondidos. Terei de lhes pegar com  jeito, levá-los com falinhas mansas, torrões de açúcar e mezinhas caseiras,  para que venham até mim como corças num bosque desencantado. É sempre assim, ficam ofendidos pela espera e com razão: Sukkar, o duende de Hidromel, Furfuris, o ajudante do moleiro Grotti, as ondinas, que há muito não visitam a superfície do Lago dos Segredos, adormecidas nas suas grutas de cristal; Mnemina, Evangelina, Zacarias, Aracne, Scribendi, Graziela, Rigoletto... todos permanecem em silêncio, amuados, até o corcunda Ratatosk, exilado na Ilha de Nullius.
Mais me envergonha a forma como tratei as novas personagens, que mal haviam começado a ver contada a sua história, quando as deixei paralisadas num gesto, como injusta  maldição: Mutatis, nascido no Outro Mundo, os espantalhos Iratus, Rusticus e Pertinax, e os humanos Benjamin Somers, Katherine e Rosemary Doolittle, Sr. Alfa e Sr. Beta, Cécile Picard, Francine Clément, Marie e Olivier La Fontaine, os irmãos Carlos e Luis Asunción e até uma família de Sintra, em Portugal, que irá participar nesta aventura. Do vilão que dará nome ao segundo volume nem me atrevo a falar, para já, não vá ele amaldiçoar eternamente esta trilogia.
Mostrem-se! A vossa espera terminou. Estou pronta.
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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Gota a gota

Entregar o número da revista de Dezembro e começar, desde logo, a receber material para o número de Janeiro oferece-me um consolo e um amparo só entendidos por aqueles que, tal como eu, andaram muitos anos na esperança de encontrar trabalho de semana em semana, de mês em mês, como quem procura moedas perdidas nos bolsos, nas gavetas, sob os escombros das suas duvidosas opções de vida, escolhas menos certas, que os levam ao engano da fantasia que jamais se cumpre. De vez em quando, um balão de oxigénio, para de novo tombar no deserto. Outras vezes, um aguaceiro, chuvas caindo de repente, com abundância, a tornar quase impossível a gestão do tempo. E agora isto, a bênção de um trabalho em água corrente - ainda que em fina torrente -, um alívio, poder cumpri-lo a partir do meu "escritário", o mundo virtual a fazer a magia de anular o tempo e a distância. Dia a dia, gota a gota, um ofício que posso desempenhar por bons anos ainda, com a saúde que me resta.
É no mínimo irónico alguém ter como novo ofício a Revisão, depois de perder a visão de um dos olhos. Lembra-me um homem de uma perna só, empregado numa fábrica de próteses, um surdo numa academia de música, um maneta malabarista. É preciso sabermos brincar, não é? Rir do que não tem graça. Para que passe a ter. E, em especial, não esquecer a gratidão. Essa tenho de sobra, para com os anjos, como a chuva matando a fome da terra.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

A minha pena

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Venho tentar reanimar-te - apenas tentar, como quem me obriga. Dar-te sangue novo, se é que ainda me correm palavras nas veias. Nada sinto na minha pena. Nem sequer um lamento, nem tampouco a faísca de uma invenção. A escrita ficou para os outros. Resta a sensação de me ter transformado nalguma coisa técnica. Clínica. Sou cirurgiã de frases. A inspiração e o dom do faz-de-conta andam anestesiados, perderam o sentido, sofreram um desmaio geral, talvez vitalício. Poderia jurar que jamais escreverei um livro. Um texto, sequer, que me pertença. Nada vejo no meu futuro, que me sirva de coração, ainda que transplantado. Ainda que artificial. Sim, ando sem consciência. Ou talvez o inverso, inteiramente sem inconsciência. Sou máquina munida de braços compostos de uma qualquer fibra, capaz de executar recortes e esbater cicatrizes que não são as minhas. E enquanto me vou solidificando numa cura modesta do que me é estranho, sou um paciente com uma grave doença, a pior de todas, sem cura: a falta de alento - ou talento - para se curar do que talvez nem seja doença, apenas juízo. A minha pena permanece adormecida? Pois que durma, mesmo um sono eterno. Sem pena minha.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Suspiros

A escrever sem pensar no que tenho para dizer, receio descobrir-me seca, nada existir digno de dizer. Avoluma-se uma não-vida, que me esvazia, a calar todas as letras. Fico à espera que algo aconteça e nada, é uma paragem cardíaca nos dedos, a paralisia do pensamento, o desalento levou a luz inteira e na penumbra não consigo caminhar sem cair. Deixo que os dedos dancem no teclado, é um cliché, um cliché, fugiram-me as palavras mais húmidas, tudo o que tenho chega-me aos dedos desidratado.
Agosto a um terço, os outros, que vivem, a banhos, e eu em seco, só a água insossa e o vinho, o café e o chá, o sumo, sem onda nem espuma, sem barcos nem velas, sem algas ou o piar das gaivotas nem nada, sem braçada nem sol, da esperança, o queixume. Mais um Verão desperdiçado. Vida sem vida, só o suspiro que traz a miragem da beira-mar, onde não estou.
 Rise & Shine (28 photos) (23)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Antes a vida

É com surpresa que me apercebo de que não escrevo aqui há mais de um mês.A vida a passar-me por cima, como onda, eu a tentar não me afogar, chegar inteira à areia quente e poder, enfim, respirar a outro ritmo. Um novo trabalho a partir de casa, com carácter regular: a nova revista «CRISTINA», de que sou agora Copy Desk, ou seja, revisora. Revista por mim, de uma ponta à outra. Orgulho-me de participar neste novo projecto. Grata por ter trabalho, para mais, a partir do meu "escritário", em casa.

Surgem convites para cantar em trio e em quinteto. Bons músicos, uma alegria e um privilégio, sempre, ainda que o mereça.

A editora envia-me as primeiras propostas de capa para a 2ª edição d' «A Ilha de
Melquisedech - Mnemon». Uma edição enriquecida com novas ilustrações e texto revisto por mim.
fundo para a ementa do Festival da Estação Dourada
Dou os últimos (?) retoques no meu primeiro romance. Difícil, deixá-lo ir. Ainda não está a meu gosto, nunca estará. Mas aproxima-se o dia em que terei de escrever FIM.


Cansaço. Um cansaço bom. Antes os dias a transbordar, do que a vida vazia. Apetece o mar, ser outras pessoas, outros eus. Parar. Mas parar seria afogar-me de novo.
Outra vida, outro eu.

sábado, 17 de junho de 2017

Fora do Mundo

O corpo escorre, a verter água por todos os poros. Procuro desesperadamente um leque. Encontro-o, enfim. Parto em busca de um segundo, juro que o tenho. Na mira, uma oferta para amanhã, à minha colega de feira, mas fico-me pela intenção, que o segundo não me aparece. Lavo um chapéu, a tirar-lhe a poeira. Não esquecer. Não esquecer de o levar comigo. Talvez até um borrifador com água. estou por tudo, o dia abrasa e amanhã Lisboa, uma vertigem de livros pelo meio da miragem, ondas de fogo a distorcer a imagem que os olhos vêem. Começo a escrever depois das sete, antes disso a cabeça não obedece, amuada com os 36º graus sobre a pele e no ar que respiro. Quer ficar de molho, a mente, em água fresca, mas o corpo desde manhã que anda para cá e para lá, teimando em não se render.
Amanhã é dia de feira, o último, e a minha primeira vez com a poesia, no lugar da ficção. Confesso-me só, pregada num título, a fingir a dor de um exílio que deveras sinto. A tarde inteira em apelos, venham, apareçam, e o desconcerto de implorar tanto, quando aos outros dou tão pouco, fechada neste paraíso tornado prisão. Fora do Mundo.



terça-feira, 28 de março de 2017

Perdoa-me

© Brooke Shaden, "Moving in"
De tão abandonado, o meu blog já não reconhece a própria dona, lança-me com aquela barra de aviso de cookies, onde temos de clicar em "entendi". Cliquei. E compreendi-te, blogue, transformei-me numa estranha, num visitante como qualquer outro, talvez alguns deles te sejam até menos estranhos do que eu. E se te prometer maior fidelidade, perdoas-me? Se eu vier visitar-te e acrescentar-te, se não como antes, pelo menos com maior dignidade, dás-me perdão?
Nem desculpa tenho para esta indiferença, tem sido apenas isso, indiferença, inércia, a sensação de nada ter que  valha a pena ser dito. Vazia de ideias, despejada de palavras, o que sempre acontece quando estou preste a terminar um livro. Isso zanga-te, sente o ciúme virtual, tu, uma espécie de casamento, de relação idealmente constante, regular, ultrapassada pela paixão de uma relação inédita e repentina, que urge satisfazer, de capricho em capricho, num impulso egoísta.
Em breve irei apresentar-te esta espécie de amante de folhas, juntarei aqui, pelo menos, o seu rosto. Até lá, paciência, meu amigo, é apenas isso, o silêncio e o capricho de um novo livro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Algo mais

© Brooke Shaden Photography
Sem mal sair de casa durante semanas, cuidando obsessivamente destas paredes e de tudo o que elas albergam, cúmplice de uma prisão que eu própria vou cinzelando, pasmo perante o sentimento de apatia quanto aos meus projectos sem alicerces, e de cujo propósito desconfio. A pergunta que apresento ao futuro - para quê? - não me traz resposta. E falta-me a paciência a que a espera obriga. Não apetece a desilusão, o desmoronamento da esperança, o eterno retorno ao optimismo, à desvalorização da vitória, à celebração do quase nada que vou conquistando, mera defesa dos fracassados. Provavelmente é apenas a falta de sol, de calor, de rua, de gente, a arrefecer-me a vontade e o ânimo. É urgente acender uma fogueira em mim, alimentá-la com algo mais do que a cinza de alguns sonhos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Novo ano

Já que não me é dado salvar para todos nós o mundo, que parece cada vez mais sem salvação, tento salvar o meu. Os dias decorrem enquanto faço por cumprir algumas resoluções mais ou menos íntimas. Das menos, procuro recuperar a dignidade da casa, dar-lhe várias horas do meu dia, e tempo é um privilégio de que disponho, nesta carruagem sem carris. Quanto ao frágil corpo, vou tentando devolver-lhe algum recorte, regressar às caminhadas que, além de tostarem ao longo da estrada os excessos ingeridos por culpa do frio e da gula, possuem o benefício de servir de terapia e desbloqueio. A preguiça parece ter-se afastado, dando tréguas à culpa. Só falta o corpo ser capaz de acompanhar a nova disposição.
O trabalho continua a cair-me no colo e só posso sentir gratidão. Trabalhar é urgente. Pagar as contas, construir uma pequena estufa de ervas aromáticas, plantar novas petúnias nas floreiras vazias, trabalhar, trabalhar, a fim de conquistar o milagre de sobrar alguma coisa, tempo e moedas para que possamos fazer algo mais do que trabalhar. Dar fim ao próximo livro. Apreciar o alívio que isso traz. Falta-me a batuta para reger as horas, chegar ao final do dia com o condão da escrita por derramar. Para já, o tempo faz batota comigo, finta-me, prepara as suas armadilhas. Mas hei-de domá-lo, subjugá-lo à minha vontade, hei-de ser maestrina dessa orquestra composta por semanas, dias, horas, minutos, como partituras de um calendário.