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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Luta

Olho para os livros, que me aguardam, e nada mais tenho que tristeza. Uma quase culpa, sem culpa. Para onde escorrem as  minhas horas? O que fazem do corpo, sem mim? O meu estragou-se. Quem me dera o tempo em que ler era liberdade, não esta luta, batalha perdida. Esta impossibilidade do corpo. 
Roubei a imagem aqui

domingo, 13 de maio de 2018

Sapiens

Iniciei há dois dias a leitura deste livro, que já me conquistou. À semelhança de Alain de Botton, o autor, Yuval Noah Harari, tem o condão de falar de assuntos sérios com uma leveza e luz sedutoras, as quais resultam numa obra que revela, ensina, diverte, espanta e faz reflectir. Não mais veremos a humanidade com os mesmo olhos. Não deixem de ler este ensaio, já bestseller, pois nem só de ficção e poesia se compõe a Literatura. Para mais, vão aqui.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

e-manuscrito

Uma ideia excelente e ousada. Veremos quantos autores aderem a este projecto. A coisa boa disto, é que, uma vez lido por apenas 2,99€, se um leitor gostar muito da obra pode sempre comprar o livro tradicional, que é o que fazemos, afinal, quando o mesmo acontece com um livro emprestado, ou trazido da biblioteca, certo?

domingo, 20 de novembro de 2016

Camus em tempo de chuva

 Imagem relacionada

«Mersault continuava a traduzir "vegetables, vegetables", de olhos postos no candeeiro, com o abat-jour de cartão verde plissado. Tinha em frente dele um calendário de cores garridas que representava "O perdão dos Terra-Novas". Sobre a mesa, alinhavam-se a esponja para os selos, o mata-borrão, o tinteiro e a régua. Das janelas podiam ver-se enormes pilhas de toros de madeira trazidos da Noruega por cargueiros pintados de branco e de amarelo. Apurou o ouvido. Do lado de lá daquela parede, a vida respirava a grandes golfadas, surdas e profundas, sobre o mar e o porto. Tão longe e, ao mesmo tempo, tão perto...»
(Albert Camus, in "A Morte Feliz", p.54, obra póstuma, a partir de manuscritos e notas que antecederam "O estrangeiro").


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Annie Proulx

Este romance, The Shipping News", vencedor do Booker Prize e do National Book Award, em 1993, é conhecido pela adaptação cinematográfica, feita pelo realizador Lasse Hallström, em 2001, com um elenco de luxo. Porém, a escrita de Annie Proulx, e a narrativa completa, muitas vezes comprometidas nestas adaptações, não dispensam o prazer da leitura. Annie Proulx ficou célebre pelo conto "The Brokeback Mountain", devido à adaptação ao cinema, em 2005. 
Ainda vou a menos de meio da leitura, e deitar-me no conforto dos cobertores, na companhia deste livro, tem sido um prazer. Especialmente com a música de Christopher Young
Há livros de inverno, tal como "As velas ardem até ao fim", de Sandór Marái. Para serem lidos calorosamente, em pleno frio. Este é um deles.
Edição: Cavalo de Ferro 

Sinopse oficial
“O livro narra a vida de Quoyle, um homem derrotado que, abandonado pela mulher, desprezado por família e amigos e despedido do seu emprego parte para a Terra Nova onde deverá trabalhar no seu novo emprego: o jornal The Shipping News. Com as suas filhas pequenas que não lhe reconhecem qualquer autoridade paterna chega a uma terra fria onde as emoções humanas se encontram sobre camadas de gelo mas são muito mais quentes para poderem sobreviver. A vida de Quoyle vai transformar-se e ele terá a oportunidade de reconstruir-se enquanto ser humano."


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

David Lodge

Já li várias obras de David Lodge, um dos meus escritores preferidos. «A Vida em Surdina» só veio confirmar a impressão que tinha. Esta é uma história apresentada de forma inteligente, divertida, desconcertante, por vezes e, no que respeita à relação de Desmond Bates, o protagonista, com o pai (de contornos bastante autobiográficos, como o próprio admite na nota de autor) comovente, em especial no fim. Tânia Ganho está de parabéns, como tradutora, sendo que este livro, em particular, deve ter constituído um desafio, a par com a diversão por criar equivalências em português, para dar resposta aos muitos trocadilhos. O tema da surdez e o constrangimento que pode provocar a nível social, e não só, vieram ao encontro de situações com as quais eu mesma me tenho deparado, a par dos meus problemas de visão. A vida académica como pano de fundo, um dos cenários em que se desennrola a acção, é já tema recorrente nas obras de David Lodge, compreensivelmente, já que o autor, doutorado na Universidade de Birmingham, leccionou Literatura Moderna Inglesa até 1987, até optar por se reformar antes do tempo previsto, para se dedicar em exclusivo à escrita. E ainda bem para nós que o fez, pois a sua carreira é admirável e os seus livros um prazr para os leitores que apreciam também, como eu, um tipo de escrita moderno, que surpreende.
 
Sinopse
 «Quando decide pedir a reforma antecipada, o professor universitário Desmond Bates nunca pensou vir a sentir saudades da azáfama das aulas. A verdade é que a monotonia do dia-a-dia não o satisfaz. Para tal contribui também o facto de a carreira da sua mulher, Winifred, ir de vento em popa, reduzindo o papel de Desmond ao de mero acompanhante e dono de casa. Mas o que o aborrece verdadeiramente é a sua crescente perda de audição, fonte constante de atrito doméstico e constrangimento social. Desmond apercebe-se de que, na imaginação das pessoas, a surdez é cómica, enquanto a cegueira é trágica, mas para o surdo é tudo menos uma brincadeira. Contudo, vai ser a sua surdez que o levará a envolver-se, inadvertidamente, com uma jovem cujo comportamento imprevisível e irresponsável ameaça desestabilizar por completo a sua vida.»
Para mais informação, espreitem a crítica do New York Times

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Leituras

Foi-me feito um desafio que aceitei mas que não tenciono cumprir à risca. É uma missão impossível, além de que nunca tive jeito para as contas. Nós, que amamos os livros, temos uma dificuldade imensa em escolher apenas 10, já se sabe. Aqui vai, por ordem cronológica e sem nenhuma ordem de preferência, alguns livros que marcaram diferentes fases na minha vida:
0 - (eu sei, é batota, têm sorte de eu não começar com números negativos) - Contos de Grimm, Perrault, Hans Christian Andersen, Enid Blytton, Sophia... - tantos! 
0,5 - Condessa de Ségur e outros da Colecção Azul - vários, a despedida da infância...
0,75 - policiais - Simenon, Agatha Christie, Earl Stanley Gardner...
1 - Eça de Queiroz (não consigo escolher apenas um...)
2 - Metamorfose - F. Kafka
3 - Richard Bach - vários
4 - As Três Sereias, Irving Wallace
5 - As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley
6 - O Perfume, Patrick Suskind
7 - Fernando Pessoa (não consigo escolher um)
8 - Saramago - vários
9 - Crónica de uma Morte Anunciada+outros, Gabriel García Márquez
9.5 - A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo - Carlos Ruiz Zafón
9.9 - Walden ou a vida ns bosques - Thoreaux
10 - José Luís Peixoto - vários
Aaaiii, ficaram de fora M. Yourcenar, Duras, V. Woolf, Joanne Harris, João Aguiar, Tom Sharpe,  David Lodge, Gustave Flaubert, Paris é uma Festa!+ outros, de Ernest Hemingway, Isabel Allende, Rosemunde Pilcher, Jorge Amado, Simone de Beauvoir...ai.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Burros

Porque adoro burros e porque parece que hoje se celebra o Dia Internacional dos Burros, aqui fica uma sugestão de leitura e o respectivo link para a encomenda na Amazon, na versão original (uma vez que Sonya Hartnett, inexplicavelmente, não se encontra traduzida por cá).

Sinopse original:
"One morning in the woods of World War I France, two young sisters stumble upon an astonishing find — a soldier, temporarily blinded by war, who has walked away from battle longing to see his gravely ill younger brother. Soon the care of the soldier becomes the girls' preoccupation, but it's not just the secret they share that emboldens them to steal food and other comforting items for the man. They are fascinated by what he holds in his hand — a tiny silver donkey. As the girls and their brother devise a plan for the soldier's safe passage home, he repays them by telling four wondrous tales about the humble donkey — from the legend of Bethlehem to a myth of India, from a story of rescue in war to a tale of family close to the soldier's heart. Sonya Hartnett explores rich new territory in this inspiring tale of kindness, loyalty, and courage."

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Livros infantis

E porque hoje é Dia Internacional do Livro Infantil, aqui fica a minha gratidão para com três dos principais responsáveis pela minha infância feliz, recheada de boa leituras:
Hans Christian Andersen
Irmãos Grimm
Enid Blytton
Obrigada pelos mundos que me deram.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Fontes do imaginário

Mergulhada na escrita do segundo volume d'A Ilha de Melquisedech, torno a abrir o livro "Deuses, Mitos e Lendas", da autoria de Jorge Campos Tavares e edição da Lello & Irmão Editores, que comprei em 1992 (escrevo sempre o nome e a data nos livros, uma mania minha) e que tão útil me foi em 2004, quando andava na fase de pesquisa para o primeiro volume desta trilogia.
Partilho convosco o início do prefácio, que ilustra bem a importância de uma temática que me apaixonou desde então, inspirando-me uma boa parte deste meu trabalho:

«Todas as Civilizações, mesmo as mais primitivas, têm as suas lendas, os seus deuses e os seus mitos, pois o Homem parece não poder viver sem o suporte de crenças e das mitologias que se criam à volta dessas crenças.
A nossa Civilização, a chamada Civilização Cristã Ocidental herdeira das Civilizações Clássicas, e da Judaico-Cristã (e de certo modo da Fenícia, da Etrusca, da Celta e da Germânica) tem um fabulário muito rico em histórias e personalidades fantásticas. Se algumas delas são originais, outras assemelham-se às concebidas por povos diferentes ou por culturas distantes que viveram noutros tempos, confirmando de certa forma o aforismo de que nada há de novo sobre a Terra.
As mitologias dos Povos de que a nossa Civilização é a continuidade, estão povoadas por personalidades fortemente caracterizadas, que se enredam em aventuras prodigiosas, e depois se debatem em situações que aparentam ser fruto de devaneios, de sonhos ou até de pesadelos - num mundo de fantasias muitas vezes sem nexo.
Esta aparência é porém ilusória.
Todos os elementos destes mitos reflectem uma concepção da Vida, uma maneira de entender e lidar com o Mundo, uma forma de transmitir conhecimento, uma maneira de enfrentar as realidades, já que certos valores universais se expressam muito melhor e mais claramente sob a forma de lendas mitológicas do que doutro modo. Por outro lado, estão implícitos nessas fábulas processos que têm que ver com o psiquismo dos indivíduos e o sentir colectivo das comunidades, processos que têm incidência no foro íntimo de cada um.
Sucede que artistas plásticos, poetas e dramaturgos, têm recorrido, ao longo dos séculos, ao acervo legado pelas mitologias do passado a fim de tirarem daí matéria-prima para se exprimirem, para conceberem e construírem as suas obras - fenómeno que, em vez de esgotar a força anímica desses mitos, lhes renova a vitalidade e a importância.»

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Valter Hugo Mãe

"Pensava que quando se sonha tão grande  a realidade aprende"

(VALTER HUGO MÃE, in "O filho de mil homens")

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Leituras

Em 2005 saiu a 1ª edição de um livro precioso: um ensaio sobre o Terramoto de 1755, edição irresistível da Tinta da China, com direito a capa dura forrada e fita de cetim púrpura e tudo. Este foi para mim um ano bastante "tremido" também, um ano em que vivi um pequeno drama que se prolongou e teve consequências às quais ainda hoje tenho dificuldade de me resignar. Lembro-me de constatar que jamais iria conseguir ver os mapas que este livro contém, senão com uma potente lupa. E tenho até ideia de que os meus olhos desistiram: não consegui terminar a leitura. Foi um dos meus falhanços visuais dessa época. Mas nada disso é comparável ao que Lisboa viveu neste dia e nos que se seguiram. Para assinalar a data, aqui têm:

quarta-feira, 29 de maio de 2013

John Kennedy Toole

A propósito da tão conhecida frustração dos autores por não conseguirem ver publicadas as suas obras; quando, no passar dos anos, apenas recebem - quando não o silêncio, a indiferença -  respostas negativas, eis que descubro um exemplo de ironia pura: JOHN KENNEDY TOOLE. 
Nasceu em New Orleans. Escreveu um romance aos dezasseis anos ("The Neon Bible"). Especializou-se em inglês em Nova Iorque onde, em simultâneo, deu aulas, no Hunter College. Interrompeu os estudos, pois foi chamado para o serviço militar, que cumpriu ensinando inglês a recrutas porto-riquenhos, em San Juan. Nessa época escreveu a sua segunda e última obra: uma tragicomédia intitulada "A Confederacy of Dunces". Nunca conseguiu publicar e reagiu terrivelmente às respostas negativas, chegando mesmo a sentir-se verdadeiramente humilhado e zangado com a mãe, que insistia e lhe dava falsas esperanças, através de novos contactos no mundo editorial, que originavam novas desilusões. Começou a beber bastante e ganhou peso. Alterou todo o seu guarda-roupa. Sofria de dores de cabeça que os analgésicos não resolviam, mas recusou-se a ver um neurologista. Terá sido, tudo junto, o que o levou ao suicídio. Tinha 31 anos quando desistiu de escrever, de insistir, de viver. 

1937 - 1969
Mas a sua mãe, depois de se refazer de uma longa depressão pelo desgosto de perder o filho, não desistiu. Retirou o manuscrito do fundo do armário e perseguiu as editoras durante anos. Recebeu sempre respostas negativas. Até que teimou, ao longo de três anos, junto do escritor e editor Walker Percy. Chegou mesmo a entrar pelo seu escritório adentro, à revelia, e a obrigá-lo a ler, argumentando que o livro era muito bom. O homem prestou-se a lê-lo, quanto mais não fosse para se ver livre daquela mulher insistente e incansável: habituado a pôr originais de parte, sabia que lhe bastaria a leitura dos primeiros parágrafos ou páginas para poder afastá-lo de consciência limpa. Mas tal não aconteceu. Não só leu a obra até ao fim, como mal podia acreditar que o livro fosse tão bom quando chegou à última página. 
A edição foi complicada e o livro só saiu três anos mais tarde. E como acaba esta triste epopeia? Em 1981, John Kennedy Toole, no túmulo desde 1969, ganhou o Pulitzer Prize e nunca o soube. Nunca sentiu a recompensa de se ver autor consagrado no mundo inteiro e traduzido para uma vintena de línguas.
                                          
Foi este livro que comecei a ler hoje, na versão portuguesa. E à medida que vou virando as páginas, com deleite, dou por mim a esboçar um ou outro sorriso triste, por não ter como felicitar o autor no facebook, como poderia muito bem acontecer; a lembrar-me que se matou estupidamente, sentindo-se um fracasso até ao último momento. Que outros livros, excelentes como este, teria ele escrito até aos nossos dias, se não tivesse desistido? Que lugar ocuparia na literatura hoje, com 76 anos? Nunca saberemos e isso entristece-me.

domingo, 26 de maio de 2013

Zafón

Depois de um pequeno-almoço tardio, deitei-me no sofá com o Prisioneiro do Céu nas mãos e só o larguei depois de ler a última página, às 14.45. 
E agora?
Zafón, escreve depressa o quarto e último volume, por favor.
As personagens aguardam o desfecho dos derradeiros mistérios e nós, os leitores que te amamos, ficámos desamparados, num voo suspenso, apesar de teres tido a consideração de fechar a narrativa em cada volume. 
Nunca conheci um autor que contasse uma história assim, como um caleidoscópio onde tudo se cruza e reflecte, sem, no entanto, deixar que nos percamos no labirinto narrativo, por mais complexo. Imagino portas cujos corredores conduzem a outras portas que, por sua vez, guardam outras que fazem com que todos os quartos fiquem interligados. Ainda pr cima, presenteia-nos com uma escrita magistral e com personagens que apetece trazer para a nossa casa, além da criação e recriação de lugares que ansiamos por visitar, mesmo sabendo que se inserem num tempo que já não existe, ou num espaço que nunca existiu.
Zafón existe e escreve como ninguém.
Seja o que for que o alimenta, sejam quais forem as suas influências musicais, cinematográficas e literárias, abençoadas sejam. Muitas comparações têm feito, desde os clássicos românticos russos, franceses e ingleses, aos modernistas como Umberto Eco, Garcia Marquez ou Jorge Luis Borges; rotulem-no como quiserem, mas o certo, a meu humilde ver, é que nunca ninguém contou uma história assim.
Obrigada, Lia, pelo empréstimo. Os dois volumes que possuo, como livros de cabeceira, aguardam os dois restantes. Simplesmente terei de adoptá-los, como quem não pode deixar de trazer para casa um pássaro ferido.

sábado, 6 de abril de 2013

Zafón

Desde os livros de Enid Blytton, da minha infância, que não sentia esta paixão por ler o mesmo livro várias vezes. Aguardo a oportunidade de devorar o terceiro volume da tetralogia de Zafón, iniciada com "A Sombra do Vento", que já conta com diversos prémios literários. A escrita deste autor enche-me por completo as medidas. Assim que termino a última página, apetece-me voltar ao início. É a terceira vez que leio este livro de seiscentas e tal páginas. Sei que irei ler mais uma vez "O Jogo do Anjo", o segundo volume, e espero que, entretanto, uma boa alma se lembre de me oferecer o terceiro, que ainda não li. Senão, vou à livraria e compro. 
Ou roubo. 
Já avisei. 
Não consigo libertar-me das suas personagens, da sua história plena de mistérios e suspense, da sua escrita. E é a mais irresistível das prisões. Estou absolutamente viciada. Se o homem me aparecesse à frente, por mais insignificante que pareça a sua figura avaliando pelas fotografias de promoção, não poderia deixar de segurar-lhe nas mãos, como uma reles stalker, e dizer-lhe, Obrigada, obrigada  por estes livros, obrigada por escrever assim! É a minha Santíssima Trindade: Ella Fitzgeral (voz), Chico Buarque (compositor) e Carlos Ruiz Zafón (escritor).

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Pura teimosia

Vá, sejamos honestos. Amamos os livros, sim, devoramo-los, coleccionamo-los, fazemos listas de "a ler", namoramos mais não-sei-quantos, pedimos emprestados outros tantos, mas. Às vezes lemos livros intermináveis por simples teimosia. Para não desistir, já que chegámos até ali. Em leituras arrastadas de livros com 600, 800 páginas, que nos provocam níveis variados de entusiasmo: encontramos partes que nos conquistam, que nos dão a sensação gratificante de valer a pena, de serem justas as horas investidas; e  eis que tropeçamos noutras, mais ingratas para nós, leais leitores, leais também para com um certo autor de quem já lemos diversos livros, que amámos sem esforço algum, e que assim, por simples teimosia e consciência, nos obrigam a chegar ao fim de um calhamaço que não nos apaixona, e cuja fama não conseguimos justificar, enquanto há muito deitamos uma olhadela a outros livros que aguardam a vez e cuja leitura apetece mais. É verdade ou não é? Vá, confessem...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Devida Comédia

No seguimento do que disse ontem, deixo aqui outra sugestão: o blogue do jornalista e escritor do Porto, Miguel Carvalho. A escolha deste post em particular vai com uma dedicatória à Denise, uma espécie de anjo que mora em S. Paulo.

O Blogue do Miguel: A DEVIDA COMÉDIA

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Salvação

                       
Este ano lectivo, em que o meu filho vai estudar os Maias, resolvi retirar esse volume da colecção que em boa hora recebi dos meus pais quando arranjei a minha primeira casa. Um dos melhores presentes que recebi. Quem me conhece, dá-me livros. Quase sempre. Os meus pais sabiam que eu amava esta colecção. A edição do Círculo de Leitores é boa, pois sendo já de 1981, está em excelente estado. Desde criança que nunca precisaram de me ordenar que lesse. Eu mesma surripiava das estantes dos pais, irmãos ou de quem fosse, os livros que chamavam por mim. Foi desse modo que, no início da adolescência e lá para o meio, li Os Maias com gosto, por duas vezes, durante as férias de verão. Quando, no 11º ano, eu e os meus colegas tivemos de ler o calhamaço que fazia parte do programa escolar, já eu falava entusiasticamente dos amores dramáticos de Carlos e Eduarda, do Ramalhete e do requinte com que o Eça descrevia pessoas e lugares. Muitos olhavam para mim como se eu fosse um alien. Uma vez que  não havia computadores nem internet e "dava um trabalhão ler quase setecentas páginas ou ir para as bibliotecas à procura de uma versão mais curta" (diziam eles), foi também com prazer que cheguei a escrever alguns resumos para dar aos amigos mais preguiçosos.
Ah, a colecção verde com os livros do Eça! As manhãs passadas com o meu pai, no café perto de Sesimbra, a ler, com um garoto e um bolo sobre a mesa! A despreocupação da época balnear, em que podia ficar assim, mergulhada num livro, sem pensar em mais nada...! Depois crescemos e nunca mais conseguimos fazer o mesmo. Não assim. A nossa mente divaga, foge das páginas, a pensar no arroz que está a cozer, na roupa que temos que engomar, naquele trabalho que nunca mais se confirma, nos telefonemas que temos de fazer, no familiar doente, no apelo de um amigo, na angústia de pagar as contas, nos prazos que temos de cumprir. 
Abro o livro que tenho aqui ao meu lado e, como marcador, encontro uma folha A5 grossa, já amarelada pelo tempo, escrita à máquina: é o índice da colecção de vinte volumes, que há trinta anos a minha mãe escreveu, para facilitar a consulta, uma vez que nas lombadas não consta o nome de cada obra, uma pequena falha do Círculo de Leitores, que temos de perdoar. Apenas as extremidades da primeira página ganharam um tom caramelizado: leio "A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete."
Enfio o nariz no centro do livro que não abria há tantos anos, mudando-o das estantes para caixas de cartão, das caixas de cartão para novas estantes, de casa em casa, e com ele assim, finalmente reaberto, aspiro aquele cheiro a velho, a mofo, que me transporta para a casa de Sesimbra - um cheiro que ele guardou para sempre, talvez para me obrigara a ser criança outra vez. Aspiro-o novamente, pois este cheiro que amo nunca me cansa e... o passado é uma tela que me passa diante dos olhos fechados. Há uma espécie de paz que me inunda o peito. Sinto gratidão por ele, por continuar igual a si mesmo, o mesmo cheiro, cada palavra no mesmo lugar, apesar de tanto caos. Por instantes já não estou aqui, deixei de ser esta mulher de meia idade, para tornar a ser a menina que podia passar horas e dias a ler. Nas margens, aqui e ali, há pequenas manchas acastanhadas. Tenho quase a certeza de que são salpicos muito antigos de café, uma migalha de bolo gordurosa, uma gota de garoto adocicado com um pacote de açúcar Nicola. 
Não são apenas as histórias que nos fazem viajar, as narrativas que se escondem dentro dos livros: muitas vezes são os próprios livros, o livro como corpo que também, tal como nós, vai sendo levado pela sua própria vida. 
Comecei hoje a minha terceira leitura d' Os Maias. Um passado dentro do meu próprio passado, num tempo em que pensar no futuro nos provoca tanto medo. É preciso retirar os livros das estantes. Sujá-los, relê-los, fazê-los viver, conhecer cada divisão da nova casa, andar nas nossas mãos. Todos precisamos de salvação. Até os livros.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

a.m. pires cabral

Pelo nome do autor, que pouco ou nada me dizia, pelo título e pela sobriedade da capa, peguei neste livro sem grandes expectativas (também...quem é que tem expectativas hoje em dia?), julgando estar prestes a encontrar-me com uma escrita maçuda, intelectualizada, de difícil descodificação, quiçá plena de referências políticas, históricas, filosóficas, antropológicas, sei lá.
E qual o meu espanto ao ver, logo nas primeiras páginas, que a sua leitura iria constituir um prazer.
Uma narrativa rica, com boas personagens, uma história bem portuguesa, cheia de regionalismos, com graça, homenageando o Douro e a região Transmontana, um cenário ao jeito antigo, narrativa muito bem contada, com bons diálogos, sem que o entusiasmo da nossa leitura esmoreça. Uma surpresa, este Cónego. Uma tiragem de 1200 exemplares, edição da Cotovia, de 2007. Ainda no Natal de 2011 andava aí, vendendo pouco, injustamente. Por diversas vezes me deu a sensação de que lia Camilo. Ganhei um novo autor que desconhecia, vergonhosamente, para mais, tendo já sido por várias vezes premiado, inclusive com o Prémio D. Dinis! Irei mergulhar nos seus versos, certamente, e procurar outras obras. Obrigada, P. :)

sábado, 18 de agosto de 2012

Blimunda

A revista Blimunda de agosto já está no site www.josesaramago.org e pode ser descarregada. A edição é dedicada ao centenário do escritor brasileiro Jorge Amado, que ocorreu no dia 10 de agosto, com textos de Luis Schwarcz, Carlos Reis, Lilia Schwarcz, Pilar del Río e José Saramago. Também na literatura destinada aos mais novos surge o escritor baiano, com uma análise sobre a receção da obra "O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá" nas escolas portuguesas. A morte dos pais na literatura juvenil é outro tema tratado nesta revista, e na secção Saramaguiana encontra "O cão, personagem dos romances de José Saramago".
(informação retirada do mural da Fundação Saramago, no facebook)