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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Garden

Winter's hard to rhyme
We're prisoners in some icy pantomime
Just waiting for the wind to change his mind
And sing us green
April starts to whisper to the trees
I hoe and you plant the trees
Canterbury Bells begin to ring
The sparrows are stealing string
Hollycocks and foxglove to the knee
Now life's a major key
We've got mud between our toes
This is how the garden grows
Midnight in July
We see the season spread across the sky
We wake up to a nosy dragonfly
Against the screen
You just love to bite me where it shows
You kiss me
Then hide my clothes
Running through the sprinklers nearly raw
We've just disproved Newton's law
How can I break even with the weeds
In love so beyond my needs
Blossoms on you Mama's rose
This is how the garden grows
Lyrics: Michael Franks, "How the garden grows"
Paiting: Monet

terça-feira, 14 de junho de 2016

Graça Pires




Despojos antigos

«Enterro no chão a multiplicidadede despojos antigos.
São de pedra como as casas envelhecidas
onde as teias roçam todas as traves
e se cruzam com a poeira dos móveis.
São lobos vagueando pela noite
a farejar insónias.
São raízes enredadas nos artifícios
da idade, nas preces de cada dia,
nos retratos de família.
Procuro agora a fonte mais distante
para inscrever na água corrente
a sublime nudez da juventude.
E alinho contra os muros
os sonhos que morreram no meu peito.»

GRAÇA PIRES
De Uma claridade que cega, Poética edições, 2015
Para mais, aceda ao blog ortografia do olhar

domingo, 10 de maio de 2015

Mia Couto


MUDANÇA DE IDADE

Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.

sábado, 18 de abril de 2015

Abril na Lx Factory


Para fazer tempo (como se fosse possível), na loja em frente à entrada, namoro vestidos e túnicas que não posso comprar. Um chá earl grey ao fim da tarde, na Landeau, com a Rosarinho, amiga que há cerca de 25 anos tem uma fatia do meu coração. Não houve direito a bolo de chocolate. Uma espreitadela à escrita de Rui Miguel Fragas, que me disse muito, com o seu "O nome das árvores". Os pequenos livros da Poética empilhados sobre a mesa. O tablet, as fotografias da praxe, para pôr no facebook. Sou agora mais uma, sucumbi às selfies. Faz-me sentir que pertenço ao mundo dos vivos. Chegaram a Maria João e a Virgínia, editora da Poética e aniversariante. Mais selfies. A angústia de não ter preparado nada, como se fosse preciso. Ler Devagar. Chegam a Raquel e o Ricardo. Sou apresentada a José Pinho, o "pai" desta livraria de culto, a paixão pelos livros, por receber bem as pessoas nesta casa que se recusa a fechar as portas.
Sol posto, instala-se o frio. Sabe bem ir por dentro, até ao outro extremo, onde se encontra o restaurante malaio. Somos sete à mesa. Alguém nos apresenta o João Pestana, este, não o outro, que está bem longe de chegar. Ocupamos a mesa reservada para um grupo de teatro que só chegará depois do início da nossa tertúlia. Perfeito. Os seis pratos que partilhamos, acompanhados por vinho branco e tinto, são generosos em cores e sabores. Camarão, carne de porco e muitos vegetais e especiarias do Oriente. Chega o José Luís Outono. Falamos de viagens, de música, de comida, claro, ou não fôssemos portugueses. Partilhamos sobremesas, bebemos café, cantamos os parabéns à Virgínia em cante alentejano, com a melodia da "Internacional" e do "Grândola vila morena". Risos.
Subimos ao primeiro andar, onde alguns participantes já aguardam. A Virgínia faz as devidas apresentações, com a simpatia e o tom informal que lhe são próprios e, à pergunta da Raquel, feita em tom de brincadeira - onde estava no 25 de Abril? -, instala-se o mote: as idades variam, há diferentes gerações e distintas são as memórias. A tertúlia ganha um carácter de quase terapia de grupo: celebrando, exorcizando, em confissões, memórias, desabafos, alertas, o que foram aqueles dias de 1974, o que significou a revolução, o antes e o depois, a ditadura, a censura, o espanto, a liberdade, sempre a liberdade como pano de fundo deste encontro salpicado de versos de poetas presentes uns, ausentes outros. Leitura de versos e prosas em papel, em iphones e tablets, na coabitação promíscua em que as palavras se vão arrumando nos tempos modernos, versos que se resgatam em gadgets cujas baterias estão prestes a terminar. Mas sempre chegam, as palavras que falam de liberdade.
Obrigada, Virgínia, por este encontro. Gostei de poder abraçar, enfim, uma amiga até hoje virtual: a poetisa Graça Pires; de conhecer um pouco ao recheio dos livros da Poética e dos seus autores, tais como Eufrázio Filipe, Gisela Ramos Rosa, Lídia Borges, Maria Isabel Fidalgo, Manuel Veiga, Rui Miguel Fragas e, claro, Rosário Ferreira Alves, cuja escrita conheço desde os versos que ela já escrevia, quando andávamos juntas na faculdade.
Descemos à livraria. Por fim o espumante oferecido pelo José Pinho, uma saúde à Virgínia, uma espreitadela aos desenhos maravilhosos do João Pestana, no seu Moleskine, mais fotografias que saíram desfocadas e dois dedos de conversa com a Raquel, que há tanto eu queria conhecer melhor.
Alcântara, sexta-feira à noite: uma operação stop com direito a balão, sem consequências, felizmente. A celebração que nos corre nas veias não pode ser detida nem censurada. Continuamos com as nossas palavras e com a liberdade do movimento sobre rodas. Foi este o nosso Abril. Livre, apesar de tudo.
Raquel Serejo Martins lendo excertos do seu romance "Pretérito Perfeito"
Virgínia do Carmo, editora da Poética
 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Tomas Tranströmer

Estocolmo, 1931-26 Março 2015
Poeta, tradutor e psicólogo sueco

PÁSSAROS MATINAIS 

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.
Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.
Não há vazios por aqui.
Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

terça-feira, 24 de março de 2015

Adeus, Herberto Helder

A Bicicleta pela Lua Dentro - Mãe, Mãe

A bicicleta pela lua dentro - mãe, mãe - 
ouvi dizer toda a neve. 
As árvores crescem nos satélites. 
Que hei-de fazer senão sonhar 
ao contrário quando novembro empunha - 
mãe, mãe - as tellhas dos seus frutos? 
As nuvens, aviões, mercúrio. 
Novembro - mãe - com as suas praças 
descascadas. 

A neve sobre os frutos - filho, filho. 
Janeiro com outono sonha então. 
Canta nesse espanto - meu filho - os satélites 
sonham pela lua dentro na sua bicicleta. 
Ouvi dizer novembro. 
As praças estão resplendentes. 
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto. 
Aviões passam no teu nome - 
minha mãe, minha máquina - 
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve. 

Avança, memória, com a tua bicicleta. 
Sonhando, as árvores crescem ao contrário. 
Apresento-te novembro: avião 
limpo como um alfabeto. E as praças 
dão a sua neve descascada. 
Mãe, mãe — como janeiro resplende 
nos satélites. Filho — é a tua memória. 

E as letras estão em ti, abertas 
pela neve dentro. Como árvores, aviões 
sonham ao contrário. 
As estátuas, de polvos na cabeça, 
florescem com mercúrio. 
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro, 
é a neve avançando na sua bicicleta. 

O alfabeto, a lua. 

Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem. 
Era pesada, ao colo, cheia de neve. 
la dizendo o teu nome de janeiro. 
Enxofre — mãe — era o teu nome. 
As letras cresciam em torno da terra, 
as telhas vergavam ao peso 
do que me lembro. Começo a lembrar-me: 
era o atum negro do teu nome, 
nos meus braços como neve de janeiro. 

Novembro — meu filho — quando se atira a flecha, 
e as praças se descascam, 
e os satélites avançam, 
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem 
(eu vi): era pesada. 

O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas. 
Laranjas de pedra - mãe. Resplendentes, 
estátuas negras no teu nome, 
no meu colo. 

Era a neve que nunca mais acabava. 

Começo a lembrar-me: a bicicleta 
vergava ao peso desse grande atum negro. 
A praça descascava-se. 
E eis o teu nome resplendente com as letras 
ao contrário, sonhando 
dentro de mim sem nunca mais acabar. 
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua 
batia pelo ar fora. 
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios 
do meu nome negro, e nunca mais 
acabava de nevar. 

Era novembro. 

Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio 
crescendo com toda a força em volta 
da terra. Mãe - se morreste, porque fazes 
tanta força com os pés contra o teu nome, 
no meu colo? 
Eu ia lembrar-me: os satélites todos 
resplendentes na praça. Era a neve. 
Era o tempo descascado 
sonhando com tanto peso no meu colo. 

Ó mãe, atum negro — 
ao contrário, ao contrário, com tanta força. 

Era tudo uma máquina com as letras 
lá dentro. E eu vinha cantando 
com a minha paisagem negra pela neve. 
E isso não acabava nunca mais pelo tempo 
fora. Começo a lembrar-me. 
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos 
de peixe, tua coluna 
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha 
cantando na neve que nunca mais 
acabava. 

O teu nome negro com tanta força — 
minha mãe. 
Os satélites e as praças. E novembro 
avançando em janeiro com seus frutos 
destelhados ao colo. As 
estátuas, e eu sonhando, sonhando. 
Ao contrário tão morta — minha mãe — 
com tanta força, e nunca 

— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora. 

Herberto Helder, in 'Poemas Completos'

Funchal, 1930 - Cascais, 24 Março 2015

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Alice Vieira

Em jeito de votos de bom fim de semana, deixo-vos com um poema do novo livro de Alice Vieira. Desinteressadamente, escolhi este, dedicado ao lugar onde moro, pertinho, pelo menos...Da...
ERICEIRA
«vivi muitos anos frente ao mar

o sol chegava sempre muito tarde
qando as mulheres já tinham regressado a casa
para o almoço e os homens falavam de marés vivas no café central
sabíamos as horas pelo uivo do farol e
havia um amigo que nos dizia que
aquela praia não tinha banhistas mas
apenas devotos e outro
encharcava-se em wisky e escrevia
romances de anjos que às vezes
vinham de avião e caíam nas rochas
para nos salvar
às vezes os barcos não voltavam e as mulheres
acabavam por adormecer na areia esperando
milagres em que já tinham aprendido a
não acreditar
e os turistas sorriam muito e
tiravam muitas fotografias
e os jornais falavam de obras que
eram urgentes e ninguém fazia
as crianças lançavam estrelas de papel
que subiam mais alto no céu que as verdadeiras
e à noite ouviam histórias de marinheiros que
erravam pelo mundo e perguntavam que
faremos se alguma noite nos baterem à porta
pedindo para entrar
mas como caíam de sono nunca
ouviam a resposta que ninguém tinha
para lhes dar
foi pela coragem desse tempo que
jurei sempre
mesmo agora em que te espero como a
um barco desaparecido embora
já nada tenha para te dar e nada
reste de mim nem da praia nem da casa
esquecida ao longe com o nevoeiro
o farol os naufrágios os marinheiros errantes
nesta fotografia a preto e branco onde me vejo
pés enterrados na areia da vazante
o meu corpo embalando o sono de 
uma criança morta
eu
há tantos anos
eu sem pensar em nada»

sábado, 13 de setembro de 2014

Graça Pires

 «Percorro os fonemas como se dançasse,
Envolta numa túnica de água
guarnecida de espelhos.
Sou Ariadne vestida de espanto.
Nos meus dedos cintilam longuíssimos fios
de um novelo de versos e de sonhos
com que me quero salvar.
Já não me lembro de que mitologia saí.
O meu labirinto tem a forma de um pássaro
conivente com a noite.»
(in «Labirintos», 1997, © GRAÇA PIRES, imagem © Sharon Johnstone)

«Caminhamos por entre as árvores
com a boca a saber a menta e a malvas.
Trazemos nas mãos um herbário
de tão fugaz esperança
que nenhuma outra se tece sem desvios
na dobra do peito.
Talvez existam anjos com olhos de musgo
à beira dos abismos por onde se esgueiram 
os dias que nos roubam a eternidade.
Talvez a turbulência verde na borda dos ribeiros
unja de seiva a passagem do tempo.»
(in «A incidência da luz», 2011, © GRAÇA PIRES)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Mia Couto

ERRO POÉTICO
Sou o açúcar

procurando a formiga.

Meu carreiro

não tem linha.

É um ponto, um planetário grão.

A minha natureza

é uma inacabada caligrafia:

apenas os erros me defendem.

O amor apenas

me rasura a alma.

Com a formiga
partilho alucinogénicos:
migas de paixão, migalhas de doçura.

In "Tradutor de chuvas"

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Silêncio

Se este silêncio de hoje fosse meu, seria assim...

SÚPLICA
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,

E que nele posso navegar sem rumo,

Não respondas

Às urgentes perguntas

Que te fiz.

Deixa-me ser feliz

Assim,

Já tão longe de ti como de mim.

(...)

Há calmaria...

Não perturbes a paz que me foi dada.

Ouvir de novo a tua voz seria

Matar a sede com água salgada.

MIGUEL TORGA

domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura

Morreu Vasco Graça Moura

"As aves migram em setembro

nem vou com elas, nem

guardo delas 

a mínima memória


escurece mais cedo,

o tempo não se rouba, 

escoa-se como o frio

por uma camisola


até dentro da pele 

as aves migram

calmamente. eu

permaneço aqui


de guarda à água lisa que viu passar seus bandos

e em que hás-de debruçar-te.

sábado, 22 de março de 2014

Águas

Apesar de, no Brasil, Março representar o final do Verão (enquanto que, para nós, representa o princípio da Primavera), aqui ficam as «Águas de Março» de António Carlos Jobim, em honra da efeméride de hoje: Dia Mundial da Água. Abaixo, a histórica gravação de Elis e Jobim, em estúdio, feita em 1974 (e filmada já em playback, mas a malta perdoa):  tem a idade da nossa Democracia. E a propósito, reparem no pormenor: a Elis está de cigarro na mão! :-) outros tempos...
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumueira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
Pau, pedra, fim, caminho
Resto, toco, pouco, sozinho
Caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Benédicte Houart

são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia


(NOTA - escrito em português, no original: a autora nascida na Bélgica - pai belga, mãe portuguesa -, mudou-se para Portugal na infância, em 1975 e por aqui ficou desde então).

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Rosa

A Rosa deixou-nos faz hoje 4 anos...
E chegamos aqui. Vindos da vida.
Já esquecidos do som da nossa voz.
Sobreviventes da cidade erguida

de costas para a foz.


Viemos de tão longe pela areia

que há algo de alga a nos prender os pés.

A paisagem de gestos encontrei-a

nas palmeiras à beira das marés.

Vemos passar a migração de patos

bravos e breves a rasar a água.

Já levantámos voo tantas vezes

que em nós só o olhar é que viaja.

Arremessada à praia do teu corpo

descanso então do grito da chegada:

descobrimos que o sol não estava morto

só estava posto, e rasga a madrugada.

Pode parar o fio do pensamento

a corrida do medo contra o sono.

Bebo afinal o copo do silêncio

que faz calar o vento no teu ombro.

(in "As Pequenas Palavras")

Obrigada, Alice, pela excelente escolha do poema.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Dezembro

NASCEU DEZEMBRO

Nenhum céu nos basta, mas mesmo assim

Dezembro continua a nascer

agarrado ao coração por um ramo de azevinho.

Por todo o lado as palavras quentes rodopiam

e apesar do gelo

o mundo perde cantos e arestas

sem diferenças entre ruas e ruelas.

E vemo-lo a embrulhar-se em fitas coloridas

bolas doces e afectos;

tristezas que sorriem

ao ritmo intermitente da claridade nas janelas.

Nenhum céu nos basta, é certo

porque ébria e fria, é a neve a cair no inverno.

Mas que importa: é Dezembro

e quem sabe, talvez

a ponta de uma estrela nos caia

bem no centro do peito

e seja ela a chama iluminada

que entre rochedos e musgos

rasgue a noite de novo

e nos leve a uma outra estrada

onde jamais se perca o sentido

do celeste azul que cobre toda a humanidade;

razão primeira de todos os presépios.


(Dezembro 2013)


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Rosário Ferreira Alves

Sai amanhã e eu terei a honra de apresentá-lo, na LER DEVAGAR, (Lx Factory), em Lisboa.
dia após dia
a noite
a equilibrar-se na corda bamba
da tua voz
-
nas mãos transportas as candeias
que me pendem do olhar

eis um tempo esquartilhado
com a fundura de uma dor cavada
em túneis sob a pele
-
debruado com as tuas raízes de árvore
e ramos maculados de sal

o ar
não te tem sido de fácil digestão
-
ao tempo de inspirar
as pálpebras caem
com estrondo sobre o rosto

e não há lugar sob as unhas
para guardar os sóis de outras primaveras

depois que a rede me seja cama
aguardo-te
do outro lado da corda

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

António Ramos Rosa

Mais um poeta que partiu, deixando-nos mais pobres... é um dos exemplos de puro talento, um homem que, por questões de saúde, nem chegou a terminar o ensino secundário....no entanto, isso não o impediu de ganhar inúmeros prémios literários e de ser respeitado e acarinhado por muitos. Deixo-vos com um simples aperitivo, um poema, como não poderia deixar de ser...

"É por ti que escrevo que não és musa nem deusa 

mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte 
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso." 

(António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto')


Para saber mais sobre António Ramos Rosa, clique AQUI 


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Russel Edson

Uma vez um homem encontrou duas folhas
e entrou em casa
segurando-as com os braços esticados
dizendo aos pais que era uma árvore.

Ao que eles disseram
então vai para o pátio e não cresças na sala
pois as tuas raízes podem estragar a carpete.

Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore
e deixou cair as folhas.

Mas os pais disseram olha é outono.

Russel Edson

(Tradução de José Alberto Oliveira)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Guerra Junqueiro




O melro, eu conheci-o: 
Era negro, vibrante, luzidio, 
          Madrugador, jovial; 
          Logo de manhã cedo 
Começava a soltar, dentre o arvoredo, 
Verdadeiras risadas de cristal. 
E assim que o padre-cura abria a porta 
          Que dá para o passal, 
Repicando umas finas ironias, 
          O melro; dentre a horta, 
          Dizia-lhe: "Bons dias!" 
          E o velho padre-cura 
não gostava daquelas cortesias. 

O cura era um velhote conservado, 
Malicioso, alegre, prazenteiro; 
Não tinha pombas brancas no telhado, 
          Nem rosas no canteiro: 
Andava às lebres pelo monte, a pé, 
          Livre de reumatismos, 
Graças a Deus, e graças a Noé. 
O melro desprezava os exorcismos 
          Que o padre lhe dizia: 
Cantava, assobiava alegremente; 
          Até que ultimamente 
          O velho disse um dia: 

"Nada, já não tem jeito!, este ladrão 
          Dá cabo dos trigais! 
          Qual seria a razão 
Por que Deus fez os melros e os pardais?!" 

          E o melro entretanto, 
          Honesto como um santo, 
          Mal vinha no oriente 
          A madrugada clara, 
Já ele andava jovial, inquieto, 
Comendo alegremente, honradamente, 
Todos os parasitas da seara 
Desde a formiga ao mais pequeno insecto. 
E apesar disto, o rude proletário, 
          O bom trabalhador, 
Nunca exigiu aumento de salário. 

Que grande tolo o padre confessor! 
         Foi para a eira o trigo; 
          E, armando uns espantalhos, 
          Disse o abade consigo: 
"Acabaram-se as penas e os trabalhos." 
Mas logo de manhã, maldito espanto! 
          O abade, inda na cama, 
Ouvindo do melro o costumado canto, 
          Ficou ardendo em chama; 
          Pega na caçadeira, 
          Levanta-se dum salto, 
E vê o melro, a assobiar, na eira, 
Em cima do seu velho chapéu alto! 

          Chegou a coisa a termo 
Que o bom do padre-cura andava enfermo; 
          Não falava nem ria, 
Minado por tão íntimo desgosto; 
E o vermelho oleoso do seu rosto 
Tornava-se amarelo dia a dia. 
E foi tal a paixão, a desventura 
(Muito embora o leitor não me acredite), 
          Que o bom do padre-cura 
          Perdera  o apetite! 

Andando no quintal, um certo dia, 
Lendo em voz alta o Velho Testamento, 
Enxergou por acaso (que alegria!, 
          Que ditoso momento!) 
Um ninho com seis melros, escondido 
          Entre uma carvalheira. 

E ao vê-los exclamou enfurecido: 

"A mãe comeu o fruto proibido; 
Esse fruto era minha sementeira: 
          Era o pão, e era o milho; 
          Transmitiu-se o pecado. 
E, se a mãe não pagou, que pague o filho. 
É doutrina da Igreja. Estou vingado!" 

E, engaiolando os pobres passaritos, 
          Soltava exclamações: 
          "É uma praga. Malditos! 
Dão me cabo de tudo esses ladrões! 
Raios os partam! Andai lá que enfim" 

E deixando a gaiola pendurada, 
Continuou a ler o seu latim, 
          Fungando uma pitada. 

Vinha tombando a noite silenciosa; 
E caía por sobre a natureza 
Uma serena paz religiosa, 
          Uma bela tristeza 
Harmónica, viril, indefinida. 
          A luz crepuscular 
Infiltra-nos na alma dorida 
Um misticismo heróico e salutar. 
As árvores, de luz inda douradas, 
Sobre os montes longínquos, solitários, 
Tinham tomado as formas rendilhadas 
          Das plantas dos herbários. 
Recolhiam-se a casa os lavradores. 
Dormiam virginais as coisas mansas: 
          Os rebanhos e as flores, 
          As aves e as crianças. 

Ia subindo a escada o velho abade; 
A sua negra, atlética figura, 
Destacava na frouxa claridade, 
          Como uma nódoa escura. 
E, introduzindo a chave no portal, 
          Murmurou entre dentes: 

          "Tal e qual tal e qual! 

Guisados com arroz são excelentes."           * * * * * * 
          
Nasceu a Lua. As folhas dos arbustos 
Tinham o brilho meigo, aveludado, 
Do sorriso dos mártires, dos justos. 
Um eflúvio dormente e perfumado 
Embebedava as seivas luxuriantes. 
Todas as forças vivas da matéria 
Murmuravam diálogos gigantes 
          Pela amplidão etérea. 
São precisos silêncios virginais, 
Disposições simpáticas, nervosas, 
Para ouvir falar estas falas silenciosas 
          Dos mundos vegetais. 
As orvalhadas, frescas espessuras, 
Pressentiam-se quase a germinar. 
Desmaiavam-se as cândidas verduras 
Nos magnetismos brancos do luar. 
.................................................. 
.................................................. 
E nisto o melro foi direito ao ninho. 
Para o agasalhar, andou buscando 
Umas penugens doces como arminho, 
Um feltrozito acetinado e brando. 
          Chegou lá, e viu tudo. 
Partiu como uma frecha; e, louco e mudo, 
Correu por todo o matagal; em vão! 
Mas eis que solta de repente um grito 
Indo encontrar os filhos na prisão. 

"Quem vos meteu aqui?!" O mais velho, 
Todo tremente, murmurou então: 

"Foi aquele homem negro. Quando veio, 
Chamei, chamei Andavas tu na horta 
Ai que susto, que susto!, ele é tão feio! 
Tive-lhe tanto medo! Abre esta porta 
E esconde-nos debaixo da tua asa! 
Olha, já vão florindo as açucenas; 
Vamos a construir a nossa casa 
          Num bonito lugar 
Ai! quem me dera, minha mãe, ter penas 
        Para voar, voar!" 

          E o melro alucinado 
          Clamou: 

                         "Senhor! senhor! 
É porventura crime ou é pecado 
          Que eu tenha muito amor 
          A estes inocentes?! 
Ó natureza, ó Deus, como consentes 
Que me roubem assim os meus filhinhos, 
          Os filhos que eu criei! 
Quanta dor, quanto amor, quantos carinhos, 
          Quanta noite perdida 
          Nem eu sei... 
          E tudo, tudo em vão! 
          Filhos da minha vida 
          Filhos do coração!!! 
Não bastaria a natureza inteira, 
Não bastaria o Céu par voardes, 
E prendem-vos assim desta maneira! 
          Covardes! 
A luz, a luz, o movimento insano, 
Eis o aguilhão, a fé que nos abrasa 
          Encarcerar a asa 
É encarcerar o pensamento humano. 
A culpa tive-a eu! Quase à noitinha 
          Parti, deixei-os sós 
A culpa tive-a eu, a culpa é minha, 
          De mais ninguém! Que atroz! 
          E eu devia sabê-lo! 
Eu tinha obrigação de adivinhar 
Remorso eterno! eterno pesadelo! 
................................................. 
Falta-me a luz e o ar! Oh, quem me dera 
          Ser abutre ou fera 
Para partir o cárcere maldito! 
E como a noite é límpida e formosa! 
          Nem um ai, nem um grito 
Que noite triste!, oh, noite silenciosa!" 

E a natureza fresca, omnipotente, 
          Sorria castamente 
Com o sorriso alegre dos heróis. 
          Nas sebes orvalhadas, 
Entre folhas luzentes como espadas, 
          Cantavam rouxinóis. 

          Os vegetais felizes 
Mergulhavam as sôfregas raízes 
A procurar na terra as seivas boas, 
Com a avidez e as raivas tenebrosas 
Das pequeninas feras vigorosas 
Sugando à noite os peitos das leoas. 
A lua triste, a Lua merencória, 
          Desdémona marmórea, 
Rolava pelo azul da imensidade, 
Imersa numa luz serena e fria, 
          Branca como a harmonia, 
          Pura como a verdade. 
E entre a luz do luar e os sons das flores, 
Na atonia cruel das grandes dores, 
          O melro solitário 
Jazia inerte, exânime, sereno, 
Bem como outrora o Nazareno 
          Na noite do calvário! 

Segundo o seu costume habitual, 
          Logo de madrugada 
O padre-cura foi para o quintal, 
Levando a Bíblia e sobraçando a enxada. 
          Antes de dizer missa, 
O velho abade inevitavelmente 
          Tratava da hortaliça 
E rezava a Deus-Padre Omnipotente 
          Vários trechos latinos, 
Salvando desta forma, juntamente, 
As ervilhas, as almas e os pepinos. 

E já de longe ia bradando: 

                                 "Olé! 
          Dormiram bem? Estimo 
          Eu lhes darei o mimo, 
Canalha vil, grandíssima ralé! 
Então vocês, seus almas do Diabo, 
Julgam que isto que era só dar cabo 
          Da horta e do pomar, 
E o bico alegre e estômago contente, 
E o camelo do cura que se aguente, 
Que engrole o seu latim e vá bugiar! 
Grandes larápios! Era o que faltava 
          Vocês irem ao milho, 
          E a mim mandar-me à fava! 
Pois muito bem, agora que vos pilho 
Eu vos ensinarei, meus safardanas! 
Vocês são mariolões, são ratazanas, 
Têm bico, é certo, mas não têm tonsura 
E, nas manhas, um melro nunca chega 
Às manhas naturais de um padre-cura. 
O melhor vinho que encontrar na adega 
É para hoje, olé! Que bambochata! 
Que petisqueira! Melros com chouriço! 
          E então a Fortunata 
Que tem um dedo e jeito para isso! 
Hei-de comer-vos todos um a um, 
Lambendo os beiços, com tal gana enfim, 
Que comendo-vos todos, mesmo assim 
Eu fico ainda quase em jejum! 
E depois de vos ter dentro da pança, 
          Depois de vos jantar, 
Vocês verão como o velhote dança, 
Como ele é melro e sabe assobiar!" 

Mas nisto o padre-cura, titubeante, 
          Quase desfalecendo, 
Atónito de horror, parou diante 
          Deste drama estupendo: 

O melro, ao ver aproximar o abade, 
          Despertou da atonia, 
Lançando-se furioso contra a grade 
          Do cárcere. Torcia, 
Para os partir os ferros da prisão, 
Crispando as unhas convulsivamente 
          Com a fúria dum leão. 
Batalha inútil, desespero ardente! 
Quebrou as garras, depenou as asas 
          E alucinado, exangue, 
          Os olhos como brasas, 
Herói febril, a gotejar em sangue, 
Partiu num voo arrebatado e louco, 
          Trazendo, dentro em pouco, 
Preso do bico, um ramo de veneno. 
E belo e grande e trágico e sereno, 
Disse: 
          "Meus filhos, a existência é boa 
Só quando é livre. A liberdade é a lei, 
Prende-se a asa mas a alma voa 
Ó filhos, voemos pelo azul! Comei!" - 

E mais sublime do que Cristo, quando 
Morreu na Cruz, maior do que Catão, 
Matou os quatro filhos, trespassando 
Quatro vezes o próprio coração! 
Soltou, fitando o abade, uma pungente 
Gargalhada de lágrima, de dor, 
E partiu pelo espaço heroicamente, 
Indo cair, já morto, de repente 
Num carcavão com silveiras em flor. 

E o velho abade, lívido d'espanto, 
          Exclamou afinal: 
"Tudo o que existe é imaculado e é santo! 
Há em toda a miséria o mesmo pranto 
E em todo o coração há um grito igual. 
Deus semeou d'almas o universo todo. 
Tudo que o vive ri e canta e chora 
Tudo foi feito com o mesmo lodo, 
Purificado com a mesma aurora. 
Ó mistério sagrado da existência, 
          Só hoje te adivinho, 
Ao ver que a alma tem a mesma essência, 
Pela dor, pelo amor, pela inocência, 
Quer guarde um berço, quer proteja um ninho! 
Só hoje sei que em toda a criatura, 
Desde a mais bela até à mais impura, 
Ou numa pomba ou numa fera brava, 
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura! 
............................................................ 
Ah, Deus é bem maior do que eu julgava" 

E quedou silencioso. O velho mundo, 
Das suas crenças antigas, num momento, 
Viu-o sumir exausto, moribundo, 
          Nos abismos sem fundo 
Do temeroso mar do Pensamento. 
E chorou e chorou A Igreja, a Crença, 
Rude montanha, pavorosa, escura, 
Que enchia o globo com a sombra imensa 
Dos seus setenta séculos d'altura; 
O Himalaia de dogmas triunfantes, 
Mais eternos que o bronze e que o granito, 
Onde aos profetas Deus falava dantes, 
Entre raios e nuvens trovejantes, 
Lá dos confins sidérios do infinito; 
Esse colosso enorme, em dois instantes 
Viu-o tremer, fender-se e desabar 
          Numa ruína espantosa, 
Só de tocar-lhe a asa vaporosa 
Duma avezinha trémula, a expirar! 
................................................. 
................................................. 
E, arremessando a Bíblia, o velho abade 
Murmurou: 
                "Há mais fé e há mais verdade, 
          Há mais Deus concerteza 
Nos cardos secos dum rochedo nu 
Que nessa Bíblia antiga Ó Natureza, 
A única Bíblia verdadeira és tu!..."


("O Melro - A velhice do padre eterno", GUERRA JUNQUEIRO)

Blogue do ilustrador AQUI

Obrigada, Rosarinho :)