quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Caleidoscópios

Oss caleidoscópios sempre exerceram sobre mim um estranho fascínio; talvez por ser uma das muitas formas que eu tinha, na infância, de mergulhar em mundos mágicos sendo tão míope como sempre fui. Ali, de olho mergulhado num dos extremos de um tubo de cartão, provocando os movimentos das peças minúsculas, sentia-me encantada e segura, incapaz de me perder, de apanhar chuva, de ser perseguida por um carneiro mal-humorado ou de esfolar os joelhos.
Este é um caleidoscópio humano, uma campanha de sensibilização a favor da multiplicação das boas ideias: The power of ex. TED. Vale a pena ver em full screen.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Mentira

polígrafo
Mentira

Tantas camadas sobre cambadas sobre camadas,
Que já não é possível ver a matéria original;
Tantos sorrisos sobre risos sobre sorrisos;
Que já não consigo chorar.
Tanta mentira sobremaneira sobre mentira,
Que me tornei incapaz de dizer a verdade;
Tanta pose sobre posse sobre pose,
Que é impossível gritar, Fui possuído!;
Tanto muro sobre esconjuro sobre muro,
Que já não encontramos a raiz;
Tanto artifício sobre malefício sobre artifício,
Que já não sentimos a nossa pele;
Tanto que fingimos que conseguimos dizer,

Que é impossível a arte articular.

(© Vera de Vilhena, poemas inéditos)

domingo, 7 de setembro de 2014

Língua afiada

«Agora, fechada nesta sala, sinto-me velha e gasta. A minha lâmina já não é o que era. Vêm visitar-me com olhos curiosos e leem o meu magnífico currículo com algum desprezo, como se tivesse sido eu a inventar a lei da gravidade. Que culpa é que eu tenho? Se eu existi e tive uma época de glória, não foi por decisão minha. Apenas dei o meu melhor e tal não podem censurar-me. 
Mau grado a idade avançada, sinto-me bem viva e com muito para dar. Aqui encerrada há tantos anos, nesta inatividade que é de enlouquecer qualquer um, foram-me chegando histórias que me provocam um desejo de regressar ao ativo: só para castigar uns quantos, se é que me entendem. Sei que os tempos mudaram, é certo, e que já não se fazem espetáculos como os de outrora; mas confesso-vos que, se me deixassem, ainda era capaz de fazer perder a cabeça a muitos homens…»
(in «Coisandês, a vida nas coisas», excerto do conto «Língua Afiada», pág.35)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Irra, até que enfim!

Abriu a página do facebook e libertou o desabafo:
«- IRRA, ATÉ QUE ENFIM! Mais não posso dizer, o decoro não mo permite.»
Logo os comentários choveram:
- Estavas a ver que não! :-)
- Não sei do que falas, mas até que enfim, estou feliz por ti!
Uma mais atrevida perguntou:
- Apareceu-te o periodo que já estava atrasado, foi? Já te estavas a imaginar de fraldas e biberons outra vez, ahahaha!
- Boa! Não há male que sempre dure!
(male????)
-  Fixe! Quem espera sempre alcança!
E mais uma série de provérbios que lhe diziam exactamente aquilo que pretendia ouvir. O facto de ninguém ter a mínima ideia daquilo a que ela se referia com o: Irra até que enfim, não tinha qualquer importância:
- Estou feliz por ti, amiga!
- Deviam-te dinheiro, queres ver? Ai, este país vai de mal a pior!
- Tavas a ver que não!
- Boa!
- Que alívio, hein?
- Vá, conta lá!
Não faziam ideia. É que não faziam a mínima.
O engraçado é que aquela cambada de gente ignorante, relativamente à sua situação, bem intencionada, é certo, lhe havia trazido um estranho consolo.
O facebook era aquilo. Também podia ser aquilo. A solidariedade virtual, de café de esquina, pronta a servir.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

"Coisandês, a vida nas coisas" - lançamento

Meus Caros,

Venho convidar-vos para o lançamento oficial deste meu pequeno livro para leitores dos 10 aos 110 anos de idade. 
Ganhou o prémio Revelação APE/Babel e, ao fim de alguns percalços de publicação, viu este ano a luz do dia, e poderá agora chegar, enfim, às mãos dos seus leitores.
«Coisandês - a vida nas coisas» é isso mesmo: um conjunto de contos em que as coisas-objectos ganham vida e ficamos a conhecer alguns dos seus pensamentos, sonhos, emoções e aventuras.
As ilustrações no interior, a carvão, e de capa inteira, são de Vanessa Bettencourt. O prefácio é de Júlio Isidro.

(clique na imagem para aumentar)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Morte, livros e figos

Balanço do mês de Agosto:
Churrascadas cá em casa com família e amigos, filho de férias comigo (uma fartura, para tirar a barriga de misérias), um irmão "alentejano" de fim de semana connosco, Golfinho Azul, aulas de voz, 45 primaveras completadas e 15 do Micas (15! Como é que é possível); o candeeiro dos meus sonhos (enfim!), de presente de anos (obrigada Nanã); Hugo e Marta, Marta e Hugo e viva o amor, 47 livros vendidos, um convite para publicar um novo livro (depois revelo) e a notícia triste de duas mortes: uma em Hollywood, outra muito nossa: Robin Williams e Luís Pedro Fonseca. O rever de alguns rostos do passado nas cerimónias fúnebres, festivas, singulares, do Luís Pedro...e luz, muita luz nesta morte inesperada. E a Bix (cadela dos uns tios meus) também nos deixou, foi para o céu dos cães, saltar de nuvem em nuvem, a  tomar banhos de chuva, como cão de água que era.
A leitura irresistível d' O Pecado de Porto Negro, de Norberto Morais e o início de uma nova amizade. O mergulho em Capote, A Sangue Frio, edição de letra minúscula que, ainda assim, lá vou cumprindo, antes de atacar o monte de livros emprestados pela Patrícia Reis, uma amiga para todas as horas.
61 páginas revistas de um total de 302 (Philipp Vitor, um jovem escritor de ficção científica, a ser publicado na Amazon). Um verão a fingir, muito indeciso, num jogo de dá-e-tira; o meu banco BES a passar para "Novo Banco" e do resto dos noticiários nem vale a pena falar; dias de neura, dias de paz; hormonas instáveis, nem sei porquê, o corpo lá saberá mas não me diz ou diz e eu não entendo;  e uma insónia que me devolveu a vontade de escrever, para celebrar a rentrée.
A descoberta da verdade acerca da polinização dos figos. Ainda assim não deixarei de comê-los.
O meu Agosto. Mais coisa menos coisa.
Caro Setembro,
Traz-me um cesto recheado de coisas boas (e figos, já agora), para quem merece e tem o meu coração, como diz a P.

Antecipadamente grata

V

sábado, 23 de agosto de 2014

Até Setembro

Este blogue encontra-se em modo de férias. Em Setembro irá regressar em todo o seu esplendor.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Os sonhos e o riso

Boa semana para todos. Não se esqueçam de lutar pelos vossos sonhos e o vosso riso. Faz tanta falta...! Maximizem o ecrã e tentem lá não rir  com este video. :-)



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

À espera de um céu



Coberta por um céu encoberto, sufocada em silêncio e quietude, já quase esquecia o contorno das estrelas, o ruído macio das aves nocturnas. O meu céu era sem brilho nem luz. Um silêncio tecido em solidão. Depois chegou-me um céu azul-claro, cobrindo-se de véus transparentes, vestindo o contorno das árvores ainda nuas, até ser indigo, marinho de alto mar. A lua, minha companhia em madrugadas de escrita, surgiu de novo, trazendo o espanto de uma estrela cadente, depois outra, e outra, invadindo-me o peito de "ohs!" e "ahs!".
Vou sendo noite estrelada, na brisa morna que transportam as mãos dos amigos distantes. E o meu sorriso desempoeirado estende-se na raíz da gratidão.
Agora, para cumprir a noite, é vestir-me com asas de anjo e voar.

sábado, 2 de agosto de 2014

Promessa


Ontem nada. Amanhã uma churrascada para onze pessoas cá em casa e a chegada do filho para férias, um consolo. Segunda-feira darei aula de voz. Para quando a redenção do tempo perdido? Para quando o fim das desculpas? Afundo-me porque não me cumpro ou não me cumpro porque me afundo? E este cumprir fará sentido? Quem me obriga a tal promessa? Talvez as minhas certezas sejam o maior engano. Terça-feira. Terça-feira descruzo os dedos à força. Senão, quarta-feira pego na tesoura e vão fora.
Por falta de uso.
E a consciência me dirá se existe arrependimento ou o alívio dos dedos decepados.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Só isto

http://olhares.sapo.pt/agua-escorrendo-foto19934.html
Nos dias em que nada acontece, em que as horas são tão pequenas e insignificantes, o que dizer? Um festejo familiar que se resguarda na privacidade de um blogue privado; horas de sol, a dourar a pele; limitações de uso cibernético que se prendem com percalços financeiros acabados de resolver (por ora...) e conversas impossíveis de reproduzir. De resto? É o mundo a ser na mesma e eu também. O que significa que estamos longe de estar bem. E escrevemos o quê? É melhor optar pelo silêncio, dizer que aproveitámos para rever gente que amamos, DVD's que não víamos há muito, e referir, por alto, a organização da casa, das fotos digitais no disco do computador, da tentativa de conquistar um pouco mais de espaço, já que o tempo, esse, nos escorre pelos dedos como água impura.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Novo dia

Uma nova mensagem para sair disparada da espiral onde me encontrava perdida. Uma luz, um objecto querido, simbólico, a mostrar que a saída é possível e existe. A assinalar a trégua e o perdão. Para trás fica o choro e o desespero. Por mais que o abismo insista em puxar-me, saberei sempre iludi-lo. Nem que seja por um segundo, com travões forjados na mais espantosa das vontades. E o fogo também se apaga com a luz de um novo dia. Ainda bem que sempre vem um novo dia.

domingo, 13 de julho de 2014

Espiral

Sempre odiei equívocos.  Vivo mergulhada num deles há anos. Demasiados. Não sei como sair, como desfazê-lo. É uma espiral, em redemoinho do qual não é fácil sair. Sinto-me afundar dentro ou fora dele, para onde quer que vá, que esbraceje na corrente. Acorrentada ando eu há muito tempo. Correntes cujos anéis eu mesma forjei, um a um, na paciência da loucura. Que farei com esta lucidez que me chega em momentos de fogo, quando tudo parece arder dentro de mim? Quem me dera a coragem dos incendiários; ter o pretexto para a invenção de uma nova raiz. Tudo em mim é podridão, a gritar por um Recomeço que me salve.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Monstros

O tempo passa e eu não me cumpro. Nem sei se a promessa que fiz é uma mentira, simples teimosia. Um capricho de deuses profanos.  Se o escritor deve escrever sem pensar no leitor, que farei eu em absoluta solidão? Ser apenas eu? Eu comigo mesma? É ingrata, a mais absoluta solidão. Era preciso que a nossa companhia fosse grande, profunda. Descerrar o ferrolho de todas as portas, libertando os monstros? E se os monstros não meterem medo? Se os meus monstros forem ridículos? Há tanto tempo andam domesticados, que não é fácil deixá-los ser monstros outra vez. Atrás de portas aguardaram, pacientemente, a chegada da minha maturidade, que nunca chegou a chegar. Sou meia-mulher de meia-idade com meia-vida. Longe de ser completa. Não sei como tornar selvagem e livre o que há muito não sabe o que fazer com a luz. É na escuridão que os monstros refulgem, revelando os olhos maléficos que transformam em incerteza toda a luz solar, a ser negrume onde tudo cabe. E têm sido só meus, estes monstros. Com eles me entendo, sem mais ninguém. Que farei eu com monstros partilhados à luz do dia, sob o sol da tarde? Na minha cama, na minha solidão de meia-mulher me entendo. Como poderei eu ser mulher inteira, montando os meus monstros no carrossel, em plena feira? Dêem-me algodão doce e deixem-me brincar. E quando a lua surgir e todos dormirem, eu e os meus monstros ridículos, no comboio-fantasma, seremos unos, na intimidade da noite que só a nós pertence.

terça-feira, 8 de julho de 2014

A pele e o horizonte

M. acordou a meio da noite sem saber o que fazer ao corpo. Era como se a alma lhe quisesse sair de dentro, romper-lhe a pele. O corpo um cárcere, encerrando gritos que era incapaz de dar na escuridão do quarto, enquanto o marido dormia ao seu lado, tentando enroscar-se naquele corpo inquieto, que lhe fugia.
M. saiu da cama. Na mente dançavam infinitas frases que deveria escrever. O computador desligado dormia, sensato. O dia rompendo, tão cedo, pensou ela, julgando, na preguiça das suas manhãs bem dormidas, que o sol comparecia mais tarde ao encontro com o horizonte. Que sorte, pensou M., invejando aquela certeza de o sol contar com um horizonte a cada novo dia.
M. interrogava-se por onde andariam os seus próprios horizontes. E talvez por isso a alma andasse a querer sair-lhe do corpo, na certeza de ali não ter como ser sol, iluminar a pulsação do habitáculo que a prendia. A pele ainda grita, hesitante entre a ofensa e a tristeza de ver aquela alma oprimida, a querer fugir. Vai, gritou-lhe, vai ser horizonte fora de mim, que aqui apenas podes ser pernas e braços e pés e mãos...de um corpo paralisado.
E a alma foi, despida.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Mahler

Gustav Mahler nasceu a 7 de Julho de 1860. Deixo aqui uma das suas peças mais emblemáticas, "popularizada" no filme de Visconti "Morte em Veneza": o Adagietto, Sinfonia nº 5, aqui interpretado pela Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Leonard Bernstein.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

?

Decidi que me irei estar na tintas para uma série de coisas. Muitas vezes esgotamos energias no que não merece. E iremos canalizá-las para onde? Que faremos nós com a energia que nos sobra, depois de tudo o que tem de ser? Que formas temos nós de nos reinventarmos? Ultimamente só tenho interrogações. As respostas andam tão longe. E terei eu alguma vez tido respostas? Não liguem, não liguem ao que escrevo hoje, aliás, ao que escrevo seja quando for. Que sei eu? Tento apenas sobreviver nas minhas emoções. Sobreviver. Já que, de resto, é tão difícil. Mas emoções tenho, isso sim, para dar e vender. Mas quem quereria comprá-las? Quem quereria engordar as suas incertezas e pagar por isso? Nada mais tenho do que incertezas. E um vazio. Um vazio tremendo que não sei como preencher.
Nem uma linha.
Em mim apenas existe o engano.
Não sei como cumprir o papel a que me propus, não sei porquê.
E agora?
O que faço?

terça-feira, 1 de julho de 2014

Reticente

A sério? Quase uma semana sem vir ao blogue? Pois é, e então? Vem daí algum mal ao mundo? É alguma catástrofe? Vá, não é, não é. Onde é que está escrito que tenho de vir aqui todos os dias? Deixar o quê, se não tenho nada para dar? Dizer o quê? Que o meu cão teve um ataque de epilepsia ou uma reacção ao Frontline? Que teve convulsões e espumou à minha frente e eu julguei que morria? Que não tenho conseguido escrever uma linha? Que estou revoltada com uma série de coisas que continuam a acontecer neste país? Vá, tenham paciência, a paciência que eu não tenho. Outros dias virão, não quero estes, estou aqui atrás da porta, à espera que algo mude, muda, entretanto, sem boca, sem palavras, até que um texto decente possa aqui ser escrito, com a devida pontuação, pontificada a vida, a nossa...até lá, tenho apenas reticências...