quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O "pintor da luz"

Joaquín Sorolla y Bastida (27 de Fevereiro de 1863, Valência - 10 de Agosto de 1923, Cercedilla), é mais um artista maravilhoso que descobri há dias e de cuja existência nem desconfiava.
Atenção a este pormenor: tendo em conta a época em que viveu, Sorolla só poderia ter sido um pioneiro da fotografia a P/B, como ponto de partida, ou ter uma memória visual inacreditável; senão, vejam a composição dos seus quadros, que falam por si. Obrigada, Filipa.









terça-feira, 27 de outubro de 2009

A cor do horto gráfico


Levezinho e obscurantista, para condizer com estes dias de nevoeiro...
(FOTO: Hejha, Alemanha)

De: autor brasileiro  anónimo, selecção e adaptação minhas

Testículo: Texto pequeno
Abismado: Sujeito que caiu de um abismo
Pressupor: Colocar preço em alguma coisa
Biscoito: Fazer sexo duas vezes
Coitado: Pessoa vítima de coito
Padrão: Padre muito alto
Democracia: Sistema de governo do inferno
Barracão: Proíbe a entrada de caninos
Homossexual: Sabão em pó para lavar as partes íntimas
Ministério: Aparelho de som de dimensões muito reduzidas
Detergente: Acto de prender seres humanos
Eficiência: Estudo das propriedades da letra F
Conversão: Conversa prolongada
Halogéneo: Forma de cumprimentar pessoas muito inteligentes
Expedidor: Mendigo que mudou de classe social; alguém que mandou a dor para outro lugar
Luz solar: Sapato que emite luz por baixo
Cleptomaníaco: Mania por Eric Clapton
Tripulante: Especialista em salto triplo
Contribuir: Ir para algum lugar com vários índios
Aspirado: Carta de baralho completamente maluca
Assaltante: Um 'A' que salta
Determine: Prender a namorada do Mickey Mouse
Ortográfico: Horta feita com letras
Destilado: do lado contrário a esse
Pornográfico: O mesmo que colocar no desenho
Ratificar: Tornar-se um rato


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O som e as mãos

As palavras ficaram fechadas com um cadeado feito de música. Entregues todos os sons, restou uma pausa de semibreve de três longos dias, que me arrancaram à escrita. Fui o outro lado de mim, a voz que me sai da boca e não dos dedos, que picam o teclado deste computador. Tenho as mãos ainda húmidas de melodias. É preciso estender a voz ao sol, estancar o riacho de mínimas e colcheias que ainda circula dentro de mim, até que das mãos secas escorram dunas de ideias, a arear a folha branca que me espera.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Um gota de sangue apenas

Sinto-me exangue, como se houvesse acabado de sofrer o ataque de um vampiro. Uma gota, apenas uma gota sobrou, para escrever esta fraca imagem. Dormir. É urgente dormir.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Entre os actos

O acto de escrever não é igual para todos. Quando não escrevo, é como se um músculo atrofiasse, mirrando até se tornar invisível. Então a escrita desaparece, para um qualquer covil onde guardo as coisas esquecidas. Porém, a passagem do tempo dispersa em mim uma irritação minúscula, que me vai corroendo os ânimos: os gestos tornam-se mais tensos, a voz mais impaciente, o espírito inunda-se de dúvida, como se fosse impossível voltar a escrever, um equívoco ter escrito alguma coisa algum dia. Quando chego ao limite dessa preguiça resistente e apática, a mão destrava-se, e instantes depois a paz regressa-me ao peito: está tudo em ordem, tudo como é esperado. O mundo voltou a ser redondo, a dançar sobre si mesmo, numa valsa tão antiga como o Verbo. E eu sou feliz outra vez.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Convite



A casa, a chuva, a escrita

Quando a chuva me segura dentro de casa, agarrando-me o corpo e a vontade, fico partida em dois.
Metade de mim sente a urgência de cuidar do ninho; tirar os vincos aos trapos; recuperar a dignidade ao chão espezinhado e ao quarto desfigurado; compor os inúmeros objectos que nunca param quietos e que insistem em inventar novos lugares que não lhes ficam bem no corpo.
A outra metade atira-se à escrita, e é assim que dou por mim a repartir as horas entre uma coisa e outra. Agora que o ninho suspira, satisfeito e renovado, despacho a fome, de consciência limpa, e disponho-me a dedicar o resto do dia a uma longa narrativa que urge contar. À minha direita, atrás do cortinado florido, cor de abóbora, deslizam gotas de chuva pela vidraça e a luz parda e intermitente do céu, inchado de água, parece brincar às escondidas. Escondo-me eu também nas palavras, que escorrem em aguaceiro, numa estranha sintonia com este dia choroso de Outubro.

domingo, 18 de outubro de 2009

Seminário com José Fanha

Tema:
Promoção e Mediação da Leitura

A realizar-se na Biblioteca Municipal de Mafra, dias 4,11,18 e 25 de Novembro (quartas-feiras) das 19.00 às 21.00.
Destina-se ao público em geral e a mediadores de leitura.
Nº participantes: 25
Inscrição gratuita na biblioteca ou pelo telefone 261 815 422
Concepção e realização: José Fanha

sábado, 17 de outubro de 2009

Poesia, Vinho e Alfarroba

Deixámos as malas no hotel e almoçámos numa esplanada com vista para o castelo de Silves. Chegámos à biblioteca à hora marcada, mas o técnico fazia ainda o som da banda que iria actuar a seguir. Eu fui surripiada para uma reunião informal, e sentei-me com a Rita em cadeiras de duende, para falar sobre as minhas propostas de cursos e oficinas de Escrita Criativa. Estava tudo atrasado, mas ninguém parecia importar-se. Era sábado, o filho da Rita andava por ali, a correr, a brincar, como se a biblioteca fosse uma segunda casa.
Quando regressei ao átrio, o público já se instalara, ignorando o acordeonista/produtor musical/coordenador de cultura, que dizia insistentemente "um-dois, som, som, um-dois-três!". Por fim, tudo ficou pronto. A Rita, com quem tive a reunião, também participou na festa, dizendo poemas e puxando sei lá quantos mais cordelinhos invisíveis. A banda tocou o "Sr.Vinho" da Amália e seguiu com o pulsar fresco e animado de quem entrega a alma ao que faz. Houve prova de tintos e rosés e, quando espreitávamos a biblioteca onde um grupo irreverente de adolescentes fazia mais ruído do que é permitido ali, uma senhora veio oferecer-nos um chá e uma fatia de bolo de canela.
A noite teminou da melhor forma, no restaurante "ALFARROBA": "Cozinha Mediterrânea, Tradicional e Vegetariana". O Paulo, exausto, não descurou o seu papel de anfitrião, inventando ainda forças para acompanhar o ritmo da conversa e planear visitas futuras. Na casa de banho, somos surpreendidos por uma citação de Marco Aurélio, que, no caso de falharmos, nos aconselha a não desanimar. Não pude deixar de rir. Augusto, o proprietário do restaurante, foi uma excelente companhia durante todo o jantar, falando-nos da cozinha de autor, dos seus tempos em Moçambique e de projectos ousados e inovadores. Enquanto, de olhos brilhantes, nos falava com o orgulho de quem acertou na profissão, ia-nos mimoseando com acepipes inesperados, que pareciam saídos das mãos dos anjos.
Aqui fica a sugestão, se forem a Silves:
ALFARROBA - Rua Cândido dos Reis, 107-B Loja 5
Tel - 282 449 247

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Mundos mudos

O meu computador emudeceu. E eu com ele. Ficou sem boca (isto é, sem colunas) para se fazer ouvir e eu, solidária, fiquei sem nada para dizer. Mudos, os dois. Mudos ambos os mundos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Parabéns, Agustina!


A senhora Agustina Bessa-Luís completa hoje 87 anos. Em jeito de celebração, vou passar a tarde a estudar a sua obra, num curso breve de literatura que lhe é hoje dedicado.

"A grandeza dum espírito está na pluralidade e plenitude da sua sensibilidade. Todo o vasto espírito é sempre um tanto santo e outro tanto demoníaco. Todo o artista exagera ou dilui, aviva ou simplifica!"
(AGUSTINA BESSA-LUÍS, em entrevista)

FOTO: Agustina Bessa-Luís, fotografada por Paulo Ricca
Fonte: Pública, 179 (31.Outubro.1999)


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Versos

O coordenador chegou agitado à sala da biblioteca, desgrenhado, com um atraso oficial. Os alunos iam chegando, preenchendo o número reduzido de cadeiras, a espicaçar a intimidade. Ia falar-se de poesia. As senhoras cumprimentaram-se, cúmplices, com o orgulho íntimo de quem troca as novelas e as séries de televisão pelos versos. Pouco depois, Mário de Sá-Carneiro era o ar que respirávamos, aflitos por tanta aflição. Como era possível sofrer assim, desperdiçar a vida inteira, dar-se ao luxo de tanta inquietação?

– O problema dele era não trabalhar! – Diz uma anciã – que idade é que ele tinha, 23…? Eu com 26 já trabalhava há anos e já era casada!

A sala riu, aliviada. Um banho de realidade prosaica, desarmante.
Fugimos da escuridão e da cinza para os campos verdes e as rosas nas mãos de Eugénio de Andrade. O Fernando falava num tom explicativo, como quem põe as realidades da vida no lugar certo, desfazendo-se da teimosia dos equívocos. Por entre o riso e a interrogação, as analogias com a vida mundana davam cor ao invisível, e luz à cauda dos versos que não conseguíamos decifrar, transformando-os em estrelas cadentes que nos pousavam nas mãos.
Saímos para a poesia recatada dos nossos dias, mas nos olhos andava o Domingo de Eugénio, a dizer ao mundo que o encontro fora demasiado breve.
Por fim, entendi que o Fernando não chegara agitado, era assim sempre, apaixonado, multiplicado, por se entregar a pequenas coisas por um grande amor. E eu senti-me um pouco menos pequena, engordada pelo sabor daqueles versos que depositaram dentro de mim.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Nunca é tarde

Nunca é tarde para investirmos em nós próprios, mesmo que seja em perseguição de um sonho. Quem sabe se, o que começou por ser uma fantasia longínqua, não se irá tornar numa meta e, por fim, numa taça? Quantas vidas teremos nós de viver, para aprender a simplicidade das coisas? Deixemos de adiar as nossas vontades e de cultivar os suspiros profundos de resignação. Ergamos as taças que temos a felicidade de já possuir, e bebamos à saúde dos nossos sonhos. Obrigada, Rosarinho. És um anjo.

domingo, 11 de outubro de 2009

Poente

De regresso a casa, ao anoitecer, tive dificuldade em manter os olhos na estrada. O poente explodia cheio de cores, inundando o céu em tons de rosa, lilás, violeta, vermelho e laranja. Anoitecia à medida que as rodas do automóvel percorriam o alcatrão. Os tons purpúreos foram-se desvanecendo, dando lugar a um fogo tão poderoso, que as silhuetas das árvores, recortadas em contra-luz, pareciam sombras carbonizadas por um sol faminto.

sábado, 10 de outubro de 2009

Doces acasos


Hoje encontrei um casal que não via há muitos anos. O sítio estava longe de ter encanto, pois cruzámos os carrinhos de compras num corredor do Continente. Porém, os olhos brilharam. Trocámos contactos, combinámos um encontro para breve e despedimo-nos. Já dentro do carro, com as minhas compras, apercebi-me de que sorria ainda. Esquecera-me de deixar de sorrir. Conduzi de forma quase mecânica pela estrada arborizada, a recordar as duas semanas de férias passadas com o tio Henrique e a tia Maria Helena, que um dia convidaram a mais nova de cinco irmãos para ir com eles para o Algarve, por eu ser assim, dengosa, sem sair do colo deles. Foi a primeira vez que passei a fronteira e lembro-me ainda da conversa do meu tio com o fulano da alfândega, que não nos queria deixar passar, por eu não ter B.I. comigo. Foi uma criança deslumbrada que entrou no El Corte Inglés. Estava em Espanha! Tinha 12 anos. Foi junto deles que recebi o meu primeiro telegrama, outro privilégio principesco: Verocas, muitos parabéns! Passou de ano!, um beijinho dos pais. O alívio foi enorme, pois estava convencida de que iria reprovar. Lembro-me de que a minha tia foi escolher um anel e uma pulseira douradas, com florinhas azul-turquesa, que me fizeram sentir uma senhora. Olhava para a mão magra e para o meu pulso infantil e pensava: "recebi de presente, por ter passado de ano! Estou tão bonita!". Desde então, das raríssimas vezes em que o acaso nos reune, surge este carinho enorme. De 10 em 10 anos, os sentimentos adormecidos despertam, pois as emoções e as memórias - que libertam uma luz quente e saudosista - não querem saber das lâmpadas fluorescentes e frias do corredor de um supermercado.
Deixo aqui beijos e abraços melosos aos meus pais, ao tio Henrique e à tia Maria Helena.
(Foto: eu junto ao Tejo, com 10 anos, 1979)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

abraços precisam-se

Receberam-nos com dois abraços carinhosos e puseram-me um copo de Grandjó nas mãos. Ele terminava de preparar o jantar, ela entretinha-nos, mostrando a casa, conversando, perguntando-me acerca da escrita, fazendo-me sentir importante. Estivemos juntos como velhos amigos e foi como velhos amigos que nos despedimos, com mais abraços, a altas horas da noite, depois da sinceridade das conversas, do riso e do acender das opiniões. O jantar estava óptimo e o remate do crepe de chocolate com o tinto alentejano foi um consolo para a alma. Ficou a vontade de vos receber em nossa casa, urgentemente.
É bom estar com os amigos.
Obrigada, Lia e Nuno. Até (muito) breve.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Irving Penn


Picasso, por Irving Penn
Irving Penn morreu ontem, com 92 anos. Perde-se um dos Mestres da fotografia Fine Art.

Simone de Beauvoir

"Photographing a cake can be art" —Irving Penn

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Workshop com Nanã Sousa Dias

Aos amantes de fotografia analógica a P/B:
No próximo fim de semana, 10 e 11 de Outubro, Nanã Sousa Dias dará um Workshop de Iniciação ao Laboratório Analógico de Preto e Branco, perto da Ericeira. Neste momento, ainda existem 2 vagas. Mais informações através do email : nsd.workshops@gmail.com

Aproveitem!
Para ver a galeria deste fotógrafo, clique aqui:

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Anúncio Bridgestone

Para sorrirem, neste feriado. Obrigado à Rita G., pelo video, e parabéns ao Zé, que completa hoje 65 primaveras! Um Dia Feliz!


domingo, 4 de outubro de 2009

Segurar o vento

Tenho uma proposta para ti: vamos segurar o vento. Vamos agarrá-lo com uma corda bem forte e encerrá-lo num barracão escuro, até que ele morra sufocado, engasgado pelo próprio ar. Assim não haverá poeira. Vamos rir-nos dele, vingados e mais felizes, de mãos dadas, enquanto nos afastamos juntos. Para onde? Por uma estrada que iremos construir, com vagar, feita de um qualquer material macio e resistente, que nos faça flutuar, sem peso, sobre as águas que deixámos para trás.

sábado, 3 de outubro de 2009

Poeira

Hoje dediquei-me à Escrita Criativa e trabalhei temas mais negros como a Morte, o Amor, a Raiva, etc. De um deles, saíu isto:
Não há como recuar nas palavras que foram ditas. Não há como continuar. Chegámos ao fim de uma estrada poeirenta e pedregosa, que nos deixou as gargantas secas, os olhos lacrimejantes, os pés doridos. À frente, a estrada prossegue, imutável no seu desconforto. Ignorámos clareiras, recantos e lagos, permitindo que os nossos corpos caíssem, inevitavelmente, sobre esse velho desvio poeirento, que nos sufoca. Para trás ficaram as ondas que soubemos compor e que, contra todas as marés, insistiam em rebentar-nos no ventre, no rosto, na vontade de sermos um. Esses murmúrios de amantes há muito se calaram, tornando-nos surdos os ouvidos, num lamentável silêncio de afectos. E a nossa beira-mar soa cada vez mais longínqua, numa memória em surdina, que se evapora e se converte em miseráveis gotas de água e sal, desvanecendo-se, por fim, até ser quase nada. Algumas aves cruzaram o nosso olhar, fazendo-nos sorrir, pois nem sempre caminhámos em estradas de pó; mas a poeira que se anunciava foi-se entranhando nas roupas, nas mãos, nas bocas, no coração, deixando-nos cegos às suas asas. Talvez a poeira assente, sim, mas o vento que não podemos ignorar irá erguê-la novamente e repetir os dias de pó que já conhecemos de cor.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Jardins de Outono

Eis que o Outono se instala, cobrindo tudo com uma gaze fresca. Chega de mansinho, despindo os ramos das árvores e deixa-nos assim, melancólicos, por sabermos que, depois deste manto dourado, nos espera o mal-amado inverno. Os cabelos caem, solidários com as árvores, a pelagem dos cães modifica-se, a preparar-se para o frio. A pele regenera-se, despedindo-se do tom de bronze que o sol nos ofereceu, como se nos dissesse: “agora que terás de agasalhar o teu corpo, para quê essa cumplicidade com o sol?”. Respiro fundo e admito que assim é. O tempo renova-se, as chuvas anunciam-se, a paisagem transforma-se. Fecho a janela, viro-me para dentro e penso nas sementes que fui atirando à terra nas últimas estações. É preciso restaurar as palavras, limpá-las de todas as ervas daninhas, do lixo literário que o desamor e a preguiça foram acumulando. É tempo de preparar o futuro, que pode ser amanhã ou depois de amanhã. Conferir o legado, arrumar a casa da escrita, deixar a melhor versão, os melhores rebentos. Salvar o que tem de ser salvo. Pensar que, de hoje em diante, a responsabilidade é maior. Não que o seja, realmente, mas anima-me pensar que serei, um dia, um bom jardineiro. Alguém que se importe com as minhas palavras. Um só alguém que seja. Trabalhar. É urgente cultivar a terra, pois a pergunta paira sobre mim: se te fores, amanhã, o que queres deixar no teu jardim?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Dilemas

Queria ir espreitar os meus futuros se tivesse ido por aqui ou por ali. Poder escolher entre os dois, entre muitos, como um bolo numa montra: quero este. Mas o futuro é só um de cada vez e quando nos chega à mão, já vem fora do prazo.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Não te mexas

Não te mexas. Não saias do meu corpo, por favor, mas não entres na minha vida. Deixa estar assim, este amor perfeito na distância, sem a vulgaridade dos dias, como quem ama o mar distante. Deixa-me viver a vida dos outros, a vida que se espera de nós, e voar para dentro de ti de vez em quando, para te fazer criança outra vez. Não te mexas. Deixa que sejamos reticências, onde tudo cabe, até o futuro que poderíamos ser, mas que não seremos nunca. Estamos presos num castelo de gestos infantis, que erigimos num tempo sem muralhas. Fui ponte levadiça e deixei-te entrar. Encerrei-te dentro de mim para sempre. Por isso não te mexas, deixa estar assim. Deixa que o fosso da vida corrente se afaste de nós, para continuarmos reis do nosso castelo. E serás um Passado sempre presente, pois se abalássemos dessa fortaleza elevada em direcção à planície, que faríamos nós dessa paisagem? Para quê trocar um refúgio de memórias, pelo refugo dos dias? Quando a amargura do tempo tenta arrancar-me o desejo, o desejo mais profundo, lembro-me de nós. E torno a pegar nos braços, chamando por ti, para construirmos juntos um novo castelo.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pareces que foste ontem

Entraste-me na pele, atravessaste todas as minhas células e ficaste aqui, no núcleo de mim. Fui sendo várias pessoas, agigantando-me, aprendendo a ser o que não sabia ser contigo. A carne não é a mesma, tem história, tem tempo, tanto tempo. Mas quando lhe pergunto se ainda te conhece, diz-me que está contigo todos os dias, sem que eu saiba, cúmplice daquele outro bocado de matéria, feito de válvulas atravessadas pelo sangue, aquele pedaço pulsante para cima do qual atiram as culpas do amor. E esse, o coração? Esse ri, espantado com a minha inocência, por ver que entreguei ao tempo a responsabilidade de te arrancar do corpo. Como se ele, o tempo, fosse aspirador que aspirasse a ficar com a nossa história, sorvendo-a, camada por camada, até conseguir ver os nossos dias numa tela de cinema, porque fomos um filme invulgar, irrepetível. Não, o tempo não conseguiu penetrar-me como tu. Continuas aqui, no núcleo do que sou, na carne, na memória. Entras-me nos sonhos com o à-vontade de uma visita que é já da casa, com a destreza de quem nunca chegou a sair. E a cada vez que te visito, sempre me espanto e digo para comigo: pareces que foste ontem.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Misha Gordin e Jerry Uelsmann

Hoje fiz duas novas descobertas na fotografia a P/B. As primeiras três são de Misha Gordin, que trabalha com colagens ou no Photoshop. São impressionantes.


As três fotos seguintes são da autoria de Jerry Uelsmann, actualmente com 75 anos e que fez estas imagens maravilhosas no método tradicional... há 50 anos! É preciso estar-se muuuuito à frente. Truques? Terá muitos, mas sem recurso ao digital! Enjoy.





domingo, 27 de setembro de 2009

O grande Eça, sempre actual...

"Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações. A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse. A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva. À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade."
EÇA DE QUEIROZ, in 'Distrito de Évora (1867)
Desenho de João Abel Manta encontrado aqui:

sábado, 26 de setembro de 2009

Dia Mundial do Mar

"E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior!
Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens,
Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas,
Galdropes, escotilhas, caldeiras, coletores, válvulas;
Caí por mim dentro em montão, em monte,
Como o conteúdo confuso de uma gaveta despejada no chão!
Sede vós o tesouro da minha avareza febril,
Sede vós os frutos da árvore da minha imaginação,
Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência,
Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética,
Fornecei-me metáforas imagens, literatura,
Porque em real verdade, a sério, literalmente,
Minhas sensações são um barco de quilha pro ar,
Minha imaginação uma ancora meio submersa,
Minha ânsia um remo partido,
E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia!"
(FERNANDO PESSOA, excerto de "Ode Marítima")

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A Crise do Futuro (Miguel Carvalho)

Não resisto a postar aqui, com os devidos créditos e autorizações, um dos textos geniais escritos pelo jornalista e escritor Miguel Carvalho, publicado recentemente na revista Egoísta (tema "Crise de Bolso"). Leiam este e procurem a revista. Vale a pena.


"Se algo queremos do futuro é que venha bem passado. Conjugado o pretérito com osso e consumido o presente insosso, esperamos um futuro gourmet ou lá o que é. As maçãs terão o tamanho de cerejas e as cerejas o tamanho de melões, sem caroço. A Esquerda será macrobiótica ou não será, e a Direita aparecerá vegetariana à vista desarmada, mas com design. Talvez as mamas saibam a rebentos de soja. E os pirilaus a tofu. Os bebés serão concebidos e servidos a la carte: sexo, olhos e cabelo à escolha, oferta de catálogo previsível de doenças, manias e tropelias, desconto na opção gémeos. O futuro terá ministros sem corantes nem conservantes, deputados low-cost e eleições oito dias/sete noites, com pensão completa. O governo autorizará os genéricos para o optimismo e liberalizará a adrenalina contra o vírus da depressão. Teremos empregadas insufladas, mordomos a rodas para as tostas e Ambrósios a pedal, com aquecimento central. O psiquiatra será o nosso Pai Natal. O sexo será de última geração, com ecrã plasma e carregamentos de 50, 100 e 200 euros, com mensagens ilimitadas para redes congestionadas. A bimby handjob/blowjob fará o sucesso das classes mais abastadas. Os subúrbios serão desinfectados regularmente e os dormitórios terão, no mínimo, uma palavra-passe com seis dígitos. O Código Penal será revisto para criminalizar o consumo de rojões a céu aberto e a prática de revoluções aos molhos. Haverá Igrejas com consumo mínimo e seitas por catálogo. O gangue das misericórdias será caso de polícia. E a polícia terá seguranças privados. O futuro terá poetas a pilhas, pintores a bateria, dançarinos de corda, teatro às peças e cinema por SMS. A felicidade terá orçamentos rectificativos. E os governos cairão sempre de pé, mas de uma assentada. As crises serão permanentes. Com madeixas. Sorriremos com silicone. E choraremos para dentro, em garrafões de cinco litros. O desgosto e a tristeza serão pandémicas. Mas de marca."
NOTA - espreitem o blog "Devida Comédia", do Miguel, se andarem à procura de bons textos para ler. Eu sigo religiosamente.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A fronteira da preocupação

A preocupação, sem pensamento, é algo de estéril. Um problema ou tem solução, ou não tem. Se tiver uma ou mais soluções, é melhor que pensemos e analisemos o caso, até as encontrarmos; se não tem, não há nada a fazer. Então, para quê a ansiedade? Pensamos que é um estado racional, mas no fundo não passa de uma fraqueza emocional, como o ciúme, o medo, a preguiça, a insegurança, a inveja, enfim, tudo o que nos torna humanos e imperfeitos, tudo o que nos distingue uns dos outros, o que nos mostra a massa de que somos feitos. Ironicamente, as emoções que o justificam são precisamente essas e esse estado, o da preocupação, não passa de uma fronteira para a surpresa do alívio, ou a constatação de uma má notícia. Devemos, portanto, tornar essa fronteira o mais ténue possível e deixar de fazer o culto da ansiedade. Don't worry, be happy... but be careful and aware.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sem fôlego

O dia começou bem cedo, as horas levaram-me de arrasto, apressadas, sem fôlego, atirando-me para o crepúsculo com pressa. Por isso não tive tempo de construir um único pensamento, ocupada que andei a viver. É que às vezes é preciso não viver para olhar a vida do lado de fora. Parar. Como fazê-lo, se me encontrava mergulhada num redemoínho de minutos e horas, que me afogaram o dia?

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A torre medieval, poodles e as montanhas de Nietzsche


Aprendi que Montaigne passou grande parte da sua vida a ler um milhar de livros na sua biblioteca, situada no terceiro piso de uma torre num dos cantos de um castelo medieval, localizado no sudoeste de França, e que pertencera à sua família. Ao fim de treze anos a trabalhar no Parlamento de Bordéus, reformou-se...para ler. Aliás a história da filosofia está cheia de caprichos destes, de vidas e mortes de luxo, de viagens que se prolongavam durante meses (como Nietzsche e Schopenhauer). Aprendi que Montaigne dava mais crédito à sabedoria dos animais, do que à dos seres humanos e que os seus célebres "Ensaios" falam de esfíncteres, da erecção do pénis ou do facto de reis e rainhas também serem donos de traseiros; de que o acto de defecar era o único durante o qual não suportava, de modo algum, ser interrompido e de que ele "e os seus intestinos nunca falhavam um encontro quando saltava da cama".
Aprendi que no verão de 1580, Montaigne empreendeu uma viagem com quatro jovens nobres (um deles seu irmão) e uma dúzia de criados, a cavalo, planeando estar fora dezassete meses e que se passearam por Itália, Alemanha, Áustria e Suíça. Aprendi que era um homem livre de quaisquer preconceitos, inclusive face aos mais estranhos costumes das tribos da América do Sul ou a admitir que não tinha pachorra para livros "misteriosos", difíceis de ler, e que só gostava de "livros agradáveis e fáceis", que despertassem o seu interesse. E era Montaigne, o filósofo ensaísta e erudito, que lera um milhar de livros.
Aprendi que Schopenhauer deve ter sido um dos homens mais infelizes que alguma vez existiu, por considerar a própria vida digna de tristeza apenas; que tinha adoração por poodles, os quais tratava por Sir e que sempre os teve, um de cada vez, ao longo dessa triste vida sem o amor de uma mulher; que se tornou amigo de Goethe que para ele escreveu: "Se desejares ter prazer na vida / Deves dar mais valor ao mundo". Que até aos cerca de sessenta anos, os seus livros pouco ou nada venderam e que a sua última obra, de ensaios e aforismos ("Parerga e Paralipomena") se transformou num best-seller, sete anos antes da sua morte.
Aprendi que Nietzsche tinha um bigode farfalhudo, do qual nunca abdicou apesar do dito afugentar as mulheres; que considerava a maioria dos filósofos como "um bando de patetas"; que se tornou íntimo de Wagner e da sua mulher, Cosima, por quem se apaixonou secretamente; que aceitou um convite duma rica dama de meia-idade, entusiasta das artes, para uns meses na sua companhia, numa villa no sul da Itália, e que este lugar (o clima, a alimentação, os hábitos de ler e nadar com os amigos) o transformou; que adorava escalar montanhas suíças; que passava os invernos no mediterrâneo (Génova e Nice) e os verões nos Alpes; que acordava às 5h da manhã e que escrevia até ao meio-dia e que era nos seus longos passeios às montanhas agrestes que lhe surgiam os pensamentos "com qualquer valor"; que tinha, durante esses verões, um quarto alugado numa moradia, com vista para os pinheiros e para as montanhas, onde escreveu grande parte das suas obras; que apenas jantava umas fatias de presunto, um ovo e um pão; que mais tarde tentou dedicar-se à agricultura, mas que as costas e a visão deficiente não lho permitiram; que desde muito jovem odiava o álcool e desprezava quem dele se socorria ("Que quantidade de cerveja existe na inteligência alemã?") e que numas férias de uma semana em Lugano, com a sua irmã, a factura do hotel incluía catorze copos de leite; que um dia, numa Piaza de Turim, teve um ataque e beijou um cavalo; que foi transportado para a sua pensão e que passou uma fase em que acreditava ser - conforme a hora - Dioniso, Jesus, Deus, Napoleão, Buda, Alexandre o Grande, César, Voltaire, Wagner; e que acabou por ser enviado para um asilo na Alemanha, onde foi tratado pela irmã e pela mãe, de quem, ironicamente, dissera "não gosto da minha mãe e torna-se doloroso para mim ouvir a voz da minha irmã. Sempre fiquei doente quando estava ao pé delas."
Aprendi que nem tudo o que nos faz sentir melhor é bom para nós; e que nem tudo o que nos dói está livre de nos fazer algum bem.
Obrigada, Pedro, pelo empréstimo.

domingo, 20 de setembro de 2009

Cicuta, o prazer e a glória

Quando pensamos que todos os livros de auto-ajuda já foram escritos, eis que descobrimos um autor (Alain de Botton) que decide usar a Filosofia como pano de fundo. "O Consolo da Filosofia" é um livro divertido, surpreendente, estimulante e instrutivo, que nos faz viajar ao longo de 2400 anos, através de diversas correntes filosóficas, para nos revelar argumentos, parágrafos e mundanidades de 6 filósofos em particular. Filosofias aparte, aprendi que Sócrates era muito feio, cheirava mal e vestia-se com a mesma capa durante todo o ano; andava quase sempre descalço, tinha uma mulher com um péssimo feitio, gostava de abordar as pessoas ao final da tarde e que, no dia da votação em tribunal, perdeu para a taça de cicuta por uma pequena margem, pois os votos contra foram de 56%, de um total de quinhentos jurados que não passavam de velhos reformados e feridos de guerra, que ali estavam para animar a sua rotina e ganhar uns ébolos extra. Ao escutar o veredicto, Sócrates comentou: "nunca pensei que a margem fosse tão estreita" e bebeu a taça de veneno na presença dos seus amigos (Fédon relatou cada pormenor), dizendo estas últimas palavras ao grupo que chorava sem poder conter a sua tristeza: "Que modo estranho de se comportarem, meus estranhos amigos!"
Aprendi que Epicuro devotou a sua vida à procura do prazer: comer, beber, fornicar, estar rodeado de amigos e que, na sua época se formaram "escolas para o prazer" na Síria, judeia, Egipto, Itália e Gália; e que, tendo fama de glutão, encontrava prazer no simples acto de se alimentar com "água, pão, vegetais e um punhado de azeitonas" e que escreveu a um amigo; "manda-me um queijo, para que possa fazer um festim"; que construiu um pomar e uma horta com uns amigos, para cultivarem os seus próprios alimentos, para comer pouco, mas bem.
Aprendi que Séneca, que havia sido tutor de Nero, teve a benesse de umas férias de três anos no campo, para escrever sobre a natureza, enquanto esperava serenamente a ordem de morte, que se anunciava, da parte do imperador louco e cruel, que aos 28 anos já mandara matar a mãe, Agripina, o meio irmão Britânico, Octávia, a sua mulher e um grande número de senadores e militares que lançava aos leões e crocodilos; que Séneca desejou morrer como Sócrates, que tanto admirava, mas que o seu médico o enganou, dando-lhe a beber algo que por duas vezes não fez qualquer efeito; que a sua mulher Paulina, em desespero, cortou os pulsos, mas foi socorrida por centuriões que lhos ligaram, salvando-a; que o filósofo "pediu para ser colocado num banho a vapor, onde sufocou até morrer. em tormento, mas com serenidade, imperturbável perante as perturbações da Fortuna". Já não há heróis destes. Já não se vive nem se morre assim.

sábado, 19 de setembro de 2009

Vinho, vícios e filosofia

Depois de um belo manjar n' "O Lampião" (Turcifal, Torres Vedras) e de uma noitada no novo bar "Vinicius - Vinho e Vícios", que meteu cantorias, improvisos, boa disposição e muitos aplausos, graças a deus, o corpo pediu descanso e a mente exigiu que eu lhe exercitasse os músculos. Eu assim fiz e dei ao corpo seis horas de repouso. De manhã agarrei-me a um livro, li sobre Montaigne e Schopenhauer, e surpreendi-me com as curiosidades mundanas que as páginas me revelaram. Os livros são algo de maravilhoso. Este em particular pega em nós, fazendo-nos viajar no tempo através da mente de alguns dos maiores filósofos do mundo e faz com fiquemos íntimos deles. Esta noite ou amanhã acabo de o ler e dedico-lhe o próximo post.
Entretanto, se quiserem conhecer o bar e comer uns petiscos, é o único no Turcifal e está aberto às 6ªs e sábados e em vésperas de feriado. O ambiente é óptimo e as proprietárias são uma simpatia.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O azul e o pensamento



Já que o roxo e os tons púrpura estão na moda, sugiro uma bebida extravagante que descobri ontem, em casa dos meus queridos amigos Afonso e Catarina: blueberry vodka. Servida com gelo e hortelã e cortando os 16º de álcool com um pouco de néctar de fruta ou limão, é uma bebida de deuses gulosos.
Hoje, para me ridimir da minha costela epicurista que tanto se dedica aos pequenos prazeres da vida, li Séneca e as suas lições tornaram-me um pouco mais sábia. Amanhã dedicarei o post a este filósofo e irei partilhar convosco os textos deliciosos contidos no livro onde tenho aprendido tanto sobre Sócrates, Epicuro, Séneca, entre outros. Afinal, não será a vida feita de contrastes, de ventos favoráveis, desfavoráveis, frustração, sonho, teimosia, prazer, ignorância, sabedoria? Hoje uma bebida desconcertantemente azul, amanhã o pensamento.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Firmin, de Sam Savage

Na véspera do final de umas férias maravilhosas no sul de Espanha, surripiei este livro à Teresa e li-o de enfiada, para o devolver a tempo. Tal como Firmin, o rato, troquei a comida pelos livros, abdicando de doses de conquilhas, salada de tomate com orégãos, copos de vinho branco e taças de nozes com chantilly e caramelo, para ficar na praia, a ler a sua história:
É o 13º de uma ninhada de treze e os seus irmãos apropriam-se dos doze mamilos da mãe alcoólica, deixando-lhe apenas algumas gotas de leite com um sabor esquisito. Vivem instalados numa velha livraria e Firmin, que ao contrário dos irmãos anafados é franzino e frágil, começa a comer livros para sobreviver. Um dia descobre que consegue descodificar as palavras que eles contêm e opta por se limitar a comer as margens, arrependendo-se de ter destruído algumas obras, com o seu apetite. Então passa a devorar as palavras, em vez do papel. Aos poucos, o cérebro vai-e desenvolvendo à conta das muitas leituras, a ponto de Firmin se considerar, por vezes, humano. Lê os clássicos, tratados de filosofia, manuais técnicos, tudo o que encontra. Firmin é um rato solitário, romântico e sonhador. Deseja amar e compreender os humanos. Ama as belas mulheres e anseia por fazer amizades. Cinéfilo apaixonado, espreita todos os filmes do Rialto (inclusive os pornográficos) e imagina ser Fred Astaire, dançando com Ginger Rogers.
Esta novela deliciosa, em jeito de fábula, é, ao mesmo tempo, engraçada e trágica. Sam Savage disse numa entrevista que vai continuar nas "short stories", pois, com a saúde que tem, não pode dar-se ao luxo de iniciar um projecto que pode demorar anos a terminar. Depois de ler este livro MARAVILHOSO, só posso desejar que viva por muitos e bons anos, para nos abençoar com novos livros. Sam Savage é doutorado em Filosofia, pela Universidade de Yale, onde leccionou por pouco tempo, para se dedicar a outras actividades: trabalhou como mecânico de bicicletas, carpinteiro, pescador e impressor tipográfico. Aos 65 anos, estreou-se com "Firmin" e alcançou rapidamente um enorme sucesso nos EUA, Espanha, Brasil e Itália, tornando-se um símbolo da paixão pela literatura. Esta novela foi publicada por uma pequena editora de Minneapolis, fora dos grandes circuitos editorias de distribuição, o que não impediu o seu grande sucesso. É bom saber destes pequenos milagres. Obrigada, Teresa!




quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Filosofices e pirosices


Hoje estou assim, pirosa. Enquanto inspirava o ar fresco do fim do verão, regando as minhas petúnias, entornou-se-me este pensamento:
A vida é como uma floreira de petúnias, todos os dias nascem flores e outras murcham. Para cuidarmos dela, devemos arrancar as flores mortas e concentrarmo-nos nas que estão por nascer e nas que se mostram em todo o seu esplendor. Há mesmo uma época em que a petúnia deixa de florir. Há que esperar por uma nova estação, até que de novo ela renasça, com novas flores que nos animam. Como uma planta, a vida é um ciclo de aspecto por vezes tristonho e murcho, para logo nos consolar com pinceladas de cor, promissoras, como se Deus fosse um pintor inspirado e caprichoso, brincando com os seus pincéis num imenso jardim.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Homem na Escuridão

Regressei de umas férias maravilhosas no sul de Espanha e de volta trouxe alguns livros por ler, pois a água, a 26º, não parava de me chamar. Assim, e porque é preciso dar prioridade aos livros emprestados, apressei-me a avançar na leitura de mais uma obra de Paul Auster. Terminei de ler há instantes, já o sol se havia posto, os olhos esforçados e impacientes, que tentavam aproveitar os últimos raios de luz, junto à janela, recusando-se a largar as últimas páginas. É, até agora, o meu livro favorito deste autor. Histórias dentro de uma história, violência, humor, surrealismo puro. Muito bem escrito, muito bem engendrado. Uma forma originalíssima de inventar (n)a insónia. Recomendo, obviamente. Obrigada, Pedro.


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Setembro

Os 10 anos do Micas, na praia...

A guitarra do Luís, as vozes de todos (o álcool!), o riso, o ambiente de festa, a lua cheia, como ditava a fantasia do aniversariante. O Gugas tirou esta foto, sem saber como, e apanhou a lua em flagrante, também ela um pouco "entornada", em jeito de celebração.

Patas out of focus, como o Woody Allen...
Sempre em movimento, esvoaçando de livro em livro, ou de prato em prato, a tratar dos "meninos".

A última noite, o último "postalinho"...Foram duas semanas maravilhosas. Obrigada a todos, por tudo.

sábado, 29 de agosto de 2009

Cesto de papéis VI

"(versos) que falavam da alma das flores, da luz, de amor e união. Nessas semanas, no canto inferior esquerdo da primeira página, lia-se um pensamento profundo, que mais não era do que uma chamada de atenção, um memorando que pretendia tocar a consciência dos insulanos durante as viagens de M., para que eles se dedicassem a meditar um pouco nas coisas positivas, tornando-se mais fortes e confiantes. O feiticeiro sabia que a inteligência deles se rebelava à primeira oportunidade: bastaria abandonar o seu jardim, para logo as ideias agrestes despontarem, cercando os cantos."

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Regresso

Voltei. É tempo de correr contra o tempo, cumprir prazos pouco aprazíveis, entesourar as mãos e tesourar aquele que guardo no baú como um tesouro. Beijos para a Matilde, e titios Vasco e Rita. Festinhocas à Zug e à Bix (nada de fugir!). Foi bom. Havemos de repetir a dose.

domingo, 23 de agosto de 2009

silêncio

Caros blogueiros, vou estar sem internet durante uns três ou quatro dias. Peço que me perdoem este silêncio. Até lá, portem-se como quiserem...mas com respeito. Beijos

sábado, 22 de agosto de 2009

Os livros


Os livros nascem como esboços numa aula de desenho. O escritor, com o seu pincel, escolhe com que cores as irá prender, para sempre, à tela branca. Há livros cujas cores não se apagam dos nossos olhos, pois as suas tonalidades vieram, de alguma forma, ao encontro das nossas paisagens interiores, fazendo-nos descobrir algo de verdadeiro, algo que nos enriquece e desperta. É bom acordar nos livros e adormecer na companhia das suas paisagens em fundo virgem.
(roubei a imagem aqui: http://muraldosescritores.ning.com/

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sol e doce de abóbora

O segundo dia sem carro, presa a este paraíso bucólico. O meu marido ausente, e eu sempre presente sob os tectos de pinho nórdico da casa, que me enfeita. Dediquei-me a ela durante a manhã, e ao sol durante a tarde. A buzina melódica e nervosa do homem das frutas e hortaliças soou ao cimo da rua, pontualmente: sexta, às seis. Regressávamos, eu, o Hugo e o Chico, da caminhada pelas redondezas. Entrei em casa para buscar a carteira, pois o senhor, ao contrário dos nossos queridos vizinhos, precisa de vender para viver. Comprei maçãs, bananas, alface e um bom pedaço de abóbora. Sem carro e sem manteiga, decidi fazer compota:
1kg de abóbora descascada sem pevides
750gr de açucar amarelo
canela q.b.
raspa da casca de 1 laranja
Uma hora e meia depois, a casa perfumou-se com um aroma doce e caseiro e eu sorri à ideia de amanhã iniciar o dia com um chá earl grey e tostas barradas com doce de abóbora feito por mim. Porque gosto da encontrar a vida assim, nas coisas simples.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Barbies sem bracinhos

Estava eu na minha missão de Tartaruga Ninja, cortando o meu livro à tesourada, quando a pequena Constança, ao meu lado, me força a um intervalo, para me contar esta curiosidade irresistível: lançaram no mercado uns matraquilhos feitos com barbies. Custam a módica quantia de dez mil euros. Ah, é verdade, e, por enquanto, só estão à venda em Paris. Pffff. Pronto, já sabem o que hão-de dar às vossas filhas este Natal. Pronto, estou a gozar. Ou não. Decidam vocês. Isto está tudo louco. Obrigada Constança, salvaste-me o post de hoje!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Um dia na quinta

Depois de um salto à praia, seguimos para a quinta de uns amigos, que nos convidaram para um banho de piscina e peixinho grelhado. Depois do banho, apareceu o Serpa, um cãozarrão branco e dengoso, que parecia aparentado dos ursos polares. O Afonso sugeriu ao Hugo que fosse apanhar figos e eu, claro está, fui com ele. Levámos uma cesta, fizemos uma cama de folhas para os aconchegar e apanhámos os frutos que se soltavam dos ramos com uma lágrima de leite. Vi, pela primeira vez, uma nogueira carregada de nozes e espantei-me com o aspecto dos frutos que se escondem dentro de um casulo verde, como as castanhas. Ao lado, entre muitas árvores de fruto, havia romãzeiras. Fomos conhecer a vinha e a casta francesa (cujo nome não recordo, confesso), com os seus cachos de uvas pequeninas tão compactas, que pareciam massarocas de milho. Eram deliciosamente doces. Em contraluz, já o sol se deitava, o Serpa ameaçava subir o monte e escapar-se, para ir namorar outra vez:
- Serpa, anda cá, toma!
E ele vinha, contrariado.
Fomos buscar lenha, para grelhar o peixe. Entrada de queijos deitados em pão saloio e compacto, daquele que faz barulho a cair no estômago. A acompanhar, o vinho branco, verdadeiro néctar, feito pelo Pedro, enólogo de profissão, e filho dos nossos amigos Afonso e Teresa, donos da quinta. Discutiram-se os planos para a exploração da propriedade de 18 hectares, a política do presidente da câmara, e alguns assuntos da actualidade. Rematei o jantar tardio com alguns figos colhidos por nós e um pouco de marmelada caseira. Quando demos pelas horas, eram três da manhã.
Viemos embora com uma enorme saca de batatas e com os figos, claro.
Obrigada, Teresa e Afonso, e parabéns pela escritura!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Chico Esperto

O dia começou com a nossa campaínha a tocar insistentemente. Eram sete a tal da manhã. Fomos à janela e não vimos ninguém. Ò Diabo, o que era aquilo? Do terraço, olhando para cima, os cães ladravam-nos, como quem diz: "vocês aí, já que estão a pé, deixem-nos entrar!"
Quando fomos lá fora, o meu marido reparou no botão da campaínha e na área circundante da parede: tinham marcas de terra, sob a forma de patas caninas. Estava esclarecido o mistério: quem tocou à campaínha, foi o Chico, que é, por enquanto, o mais alto! E esta, hein?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Subtilezas da cultura

O meu filho chegou de NY este fim de semana e hoje contou-me algumas das experiênvias pelas quais passou nestas 3 semanas. Tudo fantástico, tudo maravilhoso... ou quase. Certo dia, ele e o primo saíram com duas meninas de idade aproximada à deles (também "teens") e às tantas perguntaram-lhes: "vocês têm televisão...?". Das duas, uma: ou eram mesmo burras, ou nós somos tão insignificantes no mapa-mundi, que a ideia que os americanos têm de nós é a da que vivemos no século XIX. Não, não, deviam ser mesmo de inteligência escassa, pois quando uma delas arrotou e o Sebastião, muito diplomata, a desculpou dizendo, a título de curiosidade, que na cultura marroquina o arroto é considerado sinal de satisfação à mesa, e mesmo de boa-educação, acusaram-no logo de ser "nerd". Ya, seria muito mais "cool" ele desatar a arrotar também e fazerem concursos de arrotos. Aí sim, seriam considerados interessantíssimos e muito recomendáveis. Não há pachorra.

domingo, 16 de agosto de 2009

sábado, 15 de agosto de 2009

Crónica de Alice Vieira

Como discordo deste excesso de informação e de alarmismo em que vivemos hoje, não resisto a publicar aqui a crónica da minha amiga Alice Vieira, que saíu hoje no Jornal de Notícias:

"A minha quase gripe
00h00m
Com esta paranóia da gripe, qualquer ponta de febre que se tenha nos parece de imediato os 40 graus que é suposto a gente ter quando ela ataca. Até eu - que me gabo de não me deixar influenciar- vi-me um dia destes, às quatro da madrugada (mas sem passarinhos a cantar) a ligar para a Linha-24, convencida de que ia engrossar as estatísticas. Porque, com as rádios e as televisões a divulgarem constantemente os casos que vão aparecendo - e é mais um nos Açores, e mais três no Algarve, e a creche que fechou e a que vai fechar - a gente de repente tem a certeza de que a gripe já entrou na nossa casa, ó para ela a subir as escadas do nosso prédio, e agora é a vizinha do 1.º, depois a do 2.º, e de nada vale a gente tentar ser racional e pensar que não é possível porque está tudo de férias e não há ninguém no nosso prédio.
Então lá estava eu ao telefone a debitar os meus sintomas, e a enfermeira (cujo nome não recordo, com muita pena, porque aquela conversa foi das poucas coisas boas que me aconteceram nestes últimos tempos) a acalmar-me, sobretudo porque a todas as perguntas que me ia fazendo, eu ia respondendo que não: não, não tenho dores de garganta, não, não tenho o nariz a pingar - e, sobretudo, não, não tenho febre.Foi então que a enfermeira, com paciência evangélica, me disse uma frase que há-de ficar para todo o sempre na galeria das frases que mais marcaram a minha vida: "nem todas as gripes são gripe A; nem todas as viroses são gripe" E ,se calhar porque já não sabia que mais dizer, perguntou : "Por acaso esteve ontem com muita gente?" Tive de confessar que tinha estado rodeada de meia Lisboa, aos abraços e beijos a meia Lisboa, a chorar nos braços de meia Lisboa, e que um enterro de um amigo não é lugar ideal para se fugir de contágios.
De qualquer maneira a enfermeira garantia que, se fosse mesmo gripe A, a febre já estaria a trepar pelo termómetro e não se ficaria pelos míseros 36.5, que era o máximo que eu conseguia atingir. Mas ela era rigorosa (ó que bom, haver neste país alguma coisa que funciona bem, mesmo às quatro da madrugada!), e perguntou: "Tem feito muitos esforços ultimamente?"
Explico-lhe o que tem sido o meu ritmo de vida nos últimos meses e ela acaba por descobrir o que realmente determina aquele terrível cansaço, aquelas terríveis dores no corpo todo: "o que a senhora está é cansada!" E de repente a voz do meu querido amigo Raul salta para o meio da nossa conversa, naquela sua magnífica "Ida ao Médico" ("Tussa! O que o senhor tem é tosse!"), e os ben-u-rons ficam à espera de serem necessários, e a paranóia acalma, e a madrugada enche-se de gargalhadas e, pelo menos por enquanto, a gripe ainda não entrou no meu prédio. Acho que tem medo de gargalhadas."

(ALICE VIEIRA, IN "Jornal de Notícias")

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Missão Impossível

Estou numa corrida contra o tempo, que se escapa por entre o sol, os amigos que chegam, os caprichos dos cães, a minha preguiça, as tarefas domésticas e coisas ainda menos interessantes. Disponho de duas semanas para cortar 144 mil caracteres e o meu filho chega de NY neste fim de semana e tenho estas saudades todas para matar. Socorro, parece-me uma Missão Impossível. Fica aqui o video do esquilo, para descontrair. É como me sinto.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O mercado veio à nossa casa

Está uma pessoa a trabalhar, muito concentrada, e os cães ladram. Aparecem duas crianças bem educadas e gentis, que já conhecemos bem, e que nos enfeitam a casa com a sua simpatia de sempre. São netas de uns vizinhos nossos e trazem oferendas agrícolas. Vem tudo numa cesta de verga: pêssegos, beringelas, tomate, nabos, nabiças, malaguetas. Assim, de oferta, só por sermos amigos. Que se quisermos ou precisarmos de mais alguma coisa (alfaces, peras, uvas...), é só aparecer. Entretanto, a Bé diz que vai começar a fazer compotas de fruta para o Natal e não só, já se sabe. Na brincadeira, diz que já chamam à casa "Herdade do Segredo", e bem merece o título.Ah, os prazeres da vida no campo...!
Volto ao trabalho com as mãos perfumadas e os olhos cheios de cores da terra. Obrigada à Bé e ao Zé Manel. Obrigada ao Tomás e à Constança, pelo serviço de entrega. É bom ter vizinhos assim!
(FOTO: tirada pelos próprios, e enviada por email, em jeito de publicidade)
PARABÉNS AO MICAS, QUE ESTÁ EM NY, E QUE HOJE FAZ 10 ANOS! BEIJOS DOS TIOS VERA E NANÃ!
(FOTO: in locco, com o meu filhote, hoje mesmo. Viva a tecnologia!)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A consciência à perna

O sol, esse cúmplice da minha preguiça, não teve raios a medir. Eu a insistir com ele, que não podia ser, que tinha a consciência à perna, a mandar-me para o computador trabalhar na edição do livro, e ele a insistir, sedutor, implacável. Venceu-me. Fechei a consciência num quarto escuro e fugi na sua direcção. O nosso amigo Zé esperava-nos, cúmplice do sol, ele também, de sardinhas de um lado e uma dourada do outro (para mim). Dourei-me por fora e por dentro, depois de um pouco de salmão fumado e espumante. Passámos ao vinho branco ("Uvas Douradas", um verdadeiro complot) e concluímos o repasto com uma fatia de gelado e outra de hapfelstrudel e café. Pedi licença ao corpo para o mergulhar lentamente na água azul-turquesa, a 26 graus, e ele consentiu.
Chega, oiço a consciência prestes a arrombar a porta.
São horas de libertá-la e de fechar a preguiça à chave, agora tu, para aprenderes. Mãos à obra, de espada na mão, de regresso à missão de tartaruga ninja: cortar os cerca de 100.000 caracteres que ainda faltam para cumprir o objectivo. É importante termos objectivos e, já agora, cumpri-los.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Encontros inesperados


Neste dia de verão perfeito, em que o calendário cumpriu a rigor a sua função, aproveitámos para ir à praia. Demos com um velho colega das lides musicais, que ia acompanhado das filhas (lindas! Umas queridas!) e depois de uma amena cavaqueira banhada pelo sol e pela maresia, combinámos umas bebidas refrescantes na nossa casa. Tiraram-se fotos, petiscou-se, bebeu-se. A Luz, com 9 anos, apaixonou-se pelo Gastão. Sentada ao meu lado no baloiço, com o Gastão ao colo, teve esta conversa:
- Sabes, o meu pai vai ter de combinar jantar em qualquer lado...
- Pois é... (sorriso meu)
- Vocês também vão jantar, não é?
- Sim, claro. Queres jantar cá?
- Quero! Tens de perguntar ao meu pai, mas é que eu não me quero separar do Gastão!
A franqueza desarmante das crianças, o talento para irem directamente até à Casa da Partida, sem receber dois contos, ou seja, sem passarem pelo filtro social. Ficaram. Jantaram. Comemos e bebemos outra vez, à luz das lamparinas e ao som dos grilos. Rimos, trocámos histórias, o encontro prolongou-se até à velocidade da Luz (a mais nova, que tem de deitar-se cedo) e despedimo-nos satisfeitos. Nunca é de mais repetir: é bom receber os amigos.
Beijinhos ao Luis Pedro, à Maria e à Luz. Felicidades para esta família de artistas.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A foto


Aqui está a foto prometida. Falta o Rodrigo, que está atrás da máquina...

workshop de fotografia

Photo by: Nanã Sousa Dias

Estão abertas as inscrições para um workshop de fotografia com NANÃ SOUSA DIAS, para os próximos dias 15 e 16, na zona da Ericeira. Aproveitem, inscrevam-se ou passem palavra aos interessados.
Para mais informações, vão ao link abaixo. Boas fotos!

http://www.facebook.com/home.php#/profile.php?id=1015105553

domingo, 9 de agosto de 2009

O fim da festa

Ontem encerrei os festejos dos 40 anos rodeada pela minha família. Apesar de algumas ausências, foi divertido, comeu-se e bebeu-se bem, as oferendas foram maravilhosas e o tempo, se bem que um pouco ameaçador, só nos deu uma rosnadela, sem chegar a morder. Seria lindo, 22 pessoas na nossa sala... A fotografia de grupo virá em breve, prometo.
Depois de todos partirem, pusemos a casa em ordem, fizemos um último brinde com um excelente rosé, vimos "A Vida de Uma Abelha" do Seinfeld e um filme sobre a vida do trompetista cubano Arturo Sandoval (Andy Garcia) e acho que desmaiei no sofá, para só acordar às 3.40 da manhã. Como diz o Chico, foi bonita a festa, pá.
Obrigada a todos por terem vindo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Entrei nos "entas"

Hoje guardei a pena na gaveta. Estou agarrada a responsabilidades mundanas, como organizar um almoço para 22 pessoas, que acontece amanhã. Ontem completei quarenta anos.
40
O número é maior do que eu, mas vamos ter de encontrar uma forma de convivermos juntos, dentro de mim.
O meu filhote, a P. o Sacho e o Micas ligaram-me duas vezes de NY, a cantar-me os parabéns: à hora de lá e à hora de cá. É uma boa sensação.
Obrigada pelos parabéns de todos!
Foi bom ter a família a almoçar cá em casa ontem, bem como o jantarinho original e animado no Campo de Santana (parabéns Rita, minha colega de aniversário!). Amanhã encerram-se os festejos cá em casa, com a outra parte da família, por isso tenho de fugir daqui, ir comprar mantimentos e agarrar-me aos tachos. Já fui.


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Tatuagem

Há palavras, memórias e sentimentos que ficam como que congelados, a sobrevoar os efeitos do tempo, com orgulho, imunizados pela força de terem tido vida própria nos dias em que éramos jovens. Nunca mais se vivem dias assim. Crescemos, transformamo-nos, a vida dá-nos outro olhar sobre o presente, enquanto o passado fica aninhado na pessoa que éramos, como uma tatuagem, que se agarra à pele.
/
CHICO BUARQUE - RUY GUERRA, 1973)
Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava
/
Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço
/
Quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem
Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, e ferro e fogo
Em carne viva
/
Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Um encontro com o sol

Hoje encontrei-me com o sol. Estendemo-nos os dois, eu sobre a toalha cor-de-rosa, ele sobre mim. Ao longo de várias horas, foi-me escrevendo na pele, narrando-se em ondas de calor. Eu escutei-o, tentando não perder aquelas palavras feitas de luz. Virei as minhas páginas, para me tornar num livro dourado. O corpo pediu uma pausa e eu acedi, cerrando os olhos da pele. A água fria meteu-se no meio, a apaziguar-nos os excessos, devolvendo-me ao corpo a temperatura. Os cabelos aclararam, a pele amorenou-se, como se o sol desejasse transformar-me num negativo de mim própria, invertendo-me as cores. O encontro terminou quando ele, esgotado, se foi retirando de mim, para esconder os raios mornos entre a folhagem dos pinheiros. Disse-lhe adeus, com um lamento. Marcámos novo encontro para amanhã. Será que ele vai comparecer?

domingo, 2 de agosto de 2009

Cesto de papéis V

"Como crianças, os ilhéus filosofavam, transformados em grandes devoradores de perguntas. Na vida quase perfeita que haviam levado até ali, jamais tinham sido tocados pelo sofrimento a que estava sujeito o Outro Mundo, tão defeituoso. As advertências gritadas por E. e M. de pouco ou nada serviram (...). Onde quer que estivessem, e fosse qual fosse a tarefa que tinham em mãos, as almas alimentavam-se de cores tão vivas e puras, que inventavam a sua própria receita para a felicidade. Os factores externos da existência eram meros pormenores. A vida de cada um era um eco da sua maneira de estar e esta, por sua vez, um reflexo do que lhes ia no coração. "

sábado, 1 de agosto de 2009

Cesto de papéis IV

Com a chegada da chuva, que remédio senão trabalhar. A vida lá fora ficou literalmente "de molho". Retomei, pois, o trabalho de tesouradas (tesouraria?).
Aqui fica um retalho:

"Depois havia um novo conceito que constituíra uma revelação para os ilhéus e no qual Grimela pensava às vezes: além de nomes, os mutantes acumulavam e contabilizavam os anos e as estações, para não perderem a conta à “idade”.
Dividiam-na por escalões e, consoante aquele a que pertenciam, podiam usufruir de certas vantagens, ou, pelo contrário, ficar limitados por ela: o acesso a certos lugares podia ser-lhes vedado: se um jovem não possuísse um total de dezoito anos de experiência no mundo (mesmo que fosse muito bem comportado), as autoridades desses lugares não o deixavam entrar e essa era uma das razões porque os jovens tinham pressa de crescer. Quando já estavam no escalão adulto há muito tempo, começavam a murchar e então eram chamados de “velhos”; mas como essa designação era sinal de desrespeito, referiam-se a eles como “os de terceira idade”, os “idosos”, ou ainda “gente já de certa idade” (subentendendo-se que certa queria dizer muita."