sábado, 23 de março de 2013

Os nossos mortos

Antigamente, quando alguém nos morria, ficavam as cartas e as fotografias. O amor e as recordações. E a saudade, claro, a amontoar-se por tudo e por nada. Até ir sendo dissipada pelo tempo, a ficar dia a dia mais leve, mais etérea. Até conseguirmos sorrir, ao pensar nesse alguém sem que as lágrimas nos viessem aos olhos. Quando muito, restava também o seu número de telefone numa qualquer agenda e, nesse caso, havia várias opções do destino: ou, nostálgicos, o deixávamos ficar, incapazes de riscá-lo, ou, na mudança anual de agenda, os mortos iam ficando para trás.
Agora não.
Agora o correio electrónico lembra-nos semanalmente do aniversário dos nossos mortos. E guarda zelosamente todos os emails trocados, num baú virtual que nunca iremos atirar para a reciclagem. Agora temo-los na agenda de contactos do telemóvel e não os conseguimos apagar. A culpa não nos deixa, iríamos sentir-nos cruéis, frios. E o número ali vai ficando, inútil e precioso. 
E há os blogues: o blogue de alguém que já partiu como quem sai e deixa a porta aberta. Volto já. A data do último post vai ficando cada vez mais para trás, cada vez mais pretérita. A página de facebook ou do Twitter mantém-se, pois ninguém sabe nem quer saber a password. E não se desamigam os mortos. Não são spam. Não se denunciam. Não se bloqueiam. Continuamos a receber notificações sobre o movimento das páginas dos nossos mortos, onde um dia deixámos um comentário. No mural conjunto aparece-nos o quadradinho com a fotografia, sempre que alguém lá vai deixar um ramo de flores, um ai, uma canção, um abraço. Às vezes até lá vamos escrever também. Escrevemos aos nossos mortos na montra onde publicamos a nossa saudade. 
E em tudo isto há um estranho consolo. Como se os nossos mortos fossem de todos e a vida não fosse exclusiva de ninguém.

sexta-feira, 22 de março de 2013

W. H. Auden

The Novelist
Encased in talent like a uniform,
The rank os every poet is well known;
They can amaze us like a thunderstorm,
Or die so young, or live for years alone.
They can dash forward like hussars: but he
Must struggle out of his boyish gift and learn
How to be plain and awkward, how to be
One after whom none think it worth to turn.

For, to achieve his lightest wish, he must
Become the whole of boredom, subject to
Vulgar complaints like love, among the Just

Be just, among the Filthy filthy too,
And in his own weak person, if he can,
Must suffer dully all the wrongs of Man. 


quinta-feira, 21 de março de 2013

Poesia

Para celebrar o dia de hoje, dedicado à Poesia, deixo-vos com um poema de José Luís Peixoto

Amor
o teu rosto à minha espera, o teu rosto 
a sorrir para os meus olhos, existe um 
trovão de céu sobre a montanha. 

as tuas mãos são finas e claras, vês-me 
sorrir, brisas incendeiam o mundo, 
respiro a luz sobre as folhas da olaia. 

entro nos corredores de outubro para 
encontrar um abraço nos teus olhos, 
este dia será sempre hoje na memória. 

hoje compreendo os rios. a idade das 
rochas diz-me palavras profundas, 
hoje tenho o teu rosto dentro de mim. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"

quarta-feira, 20 de março de 2013

Primavera

Segredos de Primavera
O aniversário da prima Vera era no verão. Mas isso pouco importava, pois era veramente uma criatura primaveril. Logo que a estação chegava, de seus cabelos brotavam flores de todos os tons e aromas. O que ninguém sabe – veja lá, é segredo de família! – é que seus pais a recolheram de um minúsculo ninho de fadas, na floresta, numa festa de equinócio.
(
Micro-conto em dedicatória, da autoria da minha grande amiga 
Denise Katchuian Dognini, S. Paulo, Março 2013)

Parabéns, Alice!


Esta Senhora completa hoje 70 anos. Diz que adora ter 70 anos; odeia ser septuagenária :) Querida Alice!
A Primavera não podia anunciar-se em melhor dia! Celebremos a primavera, que chega amanhã para nos renovar a alma, e também as Grandes e Boas Pessoas que temos a sorte de guardar cá.

terça-feira, 19 de março de 2013

Pai

"Pai, Quero que Saibas 

É o teu rosto que encontro. Contra nós, cresce a manhã, o dia, cresce uma luz fina. Olho-te nos olhos. Sim, quero que saibas, não te posso esconder, ainda há uma luz fina sobre tudo isto. Tudo se resume a esta luz fina a recordar-me todo o silêncio desse silêncio que calaste. Pai. Quero que saibas, cresce uma luz fina sobre mim que sou sombra, luz fina a recortar-me de mim, ténue, sombra apenas. Não te posso esconder, depois de ti, ainda há tudo isto, toda esta sombra e o silêncio e a luz fina que agora és."

José Luís Peixoto, in 'Morreste-me'

A todos os pais ausentes. Felizmente não é o caso do meu, que ainda está entre nós, espero que por muito bons anos. 

segunda-feira, 18 de março de 2013

...

Lendo, lendo, lendo, lendo...
Escrevendo, escrevendo...
Lendo, lendo, lendo...
Escrevendo...
Lendo...
...

domingo, 17 de março de 2013

sábado, 16 de março de 2013

A Gaiola

(inspirado em Oscar Wilde, O Rouxinol e a Rosa)

Os olhos dele, quase humanos, imploravam liberdade. Feita de prata e safiras, a gaiola era de uma beleza fria, inútil. Olhando-o, a mulher bebeu a infusão de pétalas. O pássaro soltou um guincho de saudade e ela compreendeu: aquele era um homem de asas presas, sofrendo pelo seu amor interdito. A mulher abriu a portinhola. Ele soltou as asas e foi cravar no peito o espinho da rosa mais próxima. E a maldição quebrou-se, enfim.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Reviver o passado

Adeus, até amanhã. Vou até à casa dos meus pais, onde passei os fins de semana e as férias da minha infância e adolescência. Agora irei ocupar o quarto de casal, com papel de parede às florinhas: era o da minha irmã mais velha, que, nos anos 70, já era uma jovem senhora. O que era o meu quarto e o da minha irmã do meio, com as duas pequenas camas brancas em ferro e colcha de quadradinhos em azul e branco, é, há anos, a oficina do meu pai, onde ele constrói modelos de barcos, ou não fosse o meu pai oficial da marinha reformado, com cachimbo, barba branca e tudo, a cujas longas pernas eu me agarrava com medo das ondas, na praia. O meu pai era um rochedo que nenhuma onda derrubava, eu tinha a certeza. 
Sei que será uma espécie de viagem ao passado. E que vou matar um pouco das muitas saudades que tenho desse tempo feliz, em que éramos crianças com preocupações ridículas, vivendo os dias no ócio de quem tem uma vida simples e privilegiada. Um pouco de mim está lá, sempre, e é essa Verocas que vou tentar encontrar, nas lombadas dos livros, nos cadeirões, nas fotografias, nos objectos, na luz, nos cheiros que habitam a minha memória.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Dirty Loops

Esta não é uma banda de covers qualquer. Ele, o cantor, tem a escola do Stevie Wonder e canta que se desunha. Tocam os 3 que nem bestas. Desculpem, mas há coisas que têm de se dizer assim. Aconselho a verem alguns videos relacionados, que surgem no fim (ex: Justin Bieber, Adele... muito superiores aos originais, como é óbvio).

quarta-feira, 13 de março de 2013

Chiado

Saí de casa com duas horas e meia de antecedência. Apanhei três transportes para ouvir o meu filho cantar durante 3 minutos. Se valeu a pena? Sim, absolutamente. Há emoções que valem sempre a pena. 

Chiado:
Decididamente, não volto à Brasileira. Já uma vez aqui escrevi acerca deste café histórico onde há muito não se faz jus à sua fama nem à estátua do Senhor Pessoa. Outra novidade: para utilizarmos a casa de banho temos de apresentar o talão do balcão, ou seja, barram-nos a entrada a não ser que provemos que acabámos de consumir algo, ou seja, eu explico melhor, há consumo obrigatório para podermos fazer um xixi. Não, não basta não termos ar de marginais ou o bom senso de consumirmos alguma coisa depois, por simples boa educação. É evidente que saí e fui à pastelaria do lado que me serviu, com boa cara, uma bica excelente e um dos melhores pasteis de nata que alguma vez comi. É caso para dizer que da Brasileira tenho...a minha conta. Sem factura.

No ar soava o último Hit lusitano, o Grândola Vila Morena na voz do Zeca, novamente repescado para simbolizar mais uma manifestação iminente.
Quando desci do Largo de Camões ao Chiado, lá estava ela: polícias de carro e de mota, a multidão a subir vinda do Rossio, as filas de bandeiras encarnadas, os solistas de belas vozes e um coro afinado e impressionante de crianças, todos cantando a Vila Morena. Não houve distúrbios, tudo se fez com ordem. Para esquecer a crise e aproveitar a ida a Lisboa entrei nos velhos armazéns renovados, fingindo para comigo mesma ter dinheiro na carteira para gastar em inutilidades; espreitei algumas das minhas lojas preferidas, suspirei, como é meu dever de mulher, por almofadas, senhorinhas, candeeiros, perfumes, um serviço de pratos, sapatos. Numa troca bem-disposta de sms com o meu marido, já me dei por feliz ao saber que tínhamos voltado a ter internet, finalmente.
Três transportes de volta, de regresso a casa. Eu muito provinciana, sem saber recarregar o cartão do metro. Antes era tudo tão mais simples, ou é impressão minha? 
Ainda houve tempo para um cafezinho junto à praia, apesar do frio terrível que hoje chegou. Enfim, frio terrível. Os siberianos fartavam-se de rir, se lessem isto.
Ao computador: 82 emails em atraso, 42 notificações no facebook, 2 pedidos de amizade. Regressada à solitária vida no campo e à sociedade, entre a multidão virtual.
À noite...Papa.

terça-feira, 12 de março de 2013

Alain de Botton

Já li vários livros deste senhor, que tem o condão de dissertar de uma forma clara, sedutora e bem humorada sobre assuntos que, à partida, podiam ser massudos. Hoje terminei, finalmente, o livro de Saramago (O Ano da Morte de Ricardo Reis) e comecei de imediato a ler "Religion for Atheists", na língua original, por saber, de antemão, que Alain de Botton consegue chegar aos leitores facilmente. Esta conferência no TED já foi vista bem mais de um milhão de vezes e foi, decerto, o embrião deste livro. Muitíssimo interessante, por sinal. E polémico...claro.
Para mais, espreitem a crítica no The Independent

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sem Internet

(Continuando a escrever em diferido, com alguns dias de atraso)
Conclusão do dia: quando não temos Internet cuidamos muito mais da casa. Que remédio. E lemos mais. Livros, quero dizer, não emails ou posts no facebook. Uma pilha de roupa em atraso ficou engomada; bancadas limpas, cantos aspirados, metais areados. E a leitura, claro, avançou. Dei-me ao luxo de me deitar na cama depois do almoço a apreciar o sol a entrar pela janela e a derramar-se na colcha, fazendo por terminar o interminável livro do Saramago e namorando já o próximo a ler, com uma meia dúzia de livros espalhados, à escolha. Alguns a reler, outros para ir lendo (como os poemas de W.H. Auden, contos de Rubem Fonseca), outros ainda promessa de boa leitura, com o selo de garantia do que é intemporal.

domingo, 10 de março de 2013

Estouros

Escrevo isto com 5 dias de atraso e já verão porquê. No Sábado jantávamos placidamente. Lá por fora andava a tempestade. Julgamos que, se tivermos uma casa forte como a do porquinho Cícero, estamos seguros, mas não é bem assim. A trovoada estalou em cima de nós, lançando trovões e relâmpagos como se estourassem no interior da casa. De repente, a escuridão total. Só se viam luzinhas na linha do horizonte, ao longe. Por aqui ficou tudo apagado. Os cães e o marido adormeceram, no tédio de quem nada tem para fazer. E eu fiquei ridiculamente a gastar a bateria do telemóvel jogando (eu a brincar com joguinhos de telemóvel, imagine-se), pela primeira vez, "Climate Mission", cuja música, ao contrário do que é habitual nestas andanças, era bastante zen: e fiz nascer árvores de fruto, lutei contra a desflorestação  plantando árvores de fruto na Nigéria e milho no Zimbabwe. Vencida pela escuridão, deitei-me às onze da noite na companhia de velas e lanternas de LED, sem saber que no dia seguinte já tínhamos electricidade, é certo, mas que iríamos ficar sem telefone e sem internet durante 5 dias. Pronto, restou-me o consolo de ter contribuído para a reflorestação do planeta, valha-nos isso.

sábado, 9 de março de 2013

Quanto é que vale?

Não, nem tudo é perfeito. Estes blogues são muitas vezes o reflexo de coisas extremas, está tudo péssimo ou tudo maravilhoso, mas a verdade é que, pelo meio, há mesmo coisas assim, ter um filho de 17 anos, estudante no Conservatório Nacional de Música, que nos envia pelo facebook algo como isto e a mensagem: "Para pores na tua lista. É linda."

sexta-feira, 8 de março de 2013

Mulher

Poema del 8 de marzo
Luis Sepúlveda
(poema oferecido pelo próprio, hoje, no facebook, dedicado a todas nós)

Me gusta cuando hablas porque estás bien presente

me gusta cuando dices pan y  lo huelo

y cuando hablas con los hijos y  los veo

y cuando dices tango, país, tierra, mar y memoria

porque todo entonces tiene la forma que yo quiero

Me gusta cuando nombras las cosas de la mesa

cuando haces inventario de lo que crece entre la hierba

cuando mirando al cielo pronosticas la lluvia

de estrellas o recuerdos o del agua antigua.

Con tus palabras inauguras el mundo que yo quiero.

Y me gusta tu voz porque sé que un día fue silencio

que cuidó los nombres de las calles, de los ríos,

de las plazas, de las aves y de los compañeros

a salvo en tu tierno vigor de compañera.

Tu voz cuidó la palabra amor y es nuestra herencia.

Me gusta cuando hablas en la calle y en la barricada

cuando envuelves la justicia con tu mejor tono

y me gusta tu susurro en medio de la noche

porque nombras la vida uniéndose a los sueños.

Me gusta cuando hablas porque estás bien presente.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Sejamos

© Nanã Sousa Dias / Navegador Solitário 
Sejamos esperança ainda que estejamos sós. Cumpramos a urgência da terra na renovação. Criemos, do verdor e do musgo, outras vidas que rompam o enquadramento em que nos deixámos enclausurar. Tracemos a sombra esguia que nos engrandeça a figura modesta; para que nos tornemos rastilho, remando em mares já navegados, novo trilho, na planície inundada de chuva e solidão.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Mundos

Ser-se dois em dois pequenos mundos. Desde que os olhos se cruzem de vez em quando. A medo, ela pergunta: se eu me sentir demasiadamente só, salvas-me? 

terça-feira, 5 de março de 2013

3 Chamadas Perdidas

1. Culpa
O telefone tocou. Ninguém atendeu. Era tarde para desculpas. Há coisas que se dissipam no tempo de um adeus ou de um perdão. Perdoa-me, dizia a chamada que ela nunca atendeu. Volta, por favor, dizia a voz que não se ouviu. No tapete da sala jaz o corpo desistente, a mulher que, não esquecendo, foi incapaz de perdoar. Do lado de lá estende-se um fio imenso de culpa.

2. Perdida
Nunca passa fome. Vive da gratidão dos que, por vê-la, arranjam um pedaço de pão, um osso, uma casca de fruta, um biscoito. O nome por que é conhecida não faz qualquer sentido. Perdidos são os que andam sem consolo na vida, sem projecto nem futuro. É cadela rafeira, sim, mas tão orgulhosa que, quando a chamam pelo nome, não responde.

3. Em Má Hora
Chamou a Musa com todas as letras que tinha, a fim de entornar na página vocábulos saídos da boca das divindades para a mão do escritor. A Musa chegou mas com atraso. Quando se encontraram, já ele conduzia, a caminho do emprego. Foram encontrá-lo desfeito contra um poste, defronte a uma curva apertada. Os olhos abertos mostravam a expressão de uma epifania.

(a partir de Desafio "Chamada Perdida", até 300 caracteres, Grupo de Microficções, Facebook, Março 2013)

segunda-feira, 4 de março de 2013

Abrigo

Não fazer quase nada. Ficar de pijama de malha polar e roupão, entregue ao conforto do ócio. Até o serra da estrela desiste de ser territorial e acaba por consentir na presença da cadela, que se enrosca aos meus pés. Dormem ambos comigo, neste escritório onde apenas se escuta o tec-tec-tec dos dedos no teclado e a chuva a embater contra os vidros. Lá fora a terra inunda-se, os ramos das  árvores são sacudidos pelo vento. Ponho qualquer coisa a descongelar, a cama fica por fazer, o automóvel inútil, parado em frente à porta, entende que estes são dias de clausura, em que só as janelas, de vidro ou virtuais, constituem o nosso contacto com o mundo. 

domingo, 3 de março de 2013

Brown's Coffee Shop

Das raras vezes em que vou a Lisboa e posso gastar uma horas na zona do Chiado, uma das minhas preferidas, vou até ao Brown's, um café que conheci graças ao meu filho que um dia lá me levou. Creio que muito boa gente não conhece este espaço. É uma espécie de Starbuck's, mas em bom. E ainda por cima português. Ah pois. Sou sensível à música de fundo, se não é boa, está tudo estragado. E o Brown's passa música excelente, do tipo Duetos de Tony Bennett com orquestra, standards de jazz muito cool, intercalados com uma ou outra mais mexidotas, mas sempre regressando ao jazz conservador, com cantores e boas vozes. Além das bebidas em copo (chocolate quente, vários tipos de café guloso, com natas, caramelo, chocolate etc), servem tostas enormes em pão saloio, Chá english breakfast (nada de lipton), saladas, sopas, massas, sanduíches várias., bifes. Os empregados são simpáticos e sorridentes, o espaço está lindamente decorado,  em tons castanhos, cadeiras de couro de orelhas e outras em materiais diversos e agradáveis, tudo muito confortável, muito "cosy". Várias salas espaçosas, as paredes cheias de fotografias a preto e branco, candeeiros e projectores de luz quente, ideais para leitura e escrita, tomadas com ligação à Internet...e é frequentado por gente civilizada. O que se pode pedir mais de um café? Aqui fica a sugestão.
Localização: Rua da Vitória, 88 (Baixa) 
Horário: 2ª a Domingo, 08.00 - 23.00
Página no facebook: Brown's Coffee Shop

sexta-feira, 1 de março de 2013

Aspirações

Sexta-feira é o dia escolhido para fazer um lar da sua casa, que ao fim de semana recebe família e amigos. Sobe e desce as escadas, numa inevitável aula de step, percorrendo as várias divisões. A luz preciosa do sol vai mudando de posição e o balde, a esfregona e os vários produtos perseguem-na, encontrando-a incidindo nos azulejos, na tijoleira, nas madeiras, nos vidros da casa. O descanso vai sendo adiado, só falta acabar este chão, já agora, os vidros também, isto não pode ficar assim, olha uma teia de aranha, agora uma mancha aqui. E os trapos, as peças de roupa que é preciso lavar à mão, o cheiro doce do produto das lãs, a roupa de molho no alguidar encarnado, o perfume do óleo de cedro nos móveis renascidos, o aspirador sorvendo o pelo infernal do cão serra da estrela, o pano húmido passado em todos os frascos e frasquinhos da bancada de mármore, para quê tantos perfumes e cremes, tantos bibelots, tanto de tudo.
Os pés escada acima escada abaixo, os braços e as mãos espremendo produtos e panos, a boca em silêncio, os ouvidos que apenas escutam o som que fazem as coisas a ser limpas, os olhos talvez vazios, mecânicos; mas é ocupada nestas lides que pensa nas suas personagens, nos seus livros, enquanto, rindo, duvida que assim, ocupada em singelas tarefas domésticas, lhe surjam ideias para um grande romance. Julga que os escritores têm vidas grandes, aventureiras, sofridas; que não é no tubo de um aspirador ou nas dobras de um trapo que nascem literários enredos.

Roubei a imagem aqui

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Pura teimosia

Vá, sejamos honestos. Amamos os livros, sim, devoramo-los, coleccionamo-los, fazemos listas de "a ler", namoramos mais não-sei-quantos, pedimos emprestados outros tantos, mas. Às vezes lemos livros intermináveis por simples teimosia. Para não desistir, já que chegámos até ali. Em leituras arrastadas de livros com 600, 800 páginas, que nos provocam níveis variados de entusiasmo: encontramos partes que nos conquistam, que nos dão a sensação gratificante de valer a pena, de serem justas as horas investidas; e  eis que tropeçamos noutras, mais ingratas para nós, leais leitores, leais também para com um certo autor de quem já lemos diversos livros, que amámos sem esforço algum, e que assim, por simples teimosia e consciência, nos obrigam a chegar ao fim de um calhamaço que não nos apaixona, e cuja fama não conseguimos justificar, enquanto há muito deitamos uma olhadela a outros livros que aguardam a vez e cuja leitura apetece mais. É verdade ou não é? Vá, confessem...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ruy Belo


Ruy Belo faria hoje 80 anos. deixo-vos com um belíssimo poema seu.

"A mão no arado"

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Parabéns

Muito apropriado, este apontamento de humor irresistível, para celebrar o 56º aniversário do senhor com quem partilho a minha vida há 11 anos :)
Parabéns, G! ;-)
Hoje faz 13 anos que nos conhecemos. No ano 2000, quando fomos apresentados, o teu nome era para mim uma espécie de lenda, muito conhecido e respeitado no meio musical. Continuas a surpreender-me e a ser uma das pessoas mais dignas de respeito que eu conheço. Como músico, como fotógrafo e como homem.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Tsung Tsung

Enfim, o puto dá uma ou outra nota fora, mas a malta perdoa, certo? Rsrsrs...
Bom domingo! :-) E tentem acreditar em impossíveis.



sábado, 23 de fevereiro de 2013

caneta 3D

A ficção não pára de se tornar realidade! Daqui a ser possível criar uma tinta que permita escrever a palavra "chocolate" e COMÊ-LA, vai um passinho! :)
Impossível? Então vejam lá isto...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Hélia Correia

Ontem, na Póvoa do Varzim, ao receber o prémio Correntes d' Escritas com a obra "A Terceira Miséria", Hélia Correia afirmou que este livro de poemas, uma homenagem à (sua) Grécia é quase um pedido de socorro, um grito: “É preciso lançar um grito como o das canções portuguesas a que, por exemplo, José Mário Branco deu expressão: ‘Alevantai-vos!’”. Fica bem entregue o prémio que este ano é dedicado à poesia.

poema de Hélia Correia

23.
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
[in A Terceira Miséria, Relógio d'Água, 2012]

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Correntes d' Escritas 2013


 
Começou ontem à noite, na Póvoa de Varzim, a 14ª edição do Festival Literário Correntes d"Escritas que este ano vai homenagear os escritores Urbano Tavares Rodrigues e Manuel António Pina.
"A edição deste ano contará com a presença de mais de 50 escritores (de Portugal, Angola, Espanha e Brasil), tradutores, editores, designers, ilustradores, jornalistas que se vão espalhar por várias escolas da cidade, por mesas redondas, onde se vai debater literatura, e pelos vários lançamentos de livros que decorrem durante os três dias que dura o evento.
Este ano serão muitas as estrelas do firmamento literário de a marcar presença no festival. Entre eles estarão a brasileira que venceu o último prémio Saramago, Andrea del Fuego, os espanhóis Ignácio Martínez de Píson, Susana Fortes e Domingo Villar, os portugueses , António Mega-Ferreira, Vasco Graça Moura, Valter Hugo Mãe, Hélia Correia, Rui Zink, Richard Zimmler ou Nuno Camarneiro (prémio Leya) num evento em que a poesia estará em destaque.
Na quinta feira de manhã será entregue o prémio literário Casino da Póvoa (no valor de 20 mil euros), para o qual são candidatas obras de Ferreira Gullar, Manuel António Pina, Hélia Correia, Fernando Guimarães, José Agostinho Baptista, Armando Silva Carvalho, Luís Filipe Castro Mendes e Bernardo Pinto de Almeida. Na mesma altura será lançada a revista Correntes d"Escritas, dedicada, ao escritor Urbano Tavares Rodrigues que, por motivos de saúde, não poderá marcar presença no festival literário.
Olhando com atenção para o programa literário do Festival não são claramente visíveis os ajustamentos orçamentais feitos pela autarquia uma vez que, como explica Luís Diamantino, "se taparam buracos financeiros alargaram significativamente a rede de parcerias" embora tenham deixado de patrocinar a 100% a vinda dos escritores. "Essa despesa passou a ser feita pelas embaixadas e pelas próprias editoras". Talvez por esta razão seja notória a ausência de pequenas editoras face a uma massiva presença dos grandes grupos editoriais como a Porto Editora e a Leya. Das pequenas editoras destaca-se a presença da Abysmo, que vai lançar o livro de Rui Vieira, No Labirinto do Centauro.
Para além das mesas redondas e lançamentos, para as quais são esperadas cerca de cinco mil pessoas, haverão ainda exposições de fotografia e a entrega dos prémios porto editora e Ler/Booktailors.
Quem já passou pela Póvoa em dias de Correntes sabe que o afluxo de público nos eventos é impressionante para um país que supostamente "não gosta de ler". Por essa razão Luís Diamantino promete que para o ano haverá um cineteatro a estrear para acolher cerca de 500 pessoas por sessão."
O programa completo pode ser consultado AQUI
(in site da Fundação José Saramago)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Enganos

© Nanã Sousa Dias

Entre o ser e o parecer anda o que nem tudo é. Os olhos vêem o que um coração sente, iludido, enquanto a mente traz aos ouvidos crentes a mentira das tentações. O cenário quer-se perfeito, o céu vai cheio de promessas e até uma pequena nuvem, no lugar certo, jura ser o que os nossos olhos querem ver. A nuvem passa e o comboio abraça os carris com o peso da realidade. Esfuma-se a névoa e no céu azul permanece a respiração, suspensa, em busca de uma outra nuvem que se arrume no ponto certo, desenhando uma nova quimera que nos alimente as mãos abertas. E das mãos se liberta a anarquia das nuvens, que de novo se ergue, subindo aos céus, a enganar os sonhadores do mundo.


Para conhecer a galeria clique em NANÃ SOUSA DIAS

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Dogsitting

O sol reapareceu, o que nos dá sempre um conforto infantil, de bebés contentes. O marido saiu para ensaiar. Dogsitting depois do pequeno-almoço, já sabem, Ruca, Fred e o pequeno Yoda. 
                             
A Ruca, arraçada de cão de fila de S. Miguel, é possante e assustadora. Rosna, sim, mas eu finjo não ligar e desarmo-a. É preciso não esquecer os ensinamentos do "Dog Whisperer". Brinco um pouco com o Fred, também grande mas um poço de mimo e a Ruca pára de rosnar. Comida nos pratos, água mudada. Dou-lhes um biscoito à saída. Não houve pernas nem braços arrancados. 
                          
                          
Actualizo este blog abandonado desde 5ª feira, para cumprir uma das resoluções do ano novo: não falhar um dia. 
Retomei a revisão de texto. Desta vez o texto é meu.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mimos

Segunda-feira, missão cumprida. Hoje foi dia de mimos. Pequeno passeio à Ericeira. O tempo incerto, o céu carregado, na iminência da chuva. Lanche merecido de ameijoas à bulhão pato e mexilhões grelhados na chapa. Vinho branco e café, junto à janela. Lá fora, a chuva, o vento, o mar e o moinho junto à Praia dos Coxos.
Ao fim da tarde seguiu-se um serviço de dogsitter à Ruca, ao Fred e ao Yoda. Os donos foram até ao Porto. Fui retribuída em laranjas da quintinha. O que sabe sempre bem, mas não era preciso, que há coisas que se fazem com gosto, por amizade. A oferta dos produtos da horta (tantos!) também. É assim, cada um oferece o que tem para dar.
Uma sesta pecaminosa até às onze da noite. Porque não? Serão com um filme excelente, há muito gravado na box, para ver um dia. Foi hoje: "As Serviçais".

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Ainda de serviço


DOMINGO:
Frango de churrasco c/ batatas fritas
Cerveja, Vale Perdido, café, chocolate

Jantar de despedida, mais caprichado:
Pão de alho e ervas
paté de salmão caseiro
Camembert derretido com alho e coentros
azeitonas verdes recheadas com pimento
favinhas com bacon e coentros
Bolo saloio caseiro
Café...forte, que o jantar terminou à meia-noite e é hora de regressar ao Porto...

sábado, 16 de fevereiro de 2013

De serviço


(Escrevo com atraso, já na 3ª feira. Não houve tempo para bloguices)
O marido deu um workshop intensivo de laboratório a quatro alunos que vieram do Porto. Eu fiquei de serviço à cozinha, para que não falte o ânimo à rapaziada.
Ementa: 
SÁBADO
Almoço: Queijos, salpicão, morcela de arroz
Feijoada de entrecosto e enchidos c/ arroz
Vinho tinto Vale Perdido, whisky, café

Jantar: Queijos
Caril de gambas c/ arroz basmati
Vinho tinto Vale Perdido, whisky, café, chocolate                                                                           
O filho chegou-me só hoje, zombie, com o sono trocado, que ontem houve borga. Ainda assim teve de me ajudar a descascar 2k e meio de gambas cozidas. Azarinho.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Maria do Rosário Pedreira

Hoje deixo-vos com um blogue que se limita ao texto. Nada de imagens, nada de música. Vale por si e nada mais pede: contém impressões relativas à actualidade literária, sugestões, crónicas e confissões de uma grande senhora no meio editorial, casada com o também editor de renome Manuel Alberto Valente. Para acederem ao blogue de editora e escritora Maria do Rosário Pedreira, venham aqui, a HORAS EXTRAORDINÁRIAS. Estou certa de que irão ficar em excelente companhia.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Detalhes

Para os românticos, sentimentais, sensíveis a delicados estados de espírito trazidos pela música, a poesia, as imagens que esta minha amiga escolhe, dia a dia...deixo-vos na companhia de mais um blogue. Hoje, o da Maria João, aqui: PEQUENOS DETALHES

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Devida Comédia

No seguimento do que disse ontem, deixo aqui outra sugestão: o blogue do jornalista e escritor do Porto, Miguel Carvalho. A escolha deste post em particular vai com uma dedicatória à Denise, uma espécie de anjo que mora em S. Paulo.

O Blogue do Miguel: A DEVIDA COMÉDIA

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Jardim Assombrado


Muito boas almas vêm visitar este blogue. Estou como seguidora de uns quantos, que vale a pena seguir e nestes dias venho partilhar convosco alguns deles.
No final do ano apareceu um álbum de dois autores mexicanos que pode ser entendido como uma alegoria sobre a evolução da Humanidade, passe o tom pomposo da síntese. Nas figuras humanizadas destas aves vemos a representação de um mundo que bem conhecemos: a revolução científica dos séculos XVI a XVIII; a arquitectura que nos protege e encerra; as arriscadas máquinas de voar que sempre nos parecem frágeis na imensidão do espaço… Quando as aves sucumbiram ao excesso e ao artifício, veio também a produção em massa, a sobrepopulação, a obsessão do corpo perfeito, a guerra. «Quiseram controlar tudo: outros territórios, a vida, e inclusivamente o destino dos demais.» A imagem do tigre equilibrado numa bola de circo é a triste excepção neste mundo governado por aves de olhar duro e opaco, esquecidas de saber voar. Felizmente, «em algum lugar, ainda há quem tente estender as asas», dizem os autores, David Alvarez (n. 1984) e María Julia Garrido (n. 1986). São dele os elaborados desenhos a grafite, mas trata-se de um trabalho conjunto de texto e ilustração que lhes trouxe, merecidamente, o V Prémio Compostela para Álbuns Ilustrados.

Aves

María Julia Díaz Garrido

Ilustrações de David Daniel Álvarez Hernández 
Tradução de Ana M. Noronha
Kalandraka


(Texto publicado na LER nº 121, secção «Leituras Miúdas».)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Pioneiros

Não, dou o dito por não dito. A Nicole Pesce de ontem não é assim tão fantástica, porque já em 1951 este senhor, Victor Borge, fazia isto! Obrigada, Raul :) E bom domingo para todos, sim?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Saudade

A todos os que amo e perdi, aos tempos que já não regressam, ao sentimento que dói e estranhamente me conforta.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Patrícia Reis



A Egoísta, que editou durante 13 anos, foi suspensa ou acabou?
O mandato desta administração da Estoril-Sol, que é a proprietária da revista, terminou. Foi-me dito em Novembro para suspender todos os pedidos de colaboração para a edição de Março, que seria a primeira deste ano. O que a próxima administração vai decidir não sei.
Qual é o balanço?
A queixa é muito ‘tuga’, mas eu não gosto nada. Não penso ‘ai Jesus que terminou a Egoísta!’. Penso que fizemos 50 edições com coisas maravilhosas e foi uma experiência magnífica para todas as pessoas que tiveram o privilégio de participar. A Egoísta foi a revista mais premiada da Europa, esteve no Louvre, foi premiada em tudo o que é sítio. E demos trabalho a fotógrafos e a autores, alguns consagrados, outros que vieram a sê-lo. Fizemos uma publicação completamente distinta e fizemos escola. Quando propus uma revista temática diziam que era maluca.
Tem algum projecto para substituir o espaço que a Egoísta preenchia?
Tenho que ter porque tenho uma empresa no mercado, o ateliê 004. Se não estiver a funcionar não vivo. A ideia de que a Egoísta era a base de sustento é errada. Nós fazíamos e fazemos, felizmente, muito mais coisas. Sites, exposições, stands, eventos, imagens corporativas. É um ateliê de design, de ideias e de conteúdos. Adoro trabalhar e sempre fiz coisas muito variadas. Continuo a editar a Portfolio, que é a revista da Fundação Eugénio de Almeida, onde faço a cada ano uma grande entrevista. Fazer entrevistas é das coisas de que tenho mais saudades no jornalismo. Há vida para além da Egoísta.
Mas foi o grande projecto da sua vida?
Não. O grande projecto da minha vida são os meus filhos. Não é uma revista, caramba!
Como é que vocês conseguiam coisas como retratos do Lucien Freud?
Comprando. Tínhamos um orçamento editorial que era gerido à pinça e que foi sendo esmagado a cada ano. Muitas vezes fizeram-se omeletas com a película que separa o ovo da casca. Mas fizeram-se.
A revista custava 17,5 euros, mas é impossível que isso pagasse o custo real. Era um projecto de luxo?
Foi pensada para ser uma revista de culto. Não é uma publicação de índole comercial. É um veículo de comunicação e marketing de um grande grupo empresarial cujo core business é o jogo. A Lei do Jogo estipula que qualquer casino é obrigado a aplicar parte das suas receitas em actividades culturais. Entre outras coisas, a Estoril-Sol optou por ter uma publicação que reflectisse os valores do grupo e que fizesse algum serviço público.
Como é que asseguravam a qualidade gráfica e de impressão, que são imagens de marca da revista?
Trabalhando com os melhores designers do mundo e com a melhor gráfica do mundo, a Norprint, em Santo Tirso. Por cada ideia estapafúrdia que eu tivesse eles diziam sempre: ‘Se tem que ser feito vamos fazer’. Estou-lhes extremamente agradecida. Fizemos uma revista em que a capa só se via depois de ir ao microondas! Tiveram que fazer pesquisa com tintas. E muitas vezes perdemos todos dinheiro com isto.
Ainda tem carteira de jornalista. Gostava de voltar aos jornais?
A maneira como vejo o mundo é de jornalista. Faço parte da geração d’ O Independente e isso fica connosco. Mas passaram-se 26 anos desde que comecei. O jornalismo hoje é outra coisa.
Está diferente em que sentido?
Os jornais agora são geridos com uma folha de Excel, tudo tem que ser rentável. Quando entrei para O Independente fiz a tarimba toda e estive dois anos até assinar um texto. Agora, um miúdo entra num jornal, assina na primeira semana, mas está numa redacção onde os jornalistas mais velhos foram despedidos por serem caros. E as redacções ficaram sem memória. E há também a ideia de que os leitores não gostam de textos longos. Não gostam se forem maus!
A redacção de O Independente, onde começou, também era muito jovem...
Sim, com excepção da Helena Sanches Osório, mas tínhamos um objectivo e um líder, o Paulo Portas, o melhor director de jornal que tive. Ele tinha um plano.
Qual era o plano?
Derrubar o Cavaco e ganhar ao Expresso. Queríamos mudar o mundo e o jornalismo. Éramos a ‘presstroika’.
Como é que entrou?
Vi um anúncio, fiz provas e fui a uma entrevista com o Miguel Esteves Cardoso. A Inês Pedrosa assistiu e eu só respondia: ‘Já sei’. Estava nervosíssima. Quando o Miguel disse: ‘Esta não porque é muito já sei’, a Inês respondeu-lhe: ‘Esta sim por isso, não esteve aqui a lamber-te as botas’.
Qual foi o trabalho em jornais mais importante que fez?
Foi a última coisa que fiz para O Independente, em que estive presa na cadeia de Tires durante 20 dias, sem que ninguém lá dentro soubesse que eu era jornalista. Viver num pavilhão de uma prisão com 121 mulheres, sete chuveiros, sete buracos, que não havia sanitas, é uma experiência que muda a vida. Em vez de veres o copo meio cheio ou meio vazio, dás graças por teres um copo.
Patrícia Reis
Editora
Começou n’ O Independente com 16 anos e passou pela redacção do Expresso, da Marie Claire e da Elle. Participou na preparação da Expo-98 e foi produtora do programa Sexualidades, de Júlio Machado Vaz. Criou o conceito da revista Egoísta e vendeu-o à Estoril-Sol. Dirige um ateliê. Tem 42 anos, é escritora e jornalista ‘para sempre’.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sambalelê

E porque o Carnaval está aí à porta, aqui vos deixo um tema irresistível, bem ao gostinho brasileiro, dedicado a todas as crianças. Haja Alegria!
Barbatuques, CD Tum pá :-)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Egoísta

É oficial: a revista Egoísta foi suspensa por tempo indeterminado. 
O Grupo Estoril-Sol (na pessoa do Dr. Mário Assis Ferreira), a escritora, editora e jornalista Patrícia Reis e o seu atelier 004 são as pessoas por detrás de todos os artistas publicados, desde os mais consagrados aos mais novos talentos, passando pelas artes plásticas, ficção, poesia, fotografia, pintura, ilustração...Foi, até hoje, a revista portuguesa mais premiada de sempre, a nível internacional.
Não vamos dizer adeus. Como é possível? Retira-se em toda a sua glória, sob infinitos aplausos que ainda irão soar por muitos, muitos anos.





sábado, 2 de fevereiro de 2013