quinta-feira, 10 de abril de 2014

Umberto Eco

Umberto Eco completou 80 anos. Aqui deixo, na íntegra, a entrevista que deu à revista brasileira "Época":

ÉPOCA - Como o senhor se sente, completando 80 anos?

Umberto Eco - Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros. 

ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?

Eco - Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet. 

ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?

Eco - A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento. 

ÉPOCA - Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?

Eco - Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes. 

ÉPOCA - Há uma solução para o problema do excesso de informação?

Eco - Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

ÉPOCA - O senhor já está pensando em um novo romance depois de O cemitério de Praga?

Eco - Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro. Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite, porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty - embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual em um livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz...

ÉPOCA - Como lidar com tamanha variedade de caminhos?

Eco - Estou começando com meu interesse constante desde o começo da carreira pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a Semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, o da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitériode Praga.

ÉPOCA - Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, O protocolo dos sábios de Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?

Eco - Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rotschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os protocolos dos sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.

ÉPOCA - O senhor considera os Procotolos uma das fontes do nazismo?

Eco - Sem dúvida. Adolf Hitler, em sua autobiografia, Minha luta, dava como legítimo o texto dos Protocolos. Hitler tomou como verdadeira uma falsificação das mais grosseiras, e essa mentira constitui um dos fundamentos do nazismo. A raiz do antissemitismo vem de muito antes, de uma construção do inimigo, que partiu de delírios e paranoias.

ÉPOCA - O personagem de O cemitério de Praga, Simone Simonini, parece concentrar todos os preconceitos e delírios europeus do século XIX. Ele é ao mesmo tempo antissemita, anticlerical, anticapitalicas e antissocialista. Como surgiu na sua mente alguém tão abominável?

Eco - Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os protocolos dos sábios do Sião.

ÉPOCA - A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. Ele tem provocado reações negativas. O senhor gosta de lidar com polêmicas?

Eco - A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, ele gerou alguma discussão. O L'osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. Não respondi, porque sou conhecido como um intelectual anticlerical - e já havia discutido com a igreja católica no tempo de O nome da rosa, quando me acusaram de atacar a igreja. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e advertiu em um pronunciamento que as teorias contidas no livro poderiam se tornar novamente populares a partir da obra. Respondi a ele que não havia esse perigo. Ao contrário, se Simonini serve para alguma coisa, é para provocar nossa indignação.

ÉPOCA - Além de falsário, Simonini se revela um gourmet. Ao longo do livro, o senhor joga listas e listas de receitas as mais extravagantes, que Simonini comenta com volúpia. O senhor gosta de gastronomia?

Eco - Eu sou MacDonald's! Nunca me incomodei com detalhes de comida. Pesquisei receitas antigas com um objetivo preciso: causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

ÉPOCA - Qual o sentido de escrever romances hoje em dia? O que o atrai no gênero?

Eco - Faz todo o sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegan's Wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da narratividade, chamado de pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno, e concordo com isso. Vasculho as formas e artifícios do romance tradicional. Só que procuro introduzir temas que possam intrigar o leitor: a teoria da comédia perdida de Aristóteles em O nome da rosa; as conspirações maçônicas em O pêndulo de Foucault; a imaginação medieval em Baudolino; a memória e os quadrinhos em A misteriosa chama; a construção do antissemitismo em O cemitério de Praga. O romance é a realização maior da narratividade. E a narratividade conserva o mito arcaico, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais efetiva do que qualquer tecnologia.

ÉPOCA - Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual a sua opinião sobre os apocalípticos que preveem a morte da literatura?

Eco - Philip Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não vai morrer tão cedo. Ele publica um romance por ano, e sempre de boa qualidade. Não me parece que nem o romance nem ele pretendem interromper a carreira (risos).

ÉPOCA - Mas por que hoje não aparecem romancistas do porte de Liev Tolstói e Gustave Flaubert?

Eco - Talvez porque ainda não os descobrimos. Nada acontece imediatamente na literatura. É preciso esperar um pouco. Devem certamente existir Tolstóis e Flauberts por aí. E têm surgido ótimos ficcionistas em toda parte.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a literatura contemporânea?

Eco - Há bons autores medianos na Itália. Nada de genial, mas têm saído livros interessantes de autores bastante promissores. Hoje existe o thriller italiano, com os romances de suspense de Andrea Camilleri e seus discípulos. No entanto, um signo do abalo econômico italiano é que não é mais possível um romancista viver de sua obra literária, como fazia (Alberto) Moravia. Hoje romance virou uma atividade diletante. É diferente do que ocorre nos Estados Unidos, aindaum polo emissor de ótima ficção e da profissionalização dos escritores. Além dos livros de Roth, adorei ler Liberdade, de Jonathan Franzen, um romance de corte clássico e repleto de referências culturais. A França, infelizmente, experimenta uma certa decadência literária, e nada de bom apareceu nos últimos tempos. O mesmo parece se passar com a América Latina. Já vão longe os tempos do realismo fantástico de García Márquez e Jorge Luis Borges. Nada tem vindo de lá que me pareça digno de nota.

ÉPOCA - E a literatura brasileira? Que impressões o senhor tem do Brasil? O país lhe parece mais interessante hoje do que há 30 anos?

Eco - O Brasil é um país incrivelmente dinâmico. Visitei o Brasil há muito tempo, agora acompanho de longe as notícias sobre o país. A primeira vez foi em 1966. Foi quando visitei terreiros de umbanda e candomblé - e mais tarde usei essa experiência em um capítulo de O pêndulo de Foucault para descrever um ritual de candomblé. Quando voltei em 1978, tudo já havia mudado, as cidades já não pareciam as mesmas. Imagino que hoje em dia o Brasil esteja completamente transformado. Não tenho acompanhado nada do que se faz por lá em literatura. Eu era amigo do poeta Haroldo de Campos, um grande erudito e tradutor. Gostaria de voltar, tenho muitos convites, mas agora ando muito ocupado... comigo mesmo.

ÉPOCA - O senhor foi o criador do suspense erudito. O modelo é ainda válido?

Eco - Em O nome da Rosa, consegui juntar erudição e romance de suspense. Inventei o investigador-frade William de Baskerville, baseado em Sherlock Holmes de Conan Dolyle, um bibliotecário cego inspirado em Jorge Luis Borges, e fui muito criticado porque Jorge de Burgos, o personagem, revela-se um vilão. De qualquer forma, o livro foi um sucesso e ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos Sim, há muita coisa boa sendo feita. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com seus livros de fantasia que lembram os romances de aventura de Alexandre Dumas e Emilio Salgari que eu lia quando menino.

ÉPOCA - Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?

Eco - Às vezes, sim! (risos) O Dan Brown me irrita porque ele parece um personagem inventado por mim. Em vez de ele compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que ele faz em O Código DaVinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve - e não posso condená-los.

ÉPOCA - O que vem antes na sua obra, a teoria ou a ficção?

Eco - Não há um caminho único. Eu tanto posso escrever um romance a partir de uma pesquisa ou um ensaio que eu tenha feito. Foi o caso de O pêndulo de Foucault, que nasceu de uma teoria. Baudolino resultou de ideias que elaborei em torno da falsificação. Ou vice-versa. Depois de escrever Ocemitério de Praga, me veio a ideia de elaborar uma teoria, que resultou no livro Costruire il Nemico (Construir o Inimigo, lançado em maio de 2011). E nada impede que uma teoria nascida de uma obra de ficção redunde em outra ficção.

ÉPOCA - Quando escreve, o senhor tem um método ou uma superstição?

Eco - Não tenho nenhum método. Não sou com Alberto Moravia, que acordava às 8h, trabalhava até o meio-dia, almoçava, e depois voltava para a escrivaninha. Escrevo ficção sempre que me dá prazer, sem observar horários e metodologias. Adoro escrever por escrever, em qualquer meio, do lápis ao computador. Quando elaboro textos acadêmicos ou ensaio, preciso me concentrar, mas não o faço por método.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a crise econômica italiana? Existe uma crise moral que acompanha o processo de decadência cultural? A Itália vai acabar?

Eco - Não sou economista para responder à pergunta. Não sei por que vocês jornalistas estão sempre fazendo perguntas (risos). Talvez porque eu tenha sido um crítico do governo Silvio Berlusconi nesses anos todos, nos meus artigos de jornal, não é mesmo? Bom, a Itália vive uma crise econômica sem precedentes. Nos anos Berlusconi, desde 2001, os italianos viveram uma fantasia, que conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam com que as filhas frequentassem as orgias de Berlusconi para assim se tornarem estrela da televisão. Isso tinha de parar, acho que agora todos se deram conta dos excessos. A Itália continua a existir, apesar de Berlusconi.

ÉPOCA - O senhor está confiante com a junção Merkozy (Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) e a ascensão dos tecnocratas, como Mario Monti como primeiro ministro da Itália?

Eco - Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer? Merkel tem o encargo, mas também sofre pressões em seu país, para que deixe de apoiar países em dificuldades. A ascensão de Monti marca a chegada dos tecnocratas ao poder. E de fato é hora de tomar medidas duras e impopulares que só tecnocratas como Monti, que não se preocupa com eleição, podem tomar, como o corte nas aposentadorias e outros privilégios.

ÉPOCA - O que o senhor faz no tempo livre?

Eco - Coleciono livros e ouço música pela internet. Tenho encontrado ótimas rádios virtuais. Estou encantado com uma emissora que só transmite música coral. Eu toco flauta doce (mostra cinco flautas de variados tamanhos), mas não tenho tido tempo para praticar. Gosto de brincar com meus netos, uma menina e um menino.

ÉPOCA - Os 80 anos também são uma ocasião para pensar na cidade natal. Como é sua ligação com Alessandria?

Eco - Não é difícil voltar para lá, porque Alessandria fica a uns 100 quilômetros de Milão. Aliás foi um dos motivos que escolhi morar por aqui: é perto de Bolonha e de Alessandria. Quando volto, sou recebido como uma celebridade. Eu e o chapéu Borsalino, somos produção de Alessandria! Reencontro velhos amigos no clube da cidade, sou homenageado, bato muito papo. Não tenho mais parentes próximos. É sempre emocionante.
(in revista "Época", 26 Fevereiro 2014)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Valsa

Para nos surpreender e deslumbrar, nesta tarde que ameaça trovoada. Um discurso de apresentação que aguça a nossa curiosidade; o espanto no momento em que, por fim, o Maestro quebra o suspense e diz o nome da "Hollywood star". São compassos três por quatro de pura magia, com muita emoção e uma sala glamorosa a condizer. Obrigada, Nanã, por esta descoberta.
Nota - escolhi o link em vez do código incorporado, para não quebrar a surpresa :-) (pois a imagem em stand by assume o rosto do actor...que compôs a valsa! Enfim, não o arranjo, maravilhoso, but still, belíssima na essência).

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Líquenes

Por vezes a beleza escapa-nos. Quando anda escondida em submundos tornados para nós invisíveis, numa escala que somos incapazes de ver, na pressa dos dias. E nestas horas feitas de chuva, se servir de conforto sofrível a quem anda cansado de ver encharcados os seus dias, deixo-vos com o que nasce da humidade: seres vivos minúsculos como estranhas fadas da sombra. Na verdade, são quase fungos. Mas até os fungos podem ser belos.
"Lichenes" de Ernst HaeckelArtforms of Nature, 1904

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Livros infantis

E porque hoje é Dia Internacional do Livro Infantil, aqui fica a minha gratidão para com três dos principais responsáveis pela minha infância feliz, recheada de boa leituras:
Hans Christian Andersen
Irmãos Grimm
Enid Blytton
Obrigada pelos mundos que me deram.


terça-feira, 1 de abril de 2014

1 de Abril


Quero a mentira a que tenho direito!

por Catarina Fonseca, em 01.04.14


Tentei cumprir o ritual de Dia 1 de Abril que era correr os jornais à procura da dita mentira. Pormenor: pelo menos nos jornais portugueses, tirando o abençoado JL e a sua declaração que a Porto e a Leya tinham decidido impor um limite de páginas aos autores (até que não era mal pensado), e a Activa (que obviamente não vos vou dizer qual é) não encontrei nada.
Nos últimos anos tem sido assim. Adeus tradição. Houve anos em que fui tão feliz. Ainda por cima eu sou a pessoa ideal para petas: acredito em tudo. Já acreditei nas coisas mais estranhas do Dia 1. Que o Festival da Canção ia ser transmitido sem som. Que os autocarros iam passar a ter 3 andares. Que Portugal tinha vendido Cristiano Ronaldo à Espanha. Que uma árvore suíça dava esparguete. Que o Burger King ia passar a fabricar um hambúrguer para canhotos. Que um atleta japonês confundiu uma maratona de 42 quilómetros com 42 dias e nunca mais ninguém o viu.
Fartei-me de rir e não veio mal ao mundo por causa disso. A mentira jornalística servia para isso mesmo (além de nos fazer rir): para, por contraste, lembrar que o resto era verdade. Para lembrar o absurdo do mundo. Para nos alertar para a nossa própria credibilidade enquanto leitores.
O facto de a mentira jornalística do 1 de Abril quase ter desaparecido levou-me a conversar com outros jornalistas aqui do quartel.
De facto, disseram-me eles, a mentira do 1 de Abril deixou de fazer sentido. O mundo deixou de ser inocente. As pessoas já não acham graça a serem ‘enganadas’. Perdemos a capacidade de rir de nós próprios. Ficámos sérios, hirtos e burros.  
E depois, o próprio mundo se tornou tão absurdo que desafia qualquer mentiroso.
Qual é a graça de inventar uma mentira, dizia-me um deles, se todas as notícias são mais incríveis do que tudo o que eu poderia inventar? As pensões vão sofrer ainda mais cortes? A Gwyneth vai-se separar? A extrema direita subiu astronomicamente em França? O governo francês demitiu-se? Caiu o maior avião do mundo e até agora ninguém o viu? Um jornalista escreveu Dark Vador em vez de Darth Vader? E Vanessa Paradise em vez de Paradis? Tudo o que eu possa inventar hoje fica aquém da realidade...
Ponto 3,  hoje em dia, acreditamos em tudo. Precisamente por isso. A realidade é tão extraordinária que acreditamos em tudo.
E ponto 4, a verdade é que jornalistas e leitores perderam a imaginação, a criatividade e o tempo para pensar. Passam-nos pelas mãos milhares de informações todos os dias. Já não há espaço para a imaginação. Falamos das crianças, mas também nós estamos reféns de tecnologias, ipads e nets e sites que não nos tornam mais criativos, apenas nos entopem de informação inútil e mal digerida, que lemos na diagonal e engolimos sem tirar caroço nem pensar se será verdade.
Aliás, a mentira era extremamente educativa: no dia 1 de Abril por uma vez, eramos leitores atentos e desconfiados. Punhamos tudo em causa...
Conclusão: apesar de tudo, continuo a achar que é preguiça.
Eu, pelo menos, ainda tenho saudades de uma boa peta. Com ou sem inocência perdida.
Contem-me lá uma. Eu prometo que acredito. 
(in "Fonsecaville blog" - ACTIVA.sapo.pt)

segunda-feira, 31 de março de 2014

Selfies

As selfies estão na moda. O sentido das coisas anda a correr de dentro para fora. Nós e o mundo.
Tu e eu.
Eu e tu.
Qual a mais usada?
Eu e tu.
Eu primeiro.
Mostramo-nos ao mundo. Ó pra mim a viver. A respirar. Olhem para mim. A apanhar o avião. Em casa, com o cão. O gato. Na praia. A apanhar sol, de havaianas nos pés. Sem havaianas nos pés. Com a mãe. Com os filhos. Esta é a minha família. Eu e a minha ascendência e descendência. O que está em redor de mim, O antes e o depois de mim. O que meto dentro: ó pra mim, a almoçar. Isto é o que irei comer e beber já a seguir. Ao jantar. Na festa. Com os amigos. Os copos. No bar. No concerto. Na rua. Junto ao Arco do Triunfo. O Coliseu ao fundo. A Muralha da China. O castelo. O museu. A loja. A ponte. O rio. Ó pra mim no mundo.
Às vezes penso que sentimos o mundo tão pequeno, tão apertado, que temos de erguer o braço, a pedir socorro. Estou a afundar-me, salvem-me. Mas isto são pensamentos feitos de chuva. O dia de hoje deixou-me assim, embalsamada em cinzas.                            

quarta-feira, 26 de março de 2014

Catarina Sobral

Em celebração do Dia do Livro, aqui têm uma boa notícia: Catarina Sobral, ilustradora portuguesa, acaba de ganhar o Prémio Internacional de Ilustração, da Feira do Livro Infantil de Bolonha 2014.
Para mais informação, espreitem aqui 

sábado, 22 de março de 2014

Águas

Apesar de, no Brasil, Março representar o final do Verão (enquanto que, para nós, representa o princípio da Primavera), aqui ficam as «Águas de Março» de António Carlos Jobim, em honra da efeméride de hoje: Dia Mundial da Água. Abaixo, a histórica gravação de Elis e Jobim, em estúdio, feita em 1974 (e filmada já em playback, mas a malta perdoa):  tem a idade da nossa Democracia. E a propósito, reparem no pormenor: a Elis está de cigarro na mão! :-) outros tempos...
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumueira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
Pau, pedra, fim, caminho
Resto, toco, pouco, sozinho
Caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Maria do Rosário Pedreira

O tom e a voz
«Diz-se muitas vezes que o verdadeiro escritor tem de ter uma voz, ou seja, tem de ser reconhecível em tudo o que escreve através de um estilo que lhe pertence e não é de mais ninguém (mesmo que nele se notem influências de autores queridos e amados, o que nada tem que ver com copiar a forma de esses escreveram). Quando estão a começar livros novos, também os escritores dizem frequentemente que têm tudo na cabeça mas ainda não encontraram o tom. Ora, é no mínimo engraçado que se usem dois termos – voz e tom – quando se está a falar de escrita, pois seriam, digo eu, mais imediatamente associados à oralidade. Mas também eu tenho tendência para pensar, quando ouço um dos meus poemas dito por outra pessoa, que aquela não é a música com que o escrevi. Por falar em música, leio numa entrevista a Annie Clark (artista pop) uma belíssima citação da biografia de Miles Davis, na qual se diz que a coisa mais difícil para um músico é «soar a si mesmo», expressão que, no fundo, equivale a «ter uma voz» em termos literários (isto anda tudo ligado). Ter várias vozes, como Pessoa & heterónimos, não deve ser, mesmo assim, confundido com não ter nenhuma, que é o que acontece quando deixamos um recado à senhora que nos dá uma ajuda na limpeza da casa e que, seja ou não um escritor a redigi-lo, deve ser sempre mais ou menos a mesma coisa. Já me aconteceu, porém, ser jurada num prémio de poesia e ter seleccionado dois livros completamente distintos que eram, afinal, da mesma pessoa. Não sei, mesmo assim, qual deles, para o seu autor, soaria melhor a si mesmo.»
(MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, no seu blogue Horas Extraordinárias, 18 Março 2014)

quinta-feira, 20 de março de 2014

Porque posso

18.25
Enfiada na cama neste fim de tarde tristonho. Só porque posso. A primavera chegou há pouco, a brindar-me com uma dor de cabeça fiel, que não me larga desde manhã. Não se deixou intimidar - muito menos expulsar - com o aspegic 1000 nem com o nimesulide.
Trabalhar no computador ou navegar na internet? Missão Impossível.
Por isso aqui estou.
Deitei-me com o novo JL que me chegou ontem. Um dos prazeres singelos que tenho na vida, rasgar o plástico do Jornal de Letras que o carteiro me traz, 4ª feira sim 4ª feira não. E já que a dor de cabeça se acentua se eu insistir em escrever ao computador (isto que lêem é em diferido, naturalmente), peguei na leal folha de papel e na velha caneta BIC Cristal ("de escrita normal", só os mais crescidinhos irão entender isto) e pronto, problema resolvido. Não é maravilhoso? A mim ocorrreu-me esta solução simples, arcaica; não estou certa de que irá ocorrer às gerações futuras. Aliás, imagino um futuro onde os copistas se tornam novamente numa preciosidade, a escrita arcaica como "profissão de futuro": as populações nascendo sem o gene da caligrafia, incapazes de escrever senão em teclados que imprimam os símbolos por elas; a mão falhando o amparo da caneta que se queda, desajeitada, desamparada, sobre a folha. "Escritores de letras", anciãos-artistas, artesãos das letras, celebrando, com arte, os velhos rabiscos de antigamente. Cartas manuscritas e listas de supermercado guardadas em museus, como relíquias, lendas e fábulas começando assim: "No tempo em que os homens escreviam...".
E acho que nisto a dor de cabeça se foi.
Bem dizem que a escrita pode ser uma terapia. Mas também pode ter sido pelo alívio que me trouxe o telefonema que acabei de receber de uma escritora amiga. Vá-se lá desvendar os caprichos do nosso corpo.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Os pais também choram

"— Trouxeste o que eu te pedi?
— Sim, toma.
Lúcia entregou à irmã, grávida do segundo filho, o grosso volume de histórias encadernadas em pele, que a avó dera a Francisca no Natal, havia vinte anos. Para espanto de Lúcia, que julgava dever-se o pedido de devolução ao facto de a irmã ter uma filha na escola e ir a caminho do segundo filho, Francisca abriu o livro quase a meio, arrancou a sua história preferida: «Um Olhinho, Dois Olhinhos, Três Olhinhos», e pousou as folhas sobre o peito da avó morta, antes de fecharem o caixão. Lúcia olhou para o pai: nunca o tinha visto chorar, a não ser quando morrera o cão. A jovem mulher lembrava-se do suor escorrendo pela testa do pai, enquanto este abria a cova sob os pinheiros bravos, as costas da mão a passar nos olhos (suor ou lágrimas?), o saco preto do lixo, a mancha de sangue na estrada.
— Teve uma vida feliz, não foi, pai?
E ela, que pensava com essas palavras dar conforto ao seu herói, que parecia, estranhamente, conter o choro, fez com que o pai expelisse, de uma vez, todo o ar dos pulmões, para se entregar a um choro desalmado, com direito a gemidos quase infantis, a cabeça baixa, o corpo curvado, ambas as mãos sobre a enxada apoiada na terra. Lúcia espantou-se. Afinal, os pais também choravam, não eram só as mães."
(excerto de um futuro livro em que estou a trabalhar) 

sexta-feira, 14 de março de 2014

Benédicte Houart

são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia


(NOTA - escrito em português, no original: a autora nascida na Bélgica - pai belga, mãe portuguesa -, mudou-se para Portugal na infância, em 1975 e por aqui ficou desde então).

quinta-feira, 13 de março de 2014

Carta a um blogue

Querido blogue,

Desculpa ter-me esquecido de ti. Do teu aniversário. Deixei-te aqui, desamparado durante quase uma semana, precisamente quando completas cinco anos de idade. Se entretanto não estiveres ofendido comigo, talvez vás gostar de saber que te fui fiel. Não senti qualquer impulso de trair-te. És o único blogue da minha vida; onde, ultimamente, tenho escrito. O facebook não conta, tu sabes que aquilo é uma relação passageira, nada de sério. É uma febre, uma vertigem, às vezes chega a ser um vírus. Tu não. Tu és o quarto onde venho dormir, sonhar, confessar, em almofadas de fundo negro, o melhor e o pior que tenho dentro. 
E porque te devo sinceridade, porque devo ser leal contigo, tenho de contar-te:
Comecei uma nova relação. Acho que será duradoura, que irá roubar-me muitas horas. Perdoa-me, mas estas coisas são mesmo assim, não pude controlar-me, aconteceu. Vou dizer-te, sem mais rodeios.
Adivinho o início de um romance. Não me interpretes mal, gosto dos momentos que passo contigo, mas...são efémeros, o que se há-de fazer...? É a tua natureza. Convenhamos que não temos grande futuro, consumimo-nos no tempo de um fósforo, um pequeno post por dia enquanto que, num romance, posso estender lençóis intermináveis, amachucando, nas horas nocturnas, o corpo de cada palavra. Fantasiar em ter um dia um filho de folhas nos braços.
Não me abandones, não faças as malas, não partas rumo ao espaço sideral. Tem mais um pouco de paciência comigo, e eu dou-te a minha palavra em como te deixarei espreitar, de vez em quando, para te juntares a nós, ousadamente. Não existe vergonha. Afinal, somos apenas um. 

Antecipadamente grata,

Aquela que te escreve.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Rainer Maria Rilke

“Be patient toward all that is unsolved in your heart and try to love the questions themselves, like locked rooms and like books that are now written in a very foreign tongue. Do not now seek the answers, which cannot be given you because you would not be able to live them. And the point is, to live everything. Live the questions now. Perhaps you will then gradually, without noticing it, live along some distant day into the answer.”
(Rainer Maria Rilke)

quarta-feira, 5 de março de 2014

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Mimos

 
Conhecem a velha expressão "it's a dirty job but somebody has to do it"? Assim é. Neste caso, eu, já que não tenho empregada. Uma casa é uma criança caprichosa: se a queremos ver feliz, sorridente, luminosa, temos de lhe consagrar muita atenção; de contrário, começa a fazer birras, a virar-se contra nós. Havia cantos da casa que, amuados, já haviam desistido de se queixar. E foi nesse momento que senti pena dela, da casa, e fui salvá-la. Coitada, sete anos de idade, uma criança ainda...e eu, mãe desnaturada. 
A resolução foi tomada e o resto terá de esperar. Dedico-lhe agora algumas horas, regatando-a ao abandono:
Dou colo ao recheio das gavetas;
Alimento-a com óleo de cedro;
Dou-lhe banhos com água morna e bolhinhas de sabão;
Esfrego-lhe todos os refegos e covinhas onde se esconde o cotão e o suor inocente;
Aspiro-lhe a pele húmida;
Penteio cada madeixa caída, experimento-lhe novos penteados;
Visto-a com roupas limpas, deixando-a arrumada;
Saio com ela à rua, o carrinho à porta.
E quando a primavera chegar, não me escapas, Casa da Lua: acaba-se-te o Carnaval, essa cara de criança pobre, vagabunda: serás azul e branca outra vez, como no dia em que nasceste. Porque todos precisamos de mimos.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Medo

Copyright Nanã Sousa Dias ("Misty")
Às vezes é difícil sair da nossa zona de conforto. Por mais desconfortável que ela seja. Acostumamo-nos à dor, à frustração, ao equívoco. Ao menos é nossa, a dor; uma dor amiga, uma velha frustração que guardamos no corpo, um equívoco que sabemos como nasceu. Mudar de posição, movermo-nos, é o abismo, a incógnita. E os nossos medos vencem, dizendo-nos: vês, como te conhecemos bem? Deixa-te estar.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Jacob Collier

Mais um arranjo e interpretação fantásticos deste puto estupidamente talentoso...e trabalhador. Sim, porque é preciso trabalhar muito. Ele é que toca todos os instrumentos. Ah, pois é.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Prémio Correntes d' Escritas 2014

Manuel Jorge Marmelo, de 42 anos, jornalista nascido no Porto, e desempregado há cerca de um ano, acaba de vencer o prémio Correntes d' Escritas 2014. 
A obra "Uma Mentira Mil Vezes Repetida" saiu pela Quetzal em 2011. O júri foi constituído por Isabel Pires de Lima, Carlos Quiroga, Patrícia Reis, Pedro Teixeira Neves e Sara Figueiredo Costa. O prémio, no valor de 20 mil euros, será entregue no próximo sábado, dia 22, na sessão de encerramento da 15ª edição deste festival literário, que decorre no Casino da Póvoa do Varzim. 
Para mais informação sobre o autor, vá aqui

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Photoshop


Apesar de serem digitais, as fotografias de promoção que tenho, tiradas pelo Nanã ao longo destes doze anos, nunca foram manipuladas para apagar rugas, poros, imperfeições. E assim é que deve ser. Discordo totalmente desta maldita moda, que já dura há décadas: mostrar mulheres irreais, criar gerações de raparigas e mulheres frustradas, que favorecem os lucros das empresas de cosmética. É preciso alertar a sociedade para esta praga, que chega a provocar mortes por anorexia. Tenhamos orgulho na história que os nossos corpos e rostos têm para contar. Não queremos manequins de plástico. Photoshop, sim, para favorecer a iluminação, resolver problemas de focagem, alterar um fundo ou cenário, porque não? Mas...mexer nas pessoas?! Não faz sentido. Apresento-vos os meus poros, com 34 anos, na época. E outra tirada 7 anos mais tarde: inclui ruga na testa. E vejam o video abaixo, que vale a pena.
Copyright Nanã Sousa Dias 2003
Copyright Nanã Sousa Dias 2010

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

De molho

Desde que me mudei para o campo é raro adoecer. Refiro-me a constipações, gripes, anginas e afins. Mas chega o dia em que, numa semana social intensa, chuvosa e com baixas temperaturas, os bicharocos nos apanham. E eis-me de molho, reduzida às mezinhas caseiras, vestida com camadas e camadas de roupa, na vã tentativa de quebrar um frio que não me sai da pele. Sem forças para abrir sequer um frasco de doce. Bebendo chá de cebola com muito mel. A casa um caos. Os papeis acumulando-se. A maldita chuva que não pára. A escrita em atraso. Só isto, um texto doente, fraquinho, raquítico, a ilustrar a condição do corpo.
Para quando o regresso ao mundo dos vivos? Até quando terei esta voz que não é minha, de Dart Vader, tornada ridícula pela articulação fanhosa?
Quantos rolos de papel mais terei de gastar até recuperar o meu nariz e a minha dignidade?
Não me sinto nada sexy.
E a conta da luz vai ser linda.
(suspiro)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Prémio T.S. Eliot

«Há prémios literários prestigiantes, mas com um valor pecuniário relativamente baixo, e prémios realmente chorudos, mas sem grande reputação. Um prémio literário que reúna ambas as coisas é mais difícil, claro, e é um galardão assim que todos os que escrevem naturalmente almejam. Pois os herdeiros do grande T. S. Eliot e a Poetry Book Society têm há vinte anos o Prémio T. S. Eliot para um livro de poesia, que rende nada mais, nada menos do que quinze mil libras ao seu autor, além, evidentemente, de uma honra sem igual (que poeta não gostaria de ter na sua carreira um prémio cujo patrono fosse um dos maiores poetas de sempre?). Entre os vinte distinguidos até hoje, contam-se, pelo menos, dois autores que receberam o Prémio Nobel da Literatura – o irlandês Seamus Heaney, recentemente falecido, e Derek Walcott, natural da ilha de Santa Lucia, que foi nobelizado em 1992 – e ainda o sobejamente conhecido Ted Hughes. Este ano arrecadou-o uma irlandesa, Sinéad Morrissey, com a obra Parallax (que estou em vias de adquirir), uma poetisa que já somou várias distinções importantes e foi a mais jovem de sempre a ganhar o Prémio Patrick Kavanagh, para inéditos, com dezoito anos, embora a obra só tenha visto a luz muitos anos depois. Convém dizer que todos os seus livros anteriores foram finalistas do prémio que agora lhe foi atribuído e que, portanto, era uma vitória mais ou menos esperada.»
(retirado do blogue "HORAS EXTRAORDINÁRIAS", de Maria do Rosário Pedreira) 


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Philip Seymour Hoffman

Um dos meus actores preferidos. A notícia da sua morte foi um choque para mim. Já foi tudo dito: um talento imenso, um desperdício, esta partida tão prematura. Uma estupidez. E nunca saberemos se foi um acidente ou uma escolha. Inclino-me mais para o acidente. O que torna tudo ainda mais estúpido.

Rosa

A Rosa deixou-nos faz hoje 4 anos...
E chegamos aqui. Vindos da vida.
Já esquecidos do som da nossa voz.
Sobreviventes da cidade erguida

de costas para a foz.


Viemos de tão longe pela areia

que há algo de alga a nos prender os pés.

A paisagem de gestos encontrei-a

nas palmeiras à beira das marés.

Vemos passar a migração de patos

bravos e breves a rasar a água.

Já levantámos voo tantas vezes

que em nós só o olhar é que viaja.

Arremessada à praia do teu corpo

descanso então do grito da chegada:

descobrimos que o sol não estava morto

só estava posto, e rasga a madrugada.

Pode parar o fio do pensamento

a corrida do medo contra o sono.

Bebo afinal o copo do silêncio

que faz calar o vento no teu ombro.

(in "As Pequenas Palavras")

Obrigada, Alice, pela excelente escolha do poema.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Quartzo Azul

Dedico este pequeno conto, que escrevi em Maio, ao Vicente, nascido hoje, porque a tua mãe, Vicente, adora a Sophia e as coisas do fundo do mar. Bem-vindo!

Na Casa de Anil há um prodígio que ninguém pode revelar. E não existem lendas nem livros que desvendem o seu mistério. Os homens e as mulheres, que em sonhos entram naquele lugar tecido em algas e corais, transformam-se em peixes e ondinas. A pele cobre-se de escamas e para sempre se calam as suas vozes, emudecidas por inesperadas guelras.  Enquanto, na praia ali perto, a maré revela seixos, búzios e caranguejos, eles serpenteiam pelos quartos e salas, por entre os móveis esculpidos em cristais de quartzo e lápis-lazúli, cruzando-se com anémonas cintilantes e medusas de corpo transparente. Por tanto tempo ali aprisionados, ondulando languidamente no interior aquático daquela casa, acabam por olvidar a sua natureza humana. É nessa hora que a maré cheia os vem resgatar, num ritual de consagração aos mares. Mil ondas batem às  janelas, desfazendo-se em espuma na soleira da porta. Fatalmente, os peixes são arrastados rumo ao oceano, para habitar as águas do mundo inteiro. As ondinas, levadas em mornas correntes, desaguam nos lagos, construindo, na penumbra das areias azuis, as suas casas de cristal.
O dia vem despertá-los, mas é apenas uma cama vazia que a luz da manhã encontra. Só o tom azulado dos lençóis húmidos conhece o beijo faminto da Casa de Anil, que se vai alimentando com a alma dos poetas e a fantasia dos sonhadores. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Exposição «Euro Art Photo», Milão

Exposição de Fotografia Euro Art Photo, no Palácio Stelline, em Milão.
«Cada um de 28 países da comunidade europeia, será representado por um fotógrafo, com apenas uma fotografia de cada. O ("meu") Nanã Sousa Dias foi escolhido pela Via Arte Italia, para representar Portugal :-) Esta foi a fotografia escolhida pela comissão. O Nanã fez esta fotografia há alguns anos, perto da Barragem de Alqueva, a bordo de um helicóptero, com o seu amigo e compadre Jorge Humberto.» 

(texto adaptado do próprio, facebook)

Parabéns, Nanã! Orgulhosa, eu? Muito! :-)

domingo, 26 de janeiro de 2014

Cicada Princess

Um filme encantador, que nos enternece. São quase 7 minutos, sendo que dois e meio deles constituem a ficha técnica, ou seja, deu, decerto, muito trabalho  e envolveu muita gente, a realização deste filminho que partilho convosco nesta fria manhã de domingo. Uma história de cigarras que dá todo um novo significado à expressão «A vida são dois dias». Escutem o texto com atenção. Cada palavra. E sugiro a visualização em ecrã expandido.
Cicada Princess from Jesse Solomon Clark on Vimeo.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Pirosices

De vez em quando dão-me ataques de pirosice. Fico cheia de vontade de alimentar a alma com imagens multicolores, mensagens filosóficas que, de tão partilhadas pelas redes sociais, há muito se banalizaram continuando, porém, a dizer-nos alguma coisa, na tentativa de salvar a inocência que existe (ainda) em nós, sobrevivente sofrível do ceptismo e do azedume. Olhamos para uma coisa assim e, mesmo que não queiramos admitir, o nosso corpo segrega uma dose mínima de serotonina, por tudo o que sugere.
Ponho um "gosto" em páginas hippies recheadas de quinquilharia indiana, mulheres semi-nuas, arvoredo e floridos geométricos de mil tonalidades e texturas, especiarias, borboletas, velinhas, águas mansas e muita paz interior. Ah, a espiritualidade! Nada mais pirosamente explorado. Nada mais essencial para conseguirmos cuidar do que temos e resistir ao resto. Nada de jeito, hoje. Só isto. Só esta ode à pirosice. Desculpem.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Fazendo pão...

«São onze horas da manhã. Cheira a pão quente, acabado de cozer. As grandes cestas de verga foram dispostas para as provas de queijos e outros acepipes, com pão de cerveja, broas de mel, pão de especiarias, michas perfumadas com anis e manjerona, pãezinhos com cardamomo. Rosalina labutou arduamente nos últimos dias, preparando e acondicionando os ingredientes. Elaborou os fermentos e leveduras, trabalhando nas primeiras horas da madrugada, no amassadouro do pátio; alimentou o forno de lenha com nogueira e castanheiro. Furfuris deixou Grotti a sós no moinho, para ajudar a padeira:
     — A partir de amanhã, até ao dia do Festival, vais lá para baixo —, dissera-lhe o moleiro — a minha mulher precisa mais de ajuda do que eu. Por hoje estás dispensado, vai descansar, para te habituares ao novo horário, anda!
  Constrangido, o duende passara mal as horas de descanso, pensando na mudança inesperada. Já se habituara à vida na colina, junto à montanha. No dia seguinte de madrugada, contrafeito e cabisbaixo, dirigira-se ao pátio situado nas traseiras da casa, e batera à porta timidamente. Rosalina veio abri-la. Quando afastou a pesada porta de madeira, observou o homenzinho cuja estatura não ultrapassava o nível da sua própria barriga: olhos enormes e castanhos, orelhas pontiagudas; as mãos e os pés eram desproporcionados em relação ao resto do corpo; usava um barrete encimado por um grande guizo de ouro, que tilintava à medida que Furfuris caminhava. A pele apresentava um tom amarelado e o nariz era grande e torto. Não era bonito, mas a figura inspirava afecto. Entrou na grande cozinha e retirou o barrete, mostrando os escassos cabelos ruivos na cabeça despida. Olhou em volta: o recinto agradou-lhe, pois o forno quente e o cheiro da massa cozida adoçavam o ar e convidavam à preguiça.
   — Anda, meu querido, não tenhas vergonha! Vou mostrar-te como as coisas funcionam por aqui. Furfuris sorriu, animado. Era simpática, a Rosalina.
      A cidade dormia ainda. Rosalina passou-lhe um pano-cru, a fazer as vezes de avental e uma pega em forma de luva, para a cabeça. O duende descobriu como se fazia levedura fresca e acostumou-se ao cheiro azedo; aprendeu que o fermento era feito a partir do sumo de meia dúzia de maçãs velhas misturado com água e farinha, e que se fazia pão diferente com farinhas iguais, devido às misturas. Compreendeu que tudo se aproveitava naquela cozinha, até as cinzas, as côdeas e o pão duro, num empadão de legumes, uma tarte de cebola, açordas ou fatias douradas.
   Dividiram a massa em pedaços e trabalharam no amassadouro: com mão leve, Rosalina projectava a massa de um lado para o outro da grande escudela. O duende ajudava, adicionando sal fino. Era preciso reter o ar à massa, para lhe conferir corpo e elasticidade. A mulher estendia-a com as duas mãos, dobrava-a sobre si mesma, num gesto rápido e vivo e recomeçava o processo, de modo a libertar a massa das bolhas de ar. Elástica, lisa e brilhante, descolando-se da superfície onde fora trabalhada, a massa ficou, enfim, pronta a levedar. O duende pôde então meter mãos ao novo ofício: formaram bolas, polvilharam-nas com farinha, colocaram-nas nos cestos de vime. Furfuris agia com a lentidão e a falta de jeito de quem aprende uma arte, mas Rosalina não pareceu importar-se. Cobriram-nos com um pano, e deixaram a massa entregue à levedura. A combustão do forno, que cozia o pão já preparado na véspera, formava a crosta dourada e estaladiça, com o calor forte da sua garganta. 
      Os braços e as palmas das mãos estavam doridos e os músculos e tendões pediam descanso. Era tempo de parar. Rosalina abriu a porta do forno e retirou os pães acabados de cozer. Deu uma pancada seca por cima de dois ou três e o som oco disse que estavam prontos.      
     — Isto de fazer pão é serviço que pede muito ao corpo! — Comentou a padeira, ao ver o ajudante derreado, de traseiro no chão, ao fundo da cozinha. — Isso, meu querido, deixa-te ficar aí à vontade, descansa um pouco, que eu vou num instante ao aliviadouro, como diz o meu marido!
   A sós, Furfuris deu mais uma olhadela em redor: regressou ao pátio interior, a sentir o calor do forno. Como a padeira se demorava, abeirou-se de uma enorme saca de farinha de trigo. Colocando-se na ponta dos pés, cheirou-a, a tentar descobrir indícios da sua velha rotina, pensando no vento que fazia girar os búzios, no velame que dançava no alto da colina, no mastro, no assobio majestoso e grave que acariciava as velas...de repente… atchiiiim! Um forte espirro fê-lo desequilibrar-se. Cambaleou, girou os braços a tentar endireitar-se, mas... tarde de mais! Caiu dentro da saca de farinha de arroz, que se encontrava atrás de si. Quando Rosalina chegou veio encontrá-lo ali, dormindo o sono dos inocentes. Sorriu à figurinha mergulhada no conforto branco e fofo, como passarito num ninho de algodão:
“Não há dúvida, há farelo e farelo!”, pensou, com carinho.

    Levou a candeia de azeite e fechou a porta da cozinha: despertá-lo-ia mais tarde. Era uma mulher paciente e costumava dizer, “a massa leveda, a gente descansa, com paciência tudo se alcança”.»
(excerto do livro «A ILHA DE MELQUISEDECH», 1ª parte, Cap. 19, págs.107-110)

sábado, 18 de janeiro de 2014

Naufrágios

O frio tomou conta de tudo, Lisboa cobriu-se de granizo. E aqui, a cinquenta quilómetros da capital, escrevo com uma das melhores invenções de todos os tempos: luvas para teclado de computador. A Bolota dorme ao meu lado, arrumada na posição de pescadinha-de-rabo-na-boca, como é típico dos cães, aconchegada na sua cama com padrão do Winnie de Pooh. O Gastão ficou lá fora: desconcentra-me, é serra da estrela, ele que se aguente com o frio, que para ele é um ligeiro desconforto, enquanto que, para nós, fémeas friorentas, é um suplício. 
A escrita do segundo volume avança e eu atrevo-me a pensar que, se continuar a bom ritmo, trabalhando regularmente e começando a levar isto da escrita mais a sério, sou bem capaz de conseguir terminá-lo ainda este ano. Há muito que reúno material para a continuação da trilogia. E agora, enfim, retiro a poeira ao esqueleto de um novo livro. 
Escrever dá muito trabalho, exige silêncio e solidão. Mas é a única forma de encontrar a paz. A cada vez que deixo o tempo e o ócio escorrer-me pelos dedos, sinto-me náufraga num oceano de águas lisas: para onde quer que olhe, nada encontro. Tudo me é distante. Recomeçar a escrever, pegar na ponta do novelo há muito abandonado, é ver surgir, do fundo das águas, uma arca do tesouro, cintilando, uma caravela, uma sereia, um cardume irrequieto de mil cores, uma aldeia de corais enfeitiçados, qualquer coisa que nos fascina e seduz. E só então entendo que esteve sempre ali, à minha espera, inteiro, aguardando o dia em que eu, naufragada, me libertasse da âncora que me prendia e fosse puxar, até mim, o cabo que me liga a uma velha história que tenho de contar.  

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Fontes do imaginário

Mergulhada na escrita do segundo volume d'A Ilha de Melquisedech, torno a abrir o livro "Deuses, Mitos e Lendas", da autoria de Jorge Campos Tavares e edição da Lello & Irmão Editores, que comprei em 1992 (escrevo sempre o nome e a data nos livros, uma mania minha) e que tão útil me foi em 2004, quando andava na fase de pesquisa para o primeiro volume desta trilogia.
Partilho convosco o início do prefácio, que ilustra bem a importância de uma temática que me apaixonou desde então, inspirando-me uma boa parte deste meu trabalho:

«Todas as Civilizações, mesmo as mais primitivas, têm as suas lendas, os seus deuses e os seus mitos, pois o Homem parece não poder viver sem o suporte de crenças e das mitologias que se criam à volta dessas crenças.
A nossa Civilização, a chamada Civilização Cristã Ocidental herdeira das Civilizações Clássicas, e da Judaico-Cristã (e de certo modo da Fenícia, da Etrusca, da Celta e da Germânica) tem um fabulário muito rico em histórias e personalidades fantásticas. Se algumas delas são originais, outras assemelham-se às concebidas por povos diferentes ou por culturas distantes que viveram noutros tempos, confirmando de certa forma o aforismo de que nada há de novo sobre a Terra.
As mitologias dos Povos de que a nossa Civilização é a continuidade, estão povoadas por personalidades fortemente caracterizadas, que se enredam em aventuras prodigiosas, e depois se debatem em situações que aparentam ser fruto de devaneios, de sonhos ou até de pesadelos - num mundo de fantasias muitas vezes sem nexo.
Esta aparência é porém ilusória.
Todos os elementos destes mitos reflectem uma concepção da Vida, uma maneira de entender e lidar com o Mundo, uma forma de transmitir conhecimento, uma maneira de enfrentar as realidades, já que certos valores universais se expressam muito melhor e mais claramente sob a forma de lendas mitológicas do que doutro modo. Por outro lado, estão implícitos nessas fábulas processos que têm que ver com o psiquismo dos indivíduos e o sentir colectivo das comunidades, processos que têm incidência no foro íntimo de cada um.
Sucede que artistas plásticos, poetas e dramaturgos, têm recorrido, ao longo dos séculos, ao acervo legado pelas mitologias do passado a fim de tirarem daí matéria-prima para se exprimirem, para conceberem e construírem as suas obras - fenómeno que, em vez de esgotar a força anímica desses mitos, lhes renova a vitalidade e a importância.»

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Aparências

Meus amigos, escutem isto e aqui fica o aviso: as aparências enganam! Não se deixem iludir :-) Divirtam-se.
E vá, se tiverem pachorra, vão depois ouvir abaixo, a versão CERTA, verdadeira :)


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Júlio Isidro

Hoje foi uma tarde em cheio. Desloquei-me aos estúdios da RTP para gravar uma conversa com o Júlio Isidro, cuja amizade está prestes a completar 25 anos, imaginem! A 1ª parte foi preenchida com o realizador José Fonseca e Costa e depois foi a minha vez de me sentar ao lado do Júlio, a relembrar tempos inesquecíveis.
O Júlio lançou-me no mercado da música, no dia em que me convidou para integrar a banda de cantores residentes do Regresso ao Passado, num tempo em que eu mais não era do que uma cantora amadora, a trabalhar como assistente de redacção numa revista e depois como estudante universitária de Turismo. Sim, repito, foi por causa do Júlio que me tornei cantora profissional, desde o fim de 1989, e que fui cantando, como cigarra, em todos estes anos.
O programa "INESQUECÍVEL" (RTP Memória) irá para o ar no dia 2 de Fevereiro.
Comigo levei alguns objectos relevantes nestas bodas de prata e muito ficou por dizer, como, aliás, é próprio das lides televisivas: os minutos contados, as conversas estonteantes e o tempo, que acaba inevitavelmente por  voar. O meu velho amigo Júlio organizou uma selecção de imagens que contemplou vários programas e ainda houve tempo para referir pessoas que me são queridas e promover boa parte do meu trabalho, sobretudo a saída do romance de fantasia "A Ilha de Melquisedech", que o Júlio já imagina em versão cinematográfica "lá fora!" (pois claro...gnomos? faunos? ciclopes, Magia? Batalhas? Cenas passadas em vários pontos do planeta? Efeitos especiais? cenários paradisíacos? Já chega a utopia que o próprio livro contém). É preciso tempo, sim, e o tempo não me intimida. Nunca intimidou. Brinco com ele.
Aqui fica a minha gratidão para com um profissional da televisão que tem um lugar incontestável como autor, apresentador e entrevistador na televisão e não só. E foi um prazer privar como Fonseca e Costa e muito divertido partilhar com ele o entusiasmo pelo seu novo carro, um Toyota IQ, dentro do qual se despediu de mim junto à portaria da RTP, com um aceno e uma gargalhada cúmplice.
Dali, ainda bem penteada e maquilhada, sob a tarde de chuva ininterrupta, segui para a minha editora, a fim de assinar (aliás escrever dedicatória em) duas dezenas de exemplares para figuras importantes na rádio, televisão e imprensa.
Tudo teria sido bem mais complicado se não tivesse contado com o apoio logístico do meu marido, a quem roubei o dia. Espero que ele me perdoe e espero, sobretudo, que tenha sido por uma boa causa.
É muito bom contarmos com o apoio dos outros. Que seria de nós sem Os Outros?

sábado, 11 de janeiro de 2014

Tenho que

A espada sobre a cabeça. Chocalhar, a cada passo, o líquido interno que se arruma nas curvas intrincadas do cérebro: tenho que. Gota a gota, espessamente. Tenho que.
A pólvora, a mira, o alvo que adiamos por tempos infindos, como se existisse um estranho prazer em prolongar a dor.
O que acabamos por nunca fazer, apesar de termos que. Desobedecemos, numa revolta estúpida. Uma granada que nos explode na mão. Sempre.
O que sabemos que nunca faremos mas que, ainda assim, arrumamos na categoria do tenho que. Porque é o que esperam de nós.
O que empurramos para o dia seguinte, mesmo sabendo que era urgente fazer hoje. Mesmo que não haja dias seguintes.
A prateleira para o escritório, a escrita dos livros, as incontáveis leituras e releituras, as personagens que aguardam e nos invadem os sonhos, os caixotes de compromissos que assumimos para connosco, sem que alguém nos houvesse encostado a pistola à têmpora, só porque sim, na busca patética de algo que lembre a perfeição; a correspondência a enviar pelos correios de carne e osso, a consulta médica, os documentos e legalidades a endireitar, passando a limpo o rascunho da nossa vida; as odiosas despesas tão sem encanto ou para quê, os problemas sem solução.
Tenho que arranjar uma solução para este problema sem solução.
Porque somos inventores. Todos os dias. Malabaristas. Engolidores de espadas (sobre a cabeça). Contorcionistas. Trapezistas. Domadores (domando as nossas dores). Acrobatas. Ilusionistas. Mestres de cerimónias. Palhaços. Todos os artistas de circo. Sem rede nem aplauso.

Roubei a imagem ao Cirque de Soleil («Corteo»)

domingo, 5 de janeiro de 2014

Bicho

Sempre disse que a felicidade nada tem de literário. Quando andamos felizes parecemos parvos. Escrevo quando penso de mais, quando o suco das minhas frustrações decide escorrer, em capítulos de uma indignação que eu vou esmiuçando, e que deixo pregada no tempo como quem deixa recados na porta, a quem chegar. Não há o desplante de uma grande frase quando somos bichos roedores, de barriga cheia, a quem não importam a chuva, o vento, o frio, a tempestade. Ela está lá, do lado de fora, mas não nos atinge, já que andamos assim, como esquilos regalados. Tudo pode ser até mais do mesmo, a vida, os frutos que já tínhamos na mão sem vontade de comer, sem ver; e é agora um pequeno manjar, um doce paraíso crocante, o corpo leve, no torpor, na protecção de uma fina cúpula que a felicidade tece à nossa volta.
É dia 5 e ando nisto. Tenho a casa do avesso e a alma organizada, no desarrumo de gavetas e salinhas invisíveis, no festim dos sentidos, na celebração de um lado luciferino e narcisista que não permite o desconforto da consciência. Essa, a consciência, anda algures, soterrada num montículo de nozes descascadas e, se não se acautela, o diabo ainda a come também.
Os livros saem, os mimos multiplicam-se, os encontros com a família e os amigos transbordam da taça natalícia e não têm fim e eu não me queixo. As horas não cabem na cova de um dente. E na beatitude destes dias escuto ao longe o eco dos queixumes mais patéticos - não da verdadeira miséria humana, que essa, sendo pobre, não tem voz - e fujo a enfiar a cabeça no conforto da minha toca...porque ando assim, como bicho, e os bichos não mordiscam o caroço das filosofias.