terça-feira, 8 de julho de 2014

A pele e o horizonte

M. acordou a meio da noite sem saber o que fazer ao corpo. Era como se a alma lhe quisesse sair de dentro, romper-lhe a pele. O corpo um cárcere, encerrando gritos que era incapaz de dar na escuridão do quarto, enquanto o marido dormia ao seu lado, tentando enroscar-se naquele corpo inquieto, que lhe fugia.
M. saiu da cama. Na mente dançavam infinitas frases que deveria escrever. O computador desligado dormia, sensato. O dia rompendo, tão cedo, pensou ela, julgando, na preguiça das suas manhãs bem dormidas, que o sol comparecia mais tarde ao encontro com o horizonte. Que sorte, pensou M., invejando aquela certeza de o sol contar com um horizonte a cada novo dia.
M. interrogava-se por onde andariam os seus próprios horizontes. E talvez por isso a alma andasse a querer sair-lhe do corpo, na certeza de ali não ter como ser sol, iluminar a pulsação do habitáculo que a prendia. A pele ainda grita, hesitante entre a ofensa e a tristeza de ver aquela alma oprimida, a querer fugir. Vai, gritou-lhe, vai ser horizonte fora de mim, que aqui apenas podes ser pernas e braços e pés e mãos...de um corpo paralisado.
E a alma foi, despida.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Mahler

Gustav Mahler nasceu a 7 de Julho de 1860. Deixo aqui uma das suas peças mais emblemáticas, "popularizada" no filme de Visconti "Morte em Veneza": o Adagietto, Sinfonia nº 5, aqui interpretado pela Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Leonard Bernstein.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

?

Decidi que me irei estar na tintas para uma série de coisas. Muitas vezes esgotamos energias no que não merece. E iremos canalizá-las para onde? Que faremos nós com a energia que nos sobra, depois de tudo o que tem de ser? Que formas temos nós de nos reinventarmos? Ultimamente só tenho interrogações. As respostas andam tão longe. E terei eu alguma vez tido respostas? Não liguem, não liguem ao que escrevo hoje, aliás, ao que escrevo seja quando for. Que sei eu? Tento apenas sobreviver nas minhas emoções. Sobreviver. Já que, de resto, é tão difícil. Mas emoções tenho, isso sim, para dar e vender. Mas quem quereria comprá-las? Quem quereria engordar as suas incertezas e pagar por isso? Nada mais tenho do que incertezas. E um vazio. Um vazio tremendo que não sei como preencher.
Nem uma linha.
Em mim apenas existe o engano.
Não sei como cumprir o papel a que me propus, não sei porquê.
E agora?
O que faço?

terça-feira, 1 de julho de 2014

Reticente

A sério? Quase uma semana sem vir ao blogue? Pois é, e então? Vem daí algum mal ao mundo? É alguma catástrofe? Vá, não é, não é. Onde é que está escrito que tenho de vir aqui todos os dias? Deixar o quê, se não tenho nada para dar? Dizer o quê? Que o meu cão teve um ataque de epilepsia ou uma reacção ao Frontline? Que teve convulsões e espumou à minha frente e eu julguei que morria? Que não tenho conseguido escrever uma linha? Que estou revoltada com uma série de coisas que continuam a acontecer neste país? Vá, tenham paciência, a paciência que eu não tenho. Outros dias virão, não quero estes, estou aqui atrás da porta, à espera que algo mude, muda, entretanto, sem boca, sem palavras, até que um texto decente possa aqui ser escrito, com a devida pontuação, pontificada a vida, a nossa...até lá, tenho apenas reticências...

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Morreu Ana Maria Matute

Para um bom adeus, aqui fica o texto escrito por CRISTINA CARVALHO no âmbito da 

apresentação de Ana Maria Matute e do livro “A Torre de Vigia”, edição Planeta 

Manuscrito, no Instituto Cervantes em  Lisboa, no dia 13 de Outubro de 2011


«A literatura é algo que, usando palavras, não se pode definir nem soletrar. É uma expressão artística ambiciosa, que usa sangue e corpo, que tem de ser livre – como todas as expressões de arte ou como a própria vida – 
Deverá ser simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de folhas de árvore.
Quanto a mim, o papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. As palavras escritas devem formar um todo compreensível, - um romance, um conto, um poema. As palavras que servem as ideias, têm de ser dádiva. As palavras não podem viver subterraneamente de modo incompreensível ou navegar ao sabor da moda; as letras não devem agrupar-se em palavras que não tenham significado. Isso não é bom. Não é essa a interrogação que a literatura precisa. Não é isso que perdura. Não é isso que prende. E está à vista de todos.
O pensamento existe. A estética da linguagem, também existe. O ideal também existe. As histórias existem. Os livros existem. A pessoa existe e a pessoa é a interrogação. É a pessoa que escreve histórias que deseja que a outra pessoa as leia, mas sobretudo, que as compreenda.
Ana Maria Matute é totalmente clara. Ela não escreve sobre o eterno Eu e o Tu e o Tu e o Eu mas abraça sim, toda a humanidade. Por exemplo, em Paraíso Inabitado, Matute revela a inteira psicologia da vida desde os primeiros anos da protagonista, Adriana, que são os nossos primeiros anos rumo a um salto assombroso nesse perigoso e absurdo abismo que é a adolescência, túnel sombrio de dúvidas e indecisões que só o próprio adolescente consegue resolver. 
Atravessando a vida com tantos livros escritos, tantos prémios que a consagraram universalmente, há um que destaco porque me toca particularmente, porque o sentido mais humano da literatura ainda que fantástico e submetido, aparentemente, ao reino do surreal e do maravilhoso que muito aprecio e elevo, é também, pelo que sei, o livro que a escritora mais gostou de escrever: Olvidado rei Gudú. Como ela própria afirma - , el libro que siempre quiso escribir y por el que le gustaría ser recordada! "Es un libro mágico, como la vida misma". 

Toda a magia e mistério da vida é extraordinariamente bem escrito e descrito em Olvidado Rei Gudú, seus mistérios e superstições onde todas as emoções humanas são reveladas num registo de assombrosa fantasia e de poderoso conhecimento da imaginativa mente humana.
Com uma vastíssima obra que passa por muitos romances entre os quais destaco as traduções em língua portuguesa: Olvidado Rei Gudú, Aranmanoth, outro romance no género fantástico apresentado com uma escrita tão doce e envolvente, conta-nos a infância e o crescimento de duas crianças enamoradas. 
Ainda em Paraiso Inabitado e de novo pela voz de uma criança se percorre a vida e os complexos estágios do crescimento numa escrita aparentemente leve e simplificada que nos conduz às mais elaboradas reflexões.
E o livro que hoje apresentamos, A Torre de Vigia.
Ao entrar na leitura deste livro imergimos imediatamente num cenário onírico, denso e misterioso onde sobressai a Natureza por vezes assustadora, outras vezes duma beleza escaldante. Todo este ambiente enevoado e surreal de homens-lobis, ventanias, campos de neve de fome e de frio mais as doçuras do estio, de ameias de castelos, baronesas e barões, veados, javalis, gansos, lobos, cavalos brancos e cavalos pretos, jovens iniciados cavaleiros, peles de ursos, flechas, salões, cozinhas e alcovas, todo este universo existe, atavicamente, em todos nós. Está nos mais altos e escondidos sótãos da nossa memória. Este universo foi, neste livro, posto a descoberto. É uma vida inteira a descobrir universos, a desvendar sonhos, uns atrás dos outros.
E com a ironia sempre presente, vivemos mais uma vez uma certa infância ou como uma criança pode e consegue sublimar atos ou situações terríveis através da construção dos sonhos.
Nesta história somos transportados, como num quadro musical em ambiente medieval, somos transportados em nuvens de cheiros, cores e sabores, interrogações, desespero e espanto.
Este livro, o primeiro duma trilogia medieval, fala-nos de um filho de boas famílias, a sua travessia da infância e entrada na adolescência com grande desassossego. A castelã, a baronesa de Mohl, linda, ruiva e branca que o inicia no amor carnal aos treze anos. Também essa atitude, brutal e estranha, fá-lo perceber os mais rudimentares indícios da constituição psicológica do ser humano. Tudo o que de mais escondido está, para além da fronteira do conhecimento, rente às superstições mais subterrâneas que todos nós temos e que desejamos esconder. Conseguimos perceber este jovem a pensar e a transformar-se todos os dias, o que causa alguma angústia.
As personagens avassaladoras quer animais quer humanas são fascinantes. Krim-Cavalo é um ser inesquecível, lendário e protetor do jovem iniciado. Eu penso mesmo que Krim-Cavalo podia ser o jovem, ele mesmo. Este jovem sem nome. Este fantasma. O barão e a baronesa de Mohl, outras personagens tão excessivas quanto misteriosas. O próprio pai, um poderoso desgraçado que, sem amor para dar, é como se personificasse a eterna noite dos homens.
“A Torre de Vigia” é pois, uma história de desejos, de descoberta, a eterna luta entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas e ao ler este romance pensei sempre no homem à face da Terra, vi-o a tentar avançar não sei para onde, nem porquê, nem para que destino ou fatalidade.
É esta a arte de Ana Maria Matute: a literatura, esse milagre.
Escreveu também contos e muitas histórias para a infância e juventude.
Os prémios e reconhecimentos literários são inúmeros. 
Em 2010 recebeu o Prémio Cervantes, o mais alto galardão espanhol atribuído à literatura.
A arte literária é mais uma insignificância do cosmos. Quantos e quantos quilómetros de linhas já foram escritas? Quanto pensamento glorioso já oferecemos aos nossos deuses? Quantos restam? Quantos encantos e desencantos vamos sofrendo? O que é que aprendemos? O que é que valemos? Que interesse tem tudo? Tanta interrogação…
Sei, sinto que Ana Maria Matute tem absoluta consciência das penas que uma pessoa suporta ao longo desta permanência por aqui. Os seus livros são documentos de extraordinária importância que desenham a vida e as experiências do quotidiano de alguém que conviveu com a guerra civil de Espanha e a segunda grande guerra mundial e o pós-guerra. A sua literatura é um grito de libertação através do poder imagético de cada um. A fantasia está expressa em muitos dos seus livros atingindo o pico em Olvidado Rei Gudú e Aranmanoth e ainda, muito embora estes livros sejam um hino à poderosa fantasia humana, é também a constatação da triste realidade da condição humana. 
Ana Maria Matute enche-me de orgulho como mulher, como escritora, como exemplo de conhecimento, de experiência, de sabedoria, de humanidade e celebro-a em todas as suas vertentes e capacidades. Exalto-a e elevo-a. Desejo-lhe, com toda a admiração e a par desta complexa e temporária passagem pelo planeta Terra, muita saúde e as maiores felicidades em tudo, na sua condição humana e na sua literatura.»

domingo, 22 de junho de 2014

Água

Duas da tarde. Na cama. Não de cama. Apenas enroscada no ócio que o Domingo traz, lendo as últimas páginas do Memorial. Vejo a luz esmorecer, o relógio comendo as horas, rumo ao fim da tarde. O ar tornou-se espesso, a página amarela, de papel antigo. A chuva abateu-se, aliviando o chumbo do céu, para devolver a luminosidade e a brancura à folha. Entreabri a janela a fim de sentir o cheiro da terra. A tijoleira escurecida, a folhagem pingando, gota a gota, sobre os pés de plantas e flores enterrados em grãos cor de café. Torno a fechar a janela e regresso ao meu livro. Os cães dormitam no soalho, em volta da minha cama. Um privilégio raro que hoje lhes concedo, só porque sim. O sol ficou encerrado num quarto escuro feito de nuvens de antracite, que lhe sufocam o calor, e é um hálito das sombras que eu respiro. O musgo avança, seduzindo a pedra. E assim permanecendo a chuva, perfurando os dias, o ar seria manto tecido com asas de fada, um filtro de verdores subtis. Até que eu já não fosse mulher, fosse cavalo-marinho no interior de uma casa aquátil, gruta guardada por dois peixes-sentinela, e eu lendo, ainda, as nervuras de algas e corais.
É a chuva. A chuva que me leva em pensamentos de água. 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sonho


Hoje é o dia em que perdemos Saramago. Completam-se quatro anos sobre o dia em que eu, pouco depois de saber da morte do nosso querido autor, fui dar uma sessão de Escrita Criativa, na biblioteca da Ericeira, aos meus alunos adultos, escritores amadores. Pus de parte o que tinha preparado e dedicámos-lhe um bom tempo da sessão. É para mim fácil de lembrar: 2009, e o dia dos anos da minha querida irmã Sofia.
Hoje:
Nada fiz de jeito, exceptuando ter lavado a loiça, alimentado os cães e recebido de braços abertos uma notícia extraordinária.
Um sonho que estava muito distante e que, num gesto, ficou mais próximo. Passou de sonho a projecto. E alguém acertado irá realizá-lo. A vida pode trazer-nos surpresas extraordinárias, que se erguem do quase nada, do vento, da espera. De repente, uma brisa, uma ventania trocam o lugar às coisas, o que estava distante fica mais perto e tudo parece possível. Provavelmente é mais um sonho. Mas enquanto nele estou afundada sou sílfide, leve, leve, pousando no néctar das mais doces ilusões. E não quero acordar. Não quero.

Roubei a imagem aqui

terça-feira, 17 de junho de 2014

Terra

A feira do livro terminou, as notícias falam em cerca de quinhentos mil visitantes. Passou o calor terrível, o dia esteve perfeito. Ao fim da tarde o homem andava de enxada (ou ancinho ou lá o que é) a arrancar as ervas indesejáveis; o Gastão deixou-se ficar deitado no cimo das escadas de pedra, admirando e estudando o movimento detectável nos seus domínios: o vale. Arfando, um pouco aliviado por andar descartando, desde Março, a sua pelagem de serra da estrela: ainda assim, é um animal imponente, de juba e corpanzil consideráveis. A Bolota jogou à bola (nova, comprada na Inter Sport no dia da sessão de autógrafos no Oeiras-parque): uma bola novinha em folha, que a deixa tão excitada, que nem se lembra de comer: recorda-me o esquilo da Idade do Gelo, com a sua bolota (nem de propósito, tratando-se da Bolota, a nossa cadela). Quando sentiu o cheiro verde e fresco, juntou-se a mim: a dona ali estava, sentada com duas cadeiras e duas tigelas, descascando vagens de ervilhas acabadinhas de apanhar da terra. Volta e meia, lá saltava uma para a sua bocarra. Tenho uma cadela que se pela por ervilhas cruas, vá-se lá perceber. Não pude deixar de experimentar uma, para compreendê-la. E compreendi. Assim mesmo, da mão para a boca, soube muitíssimo bem. Amanhã será a vez dos pinhões, também acabados de apanhar.
É nestas horas que eu tenho a certeza de valer a pena o contacto com a terra. É certo que lá em cima, no escritório, alguns emails me aguardam, há novas notificações no facebook e à noite irei ver, na box, os primeiros episódios de uma série que recebi em DVD. Mas é assim, este casamento perfeito entre a terra e o futuro, que nos faz felizes. O melhor dos dois mundos.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Desejo

Sabe que a escrita é como o ritmo a que respira o desejo do seu corpo: quanto mais, mais; quanto menos...menos. Esse corpo que, esculpido em abandono, há muito desistiu do desejo, para não chorar. A carne inteira, a pele, deixando de pertencer-lhe, o músculo flácido, atrofiado, é incapaz de sustentar a ideia do prazer. A ideia. Ela risca o corpo, arrisca o texto, grita o sexo. O corpo perdeu o caminho até à história que é forçoso percorrer, palavra a palavra.
A letra agora mais incerta, ilegível, à medida que a ideia vai tomando forma, se definindo. Quanto mais enlouquece a sua caligrafia, mais lúcido é o pensamento. Uma o avesso do outro.
Recorda que Fernando Pessoa nasceu hoje, em 1888. Hoje, dia de estranhas conjugações. Lua cheia, sexta-feira treze...e Pessoa renascendo para nos dar consolo e sentido.
O corpo vai despertando e o traço da letra estende-se com langor.
São unos, enfim. O corpo e o desejo.
Só assim, na embriaguez do desejo, é capaz de escrever.
De contrário, as palavras nada diriam.
E há tanto para dizer...

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Supertramp

Ah, o poder que a música tem de anular distâncias e tempo...! Fazer-nos sentir jovens outra vez... Esta era uma das músicas que eu escutava a partir dos discos de vinil dos meus irmãos mais velhos: e por várias vezes serviu de fiel depositária das minhas lágrimas de adolescente apaixonada...e de símbolo de uma intimidade tão desejada: a solidão do nosso quarto, para tentar compreender a complexidade do mundo. Tão bom, isto. Continua a ser bom.

Nós

Escrever, aproveitar enquanto sou sincera, enquanto existe em mim transparência. É preciso pôr de parte o peso que nos obrigam a carregar, sermos apenas nós, na verdade daquilo que insistimos em ser; sejam, apenas e unicamente, vocês, quem quer que sejam! Deixar os dedos correr sobre a sinceridade que chega com uma pequena ajuda encontrada no fundo de um copo redondo, com gelo picado, lima e alecrim. Somos o que somos. Temos algo a dizer, assim seja. É hora de puxar a manga ao mundo que nos olha, transformar este sol em optimismo, ser luz e esperança num caminho melhor. Não liguem, digo eu; ou liguem, sei lá, se calhar é melhor ligarem, esquecerem tudo aquilo que vos chega, os mihões, a dívida, o crescimento económico, a prestação do nosso  super-heroi Cristiano Ronaldo e...sermos apenas nós. Nós com aquilo que temos de mais verdadeiro. Haja verdade nestes dias difíceis. Também nós podemos ser super-heróis. 

terça-feira, 10 de junho de 2014

Dedos


André Breton, Surrealismo - Manifesto (1924)
Falam da escrita automática, escrever sem pensar no que a mente quer, deixar os dedos correr até à descoberta daquilo que verdadeiramente querem dizer. A mentira, a força de nada terem para dizer e terem de dizer forçosamente alguma coisa que importe a quem lê. É preciso escrever, mostrar que se tem algo dentro, ser a diferença, ser escritor. A banalização de algo que antes era singular; era preciso a história, a escrita exemplar, a voz, o ser-se único e agora não há quem não escreva; todos publicam em espaços virtuais e nem eu posso insurgir-me contra tal, que de banal tenho tanto que pertenço também a essa massa anónima de gente que acena, Olhem para mim, vejam aquilo que sou capaz de escrever. Nada, não é nada. Não somos fazedores de grandes histórias, não fazemos sequer parte de uma grande História, nem personagens somos. Perdoem-me, perdoem-me se hoje assim me expresso, são horas de estupefacção face aos festejos do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, quando estamos tão carentes do sentido de comunidade. Da comunhão. Da humildade. De razões para o Orgulho que antes era pão, o alimento das primeiras horas, a arrancar o dia. Não liguem, não liguem ao que hoje escrevo, são os dedos, os dedos que escrevem por mim. À traição.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Por estes dias

Os santos populares e outras festas e feiras, a Feira do Livro de Lisboa, livros, livros e livros, autores, autores e autores, sessões de autógrafos e lançamentos, promoção, promoção, promoção, todos tentando conquistar algumas horas, minutos que sejam de atenção aos leitores, ao público, concorrendo com farturas, bifanas, cachorros, gelados, pão com chouriço, outras editoras e outros livros, choques de calendário e de horário, em que acontecem outras sessões de autógrafos e outros lançamentos de outros tantos livros noutros lugares. E é sabido que não podemos estar em dois ao mesmo tempo e que o recheio das carteiras é cada vez mais magro...gente que vai, que come e bebe, que olha apaticamente para os livros, sem os ver, comprando pouco, sem se deter a procurar aqueles livros de fundo de catálogo que estão a cinquenta cêntimos, 1, 2, 3, 4, 5 euros. As filas (ou bichas, como quiserem) generosas e absurdas para os autógrafos e livros da moda, de autores de qualidade e autenticidade duvidosas; menos gente do que seria justo para as dedicatórias de outros Escritores com "E" maiúsculo. Sim, há excepções, benditas excepções. Momentos felizes. Alegres encontros e reencontros. Autores respeitados e acarinhados. Gente entusiasmada, carregando mochilas pesadas, mostrando as suas compras no facebook. Mas a impressão que me fica é a de um tremendo e triste desperdício. Não é. NÃO É desperdício. Não deveria ser. Vale sempre a pena.
Apesar de tudo.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Insónia

Às 4h10m a Bolota arranha a porta do quarto. Abri-lhe a porta da rua, aguardei uns minutos, deixei-a entrar. Fiz ar de zangada, ignorando o seu contentamento de quem está pronto para o mimo e a brincadeira, como quem diz, Não, Bolota, não são horas para isso, são horas de estarmos a dormir...
- Fica, quieta! Ai, feia!
Voltei para o quarto, fechei a porta.
Os minutos passaram. São quase cinco. Nem eu nem ela tornámos a conseguir adormecer. Os machos da casa dormem, as fémeas nem por isso. Ela parece adivinhar a minha insónia e enquanto eu deixo o cérebro divagar por cenários tão absurdos como a escrita do segundo volume d'A Ilha de Melquisedech ou o filme "Stranger than Fiction" - um dos meus favoritos, que revi anteontem pela enésima vez - volta à carga, arranhando a porta do quarto. Desisto. Por isso são 5.57 e aqui estou, de pequeno-almoço tomado e a chávena de café do lado direito. O Gastão, que como serra da estrela que é dorme quase sempre lá fora, deve ter dado pelo cheiro das torradas. Começou a uivar. Juntou-se a nós. Aqui estamos os três, no escritório. Só o dono da casa dorme.
E agora é tentar fazer algo de construtivo com esta madrugada: escrever.
5.59.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O último do primeiro

Em 2006 estreei-me como autora na revista Egoísta, com um pequeno conto. No mesmo ano publiquei esta novela, numa tiragem de 250 exemplares. Nesse tempo não usávamos facebook, nem vivíamos ainda na vertigem da promoção desenfreada; por isso, depois do lançamento, onde vendi uma boa quantidade de "Pisas" a familiares e amigos, guardei os restantes numa gaveta e não pensei muito mais nisso. Como disse na altura uma grande amiga, serviu para "brincar aos escritores". Fui oferecendo, em aniversários e outras ocasiões que pediam algo de especial, e vendendo um ou outro livro quando calhava. A gaveta foi ficando mais vazia, mas sempre sem ansiedades.
Em 2008, 2009 veio o uso generalizado do facebook e, de um dia para o outro, a forma de divulgamos o que temos para vender sofreu uma transformação radical. No ano passado criei o site Gavetas e Gavetinhas, pois a escrita de ficção e o trabalho como letrista, revisora de texto e coordenadora de oficinas de escrita criativa já o justificava. Quando olhei, restava-me apenas meia dúzia de exemplares d'O Pisa-papéis, que nem tinha chegado a mostrar-se nas livrarias, à excepção de uma tímida presença na Bulhosa do Oeiras-parque, que me pagou 60% do preço de capa, negócio limpo (10 livros, que demoraram quase 2 anos a sair da prateleira...mas todos arranjaram dono, o que foi espantoso).
Hoje enviei pelo correio o último. O último exemplar do primeiro livro. Disse-lhe adeus, com algum carinho e nostalgia, pois aquele era um velho companheiro: duvido que vá fazer novas edições, há outros livros para escrever e para publicar. Acho que este último "Pisa-papéis" ficou bem entregue.
Deixo aqui um beijinho ao Daniel Gouveia, que tratou da revisão e edição, levando-me à gráfica e fazendo a reportagem (perdi as fotografias, senão teria incluído aqui algumas), à Rita Ferro, que tão generosamente escreveu o prefácio para o livrito de uma autora estreante e, claro, para o Nanã, pela fotografia belíssima que roubei para a capa, e a quem dediquei este livro. Bem hajam, sim?
Adeus, Pisa-papéis! Saíste de casa da mãe para ires viver sozinho. Não te censuro, aqui já não aprendias nada.

domingo, 1 de junho de 2014

Dia da Criança

O COELHINHO CHOCOLATE

Era uma vez um coelhinho anão.
 Parecia um gelado de nata e chocolate, pois o seu pelo era todo malhado, castanho e branco.
        Vivia num pequeno jardim guardado por um grande cão bonacheirão, chamado Castanho. O cão parecia-se um pouco com ele: também era castanho e branco, apesar de ser muito maior.
   O coelhinho passeava-se livremente por ali, uma vez que os seus donos o tratavam como se fosse da família: não lhe faltavam as cenouras; brincava com o Castanho dando-lhe dentadinhas no rabo e fugindo logo de seguida, saltitando em direcção aos arbustos; passava o serão ao colo da D. Ermelinda, que lhe ia fazendo festas, enquanto conversava com o marido, frente à lareira…enfim, era um coelho feliz, que levava uma vida regalada.
     Numa linda manhã de Abril, o Sr. José decidiu pintar a casota do Castanho, cuja madeira velha estava já muito feia. Agarrou no chapéu e foi às compras à aldeia, na sua carrinha branca. Apareceu pouco depois com várias latas de tinta de água, pousou-as na relva junto à casota e abriu-as: uma branca, outra amarela, outra ainda azul mesmo-mesmo da cor do céu e, finalmente, uma vermelha. Quando ia começar a obra, disse para com os seus botões:
"Ora ora, o que me calhava mesmo bem agora, era uma cerveja fresquinha!" – Porque estava imenso calor. Como a D. Ermelinda estava longe, na cozinha, a fazer um bolo para a filha e para os netos, que estavam para chegar, resolveu levantar-se e ir ele mesmo buscá-la.
    Passados instantes, chegou o coelhinho, atraído por aquele cheiro novo  de tinta fresca. Ao ver as cores a brilhar ao sol, achou-as bonitas. Aproximou mais o focinho e os bigodes para espreitar e... Ops, asneira! Entornou duas latas de tinta! O azul e o amarelo espalharam-se por todo o lado e arranjaram uma cor nova:
      Qual era? O verde!
   Ficou muito espantado com o que tinha arranjado e não resistiu a espreitar melhor as outras cores: empoleirando-se com as patas na lata vermelha, pumba! Fez asneira outra vez! Ela tombou e o coelho Chocolate, com o peso, desequilibrou-se e foi cair em cima da lata de tinta branca! Agora é que a tinha arranjado bonita! Estava tudo entornado e, ainda por cima, cada vez que saltava, as suas patas deixavam marcas… …. Cor-de-rosa!
  Nesse momento, curiosos com a confusão que reinava no jardim, chegaram o Castanho e o Sr. José, a correr:
"Chocolate! O que é que me foste arranjar?! Olha bem para isto, sim senhor, lindo serviço!" - ralhou o Sr. José.
O Coelhinho olhou para ele com os olhos maiores e mais doces que sabia fazer, para não apanhar uma palmada. Era preciso ver aquela confusão de cores! O Castanho, todo satisfeito por ver o jardim mais colorido do que nunca, juntou-se ao Coelhinho Chocolate, lambeu-o e ficou com a língua pintada; depois, com a cauda a abanar, espalhou mais tinta por todo o lado. Agora havia roxo, castanho e cor-de-laranja também! Até as flores do jardim ficaram com as suas cores trocadas!
     Pensam que a D. Ermelinda se zangou quando, ao chegar, viu aquela confusão? Estão enganados! Como era uma senhora muito bem disposta, não conseguiu conter o riso e desatou às gargalhadas. E o riso, que se pega como os bocejos e a tosse, contagiou o Sr. José, que acabou por rir também, e nem ficou zangado, pois reparou que o que sobrara nas latas ainda daria para fazer o trabalho.
"Ai, que eles estão quase a chegar!" - Exclamou a D. Ermelinda, pondo-se séria de repente - Vá, toca a tomar banho, seus marotos, antes que essa tinta seque!"
     O que valeu a todos, é que a senhora adiantara trabalho, como era seu hábito, e, assim, dispôs de tempo para aquele imprevisto. Pegou no Chocolate e foi dar-lhe uma boa ensaboadela na banheira, com água morna. Quanto ao Castanho, foi lavado ali mesmo no jardim, com a mangueira, para aprender a ficar quieto! O Sr. José esfregou-o bem esfregado com um champô especial, até ficarem apenas as suas cores: castanho e branco.
    Ao fim da tarde, a D. Ermelinda abriu a mesa no jardim, fez laranjada para as crianças e chá para os adultos, a acompanhar as grandes fatias de pão e de bolo de chocolate.
   Por falar em chocolate, onde ficou o coelhinho? Ah, esse ficou amarrado ao poste, de castigo! E o seu amigo Castanho, que detestava tomar banho, passou o resto do dia muito sossegado e um pouco amuado com o dono, que o lavara com água fria. No entanto, nessa noite, já poderia dormir regalado, na sua linda casota, que estava agora como nova, pintada com as sete cores do arco-íris! Frente à porta podia ler-se:

                        "CUIDADO! PINTADO DE FRESCO!"

(Vera de Vilhena, texto inédito. Dedico esta história a todos os pequerruchos)

sábado, 31 de maio de 2014

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Muphet Show

Que saudades dos Marretas...! Os convidados, dotados de um imenso sentido de humor e desportivismo, eram de luxo. Aqui, Rudolf Nureyev a dançar o Lago dos Cisnes...com uma porca!
Bom fim de semana, sim? :-)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Mia Couto

ERRO POÉTICO
Sou o açúcar

procurando a formiga.

Meu carreiro

não tem linha.

É um ponto, um planetário grão.

A minha natureza

é uma inacabada caligrafia:

apenas os erros me defendem.

O amor apenas

me rasura a alma.

Com a formiga
partilho alucinogénicos:
migas de paixão, migalhas de doçura.

In "Tradutor de chuvas"

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Ilusão

Se antigamente o ditado dizia Ver para crer como o S. Tomé, a expressão perdeu sentido na era do digital. Desconfiemos, cada vez mais, daquilo que os nossos olhos vêem. O meu primeiro impulso foi usar esta imagem dramática e romântica para escrever um texto. E como faço por respeitar, sempre que possível, os direitos de autor dos fotógrafos, pintores, escritores, artistas, enfim, fui pesquisar a origem desta "fotografia" e fiquei a saber que se trata de uma composição de vários elementos, criada por um autor dedicado à Arte Digital. Como vivo com um homem que praticamente só trabalha com negativos de médio e grande formato, em fotografia tradicional, analógica, esqueço-me de que é cada vez um luxo maior captar algo, conseguir o enquadramento perfeito no momento perfeito...sem manipulação digital.
Não é censura, atenção, apenas a curiosidade de constatar esta espécie de ilusionismo visual. O resultado pode ser fantástico, sem dúvida. Mas saber dos bastidores retira-lhe algum encanto.
Aqui estão as fontes dos elementos:
Model [link] by dazzle-stock
Violin [link] by texurestockbyhjs
Violin Bow [link] by Axy-stock
Texture [link] by Camaryn-Wallpaper
Bubbles [link] [link] by Nystagmuz-stock

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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Silêncio

Se este silêncio de hoje fosse meu, seria assim...

SÚPLICA
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,

E que nele posso navegar sem rumo,

Não respondas

Às urgentes perguntas

Que te fiz.

Deixa-me ser feliz

Assim,

Já tão longe de ti como de mim.

(...)

Há calmaria...

Não perturbes a paz que me foi dada.

Ouvir de novo a tua voz seria

Matar a sede com água salgada.

MIGUEL TORGA

quarta-feira, 21 de maio de 2014

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sopa e um arco-da-chuva

De avental, na cozinha, deitei na panela um bom pedaço de azeite alentejano, descasquei uma cebola gorda e três alhos e deixei a refogar em lume forte. Seguiram-se uma dezena de cenouras, um nabo e um alho francês. No fim, juntei duas courgettes, para engrossar, sal grosso e um pedaço de chouriço, para dar sabor. A água ferve, depois de ter afogado todos os legumes. A casa já cheira a sopa. Abro a janela e mantenho o exaustor desligado; prefiro o canto dos pássaros ao mecanismo irritante do ventilador, que leva para longe os vapores leguminosos. Por companhia tenho um bom copo de vinho branco e  a Bolota, que dormita enroscada na sua cama, amolecida pelo fim da tarde. Acabou de chover, por breves segundos. A paisagem libertou o perfume de terra molhada. Baixo o lume para o seis, tapo a panela, tiro o avental e ali fico, como parva deslumbrada, a ver o arco-da-chuva que nasceu precisamente no lado nascente, enquanto o sol brinca às escondidas do lado oposto, ocultando-se por trás dos pinheiros e eucapliptos. O vale tomou um duche rápido e ficou assim, lavadinho e perfumado, revelando, na linha do horizonte, um casario caiado e luminoso.
Sim, é certo que estou numa espécie de fim do mundo, mas a cada vez que ele se finaliza assim, sinto que vale a pena.
© Nanã Sousa Dias

sábado, 17 de maio de 2014

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Crónica: no Colégio Valsassina

A tarde de ontem foi recheada de emoções. Fui recebida pela Liliana (minha primeira profª de português) e pela Maria Alda - Directora do Departamento Didáctico do Colégio Valsassina - e minha segunda professora de português, ao longo de quatro anos. A apresentação da autora foi feita pelos alunos Guilherme (também cantor!) e Mariana, ambos lindos, colocados de cada um dos lados, de folha na mão. Foi espantoso ver que muitos deles tinham, de facto, visitado o blogue e o site, como preparação para este encontro.
Presentes no auditório estiveram também a Teresa e o Miguel Furtado, Maria João Craveiro Lopes (do Grupo de Teatro, onde me estreei a cantar, a escrever, a partilhar...onde "cresci"...) e gente que prestou uma ajuda preciosa para que tudo corresse bem (obrigada Sofia!). Tivemos até direito a um microfone de emissor, para as perguntas dos alunos cujas idades andavam pelos doze e treze anos. Fiquei feliz por ver muitos deles com os dois livros na mão - «A Ilha de Melquisedech» e  «Coisandês. a vida nas coisas» - fica sempre a sensação de que ficou muito por dizer e a angústia da incerteza quanto a ter, ou não, respondido da melhor forma a cada uma das perguntas...que foram muitas!
Qual foi o livro que escreveu mais rapidamente?

Quantos livros já publicou?

Com cantora, como é que aconteceu ter começado a escrever?

Como é que se sentiu quando a Rita Guerra a convidou para compor para um novo álbum?

Porque é que a Ilha de M. tem palavras em inglês, como Sillydragg?
(A resposta a esta pergunta incluiu um longo "Aaaaaaaaaah!!" da plateia quando eu esclareci que Sillydragg não era uma palavra inglesa, mas um anagrama - expliquei o que era um anagrama - da palavra Yggdrasill (também explicada).

Em que é que se inspira para escrever?
(A pergunta inevitável, já se sabe)

Em que é que se baseia para construir as suas personagens?

O que é que gosta mais de cantar?

Pode cantar agora um bocadinho, para a gente ouvir?
(Ficou prometido o envio de um tema, através da Maria Alda)

Dos seus livros, qual é o seu livro preferido?

Quais as suas influências, em termos de autores e de livros?

Que conselhos daria, a quem quer começar a escrever?

E foram mais...! Mas não consigo recordar-me de todas, algumas bastante pertinentes.

Antes de partirmos para os autógrafos, terminei a sessão com a leitura do conto "SM58", o modelo do meu microfone, que, aliás, é o de grande parte dos cantores profissionais.

No fim, tive o prazer de constatar que todos os exemplares da Ilha encontraram dono, mesmo o «Coisandês» que, sendo em maior número, sobrou, ainda assim, em quantidade muito tímida.

Aqui fica a minha gratidão para com a Maria Alda, e para com todos os que, de uma forma ou de outra, contribuíram para que este encontro fosse tão compensador. Bem hajam! E estejam à vontade, meninos leitores, para seguir a página no facebook ou contactar-me por email, sim?
Afinal, convosco isto de escrever faz muito mais sentido. Um escritor sem leitores é como um artista de palco sem público. Até breve!
Com a minha querida amiga Maria Alda

domingo, 11 de maio de 2014

Marta Hugon

Há um tempo que acho piada à Marta Hugon, sempre bem acompanhada, com bom gosto e muito boa onda. Aqui com o single promocional de um novo trabalho: "Hate song". Aproveitem o Domingo, sim?

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Burros

Porque adoro burros e porque parece que hoje se celebra o Dia Internacional dos Burros, aqui fica uma sugestão de leitura e o respectivo link para a encomenda na Amazon, na versão original (uma vez que Sonya Hartnett, inexplicavelmente, não se encontra traduzida por cá).

Sinopse original:
"One morning in the woods of World War I France, two young sisters stumble upon an astonishing find — a soldier, temporarily blinded by war, who has walked away from battle longing to see his gravely ill younger brother. Soon the care of the soldier becomes the girls' preoccupation, but it's not just the secret they share that emboldens them to steal food and other comforting items for the man. They are fascinated by what he holds in his hand — a tiny silver donkey. As the girls and their brother devise a plan for the soldier's safe passage home, he repays them by telling four wondrous tales about the humble donkey — from the legend of Bethlehem to a myth of India, from a story of rescue in war to a tale of family close to the soldier's heart. Sonya Hartnett explores rich new territory in this inspiring tale of kindness, loyalty, and courage."

sábado, 3 de maio de 2014

Theo Jansen

Vejam o trabalho genial, de efeito estranhamente belo, deste escultor que chama às suas peças "Animare" ( traduzível por "animais de praia"). Theo Jansen trabalha com tubos de plástico, imaginem. E o seu engenho e sensibilidade resultam nisto. Quase que o imagino a conversar com Leonardo da Vinci, num dia de vento...

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Semeando...

Os dias têm andado embrulhados em livros, leituras, tertúlias e oficinas de escrita. Esta, a escrita, anda dormente, mas em breve a porei de novo a mexer.
Cada vez mais os autores (ainda não consigo designar-me como escritora, nada a fazer) têm de ser atletas em relações públicas, publicidade e marketing, na batalha constrangedora de promoção dos seus livros. É tempo meio perdido, que alguém deveria investir em vez de nós; mas se queremos conquistar um lugar ao sol, mesmo que morno...seja. Devagarinho, vou encontrando pessoas que, segurando "A Ilha de Melquisedech" nas mãos, me dizem:
- Já ouvi falar deste livro...
Outros acreditam que ele TEM de ser um bestseller! TEM de chegar a Hollywood! Eu rio-me, e sonho com eles, por alguns segundos. Depois torno a pousar os pés no chão e a puxar a manga às pessoas, vejam, comprem, leiam este livro.
Sim, é constrangedor termos de ser técnicos de vendas em vez de simples escritores. Vendedores ambulantes à espera de um milagre.
Os livros precisam de leitores como um filho precisa de um pai e de uma mãe.
O autor é apenas semente...e talvez por isso tenha de continuar a semear, semear sempre, como quem sopra dentes de leão ao vento.

Roubei a imagem aqui

domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura

Morreu Vasco Graça Moura

"As aves migram em setembro

nem vou com elas, nem

guardo delas 

a mínima memória


escurece mais cedo,

o tempo não se rouba, 

escoa-se como o frio

por uma camisola


até dentro da pele 

as aves migram

calmamente. eu

permaneço aqui


de guarda à água lisa que viu passar seus bandos

e em que hás-de debruçar-te.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Papoilas encravadas


Escrevo para dizer que escrevo
Enquanto os cravos vermelhos são tudo
o que os olhos alcançam
por estes dias e eu
escondida em vida silvestre
continuo a abraçar papoilas
cujo tom escarlate, salpicando os prados,
sempre me lembrou a liberdade
mais verdadeira
onde a natureza escuta os nossos gritos
e nos afaga a solidão
com a doçura de um beijo molhado no vento.

Sim, são papoilas, os meus cravos.

Escrevo para dizer que escrevo.
enquanto os salgueiros compõem a manta morta
húmus, folhas secas, cadáveres e raminhos,
decomposição mal disfarçada
em festins e algazarras, encravada em ideais
dentes de leão na brisa caindo desmembrados
sobre quatro décadas de terra que era fértil

Escrevo para dizer que escrevo a liberdade
que a cada dia tentamos segurar
como quem prende nos dedos uma rosa de espinhos

nada somos no silêncio
E é por isso que existem as flores.

Roubei a aguarela aqui

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Crónica de uma tertúlia e uma morte anunciada

Uma tarde tecida em preguiça, pouco ou nada de jeito. Chegaram as oito e depois de umas massas, feitas e enfiadas na boca à pressa, empurradas com um copo de tinto, parti com a Dila Sá para Lisboa, rumo à tertúlia no Carmo, no café do Teatro Rápido. Rever a Alice foi uma festa e uma emoção, como sempre. A sala estava bastante composta e a Alice foi igual a si mesma, graças a deus, brindando-nos com o seu bom humor, a sua atitude despretensiosa e simpatia. Foi havendo leitura e declamação de versos. A Alice voltava, voltava sempre, a bem do riso, empurrando para o Samuel Pimenta "os textos sérios". Espicaçada generosamente pela Dila e por um copo de sangria de vinho branco, lá fui eu ler um texto: escolhi o conto "Língua afiada", do meu novo livro "Coisandês", baseado na personificação de uma Guilhotina, palavra que, curiosamente, a Alice acabara de referir no início da tertúlia, falando no poder sedutor das palavras, como sendo uma das preferidas da sua juventude: um acaso feliz, que fez a ponte perfeita para eu pespegar com um conto, de humor negro, no meio da seriedade dos versos. Relembrámos, graças à Dila, a actualidade da história "El rei Tadinho", e, mais uma vez, a Alice fez por deixar claro que a literatura, a escrita, a leitura, não têm de ser levadas sempre tão a sério. O Abel Dias também deu um ar de sua graça, até que o Samuel Pimenta, um dos organizadores destas tertúlias realizadas às 5ªas feiras, deu por terminada a sessão.
Quando liguei o televisor ao chegar a casa, levei com a morte de Gabriel Garcia Marquez. Todos contávamos com ela, já nos fora anunciada, mas a tristeza não quis saber e apareceu à mesma.
Deitei-me na companhia do grosso volume da Dom Quixote, "Viver para contá-la", para que Garcia Marquez me narrasse novamente a sua vida.
De certa forma, senti-me perdendo um tio-avô estrangeiro que me contava histórias. É um consolo saber, ao menos, que elas viverão por muitos anos.
Adeus, Gabito.
Disse o autor, acerca deste seu livro, que foi o que o deixou mais satisfeito como escritor. Uma história contada de forma magistral.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Vozes

Para celebrar o Dia Mundial da Voz, um dos meus meninos preferidos em gravações multitrack a capella. Aqui com uma interpretação novinha em folha: My Romance.
Dedico este tema ao meu colega Rui Pimpão, profissional de voz, uma das pessoas que animou os bonecos do Contra-Informação e do Contra-Poder, e que tão cedo escolheu deixar-nos, para choque de todos os que faziam parte da sua vida e lhe conheciam a boa disposição constante. Quanto mais desespero andará escondido por detrás de um rosto sorridente? É urgente andarmos mais atentos.
Da esquerda para a direita: Bruno Ferreira, Mila Belo, João Canto e Castro e Rui Pimpão, a equipa do Contra-Informação.



sexta-feira, 11 de abril de 2014

Verbo

E pronto, ontem lá chegou mais um filho de folhas. Desta vez pela Verbo/Babel. Como escreveu a minha querida editora Maria José Pereira, "o seu menino chegou. Consta que cheira imenso a papel impresso, pesa cerca de 150 gramas e tem uma corzita um tanto ou quanto pálida. Vamos lá ver se não temos de o levar à praia, a estender ao sol!"
Quando cheguei à Babel, tinha uma pequena caixa de cartão à minha espera, com os quinze exemplares a que o autor tem direito. Ao pegar ao colo no meu novo filho achei-o pequenino. Pudera! O primogénito, de fantasia, tem 508 páginas, é um matulão. Mas este também está lindo. As ilustrações a carvão, da Vanessa Bettencourt, são um verdadeiro mimo. 
O contrato ficou entregue. Catoze páginas com cláusulas e muitas assinaturas. 
Fomos ficando à mesa do escritório onde trabalhava a Mónica e ela já não conseguiu trabalhar mais. Trouxeram-me um cafezinho e ficámos à conversa comendo pasteis de nata O Sebastião Sena juntou-se a nós; falámos de futebol sem percebermos raspas de futebol, de livros, do facebook, de filhos, de vidas, de transformações, do futuro. Até que chegou a senhora da limpeza. Saímos todos juntos, incluindo a senhora da limpeza e, em final de conversa, fiquei a saber que o meu filho estará nas livrarias daqui a uma semana. Espanto. Uma semana, já??? E que estava tudo tratado para uma ida ao Colégio Valsassina. "Tudo tratado", uma expressão que nunca oiço e que me sabe tão bem.
O jantar fez-se no Golfinho Azul, em S. Lourenço, para matar saudades da Mena e daquela casa que há muito é, para ambos, muito mais do que um restaurante. A Duilsa e a Mena jantaram connosco. A Duilsa chama "avó" à Mena, tem 9 anos e desenhou números e letras na toalha de papel, com um traço que promete, transformando o nosso jantar de sopa de peixe e caril de gambas numa minúscula sala de aula, em que todos participámos, atrapalhados com os novos métodos, tão diferentes dos tempos em que também fomos crianças.
- O que é o jantar, vó?
- Raspas de alguidar.
Não foi fácil explicar à Duilsa o que eram raspas, o que era um alguidar, e por que razão essa expressão tinha graça. A nossa inaptidão acabou por nos fazer rir e a Duilsa só punha as mãos na cabeça, revirando os olhos, como quem diz, Aiaiai, o que é que eu faço com esta gente. Depois concentrou-se na primeira palavra da capa do livro e seguiu com o indicador cor de chocolate:
- Veer - bó. Ver-bo. Ó vó, o que é esta palavra, verbo?
- Perguntas aqui à Vera, que ela é que sabe bem português e explica-te.
E eu, feita parva:
- É uma acção.
- O que é uma acção?
-Uma coisa que fazemos: brincar, escrever, falar, comer...
- Comer bife com batatas!
(era uma indirecta para a avó)
(risos)
- Sim, mas só a palavra "comer" é um verbo.
- Ai, não percebo nada!
Então eu concluí que não era fácil explicar à Duilsa o que era um verbo.
E apontando para a capa do livro novamente, ela perguntou:
- E o que é "Coi....san...dês"?
E então rimos com mais vontade, porque para quem pouco sabia de português ainda, explicar-lhe uma não-palavra era, no mínimo, impossível.
Quando a Ana, filha da Mena, pegou nela ao colo, sobre os ombros largos, a magricela da Duilsa exclamou, contente:
- Sou um saco de arroz!
Só mesmo as Duilsas deste mundo para se lembrarem de dizer, Sou um saco de arroz.
A Mena não nos deixou pagar o jantar. E foi a pessoa a quem ofereci o primeiro livro, a quem escrevi a primeira dedicatória deste pequenino Coisandês. Não poderia ter ficado em melhores mãos.