quinta-feira, 23 de junho de 2016

Mãos vazias

Nas mãos o mesmo ramo que levava no dia do casamento. O marido ao seu lado, bonito, de fato cinza-claro, os olhos de ambos inundados, a reflectir o pasmo de ser possível sentir tamanha felicidade, que mal cabia no peito. O indicador da mão direita a esconder o velho anel de ouro - Manuel 27-5-1922 - prefere que o senhor atrás da máquina não lhe apanhe a aliança, o metal precioso a captar as atenções, a deixar para segundo plano o seu vestido de flores minúsculas, as veias salientes, a quererem sair de si, levar-lhe o sangue para longe; os sulcos do tempo esculpidos nos dedos sem carne e as manchas, que são tantas, e mal deixam ver a cor verdadeira daquela que foi a sua pele, nos dias vividos antes do vestido branco e daquele ramo silvestre, da cor do céu mais limpo. Eram dias em que Manuel lhe dava rosas vermelhas, e as suas mãos tinham carne e cheiro e humidade, não eram um deserto.
As pessoas aguardam em silêncio. Não pretendem apressá-la. Afinal, o tempo da morte é um poço sem fundo. Os olhos dela inundados, a reflectir o pasmo de ser possível sentir tamanha tristeza, que mal cabe no peito. Os dele fechados para sempre, sem pasmo, na aceitação de um destino. Por fim, a viúva pousa o pequeno ramo de flores azuis sobre o peito do marido, deitado à sua frente. As mãos dele também cruzadas. No anelar a aliança - Luísa e a mesma data. A mulher não a quis, era dele, sempre fora dele.
Só depois é fechado o caixão.
Luísa chora, enfim. Nunca gostou de chorar diante do marido nem de ninguém. Só que nesse momento não existe ali ninguém. Nada mais do que ela e as suas mãos sem flores.

© Vera de Vilhena, inédito

2 comentários:

  1. Sensibilizei-me muito ao ler este teu maravilhoso texto, Vera.
    Um beijo, minha Amiga.

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