sábado, 3 de dezembro de 2016

Adeus, Luísa

ASAS - de Maria Luísa Baptista
É no teu corpo que invento
Asas para o sofrimento
Que escorre do meu cansaço.
Só quem ama tem razão
Para entender a emoção
Que me dás no teu abraço.
Eu quero lançar raízes
E viver dias felizes
Na outra margem da vida.
Solta os cabelos ao vento,
Muda em riso esse lamento,
Apressemos a partida.
Aceita o meu desafio,
Embarca neste navio,
Rumo ao sonho e ao futuro.
Corta comigo as amarras
Que nos prendem como garras
A um passado tão duro.
Esquece o tempo e a dor,
Pensa só no nosso amor,
Vem, dá-me a tua mão.
Sobe comigo a encosta,
Porque quando a gente gosta
Ninguém cala o coração.
Despedimo-nos hoje da nossa querida amiga Maria Luísa, que gostava de escrever versos para fado, muitos dos quais ficaram muito bem entregues na voz da Katia Guerreiro, com quem tinha uma relação maternal e de grande amizade. Nunca esquecerei esse momento, a Katia junto do caixão, cantando Asas, mais uma vez, com uma voz que lhe nascia da dor. Adeus, querida Luísa. Um abraço forte ao nosso amigo João.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Black Coffee

Só para contrariar e fugir à febre do Black Coffee, que já não se aguenta. E porque todos são bons pretextos para ouvir esta senhora cantar.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

contos de Natal

Nem sempre os pinheiros são verdes
Poética Edições
Vários autores

A Poética Edições, na pessoa da Virgínia do Carmo, desafiou-me a mim e a alguns dos seus autores a escrever um conto de Natal. A edição resultou num livro escrito a várias vozes, com timbres muito diversos, que vão do registo mais clássico ao mais transgressor, pois....nem todos os pinheiros são verdes. A capa é uma pintura original a óleo, realizada por Lídia Borges, uma das autoras na presente edição. É com grande prazer que me vejo incluída nesta antologia, cujo lançamento acontecerá no próximo Sábado, em Lisboa, e que em breve estará à venda nas livrarias Férin, Ler Devagar e Pó dos Livros, em Lisboa, além de poder ser encomendado online, na loja virtual da Poética Edições, da Bertrand, Sítio do Livro e Wook

domingo, 20 de novembro de 2016

Camus em tempo de chuva

 Imagem relacionada

«Mersault continuava a traduzir "vegetables, vegetables", de olhos postos no candeeiro, com o abat-jour de cartão verde plissado. Tinha em frente dele um calendário de cores garridas que representava "O perdão dos Terra-Novas". Sobre a mesa, alinhavam-se a esponja para os selos, o mata-borrão, o tinteiro e a régua. Das janelas podiam ver-se enormes pilhas de toros de madeira trazidos da Noruega por cargueiros pintados de branco e de amarelo. Apurou o ouvido. Do lado de lá daquela parede, a vida respirava a grandes golfadas, surdas e profundas, sobre o mar e o porto. Tão longe e, ao mesmo tempo, tão perto...»
(Albert Camus, in "A Morte Feliz", p.54, obra póstuma, a partir de manuscritos e notas que antecederam "O estrangeiro").


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

sábado, 15 de outubro de 2016

Até quando?

Em arrumações no meu escritório minúsculo, e que mais minúsculo se torna dada a minha dificuldade em mantê-lo arrumado e em deitar fora o que pode ir fora, dou conta de que, graças às novas tecnologias e, em especial, ao recurso à Internet, muitos objectos se tornaram obsoletos. Refiro-me, por exemplo, às gramáticas e aos dicionários - português-inglês, inglês-português, francês, espanhol, latim, sinónimos, provérbios...

Os meus olhos assustam-se ao vê-los, não vá eu precisar deles debruçados nas folhas de papel amarelecido e nas letras tão pequeninas que preenchem as páginas daqueles livros malditos. Sabem-se incapazes dessa aventura antiga; só de lupa e mesmo assim. Imploram-me, por favor, dicionários desses nem vê-los, por favor! 
E têm toda a razão, os meus olhos. 
Para quê estes cartapácios pesados e poeirentos, que ocupam espaço precioso, quando as respostas às nossas perguntas se encontram ao alcance de meia dúzia de cliques? Um Google Tradutor, que despacha num segundo, embora falível, um pequeno texto ou uma frase? 
Por brincadeira, ao escrever isto abro o Google e experimento. De inglês para sueco, já que o Bob Dylan ontem ganhou o Nobel da Literatura:
The answer my friend
Is blowing in the wind

E ele escreve a resposta quase simultaneamente, sem que eu faça o mínimo esforço:

svaret, min vän blåser i vinden, Svaret blåser i vinden

Não há competição possível.
Por isso sei que mais dia menos dia terei de me desfazer dos velhos dicionários. Aqueles que ainda levam a assinatura do meu pai, com o seu nome completo e a data, ou a minha, mais tarde, com letra de adolescente, ou ainda os comprados até 2002, pouco antes de o Google e a Wikipedia entrarem pelas nossas casas transformando-nos, aos poucos, em preguiçosos. 
Um dia. 
Para já, ficaram fechados no armário, a roubar espaço também precioso. Para as estantes, apenas a literatura. E essa, até quando a guardaremos nas nossas estantes?

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Nobel da literatura para....

Bob Dylan:
«Por ter criado novas formas de expressão poéticas no quadro da grande tradição da música americana»



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Afonso Cruz

Como Afonso Cruz é o vencedor do Prémio Fernando Namora, no valor de 15 mil euros, aqui fica uma entrevista dada quando o livro «Flores» saiu, para que fiquemos a conhecê-lo um pouco melhor.

Flores é uma tentativa de passar ao próximo nível? Chegar ao público só com palavras?
Inicialmente era para ter fotografias. Mas depois achei que não era muito pertinente e acabei por abandonar a ideia. E também porque às vezes me sinto aborrecido com as coisas que faço, quero mudar, quero fazer uma coisa diferente e, neste caso, quis experimentar sem bonecos [risos]. O livro conta a história de um homem que perde as suas memórias afetivas, aquelas que são mais caras. Tem um vizinho jornalista que decide recuperar essas memórias, entrevistando as pessoas que tiveram contacto com ele. E tenta reconstruir-lhe a memória de uma maneira artificial mas de modo a que ele tenha algum passado. São duas personagens um pouco antagónicas: a personagem que perdeu a memória, apesar de tudo, tem uma relação muito forte com a tragédia, com a injustiça social, com os grandes valores. Ao passo que o narrador, esta pessoa que irá recuperar a memória do outro, vive mais ou menos anestesiada na sua rotina e, apesar de ter a memória intacta fisicamente, a verdade é que há muitas coisas que funcionam como se não se lembrasse, como se não existissem, porque são invisíveis para ele. Não tem qualquer relação com elas. É um pouco o que nos acontece no Facebook dois ou três minutos depois de uma notícia aparecer. Vemos, vamos às nossas vidas, já acabou o tempo da indignação. Conservamos poucas memórias? Temos esta dessensibilização em relação às coisas que nos afetam diariamente e à injustiça diária. Vamos ganhando uma capa que vai tornando algumas pessoas invisíveis. Esse é um problema. Este constante trabalho da memória é essencial, voltar a recordar determinadas coisas é imprescindível. Não quer dizer que funcione. É também essa uma parte do papel do escritor: portador de memória? É um assunto polémico. Há muitos escritores para quem o único dever que têm é o da liberdade. Precisam de ser sinceros apenas com aquilo que são e, se sentem necessidade de ter um papel social nos seus livros, fazem-no. Estive num evento sui generis na Hungria, fechado ao público, só para escritores. Metade de nós seria provavelmente da Europa Ocidental e a outra metade da Central e de Leste. A maior parte dos da Europa Central e Ocidental defendia a liberdade criativa, o que talvez tenha a ver com a sua história: mais anos em liberdade, em regimes mais livres. Os de Leste, pelo contrário, sentiam uma motivação social mais forte, confessavam-se obrigados, de certa maneira, a ter um papel interventivo na sociedade enquanto escritores. Porque, enquanto cidadãos, toda a gente concorda que devem ter o seu papel. Pessoalmente, acho que as duas coisas são corretas. Um escritor deve ser honesto. No entanto, também acho que um escritor não é só um cidadão como os outros. Não é que seja melhor ou pior, mas tem mais responsabilidade do que a maior parte dos outros cidadãos. Tem uma arma, uma ferramenta que o faz chegar a mais pessoas. Muito mais alcance. E tem de tomar consciência disso. Pode não usar, mas é uma pena que tenha essa arma e não a use. É um faz-tudo: escritor, ilustrador, músico, cineasta. Isto é uma tentativa de chegar a toda a gente, seja de que maneira for? Não, não é uma tentativa porque nunca planeei a maior parte das coisas que fiz ou que faço. Quando era criança queria fazer banda desenhada e eu nunca fiz banda desenhada na vida. Ainda. Não quer dizer que não venha a fazer, tenho muita vontade de um dia experimentar. Mas nunca pensei em fazer nada destas coisas, não era uma ambição de criança. Surgiram de uma maneira mais ou menos circunstancial: gostava muito de música e quis aprender a tocar um instrumento apesar de nunca ter sido incentivado a fazê-lo. Pelo contrário… Sempre me disseram que era duro de ouvido, que não tinha jeito. Mas insisti, comprei uma guitarra, estraguei muitos discos a tentar imitar os guitarristas de quem gostava. Fui aprendendo. Mais tarde, comecei a trabalhar em animação porque quis comprar uma mota. Os meus pais não me davam dinheiro, eu decidi procurar um emprego e foi o primeiro que apareceu. Depois comecei a gostar muito de animação, dediquei-me imenso e acabei por esquecer a mota. Acabou por se tornar uma carreira que nunca tinha pensado para mim. Tenho e sempre tive uma grande curiosidade – que tem a ver também com independência: se eu gosto muito de uma coisa, quero saber como se faz. Se eu quero compreender o Homem, quero saber como ele é por dentro, sem os acessórios todos. Eu gosto de beber cerveja, quero saber como se faz. Gosto de pão, quero aprender a fazer. Tenho essa vontade de desmontar e ver as entranhas para saber como funciona. “Voltar a recordar determinadas coisas é imprescindível.” Começou a escrever por gostar de ler. Nesse caso há acaso?
Estava numa agência de publicidade, tinham-me convidado para redator e, pela primeira vez, estava a trabalhar com palavras e não com imagens: era uma novidade para mim. No tempo livre, porque tinha algum, comecei a escrever para um blogue privado onde só chateava os amigos. Percebi que tinha uma quantidade razoável de textos que talvez pudessem dar um livro. Tinha reunido esses textos sob um conceito, uma Enciclopédia da Estória Universal fictícia. Na altura, enviei para a Bertrand e tive a sorte de a editora, a Lúcia, ter gostado muito dos textos e os ter querido publicar. Se calhar, se ela não quisesse, eu não seria escritor. Nessa altura procurou escrever mais histórias e passou a pensar em projetos mais estruturados?
A partir daí senti que era capaz e que gostava muito de escrever. A escrita passou a fazer parte da minha vida. Então não estranhou ver o seu nome em capas de livros e em montras de livrarias.
Foi estranho o suficiente. Lembro-me de estar muito nervoso quando o meu primeiro livro foi publicado. Nessa altura vivia no Magoito, junto à praia, numa casa provisória, e senti necessidade de caminhar, de gastar aquela adrenalina. Era um acontecimento, uma coisa estranhíssima na minha vida. Alguma vez tinha pensado que podia ser escritor? Nunca pensei em ser escritor. Mas creio que o grande combustível, a grande matéria-prima para depois escrever, foi gostar muito de ler, ter lido bastante durante toda a minha vida e ter tido um contacto frequente com os livros. Leio diariamente desde que me lembro de ser gente. E hoje sinto-me quase incapaz de escrever se não ler. Ler faz parte da rotina de escrita? Normalmente, antes de começar a escrever, passo umas horas a ler. Depois paro e, mais à noite, quando os meus filhos estão a dormir e tenho mais silêncio, posso concentrar-me totalmente no que estou a fazer, e então escrevo. Mas essa nutrição diária de leitura é para mim essencial para depois conseguir escrever. E até ter ideias. Se bem que as ideias hoje surgem em qualquer circunstância. Mas também quando estamos a ler. Mudou-se para o Alentejo há quatro anos. Foi à procura de novas ideias? A certa altura, ou se calhar desde sempre, imaginava que seria feliz vivendo no campo. Quando tive oportunidade de trabalhar fora de Lisboa, decidi comprar um monte alentejano que também me permitiria reduzir em muito o meu orçamento. A verdade é que, inicialmente, eu nem sequer estava a pensar no Alentejo: pensei em estar fora de Lisboa. O Alentejo tem essa coisa de ser tudo mais harmonioso, mais uniforme. É muito reconhecível. Eu percebi que o interior era muito mais barato que o litoral e acabei por comprar especificamente ali por isso. Portanto, estou a hora e meia de Lisboa. “Sinto-me quase incapaz de escrever se não ler” Escrever implica esse recolhimento, essa distância? Não creio que haja esse quesito, eu gosto de algum silêncio mas isso é possível em qualquer lugar. Agora, como viajo muito, estou muito habituado a escrever em aviões. Não creio que seja uma necessidade. Por vezes chega a ser contraproducente quando pensamos assim, porque tantas vezes na nossa vida não fazemos as coisas porque estamos à espera das circunstâncias ideais para o fazer. Não preciso de ter vacas a passarem à minha janela para escrever um livro. E também não me inspira mais nem menos, nem faz de ninguém génio, ver ou viver com galinhas. Viver longe da cidade não é propriamente uma mais-valia. Só no sentido de que me sinto feliz no campo. E se estivermos num lugar onde nos sentimos bem, talvez consigamos ser mais produtivos. O que eu acho essencial para as pessoas escreverem é escreverem. Parece uma coisa óbvia mas não é assim tanto, porque muitas vezes vamos adiando, à espera desse momento perfeito que nunca teremos. O tempo para escrever exige uma disciplina? Tem alguma rotina? Algumas, mas quebro-as com muita frequência. Normalmente dedico as manhãs a fazer telefonemas e a responder a e-mails – aquilo a que chamo secretariado. À tarde leio e à noite escrevo, porque consigo ter um maior isolamento. Até muito tarde? Depende de como me sinto, de como as coisas estão a fluir, por um lado. Por outro, depende dos prazos: se por acaso tiver de escrever, tenho mesmo de ficar até muito tarde para entregar. Pode ser até às duas, três, quatro da manhã. E isso compromete a sua manhã de secretariado? Não, porque acordo cedo, quando os meus filhos acordam. Depois, à tarde, se for possível, durmo uma sesta para repor parte do sono. Se puder dormir uma power nap de pelo menos meia hora, sabe-me bem. Escreve à mão ou ao computador? Ao computador. Inicialmente tinha sempre um bloco comigo onde anotava quase tudo, a caneta. Aos poucos fui-me habituando a um iPod, escrevi o primeiro esboço de Jesus Cristo Bebia Cerveja todo nesse iPod. Este último romance escrevi-o no iPad. Passo muito tempo a viajar e dá-me muito mais jeito porque, quando escrevo as notas no telefone, ficam acessíveis logo no computador e consigo organizá-las muito mais facilmente. Ajuda-me a estruturar o romance. Lê o que escreve no mesmo dia ou só no dia seguinte? Leio sempre o que escrevo, releio, releio e releio. É um trabalho exaustivo e diário. E até quando tenho de interromper um livro para fazer uma crónica, uma ilustração, o que for, de repente saio de dentro desse livro e demoro tempo a voltar, já não tenho as coisas tão frescas na memória. Quando regresso tenho de ler, reler e voltar a entrar na história, imbuir-me das personagens, voltar a ensopar-me nas suas ideias. Qual seria o auge da sua carreira enquanto escritor? Espero nunca chegar lá. Acho que a nossa vida deve ser tomada como um desafio, tentamos fazer melhor e ser mais competentes, mais capazes. A necessidade de escrever implica uma superação. Não tenho essa ideia profissional de começar a escrever às oito e acabar às cinco e só estou a escrever para viver. Não é isso. Escrevo por paixão e há sempre essa superação evidente nas coisas que quero fazer. Não quer dizer que faça sempre melhor, isso cabe aos críticos decidirem. Mas que tento, tento. E é isso que me motiva a fazer.
(Entrevista de Mariana de Araújo Barbosa a Afonso Cruz, revista Estante, 27 Outubro 2015)



sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Cristina Carvalho

O carteiro veio entregar-nos hoje dois exemplares do novo livro de Cristina Carvalho, cujas fotografias são do Nanã.
Prós: a edição é um mimo, um pequeno livro que decerto irá parar ao PNL, pois tem todos os ingredientes para se recomendar aos jovens leitores, que devem conhecer o que a Tapada de Mafra tem para oferecer.
Contra: conhecendo eu as fotografias originais (por razões óbvias, já que o Nanã Sousa Dias é o meu marido), é lamentável que algumas delas tenham perdido grande parte da qualidade, ficando demasiado escuras, comprometendo a definição e os pormenores presentes na versão original, em especial a da autora, no fim (demasiado escura) e a da lua cheia, que tinha um céu de estrelas maravilhoso, e em cuja impressão se vê apenas a lua...em fundo negro.
Além das fotografias tiradas pelo Nanã e as bonitas ilustrações de Teodora Boneva, em desenho científico, traz no fim, depois dos Agradecimentos, sete páginas preparadas para desenho e notas, no âmbito de uma visita à Tapada. Muitos parabéns à Cristina e à Sextante por este livro.
Conheça a obra aqui

sábado, 17 de setembro de 2016

Felicidade

Em 2005 perguntei a uma grande amiga qual seria considerado o melhor livro de auto-ajuda: queria oferecê-lo a uma pessoa especial que estava muito em baixo na altura. Comprei-o, li-o num instante (é pequenino, um pequeno mimo) e regressei à livraria para comprar mais uns quantos exemplares, que ofereci (custava apenas 5 euros, a minha felicidade começou logo ali).
Aqui está ele: "Heitor ou a procura da felicidade", de François Lelord (2002), ele próprio psiquiatra, tal como o seu protagonista.
Wook.pt - A Viagem de Heitor ou a Procura da Felicidade
No site da Wook
Não posso deixar de pensar que o livro saído em 2006 de Elisabeth Gilbert, "Comer, Orar, Amar" foi, sem dúvida, inspirado neste; quanto mais não seja a decisão da autora de partir em viagem em busca do seu próprio equilíbrio, já que é também bastante autobiográfico. No entanto, este é muito menos conhecido e é o genuíno. A edição está esgotada, infelizmente. Entretanto a Lua de Papel (Grupo Leya) reeditou-o em 2011...e custa agora 13.50.
Esta noite vi na box (Cinemundo, passou na 4ª feira) a adaptação ao cinema. Vale a pena ver. Um filme  divertido, que nos inspira ternura e...nos inspira.
Aqui fica o trailer


domingo, 11 de setembro de 2016

Qualidade devida



Já lá vão 15 anos sobre um dia muito triste da história mundial e eu aqui, num dos recantos mais pacíficos do planeta, a viver um dia bom, com paz de sobra, que de bom grado cederia a quem precisa, uma fatia ou duas e ainda sobrava. 
A companhia dos cães, dos pássaros, das árvores, num dia que amanheceu cinzento e que abriu, a revelar-nos o azul que é seu, até anoitecer. 


Atravessei o pequeno pinhal até à casa dos vizinhos, que me ajudaram a concluir o presente para os 90 anos de idade da minha avó, segunda mulher do meu avô; depois de muito riso, muitos carinhos em dois dos quatro cães que estão sempre junto de nós, descemos ao pomar, à caça de figos maduros. 

Regresso com um envelope A4 e uma cesta de figos, além de um par de maçãs e de frascos com doce caseiro. 


Resultado de imagem para compota de morango frasco

Telefono ao meu filho, só para saber, e sei que está bem. No final desta tarde perfeita sento-me sob a pérgula, entregue à leitura de algumas páginas de um livro de contos de Selma Lagerlöf: a lua já se recorta no manto celeste, um copo de vinho branco e a companhia dos meus próprios cães. 



Jantei uma coisa qualquer, que é o que as mulheres normalmente fazem na ausência dos homens, e sinto a gratidão de viver dias assim. A paz,  a amizade e a qualidade de vida, bens essenciais que não deveriam ser um privilégio de alguns mas algo ao alcance de todos. Precisamos de paz em cada canto.
Dedico este pequeno texto aos meus queridos amigos e vizinhos Bé e Zé Manel.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Surpresa

("De Surprise", no original, 2015). A ver. Um argumento multilingue, com actores que nos são desconhecidos (para variar, vá), excelente fotografia e banda sonora, boa história, boa energia, divertido, apesar de andar em torno do...suicídio! Pois é. A passar no canal Cine Mundo.
Curiosidade: os produtores e o realizador procuravam uma actriz mais nova e ainda bem que escolheram Georgina Verbaan, um dos elementos mais encantadores do filme.
Para mais info, clique aqui

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Disconnect

Ontem ao serão vi "Desligados" ("Disconnect", 2012). Um drama que relata os efeitos das redes sociais e a forma como afectam a nossa vida. Ou podem afectar. Pouco ou nada tem de trivial, do que seria espectável, num tema como este. Muito bom, recomendo.
Para mais informação, vá aqui

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Luz de Setembro

Cá estou, a 24h de entregar mais um livro com revisão de texto da minha lavra, e que tantas horas me tem roubado. O verão passou ao largo, mal chegará para um abraço. Resta estender as mãos ao Outono que aí vem, uma estação cheia de encantos, se nos deixarmos seduzir.

O que irá trazer-nos este mês de Setembro, na liquidez da sua luz dourada?

© Nanã Sousa Dias

terça-feira, 23 de agosto de 2016

De férias

Este blogue foi de férias e regressa no dia 5 de Setembro. Até lá, fiquem bem e votos de coisas boas.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Vida silvestre

Estendo a roupa sob o canto dos pássaros, roupa lavada cujo amaciador me transporta para um campo de girassóis ou de uma qualquer flor silvestre, com cheiro a liberdade.
Trabalho no pequeno escritório com vista para o vale, tudo verde, azul e branco à minha esquerda, o resto são livros; de frente o serra da estrela deitado, sob a janela de rede que emoldura o pinhal, a poente.
E é daí que chegam os meus vizinhos, do pinhal, da Casa do Segredo para a Casa da Lua, a entregar-nos morangos tardios para a estação, acabados de colher.
Faço uma máquina de loiça, engano um almoço, também ele tardio, com um copo de leite e bolachas, antes de subir de novo ao escritório. Os cães sempre colados às minhas pernas, como sombras arfando.
Faço nova pausa no trabalho de revisão literária, um livro que fala dos astros, das conjugações do universo celeste, a fazer fé na fé do leitor que usa a astrologia como bússola, para que a sua vida não seja perdida em deserto.

Desço as escadinhas de madeira e faço um café na chávena de barro e pequena flor, gravada com o nome "Casa da Lua".

O sol deita-se na perfeição da tarde, enquanto eu regresso ao texto por rever. Os cães dormem. O meu frigorífico cheira a morangos e a roupa, ao vento, liberta o cheiro das flores silvestres e este vai, numa serpentina perfumada, ter com a planície e os pássaros, que durante todos os meus gestos nunca deixaram de cantar.
Tudo é entardecer, mas nada é demasiado tarde, por mais tardios que sejam os meus dias.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Escritor-fantasma

E se alguém lhe disser que Alexandre Dumas (pai) não foi o único autor das obras «A Rainha Margot», «Os Três Mosqueteiros» ou »O Conde de Monte Cristo»?
E se alguém lhe disser que Alexandre Dumas (pai) não foi o único autor de obras como "A Rainha Margot", "Os Três Mosqueteiros" ou "O Conde de Monte Cristo"?
Existiu um homem por detrás de uma grande parte do legado literário deste autor célebre: um homem apagado (ao contrário do caráter forte e cativante de Alexandre) que ajudou Dumas no enredo, no esboço de diálogos e na construção de personagens. Esse homem chamava-se Auguste Maquet. A pedido da editora de Dumas, Auguste abdicou do seu nome nas peças de teatro e romances nos quais colaborou, em troca de somas avultadas de dinheiro. A verdade soube-se após a leitura do testamento de Auguste, que aí revelou o seu segredo. O filme O Outro Dumas (2010), protagonizado por Gerard Depardieu (Dumas) e Benoît Poelvoorde (Maquet) conta parte da vida do assistente/escritor e da sua relação com Alexandre Dumas, que durou 18 anos.
Para saber mais acerca de
Auguste Maquet, clique no nome.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Entre uma coisa e outra

Entre uma revisão de mais de quatrocentas páginas, a entregar no fim do mês, e um livro meu que se recusa a chegar ao fim, entre o desejo de passar estes dias de verão matando saudades da família e dos amigos, os convites para jantar e a urgência de ir lá fora ter com o sol, entre a mera preguiça e o justo cansaço, tenho deixado ao abandono este blogue. Em segundo lugar do Top 5 continua a borboleta do Cristiano, o que me faz sorrir. Em primeiro o poema da Ericeira, a fazer sentido.
E hoje, batota pura, escrevo esta linhas para dizer que escrevi alguma coisa, só para lançar uma pedrinha nas águas paradas deste lago negro.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Ericeira

© Zenoviy Klymco "Ericeira à noite II"
Nevoeiro

A Ericeira sob o nevoeiro. 
Paisagem tornando-se leitosa, 
Esfumando a linha do horizonte; 
A terra unindo-se ao céu, 
Envolta num lençol translúcido
Onde as formas se perdem, 
Ganhando ares de mistério. 

Hoje filmei as pás das enormes ventoinhas 
De energia eólica, sumindo na neblina. 
Apenas o longo tronco daqueles moinhos se erguia 
Rumo ao céu.
As pás girando, invisíveis, 
Surgindo apenas no instante 
Em que pareciam tocar o chão, 
Para logo tornarem a sumir no leito celeste.

Admiro o nevoeiro.
Vou escutando a sirene dos navios, 
E vendo a dança do farol, 
Cuja luz corta o manto níveo; 
Sentinelas, os longos triângulos de vapor 
Formados pelos faróis dos automóveis. 

Nevoeiro lambendo o arvoredo. 
Verde multidão a transportar-nos 
Para o romantismo de Sintra 
Ou uma história de Dickens.

Algo existe de belo na aura de mistério 
Que a neblina traz, 
Transformando as árvores em espectros 
E fazendo-nos acreditar: nada é o que parece,
Nada se encontra à distância que os olhos vêem. 
E o que vêem, realmente, os nossos olhos, 
Senão a mais pura Incerteza?

(adaptação do poema publicado em Fora do Mundo, Poética Edições, 2014, p.76)

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A borboleta

Durante o dia, na cidade parisiense, as horas eram de calor. Trinta graus centígrados. O rio Sena enchia-se de insectos alados, lagartas metamorfoseando-se em festa, num presságio da alegria vestida a três cores - não da parte dos futuros derrotados, com as da bandeira francesa, mas vinda dos outros, muito outros, com o verde-esperança e o vermelho-cravo, cor da paixão, da liberdade, da Igualdade e da verdadeira fraternidade.
Uma borboleta desembaraçou-se do seu casulo, despediu-se dos amigos alados e disse que ia ao estádio ver o jogo.
- Eu também vou! Eu também vou! - disseram outras borboletas já a noite caía, depois de as ondas de calor fazerem estalar os casulos, na cidade que efervescia, na perpectiva da vitória, tão perto, já tão perto, a bater as asas, flap-flap-flap.
E eis que, poucos minutos após o início da batalha, o cristo na terra, herói de tantos, é apanhado à traição por dois soldados francos, que anularam todas as hipóteses de o bravo capitão continuar. Os portugueses ficaram de coração destroçado, mas não mais do que o próprio Cristiano, inconsolável, chorando, sentado no relvado, sem glória. Foi nesse momento, cheirando o sal que escorria pelo rosto bronzeado do bravo jogador, que a borboleta pousou - não, não era uma traça, era uma gorda borboleta nocturna, soube o narrador de fonte segura, por parte dos defensores da ciência e das bizarrias do mundo natural - e como todos sabem que as borboletas trazem milagres, foi para todos evidente: aquele pequeno ser vivo era o Éder, digo, o éter da vitória, Eusébio reencarnando:
- Não desesperes, meu amigo, está escrito que, aos 109 minutos da partida, os franceses terão de engolir cada palavra de escárnio (esta é da autoria da borboleta, que o Eusébio não conhecia palavras finas, só sabia jogar à bola) - pede uma meia elástica, faz mais uma tentativa, que fica sempre bem a um herói, mas depois vai para ali e concentra-te no teu papel de capitão, qual realizador dirigindo os seus actores. Já não precisas de provar seja a quem for o que vales.
E o capitão foi.
E aos 109 o milagre aconteceu: não o golo, que esse foi justo e merecido e estava escrito nas estrelas, mas o de um herói improvável, a mostrar ao mundo que as vitórias são colónias de organismos vivos, unidos, múltiplos, imprevisíveis.
Consta que, após a sua morte, a borboleta será canonizada e sepultada no Panteão Nacional.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Uma janela para o mar

Paralisada junto ao abismo, como borboleta de vestido transparente na iminência da morte, incapaz de resistir à luz. Assim estava Luísa, na madrugada de cinzas, uma réstia de sol a iluminar-lhe o cabelo, o ombro e o braço esquerdo, a pedir:
- Não o faças, não vás ainda, olha para trás, vira-te, para tudo há retorno, menos para a morte.
Mas Luísa tem os olhos presos na ondulação do mar que chama por ela, não conhece o caminho de regresso. 
Os vidros da enorme janela viram coisas que não deveriam ter visto, partilharam com ela o reflexo dos seus olhos de vidro e para sempre a fizeram infeliz. Para sempre. Se ela não se virar. O homem ali está. O Arrependimento nos olhos. O arrependimento mais verdadeiro que um olhar sincero pode reflectir.
Ela sente o corpo a oscilar, antes da queda. E na oscilação do seu tronco revê a superfície de fogo soprado, nascida da areia, talvez a mesma areia no fundo daquelas águas prestes a devorá-la. E quando é capaz, enfim, de ver o reflexo do homem que ama, Luísa vira costas ao mar e enfrenta aquele que lhe cravou uma espada no coração. Nada dizem. O silêncio fala por ambos. Ela sabe, sabe do seu arrependimento e das razões reunidas pelo universo, todas as razões do mundo para lhe darem perdão.
Por fim, Luísa fecha a janela. Nunca pensou que tornaria a ser capaz de fechar aquela janela, a deixá-la entreaberta para o mundo. O sol a dizer-lhe, Não vás ainda. Aquele mar de cobre sob o céu de cinza torna então à sua beleza triste, porém sem morte. Ainda resta lugar para o amor e o perdão.
Nada mais se escuta do que o rebentar das ondas e o murmúrio de um beijo.


© Vera de Vilhena, inédito

domingo, 3 de julho de 2016

A dança das criaturas


Se eram bruxas ou duendes,

Ou meninos inocentes,

Ninguém sabe, ninguém vê!
Só se assusta quem não crê.
E por vê-los, saltitantes,
Sob a luz de mil fogueiras;
Nas mãos dentes-de-leão
E nos dentes, maldição…
A poalha e a penumbra
Deixam tudo desfocado
Será bênção ou pecado 
Esta dança em escuridão?
Tecem teias sob o vento
As aranhas, suas manhas
Escondem as palavras mudas
De tão estranhas criaturas.
Será veste, será lua
Esta luz que em tudo é fogo?
Ou então será um jogo 
Antes de adormecer?
Escondam as vossas crianças
Em lençóis de algodão
Guardem sonhos na almofada
Pois as fadas lá se foram
E já não há salvação!

© Vera de Vilhena, inédito

sábado, 2 de julho de 2016

O jardim de inverno

Naquela manhã estranhamente fria para a estação, Luísa foi conhecer, enfim, a casa abandonada onde nascera e vivera a sua trisavó Anna. Dizia-se que o fim da sua vida naquela casa fora infeliz, encerrada, ano após ano, vítima do ciúme do segundo marido, um homem que a tratara com todo o carinho até ao dia do casamento, para logo revelar a sua natureza brutal. Anna era vista tocando harpa junto à janela, os longos cabelos soltos, camisa de noite com pequenos folhos e laços, os olhos reflectindo uma tristeza que não parecia deste mundo. A filha que teve do primeiro marido morto, que tanto a amara, fora levada à sua revelia para uma casa de família, adoptada como se não possuísse outro passado: aos olhos do padrasto, era sujo, o sangue correndo nas veias da inocente, fruto de um amor odioso, que ele não pretendia ver recordado, a cada dia.
Quando saíam ambos, para os salões, em vão os poucos amigos tentavam fazê-la regressar, reaquecer-lhe o sangue, provocar em Anna um sorriso, mas a jovem mulher jamais se recompôs do erro daquela união com o Diabo.
Luísa tranca a porta do automóvel, embora esteja absolutamente só, como se temesse a invasão de alguns espíritos que sobrevoam o lugar amaldiçoado. Nas mãos traz a grande chave que trancava a sua trisavó no jardim de inverno, no cimo do rochedo onde fora plantado o palácio: corria pela aldeia que o desaparecimento súbito do marido ciumento não se devera a abandono. Nunca mais fora visto nem o seu corpo encontrado. Mas também ninguém se importara. Anna morrera num hospício, na cidade mais próxima, junto do oceano de ondas sempre em fúria. No último momento de vida, desencarnara gritando:
- Quero voltar! Quero voltar!
Mas ninguém sabia para onde queria ela voltar, para o seu palácio não poderia ser, onde a infelicidade era um corpete colado ao corpo, a asfixiá-la, e até porque há muito Anna nada dizia que fizesse sentido e ali se foi, na cama suja de um hospício, o crucifixo junto à cabeceira, o padre saindo com ar transtornado, como se tivesse sido o receptáculo da mais terrível das confissões.
Não se vende, o palácio, por mais que baixem o preço. Talvez sejam os uivos e gemidos de Anna a desencorajar os compradores, dizem, escarnecendo, os que negam a teimosia dos fantasmas.
A mulher sente uma estranha paz, ao abrir a porta do jardim de inverno, cujas paredes de vidro despedaçado deixam ver as copas das árvores e o mar furioso, a perder de vista. Ao canto, a velha harpa, que ali ficou em silêncio. Voam pássaros, a resgatar memórias da mulher prisioneira.
Luísa aproxima-se do vidro circular, pintado com pavões de cores suaves e sente. Sente e é capaz de ver: alguém ali respira e não é ela, que traz a respiração em suspenso. O vidro a ficar embaciado provoca-lhe um arrepio. Enfim, Luísa reconhece a imagem dos velhos retratos a tomar forma: é o rosto de Anna reflectido na vidraça, a sorrir-lhe, feliz, como quem reconhece, no rosto de Luísa, a própria filha. De repente tudo se aquieta, os ramos das árvores, o voo e o canto dos pássaros, do riacho ali perto, coberto de pedras e musgos; tudo é silenciado, a fim de receber o eco esquecido regressando, em surdina, até formar uma sequência inconfundível de sons, tantas vezes escutados pelas árvores centenárias…
É então que a harpa recomeça a tocar uma peça, há muito interrompida, de Gabriel Fauré: Une Chatelaine en sa Tour.
Anna bem gritara que queria voltar.
© Vera de Vilhena, inédito

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Diálogo entre dois unicórnios-bebés

- Mano, vieram dizer-me que não existimos.
- Como assim, não existimos?
- Que foi este lápis que nos pintou e que somos um animal mitológico.
- O que é isso, mitológico?
- É quando parece que é verdade, mas afinal é invenção.
- Ah, como as histórias.
- Eh...não, as histórias existem mesmo, estão escritas, as pessoas lêem-nas, falam e escrevem sobre elas.
- Então, mais me ajudas, também estamos aqui ou não estamos? Não estás a falar? Não te estou a ouvir? Não estão pessoas a ler sobre nós, a ver-nos, a desenhar-nos, com este 12/0 Silver Ultra Mini Angula não-sei-quê?
Sim, lá isso...
- Então é porque existimos tanto como as histórias.
- Pois é. Então não somos aquela palavra, mitológicos?
- Isso não sei, só sei é que me está a dar a fome. Vamos comer?
- Vamos! Ainda bem que desenharam ervas e flores.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Mãos vazias

Nas mãos o mesmo ramo que levava no dia do casamento. O marido ao seu lado, bonito, de fato cinza-claro, os olhos de ambos inundados, a reflectir o pasmo de ser possível sentir tamanha felicidade, que mal cabia no peito. O indicador da mão direita a esconder o velho anel de ouro - Manuel 27-5-1922 - prefere que o senhor atrás da máquina não lhe apanhe a aliança, o metal precioso a captar as atenções, a deixar para segundo plano o seu vestido de flores minúsculas, as veias salientes, a quererem sair de si, levar-lhe o sangue para longe; os sulcos do tempo esculpidos nos dedos sem carne e as manchas, que são tantas, e mal deixam ver a cor verdadeira daquela que foi a sua pele, nos dias vividos antes do vestido branco e daquele ramo silvestre, da cor do céu mais limpo. Eram dias em que Manuel lhe dava rosas vermelhas, e as suas mãos tinham carne e cheiro e humidade, não eram um deserto.
As pessoas aguardam em silêncio. Não pretendem apressá-la. Afinal, o tempo da morte é um poço sem fundo. Os olhos dela inundados, a reflectir o pasmo de ser possível sentir tamanha tristeza, que mal cabe no peito. Os dele fechados para sempre, sem pasmo, na aceitação de um destino. Por fim, a viúva pousa o pequeno ramo de flores azuis sobre o peito do marido, deitado à sua frente. As mãos dele também cruzadas. No anelar a aliança - Luísa e a mesma data. A mulher não a quis, era dele, sempre fora dele.
Só depois é fechado o caixão.
Luísa chora, enfim. Nunca gostou de chorar diante do marido nem de ninguém. Só que nesse momento não existe ali ninguém. Nada mais do que ela e as suas mãos sem flores.

© Vera de Vilhena, inédito

terça-feira, 21 de junho de 2016

Culpa

Varanda a nascente, comum à cozinha e à sala
Já não está assim, a casa, como na fotografia, tirada há cinco anos. Anda descuidada, votada ao abandono, gretada, envelhecida. Ainda lhe arranco um sorriso, quando o sol bate na parede de pedra tosca da sala, derramando a luz do anoitecer; quando me devolve objectos há muito desaparecidos, ou me recorda que muitas paredes se encontram ainda vazias, à espera de dono. É urgente cuidar daquilo que amamos. Ando cheia de culpa, por causa desta amizade incondicional, que não mereço.
Perdoa-me, Casa da Lua, em breve cuidarei de ti.

Pormenor da cozinha: fotografia da minha avó Mimi, Anos 20, jarros de vinho José Franco,
licores do Algarve, livros de Joanne Harris, almofariz de bronze.