quinta-feira, 23 de abril de 2015

A arte do livro

E porque hoje é o Dia Mundial do Livro, aqui vai uma viagem ao fundo do tempo, em homenagem à arte tradicional de fazer cada livro com amor.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Cabeça-de-vento

Crónica: Raquel Serejo Martins
Pintura: "Cabeça de vento" de Ana Cristina Dias 
Detalhe

«A primeira vez que lhe chamaram cabeça de vento estava na escola primária.
Talvez mesmo na primeira classe.
Os meninos de bata amarela.
Canários em linha, como molas de roupa sem roupa não numa corda mas dentro de uma gaiola.
Guarda uma memória amarela.
Os meninos sentados, plantados nas carteiras, um campo de girassóis de olhos encandeados por um sol negro de ardósia, duas dúzias de olhos cegos de espanto por perceber que os estranhos desenhos eram palavras e que as palavras eram feitas de letras, uma matrioska, parecia marosca.
P-a-t-o.
G-a-t-o.
Parecia estranho, era estranho, porque para ela, um gato, sete vidas, quatro patas, um rabo, muitos bigodes e dois olhos amarelos como os berlindes que guardava no bolso.
Olhava para o enorme quadro negro e gato nenhum, nem escondido, denunciado por um rabo de fora.
Ouvia a explicação na voz de locutor de rádio sem música do professor e perdia-se, fugia, para lá das enormes janelas, tão grandes que a deixavam ver a cidade inteira.
Mentira, sabe que é feio mentir, se a cidade uma laranja, uma tangerina porque a cidade pequena, via apenas meia tangerina, o que já é muito ver para uma janela.
E de olhos na janela, para lá do vidro, perdia-se à procura do gato, procurava ao sol à soleira das portas, à porta da peixaria, camuflado entre os cortinados de uma janela, entre dois vasos com sardinheiras, a atravessar a estrada dentro ou fora da passadeira, pelas árvores, pelos muros, pelos telhados.
Chamavam-lhe cabeça-de-vento e diziam que fazia muitas avarias.
Ou tinha muitas ideias e nem todas corriam bem.
Convém ser boa a correr.
Não era o seu caso. Corria, tropeçava, caía, como se uma sequência com lógica.
Os joelhos pele de crocodilo, crosta sobre a crosta da primeira ferida.
E a correr, entre a lebre a tartaruga, ela um peixe.
Dentro de água ninguém a apanha, ninguém lhe ganha.
Ia ao fundo como se fosse à lua.
Para mais na cidade um rio, nos seus Verões um rio.
Quando ia ao fundo deixava todos de olhos pendentes e respiração suspensa, como a sua debaixo de água, até ao seu regresso, hesitantes quanto a mergulhar também, no limite do susto, até que emergia ofegante, sorridente, e sempre com uma pedra na mão, prova oval e concreta da sua audácia.
Tinha no quarto um frasco de vidro onde em vez de bolachas ou biscoitos guardava pedras do fundo do rio. A avó sabia que tantas as pedras como as vezes que ficou com o coração nas mãos por saber como o rio é matreiro com os invasores.
Porém ela um peixe.
E apesar das pedras, a avó nunca a chamou cabeça-de-vento, talvez soubesse que ela um peixe, inconsciência, audácia, guelras e barbatanas.
De olhos tristes com um sorriso perdoava-lhe todas as asneiras.
Mesmo quando os berlindes lhe fugiram do bolso, como se tivessem pezinhos.
Fugiram, avó! – Um eufemismo.
Fugiram-me do bolso e sem querer fizeram cair o professor no corredor da escola.
Mau humor fracturado em dois sítios, fato de fazenda de três peças e braço esquerdo engessado ao peito, passou a ser conhecido entre os girassóis como o pau-de-giz.
Tem tempo para a tristeza a menina. – Ouvia-se a avó dizer como se de uma ordem se tratasse, ao tempo, à tristeza e a todos os que queriam corrigir a menina.
Pelo que em casa da avó um mundo diferente, o tempo sem sobressaltos e o seu cocuruto em sossego.
Um mundo pequeno. A avó não tinha muito. Uma casa. Um gato. Uma figueira e na figueira quando figos pássaros.
A avó não tinha muito mas tinha muitas histórias para contar.
Conta outra vez a da menina que tinha um tapete voador.
E a avó contava, a mesma história, sempre de forma diferente, como se não atinasse com a história, pelo que sempre uma surpresa, um espanto.
Era uma vez um tapete que de tanto voar, voou mais do que avião, tanto como foguetão, chegou à lua, fez da menina astronauta.
A avó nunca andou de avião.
A avó só conhece os aviões de os ver passar no céu lá longe, pequenos como pardais, lá longe, na lentidão dos caracóis deixando um rabo de fumo.
A avó nunca viu foguetões, nem mesmo na televisão, que serve para as notícias e não mais, sabe sem saber bem o que são, imagina-os como foguetes gigantes, velozes e barulhentos como os que lançam na festa de Nossa Senhora da Assunção, grandes como camionetas, capazes de levar gente dentro, capazes de aterrar na lua, pelo menos quando gorda e cheia, apesar de tudo somado lhe parecer fraca brincadeira, porque fraco passeio para piqueniques.
Porém a menina gosta de ir à lua.
Foi a primeira astronauta da turma.
Pelo que a avó, se o avô a dormir a sesta, ia ao bengaleiro buscar a boina e o chapéu de levar à missa ao Domingo, dois capacetes, enfiava a boina na cabeça da neta até às orelhas, que assim devidamente protegida, 10-8-7-4 começa de imediato a contagem decrescente, contava ao contrário sem ainda bem saber contar, estado de euforia uma única vez interrompido, não para abortar a missão lunar, nem impedir a humanidade de dar mais um salto, mas por se lembrar, em respeito pelo original, que lhes faltava uma bandeira, a avó sabia que era imprescindível levar uma bandeira.
Temos de fazer uma bandeira. – disse antes de descolar o foguetão.
Tenho uma velha almofada solteira, cortamos uma galho seco à figueira.
O que é uma bandeira? – Pergunta a menina ansiosa perante a nova palavra e a novidade.
Uma bandeira! Como te posso explicar, é como uma fotografia. Estás a ver a fotografia do avô que guardo na caixa de costura, tem o bigode do teu avô, os óculos do teu avô, o chapéu do teu avô, o sorriso do teu avô, os seus vinte anos, o bolo de chocolate de que tanto gostava, o dia em que me pediu em casamento, o dia em que nasceu a tua mãe, o dia em que tu nasceste, é um quadradinho de papel que tem dentro todas as histórias de um país e os sonhos também.
Então a minha bandeira tem de ter uma bicicleta! O pai disse que se eu me portasse bem me oferecia uma bicicleta no meu dia de anos.»
pintura em livro
(retirado integralmente do blogue Clube de Leitores)

sábado, 18 de abril de 2015

Abril na Lx Factory


Para fazer tempo (como se fosse possível), na loja em frente à entrada, namoro vestidos e túnicas que não posso comprar. Um chá earl grey ao fim da tarde, na Landeau, com a Rosarinho, amiga que há cerca de 25 anos tem uma fatia do meu coração. Não houve direito a bolo de chocolate. Uma espreitadela à escrita de Rui Miguel Fragas, que me disse muito, com o seu "O nome das árvores". Os pequenos livros da Poética empilhados sobre a mesa. O tablet, as fotografias da praxe, para pôr no facebook. Sou agora mais uma, sucumbi às selfies. Faz-me sentir que pertenço ao mundo dos vivos. Chegaram a Maria João e a Virgínia, editora da Poética e aniversariante. Mais selfies. A angústia de não ter preparado nada, como se fosse preciso. Ler Devagar. Chegam a Raquel e o Ricardo. Sou apresentada a José Pinho, o "pai" desta livraria de culto, a paixão pelos livros, por receber bem as pessoas nesta casa que se recusa a fechar as portas.
Sol posto, instala-se o frio. Sabe bem ir por dentro, até ao outro extremo, onde se encontra o restaurante malaio. Somos sete à mesa. Alguém nos apresenta o João Pestana, este, não o outro, que está bem longe de chegar. Ocupamos a mesa reservada para um grupo de teatro que só chegará depois do início da nossa tertúlia. Perfeito. Os seis pratos que partilhamos, acompanhados por vinho branco e tinto, são generosos em cores e sabores. Camarão, carne de porco e muitos vegetais e especiarias do Oriente. Chega o José Luís Outono. Falamos de viagens, de música, de comida, claro, ou não fôssemos portugueses. Partilhamos sobremesas, bebemos café, cantamos os parabéns à Virgínia em cante alentejano, com a melodia da "Internacional" e do "Grândola vila morena". Risos.
Subimos ao primeiro andar, onde alguns participantes já aguardam. A Virgínia faz as devidas apresentações, com a simpatia e o tom informal que lhe são próprios e, à pergunta da Raquel, feita em tom de brincadeira - onde estava no 25 de Abril? -, instala-se o mote: as idades variam, há diferentes gerações e distintas são as memórias. A tertúlia ganha um carácter de quase terapia de grupo: celebrando, exorcizando, em confissões, memórias, desabafos, alertas, o que foram aqueles dias de 1974, o que significou a revolução, o antes e o depois, a ditadura, a censura, o espanto, a liberdade, sempre a liberdade como pano de fundo deste encontro salpicado de versos de poetas presentes uns, ausentes outros. Leitura de versos e prosas em papel, em iphones e tablets, na coabitação promíscua em que as palavras se vão arrumando nos tempos modernos, versos que se resgatam em gadgets cujas baterias estão prestes a terminar. Mas sempre chegam, as palavras que falam de liberdade.
Obrigada, Virgínia, por este encontro. Gostei de poder abraçar, enfim, uma amiga até hoje virtual: a poetisa Graça Pires; de conhecer um pouco ao recheio dos livros da Poética e dos seus autores, tais como Eufrázio Filipe, Gisela Ramos Rosa, Lídia Borges, Maria Isabel Fidalgo, Manuel Veiga, Rui Miguel Fragas e, claro, Rosário Ferreira Alves, cuja escrita conheço desde os versos que ela já escrevia, quando andávamos juntas na faculdade.
Descemos à livraria. Por fim o espumante oferecido pelo José Pinho, uma saúde à Virgínia, uma espreitadela aos desenhos maravilhosos do João Pestana, no seu Moleskine, mais fotografias que saíram desfocadas e dois dedos de conversa com a Raquel, que há tanto eu queria conhecer melhor.
Alcântara, sexta-feira à noite: uma operação stop com direito a balão, sem consequências, felizmente. A celebração que nos corre nas veias não pode ser detida nem censurada. Continuamos com as nossas palavras e com a liberdade do movimento sobre rodas. Foi este o nosso Abril. Livre, apesar de tudo.
Raquel Serejo Martins lendo excertos do seu romance "Pretérito Perfeito"
Virgínia do Carmo, editora da Poética
 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

À espera

Gasto grande parte do dia a olhar o horizonte, aguardando uma trovoada que nunca chega. Só o roncar dos trovões ao longe, como pesados móveis arrastando-se, na preguiça da tarde morrna, na luz-camaleão que entorna no vale todos os tons de verde que é capaz de encontrar.
Na distância, a trovoada arregaçou as saias do vestido e partiu, pé ante pé, sem ter dançado comigo. No salão de baile apenas as ervas inundadas de ouro,  a melodia do vento. Do cimo das árvores, explode o aplauso mudo de mil pássaros, que assistem, dos seus camarotes, à partida da tempestade. Talvez a escuridão a traga de volta, para uma valsa nocturna, encerrada em cortinas negras. Mas só em sonhos poderei dançar.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Tim Burton


Big Eyes, o novo filme de Tim Burton, desta vez baseado numa história verídica, num mundo bem real, e protagonizado por uma actriz que muito admiro, da nova geração: Amy Adams. Além do fantástico Christoph Waltz. A pintora ainda é viva e Amy Adams encontrou-se com ela, para aperfeiçoar o seu papel.






sexta-feira, 10 de abril de 2015

Um pouco mais

Porque estamos a precisar, porque nos deixa um pouco mais felizes, porque isto está verdadeiro, bem feito, com alma. Não liguem à imagem, que é de outro tema, acabadinho de ser lançado. O video é outro, bem mais sentimental e ensolarado. :-)
Bom fim de semana, sim? :-)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Birdman

Muito bom filme. Recomendo. Excelente realização, argumento, casting. Tudo bom. Óscar de melhor filme? Merecidíssimo.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Da solidão

Da solidão, um ritual
da trovoada da tarde, a música da terra
suor de tambores, cordas vibrando,
harmonias de chuva,
bailados de sombras
no intervalo da luz.

Da solidão, o presente
paralisia do tempo, a face molhada
humidade leitosa, ruído, queixume,
parede escorrendo,
lamento do ramo
da haste, da flor.

Da solidão, a promessa
chegada à beira do nervo, da carne
da boca, da língua, da corda acordando
palavras morrendo
no abismo da folha
tão só, a procura
do poema
de estar só.

(© Vera de Vilhena, inédito)

sexta-feira, 27 de março de 2015

Cinco contos

Era assim, noutro tempo. Guardávamos estas e outras na carteira, numa época em que mal usávamos computadores, e em que tudo o que escrevíamos ficava impresso em papel. 
Em arrumações, no pequeno escritório no qual finjo trabalhar, na minha casa (e digo finjo porque o que vamos correndo por gosto não nos cansa), dei com cinco contos que julgava perdidos. Não destes, que já não fazem falta - já que estamos rotulados com a palavra Europa a ferro e fogo, doa o que doa -, mas dos outros, os contos que se escrevem e se lêem. 
Cinco contos que julgava perdidos irremediavelmente, desde o dia em que descobrimos, com a ajuda de um engenheiro informático amigo, que o meu velho computador, já reformado entretanto, apagava os ficheiros danificados, ao invés de os meter de quarentena. Eis que dou com as folhas dispersas, impressas com cinco contos que se escondiam entre resmas de papel de rascunho, cujo verso sempre aproveito. 
Cinco contos que ando a reescrever cerca de dez anos depois. Cinco contos que decidi não incluir, ao candidatar-me ao Prémio Revelação APE/Babel, na categoria de literatura para a infância e juventude, e que redescubro agora, uns para uma hipotética sequela do Coisandês (que, para minha felicidade, ganhou o prémio), outros para adultos. Devemos escrever sem pensar nos leitores, dizem. Alguns foram escritos assim, e por isso transgridem, não são adequados a crianças. Ou estarei a menosprezar a sua maturidade? É difícil saber. Pelo sim pelo não, deixei ficar as transgressões e troquei em miúdos estes cinco contos: uns em moedas, outros em notas; uns para jovens, outros para adultos.
Apesar disso, não deixam de ser, no todo, cinco contos. E ainda bem que temos papel. 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Tomas Tranströmer

Estocolmo, 1931-26 Março 2015
Poeta, tradutor e psicólogo sueco

PÁSSAROS MATINAIS 

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.
Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.
Não há vazios por aqui.
Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

terça-feira, 24 de março de 2015

Adeus, Herberto Helder

A Bicicleta pela Lua Dentro - Mãe, Mãe

A bicicleta pela lua dentro - mãe, mãe - 
ouvi dizer toda a neve. 
As árvores crescem nos satélites. 
Que hei-de fazer senão sonhar 
ao contrário quando novembro empunha - 
mãe, mãe - as tellhas dos seus frutos? 
As nuvens, aviões, mercúrio. 
Novembro - mãe - com as suas praças 
descascadas. 

A neve sobre os frutos - filho, filho. 
Janeiro com outono sonha então. 
Canta nesse espanto - meu filho - os satélites 
sonham pela lua dentro na sua bicicleta. 
Ouvi dizer novembro. 
As praças estão resplendentes. 
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto. 
Aviões passam no teu nome - 
minha mãe, minha máquina - 
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve. 

Avança, memória, com a tua bicicleta. 
Sonhando, as árvores crescem ao contrário. 
Apresento-te novembro: avião 
limpo como um alfabeto. E as praças 
dão a sua neve descascada. 
Mãe, mãe — como janeiro resplende 
nos satélites. Filho — é a tua memória. 

E as letras estão em ti, abertas 
pela neve dentro. Como árvores, aviões 
sonham ao contrário. 
As estátuas, de polvos na cabeça, 
florescem com mercúrio. 
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro, 
é a neve avançando na sua bicicleta. 

O alfabeto, a lua. 

Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem. 
Era pesada, ao colo, cheia de neve. 
la dizendo o teu nome de janeiro. 
Enxofre — mãe — era o teu nome. 
As letras cresciam em torno da terra, 
as telhas vergavam ao peso 
do que me lembro. Começo a lembrar-me: 
era o atum negro do teu nome, 
nos meus braços como neve de janeiro. 

Novembro — meu filho — quando se atira a flecha, 
e as praças se descascam, 
e os satélites avançam, 
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem 
(eu vi): era pesada. 

O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas. 
Laranjas de pedra - mãe. Resplendentes, 
estátuas negras no teu nome, 
no meu colo. 

Era a neve que nunca mais acabava. 

Começo a lembrar-me: a bicicleta 
vergava ao peso desse grande atum negro. 
A praça descascava-se. 
E eis o teu nome resplendente com as letras 
ao contrário, sonhando 
dentro de mim sem nunca mais acabar. 
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua 
batia pelo ar fora. 
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios 
do meu nome negro, e nunca mais 
acabava de nevar. 

Era novembro. 

Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio 
crescendo com toda a força em volta 
da terra. Mãe - se morreste, porque fazes 
tanta força com os pés contra o teu nome, 
no meu colo? 
Eu ia lembrar-me: os satélites todos 
resplendentes na praça. Era a neve. 
Era o tempo descascado 
sonhando com tanto peso no meu colo. 

Ó mãe, atum negro — 
ao contrário, ao contrário, com tanta força. 

Era tudo uma máquina com as letras 
lá dentro. E eu vinha cantando 
com a minha paisagem negra pela neve. 
E isso não acabava nunca mais pelo tempo 
fora. Começo a lembrar-me. 
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos 
de peixe, tua coluna 
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha 
cantando na neve que nunca mais 
acabava. 

O teu nome negro com tanta força — 
minha mãe. 
Os satélites e as praças. E novembro 
avançando em janeiro com seus frutos 
destelhados ao colo. As 
estátuas, e eu sonhando, sonhando. 
Ao contrário tão morta — minha mãe — 
com tanta força, e nunca 

— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora. 

Herberto Helder, in 'Poemas Completos'

Funchal, 1930 - Cascais, 24 Março 2015

domingo, 22 de março de 2015

gota de março


No Dia Mundial da Água, nesta tarde de céu cinza-claro, a anunciar chuva, deixo uma cantilena fresca, acabada de colher dos meus dedos.

Gota a gota
pingue pingue
enche o rio
que escorre
a esperança de ti
e de mim
não se apara
não se afaga
e o sentido mordido
pela fúria
pensamento
adormecido
água escorre
no chão seco
e branco e negro
mármore bolo
doce em boca
aguada
das ideias
primavera
sem travão
em gota fina
bebe a alma
o corpo nu
transpira o medo
a pele vomita
a toxina
gota agreste
planta a terra
seca, mãe
do meu futuro
em sombras
mornas
na folhagem
a matar-me
a solidão.

(© Vera de Vilhena, inéditos)
Roubei a imagem aqui

sábado, 21 de março de 2015

Dédalo



É agora, ébria de mim,
O momento de ser eu,
Sem erro nem desvio,
Sem destilar
a
minha
dor.

Ser eu, mais ninguém,
A morder a mágoa de mim mesma;
Sem cinto nem travão,
No impulso etéreo
Que me
leve
aonde
for.

É agora que choro, sem crosta nem escudo,
Que verei quem se encontra
em mim.

Onde estou eu, quando me revelo?
Por onde vai o meu ser verdadeiro?
Sem firmeza, sem crença,
Denúncia ou enleio.

Para onde vou,
enquanto
c
a
i
o?
(...)

(excerto de «Dédalo», in «Fora do Mundo, Poética Edições, 2014)

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pai

Meu pai, 1972
O meu pai tem quase 84 anos. Quando telefonei esta tarde, para o carinho da praxe, considerando a data de hoje, estava de saída para o veterinário (dois dos onze gatos tinham consulta), depois de já ter ajudado a preparar, imagino eu, o almoço para si e para a minha mãe, e realizado todos os gestos a que se entrega há tantos anos, numa rotina cinzelada pelo tempo.
O meu pai é marinheiro. Oficial da Marinha. Reformou-se como comandante, desembarcou de vez e foi morar com a minha mãe para a grande casa de férias, que alberga uma enorme parte das minhas recordações. Na casa, espalhado pelas paredes toscas, pintadas de branco-espuma, em armários e gavetas, sobre os móveis, sempre houve um rol de objectos que contam histórias do mar antigo e recente: astrolábios, sextantes, compassos, bússolas, cartas e triângulos náuticos, lemes, nós, pequenas réplicas de embarcações, bandeiras náuticas, altímetros... mas também cintos de chumbo, barbatanas, óculos de mergulho, rações de emergência para náufragos, dentaduras de tubarão e até um pequeno crocodilo embalsamado, em cuja bocarra aberta surgiam teias que ninguém queria retirar.
Uma amiga, que há treze anos acompanha o que vou escrevendo, disse-me um dia que eu tenho "essa coisa do mar, por causa do teu pai". Deve ser a tal história, quem sai aos seus. Haverá coisa mais literária do que um farol, sempre de sentinela, num cabo ou promontório batido pelas ondas? Pronto. Parece que os meus textos estão cheios de coisas marítimas, metáforas, lembranças, alusões a cheiros e texturas, inclusive o perfume que se escapava, em serpentinas, dos vários cachimbos do pai João Manuel. Há muito tempo que deixou de fumar. Mas ainda cuida do jardim, que pede ao meu pai esforços que me custa imaginar, além dos muitos gatos que vão tendo desde que lhes ofereci o primeiro - Fellini - ao engravidar do meu filho.
O meu pai, em terra firme desde que se reformou das viagens que o levavam para longe de casa durante meses, permanece, de uma forma ou de outra, ligado ao mar que lhe está no sangue. Um dos seus hobbies é a construção de barcos, a partir de kits sofisticadíssimos, cuja perícia e paciência implicam anos de trabalho. Tem cinco filhos e já construiu vários, entre os quais o Bismark, um imponente couraçado da II Guerra Mundial. Para mim, escolheu uma réplica bem diferente, que aguardo com impaciência. O meu filho também: é o Soleil Royal, um galeão lindo de Luís XIV. Já estou a vê-lo, partindo do porto de Havre ou de Brest, envolto em brumas.
Hoje, que sinto na pele a impiedade do tempo que nunca deixa de navegar connosco, levando-nos para um alto-mar de onde, um dia, jamais regressaremos, só desejo que Deus lhe dê saúde, que o meu pai continue, por mais algumas marés, a fechar e a abrir as escotilhas da casa enorme, a cuidar da sua tripulação de gatos junto da minha mãe, e a construir a sua frota num mar de faz-de-conta, enquanto eu, na ferrugem das palavras salgadas pela memória, vou tecendo uma rede de páginas de espuma, como quem apanha conchas à beira-mar, para que o passado não fuja.
Dedico este texto ao meu pai.
Os cinco filhos e a mãe dos mesmos (Vera Mãe), Agosto 1969

Eu, Eduardo, Sofia, Mariana, Pedro
Os cinco filhos, que é raro ver reunidos numa fotografia, porque a vida não deixa

quarta-feira, 18 de março de 2015

Fibra

O tempo continua a ser de renovação. De resoluções. Num Janeiro que se pretender estender até ao limite das possibilidades. É a vida a precisar de vitaminas, antioxidantes, todo um rol de nutrientes que tornem elástica a pele dos dias. Uma vida desidratada, ressequida, ressentida. É urgente alimentar a raíz das unhas, expulsar as células mortas, esfoliar as horas, para que a carne seja músculo e o corpo, na fímbria da incerteza, seja fibra de outras convições. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Soundscapes

Nesta 6ª feira 13 deixo-vos com os ruídos naturais do mundo, cada vez mais ameaçados. Bernie Krause, músico que há quatro décadas optou por gravar os sons da natureza, diz que o mundo está cada vez mais silencioso. Escutem-no nesta conferência do TED.

terça-feira, 10 de março de 2015

Novo brinquedo

Eis-me a estrear o LibreOffice Writer no meu portátil novinho e eu feliz, aliviada por ter sido possível converter, sem dificuldade, todos os documentos que tinha no velho Word 2003. Para já, pude ver que lá terei de gramar com a lagartinha encarnada sob as palavras escritas em desacordo com o Acordo Ortográfico, mas não importa.
Agora o tipo de letra assumido, por defeito, é simpático, chama-se Liberation Serif e há todo um conjunto de novidades a explorar: clonar formatação, um Ómega para inserir “Carácter especial” (sic. A sério, é sempre bom saber que estamos a um clique de inserir um carácter especial, vai dar-me um jeitão para a construção de personagens), uma montanha de novos tipos de letra (apesar de acabarmos por escolher apenas uma dúzia deles, tal como os canais de televisão), um galeria que me permite inserir no texto fundos com malmequeres, imagens, como abelhinhas, sons como o de uma vaca (muito útil)... E agora vou publicar isto no blogue, para ver como fica. Pareço uma criança, mas como li algures que estamos na Semana da Incontinência Urinária (olhem que bem escolhido, de tantas efemérides que inventam, esta estava a fazer imensa falta), tenho desculpa.
...
Já experimentei, não funciona bem. Bem feito, quem me manda fazer copy/paste com aquela salganhada. Resta-me o ficheiro no LibreOffice Writer e a partilha da minha satisfação infantil.



segunda-feira, 9 de março de 2015

Os velhos dicionários

Em arrumações no escritório, em fase de mudanças de fundo no pequeno espaço onde finjo trabalhar, dou, mais uma vez, com os velhos dicionários da Porto Editora: Português-Inglês, Inglês-Português, Português-Francês, Francês-Português, Dicionário de Sinónimos, Dicionários de Verbos, Latim... abro um, ao acaso, na primeira página, e encontro a assinatura do meu pai e uma data: 1972. Sorrio, ao lembrar-me de que o meu pai, tal como eu, tem o hábito de escrever o nome e a data nos livros, incluindo os dicionários. O sentimento de posse, do género perdoável.
Os dicionários, gordos, poeirentos, velhos, inúteis, olham-me com aflição, como quem implora, por favor, não te desfaças de nós só porque nos tornámos obsoletos; imagina que a electricidade pode faltar, tudo falhar, a internet, a bateria do computador, o próprio computador, o tablet... que farás tu, quando a tecnologia te faltar? Nós aqui estamos, com a fidelidade de sempre, velhos mas sábios. Sábios, porque velhos. E em nós encontrarás, sempre, a palavra latina para "absurdamente", a inglesa para "perdição" ou sinónimos de "abandono". Recusam reformar-se, sem saberem que há muito se tornaram desnecessários. Fingindo acreditar nos seus argumentos, retiro-lhes a humilhação do pó, suspiro pelo espaço roubado, sem sentido, e torno a arrumá-los nas prateleiras atulhadas de coisas inúteis e preciosas.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Viragem

Peço desculpa aos que seguem este blogue. Venho apenas explicar que estou em fase de transição de gadgets, dependente de tecnologias que me chegam em upgrade, mas que me impedem, por alguns dias, de vir aqui ao ritmo habitual. Em breve julgo reunir condições para regressar em força. Novo ano, tempo de viragem. Não há imagens a ilustrar, é mesmo só isto, que já é muito. Escrevo a partir do tablet, apenas para deixar esta mensagem. Fiquem bem e até breve! 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Penando



Por onde andam as suas resoluções? Desfeitas como sempre, entre os dedos cujas unhas não pára de roer. E diz sempre que irá deixar de roê-las, mas nunca cumpre a promessa. Rói mesmo quando o mundo lhe diz que não tem quaisquer motivos para tal infantilidade. De que te queixas agora? Vá, diz, que terríveis problemas tens tu a resolver? Que grandes espadas pairam sobre a tua cabeça? Só se for por causa das resoluções sem solução. Decisões tão gelatinosas, tão trementes como alforrecas morrendo de susto na areia. São disparates que escreve, julgando que valem alguma coisa, mas não valem um caracol. Olha, nunca tinha usado esta expressão, não valer um caracol.
É a chamada escrita automática, que de automático nada tem, que a mente não se desliga só porque a isso nos dispomos; em especial se passarmos a vida a corrigir os erros de escrita dos outros: que tolerância haveríamos de ter para com os nossos próprios erros? E por isso a mente não se deixa ir, está sempre alerta, de borracha e caneta encarnada em punho, a travar, a retroceder, a refazer, a quebrar o embalo das linhas que a mão vai traçando. Não, esses não perdoamos. E vá-se lá saber por que razão estou a usar a forma plural, se estou absolutamente só nisto de tentar escrever. Os outros escrevem, já se sabe, eu sou a perita em tentar. Apenas. Parece que o único tema que me resta é este, a arte de não escrever. A escrita, um equívoco nas minhas mãos. Fosse eu digna de pena, e poderia dizer que escrevo de uma penada. E assim vou penando, de unhas roídas até ao sabugo. Olha, outra, nunca tinha escrito sabugo.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Luta


© BRUEGEL, A queda dos anjos rebeldes

Hoje dominas a arte de não realizar o que escolheste por missão. De que servirá escrever? Que diferença fará ao mundo? A falta de fé, a consciência de que é apenas um capricho teu, de que estás só em absoluto, é, talvez, o que te impede de escrever. O medo de falhar por inteiro: de descobrir que de nada vale, toda esta entrega a um anjo que há muito se revoltou.
Queres desistir, libertar-te, pedir misericórdia ao anjo rebelde.
Estás só na tua teimosia. Um demónio segura-te as mãos. Só tu sabes que são amarras forjadas num capricho. Que em ti nada solidifica. A luz não existe. Apenas sabes mentir com fraca chama. Em ti mesma acendes a mentira. E o que se revela é de uma imensa tristeza. Estás incapaz de esculpir uma palavra mais.
De nada serve, diz o demónio.
Escreve, apesar de tudo, responde o anjo.
Falta-te a fé em algo que não encontras dentro de ti.
E por isso escreves: para descobrir. Mesmo que, por ora, o demónio sorria, a cantar vitória.
Ao longe erguem-se enormes asas azuis. E tu escreves, apesar de tudo, para que o anjo te dê a mão e te leve a navegar nas tuas correntes.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

No outro lado do espelho

 Sentou-se no café com o seu tablet. Um novo brinquedo muito sério. Concluiu, com satisfação, que, com aquele presente, comprar um computador portátil deixara de ser uma necessidade. Até a pequena máquina digital perdera o sentido: talvez mesmo um descartar extensível aos seus cadernos, aquele íntimo caos composto por papéis infindos, que se iam dispersando, desistentes, em gavetas atulhadas de tarecos, caixas de cartão empoeiradas, bolsos e malas velhas, versos, pequenos textos, ideias, esboços que, em muitos casos, acabavam por nunca cumprir o seu  destino.
Ela sorriu, vendo o seu universo de gestos enriquecido com novos confortos concentrados num só objecto. A tecnologia foi para ela, por instantes, um amigo - feito de plástico, borracha, compostos electrónicos e outros mistérios e saberes que ela jamais dominaria - ainda assim, um parceiro de confidências que desejou abraçar, como quem abraça um amigo.
E escrevendo isto descobriu também que, uma vez domesticado o bicho nas suas manhas, poderia, ali mesmo, no café da aldeia (que até tinha internet), publicar o texto no seu blogue.
Sentiu-se uma Alice no outro Lado do espelho, num mundo absurdo que teria de compreender; tão depressa amigável como rival ou ameaça: para que serviria aquele botão? E se fosse por ali, aonde iria dar? Um mundo estranho a explorar, com os seus dedos juvenis, saltitando sobre o teclado.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Samuel Barber

Este "adagio for strings" é, a par com a sinfonia nr 5, o adagietto, de Mahler, a peça mais triste e bonita que conheço. É estranho como algo tão triste pode ser belo a este ponto. Não se deixem inundar pela tristeza, é apenas o poder que a Música exerce sobre nós.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Besos de sangre

Dedicado a todos os apaixonados, em nome do charme e da sedução (mais pela imagem do que pelo tema que, para o meu gosto, é algo pobre...mas está bem explorado). E que o Dia de S, Valentim (ou o do Stº António, pronto) seja como o Natal: todos os dias. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Espera

 


Desesperam, os dias feitos de reticências, em que nada se finaliza, se rompe, se confirma. Um silêncio branco, a mistura de todos os sons, todas as cores e possibilidades.e nem uma, nem uma cor que possa chamar sua. A espera - odiosa feiticeira - a deixar-nos como enforcados ao vento, bonifrates ocultos na sombra, oscilando, sem comando; o pêndulo de um relógio encostado à parede, sem saída. Apenas isto, que é nada. Para quando, o movimento? O ruído de asas rasgando o silêncio?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Sempre

"Fornax" © Beth Moon
As árvores aguardam a morte como deuses anciãos, rendidos ao cansaço. A estação fria lambe o fim da tarde com o seu hálito de chuva miudinha, sob o manto estrelado cor de rato. O tempo escorre, gota a gota, enquanto o vento vai polvilhando a paisagem com os queixumes dos velhos ramos, que se julgam incapazes de abraçar uma nova estação. Mas sempre haverá uma nova estação.

Vera de Vilhena

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Não fujas

Imagem roubada aqui

Não, não fujas de mim,
ainda é cedo, pousa os braços nos meus,
que eu mal começava a sentir o teu calor
e já tu me escapas;
despertando em mim o arrepio
de me ver mergulhada no frio
a que eu já dissera adeus.

Não, não cerres a porta,
não cerres os dentes, nem nada;
para me deixar no avesso da sorte,
os meus dias em carne viva,
O grito de quem suplica, de voz enferrujada.

Provei a taça de um tempo cálido,
molhei a minha boca na tua.
Por favor fica, não fujas de mim,
que eu já não sei ter na língua a amargura,
se um manto de mel me deixou assim, nua.

(© Vera de Vilhena, inédito)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Lacrime di Giulietta

Maravilhoso. Vale a pena verem até ao fim.  Atenção, nada é deixado ao acaso, ao sabor do desenho: TODOS os pormenores estão arrumados correctamente na pauta, até as folhas da árvore.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Gratidão

Quando o azar lembra um bebé adormecido, inocente no sono dos mais inocentes, sem reconhecer a nossa existência - fiel e infeliz companheira na cumplicidade de tanta má sorte -, andamos com pezinhos de lã, para que tão cedo ele não desperte, na esperança de prolongarmos a fase abençoada, em que as peças da vida parecem encaixar numa harmonia que já não julgávamos possível. As espectativas quase ao nível zero. O que vai surgindo deixa-nos nos olhos a mais grata expressão de espanto. Nas mãos, a gratidão e a esperança, sim, que é semente cultivada, a tentar que a maré construa corpo, solidificando o nossa sorte. Que estes dias não sejam feitos de vento mas rijos, tendões e músculos, carne e pele tonificadas por muitos amanhãs. Para que a vida se vá erguendo das cinzas...e a nossa esperança possua alicerces. Não seja apenas ilusão, o etéreo conforto dos infelizes que, a cada dia, inventam novas razões para sorrir.
Obrigada, mana Rita G. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

Bolota

Faz três anos que adoptámos a Bolota. Nunca tinha tido uma cadela e estou fã. É maluca e adorável. Mimosa, brincalhona, esperta. Bendito o dia em que a fomos buscar ao canil de Torres Vedras, onde ela vivia há cerca de um ano. Ficará sempre na lista das melhores decisões.







Aqui o link para o post escrito no dia em que a Bolota chegou