quinta-feira, 23 de junho de 2016

Mãos vazias

Nas mãos o mesmo ramo que levava no dia do casamento. O marido ao seu lado, bonito, de fato cinza-claro, os olhos de ambos inundados, a reflectir o pasmo de ser possível sentir tamanha felicidade, que mal cabia no peito. O indicador da mão direita a esconder o velho anel de ouro - Manuel 27-5-1922 - prefere que o senhor atrás da máquina não lhe apanhe a aliança, o metal precioso a captar as atenções, a deixar para segundo plano o seu vestido de flores minúsculas, as veias salientes, a quererem sair de si, levar-lhe o sangue para longe; os sulcos do tempo esculpidos nos dedos sem carne e as manchas, que são tantas, e mal deixam ver a cor verdadeira daquela que foi a sua pele, nos dias vividos antes do vestido branco e daquele ramo silvestre, da cor do céu mais limpo. Eram dias em que Manuel lhe dava rosas vermelhas, e as suas mãos tinham carne e cheiro e humidade, não eram um deserto.
As pessoas aguardam em silêncio. Não pretendem apressá-la. Afinal, o tempo da morte é um poço sem fundo. Os olhos dela inundados, a reflectir o pasmo de ser possível sentir tamanha tristeza, que mal cabe no peito. Os dele fechados para sempre, sem pasmo, na aceitação de um destino. Por fim, a viúva pousa o pequeno ramo de flores azuis sobre o peito do marido, deitado à sua frente. As mãos dele também cruzadas. No anelar a aliança - Luísa e a mesma data. A mulher não a quis, era dele, sempre fora dele.
Só depois é fechado o caixão.
Luísa chora, enfim. Nunca gostou de chorar diante do marido nem de ninguém. Só que nesse momento não existe ali ninguém. Nada mais do que ela e as suas mãos sem flores.

© Vera de Vilhena, inédito

terça-feira, 21 de junho de 2016

Culpa

Varanda a nascente, comum à cozinha e à sala
Já não está assim, a casa, como na fotografia, tirada há cinco anos. Anda descuidada, votada ao abandono, gretada, envelhecida. Ainda lhe arranco um sorriso, quando o sol bate na parede de pedra tosca da sala, derramando a luz do anoitecer; quando me devolve objectos há muito desaparecidos, ou me recorda que muitas paredes se encontram ainda vazias, à espera de dono. É urgente cuidar daquilo que amamos. Ando cheia de culpa, por causa desta amizade incondicional, que não mereço.
Perdoa-me, Casa da Lua, em breve cuidarei de ti.

Pormenor da cozinha: fotografia da minha avó Mimi, Anos 20, jarros de vinho José Franco,
licores do Algarve, livros de Joanne Harris, almofariz de bronze.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

James Joyce

Hoje é BLOOMSDAY!
Que forma maravilhosa de celebrar e homenagear um conterrâneo! Soube hoje da existência desta  curiosa efeméride irlandesa. Obrigada, Luís!
1904 - James Joyce publica Ulisses.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Graça Pires




Despojos antigos

«Enterro no chão a multiplicidadede despojos antigos.
São de pedra como as casas envelhecidas
onde as teias roçam todas as traves
e se cruzam com a poeira dos móveis.
São lobos vagueando pela noite
a farejar insónias.
São raízes enredadas nos artifícios
da idade, nas preces de cada dia,
nos retratos de família.
Procuro agora a fonte mais distante
para inscrever na água corrente
a sublime nudez da juventude.
E alinho contra os muros
os sonhos que morreram no meu peito.»

GRAÇA PIRES
De Uma claridade que cega, Poética edições, 2015
Para mais, aceda ao blog ortografia do olhar

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Rouquidão

Partir o silêncio em dois,
Como quem traça
Uma linha________________ de luz
na escuridão.

E agora, que fazer
Com meios-silêncios
Que não chegam a dar-me voz?

Uma rouquidão turva
Alva serpente
Esfumando-se em cantos de anil

E tudo é silêncio
Outra vez.





quarta-feira, 8 de junho de 2016

Alguma coisa

Um excesso de tudo,
Cansaço
Uma falta de outro tudo
Desespero
Que remédio senão
Tentar viver
alguma coisa
Que me acrescente.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Lotte Reiniger

HOMENAGEM DA GOOGLE a esta cineasta de animação nascida em 1899 (Berlim), ainda tão pouco conhecida do grande público e cujo trabalho pioneiro, de efeito fantástico, exigia grande perícia, imaginação e paciência. 
«Lotte Reininger created visually stunning and fantastical films using black cardboard, scissors, and boundless imagination. Pre-dating Walt Disney by nearly a decade, Reiniger pioneered a style of animation that relied on thousands of photos of paper cut-out silhouettes arranged to tell a story. It was a painstaking process that involved moving paper characters ever so slightly and snapping a photo of each movement. She created many films over the years, including The Adventures of Prince Achmed, the oldest surviving feature length animation.
Nearly a century later, Reiniger continues to inspire animators and artists. On what would have been her 117th birthday, we celebrate Reiniger’s limitless creativity and pioneering spirit. 
Original Music: Silas Hite (http://www.silashite.com/), Max Steiner Agency (http://www.maxsteineragency.com/)
See more Google Doodles at http://www.google.com/doodles

domingo, 22 de maio de 2016

Alfaces e alcatrão

Retomei as minhas caminhadas...acho que pela terceira vez este ano e vamos em Maio. Tenho uma desculpa, um percalço de saúde. Neste momento acabaram-se as desculpas. Entretanto a paisagem junto à minha casa transformou-se. O essencial ficou, o que me dá uma alegria imensa. A estrada que antes era de terra batida e deixava os caminhantes repletos de pó é agora de alcatrão. As hortas e as estufas dos vizinhos que, ao contrário de mim, que vivo das palavras cantadas e escritas, semeiam a terra e dela dependem para sobreviver, estão prontas a ser colhidas. Graças a eles, vivo, não sobrevivo apenas. Graças a eles a terra que me rodeia vai sendo protegida para cultivo de produtos hortícolas, em vez da prioridade costumeira, dada à construção. Graças a eles, encontro carreiros intermináveis de alface verde e roxa, semeadas mesmo até ao início do alcatrão, onde raramente um automóvel passa. Com a estrada macia como veludo e cetim picotado, os automóveis circulam agora bem mais velozes:  cobras, lagartos, saca-rabos, raposas, coelhos, ginetas e outros bichos terão de se acautelar, se não pretenderem ser passados  "a ferro" pelas rodas apressadas, que encurtam o caminho passando pela "estrada nova" na qual, felizmente, poucos reparam. 
 Peço desculpa ao eucalipto e, à passagem, regressando a casa, arranco uma das suas folhas: esfrego-a entre os dedos e as palmas da mão. O cheiro que me invade as narinas possui todo o verdor da natureza.
Grata, regresso a casa pronta a trabalhar no meu romance, de cenário maioritariamente urbano, e tão perto de chegar ao fim. Até nisso a paisagem me ajuda.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

domingo, 8 de maio de 2016

Vitrais e retalhos

Às voltas com o meu próximo livro, fui invadida pela nostalgia, que tudo envolve num manto dourado. Ao dar com os vitrais de Almada Negreiros, na Igreja de Fátima, onde fui baptizada pelo Padre Barnabé (que não gostou do meu nome por este não ser cristão e teve azar, pois o nome escolhido para a terceira filha foi, precisamente, o da mãe do bebé), dou por mim a revisitar as cores tantas vezes fixadas pelos meus olhos míopes, ao longo da infância:


Acho que é daqui, em parte, que me vem o fascínio por vidro azul e por vitrais de cores intensas, desde os de motivos religiosos, como estes, passando pela flora e fauna, aos temas geométricos, em portas e janelas Arte Nova, que reencontro por vezes, embevecida, nalguns filmes de época ou de fantasia.
Emma Thompson, em Nanny McPhee (2005)
Colado à Igreja, que dele se apropriou entretanto, ficava o cinema Berna. Recordo a emoção e o orgulho que senti, por ter ido pela primeira vez, com o meu irmão Pedro, ver um filme para gente grande: «Era Uma Vez na América», de Sergio Leone (1984).
Eu tinha cerca de 15 anos de idade. O filme era enorme e intenso. Lembro-me de ter demorado algum tempo a regressar ao mundo real, enquanto atravessávamos a Av. Marquês de Tomar, para regressar a casa, a poucos metros.
Somos feitos de recordações, larápios da nossa própria vida, roubando memórias que levamos connosco para dentro dos livros, como quem vai tecendo a sua manta de retalhos de lã, a aconchegar a criança que fomos, para que não se desvaneça nas sombras do tempo.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Dois irmãos

Entretidos a dispersar os cardumes, eu e o meu irmão trabalhávamos os músculos das pernas, sem saber; o nosso chapéu, a sombrinha, era mantermos a cabeça molhada todo o dia e, para isso, íamos ao banho constantemente. A praia era mesmo ali, a poucas centenas de metros do cais de abrigo, o que era perfeito para desafios a nado:
– Agora até ali ao «Rosinha»!
– Esse é qual? Não estou a ver…
(O meu irmão sempre foi míope e na praia, como retirava os fundos de garrafa, não via nada).
– Ali, aquela chata encarnada e azul! – Apontava eu – o último a chegar é um peixe podre!
Escalávamos rochas à caça de caranguejos e mexilhões – com canivete e tudo –, e, volta e meia, lá tínhamos um encontro com uma alforreca, um peixe-aranha ou um casalinho de namorados que aí tinha ido para estar à vontade, antes de virem uns putos desmancha-prazeres. Com imagens adequadas a maiores de 18, os pés escaqueirados pelas rochas ou a pele a arder, com a carícia das alforrecas, nem por isso ficámos traumatizados. Agora têm um pesadelo, metem-nos logo no psicólogo. 

(excerto do próximo livro, em pré-publicação)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Auto-liberdade

Reflexo de selfie, ao chegar a casa, antes de escrever isto.
No feriado que celebra a Liberdade fui caminhar. Estreei o boné das "Sisters", oferecido pela minha editora, Babel, na Feira do Livro do ano passado, e percorri a estrada, vestida com cores garridas e look desportivo, como se fosse uma desportista (nem quando pratiquei desporto fui desportista). Os pés conhecem a estrada de cor, permitem que a mente vá divagando entre o lançamento do próximo livro; as bodas de diamante recentes dos meus pais; um texto a escrever; o filme "O Último Tango em Paris", que vi ontem, pela primeira vez na minha vida; a audácia que pretendo conquistar na escrita. Pela primeira vez, também, sinto a sede de sair da zona de conforto, atrever-me a não travar o que pretendo contar ou fingir, como ficcionista, face ao medo quanto ao que os Outros irão pensar. Medo não será, antes respeito, mas não estou certa de haver grande diferença entre ambos. Liberdade também é isso: a rédea que damos a nós próprios. Estarei eu a menosprezar os leitores? Até que ponto estaremos presos entre as limitações que há muito impusemos a nós mesmos?

Existem as flores


Papoila  encravada

Escrevo para dizer que escrevo.
Enquanto os cravos vermelhos são tudo
O que os olhos alcançam
por estes dias e eu,
Escondida em vida silvestre,
Continuo a abraçar papoilas
Cujo tom escarlate, salpicando os prados,
Sempre me lembrou a liberdade
mais verdadeira
Onde a natureza escuta os nossos gritos
E nos afaga a solidão
Com a doçura de um beijo molhado no vento.

Sim, são papoilas, os meus cravos.

Escrevo para dizer que escrevo.
Enquanto os salgueiros compõem a manta morta;
Húmus, folhas secas, cadáveres e raminhos,
Decomposição mal disfarçada,
Em festins e algazarras, encravada em ideais;
Dentes de leão na brisa caindo, desmembrados,
Sobre quatro décadas de terra que era fértil.

Escrevo para dizer que escrevo a liberdade.
Que a cada dia tentamos segurar
Como quem prende nos dedos uma rosa de espinhos…

Nada somos no silêncio
E é por isso que existem as flores.

(in Fora do Mundo, Poética Edições, 2014, p. 117) 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

60 anos - Bodas de Diamante

1974
1972
Entre o dia real de casamento (21 de Abril de 1956) e o dia de celebração (amanhã, dia 23 de Abril de 2016), fica este post, temperado pelo espanto e orgulho de ter os meus pais com saúde, felizmente, e juntos, ainda, ao fim de 60 anos de casamento. Não é para todos. Deixo aqui um texto que há-de ser adaptado, para integrar um qualquer livro, e que escrevi há tempos em honra de ambos pois, como sabem, o mar é elemento essencial na nossa vida. Os anos passam, mas ficam as recordações mais profundas.

OS ÁLBUNS DE FOTOGRAFIAS 

Depois de folhear os álbuns de fotografias dos meus pais, os velhos e pesados álbuns de Sesimbra, recebi muito mais do que esperava. Em princípio, pretendia apenas caçar as imagens preferidas e digitalizá-las, com a ajuda do Nanã, para construir o meu próprio inventário de recordações. 
Ao fim de duas tardes de trabalho em roda dessas fotografias, cujas cores, há muito perdidas, o Nanã ia recuperando, ficou a aceitação dos meus primeiros vinte anos de vida. Não foi somente o averiguar de memórias, mas sim a confirmação do passado. Quando, num curto espaço de tempo, nos tornamos observadores da nossa própria vida, revisitando o berço, as casas, as metamorfoses do corpo, tomamos consciência do lugar que ocupamos na nossa família. Hoje, com trinta e oito anos, revejo-a com olhos adultos e sorrio: afinal, não há ali nada de dramático, injusto, errado: são apenas vidas a ganhar forma, a transformar-se. A chegada e a partida de uns, os rostos de outros (demasiados) que se retiraram para sempre − não apenas da nossa vida, mas da deles: “Olha…”, digo, às imagens que me recordam as pessoas há muito desaparecidas: os padrinhos, os eternos amigos (que afinal não eram eternos), o avô, a avó, o outro avô, a outra avó, o cão, o outro cão, a saudade. Lugares e paisagens transfigurados (irremediavelmente perdidos), barcos que já não poderão levar-nos pelas águas de tantos verões. Filha de um oficial de marinha, encontro agora o verdadeiro espaço que esse elemento ocupou na nossa família. Vejo, com uma nitidez inventada, as inúmeras viagens a dois que os meus pais iam fazendo, entre filhos. Fomos crescendo, entregues a nós próprios, desenvolvendo um instinto de sobrevivência que, em parte, se foi manifestando sob a forma de egoísmo. Sei que eu e os meus irmãos (rapazes) saímos à minha mãe nas doses generosas desse traço de carácter, mas até nessa verdade encontro perdão. Conciliei-me com as viagens frequentes que os levavam para parte incerta. Pelo menos, assim eu as encarava, sob o olhar ingénuo da minha (pouca) idade. Afinal, eram dois. Um casal. É preciso tempo para se ser apenas dois. A minha mãe sempre bonita, sonora, franca, uma fortaleza elegante. O pai, insondável, meigo, silencioso, um rochedo no mar alto. Rochedo e fortaleza. O mar outra vez. Cinco filhos. A casa sempre cheia, em movimento e caos. Ruído, gritos, modas, queixumes, risos, portas que batem com estrondo. É preciso respirar, sair. Hoje, que há muito vivo longe da sua asa e os vejo a envelhecer, resta-me a nostalgia e compreendo, finalmente: às vezes, é preciso ser egoísta. Traumas? Alguns. Contudo, nenhum de nós foi enclausurado em quartos escuros, pelo contrário, crescemos com dias solarengos e arejados, correndo pelos campos, ou navegando rumo ao azul escuro e límpido. Não raro se fecharam os olhos, muitas regras se quebraram. Caímos, chorámos, aprendemos. Fomos fortes, sempre que nos levantámos. Crescemos. Os meus pais ali, presentes, por entre os seus próprios temporais.
No segundo álbum, a infância abandona-me, até que me transformo numa mulher. Fiz as pazes com a minha ingenuidade e com os erros que se escondem por detrás das Veras que vou encontrando ao longo das páginas: intimidades e angústias que vou reconhecendo à medida que me cruzo com datas, vestidos, lugares. Afinal, eram tão poucos os anos, tão frágil a sabedoria. Namorados e amores que me acenam, mesmo sem aparecerem na fotografia, pois toda a vida que circunda aquele rectângulo de papel surge de repente, mostrando o invisível. É enternecedor assistir de perto a essa mudança desconcertante, veloz, desapiedada. Algures, por entre as fotografias, encontro o carácter fugidio do tempo. Assusto-me. À medida que avanço em direcção ao fim, concluo, com tristeza, que a vida nos foi separando e que as reportagens sempre atentas do pai se vão limitando ao casamento dos filhos, aos baptizados, ao aniversário de alguém que, em boa hora, serviu para reunir outra vez uma família que vai engordando e dispersando-se, como os ramos de uma árvore ao vento. Os momentos valiosos de cada um, que máquina nenhuma registou, são as folhas que ninguém conseguirá agarrar. Espalhámo-nos pelo país, os netos cresceram sem grandes cumplicidades entre eles. Nós, os irmãos, estamos prestes a ser avós, mal tendo ocasião de acompanhar a vida dos nossos sobrinhos. Tios, primos e sobrinhos ganharam para mim uma conotação natalícia…
É urgente que nos reunamos regularmente. Há que construir novos álbuns, prender os dias ao papel.
Fecho estes com orgulho, apesar de tudo.
Esta é a minha família. A minha vida.
(Verocas, Bracial, 14 de Abril de 08)

Beijos e abraços aos meus quatro irmãos e, em especial, aos meus queridos pais, nesta data digna de muitas celebrações.
mãe, 5 filhos e algumas visitas: a mesa tantas vezes cheia...

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Adeus, Prince

Aqui fica um pouco da sensualidade das produções de Prince. Queria o tema «When doves cry", o primeiro tema que conheci dele, há muitos, muitos anos, mas não consegui incorporar o video. Este video, também antigo, e em vez de Purple Rain, tão emblemático, será talvez uma forma menos triste de lhe dizer adeus.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Cabeças

«Fiquei de lá passar às oito. Quando cheguei a casa eram ainda cinco.
 Tinha a intenção de escrever um bocado, como tenho feito ultimamente, mas...zero. Peguei num livro interrompido do Hemingway e nem assim fui capaz de me concentrar; podia beber um whisky para descontrair, mas era demasiado cedo e ela não gosta do cheiro; acabei na minha passadeira: quatrocentas calorias. Apressei-me a cortar o cabelo no centro comercial, daquelas casas em que não vêem pessoas, só “cabeças”, tipo matadouro: cheguei a ouvi-las dizer:
– Ó Isabel, não me marques mais cabeças, que já tenho o Domingo cheio! Pra qu’é que serve a agenda, pá?!
Ou esta frase “riquinha”:
– Porra, pá, tantas cabeças por dia, uma pessoa té nem tem tempo de ir mijar! E estou cá cuma larica que nem me aguento!
Isto enquanto esfregava a minha. E com força, como se eu não a lavasse há uma semana.
– Estou a ser bruta? Você diga!
(Que sim, que estava a magoar um bocadinho).
– Ai, o senhor desculpe, mas é que aqui a gente ao fim de semana é isto.»
(ainda "em obras de (re) construção", mas para breve). 

sábado, 16 de abril de 2016

terça-feira, 12 de abril de 2016

Jogo de sombras

Ando a sentir-me qual Julien Carax, n' «A Sombra do Vento», de Carlos Ruíz Zafón, trabalhando durante o dia nos romances dos outros, e à noite no meu. Uma questão de equilíbrio, e sem a maldição da personagem de Zafón, graças a deus. Também não tão glamorosa ou encantatória, mas não se pode ter tudo.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Retoques

Há algo de extraordinário no poder de reconstrução que a escrita possui. Personagens há muito paralisadas em tempos e lugares, limitadas pelas acções e palavras que realizaram numa outra vida e que, saindo do baú, podem ser arejadas, dizer mais ou menos coisas, ter novas ideias e alegrias, outros receios e hesitações; mais uma oportunidade de se explicarem por palavras suas, distintas, já que houve ocasião de pensarem melhor, de amadurecer. Poderão agora encontrar-se com a família e os amigos, os vizinhos, os estranhos da avenida, que andaram na sua órbita; presenteá-los com novos diálogos, surpreendê-los, escolherem empreender uma viagem diferente, inventarem outras formas de se perder ou salvar, mesmo que o escritor lhes apresente os velhos obstáculos. De caneta na mão, numa tarde soalheira, o escritor vê o protagonista sair de casa e murmura,  Lá vai ele outra vez ao fim de tantos anos, por aquela rua... o que irá ele dizer hoje? - perguntando-se, O que diria ele, se o tivesse ido buscar numa noite de chuva...?
Quando é que um livro está terminado? Quando é que é definitivo?
Lembra-me aquela história do pintor que dá ainda os últimos retoques nos seus quadros já pendurados na sala de exposições...e já vendidos. Assim são alguns escritores.
© William Hogarth, Time Smoking a Picture (c. 1761, Metropolitan Museum)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Jacob Collier

Este miúdo é adorável. Sigo-o desde 2012, quando o conheci numa versão multitrack do "Isn't She Lovely", de Stevie Wonder.
Finalmente vem aí o seu primeiro álbum de originais! E nome do mesmo faz todo o sentido: "In My Room". É tudo feito por ele, um enorme talento, genuíno, irresistível. Este miúdo vai longe. Ora escutem. Eu sou fã.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Quase

Enrodilhada nesta tarde de chuva e numa tese interminável, que revejo desde o dia 1 de Dezembro. Grata por ter trabalho regular, a partir de casa. Gratidão imensa por esta boa aposta. Saí ao sol apenas para comprar um par de sapatos - sábado serei Cinderela cantora, de formiguinha a cigarra, de cigarra a formiga novamente, os pés enfiados em chinelos quentes. A chuva na minha janela e a tese a chegar ao fim, quase...quase.. .a permitir-me regressar aos meus projectos. Suspiro, solidária com as tímidas petúnias, fustigadas pelo vento. Como eu, não podem fugir.
Do meu "escritário"

domingo, 27 de março de 2016

Mais luz

Misty #7
© Nanã Sousa Dias
Caindo em Neblina

Afundo os meus pés
Numa alameda de brumas,
Como anjo perdido 
Na terra dos homens;
Flutuando sob a luz,
Num chão invisível,
Onde teimo em quebrar
As minhas plumas.
Não moram ali, as minhas nuvens.
Quedando-me na queda relembro, enfim,
Que o chão que pisava
Era véu rasteiro, sem corpo ou alicerce,
Um fantasma friorento
Que se evola, ferozmente,
Quando o dia aquece.
(...)

(in «Fora do Mundo, excerto, p. 50)



quarta-feira, 16 de março de 2016

Tim Burton

E porque tento não perder um único filme deste realizador fantástico, aqui fica o que irá estrear em Setembro, baseado num bestseller  do autor americano Ramson Riggs.
O livro de Ramson Riggs, que deu origem ao filme

quarta-feira, 9 de março de 2016

Antonio Serrano

Para nos aquecer neste dia de chuva. O que eu gosto deste miúdo a tocar. Já tive o privilégio de o ouvir ao vivo, por duas ocasiões, e fiquei fã.

terça-feira, 1 de março de 2016

Um pouco mais de luz

Manhã passada em Coimbra e um regresso de corpo mais leve. Adeus pomada e compressas, até ver! E VER é agora a minha missão, ao longo de longos meses ainda, enquanto, aos poucos, vou recuperando autonomia e dignidade, os gestos a serem meus outra vez, uma colecção maior de gestos que me deixa com um sorriso parvo. Diria, um sorriso parvo na cara, não fosse pleonasmo já que a boca está sempre ali, mas apetece, apesar de o ter também por dentro. Março começou  e deu-me este piscar de olho à esperança.
Uma sopa e um café em Óbidos, um salto a Torres Vedras e, prestes a chegar a casa onde os cães nos aguardam sem saber que já terão direito a aninhar-se de novo no conforto do lar, perto dos donos, uma visita ao Golfinho Azul, também ele de rosto novo, com um novo olhar sobre a Praia de S. Lourenço. O sol brilha, os pássaros cantam, a vida é bela, pelo menos hoje.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Autoria

Efígie de César (s/d)
O poema "Muere Lentamente", atribuído por engano a Pablo Neruda, circula há anos na Internet sem que nada nem ninguém seja capaz de deter a bola de neve, ao ponto de, em Espanha, muitas pessoas terem recebido esses versos como votos online de um feliz Ano Novo: "Morre lentamente quem não viaja, Quem não lê, Quem não ouve música, Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito, Repetindo todos os dias o mesmo trajeto..." 
Assim começa o poema que não se chama Morre Lentamente, mas A Morte Devagar, e não é do poeta chileno como assegurou a Fundação Pablo Neruda, mas da escritora e poeta brasileira. MARTHA MEDEIROS. Não é "Muere Lentamente" o único "falso Neruda" que encontram os internautas. Também costumam atribuir ao autor do Canto Geral os poemas "Queda Prohibido" (que é de Alfredo Cuervo, escritor e jornalista espanhol), e "Nunca Te Quejes", autor desconhecido para a Fundação Pablo Neruda.
Este é um dos problemas do uso indiscriminado e ingénuo da Internet: uma ferramenta maravilhosa de informação, mas também uma terrível fonte de desinformação, quando utilizada sem reservas. 
Outro boato que circula há cerca de um ano é o de que o texto "A Geração à Rasca - Por Nossa Culpa" foi escrito por Mia Couto: não é verdade. Para confirmarem o rumor, aqui fica o link do texto original, no blog ASSOBIO REBELDE

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O chão pode esperar

Regressa à vida pé ante pé, a cabeça forçosamente erguida, mesmo que não sinta altivez no coração ou pensamento, são as ordens dos médicos. Sorrindo, ocorre-lhe que é estranha terapia, aquilo de não a deixarem pousar os olhos no chão, como quem exclama, de mão no ombro do outro

Não desanime! Cabeça erguida, sempre!

Aos poucos vai recuperando alguns gestos - aqueles que todos realizam na certeza inconsciente  de serem gestos assegurados na eternidade - caminhar, ler, escrever, cozinhar. Até o que ela odeia já pode fazer: passar  a ferro. Imagina ela, não perguntou, mas se há vapores culinários, decerto lhe será possível pôr os trapos enrugados em dia. Esforços não. Gestos bruscos também não. E a cabeça erguida, sempre! Desanimar é que também não.
Ela sente o consolo de ver uma tímida agenda formando-se com visitas às escolas, em sessões de autor com um dos seus livros. O trabalho aguarda, em documentos Word, salivando, o motor libertando uma voz rouca, de animal, com ganas de investir com o corpo inteiro; e ela ansiando por ver, esperando pela revelação do seu próprio investimento, que não seria fácil contabilizar, de entre os dez anos que lhe foram roubados. Quer libertar o seu peso, tornar-se mais  leve, mais livre para si e para os que estão perto. Quer ir mais longe.
Por hoje, foi celebrar com uma caminhada. O corpo da estrada em obras também, em bizarra sintonia, a fazer-se macio e a ganhar um pouco mais de vida. Ela recupera o aroma das queimadas, do sol na pele. As pernas deslocando-se, pé ante pé, para não assustarem a terra. De cabeça erguida, quase sempre, avança, apesar do medo. O céu não é o limite, pois lá em cima moram as estrelas, as nuvens e os anjos. Entretanto o chão pode esperar.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Invisível

A vida fazendo-se em torno do corpo, limbo e malabarismo, labirinto de gotas químicas, a roubar à memória atenções que são puro desperdício do que é maior e aguarda. Que sendo tão pouco me faz respirar.
Horários, contagens, gotículas e substancias, a minimizar o desconforto e o meu desconsolo de os ver reinventando-se. A chantagem da dor. O corpo vencendo a batalha; o espírito em apatia, tornando-se rancor, na vertigem sem queda nem terra onde pousar a sua embaciada luz, bafejada pelo cansaço, invisível sem transparência. Intangível porque nada.
A vida em (sala de) espera, os ossos arrastando-se na mesma estrada, quilometrando os passos em corredores indistintos. Os olhos de mãos em mãos que examinam, a avaliar a resposta do corpo, que nada entende, não quer entender este jogo: é preciso somar mais um dia, à soma de muitos dias. Porque sim. Porque não. Apenas a incerteza dá sinais de confirmar-se num novo dia, em falsa esperança, data escorrendo como concha de água, na minha mão sedenta.
A culpa é um fugitivo ocultado nas sombras. O castigo é uma invenção dos deuses e há homens semideuses e semáforos, e homens seminus e semínimos, que pouco ou nada podem senão cumprir, passo a passo.
E a culpa dentro de mim, por culpa desta minha invisibilidade. Não fosse o desespero, quase apetecia rir, dar uma palmada nas costas do destino, amigo devasso que há décadas me vai devassando e me tem debaixo de olho. Mas permaneço de olhos postos no chão. Há muito perdi o meu olhar. Semiferida que ando, grito pelo olhar de um semideus, ainda que morto.