sexta-feira, 29 de abril de 2016

Dois irmãos

Entretidos a dispersar os cardumes, eu e o meu irmão trabalhávamos os músculos das pernas, sem saber; o nosso chapéu, a sombrinha, era mantermos a cabeça molhada todo o dia e, para isso, íamos ao banho constantemente. A praia era mesmo ali, a poucas centenas de metros do cais de abrigo, o que era perfeito para desafios a nado:
– Agora até ali ao «Rosinha»!
– Esse é qual? Não estou a ver…
(O meu irmão sempre foi míope e na praia, como retirava os fundos de garrafa, não via nada).
– Ali, aquela chata encarnada e azul! – Apontava eu – o último a chegar é um peixe podre!
Escalávamos rochas à caça de caranguejos e mexilhões – com canivete e tudo –, e, volta e meia, lá tínhamos um encontro com uma alforreca, um peixe-aranha ou um casalinho de namorados que aí tinha ido para estar à vontade, antes de virem uns putos desmancha-prazeres. Com imagens adequadas a maiores de 18, os pés escaqueirados pelas rochas ou a pele a arder, com a carícia das alforrecas, nem por isso ficámos traumatizados. Agora têm um pesadelo, metem-nos logo no psicólogo. 

(excerto do próximo livro, em pré-publicação)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Auto-liberdade

Reflexo de selfie, ao chegar a casa, antes de escrever isto.
No feriado que celebra a Liberdade fui caminhar. Estreei o boné das "Sisters", oferecido pela minha editora, Babel, na Feira do Livro do ano passado, e percorri a estrada, vestida com cores garridas e look desportivo, como se fosse uma desportista (nem quando pratiquei desporto fui desportista). Os pés conhecem a estrada de cor, permitem que a mente vá divagando entre o lançamento do próximo livro; as bodas de diamante recentes dos meus pais; um texto a escrever; o filme "O Último Tango em Paris", que vi ontem, pela primeira vez na minha vida; a audácia que pretendo conquistar na escrita. Pela primeira vez, também, sinto a sede de sair da zona de conforto, atrever-me a não travar o que pretendo contar ou fingir, como ficcionista, face ao medo quanto ao que os Outros irão pensar. Medo não será, antes respeito, mas não estou certa de haver grande diferença entre ambos. Liberdade também é isso: a rédea que damos a nós próprios. Estarei eu a menosprezar os leitores? Até que ponto estaremos presos entre as limitações que há muito impusemos a nós mesmos?

Existem as flores


Papoila  encravada

Escrevo para dizer que escrevo.
Enquanto os cravos vermelhos são tudo
O que os olhos alcançam
por estes dias e eu,
Escondida em vida silvestre,
Continuo a abraçar papoilas
Cujo tom escarlate, salpicando os prados,
Sempre me lembrou a liberdade
mais verdadeira
Onde a natureza escuta os nossos gritos
E nos afaga a solidão
Com a doçura de um beijo molhado no vento.

Sim, são papoilas, os meus cravos.

Escrevo para dizer que escrevo.
Enquanto os salgueiros compõem a manta morta;
Húmus, folhas secas, cadáveres e raminhos,
Decomposição mal disfarçada,
Em festins e algazarras, encravada em ideais;
Dentes de leão na brisa caindo, desmembrados,
Sobre quatro décadas de terra que era fértil.

Escrevo para dizer que escrevo a liberdade.
Que a cada dia tentamos segurar
Como quem prende nos dedos uma rosa de espinhos…

Nada somos no silêncio
E é por isso que existem as flores.

(in Fora do Mundo, Poética Edições, 2014, p. 117) 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

60 anos - Bodas de Diamante

1974
1972
Entre o dia real de casamento (21 de Abril de 1956) e o dia de celebração (amanhã, dia 23 de Abril de 2016), fica este post, temperado pelo espanto e orgulho de ter os meus pais com saúde, felizmente, e juntos, ainda, ao fim de 60 anos de casamento. Não é para todos. Deixo aqui um texto que há-de ser adaptado, para integrar um qualquer livro, e que escrevi há tempos em honra de ambos pois, como sabem, o mar é elemento essencial na nossa vida. Os anos passam, mas ficam as recordações mais profundas.

OS ÁLBUNS DE FOTOGRAFIAS 

Depois de folhear os álbuns de fotografias dos meus pais, os velhos e pesados álbuns de Sesimbra, recebi muito mais do que esperava. Em princípio, pretendia apenas caçar as imagens preferidas e digitalizá-las, com a ajuda do Nanã, para construir o meu próprio inventário de recordações. 
Ao fim de duas tardes de trabalho em roda dessas fotografias, cujas cores, há muito perdidas, o Nanã ia recuperando, ficou a aceitação dos meus primeiros vinte anos de vida. Não foi somente o averiguar de memórias, mas sim a confirmação do passado. Quando, num curto espaço de tempo, nos tornamos observadores da nossa própria vida, revisitando o berço, as casas, as metamorfoses do corpo, tomamos consciência do lugar que ocupamos na nossa família. Hoje, com trinta e oito anos, revejo-a com olhos adultos e sorrio: afinal, não há ali nada de dramático, injusto, errado: são apenas vidas a ganhar forma, a transformar-se. A chegada e a partida de uns, os rostos de outros (demasiados) que se retiraram para sempre − não apenas da nossa vida, mas da deles: “Olha…”, digo, às imagens que me recordam as pessoas há muito desaparecidas: os padrinhos, os eternos amigos (que afinal não eram eternos), o avô, a avó, o outro avô, a outra avó, o cão, o outro cão, a saudade. Lugares e paisagens transfigurados (irremediavelmente perdidos), barcos que já não poderão levar-nos pelas águas de tantos verões. Filha de um oficial de marinha, encontro agora o verdadeiro espaço que esse elemento ocupou na nossa família. Vejo, com uma nitidez inventada, as inúmeras viagens a dois que os meus pais iam fazendo, entre filhos. Fomos crescendo, entregues a nós próprios, desenvolvendo um instinto de sobrevivência que, em parte, se foi manifestando sob a forma de egoísmo. Sei que eu e os meus irmãos (rapazes) saímos à minha mãe nas doses generosas desse traço de carácter, mas até nessa verdade encontro perdão. Conciliei-me com as viagens frequentes que os levavam para parte incerta. Pelo menos, assim eu as encarava, sob o olhar ingénuo da minha (pouca) idade. Afinal, eram dois. Um casal. É preciso tempo para se ser apenas dois. A minha mãe sempre bonita, sonora, franca, uma fortaleza elegante. O pai, insondável, meigo, silencioso, um rochedo no mar alto. Rochedo e fortaleza. O mar outra vez. Cinco filhos. A casa sempre cheia, em movimento e caos. Ruído, gritos, modas, queixumes, risos, portas que batem com estrondo. É preciso respirar, sair. Hoje, que há muito vivo longe da sua asa e os vejo a envelhecer, resta-me a nostalgia e compreendo, finalmente: às vezes, é preciso ser egoísta. Traumas? Alguns. Contudo, nenhum de nós foi enclausurado em quartos escuros, pelo contrário, crescemos com dias solarengos e arejados, correndo pelos campos, ou navegando rumo ao azul escuro e límpido. Não raro se fecharam os olhos, muitas regras se quebraram. Caímos, chorámos, aprendemos. Fomos fortes, sempre que nos levantámos. Crescemos. Os meus pais ali, presentes, por entre os seus próprios temporais.
No segundo álbum, a infância abandona-me, até que me transformo numa mulher. Fiz as pazes com a minha ingenuidade e com os erros que se escondem por detrás das Veras que vou encontrando ao longo das páginas: intimidades e angústias que vou reconhecendo à medida que me cruzo com datas, vestidos, lugares. Afinal, eram tão poucos os anos, tão frágil a sabedoria. Namorados e amores que me acenam, mesmo sem aparecerem na fotografia, pois toda a vida que circunda aquele rectângulo de papel surge de repente, mostrando o invisível. É enternecedor assistir de perto a essa mudança desconcertante, veloz, desapiedada. Algures, por entre as fotografias, encontro o carácter fugidio do tempo. Assusto-me. À medida que avanço em direcção ao fim, concluo, com tristeza, que a vida nos foi separando e que as reportagens sempre atentas do pai se vão limitando ao casamento dos filhos, aos baptizados, ao aniversário de alguém que, em boa hora, serviu para reunir outra vez uma família que vai engordando e dispersando-se, como os ramos de uma árvore ao vento. Os momentos valiosos de cada um, que máquina nenhuma registou, são as folhas que ninguém conseguirá agarrar. Espalhámo-nos pelo país, os netos cresceram sem grandes cumplicidades entre eles. Nós, os irmãos, estamos prestes a ser avós, mal tendo ocasião de acompanhar a vida dos nossos sobrinhos. Tios, primos e sobrinhos ganharam para mim uma conotação natalícia…
É urgente que nos reunamos regularmente. Há que construir novos álbuns, prender os dias ao papel.
Fecho estes com orgulho, apesar de tudo.
Esta é a minha família. A minha vida.
(Verocas, Bracial, 14 de Abril de 08)

Beijos e abraços aos meus quatro irmãos e, em especial, aos meus queridos pais, nesta data digna de muitas celebrações.
mãe, 5 filhos e algumas visitas: a mesa tantas vezes cheia...

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Adeus, Prince

Aqui fica um pouco da sensualidade das produções de Prince. Queria o tema «When doves cry", o primeiro tema que conheci dele, há muitos, muitos anos, mas não consegui incorporar o video. Este video, também antigo, e em vez de Purple Rain, tão emblemático, será talvez uma forma menos triste de lhe dizer adeus.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Cabeças

«Fiquei de lá passar às oito. Quando cheguei a casa eram ainda cinco.
 Tinha a intenção de escrever um bocado, como tenho feito ultimamente, mas...zero. Peguei num livro interrompido do Hemingway e nem assim fui capaz de me concentrar; podia beber um whisky para descontrair, mas era demasiado cedo e ela não gosta do cheiro; acabei na minha passadeira: quatrocentas calorias. Apressei-me a cortar o cabelo no centro comercial, daquelas casas em que não vêem pessoas, só “cabeças”, tipo matadouro: cheguei a ouvi-las dizer:
– Ó Isabel, não me marques mais cabeças, que já tenho o Domingo cheio! Pra qu’é que serve a agenda, pá?!
Ou esta frase “riquinha”:
– Porra, pá, tantas cabeças por dia, uma pessoa té nem tem tempo de ir mijar! E estou cá cuma larica que nem me aguento!
Isto enquanto esfregava a minha. E com força, como se eu não a lavasse há uma semana.
– Estou a ser bruta? Você diga!
(Que sim, que estava a magoar um bocadinho).
– Ai, o senhor desculpe, mas é que aqui a gente ao fim de semana é isto.»
(ainda "em obras de (re) construção", mas para breve). 

sábado, 16 de abril de 2016

terça-feira, 12 de abril de 2016

Jogo de sombras

Ando a sentir-me qual Julien Carax, n' «A Sombra do Vento», de Carlos Ruíz Zafón, trabalhando durante o dia nos romances dos outros, e à noite no meu. Uma questão de equilíbrio, e sem a maldição da personagem de Zafón, graças a deus. Também não tão glamorosa ou encantatória, mas não se pode ter tudo.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Retoques

Há algo de extraordinário no poder de reconstrução que a escrita possui. Personagens há muito paralisadas em tempos e lugares, limitadas pelas acções e palavras que realizaram numa outra vida e que, saindo do baú, podem ser arejadas, dizer mais ou menos coisas, ter novas ideias e alegrias, outros receios e hesitações; mais uma oportunidade de se explicarem por palavras suas, distintas, já que houve ocasião de pensarem melhor, de amadurecer. Poderão agora encontrar-se com a família e os amigos, os vizinhos, os estranhos da avenida, que andaram na sua órbita; presenteá-los com novos diálogos, surpreendê-los, escolherem empreender uma viagem diferente, inventarem outras formas de se perder ou salvar, mesmo que o escritor lhes apresente os velhos obstáculos. De caneta na mão, numa tarde soalheira, o escritor vê o protagonista sair de casa e murmura,  Lá vai ele outra vez ao fim de tantos anos, por aquela rua... o que irá ele dizer hoje? - perguntando-se, O que diria ele, se o tivesse ido buscar numa noite de chuva...?
Quando é que um livro está terminado? Quando é que é definitivo?
Lembra-me aquela história do pintor que dá ainda os últimos retoques nos seus quadros já pendurados na sala de exposições...e já vendidos. Assim são alguns escritores.
© William Hogarth, Time Smoking a Picture (c. 1761, Metropolitan Museum)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Jacob Collier

Este miúdo é adorável. Sigo-o desde 2012, quando o conheci numa versão multitrack do "Isn't She Lovely", de Stevie Wonder.
Finalmente vem aí o seu primeiro álbum de originais! E nome do mesmo faz todo o sentido: "In My Room". É tudo feito por ele, um enorme talento, genuíno, irresistível. Este miúdo vai longe. Ora escutem. Eu sou fã.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Quase

Enrodilhada nesta tarde de chuva e numa tese interminável, que revejo desde o dia 1 de Dezembro. Grata por ter trabalho regular, a partir de casa. Gratidão imensa por esta boa aposta. Saí ao sol apenas para comprar um par de sapatos - sábado serei Cinderela cantora, de formiguinha a cigarra, de cigarra a formiga novamente, os pés enfiados em chinelos quentes. A chuva na minha janela e a tese a chegar ao fim, quase...quase.. .a permitir-me regressar aos meus projectos. Suspiro, solidária com as tímidas petúnias, fustigadas pelo vento. Como eu, não podem fugir.
Do meu "escritário"

domingo, 27 de março de 2016

Mais luz

Misty #7
© Nanã Sousa Dias
Caindo em Neblina

Afundo os meus pés
Numa alameda de brumas,
Como anjo perdido 
Na terra dos homens;
Flutuando sob a luz,
Num chão invisível,
Onde teimo em quebrar
As minhas plumas.
Não moram ali, as minhas nuvens.
Quedando-me na queda relembro, enfim,
Que o chão que pisava
Era véu rasteiro, sem corpo ou alicerce,
Um fantasma friorento
Que se evola, ferozmente,
Quando o dia aquece.
(...)

(in «Fora do Mundo, excerto, p. 50)



quarta-feira, 16 de março de 2016

Tim Burton

E porque tento não perder um único filme deste realizador fantástico, aqui fica o que irá estrear em Setembro, baseado num bestseller  do autor americano Ramson Riggs.
O livro de Ramson Riggs, que deu origem ao filme

quarta-feira, 9 de março de 2016

Antonio Serrano

Para nos aquecer neste dia de chuva. O que eu gosto deste miúdo a tocar. Já tive o privilégio de o ouvir ao vivo, por duas ocasiões, e fiquei fã.

terça-feira, 1 de março de 2016

Um pouco mais de luz

Manhã passada em Coimbra e um regresso de corpo mais leve. Adeus pomada e compressas, até ver! E VER é agora a minha missão, ao longo de longos meses ainda, enquanto, aos poucos, vou recuperando autonomia e dignidade, os gestos a serem meus outra vez, uma colecção maior de gestos que me deixa com um sorriso parvo. Diria, um sorriso parvo na cara, não fosse pleonasmo já que a boca está sempre ali, mas apetece, apesar de o ter também por dentro. Março começou  e deu-me este piscar de olho à esperança.
Uma sopa e um café em Óbidos, um salto a Torres Vedras e, prestes a chegar a casa onde os cães nos aguardam sem saber que já terão direito a aninhar-se de novo no conforto do lar, perto dos donos, uma visita ao Golfinho Azul, também ele de rosto novo, com um novo olhar sobre a Praia de S. Lourenço. O sol brilha, os pássaros cantam, a vida é bela, pelo menos hoje.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Autoria

Efígie de César (s/d)
O poema "Muere Lentamente", atribuído por engano a Pablo Neruda, circula há anos na Internet sem que nada nem ninguém seja capaz de deter a bola de neve, ao ponto de, em Espanha, muitas pessoas terem recebido esses versos como votos online de um feliz Ano Novo: "Morre lentamente quem não viaja, Quem não lê, Quem não ouve música, Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito, Repetindo todos os dias o mesmo trajeto..." 
Assim começa o poema que não se chama Morre Lentamente, mas A Morte Devagar, e não é do poeta chileno como assegurou a Fundação Pablo Neruda, mas da escritora e poeta brasileira. MARTHA MEDEIROS. Não é "Muere Lentamente" o único "falso Neruda" que encontram os internautas. Também costumam atribuir ao autor do Canto Geral os poemas "Queda Prohibido" (que é de Alfredo Cuervo, escritor e jornalista espanhol), e "Nunca Te Quejes", autor desconhecido para a Fundação Pablo Neruda.
Este é um dos problemas do uso indiscriminado e ingénuo da Internet: uma ferramenta maravilhosa de informação, mas também uma terrível fonte de desinformação, quando utilizada sem reservas. 
Outro boato que circula há cerca de um ano é o de que o texto "A Geração à Rasca - Por Nossa Culpa" foi escrito por Mia Couto: não é verdade. Para confirmarem o rumor, aqui fica o link do texto original, no blog ASSOBIO REBELDE

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O chão pode esperar

Regressa à vida pé ante pé, a cabeça forçosamente erguida, mesmo que não sinta altivez no coração ou pensamento, são as ordens dos médicos. Sorrindo, ocorre-lhe que é estranha terapia, aquilo de não a deixarem pousar os olhos no chão, como quem exclama, de mão no ombro do outro

Não desanime! Cabeça erguida, sempre!

Aos poucos vai recuperando alguns gestos - aqueles que todos realizam na certeza inconsciente  de serem gestos assegurados na eternidade - caminhar, ler, escrever, cozinhar. Até o que ela odeia já pode fazer: passar  a ferro. Imagina ela, não perguntou, mas se há vapores culinários, decerto lhe será possível pôr os trapos enrugados em dia. Esforços não. Gestos bruscos também não. E a cabeça erguida, sempre! Desanimar é que também não.
Ela sente o consolo de ver uma tímida agenda formando-se com visitas às escolas, em sessões de autor com um dos seus livros. O trabalho aguarda, em documentos Word, salivando, o motor libertando uma voz rouca, de animal, com ganas de investir com o corpo inteiro; e ela ansiando por ver, esperando pela revelação do seu próprio investimento, que não seria fácil contabilizar, de entre os dez anos que lhe foram roubados. Quer libertar o seu peso, tornar-se mais  leve, mais livre para si e para os que estão perto. Quer ir mais longe.
Por hoje, foi celebrar com uma caminhada. O corpo da estrada em obras também, em bizarra sintonia, a fazer-se macio e a ganhar um pouco mais de vida. Ela recupera o aroma das queimadas, do sol na pele. As pernas deslocando-se, pé ante pé, para não assustarem a terra. De cabeça erguida, quase sempre, avança, apesar do medo. O céu não é o limite, pois lá em cima moram as estrelas, as nuvens e os anjos. Entretanto o chão pode esperar.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Invisível

A vida fazendo-se em torno do corpo, limbo e malabarismo, labirinto de gotas químicas, a roubar à memória atenções que são puro desperdício do que é maior e aguarda. Que sendo tão pouco me faz respirar.
Horários, contagens, gotículas e substancias, a minimizar o desconforto e o meu desconsolo de os ver reinventando-se. A chantagem da dor. O corpo vencendo a batalha; o espírito em apatia, tornando-se rancor, na vertigem sem queda nem terra onde pousar a sua embaciada luz, bafejada pelo cansaço, invisível sem transparência. Intangível porque nada.
A vida em (sala de) espera, os ossos arrastando-se na mesma estrada, quilometrando os passos em corredores indistintos. Os olhos de mãos em mãos que examinam, a avaliar a resposta do corpo, que nada entende, não quer entender este jogo: é preciso somar mais um dia, à soma de muitos dias. Porque sim. Porque não. Apenas a incerteza dá sinais de confirmar-se num novo dia, em falsa esperança, data escorrendo como concha de água, na minha mão sedenta.
A culpa é um fugitivo ocultado nas sombras. O castigo é uma invenção dos deuses e há homens semideuses e semáforos, e homens seminus e semínimos, que pouco ou nada podem senão cumprir, passo a passo.
E a culpa dentro de mim, por culpa desta minha invisibilidade. Não fosse o desespero, quase apetecia rir, dar uma palmada nas costas do destino, amigo devasso que há décadas me vai devassando e me tem debaixo de olho. Mas permaneço de olhos postos no chão. Há muito perdi o meu olhar. Semiferida que ando, grito pelo olhar de um semideus, ainda que morto.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Luísa Cortesão

Uma fada fechou as asas para sempre. Uma fada irreverente, dedicada a causas pelas quais vale a pena lutar, imaginativa, talentosa. Partiu aos 65 anos. Uma fada velha, portanto. velha como ela própria fazia questão de se autodenominar. Resta o consolo de imaginarmos que a Luísa, lá onde estiver, irá deixar as suas mensagens e o encanto das suas ilustrações, quiçá nas estrelas ou no fundo do mar.








Para conhecerem melhor Luísa Cortesão, voem até aqui

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Ar

Por onde ando eu, que não me encontro?
Perdida algures, em linha recta, curvada perante o que tem de ser.
Para quando o ser de mim? A leveza da liberdade, a fim de me erguer do chão e...

                                                                  r?                                                              
                                       a
                  o
v

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Blog versus Redes Sociais

Venho aqui confessar algo que ando para admitir há um tempo. Salvo um ou outro texto inédito, aquelas pequenas prosas espontâneas que aqui venho deixar, não há muita diferença entre isto e o que publicamos no facebook ou no Twitter. Habituámo-nos a partilhar Arte, lugares, recordações e nostalgias, receitas, aquisições, projectos e sonhos, apelos, raivas, indignações (alguns até poemas inéditos), bem como homenagens a terceiros, do foro privado ou figuras públicas, medos, alegrias, dúvidas existenciais, humores vários, inclusive o bom: o bom-humor que, graças a deus, não nos vai faltando e ainda é de graça.
E afinal, para que servirá o blogue, se aqui abaixo há uma aplicação para partilhar aqui e ali, o que faço quase sempre, no facebook, aquela festa onde todos se encontram e que é, afinal, onde me lêem na maioria e deixam comentários?
É isso. Para quê alimentar outra casa?
Tirando esses textos inéditos, o fundo negro, a casa decorada e arrumada como eu bem entender, a morada distinta, que posso divulgar com facilidade, tirando a ilusão de intimidade, de montra "a solo", tirando ser sempre uma janela aberta para o mundo, sem bloqueios, o aspecto atractivo da página privada, a organização das mensagens por calendário e em etiquetas, tirando, ainda, ser um canto só meu, onde me encontram a sós...bom, com tantos "tirando", talvez ainda valha a pena.
Será? Digam-me vocês. A ironia é que, para conseguir alcançar mais leitores, vou agora fazer o quê, adivinham? Pois é, partilhar isto... na minha página oficial do facebook, e também na privada que, oh, ironia!, tem mais reacções.
Era a isto que eu me referia.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

À sua custa

Adoro os títulos intermináveis de livros seculares como este, do séc. XVII, verdadeiras sinopses cheias de graça. Reparem no pormenor da expressão "á sua custa", equivalente à actual "edição de autor".

Dialogos de Francisco de Moraes, autor de Palmeirim de Inglaterra. Com hum desengano de Amor, sobre certos amores, que o Autor teve em França com hu[m]a dama Francesa da Raynha Dona Leanor. Offerecidos a Gaspar de Faria Severim Executor môr do Reyno, &c. - Em Evora, : por Manuel de Carvalho, & á sua custa, 1624. - [3], 47 f. ; 8º (25 cm)"Com as licenças necessarias". - Barbosa Machado 2, 209

sábado, 16 de janeiro de 2016

Haley Tuck

Conhecem esta versão do tema dos Maroon 5? Uma pérola com gostinho de coisas antigas. No próximo dia 23 Haley Tuck virá ao CCB, com Sarah McKenzie. Bom fim de semana, sim?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Adeus, Bowie

Estes videoclips fizeram parte da minha adolescência. Eram das músicas que no verão, na discoteca Belle Époque, em Sesimbra, me puxavam sempre para a pista de dança. De tal maneira David Bowie se transformava, que muita gente o deve ter visto em vários filmes sem o reconhecer, tal como em "A Última Tentação de Cristo" (1988) ou "O Grande Truque" (2006)



sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Barbara Hannigan

Maravilhosa, a Barbara Hannigan. Canadiana (n. 1971), soprano lírico, expoente na ópera contemporânea, bailarina, actriz, uma espécie de super-mulher. Sou fã. Obrigada por esta descoberta, Nanã. Oiçam-na, vejam-na e deliciem-se como eu.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Só a chuva

Vista do meu "escritário", hoje
Só tenho chuva, da minha janela. O momento da fotografia passou, agora tudo é escuridão. Apenas o tic-tic espaçado do aquecedor minúsculo ao meu lado, acendendo e apagando à mercê do termóstato, o ping-ping-ping da água tombada dos céus, o vento a varrer  o vale, a lâmina gelada entrando pela frincha da janela tosca Os cães deitados, no silêncio do ócio, vida de cão. E os meus dedos sapateando no teclado, uma das mãos fria, a outra quente, vá-se lá saber porquê, talvez por ser a do lado do coração, também nós à mercê da termostática, a acender e a apagar.
É hora de fechar as portadas, cerrar os olhos da casa, a abreviar o frigidez da estação. Lamento não poder cerrar as portadas do tempo, para abreviar o meu inverno.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Exmo. Sr. 2016

Exmo, Sr. 2016

Ainda não fomos apresentados, mas tomei conhecimento de que será o novo Administrador do Departamento Temporal nesta empresa e, como accionista de médio prazo, gostaria de lhe fazer chegar os objectivos para a nossa reunião de amanhã, no seguimento da experiência adquirida com o seu antecessor, cujos resultados ficaram muito aquém das expectativas.
É urgente baixar a despesa lacrimal e aumentar os proventos de felicidade. Atribuir subsídio de alimentação aos pobres e aflitos, bem como assegurar, na saúde e na doença, os cuidados a todos os empregados e desempregados nesta nova colaboração cronológica.
É necessário que seja criada uma Secção de Abraços e Diálogo, dependente do Departamento de Recursos Humanitários, cujo capital teve um  aproveitamento deficiente no ano que agora finda. Sugiro também que se equacione, sem demasiada logística, que sempre atrasa a tomada de decisões e a concretização das metas delineadas, a construção de um Gabinete de Maior Justiça, que poderá ficar sob a tutela do extinto Dar Mais Que Receber (DMQR), que pretendemos reabilitar, após as obras necessárias.
Por fim, e porque não pretendo alongar-me apelando ao óbvio, peço que sejam dadas instruções, no sentido de assegurar reuniões com a minha equipa, a título regular, com o intuito de relembrar tradições que tendem a desvanecer no departamento ocupado agora por V. Exa.

Antecipadamente grata pela atenção dispensada,

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