sexta-feira, 27 de março de 2015

Cinco contos

Era assim, noutro tempo. Guardávamos estas e outras na carteira, numa época em que mal usávamos computadores, e em que tudo o que escrevíamos ficava impresso em papel. 
Em arrumações, no pequeno escritório no qual finjo trabalhar, na minha casa (e digo finjo porque o que vamos correndo por gosto não nos cansa), dei com cinco contos que julgava perdidos. Não destes, que já não fazem falta - já que estamos rotulados com a palavra Europa a ferro e fogo, doa o que doa -, mas dos outros, os contos que se escrevem e se lêem. 
Cinco contos que julgava perdidos irremediavelmente, desde o dia em que descobrimos, com a ajuda de um engenheiro informático amigo, que o meu velho computador, já reformado entretanto, apagava os ficheiros danificados, ao invés de os meter de quarentena. Eis que dou com as folhas dispersas, impressas com cinco contos que se escondiam entre resmas de papel de rascunho, cujo verso sempre aproveito. 
Cinco contos que ando a reescrever cerca de dez anos depois. Cinco contos que decidi não incluir, ao candidatar-me ao Prémio Revelação APE/Babel, na categoria de literatura para a infância e juventude, e que redescubro agora, uns para uma hipotética sequela do Coisandês (que, para minha felicidade, ganhou o prémio), outros para adultos. Devemos escrever sem pensar nos leitores, dizem. Alguns foram escritos assim, e por isso transgridem, não são adequados a crianças. Ou estarei a menosprezar a sua maturidade? É difícil saber. Pelo sim pelo não, deixei ficar as transgressões e troquei em miúdos estes cinco contos: uns em moedas, outros em notas; uns para jovens, outros para adultos.
Apesar disso, não deixam de ser, no todo, cinco contos. E ainda bem que temos papel. 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Tomas Tranströmer

Estocolmo, 1931-26 Março 2015
Poeta, tradutor e psicólogo sueco

PÁSSAROS MATINAIS 

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.
Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.
Não há vazios por aqui.
Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

terça-feira, 24 de março de 2015

Adeus, Herberto Helder

A Bicicleta pela Lua Dentro - Mãe, Mãe

A bicicleta pela lua dentro - mãe, mãe - 
ouvi dizer toda a neve. 
As árvores crescem nos satélites. 
Que hei-de fazer senão sonhar 
ao contrário quando novembro empunha - 
mãe, mãe - as tellhas dos seus frutos? 
As nuvens, aviões, mercúrio. 
Novembro - mãe - com as suas praças 
descascadas. 

A neve sobre os frutos - filho, filho. 
Janeiro com outono sonha então. 
Canta nesse espanto - meu filho - os satélites 
sonham pela lua dentro na sua bicicleta. 
Ouvi dizer novembro. 
As praças estão resplendentes. 
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto. 
Aviões passam no teu nome - 
minha mãe, minha máquina - 
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve. 

Avança, memória, com a tua bicicleta. 
Sonhando, as árvores crescem ao contrário. 
Apresento-te novembro: avião 
limpo como um alfabeto. E as praças 
dão a sua neve descascada. 
Mãe, mãe — como janeiro resplende 
nos satélites. Filho — é a tua memória. 

E as letras estão em ti, abertas 
pela neve dentro. Como árvores, aviões 
sonham ao contrário. 
As estátuas, de polvos na cabeça, 
florescem com mercúrio. 
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro, 
é a neve avançando na sua bicicleta. 

O alfabeto, a lua. 

Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem. 
Era pesada, ao colo, cheia de neve. 
la dizendo o teu nome de janeiro. 
Enxofre — mãe — era o teu nome. 
As letras cresciam em torno da terra, 
as telhas vergavam ao peso 
do que me lembro. Começo a lembrar-me: 
era o atum negro do teu nome, 
nos meus braços como neve de janeiro. 

Novembro — meu filho — quando se atira a flecha, 
e as praças se descascam, 
e os satélites avançam, 
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem 
(eu vi): era pesada. 

O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas. 
Laranjas de pedra - mãe. Resplendentes, 
estátuas negras no teu nome, 
no meu colo. 

Era a neve que nunca mais acabava. 

Começo a lembrar-me: a bicicleta 
vergava ao peso desse grande atum negro. 
A praça descascava-se. 
E eis o teu nome resplendente com as letras 
ao contrário, sonhando 
dentro de mim sem nunca mais acabar. 
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua 
batia pelo ar fora. 
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios 
do meu nome negro, e nunca mais 
acabava de nevar. 

Era novembro. 

Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio 
crescendo com toda a força em volta 
da terra. Mãe - se morreste, porque fazes 
tanta força com os pés contra o teu nome, 
no meu colo? 
Eu ia lembrar-me: os satélites todos 
resplendentes na praça. Era a neve. 
Era o tempo descascado 
sonhando com tanto peso no meu colo. 

Ó mãe, atum negro — 
ao contrário, ao contrário, com tanta força. 

Era tudo uma máquina com as letras 
lá dentro. E eu vinha cantando 
com a minha paisagem negra pela neve. 
E isso não acabava nunca mais pelo tempo 
fora. Começo a lembrar-me. 
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos 
de peixe, tua coluna 
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha 
cantando na neve que nunca mais 
acabava. 

O teu nome negro com tanta força — 
minha mãe. 
Os satélites e as praças. E novembro 
avançando em janeiro com seus frutos 
destelhados ao colo. As 
estátuas, e eu sonhando, sonhando. 
Ao contrário tão morta — minha mãe — 
com tanta força, e nunca 

— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora. 

Herberto Helder, in 'Poemas Completos'

Funchal, 1930 - Cascais, 24 Março 2015

domingo, 22 de março de 2015

gota de março


No Dia Mundial da Água, nesta tarde de céu cinza-claro, a anunciar chuva, deixo uma cantilena fresca, acabada de colher dos meus dedos.

Gota a gota
pingue pingue
enche o rio
que escorre
a esperança de ti
e de mim
não se apara
não se afaga
e o sentido mordido
pela fúria
pensamento
adormecido
água escorre
no chão seco
e branco e negro
mármore bolo
doce em boca
aguada
das ideias
primavera
sem travão
em gota fina
bebe a alma
o corpo nu
transpira o medo
a pele vomita
a toxina
gota agreste
planta a terra
seca, mãe
do meu futuro
em sombras
mornas
na folhagem
a matar-me
a solidão.

(© Vera de Vilhena, inéditos)
Roubei a imagem aqui

sábado, 21 de março de 2015

Dédalo



É agora, ébria de mim,
O momento de ser eu,
Sem erro nem desvio,
Sem destilar
a
minha
dor.

Ser eu, mais ninguém,
A morder a mágoa de mim mesma;
Sem cinto nem travão,
No impulso etéreo
Que me
leve
aonde
for.

É agora que choro, sem crosta nem escudo,
Que verei quem se encontra
em mim.

Onde estou eu, quando me revelo?
Por onde vai o meu ser verdadeiro?
Sem firmeza, sem crença,
Denúncia ou enleio.

Para onde vou,
enquanto
c
a
i
o?
(...)

(excerto de «Dédalo», in «Fora do Mundo, Poética Edições, 2014)

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pai

Meu pai, 1972
O meu pai tem quase 84 anos. Quando telefonei esta tarde, para o carinho da praxe, considerando a data de hoje, estava de saída para o veterinário (dois dos onze gatos tinham consulta), depois de já ter ajudado a preparar, imagino eu, o almoço para si e para a minha mãe, e realizado todos os gestos a que se entrega há tantos anos, numa rotina cinzelada pelo tempo.
O meu pai é marinheiro. Oficial da Marinha. Reformou-se como comandante, desembarcou de vez e foi morar com a minha mãe para a grande casa de férias, que alberga uma enorme parte das minhas recordações. Na casa, espalhado pelas paredes toscas, pintadas de branco-espuma, em armários e gavetas, sobre os móveis, sempre houve um rol de objectos que contam histórias do mar antigo e recente: astrolábios, sextantes, compassos, bússolas, cartas e triângulos náuticos, lemes, nós, pequenas réplicas de embarcações, bandeiras náuticas, altímetros... mas também cintos de chumbo, barbatanas, óculos de mergulho, rações de emergência para náufragos, dentaduras de tubarão e até um pequeno crocodilo embalsamado, em cuja bocarra aberta surgiam teias que ninguém queria retirar.
Uma amiga, que há treze anos acompanha o que vou escrevendo, disse-me um dia que eu tenho "essa coisa do mar, por causa do teu pai". Deve ser a tal história, quem sai aos seus. Haverá coisa mais literária do que um farol, sempre de sentinela, num cabo ou promontório batido pelas ondas? Pronto. Parece que os meus textos estão cheios de coisas marítimas, metáforas, lembranças, alusões a cheiros e texturas, inclusive o perfume que se escapava, em serpentinas, dos vários cachimbos do pai João Manuel. Há muito tempo que deixou de fumar. Mas ainda cuida do jardim, que pede ao meu pai esforços que me custa imaginar, além dos muitos gatos que vão tendo desde que lhes ofereci o primeiro - Fellini - ao engravidar do meu filho.
O meu pai, em terra firme desde que se reformou das viagens que o levavam para longe de casa durante meses, permanece, de uma forma ou de outra, ligado ao mar que lhe está no sangue. Um dos seus hobbies é a construção de barcos, a partir de kits sofisticadíssimos, cuja perícia e paciência implicam anos de trabalho. Tem cinco filhos e já construiu vários, entre os quais o Bismark, um imponente couraçado da II Guerra Mundial. Para mim, escolheu uma réplica bem diferente, que aguardo com impaciência. O meu filho também: é o Soleil Royal, um galeão lindo de Luís XIV. Já estou a vê-lo, partindo do porto de Havre ou de Brest, envolto em brumas.
Hoje, que sinto na pele a impiedade do tempo que nunca deixa de navegar connosco, levando-nos para um alto-mar de onde, um dia, jamais regressaremos, só desejo que Deus lhe dê saúde, que o meu pai continue, por mais algumas marés, a fechar e a abrir as escotilhas da casa enorme, a cuidar da sua tripulação de gatos junto da minha mãe, e a construir a sua frota num mar de faz-de-conta, enquanto eu, na ferrugem das palavras salgadas pela memória, vou tecendo uma rede de páginas de espuma, como quem apanha conchas à beira-mar, para que o passado não fuja.
Dedico este texto ao meu pai.
Os cinco filhos e a mãe dos mesmos (Vera Mãe), Agosto 1969

Eu, Eduardo, Sofia, Mariana, Pedro
Os cinco filhos, que é raro ver reunidos numa fotografia, porque a vida não deixa

quarta-feira, 18 de março de 2015

Fibra

O tempo continua a ser de renovação. De resoluções. Num Janeiro que se pretender estender até ao limite das possibilidades. É a vida a precisar de vitaminas, antioxidantes, todo um rol de nutrientes que tornem elástica a pele dos dias. Uma vida desidratada, ressequida, ressentida. É urgente alimentar a raíz das unhas, expulsar as células mortas, esfoliar as horas, para que a carne seja músculo e o corpo, na fímbria da incerteza, seja fibra de outras convições. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Soundscapes

Nesta 6ª feira 13 deixo-vos com os ruídos naturais do mundo, cada vez mais ameaçados. Bernie Krause, músico que há quatro décadas optou por gravar os sons da natureza, diz que o mundo está cada vez mais silencioso. Escutem-no nesta conferência do TED.

terça-feira, 10 de março de 2015

Novo brinquedo

Eis-me a estrear o LibreOffice Writer no meu portátil novinho e eu feliz, aliviada por ter sido possível converter, sem dificuldade, todos os documentos que tinha no velho Word 2003. Para já, pude ver que lá terei de gramar com a lagartinha encarnada sob as palavras escritas em desacordo com o Acordo Ortográfico, mas não importa.
Agora o tipo de letra assumido, por defeito, é simpático, chama-se Liberation Serif e há todo um conjunto de novidades a explorar: clonar formatação, um Ómega para inserir “Carácter especial” (sic. A sério, é sempre bom saber que estamos a um clique de inserir um carácter especial, vai dar-me um jeitão para a construção de personagens), uma montanha de novos tipos de letra (apesar de acabarmos por escolher apenas uma dúzia deles, tal como os canais de televisão), um galeria que me permite inserir no texto fundos com malmequeres, imagens, como abelhinhas, sons como o de uma vaca (muito útil)... E agora vou publicar isto no blogue, para ver como fica. Pareço uma criança, mas como li algures que estamos na Semana da Incontinência Urinária (olhem que bem escolhido, de tantas efemérides que inventam, esta estava a fazer imensa falta), tenho desculpa.
...
Já experimentei, não funciona bem. Bem feito, quem me manda fazer copy/paste com aquela salganhada. Resta-me o ficheiro no LibreOffice Writer e a partilha da minha satisfação infantil.



segunda-feira, 9 de março de 2015

Os velhos dicionários

Em arrumações no escritório, em fase de mudanças de fundo no pequeno espaço onde finjo trabalhar, dou, mais uma vez, com os velhos dicionários da Porto Editora: Português-Inglês, Inglês-Português, Português-Francês, Francês-Português, Dicionário de Sinónimos, Dicionários de Verbos, Latim... abro um, ao acaso, na primeira página, e encontro a assinatura do meu pai e uma data: 1972. Sorrio, ao lembrar-me de que o meu pai, tal como eu, tem o hábito de escrever o nome e a data nos livros, incluindo os dicionários. O sentimento de posse, do género perdoável.
Os dicionários, gordos, poeirentos, velhos, inúteis, olham-me com aflição, como quem implora, por favor, não te desfaças de nós só porque nos tornámos obsoletos; imagina que a electricidade pode faltar, tudo falhar, a internet, a bateria do computador, o próprio computador, o tablet... que farás tu, quando a tecnologia te faltar? Nós aqui estamos, com a fidelidade de sempre, velhos mas sábios. Sábios, porque velhos. E em nós encontrarás, sempre, a palavra latina para "absurdamente", a inglesa para "perdição" ou sinónimos de "abandono". Recusam reformar-se, sem saberem que há muito se tornaram desnecessários. Fingindo acreditar nos seus argumentos, retiro-lhes a humilhação do pó, suspiro pelo espaço roubado, sem sentido, e torno a arrumá-los nas prateleiras atulhadas de coisas inúteis e preciosas.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Viragem

Peço desculpa aos que seguem este blogue. Venho apenas explicar que estou em fase de transição de gadgets, dependente de tecnologias que me chegam em upgrade, mas que me impedem, por alguns dias, de vir aqui ao ritmo habitual. Em breve julgo reunir condições para regressar em força. Novo ano, tempo de viragem. Não há imagens a ilustrar, é mesmo só isto, que já é muito. Escrevo a partir do tablet, apenas para deixar esta mensagem. Fiquem bem e até breve! 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Penando



Por onde andam as suas resoluções? Desfeitas como sempre, entre os dedos cujas unhas não pára de roer. E diz sempre que irá deixar de roê-las, mas nunca cumpre a promessa. Rói mesmo quando o mundo lhe diz que não tem quaisquer motivos para tal infantilidade. De que te queixas agora? Vá, diz, que terríveis problemas tens tu a resolver? Que grandes espadas pairam sobre a tua cabeça? Só se for por causa das resoluções sem solução. Decisões tão gelatinosas, tão trementes como alforrecas morrendo de susto na areia. São disparates que escreve, julgando que valem alguma coisa, mas não valem um caracol. Olha, nunca tinha usado esta expressão, não valer um caracol.
É a chamada escrita automática, que de automático nada tem, que a mente não se desliga só porque a isso nos dispomos; em especial se passarmos a vida a corrigir os erros de escrita dos outros: que tolerância haveríamos de ter para com os nossos próprios erros? E por isso a mente não se deixa ir, está sempre alerta, de borracha e caneta encarnada em punho, a travar, a retroceder, a refazer, a quebrar o embalo das linhas que a mão vai traçando. Não, esses não perdoamos. E vá-se lá saber por que razão estou a usar a forma plural, se estou absolutamente só nisto de tentar escrever. Os outros escrevem, já se sabe, eu sou a perita em tentar. Apenas. Parece que o único tema que me resta é este, a arte de não escrever. A escrita, um equívoco nas minhas mãos. Fosse eu digna de pena, e poderia dizer que escrevo de uma penada. E assim vou penando, de unhas roídas até ao sabugo. Olha, outra, nunca tinha escrito sabugo.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Luta


© BRUEGEL, A queda dos anjos rebeldes

Hoje dominas a arte de não realizar o que escolheste por missão. De que servirá escrever? Que diferença fará ao mundo? A falta de fé, a consciência de que é apenas um capricho teu, de que estás só em absoluto, é, talvez, o que te impede de escrever. O medo de falhar por inteiro: de descobrir que de nada vale, toda esta entrega a um anjo que há muito se revoltou.
Queres desistir, libertar-te, pedir misericórdia ao anjo rebelde.
Estás só na tua teimosia. Um demónio segura-te as mãos. Só tu sabes que são amarras forjadas num capricho. Que em ti nada solidifica. A luz não existe. Apenas sabes mentir com fraca chama. Em ti mesma acendes a mentira. E o que se revela é de uma imensa tristeza. Estás incapaz de esculpir uma palavra mais.
De nada serve, diz o demónio.
Escreve, apesar de tudo, responde o anjo.
Falta-te a fé em algo que não encontras dentro de ti.
E por isso escreves: para descobrir. Mesmo que, por ora, o demónio sorria, a cantar vitória.
Ao longe erguem-se enormes asas azuis. E tu escreves, apesar de tudo, para que o anjo te dê a mão e te leve a navegar nas tuas correntes.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

No outro lado do espelho

 Sentou-se no café com o seu tablet. Um novo brinquedo muito sério. Concluiu, com satisfação, que, com aquele presente, comprar um computador portátil deixara de ser uma necessidade. Até a pequena máquina digital perdera o sentido: talvez mesmo um descartar extensível aos seus cadernos, aquele íntimo caos composto por papéis infindos, que se iam dispersando, desistentes, em gavetas atulhadas de tarecos, caixas de cartão empoeiradas, bolsos e malas velhas, versos, pequenos textos, ideias, esboços que, em muitos casos, acabavam por nunca cumprir o seu  destino.
Ela sorriu, vendo o seu universo de gestos enriquecido com novos confortos concentrados num só objecto. A tecnologia foi para ela, por instantes, um amigo - feito de plástico, borracha, compostos electrónicos e outros mistérios e saberes que ela jamais dominaria - ainda assim, um parceiro de confidências que desejou abraçar, como quem abraça um amigo.
E escrevendo isto descobriu também que, uma vez domesticado o bicho nas suas manhas, poderia, ali mesmo, no café da aldeia (que até tinha internet), publicar o texto no seu blogue.
Sentiu-se uma Alice no outro Lado do espelho, num mundo absurdo que teria de compreender; tão depressa amigável como rival ou ameaça: para que serviria aquele botão? E se fosse por ali, aonde iria dar? Um mundo estranho a explorar, com os seus dedos juvenis, saltitando sobre o teclado.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Samuel Barber

Este "adagio for strings" é, a par com a sinfonia nr 5, o adagietto, de Mahler, a peça mais triste e bonita que conheço. É estranho como algo tão triste pode ser belo a este ponto. Não se deixem inundar pela tristeza, é apenas o poder que a Música exerce sobre nós.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Besos de sangre

Dedicado a todos os apaixonados, em nome do charme e da sedução (mais pela imagem do que pelo tema que, para o meu gosto, é algo pobre...mas está bem explorado). E que o Dia de S, Valentim (ou o do Stº António, pronto) seja como o Natal: todos os dias. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Espera

 


Desesperam, os dias feitos de reticências, em que nada se finaliza, se rompe, se confirma. Um silêncio branco, a mistura de todos os sons, todas as cores e possibilidades.e nem uma, nem uma cor que possa chamar sua. A espera - odiosa feiticeira - a deixar-nos como enforcados ao vento, bonifrates ocultos na sombra, oscilando, sem comando; o pêndulo de um relógio encostado à parede, sem saída. Apenas isto, que é nada. Para quando, o movimento? O ruído de asas rasgando o silêncio?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Sempre

"Fornax" © Beth Moon
As árvores aguardam a morte como deuses anciãos, rendidos ao cansaço. A estação fria lambe o fim da tarde com o seu hálito de chuva miudinha, sob o manto estrelado cor de rato. O tempo escorre, gota a gota, enquanto o vento vai polvilhando a paisagem com os queixumes dos velhos ramos, que se julgam incapazes de abraçar uma nova estação. Mas sempre haverá uma nova estação.

Vera de Vilhena

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Não fujas

Imagem roubada aqui

Não, não fujas de mim,
ainda é cedo, pousa os braços nos meus,
que eu mal começava a sentir o teu calor
e já tu me escapas;
despertando em mim o arrepio
de me ver mergulhada no frio
a que eu já dissera adeus.

Não, não cerres a porta,
não cerres os dentes, nem nada;
para me deixar no avesso da sorte,
os meus dias em carne viva,
O grito de quem suplica, de voz enferrujada.

Provei a taça de um tempo cálido,
molhei a minha boca na tua.
Por favor fica, não fujas de mim,
que eu já não sei ter na língua a amargura,
se um manto de mel me deixou assim, nua.

(© Vera de Vilhena, inédito)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Lacrime di Giulietta

Maravilhoso. Vale a pena verem até ao fim.  Atenção, nada é deixado ao acaso, ao sabor do desenho: TODOS os pormenores estão arrumados correctamente na pauta, até as folhas da árvore.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Gratidão

Quando o azar lembra um bebé adormecido, inocente no sono dos mais inocentes, sem reconhecer a nossa existência - fiel e infeliz companheira na cumplicidade de tanta má sorte -, andamos com pezinhos de lã, para que tão cedo ele não desperte, na esperança de prolongarmos a fase abençoada, em que as peças da vida parecem encaixar numa harmonia que já não julgávamos possível. As espectativas quase ao nível zero. O que vai surgindo deixa-nos nos olhos a mais grata expressão de espanto. Nas mãos, a gratidão e a esperança, sim, que é semente cultivada, a tentar que a maré construa corpo, solidificando o nossa sorte. Que estes dias não sejam feitos de vento mas rijos, tendões e músculos, carne e pele tonificadas por muitos amanhãs. Para que a vida se vá erguendo das cinzas...e a nossa esperança possua alicerces. Não seja apenas ilusão, o etéreo conforto dos infelizes que, a cada dia, inventam novas razões para sorrir.
Obrigada, mana Rita G. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

Bolota

Faz três anos que adoptámos a Bolota. Nunca tinha tido uma cadela e estou fã. É maluca e adorável. Mimosa, brincalhona, esperta. Bendito o dia em que a fomos buscar ao canil de Torres Vedras, onde ela vivia há cerca de um ano. Ficará sempre na lista das melhores decisões.







Aqui o link para o post escrito no dia em que a Bolota chegou

sábado, 24 de janeiro de 2015

All about that bass

 Duas versões do mesmo tema. Este primeiro tocado e interpretado ao jeito de Nina Simone, por Kate Davis...mas em bom :-)
Because you know I'm all about that bass
'bout that bass, no treble
I'm all 'bout that bass, 'bout that bass, no treble
I'm all 'bout that bass, 'bout that bass, no treble
I'm all 'bout that bass, 'bout that bass

Yeah it's pretty clear, I ain't no size two
But I can shake it, shake it like I'm supposed to do
Cause I got that boom boom that all the boys chase
All the right junk in all the right places
I see the magazines working that Photoshop
We know that shit ain't real
Come on now, make it stop
If you got beauty beauty just raise 'em up
Cause every inch of you is perfect
From the bottom to the top
Yeah, my momma she told me don't worry about your size
She says, boys they like a little more booty to hold at night
You know I won't be no stick-figure, silicone Barbie doll
So, if that's what's you're into
Then go ahead and move along
 
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Dia bom

Tirada por mim, perto de casa
 Foi um dia bom.
o telemóvel a tocar pela manhã, duas vezes. Duas boas notícias. Uma óptima, outra boa. E o dia logo a ganhar cor.
Depois as horas passando em beatitude, em normalidade, até que chega o momento de receber uma nova amiga pela primeira vez na nossa casa: tudo tem de estar bem, os cheiros, a luz, a música, o posto de rádio ao qual se retira a poeira, a lembrar que a música também é importante na nossa vida; ou deveria, não só os livros, as leituras, a escrita, a fotografia, o estudo do instrumento, mas a música, como companheira das horas mais leves, de ócio. A música pela música.
O tempo voa e é tão bom quando voa assim. Quando deixa a vontade de voos maiores, mais prolongados, mais longínquos, a explorar novos territórios.
Jantamos fora no consolo de sabermos que os meses seguintes serão um pouco mais leves, só um pouco mais leves. O dia fechando-se com dedicatórias em frontispícios, livros trocados, além dos abraços, da saudade que já sentimos por uma amizade fresca, cheia de raminhos verdes, a querer rebentar. aqui estaremos para novos encontros. E tão maior será o nosso jardim.
Pousar a cabeça na almofada pensando "que bom estarmos vivos", sentirmos o privilégio de sermos ainda donos das nossas horas, das nossas vontades. Nem sempre, mas às vezes.
Hoje foi, sem dúvida, um dia bom, aconchegado em esperança. E estamos tão precisados de esperança.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Cantilena 1

MS #36 © Nanã Sousa Dias
Cantilena da viúva

Pingo, pingo, enche a poça
Quem te descalçou a bota?
Foi o velho da ribeira
que anda à volta da fogueira.
Barro, barro na cabaça
vai a rolar pela praça
E lá dentro vai a velha
qu saiu pela janela,
com a panela na mão,
a gritar com a voz no chão,
Ai jesus que lá vou eu
Rua abaixo até ao rio
Já não tenho quem me acuda
nem a galinha me ajuda.
Foi a torta, saiu mal,
levou vidro em vez de sal.
Era a velha a querer matar 
o marido p'ra depois,
se juntar aos outros dois
rapagões de casa cheia
e ela sem um pé de meia...
E agora, quem cozinha?
Bato à porta da vizinha
Diz o velho interesseiro
que há-de cair bem primeiro
Que o carregue o diabo
mais o vinho entornado
antes de matar a porca
muito vinho ele emborca.
Diz a velha mesmo antes 
de cair atrás da porta.
Foi um sonho que lhe deu
Que o marido já morreu.

(inéditos, © Vera de Vilhena)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Filosofices

Anginas - será o plural feminino de "anjo"? Não me parece justo.
I wonder, nestes dias de frio e de chuva. Cuidem-se, que os anjos também se constipam e, ao ficarem de cama, não podem cuidar de todos nós.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Happy unhappy Day :-)

Só para dar o exemplo, neste que dizem ser o dia mais triste do ano, lá porque é a terceira 2ª feira de Janeiro (vá-se lá perceber o critério...), deixo-vos com um video que já foi visto cerca de 552 milhões de vezes no Youtube. Caramba, devemos estar, realmente, a precisar que nos alegrem :-)
Então tomem lá e divirtam-se! (só para contrariar as estatísticas, vá)
E já agora.....OBRIGADA PELAS 60.000 (e quinze!) visitas a este blogue! :-)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Mia Gentile

Fiquem-se com este Mix engraçadíssimo da cantora Mia Gentile, brincando com os jungles-tipo. Reconheço-os bem, pois no passado gravei uns quantos destes :-) Bom fim de semana, sim? Divirtam-se, que eu também.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Miss Marple

Estou fã do novo remake de Miss Marple (enfim, novo para nós, portugueses, pois foi gravado no Reino Unido entre 2004 e 2008). Geraldine McEwan vai lindamente, com o seu sorriso, o brilho dos seus olhos, o porte de pássaro. Por enquanto teremos o prazer de vê-la protagonizar a famosa personagem criada por Agatha Christie; mas como, em 2008, Geraldine se reformou da série, na 4ª temporada em diante o papel será desempenhado por Julia McKenzie. Não há uma apresentação, um excerto ou genérico que lhe faça justiça, infelizmente. Deixo-vos com um tributo a Geraldine, em vários episódios de Miss Marple.
Dá na Fox Crime, 2ª feira, 23.10. E eu gravo todos.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Vida Perdida


© Nanã Sousa Dias

ando em busca da vida que perdi.
alguém viu passar os dias
que escorreram de mim?

se os virem, se pelo caminho se cruzarem
com a vida que maltratei,
peçam-lhe por mim perdão,
que me deixe viver aquilo que agora sei.

dizem-me os ventos
que anda perdida na rua,
chorando, tremendo nua.

algo disse que a ofendeu,
gestos que dei, mas não eram meus…

 e a chuva anuncia, com mágoa no olhar:
– Vi a tua vida, há tanto perdida,

doente, cansada
de ter solidão e inverno no peito
E mais nada

deitou-se a seu jeito, envelhecida
na estrada vazia
e morreu.

(Vera de Vilhena, inédito, 2015)