sexta-feira, 3 de julho de 2015

Raízes e revisões

Revisão literária, reescrita de tantos textos, tantas páginas escritas por terceiros. Têm sido assim os meus dias, as horas centradas nos livros dos outros, sem direito para o que é meu. O ofício em primeiro lugar. Em primeiro lugar o sustento. Para segundo plano os caprichos. Quase, quase um dever cumprido. Logo virá o tempo da escrita. Sem desculpas. Sem mais adiamentos. É urgente escrever para mim, terminar o que inaugurei há treze anos. Nem que seja para ter paz. Quase. Quase a tocar nesse tempo com a ponta dos dedos. O solo ressequido aguarda. Em breve poderei revolver os torrões de açucar mascavado. Sentir, de novo, o perfume natural das minhas próprias palavras. Sob a pá que a mulher enterra, junto àquela árvore, bem que podiam estar as minhas pobres personagens, que há tanto tempo aguardam, paralisadas em silêncio. Esperem, só mais um pouco, tenham só mais um pouco de paciência. Em breve irei socorrer-vos, enfiar-me na terra convosco, a buscar as raízes que deixei para trás.
 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Luto para sempre


As três folhas amarrotadas pelo uso das mãos, as mãos revelando os primeiros indícios da idade, a idade nas veias, pequenos riachos de águas inchadas, azuis, estendidas na planície da pele, os dedos magros, o lugar vago da aliança, para sempre vazio, uma vaga aberta e inútil, agora que ela se vestia de luto, para dizer adeus ao seu primeiro amor.Os olhos inchados lendo, a custo:
« Quando formos adultos e casarmos…
Tu interrompias-me, Sara, como quem afasta uma tragédia, a testa franzida, os olhos bem abertos:
– Casar contigo?! Nem morta!
Para nós não havia futuro, dizias. Teimavas em lembrar-me que era temporário, insistias em não acreditar em nós, neste futuro que foi chegando. Não estamos aqui? Não chegámos até aqui? Se estás a ler esta carta, sabes que já é futuro e nós continuamos aqui. O tempo não conseguiu silenciar-nos. Só a morte é capaz de calar para sempre.
(...)
Cada vez que me punhas de parte, a tua vida sem mim era para sempre. Era sempre para sempre. Mas fraquejavas sempre. E também na reconciliação eu conquistava a prova de que não podias viver sem mim.
Depois veio a vida e ensinou-me que afinal podias. Mas isso foi depois.

(romance em construção)

terça-feira, 16 de junho de 2015

...

#Dune 27 © Nanã Sousa Dias
O chão onde pousa os pés é uma passadeira de reticências... ... ... ... ... ... ...
apetece-lhe gritar, mas tem medo de assustar os pontinhos, ficar sem chão e...

c
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        i
            
      .
         .     .
                             .            . 
          . . .        .
            .::
              .  .     .:              .
                             .    .. ..
     


quarta-feira, 3 de junho de 2015

João Aguiar

Faz hoje cinco anos que perdemos o jornalista e escritor João Aguiar, que anda tão esquecido. O seu nome está normalmente associado ao romance histórico "A voz dos deuses" (que já vai em quase 30 edições), cujo protagonista é Viriato, o bravo lusitano. Acontece que, além dessa obra, escreveu muitas outras. Do que li, as minhas preferências vão para "O Navegador Solitário" e "Diálogo das Compensadas". Prolífico, dono de um excelente sentido de humor, de imaginação, domínio da palava escrita e rigor histórico, foi também autor de uma considerável obra dedicada aos leitores mais jovens, sendo a colecção mais conhecida O Bando dos Quatro.
Tive o privilégio de me corresponder com ele nos últimos anos da sua vida. João Aguiar foi de uma extrema simpatia: inclusive, enviou-me, com dedicatória, dois livros seus, "O Priorado do Cifrão", sátira escrita no âmbito da febre originada pelo famoso bestseller de Dan Brown, e "O Tigre Sentado", que quase não teve distribuição em Portugal mas em Macau. O autor d' "Os Comedores de Pérolas" morreu demasiado cedo, aos 67 anos, e foi impedido de nos presentear com outros livros que não foi a tempo de escrever.
E por falar nisso, já é tempo de reeditarem alguns dos seus livros, não? A 9ª edição do Navegador Solitário está esgotada e é, sem dúvida, um dos melhores que escreveu. Os Comedores de Pérolas foi reeditado em 2013, com uma capa bem mais apelativa do que as anteriores. Deixou, para todas as idades, dos 10 aos 100, 33 livros. É obra. Não o esqueçamos, por favor.
Dedico este post ao Nanã.





terça-feira, 2 de junho de 2015

Não me queixo

O ofício de escritor pode ser frágil e colorido como um vitral.
A feira formada por corredores cheios de cor, forrados de livros, livros, livros. Era Dia da Criança, mas as crianças estavam na escola, não podiam pedir autógrafos aos escritores. 
Cheguei já a barriga dava horas, o pequeno-almoço distante, o estômago a implorar por alimento. Depois de me ir buscar a Ribamar, perto da Ericeira, a minha editora deixou-me instalada na mesa de autor, com alguns exemplares do Coisandês, e foi buscar-me almoço. Chegou o fotógrafo da Activa, para uma pequena entrevista. A nós juntou-se a jornalista Catarina Fonseca, que me ajudou a passar aquela hora de constrangimento de uma autora novata, que está ali a uma 2ª feira a meio da tarde. 
Às quatro chegou o Alexandre Honrado, que me fez rir e com quem simpatizei de imediato. Ele e a Catarina, que já terminara a pequena entrevista e despachara as fotos da "avodrasta", deram um longo abraço cúmplice de camaradas.  
Ainda revi a minha colega Joana Macieira e de novo provei os seus "Queques com Alma", desta vez um de aveia e chocolate, maravilhoso. 
Passeei-me pela feira, parei para lanchar, quando os pés já pediam: um scone simples, uma limonada de maracujá e um café, tudo muito bom. Os feirantes gostam de mimar quem anda por ali, a namoriscar os livros. 
E foi precisamente nos livros que me desforrei do meu fracasso: "Memórias de Adriano", de M. Yourcenar (Ulisseia, Grupo Babel), "A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector (Relógio d'Água) e dois do Nobel islandês Haldór Laxness: "Gente Independente" e "Os Peixes Também Sabem Cantar" (Cavalo de Ferro). 
No pavilhão da Chiado Editora, fui dar com a minha Ilha de Melquisedech embalada em papel transparente, pack 2 em 1, com um livro sobre cristais...preço do pack: 5 euros. Por momentos não soube se havia de rir ou de chorar. Optei por rir e colocar o meu livro em primeiro plano, para os ajudar a despachá-lo ainda mais depressa. 
Quando regressei ao pavilhão da Babel, estava a autora Maria Teresa Maia Gonzalez, minha colega na área juvenil, e que eu ainda não tinha tido o prazer de conhecer. 
Da minha editora ainda recebi três miminhos, ao fim da tarde: um boné da colecção "Sisters", e um bloco e um mouse pad da Mafalda.  
A Maria José veio trazer-me a casa, chegámos já era noite, distraímo-nos à conversa e, quando reparámos, já íamos em Torres Vedras. 
Autógrafos, zero. Mas o balanço do dia foi bom. Tenho aprendido a manter baixas as expectativas. E o que vem é bem-vindo. Tive, decerto, um dia bem mais simpático do que muito boa gente. Não há lugar para queixumes.
Alexandre Honrado
Joana Macieira
Maria Teresa Maia Gonzalez

segunda-feira, 1 de junho de 2015

December Boys


Para celebrar o Dia Mundial da Criança, partilho um filme comovente que vi ontem, ao serão: "December Boys" (2007), Hollywood HD. E agora vou ali à Feira do Livro com o Coisandês e já volto :-) 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Steve McCurry

Como adoro boa fotografia, aqui vão algumas dicas de um dos Mestres que admiro... com um conselho final sábio, que pode ser aplicado a qualquer forma de Arte, nomeadamente a Literatura. 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Crónica: As palavras são trampolins

Chegaram e foram-se arrumando à volta das pequenas mesas. As folhas A4 e os lápis à sua frente. A banda sonora do Harry Potter como fundo, para criar ambiente. Apresentei-me, frisei que não estavam ali para ser avaliados mas para descontrair, desabafar, divertirem-se. Acho que acabaram por perceber :-) Perguntaram-me várias vezes se podiam isto, se podiam aquilo, e eu a explicar que podiam tudo, menos escrever palavrões. O jogo oral dos objectos foi muito engraçado e as coisas que saíam do saco pareciam mostrar-se numa ordem combinada, até ao último objeto mágico...
Aqui ficam alguns desabafos, ingredientes e ementas. Encontrei ali timidez, talento e muita imaginação. Cada leitura em voz alta teve direito a salva de palmas. Porque os aplausos fazem muita falta, não acham?

Desabafo:
«Estou farto de ti
Eu detesto a tua mente
É fixe estar aqui
Quem me dera ter um amor ardente!»

Exercício da varinha mágica do aprendiz de feiticeiro, depois da leitura da receita presente n' "A Ilha de Melquisedech", para os inspirar...
Ingredientes:
(rapazes)
2 olhos de gato
Estômago de cavalo
Gosma de mosca com picante
1 sobrancelha de ciclope
Lágrimas de escaravelho
Gordura e sangue de humano
3 fezes de mamute
5 bagas venenosas

(meninas)
1 lágrima de ciclope
3 escamas de serpente voadora
orelha de extraterrestre
1 dente de fada
4 cabelos de sereia
Rosa negra (ingrediente secreto)

"Um Chef louco fez uma louca receita"
1 olho de vidro
5 pelos de sovaco
6 meias das sereias
1 corno de touro
2 minotauros
56 unhas de pés de feiticeira - a trabalheira para contar! Mais valia a medida de uma chávena de café :-)
2 vacas
"E chamou-lhe Grafão (entre grifo e dragão)..mas o ingrediente secreto é batata frita."

Outros ingredientes e temperos:
Lixívia
Ácido
Lava
Sangue de extraterrestre
2 l de xixi de sapo
2 rabos de elefante
2 kg de bicos de pássaro
3 arrotos
10 asas de morcego
1 cabeça de águia (vitória do Benfica, sic)

Ementa:
«Lasagna de rã e cérebro de macaco com fruta enrolada em minhocas
Para a lasagna:
13 patas de rã
51 escaravelhos
250 gr de fezes de gaivota
2 unhas de dedo do pé com fungos
10 moscas enroladas em fezes de cão
Meter no forno a 180º e bon appétit»

Parabéns ao 5º C e 6º C da EB23 da Escola Professor Armando Lucena, Malveira, obrigada às Professoras Luísa Luz e Nazaré Mota, e um beijinho especial para a Dália Santos e para a Carla Rodrigues, pela simpatia e paixão com que organizam e acompanham estes encontros.
Para mais, leia aqui
A turma do 5º C

A turma do 6º C, uma boa surpresa :-)


domingo, 24 de maio de 2015

Gastão

O Gastão faz hoje seis anos. Veio para os nossos braços com um mês e três semanas e era um boneco fofo. Hoje está um respeitável serra da estrela grisalho, cheio de charme, Até hoje mordeu em duas pessoas. Dois homens. Um era inocente (o desgraçado do carteiro, que veio trazer-me exemplares do meu livro de poesia), o outro nem tanto, um homem que provoca nele irritação e desconfiança, e eu confio no seu discernimento, mais do que confio em muita gente.
De resto, recebe muito bem os amigos da casa, guarda-a na nossa ausência, joga à bola connosco e com a Bolota (a quem faz, por vezes, a vida negra, como macho Alpha) e é muito decorativo. Quando se põe em pé, com as patas da frente apoiadas no muro, fica da minha altura.
No ano passado o Gastão sofreu a primeira crise de epilepsia (que tenhamos dado conta). Eu assisti às três crises que teve entretanto e não é bom de se ver. Terrível, a sensação de impotência que sentimos, num momento em que mais não podemos fazer do que zelar para que não se magoe e manter a calma. Quando recupera a consciência, não sabe o que aconteceu e ainda bem. O almofariz passou a fazer parte da minha rotina matinal: um comprimido desfeito em pó, misturado na ração. Se tudo correr bem, tão cedo não irá sofrer novas crises. Parabéns, Gastãozola, pelos 6 aninhos! Apesar dos novelos de pelo constantes que tenho de apanhar, varrer, aspirar, és um cão formidável e lindo.  
A estreia no veterinário, 2009

Deixou-se fotografar como estrela de cinema

Ao meu colo, no 1º verão 
Gaston à la table


Com o Hugo, um grande amigo

Com o dono, watching his domains

Para onde é que estão a olhar? Também quero ver!

É verão, bolas, que calooor!

Com a sua amiga Bolota, impedidos de entrar (limpezas em curso, aguarde...)

Na hora da sesta, 2015

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Erik Johansson

A magia da era digital, ao serviço de uma boa causa. Os bastidores de "Endless Stories", uma fotografia encantadora, cujas impressões e respectivos lucros revertem 100% a favor da Swedish Childhood Cancer Foundation.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Golfinho Azul

Na próxima 6ª feira lá estaremos, eu e o Nanã, com Sérgio Rodrigues ao piano, para fazer companhia a quem for jantar ou beber uns copos, junto ao mar, na arriba da praia de S. Lourenço, a norte da Ericeira, de onde se assiste a um pôr-do-sol dos mais belos que conheço. O reportório é bom, temas de soft jazz e bossa nova, que ligam tão bem aqui, nestes dias que já cheiram a verão.
Come-se muito bem, a equipa da casa é simpática e respira-se um ambiente familiar e despretensioso, com o aconchego do mar mesmo ali. A sopa de peixe é maravilhosa. As lulas fritas também, adociçadas, flambeadas em brandy; o caril de gambas? Uma delícia. O vinho da casa, que mudou recentemente, deixa-se beber muitíssimo bem. Venham,  apareçam nesta casa de amigos onde gostamos tanto de actuar...e de comer!
Reservas: 261 862 945
Rua das Ribas, S. Lourenço
GPS: 39º 0'47.82"N   9º25'15.70"W



terça-feira, 19 de maio de 2015

Coisas antigas

Há blogues encantadores, que são baús recheados de coisas antigas, tesouros que resgatamos à nossa infância, a outros passados, outras épocas, e que nos alimentam o imaginário. Este é um deles, uma descoberta recente. Ora espreitem:
Love for books!
Jane Austen illustrations 
C. E. Brock, 1898 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Vender livros

                                           


«O negócio de vender livros é esquisito. Vendem-se livros aos milhões e a maior parte das pessoas não faz ideia do seu conteúdo, ou pelo menos, não antes de os comprar e ler. Estranho é constatar que autores, editores e livreiros, praticamente, não tenham reclamações.»
(in blogue "Pó dos livros", livreiro anónimo)

sábado, 16 de maio de 2015

Em Sines

Ontem estive em quinteto com o Nanã (saxofones e flauta), o Alexandre Alves (bateria), o Nuno Oliveira (contrabaixo) e o George Esteves (piano acústico, em estreia connosco), no auditório do porto de Sines. Não posso deixar de agradecer à Maria Viana, à A.P.S, à Câmara Municipal de Sines, à Ana Rita Rosa, que nos acompanhou sempre, e ao serviço impecável do restaurante "Casa do Médico", com vista para a baía de Sines, pela qualidade impecável do serviço e a simpatia e boa disposição com que nos receberam. Ficou a vontade de regressar!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Casota

Foram experimentar o restaurante que abriu no lugar da "Casita" (seria do "Casita", mas era tratado assim, no feminino, ou não estivesse à frente do restaurante uma excelente cozinheira, aqui da terra), onde se comia muito bem. Outros donos. Um jovem casalinho. Parece que agora era petisco. Vamos lá ver isso, pensaram.
Já sentados, com pão e azeitonas (manteiga,? Népia. Azeitonas ao natural: ervas? Alho? Népia), pediram:
"Olhe, traga guardanapos, por favor..."
Vinho da casa: "Pias". Venha um jarro.
Lá escolheram os petiscos. Acompanhamentos:
Arroz branco - carolino, frio, tipo gesso.
Migas: secas, granuladas.
Batatas fritas: congeladas
Petisco:
Farinheira: fria, não foi furada, salgada, crua
Pataniscas: safou-se, safou-nos, ligeira falta de sal, mas simpáticas, deixaram-se comer até ao fim (eram três)
Coisas na ementa que estavam na ementa mas "já não tinham": morcela, frango frito... (eram sete e meia quando chegámos, mas "já não tinham", o frango? Tinha "de ser de encomenda". ??? Vamos jantar fora, mas temos de encomendar antes de sair de casa?)
A comida chegou e nós, naturalmente:
"Olhe, pode trazer pratos grandes, daquele mesmo serviço, de barro?"
Não tinham: os petiscos, incluindo pataniscas e arroz eram servidos assim, em pratos de sobremesa. Pedimos mais pratos...
A garrafeira tinha 3 garrafas...vazias.
"Vão desejar sobremesa?"
"NÃO!! Que whiskies é que tem?"
(Private joke, "zéquetem, não temos, temos ....")
Milagre!:
"Temos Cardhu..."
"Alto! Pode parar aí: um Cardhu em balão sec...eehhh...sem gelo!"
Chegou um minimini cálice, menomeno cheio.
Pouco depois, lá foi preciso pedir outro whisky, para completar meio Cardhu.
Descafeinado, conta, por favor.
22,60 eur
"E então? O que é que acharam? Abrimos há pouco tempo... (como se não soubéssemos...) gostamos de saber a opinião dos nossos clientes...
Eu dei-a: a sopa embatatada, as azeitonas sem sabor, a ausência da manteiga, o arroz carolino, a farinheira crua e fria. E parei por ali. Para não assustar. E para quê? Não pretendíamos voltar. Será que foi chorar para a cozinha?
Adeus, até nunca mais. Que pena, tão perto de casa...o único perto de casa...! Mas...
A "Casita" passou a "Casota".
Que saudades do bife nho nho e da açorda de lagosta. Consequências da emigração. Parece que estão para a Suiça. Por lá, algures, deve-se comer bem.


domingo, 10 de maio de 2015

Mia Couto


MUDANÇA DE IDADE

Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.

domingo, 3 de maio de 2015

A minha mãe



"Estás cada vez mais parecida com a tua mãe", é o que oiço frequentemente. Para mim é um elogio, uma vez que a minha mãe sempre foi um exemplo de elegância e de charme. Os álbuns da casa-mãe estão cheios de fotografias da senhora que foi a modelo preferida do meu pai, num tempo sem photoshop, em que a máquina captava a verdade que os olhos viam. À minha mãe agradeço ter-me deixado ler todos os livros que eu escolhia das estantes, da casa de Lisboa e, sobretudo, da de Sesimbra, cuja biblioteca é maravilhosa. Muitos livros em francês, infelizmente, de contrário a minha primeira formação literária teria sido ainda mais rica. Também lhe devo, e ao meu pai, a formação musical: para sempre me ficou a influência do jazz e da bossa-nova, a recordação de muitos invernos na salinha da casa de Sesimbra, a ouvir Frank Sinatra, Paul Simon, Chico Buarque, Paul Williams, Carmina Burana, de Carl Orff... e os filmes, claro, boas "fitas", como ela dizia, acrescentando, quando eu torcia o nariz: "tem de ver, Vera". E eu via. E ainda bem: musicais, filmes italianos, franceses, ingleses, americanos. E as séries boas da época, que me deixava ver, mesmo que acabassem um bocadinho para o tarde...
A casa estava sempre cheia de gente, pudera, só filhos, éramos cinco e depois vieram os namorados, que engordavam ainda mais o grupo à mesa. Em Lisboa e, especialmente, em Sesimbra, a mãe cozinhava para todos, experimentando pratos com sabores do mundo, comida chinesa, tipo, galinha com amêndoas, algas e soja (acompanhado com chá de jasmim em chávenas autênticas, de porcelana "casca de ovo"), carne à bolonhesa (receita maravilhosa, que tantas vezes faço e o meu filho adora), souflé de peixe servido em conchas de vieira...tinha assim uma paciência incrível para fazer pratos criativos. E não falhavam as velas altas na mesa, acesas à hora do jantar, apagadas com uma campânula de prata, de haste comprida, rituais que se perderam, como compôr álbuns de fotografias em folhas enormes de cartolina, com legendas escritas a branco. Ainda hoje telefono à minha mãe para tirar uma dúvida qualquer de culinária (é um privilégio de que não abdico, enquanto puder). A ela devo tantas dicas de beleza, de bom-senso, o saber estar, o ter savoir-faire, e fazer a coisa certa, aquela que nos dita a consciência (ainda que por vezes fosse um pouco sob o lema "façam o que eu digo, não façam o que eu faço). Nunca foi mãe-galinha, mas sabe ser mãe leoa quando é preciso, apesar dos seus quase 81 anos. Parabéns, mãe! Que se mantenha assim, bonita, lúcida e com saúde, enquanto desejar.
Lisboa, 1970: a elegância em pessoa. 5 filhos postos no mundo. Eu tinha poucos meses.

Natal 1971, na casa da Marquês de Tomar. as estantes sempre recheadas de livros.
Lisboa, 1970. 4 filhos à mesa (eu não consto, ainda mal me sentava, quanto mais à mesa grande). Lá estão os castiçais com as velas, vêem? Sempre acesas ao jantar.
A minha mãe, 1977

Anos 70, com a mana Sofia, na tal salinha na casa de Sesimbra, em cuja lareira se assaram muitas castanhas.

Em Sesimbra, 1976, eu na muda do dente, com 7 anos, a minha mãe pouco mais nova do que eu sou agora
                                    
Não podia falhar uma fotografia à mesa na casa de Sesimbra, neste post de recordações. Isto era um dia normal :-)
1969, com os cinco filhos, eu ao colo.

Outono 2011, os cinco filhos juntos (coisa muito rara)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Por favor

Existo? Confirmem, por favor.
Mostrem-me o reflexo dos meus sonhos, que me viram à mesa, a virar a mesa, comendo e bebendo, amando os meus filhos e netos, o cão, o gato, a flor, o céu que me passa nos olhos, que passo a passo me transporta para outros lugares.
Existo? Gostem, por favor.
Gostem do que escrevo, do que sinto, do que penso, do que minto, dos livros que leio, do quadro que pinto, do bolo, do prato, do vestido novo, do sapato, do que grito ou confesso de porta escancarada a cada estranho, enquanto estranho palavras que mal reconheço.
Existo? Comentem, por favor.
Digam-me o que pensam, e sentem e vivem e talvez eu tenha tempo de ler quanto me dizem, e gostar e responder até cansar e o assunto morrer.
Existo? Partilhem, por favor.
Espalhem o que amo e odeio, o que prendo entre os dedos, o alerta, a compaixão, o drama, a vitória, esquecimento ou memória dos outros que são meus e de outros que o não foram, que celebro como quem rouba a terra de alguém, enterrando os mortos, celebrando quem nunca pude abraçar, em lugares onde não estive.
Existo? Sigam-me, por favor.
Venham atrás de mim, por aqui, de mão dada, mão estendida a pedir, a cada dia, a cada hora, a cada amanhã por acontecer, a cada segundo por existir.
Estranha forma de solidão, estranha forma de agarrar o que andamos a viver.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A arte do livro

E porque hoje é o Dia Mundial do Livro, aqui vai uma viagem ao fundo do tempo, em homenagem à arte tradicional de fazer cada livro com amor.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Cabeça-de-vento

Crónica: Raquel Serejo Martins
Pintura: "Cabeça de vento" de Ana Cristina Dias 
Detalhe

«A primeira vez que lhe chamaram cabeça de vento estava na escola primária.
Talvez mesmo na primeira classe.
Os meninos de bata amarela.
Canários em linha, como molas de roupa sem roupa não numa corda mas dentro de uma gaiola.
Guarda uma memória amarela.
Os meninos sentados, plantados nas carteiras, um campo de girassóis de olhos encandeados por um sol negro de ardósia, duas dúzias de olhos cegos de espanto por perceber que os estranhos desenhos eram palavras e que as palavras eram feitas de letras, uma matrioska, parecia marosca.
P-a-t-o.
G-a-t-o.
Parecia estranho, era estranho, porque para ela, um gato, sete vidas, quatro patas, um rabo, muitos bigodes e dois olhos amarelos como os berlindes que guardava no bolso.
Olhava para o enorme quadro negro e gato nenhum, nem escondido, denunciado por um rabo de fora.
Ouvia a explicação na voz de locutor de rádio sem música do professor e perdia-se, fugia, para lá das enormes janelas, tão grandes que a deixavam ver a cidade inteira.
Mentira, sabe que é feio mentir, se a cidade uma laranja, uma tangerina porque a cidade pequena, via apenas meia tangerina, o que já é muito ver para uma janela.
E de olhos na janela, para lá do vidro, perdia-se à procura do gato, procurava ao sol à soleira das portas, à porta da peixaria, camuflado entre os cortinados de uma janela, entre dois vasos com sardinheiras, a atravessar a estrada dentro ou fora da passadeira, pelas árvores, pelos muros, pelos telhados.
Chamavam-lhe cabeça-de-vento e diziam que fazia muitas avarias.
Ou tinha muitas ideias e nem todas corriam bem.
Convém ser boa a correr.
Não era o seu caso. Corria, tropeçava, caía, como se uma sequência com lógica.
Os joelhos pele de crocodilo, crosta sobre a crosta da primeira ferida.
E a correr, entre a lebre a tartaruga, ela um peixe.
Dentro de água ninguém a apanha, ninguém lhe ganha.
Ia ao fundo como se fosse à lua.
Para mais na cidade um rio, nos seus Verões um rio.
Quando ia ao fundo deixava todos de olhos pendentes e respiração suspensa, como a sua debaixo de água, até ao seu regresso, hesitantes quanto a mergulhar também, no limite do susto, até que emergia ofegante, sorridente, e sempre com uma pedra na mão, prova oval e concreta da sua audácia.
Tinha no quarto um frasco de vidro onde em vez de bolachas ou biscoitos guardava pedras do fundo do rio. A avó sabia que tantas as pedras como as vezes que ficou com o coração nas mãos por saber como o rio é matreiro com os invasores.
Porém ela um peixe.
E apesar das pedras, a avó nunca a chamou cabeça-de-vento, talvez soubesse que ela um peixe, inconsciência, audácia, guelras e barbatanas.
De olhos tristes com um sorriso perdoava-lhe todas as asneiras.
Mesmo quando os berlindes lhe fugiram do bolso, como se tivessem pezinhos.
Fugiram, avó! – Um eufemismo.
Fugiram-me do bolso e sem querer fizeram cair o professor no corredor da escola.
Mau humor fracturado em dois sítios, fato de fazenda de três peças e braço esquerdo engessado ao peito, passou a ser conhecido entre os girassóis como o pau-de-giz.
Tem tempo para a tristeza a menina. – Ouvia-se a avó dizer como se de uma ordem se tratasse, ao tempo, à tristeza e a todos os que queriam corrigir a menina.
Pelo que em casa da avó um mundo diferente, o tempo sem sobressaltos e o seu cocuruto em sossego.
Um mundo pequeno. A avó não tinha muito. Uma casa. Um gato. Uma figueira e na figueira quando figos pássaros.
A avó não tinha muito mas tinha muitas histórias para contar.
Conta outra vez a da menina que tinha um tapete voador.
E a avó contava, a mesma história, sempre de forma diferente, como se não atinasse com a história, pelo que sempre uma surpresa, um espanto.
Era uma vez um tapete que de tanto voar, voou mais do que avião, tanto como foguetão, chegou à lua, fez da menina astronauta.
A avó nunca andou de avião.
A avó só conhece os aviões de os ver passar no céu lá longe, pequenos como pardais, lá longe, na lentidão dos caracóis deixando um rabo de fumo.
A avó nunca viu foguetões, nem mesmo na televisão, que serve para as notícias e não mais, sabe sem saber bem o que são, imagina-os como foguetes gigantes, velozes e barulhentos como os que lançam na festa de Nossa Senhora da Assunção, grandes como camionetas, capazes de levar gente dentro, capazes de aterrar na lua, pelo menos quando gorda e cheia, apesar de tudo somado lhe parecer fraca brincadeira, porque fraco passeio para piqueniques.
Porém a menina gosta de ir à lua.
Foi a primeira astronauta da turma.
Pelo que a avó, se o avô a dormir a sesta, ia ao bengaleiro buscar a boina e o chapéu de levar à missa ao Domingo, dois capacetes, enfiava a boina na cabeça da neta até às orelhas, que assim devidamente protegida, 10-8-7-4 começa de imediato a contagem decrescente, contava ao contrário sem ainda bem saber contar, estado de euforia uma única vez interrompido, não para abortar a missão lunar, nem impedir a humanidade de dar mais um salto, mas por se lembrar, em respeito pelo original, que lhes faltava uma bandeira, a avó sabia que era imprescindível levar uma bandeira.
Temos de fazer uma bandeira. – disse antes de descolar o foguetão.
Tenho uma velha almofada solteira, cortamos uma galho seco à figueira.
O que é uma bandeira? – Pergunta a menina ansiosa perante a nova palavra e a novidade.
Uma bandeira! Como te posso explicar, é como uma fotografia. Estás a ver a fotografia do avô que guardo na caixa de costura, tem o bigode do teu avô, os óculos do teu avô, o chapéu do teu avô, o sorriso do teu avô, os seus vinte anos, o bolo de chocolate de que tanto gostava, o dia em que me pediu em casamento, o dia em que nasceu a tua mãe, o dia em que tu nasceste, é um quadradinho de papel que tem dentro todas as histórias de um país e os sonhos também.
Então a minha bandeira tem de ter uma bicicleta! O pai disse que se eu me portasse bem me oferecia uma bicicleta no meu dia de anos.»
pintura em livro
(retirado integralmente do blogue Clube de Leitores)

sábado, 18 de abril de 2015

Abril na Lx Factory


Para fazer tempo (como se fosse possível), na loja em frente à entrada, namoro vestidos e túnicas que não posso comprar. Um chá earl grey ao fim da tarde, na Landeau, com a Rosarinho, amiga que há cerca de 25 anos tem uma fatia do meu coração. Não houve direito a bolo de chocolate. Uma espreitadela à escrita de Rui Miguel Fragas, que me disse muito, com o seu "O nome das árvores". Os pequenos livros da Poética empilhados sobre a mesa. O tablet, as fotografias da praxe, para pôr no facebook. Sou agora mais uma, sucumbi às selfies. Faz-me sentir que pertenço ao mundo dos vivos. Chegaram a Maria João e a Virgínia, editora da Poética e aniversariante. Mais selfies. A angústia de não ter preparado nada, como se fosse preciso. Ler Devagar. Chegam a Raquel e o Ricardo. Sou apresentada a José Pinho, o "pai" desta livraria de culto, a paixão pelos livros, por receber bem as pessoas nesta casa que se recusa a fechar as portas.
Sol posto, instala-se o frio. Sabe bem ir por dentro, até ao outro extremo, onde se encontra o restaurante malaio. Somos sete à mesa. Alguém nos apresenta o João Pestana, este, não o outro, que está bem longe de chegar. Ocupamos a mesa reservada para um grupo de teatro que só chegará depois do início da nossa tertúlia. Perfeito. Os seis pratos que partilhamos, acompanhados por vinho branco e tinto, são generosos em cores e sabores. Camarão, carne de porco e muitos vegetais e especiarias do Oriente. Chega o José Luís Outono. Falamos de viagens, de música, de comida, claro, ou não fôssemos portugueses. Partilhamos sobremesas, bebemos café, cantamos os parabéns à Virgínia em cante alentejano, com a melodia da "Internacional" e do "Grândola vila morena". Risos.
Subimos ao primeiro andar, onde alguns participantes já aguardam. A Virgínia faz as devidas apresentações, com a simpatia e o tom informal que lhe são próprios e, à pergunta da Raquel, feita em tom de brincadeira - onde estava no 25 de Abril? -, instala-se o mote: as idades variam, há diferentes gerações e distintas são as memórias. A tertúlia ganha um carácter de quase terapia de grupo: celebrando, exorcizando, em confissões, memórias, desabafos, alertas, o que foram aqueles dias de 1974, o que significou a revolução, o antes e o depois, a ditadura, a censura, o espanto, a liberdade, sempre a liberdade como pano de fundo deste encontro salpicado de versos de poetas presentes uns, ausentes outros. Leitura de versos e prosas em papel, em iphones e tablets, na coabitação promíscua em que as palavras se vão arrumando nos tempos modernos, versos que se resgatam em gadgets cujas baterias estão prestes a terminar. Mas sempre chegam, as palavras que falam de liberdade.
Obrigada, Virgínia, por este encontro. Gostei de poder abraçar, enfim, uma amiga até hoje virtual: a poetisa Graça Pires; de conhecer um pouco ao recheio dos livros da Poética e dos seus autores, tais como Eufrázio Filipe, Gisela Ramos Rosa, Lídia Borges, Maria Isabel Fidalgo, Manuel Veiga, Rui Miguel Fragas e, claro, Rosário Ferreira Alves, cuja escrita conheço desde os versos que ela já escrevia, quando andávamos juntas na faculdade.
Descemos à livraria. Por fim o espumante oferecido pelo José Pinho, uma saúde à Virgínia, uma espreitadela aos desenhos maravilhosos do João Pestana, no seu Moleskine, mais fotografias que saíram desfocadas e dois dedos de conversa com a Raquel, que há tanto eu queria conhecer melhor.
Alcântara, sexta-feira à noite: uma operação stop com direito a balão, sem consequências, felizmente. A celebração que nos corre nas veias não pode ser detida nem censurada. Continuamos com as nossas palavras e com a liberdade do movimento sobre rodas. Foi este o nosso Abril. Livre, apesar de tudo.
Raquel Serejo Martins lendo excertos do seu romance "Pretérito Perfeito"
Virgínia do Carmo, editora da Poética