Vera de Vilhena
Não se deixem enganar pelas riscas cor-de-rosa. Os dias são (d)escritos com todas as cores.
sábado, 3 de novembro de 2018
terça-feira, 30 de outubro de 2018
A mala encarnada
Retiro o pó à mala encarnada, esquecida debaixo da cama. Lembro-me da frase de Helen Hunt em As Good As It Gets, ao retirar a sua do cimo de um armário: a mala chocada por ser usada, enfim, saindo quase a medo, pouco audaz, habituada à previsibilidade segura daquele recanto escuro, sem vida.
O carro a serpentear montanha acima, o frio a subir connosco. 0º. -1º. -2º. Uma fotografia junto à pequena lagoa. O frio, o frio na pele, na carne, nos ossos. Ainda ontem era Verão.
A lista mental: pijama, roupa interior quente, camisolas, escova de dentes, cenas de toilette, botas, perfume, gotas dos olhos, anti-alérgico, livro, caderno, canetas, óculos vários, telemóvel, carregador e, à última hora, cachecol, gorro, luvas. Afinal, é a Serra da Estrela, usar uma t-shirt enquanto preparo a modesta bagagem, para uma só noite, não impede que me aguarde o Inverno, em Manteigas.
À noite, no quarto de hotel, assisto, sem surpresa, ao discurso de vitória de Jair Bolsonaro. Utiliza a palavra Liberdade. Mudo de canal, para ver qualquer outra coisa.
Na manhã seguinte, é aproveitar a distância percorrida para passear: uma visita a cães serra-da-estrela bebés (e a vontade de trazer todos), uma prova de licor de mirtilo, a compra de chinelos e um casaco de lã, típicos da serra. E um queijo. Não podia faltar o queijo.
Na manhã seguinte, é aproveitar a distância percorrida para passear: uma visita a cães serra-da-estrela bebés (e a vontade de trazer todos), uma prova de licor de mirtilo, a compra de chinelos e um casaco de lã, típicos da serra. E um queijo. Não podia faltar o queijo.
O carro a serpentear montanha acima, o frio a subir connosco. 0º. -1º. -2º. Uma fotografia junto à pequena lagoa. O frio, o frio na pele, na carne, nos ossos. Ainda ontem era Verão.
Um almoço de truta grelhada junto à janela. O aconchego da encosta verde e de um céu bem azul, salpicado de ovelhas. O sol a bater na vidraça.
No regresso, a chuva. A tarde agora mais curta, a luz a sumir tão antes da hora, triste, a acompanhar o desalento deste fim prematuro.
Chego a casa e sinto que o Inverno também chegou aqui. E é logo na manhã seguinte que estreio as peças trazidas da serra.
Conformada, a mala voltou para debaixo da cama, sem expectativas.
sábado, 27 de outubro de 2018
Ao menos
Um dia de vento em rompantes de fúria, que não chega a ser temporal; uma casa de janelas fechadas, tão ao contrário do costume; a casa sem poder respirar, a conter o fôlego, inspirando, ainda, a presença de um bolo de iogurte acabado de cozer. Horas que poderia ter desperdiçado, não fossem gravadas em longos diálogos com pessoas que amo há décadas; a mudança da hora iminente, a dar entrada ao horário de inverno; o silêncio, apenas o arquejar dos cães, a meu lado. Tento não pensar na vitória inevitável e incompreensível de Bolsonaro, amanhã, e calar os meus queixumes que, ao lado da humanidade mais carente, nada valem. Enquanto faço por me auto-realizar, embora tantas vezes pague as contas com dificuldade - dois extremos sem meio, na corda bamba dos dias -, outros passam fome verdadeira, sem a falsidade dos sonhos. Ao menos a liberdade de nos podermos queixar. Ao menos.
Resta-me o vento agreste do lado de fora do vidro e a textura de flores bordadas, em luz quente e aconchego, do lado de cá. O silêncio, o vento em fúria que não me atinge e um chá verde com gengibre e mel, para adoçar a liberdade.
Resta-me o vento agreste do lado de fora do vidro e a textura de flores bordadas, em luz quente e aconchego, do lado de cá. O silêncio, o vento em fúria que não me atinge e um chá verde com gengibre e mel, para adoçar a liberdade.
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
Trabalho e uma cabana
Temos demasiadas distracções, no momento em que nos sentamos para trabalhar. Escritores como o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, com a sua minúscula cabana (era mais um barracão) de base rotativa, à caça da luz natural, ou Henry David Thoreau, no seu longo e espartano retiro, a fim de se isolar da civilização, é que sabiam: quando é para trabalhar, nada como reduzir ao mínimo as ferramentas, de modo a que o autor seja ele e o seu pensamento, rodeado de solidão e silêncio. Apenas os sons bem-vindos da natureza.
Também Mark Twin se isolava, mas com maior luxo. Numa carta a um amigo seu, William Dean Howells, datada de 1874, o autor de Huckleberry Finn descreveu a sua "cabana" deste modo: é o mais charmoso estúdio que se possa imaginar. octagonal, com telhado em bico, cada uma das faces cobertas por uma janela generosa ... instalado em completo isolamento no topo de uma elevação, que preside a léguas de vale e cidade e serras ao fundo, com distantes morros azuis (...) É um ninho acolhedor e tem espaço suficiente para um sofá, mesa e três ou quatro cadeiras. E quando as tempestades varrem o vale remoto e os raios piscam entre as colinas e além, e a chuva atinge o tecto sobre a minha cabeça? Imagine a sua sumptuosidade.
Com ou sem barracão, cabana ou chalet, importa cortar com os fios que nos prendem ao mundo, para que possamos reencontrar uma qualquer verdade em nós, buscar um pensamento puro. Quem poderá descobrir o rumo de uma história, cumprir a angústia de uma personagem ou seguir os labirintos de uma ideia, se tão facilmente permitimos que os dedos saltem para o mural do facebook, o dicionário de sinónimos online, a caixa de correio eletrónico ou os ruídos da casa, com vizinhos, familiares, telefones, cães, noticiários, anúncios, campainhas...? Cada vez nos é mais difícil estar por inteiro, como se a mente fragmentada fosse agora peça de cristal em pedaços, jamais tornando a ser una. Quantas cicatrizes e remendos haverá, na transparência do que vamos construindo?
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| George Bernard Shaw na sua cabana, instalada na sua casa em Hertfordshire, com plataforma rotativa. Aqui trabalhou nos últimos 20 anos da sua vida. |
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| Garagem convertida de Dylan Thomas, País de Gales. |
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| Retiro de Virginia Woolf, instalado no jardim da sua casa, no East Sussex. |
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| Retiro de Mark Twain |
terça-feira, 23 de outubro de 2018
Bibliotecas municipais
Por mais anos que decorram desde que foi criada a rede de bibliotecas municipais, não deixo de me espantar com os luxos que oferece. É verdade, luxos. Porque se há muita gente que não pode comprar todos os livros que deseja ler ou possuir, é também um imenso privilégio ouvir falar pela primeira vez de um certo autor, ficar interessada em duas ou três obras suas e, de imediato, poder requisitá-lo numa biblioteca perto de casa. Neste caso, "O Filho do Desconhecido", de Alan Hollinghurst, tradução da maravilhosa Tânia Ganho, Dom Quixote, 2011, 1ª edição, 683 pp. Segundo a minha querida amiga Patrícia Reis, uma outra obra do mesmo autor merecia uma busca: "A Linha da Beleza": a biblioteca do meu modesto concelho também o tem.
Poucos minutos após ter enviado e-mail com a requisição, obtenho a resposta da Teresa Rodrigues, responsável pela biblioteca de Mafra (sede), com a qual tenho as mais amistosas relações:
"Olá Vera, espero que esteja tudo bem.
O livro que pediu está disponível, mas é da biblioteca da Póvoa da Galega, já o pedi para vir para Mafra, quando chegar, aviso.
Bjinhos"
Caímos no erro de baixar as expectativas, fazendo esgares à forma como o nosso País (não) funciona, mas depois temos coisas destas: um livro de Alan Hollinghurst existe na Biblioteca Municipal da Póvoa da Galega e é entregue na nossa biblioteca habitual, sendo que avisam para o telemóvel, da sua chegada. O único contra: uma vez que se trata de um empréstimo, não é possível manuseá-lo como se fosse nosso, rabiscá-lo, sublinhá-lo, tal como aconteceria com o exemplar de um familiar ou de um amigo. Não se pode ter tudo por pouco dinheiro. Pouco...? Nenhum! É, ou não, um imenso luxo?
Recado à editora (a todas, aliás, à excepção da Sibila, de Inês Pedrosa, que acarinha os tradutores): na capa devia constar o nome de quem traduziu a obra. Na capa, sim. Não apenas no frontispício. E já agora, pagar uma percentagem dos direitos de autor (não retirados aos direitos do próprio autor, é evidente).
Afinal, uma boa tradução pode salvar um livro ou matá-lo.
O José Fanha, que já baptizou umas quantas, tem toda a razão: queridas bibliotecas.
Poucos minutos após ter enviado e-mail com a requisição, obtenho a resposta da Teresa Rodrigues, responsável pela biblioteca de Mafra (sede), com a qual tenho as mais amistosas relações:
"Olá Vera, espero que esteja tudo bem.
O livro que pediu está disponível, mas é da biblioteca da Póvoa da Galega, já o pedi para vir para Mafra, quando chegar, aviso.
Bjinhos"
Caímos no erro de baixar as expectativas, fazendo esgares à forma como o nosso País (não) funciona, mas depois temos coisas destas: um livro de Alan Hollinghurst existe na Biblioteca Municipal da Póvoa da Galega e é entregue na nossa biblioteca habitual, sendo que avisam para o telemóvel, da sua chegada. O único contra: uma vez que se trata de um empréstimo, não é possível manuseá-lo como se fosse nosso, rabiscá-lo, sublinhá-lo, tal como aconteceria com o exemplar de um familiar ou de um amigo. Não se pode ter tudo por pouco dinheiro. Pouco...? Nenhum! É, ou não, um imenso luxo?
Recado à editora (a todas, aliás, à excepção da Sibila, de Inês Pedrosa, que acarinha os tradutores): na capa devia constar o nome de quem traduziu a obra. Na capa, sim. Não apenas no frontispício. E já agora, pagar uma percentagem dos direitos de autor (não retirados aos direitos do próprio autor, é evidente).
Afinal, uma boa tradução pode salvar um livro ou matá-lo.
O José Fanha, que já baptizou umas quantas, tem toda a razão: queridas bibliotecas.
sexta-feira, 21 de setembro de 2018
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
segunda-feira, 30 de julho de 2018
O propósito das imperfeições propositadas
A minha mãe hoje telefonou-me. Eu tenho quase 50 anos, sou a mais nova de cinco irmãos, podem por isso imaginar a sua idade. Começou há pouco a ler o meu romance, acabado de sair, e ao ver a edição ficou aflita:
- Sabe, Vera, estou muito preocupada. Olhe que estou a ler o seu livro e todos os palavrões aparecem riscados! Você veja lá se é possível fazer alguma coisa!
Ri-me e achei uma ternura. Depois expliquei que era propositado, descansei-a, recordei-a do que escrevi na nota de autor, na qual refiro essas rasuras como uma piscadela de olho ao meu ofício de revisora de texto, em que muitas palavras ou frases são entreguesassim, com rasuras e texto alternativo, noutra cor.
Fez-me lembrar um episódio de há três décadas, quando comprei, no Centro Comercial Fonte Nova, umas calças de ganga métallique, em voga nessa época, tinha eu cerca de vinte anos de idade. Quando pus as calças nas mãos hábeis da Idília, a empregada que me viu crescer, para que fizesse as bainhas, manifestou a sua indignação:
- Ah, isto não está capaz! A Verinha foi enganada!
E eu a dizer que não, que era mesmo assim.
- Mesmo assim?! Então não vê que isto está tudo gasto, aqui na cintura e nos bolsos? Estas calças não são novas, olhe p'ra isto, p'rá ganga toda coçada, toda gasta! Isto já foi muito usado! E ainda por cima...14 contos?!
De nada adiantaram as minhas explicações, que eu era muito novinha, coitadinha, que ela já tinha vivido muito e visto de tudo e, comigo pela mão, entrou na loja do centro comercial, pousou as calças de ganga métallique no balcão e a cena repetiu-se:
- Aah não! Não me vai dizer que isto é mesmo assim, que a mim não me engana!
- Mas olhe que é... - insistia a empregada, a trocar olhares quase trocistas comigo - é o modelo...
A Idília:
- "É o modelo...é o modelo...". Não senhora. Venho devolver as calças, que isto não está capaz.
Entregámos o talão da compra e saímos com os 14 contos. A Idília levava um ar triunfante, de quem não se deixa enganar e acaba de resgatar uma jovem inocente das garras da vigarice.
- A Verinha é muito querida mas tem de ter cuidado! Há por aí muita malandragem.
No dia seguinte lá voltei à loja com os 14 contos e mais uns trocos. Assim que entrei, a logista perguntou:
- Vem buscar as suas calças?
- Sim, venho. E desculpe lá aquilo de ontem, mas não pude fazer nada.
- Pois, eu percebi. Pelo sim pelo não, guardei.
- Muito obrigada. E é para fazer bainha, se faz favor.
O fosso entre gerações. Ignoro o que a minha mãe pensará da minha extravagância gráfica. Palavras riscadas?? A sério...?! Pergunto-me quantos mais leitores distraídos (pois explico logo ao início, na nota de autor) irão afligir-se ou ficar desconcertados, perante rasuras e outros atrevimentos gráficos e de texto pouco usuais, nesta edição, nomeadamente um queijo "flamingo" (pois era assim que eu dizia em pequena). E aparece algures, até, a troca de um nome: Maria José, uma personagem, surge, num flashback, com o nome da vida real, a quem certas memórias foram roubadas - a minha própria mãe, a quem também roubei o nome -, como se o narrador, que escreve em tom de diário, se tivesse esquecido de ficcionar:
"Mas oh Vera, a menina só lê comunistas!"
Modernices. Defeitos propositados. Um espécie de modelo métallique, nesta edição.
- Sabe, Vera, estou muito preocupada. Olhe que estou a ler o seu livro e todos os palavrões aparecem riscados! Você veja lá se é possível fazer alguma coisa!
Ri-me e achei uma ternura. Depois expliquei que era propositado, descansei-a, recordei-a do que escrevi na nota de autor, na qual refiro essas rasuras como uma piscadela de olho ao meu ofício de revisora de texto, em que muitas palavras ou frases são entregues
Fez-me lembrar um episódio de há três décadas, quando comprei, no Centro Comercial Fonte Nova, umas calças de ganga métallique, em voga nessa época, tinha eu cerca de vinte anos de idade. Quando pus as calças nas mãos hábeis da Idília, a empregada que me viu crescer, para que fizesse as bainhas, manifestou a sua indignação:
- Ah, isto não está capaz! A Verinha foi enganada!
E eu a dizer que não, que era mesmo assim.
- Mesmo assim?! Então não vê que isto está tudo gasto, aqui na cintura e nos bolsos? Estas calças não são novas, olhe p'ra isto, p'rá ganga toda coçada, toda gasta! Isto já foi muito usado! E ainda por cima...14 contos?!
De nada adiantaram as minhas explicações, que eu era muito novinha, coitadinha, que ela já tinha vivido muito e visto de tudo e, comigo pela mão, entrou na loja do centro comercial, pousou as calças de ganga métallique no balcão e a cena repetiu-se:
- Aah não! Não me vai dizer que isto é mesmo assim, que a mim não me engana!
- Mas olhe que é... - insistia a empregada, a trocar olhares quase trocistas comigo - é o modelo...
A Idília:
- "É o modelo...é o modelo...". Não senhora. Venho devolver as calças, que isto não está capaz.
Entregámos o talão da compra e saímos com os 14 contos. A Idília levava um ar triunfante, de quem não se deixa enganar e acaba de resgatar uma jovem inocente das garras da vigarice.
- A Verinha é muito querida mas tem de ter cuidado! Há por aí muita malandragem.
No dia seguinte lá voltei à loja com os 14 contos e mais uns trocos. Assim que entrei, a logista perguntou:
- Vem buscar as suas calças?
- Sim, venho. E desculpe lá aquilo de ontem, mas não pude fazer nada.
- Pois, eu percebi. Pelo sim pelo não, guardei.
- Muito obrigada. E é para fazer bainha, se faz favor.
O fosso entre gerações. Ignoro o que a minha mãe pensará da minha extravagância gráfica. Palavras riscadas?? A sério...?! Pergunto-me quantos mais leitores distraídos (pois explico logo ao início, na nota de autor) irão afligir-se ou ficar desconcertados, perante rasuras e outros atrevimentos gráficos e de texto pouco usuais, nesta edição, nomeadamente um queijo "flamingo" (pois era assim que eu dizia em pequena). E aparece algures, até, a troca de um nome: Maria José, uma personagem, surge, num flashback, com o nome da vida real, a quem certas memórias foram roubadas - a minha própria mãe, a quem também roubei o nome -, como se o narrador, que escreve em tom de diário, se tivesse esquecido de ficcionar:
"Mas oh Vera, a menina só lê comunistas!"
Modernices. Defeitos propositados. Um espécie de modelo métallique, nesta edição.
segunda-feira, 16 de julho de 2018
O medo na voz
O talento do filho é um orgulho e o prolongamento da sua angústia. De que irá ele viver? Como irá pagar as suas contas? Aquele maldito talento abençoado por deuses mordazes, imprevisíveis, a lançá-lo para uma vida pendurada na corda bamba, um imenso ponto de interrogação. Antes fosse o poeta cujos pais, tendo lido os seus poemas, os rasgam no silêncio da noite, para que o filho jamais conheça o valor da sua musa - não passará fome - diria a mãe, prefiro vê-lo escrever relatórios e assinar cheques a ser cúmplice da sua ruína, a mão faminta traçando os magros arabescos de uma arte por aplaudir.
E é nesse momento que ele abre a voz e canta e a mãe tudo esquece, as contas, os medos, a fome e a interrogação. Será feliz, tem de ser por força mais feliz do que eu, acreditemos todos que este é um mundo melhor. E despede-se com um beijo. No abraço vai tudo aquilo que não consegue dar. A carga sobre os ombros transforma a mulher num ser diáfano, a pequenez do corpo em sintonia com o coração leve, por cada nota que o filho liberta na noite de verão. Para tudo se dá um jeito, por favor, suplica ela aos anjos. Não o deixem cair da voz abaixo.
E é nesse momento que ele abre a voz e canta e a mãe tudo esquece, as contas, os medos, a fome e a interrogação. Será feliz, tem de ser por força mais feliz do que eu, acreditemos todos que este é um mundo melhor. E despede-se com um beijo. No abraço vai tudo aquilo que não consegue dar. A carga sobre os ombros transforma a mulher num ser diáfano, a pequenez do corpo em sintonia com o coração leve, por cada nota que o filho liberta na noite de verão. Para tudo se dá um jeito, por favor, suplica ela aos anjos. Não o deixem cair da voz abaixo.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
Como se
Li hoje a frase "Nunca me apaixonaria por um homem que não fosse cavalheiro", como se a paixão fosse racional e respondesse a princípios e teorias, uma fórmula matemática, limpa, sem sombras nem pasmo, sem raiva nem dor, sem dilema, e permitisse pesar os prós e contras, um sentimento sob o nosso controlo absoluto, que jamais nos faria virar do avesso, a deitar por terra todas as convenções e conveniências: ok, depois de muito reflectir, não irei apaixonar-me por este homem.

terça-feira, 3 de julho de 2018
Entre Mulheres
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| NAS LIVRARIAS A PARTIR DE 25 DE JULHO |
Percorrendo um espelho de memórias, que parte das ruas de Lisboa e se ramifica na infância, nas conjecturas e dilemas, numa sofrível determinação, na incerteza e nostalgia de um homem a sós, o leitor vai descobrindo o seu próprio reflexo. A reinvenção dos laços familiares quebrados, a sua justiça ou merecimento, dificilmente serão previsíveis ou consentidos. O projecto da escrita, devorado com absurdo idealismo, vai simbolizando a metamorfose a que assistimos página a página, impulsionada pela descoberta da leitura e o erotismo de alguns encontros. Neste romance, as mulheres que flutuam na esfera de emoções do protagonista – filho, marido, irmão, pai e amante –, constituem o pilar da sua salvação. Apesar de tudo. Ou não fosse a vida.
A capa:
Pretendia para este livro uma capa quente, que remetesse para algo sensual, embora não se trate de um romance erótico, nem nada que se pareça. Assim que decidi publicá-lo, passei os olhos pelas fotografias fine Art do meu marido, Nanã Sousa Dias, no site americano photo.net, onde ele tem quase seiscentas fotografias e, assim que me cruzei de novo com esta, a preto e branco no original, imaginei o que poderia fazer com ela: "virada a chocolate, dedicado à Antónia (personagem) e cortada, de modo a enquadrar-se no formato de livro". O designer da poética edições compreendeu bem a minha ideia, o atelier 004 deu uma pequena ajuda na fonte de letra, a minha querida editora Virgínia do Carmo teve todas as atenções para com os pormenores, fez os últimos ajustes e eis que a capa surgiu, a partir desta fotografia...
| © Nanã Sousa Dias, United Tones of Black & White #7 |
segunda-feira, 2 de julho de 2018
Entre mulheres - Diário de um lisboeta (romance)
Depois de umas semanas de silêncio, trago novidades. Aqui vos deixo a notícia do meu novo livro. Disponível em pré-venda com preço especial até dia 15, aqui.
quarta-feira, 23 de maio de 2018
Pomar e Roth
O mundo das artes ficou mais pobre, nestes últimos dias. O nosso Júlio Pomar deixa-nos aos 92 anos de idade, depois de uma vida cumprida. Fica o seu trabalho, para privilégio nosso.
A literatura americana perde um escritor forte e polémico, autor dos livros O Animal Moribundo e O Complexo de Portnoy, ou A Pastoral Americana, sendo mais conhecido pela obra A Mancha Humana, na célebre adaptação ao cinema, com as interpretações magistrais de Nicole Kidman e Antony Hopkins. É triste nunca ter ganhado o Nobel, embora fosse um dos eternos candidatos.
A literatura americana perde um escritor forte e polémico, autor dos livros O Animal Moribundo e O Complexo de Portnoy, ou A Pastoral Americana, sendo mais conhecido pela obra A Mancha Humana, na célebre adaptação ao cinema, com as interpretações magistrais de Nicole Kidman e Antony Hopkins. É triste nunca ter ganhado o Nobel, embora fosse um dos eternos candidatos.
domingo, 13 de maio de 2018
Sapiens
Iniciei há dois dias a leitura deste livro, que já me conquistou. À semelhança de Alain de Botton, o autor, Yuval Noah Harari, tem o condão de falar de assuntos sérios com uma leveza e luz sedutoras, as quais resultam numa obra que revela, ensina, diverte, espanta e faz reflectir. Não mais veremos a humanidade com os mesmo olhos. Não deixem de ler este ensaio, já bestseller, pois nem só de ficção e poesia se compõe a Literatura. Para mais, vão aqui.
sábado, 5 de maio de 2018
quinta-feira, 26 de abril de 2018
Éter
Ao fim de umas semanas de silêncio, aqui regresso. Os dias têm-se feito com os textos dos outros, inúmeras horas no conforto do lar, sim, mas à volta das palavras, sempre as palavras, em papel, em Word ou PDF, para um novo número da revista mensal cuja revisão/copy desk está a meu cargo, um romance entregue na editora que publicou a minha poesia, e na ponta dos dedos dormentes a esperança de que o livro saia neste Verão, que saia, de uma vez, a espera, sempre a espera e uma incerteza que muitos não experimentam nem compreendem, não podem compreender se tudo lhes é tão leve, almoços, jantares, saudades de muitos que não vejo, uma leitura arrastada e penosa da obra mais recente de Paul Auster - culpa minha e dos meus olhos, não do autor -, que não largo por mera teimosia e respeito, mais por cansaço que paixão, está quase está quase a chegar ao fim. Uns cuidados sofríveis com a casa, dispersos como cardos ao vento, o corpo a crescer, a galopar para fora de mim, a tornar-me estranha, a minha pele cada vez mais distante dos ossos, a crueldade de chegar à idade madura, em que o corpo se rebela contra nós, mulheres. A revisão de um futuro livro, ainda texto, belo e triste, que me caiu nas mãos e me deixou os olhos húmidos, e outros, outros prazeres e vícios, outras falhas e deveres, nem que sejam as da consciência e do bom senso. Tanto fica por fazer. A escrita é um casulo tecido em culpa, é preciso refrear o impulso do medo, não desistir, como quem esconde o boião das tentações mais doces. Bem basta todas as vezes em que nos perdemos no caminho mais fácil. Fica-me esta vontade de ser pequenina outra vez, mesmo pequenina - não apenas magra -, uma urgência de nada fazer, ser poeira apenas, sem transportar a carne, o peso, a culpa, tornar-me eternamente etérea, sem peso nem pensamento. Só inocência. A minha entregou-se na aragem tardia e já não tenho asas para a reaver.
quinta-feira, 5 de abril de 2018
Corpo e alma
Hoje retomei as minhas caminhadas diárias, essenciais sobretudo agora, que a idade está a mudar e o corpo se vira contra nós. Aquele que era um extenso pinhal e eucaliptal foi eliminado, algures no meu percurso, restando apenas a terra. O terreno arenoso desconcerta-me e o sol é visível, onde antes se escondia entre ramagens, a deixar passar não mais do que umas tímidas lanças de luz. Nos ouvidos tenho por companhia o programa de rádio "A Páginas Tantas", que não perco. O programa de ontem, que, como é meu hábito, escutei em diferido, teve como tema os Epílogos. Mais uma boa conversa entre Patrícia Reis, Inês Pedrosa e Rita Ferro, com Ana Daniela Soares. A transpiração e alguma dor mostraram-me a derrota do corpo. Passo pelas hortas e o verde abundante é um consolo. As duas oliveiras lembram-me um excerto que escrevi naquele que será o meu próximo livro, animais enterrados junto aos legumes e hortaliças, há muito transformados, primeiro em ossos, depois em pó, talvez em alimento e na nossa memória. Se os cães tiverem alma, andamos decerto a comê-la.
quarta-feira, 4 de abril de 2018
A invisibilidade na Arte
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| Svetlana Ivanova, em Les Sylphides |
O trabalho de um revisor é bom quando, ao longo de um livro, não damos por ele. Pois só nos lembramos do revisor ou do tradutor quando falham. Só no erro lhes piscamos o olho ou torcemos o nariz: "aqui falhaste...", ralhamos em silêncio, frustrados por, à custa desse erro, nos terem despertado para o mundo real.
Se uma personagem requintada e bem educada está à mesa a falar com a faca na mão direita, acompanhando os gestos do discurso, ou a falar de boa cheia, a direcção de actores falhou. Se, embrenhados na leitura, damos com uma frase incompleta ou sem sentido, a edição falhou. "Um livro sem gralhas é como um jardim sem flores", um princípio que corre no meio literário, em defesa do que escapou a todos.
Se um actor chega ao balcão de um bar e pede "Uma maria sangrenta" em vez de um bloody mary - como já vi - ou, num western, surge a expressão "um casal de balas", para a couple of bullets, a legendagem falhou. Quando um actor tem o copo quase vazio ou o cigarro no fim e, na cena seguinte, o copo surge quase cheio ou o cigarro aparece inteiro, a montagem, depois dos vários takes, falhou. Se a bailarina revela o seu esforço no rosto ou dificuldade em elevar-se num salto, ou a executar uma pirouette, a sua técnica falhou.
Talvez seja um pouco desconcertante, injusto, até, mas há, nas várias artes e não só, um pequeno universo de factores técnicos a assegurar, para que, permanecendo invisíveis em todos os elementos envolvidos, possam cumprir o seu propósito e fazer chegar a mensagem da ilusão, ou a representação de uma realidade bem contada, capaz de nos convencer e conquistar.
segunda-feira, 2 de abril de 2018
Elena Ferrante
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| Ilustração: Andrea Ucini, para The Guardian. |
Leiam estas declarações de Elena Ferrante. bastante certeiras e divertidas, na forma como ela se explica em relação ao uso do ponto de exclamação.
Itry never to raise my voice. Enthusiasm, anger, even pain I try to express with restraint, tending towards self-mockery. And I admire those who maintain a calm demeanour during an argument, who try to give cautious hints that we should lower our voices, who reply to frantic questions – “Is it true it really happened like that? Is it true?” – simply with a yes or no, without exclamation marks.
Mainly, this is because I’m afraid of excesses – mine and others’. Sometimes people make fun of me. They say: “You want a world without outbursts of joy, suffering, anger, hatred?” Yes, I want precisely that, I answer. I would like it if, on the entire planet, there were no longer any reason to shout, especially with pain. I like low tones, polite enthusiasm, courteous complaints.
But as the world isn’t going in that direction, I make an effort, at least in the artificial universe that is delineated by writing, never to exaggerate with an exclamation mark. Of all the punctuation marks, it’s the one I like the least. It suggests a commander’s staff, a pretentious obelisk, a phallic display. An exclamation should be easily understood by reading; there’s no need to insist with that mark at the end as well. But I have to say that it’s not simple these days.
Writers are lavish with exclamation marks. In text messages, in WhatsApp chats, in emails, I’ve counted up to five in a row. How much exclaiming the phony innovators of political communication engage in, the blowhards in power, young and old, who tweet nonstop every day. Sometimes I think that exclamation marks are a sign not of emotional exuberance but of aridity, of a lack of trust in written communication. I’m careful not to resort to exclamation marks in my books, but I’ve discovered in some of the translations an unexpected profusion of them, as if the translator had found my page sentimentally bare and devoted himself to the task of reforestation.
It’s likely that my sentences sound detached; I don’t rule that out. And it’s likely that, where the tone for some reason is impassioned, the reader feels happier if he gets to the end of a sentence and finds the signal that authorises him to be impassioned. But I still think that “I hate you” has a power, an emotional honesty, that “I hate you!!!” does not.
At least in writing we should avoid acting like the fanatical world leaders who threaten, bargain, make deals, and then exult when they win, fortifying their speeches with the profile of a nuclear missile at the end of every wretched sentence.»
• Translated by Ann Goldstein, entrevista retirada do The Guardian.
domingo, 1 de abril de 2018
The invention of Lying
Um filme divertido e engenhoso, para o dia de hoje. E espero que tenham tido um Domingo feliz.
quarta-feira, 28 de março de 2018
Prémio ALMA
A escritora Jacqueline Woodson, com mais de trinta obras publicadas em vários géneros, venceu ontem o prémio ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award) 2018, o mais prestigiado galardão concedido à literatura infanto-juvenil, no valor de cerca de 500 mil euros. A justificação do júri, para a sua escolha, foi a seguinte:
“Jacqueline Woodson apresenta-nos jovens resilientes lutando em busca de um lugar onde as suas vidas possam criar raiz. Numa linguagem leve como o ar, ela conta histórias de retumbante riqueza e profundidade. Jacqueline Woodson capta uma nota poética singular, numa realidade diária repartida entre a dor e a esperança.”
Mais uma autora a conhecer. E não deixa de ser curioso que este prémio vá, frequentemente, para mulheres, ao contrário de muitos outros.
Para mais, vá aqui.
Eis a obra mais conhecida da autora, uma autobiografia.
“Jacqueline Woodson apresenta-nos jovens resilientes lutando em busca de um lugar onde as suas vidas possam criar raiz. Numa linguagem leve como o ar, ela conta histórias de retumbante riqueza e profundidade. Jacqueline Woodson capta uma nota poética singular, numa realidade diária repartida entre a dor e a esperança.”
Mais uma autora a conhecer. E não deixa de ser curioso que este prémio vá, frequentemente, para mulheres, ao contrário de muitos outros.
Para mais, vá aqui.
Eis a obra mais conhecida da autora, uma autobiografia.
sábado, 24 de março de 2018
Sábado
Sob o zumbido persistente das serras eléctricas, dos vizinhos cumprindo as directivas que obrigam ao corte das árvores, junto às habitações, pulverizei com anti-fungos alguns recantos da minha casa, plantada nesta terra húmida, e cuja construção, rústica e rudimentar, não está defendida como mereceria. Ao longo do inverno, e da estação das chuvas, permanece este vão combate com a humidade que penetra a construção, invadindo gavetas, armários, paredes, roupas e mármores com o seu hálito condensado, que tudo encharca.
Assisto a um documentário sobre Clint Eastwood, o qual revela facetas inacreditáveis do actor/realizador. Parto depois para a visualização de um segundo documentário, desta vez sobre o dramaturgo Arthur Miller. As janelas da casa abertas, o vento e o frio a tomarem conta do corpo, para que este não sofra os efeitos do ácido de cloro, a corroer o bolor. É Sábado, prossegue o abate das árvores, ladram os cães de todas as casas, excitados com o corropio de homens, entre os eucaliptos e os pinheiros. O meu marido dá uma última passagem aos temas mais clássicos da música ligeira portuguesa, revestidos de jazz, para o concerto de hoje, em Évora.
Dizem-nos que o terreno defronte à nossa casa "é de gente muito antiga", ninguém sabe dizer ao certo quem, e é o que nos salva. Até ver, seja quem for tem ignorado as instruções de abate, em prol da prevenção de novos incêndios que, no ano passado, deixaram o País mergulhado num inferno. Se a tal gente muito antiga der prova de vida, em breve a janela do meu quarto deixará de ser assim. Sinais dos tempos. A segurança à frente dos meus caprichos.
Assisto a um documentário sobre Clint Eastwood, o qual revela facetas inacreditáveis do actor/realizador. Parto depois para a visualização de um segundo documentário, desta vez sobre o dramaturgo Arthur Miller. As janelas da casa abertas, o vento e o frio a tomarem conta do corpo, para que este não sofra os efeitos do ácido de cloro, a corroer o bolor. É Sábado, prossegue o abate das árvores, ladram os cães de todas as casas, excitados com o corropio de homens, entre os eucaliptos e os pinheiros. O meu marido dá uma última passagem aos temas mais clássicos da música ligeira portuguesa, revestidos de jazz, para o concerto de hoje, em Évora.
Dizem-nos que o terreno defronte à nossa casa "é de gente muito antiga", ninguém sabe dizer ao certo quem, e é o que nos salva. Até ver, seja quem for tem ignorado as instruções de abate, em prol da prevenção de novos incêndios que, no ano passado, deixaram o País mergulhado num inferno. Se a tal gente muito antiga der prova de vida, em breve a janela do meu quarto deixará de ser assim. Sinais dos tempos. A segurança à frente dos meus caprichos.
quarta-feira, 21 de março de 2018
Ninguém via
Chegavam-me histórias sobre a perfeição de nós. Perfeitos
enquanto dois. Completam-se, gostavam de dizer, com a certeza dos loucos, como se espiassem os dois corações, a editar-nos o pensamento, a pôr nas nossas mãos uma
história ainda a cheirar a tinta, a alterar todos os pontos finais e
reticências, cada momento que não vivemos juntos, compondo uma qualquer vida
que não era a nossa. Sem nada saberem, rasuravam, mesmo assim, para que fôssemos
perfeitos, a dor escrita em maiúsculas, no topo da página, invisível, de tão evidente. O tempo ia moldando a crença dos cegos, com o seu dom de
persuadir, tantos anos lado a lado, só podem ser felizes, diziam. Ninguém via, no
rasto das tuas mentiras, nos bastidores do meu sorriso, tudo o que lhes servia
de sustentação. E por sustento eu tinha pouco mais que o suficiente para não
morrer à míngua de gestos que lembrassem, vagamente, a felicidade que devíamos
sentir. E cada migalha era uma refeição inteira, um manjar aproveitado até à
última partícula, e muita água, para matar a sede e criar a ilusão de um amor cumprido.
Só para que não estivessem tão errados, ninguém deveria ter tão pouca razão.
Dedico este texto à P.S. Que o fim lhe seja Recomeço.
Dedico este texto à P.S. Que o fim lhe seja Recomeço.
sexta-feira, 16 de março de 2018
Caminandes
Bom fim de semana, fiquem-se com uma das animações 3D maravilhosas, de Pablo Vasquez. Todos os filmes são passados na Patagónia, um lugar exótico, feito de incríveis contrastes. Este jovem artista, nascido na Argentina, em Gallegos, tornou-se profissional na Holanda e criou, com a sua equipa, esta série de curtas metragens que mostram a vida de Koro na região patagónica. Um único episódio da série pode reunir locais emblemáticos da região, bem como a diversidade da sua flora e fauna. O protagonista destas aventuras é um guanaco (primo dos lamas, típico da América do Sul).
Para aceder ao seu canal, vão aqui.
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quarta-feira, 14 de março de 2018
Stephen Hawking

Este físico extraordinário deixou-nos hoje, aos 76 anos de idade. Diz que, quando lhe foi diagnosticada a doença, aos 23, pôs as expectativas a zero e tudo que veio depois disso foi um bónus.
“A inteligência é a capacidade de se adaptar à mudança.”
“Ainda que não me consiga mexer e mesmo tendo de falar através de um computador, sou livre na minha mente.”
Curiosidade: hoje seria o aniversário do físico Albert Einstein. Talvez Stephen Hawking tenha escolhido esta data para ir celebrar os anos de Einstein e o Dia do Pi - que é hoje também! - com o seu colega, junto das estrelas.
domingo, 11 de março de 2018
Filosofices XI
Se eu voltasse a ser uma criança, havia de querer fazer uma série de perguntas que na altura não me ocorreram. Agora que sou crescida, até parece mal, mas mal que pergunte...
Normal-Anormal são antónimos, isso é fácil. Então se alguém atrai é fiel, porque não trai? Se trair é o inverso se atrair, será que trai porque é repelente?
E o contrário de corpulento será corpurápido?
E o expoente é um poente reformado? E o expoente máximo, é quando o sol já não se põe e isso é o máximo, porque há sempre sol?
E isso de nos sentirmos preenchidos nunca percebi muito bem. Pois se preencher é antes de encher, uma pessoa afirmar que se sente preenchida deveria significar que está quase farta, ou não é?
Depois há essa palavra para os negócios com roupas à mistura, só pode, porque investir é vestir por dentro, pronto, é vestir a roupa interior, e o desinvestimento é bem capaz de ser quando despimos as roupas da parte de dentro. Se bem que as roupas de fora têm de sair primeiro...deve ser para isso que inventaram os descobrimentos.
E acho que quando estamos muito porcos, e acontece tomarmos um banho e sairmos ainda um bocadinho sujos, devíamos dizer que vamos ao rebanho.
Pronto, isto era o que eu perguntava se fosse criança, mas agora sou crescida, já não dá.
Gostaram? Se quiserem mais, basta escolher a etiqueta ou palavra-chave "Filosofices", ou visitarem o meu site Gavetas e Gavetinhas.
sábado, 10 de março de 2018
A casa
«Uma velha muito velha vivia numa casa escondida no coração da floresta, onde a luz mal conseguia entrar. Sobre a casa pairava um nevoeiro esverdeado com laivos de ouro, que as lanças do sol formavam ao trespassar os ramos do arvoredo, enquanto a lua não chegava com a sua túnica de prata.
Durante o dia o silêncio era rei desse lugar. Apenas o vento se escutava, silvando, a fazer dançar o tédio dos salgueiros e a tristeza dos ciprestes. Durante a noite, porém, os ruídos surgiam, feitos de bichos alados, rasteiros e marinhos; muitas patas e antenas e dentes e pelagem coberta de imundice.
Nessas horas, em que a lua era soberana, as trevas revelavam tons argênteos. Cristais de gelo e uma poalha azul-cobalto acariciavam a folhagem, inundando a floresta de murmúrios ocultos na sedução do frio, como tímida flor nascendo, por miragem, num manto de neve.
Assim se comportava o jardim selvagem ao redor da casa da velha, escondida na floresta onde a luz mal se atrevia. Estranho comportamento esse, tão contrário às leis naturais, não fosse a floresta o cenário verdadeiro da história que aqui se revela, tal como aconteceu.»
(© VERA DE VILHENA, em construção)
sexta-feira, 9 de março de 2018
quinta-feira, 8 de março de 2018
Mulher
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| © Nanã Sousa Dias |
Abriu a torneira, despiu-se, deitou-se na água quente e fechou os olhos. Afundou o rosto, deixando que os cabelos se colassem à pele. Tomou consciência de cada poro, de cada fio de cabelo. O mundo desapareceu. O coração batia, fazendo-se escutar no silêncio da tarde, no mutismo da casa vazia. Estava sozinha, não só. Apenas a sós. A Beatriz de Chico Buarque dançava na sua memória, as notas da melodia que amava boiavam no banho, encostando-se às suas coxas, ao cotovelo, entre os dedos da mão. Em breve eles iriam voltar, trazendo o ruído e o caos, a inundar o resto das horas com perguntas e apelos, com a arrogância da sua fome, o narcisismo das suas vontades.
A água agora morna lembrou-lhe o passar do tempo. Escutou a chave na porta, os risos abafados do marido e dos filhos. Chegavam com casacos e mochilas, botas, gorros, luvas e sacos. Chegavam com muitas coisas penduradas de todos os lados: da boca palavras, das mãos objectos, dos olhos o dia, do coração a saudade.
Da cozinha, empurrados pela corrente de ar, vieram os vapores do guisado já pronto. Sobre a mesa esperavam pratos, talheres, guardanapos, copos, a cesta do pão, o jarro com água. O gato de barriga cheia enroscado na poltrona de veludo, inútil e decorativo como todos os gatos.
Abandonou o banho, interrompendo a sua paz. Vinte e três minutos bem contados.
- Chegámos! - Disseram.
- O que é o jantar?
- Mãe, posso jantar a ver o Dexter?
- Mãe, posso ir a casa da Mafalda depois?
- Mamã, dás colinho, pois dás?
- Amor, compraste-me o que te pedi?
Ela sorriu e disse que sim a todos, como se, com essa afirmativa, reafirmasse a sua vida de mulher.
quarta-feira, 7 de março de 2018
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