Não se deixem enganar pelas riscas cor-de-rosa. Os dias são (d)escritos com todas as cores.
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domingo, 17 de novembro de 2019
domingo, 30 de junho de 2019
Guillermo Mordillo
Fica a sua arte e inteligência, o seu irresistível sentido de humor, que marcaram gerações. Que eu saiba, pelo menos duas. Estas figuras redondinhas a ganhar vida em cenários tão diversos, com humor por vezes subtil. Conheci-o a partir dos fascículos do Tintim, dos meus dois irmãos mais velhos. Adeus, querido Mordillo.
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
Cristina Carvalho
O carteiro veio entregar-nos hoje dois exemplares do novo livro de Cristina Carvalho, cujas fotografias são do Nanã.
Prós: a edição é um mimo, um pequeno livro que decerto irá parar ao PNL, pois tem todos os ingredientes para se recomendar aos jovens leitores, que devem conhecer o que a Tapada de Mafra tem para oferecer.
Contra: conhecendo eu as fotografias originais (por razões óbvias, já que o Nanã Sousa Dias é o meu marido), é lamentável que algumas delas tenham perdido grande parte da qualidade, ficando demasiado escuras, comprometendo a definição e os pormenores presentes na versão original, em especial a da autora, no fim (demasiado escura) e a da lua cheia, que tinha um céu de estrelas maravilhoso, e em cuja impressão se vê apenas a lua...em fundo negro.
Além das fotografias tiradas pelo Nanã e as bonitas ilustrações de Teodora Boneva, em desenho científico, traz no fim, depois dos Agradecimentos, sete páginas preparadas para desenho e notas, no âmbito de uma visita à Tapada. Muitos parabéns à Cristina e à Sextante por este livro.
Prós: a edição é um mimo, um pequeno livro que decerto irá parar ao PNL, pois tem todos os ingredientes para se recomendar aos jovens leitores, que devem conhecer o que a Tapada de Mafra tem para oferecer.
Contra: conhecendo eu as fotografias originais (por razões óbvias, já que o Nanã Sousa Dias é o meu marido), é lamentável que algumas delas tenham perdido grande parte da qualidade, ficando demasiado escuras, comprometendo a definição e os pormenores presentes na versão original, em especial a da autora, no fim (demasiado escura) e a da lua cheia, que tinha um céu de estrelas maravilhoso, e em cuja impressão se vê apenas a lua...em fundo negro.
Além das fotografias tiradas pelo Nanã e as bonitas ilustrações de Teodora Boneva, em desenho científico, traz no fim, depois dos Agradecimentos, sete páginas preparadas para desenho e notas, no âmbito de uma visita à Tapada. Muitos parabéns à Cristina e à Sextante por este livro.
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| Conheça a obra aqui |
sexta-feira, 1 de julho de 2016
Diálogo entre dois unicórnios-bebés
- Mano, vieram dizer-me que não existimos.
- Como assim, não existimos?
- Que foi este lápis que nos pintou e que somos um animal mitológico.
- O que é isso, mitológico?
- É quando parece que é verdade, mas afinal é invenção.
- Ah, como as histórias.
- Eh...não, as histórias existem mesmo, estão escritas, as pessoas lêem-nas, falam e escrevem sobre elas.
- Então, mais me ajudas, também estamos aqui ou não estamos? Não estás a falar? Não te estou a ouvir? Não estão pessoas a ler sobre nós, a ver-nos, a desenhar-nos, com este 12/0 Silver Ultra Mini Angula não-sei-quê?
Sim, lá isso...
- Então é porque existimos tanto como as histórias.
- Pois é. Então não somos aquela palavra, mitológicos?
- Isso não sei, só sei é que me está a dar a fome. Vamos comer?
- Vamos! Ainda bem que desenharam ervas e flores.
- Como assim, não existimos?
- Que foi este lápis que nos pintou e que somos um animal mitológico.
- O que é isso, mitológico?
- É quando parece que é verdade, mas afinal é invenção.
- Ah, como as histórias.
- Eh...não, as histórias existem mesmo, estão escritas, as pessoas lêem-nas, falam e escrevem sobre elas.
- Então, mais me ajudas, também estamos aqui ou não estamos? Não estás a falar? Não te estou a ouvir? Não estão pessoas a ler sobre nós, a ver-nos, a desenhar-nos, com este 12/0 Silver Ultra Mini Angula não-sei-quê?
Sim, lá isso...
- Então é porque existimos tanto como as histórias.
- Pois é. Então não somos aquela palavra, mitológicos?
- Isso não sei, só sei é que me está a dar a fome. Vamos comer?
- Vamos! Ainda bem que desenharam ervas e flores.
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| Annie Stegg Fine Art |
terça-feira, 27 de outubro de 2015
Condessa de Ségur
Reencontrei um livro que fez parte da minha infância e, que me lembre, tem a particularidade de ter sido o único, na época, a provocar-me pesadelos. Foi com um sorriso e muita emoção que tornei a percorrer a memória desse tempo, dessas histórias e, em especial, das ilustrações que magicamente têm o condão de nos transportar. Ao olhar para estas ilustrações, sou criança outra vez.
domingo, 25 de outubro de 2015
Beatrix Potter
Há universos infantis maravilhosos. Um dos meus preferidos, no que diz respeito a ilustração, é o de Beatrix Potter. Apesar de ter visto as suas histórias e desenhos recusados pelas editoras sessenta e nove vezes (é verdade, só à septuagésima tentativa é que uma editora disse "sim"), teve sucesso imediato e tornou-se na autora de livros infantis mais vendida de sempre! (moral: se acreditam no vosso valor e no vosso sonho, não desistam). Depois de um enorme desgosto amoroso, com a morte do seu noivo e editor, em 1905, usando parte dos primeiros royalties que obteve com a venda dos seus livros, comprou a propriedade Hill Top, no Lake District. A vida campestre tinha muito mais a ver consigo do que a vida social, na cidade; por isso Beatrix tentou ultrapassar o seu desgosto e saiu, enfim, da casa de seus pais, apesar de ainda solteira, mudando-se definitivamente para Hill Top, na Escócia (e que pode ser visitada como casa-museu). Ao longo dos anos, foi comprando em leilão e mantendo as quintas adjacentes, para que estas fossem preservadas e cultivadas, ao invés de aparceladas e vendidas para construção.
No final da sua vida, Beatrix Potter deixou à National Trust 4 mil acres de terras e 15 propriedades, com paisagens e lagos belíssimos, e uma flora e fauna que fizeram parte de muitas das suas histórias.
Em 2006 a sua vida foi adaptada ao cinema, com o filme «O mundo encantado de Beatrix Potter» («Miss Potter»).
Esta grande mulher esteve-se nas tintas para as convenções da sua época e fez muito pela conservação da paisagem, da agricultura e dos trabalhadores que cultivavam as terras da região. Foi também cientista e dedicou-se, nomeadamente, ao estudo dos fungos (ex: cogumelos), se bem que seja célebre pelas suas ilustrações. Aqui ficam algumas que, na época, foram verdadeiramente revolucionárias. Animais da quinta com roupinhas :-) e desenhados com todo o rigor científico.
No final da sua vida, Beatrix Potter deixou à National Trust 4 mil acres de terras e 15 propriedades, com paisagens e lagos belíssimos, e uma flora e fauna que fizeram parte de muitas das suas histórias.
Em 2006 a sua vida foi adaptada ao cinema, com o filme «O mundo encantado de Beatrix Potter» («Miss Potter»).
Esta grande mulher esteve-se nas tintas para as convenções da sua época e fez muito pela conservação da paisagem, da agricultura e dos trabalhadores que cultivavam as terras da região. Foi também cientista e dedicou-se, nomeadamente, ao estudo dos fungos (ex: cogumelos), se bem que seja célebre pelas suas ilustrações. Aqui ficam algumas que, na época, foram verdadeiramente revolucionárias. Animais da quinta com roupinhas :-) e desenhados com todo o rigor científico.
sábado, 26 de setembro de 2015
terça-feira, 19 de maio de 2015
Coisas antigas
Há blogues encantadores, que são baús recheados de coisas antigas, tesouros que resgatamos à nossa infância, a outros passados, outras épocas, e que nos alimentam o imaginário. Este é um deles, uma descoberta recente. Ora espreitem:
Love for books!
Love for books!
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| Jane Austen illustrations C. E. Brock, 1898 |
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Lacrime di Giulietta
Maravilhoso. Vale a pena verem até ao fim. Atenção, nada é deixado ao acaso, ao sabor do desenho: TODOS os pormenores estão arrumados correctamente na pauta, até as folhas da árvore.
sábado, 20 de dezembro de 2014
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
terça-feira, 2 de setembro de 2014
sábado, 17 de maio de 2014
domingo, 29 de dezembro de 2013
Literary coffee
Aceito um Jane Austen em chávena quente, enquanto revejo uma tese que não me deixa escrever. O trabalho está em primeiro lugar. Estou a três capítulos do fim, contando os dias para recomeçar a escrever o segundo volume da Ilha. Há alguém que escreve direito por linhas tortas, engordando a nossa vontade ao colocar-nos, diante dos olhos, um obstáculo que nos impede de fazer algo que vínhamos insistindo, estupidamente, em adiar.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Guerra Junqueiro
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, dentre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro; dentre a horta,
Dizia-lhe: "Bons dias!"
E o velho padre-cura
não gostava daquelas cortesias.
O cura era um velhote conservado,
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro:
Andava às lebres pelo monte, a pé,
Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.
O melro desprezava os exorcismos
Que o padre lhe dizia:
Cantava, assobiava alegremente;
Até que ultimamente
O velho disse um dia:
"Nada, já não tem jeito!, este ladrão
Dá cabo dos trigais!
Qual seria a razão
Por que Deus fez os melros e os pardais?!"
E o melro entretanto,
Honesto como um santo,
Mal vinha no oriente
A madrugada clara,
Já ele andava jovial, inquieto,
Comendo alegremente, honradamente,
Todos os parasitas da seara
Desde a formiga ao mais pequeno insecto.
E apesar disto, o rude proletário,
O bom trabalhador,
Nunca exigiu aumento de salário.
Que grande tolo o padre confessor! Foi para a eira o trigo;
E, armando uns espantalhos,
Disse o abade consigo:
"Acabaram-se as penas e os trabalhos."
Mas logo de manhã, maldito espanto!
O abade, inda na cama,
Ouvindo do melro o costumado canto,
Ficou ardendo em chama;
Pega na caçadeira,
Levanta-se dum salto,
E vê o melro, a assobiar, na eira,
Em cima do seu velho chapéu alto!
Chegou a coisa a termo
Que o bom do padre-cura andava enfermo;
Não falava nem ria,
Minado por tão íntimo desgosto;
E o vermelho oleoso do seu rosto
Tornava-se amarelo dia a dia.
E foi tal a paixão, a desventura
(Muito embora o leitor não me acredite),
Que o bom do padre-cura
Perdera o apetite!
Andando no quintal, um certo dia,
Lendo em voz alta o Velho Testamento,
Enxergou por acaso (que alegria!,
Que ditoso momento!)
Um ninho com seis melros, escondido
Entre uma carvalheira.
E ao vê-los exclamou enfurecido:
"A mãe comeu o fruto proibido;
Esse fruto era minha sementeira:
Era o pão, e era o milho;
Transmitiu-se o pecado.
E, se a mãe não pagou, que pague o filho.
É doutrina da Igreja. Estou vingado!"
E, engaiolando os pobres passaritos,
Soltava exclamações:
"É uma praga. Malditos!
Dão me cabo de tudo esses ladrões!
Raios os partam! Andai lá que enfim"
E deixando a gaiola pendurada,
Continuou a ler o seu latim,
Fungando uma pitada.
Vinha tombando a noite silenciosa;
E caía por sobre a natureza
Uma serena paz religiosa,
Uma bela tristeza
Harmónica, viril, indefinida.
A luz crepuscular
Infiltra-nos na alma dorida
Um misticismo heróico e salutar.
As árvores, de luz inda douradas,
Sobre os montes longínquos, solitários,
Tinham tomado as formas rendilhadas
Das plantas dos herbários.
Recolhiam-se a casa os lavradores.
Dormiam virginais as coisas mansas:
Os rebanhos e as flores,
As aves e as crianças.
Ia subindo a escada o velho abade;
A sua negra, atlética figura,
Destacava na frouxa claridade,
Como uma nódoa escura.
E, introduzindo a chave no portal,
Murmurou entre dentes:
"Tal e qual tal e qual!
Guisados com arroz são excelentes." * * * * * *
Nasceu a Lua. As folhas dos arbustos
Tinham o brilho meigo, aveludado,
Do sorriso dos mártires, dos justos.
Um eflúvio dormente e perfumado
Embebedava as seivas luxuriantes.
Todas as forças vivas da matéria
Murmuravam diálogos gigantes
Pela amplidão etérea.
São precisos silêncios virginais,
Disposições simpáticas, nervosas,
Para ouvir falar estas falas silenciosas
Dos mundos vegetais.
As orvalhadas, frescas espessuras,
Pressentiam-se quase a germinar.
Desmaiavam-se as cândidas verduras
Nos magnetismos brancos do luar.
........................................
........................................
Para o agasalhar, andou buscando
Umas penugens doces como arminho,
Um feltrozito acetinado e brando.
Chegou lá, e viu tudo.
Partiu como uma frecha; e, louco e mudo,
Correu por todo o matagal; em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.
"Quem vos meteu aqui?!" O mais velho,
Todo tremente, murmurou então:
"Foi aquele homem negro. Quando veio,
Chamei, chamei Andavas tu na horta
Ai que susto, que susto!, ele é tão feio!
Tive-lhe tanto medo! Abre esta porta
E esconde-nos debaixo da tua asa!
Olha, já vão florindo as açucenas;
Vamos a construir a nossa casa
Num bonito lugar
Ai! quem me dera, minha mãe, ter penas
Para voar, voar!"
E o melro alucinado
Clamou:
"Senhor! senhor!
É porventura crime ou é pecado
Que eu tenha muito amor
A estes inocentes?!
Ó natureza, ó Deus, como consentes
Que me roubem assim os meus filhinhos,
Os filhos que eu criei!
Quanta dor, quanto amor, quantos carinhos,
Quanta noite perdida
Nem eu sei...
E tudo, tudo em vão!
Filhos da minha vida
Filhos do coração!!!
Não bastaria a natureza inteira,
Não bastaria o Céu par voardes,
E prendem-vos assim desta maneira!
Covardes!
A luz, a luz, o movimento insano,
Eis o aguilhão, a fé que nos abrasa
Encarcerar a asa
É encarcerar o pensamento humano.
A culpa tive-a eu! Quase à noitinha
Parti, deixei-os sós
A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
De mais ninguém! Que atroz!
E eu devia sabê-lo!
Eu tinha obrigação de adivinhar
Remorso eterno! eterno pesadelo!
........................................
Ser abutre ou fera
Para partir o cárcere maldito!
E como a noite é límpida e formosa!
Nem um ai, nem um grito
Que noite triste!, oh, noite silenciosa!"
E a natureza fresca, omnipotente,
Sorria castamente
Com o sorriso alegre dos heróis.
Nas sebes orvalhadas,
Entre folhas luzentes como espadas,
Cantavam rouxinóis.
Os vegetais felizes
Mergulhavam as sôfregas raízes
A procurar na terra as seivas boas,
Com a avidez e as raivas tenebrosas
Das pequeninas feras vigorosas
Sugando à noite os peitos das leoas.
A lua triste, a Lua merencória,
Desdémona marmórea,
Rolava pelo azul da imensidade,
Imersa numa luz serena e fria,
Branca como a harmonia,
Pura como a verdade.
E entre a luz do luar e os sons das flores,
Na atonia cruel das grandes dores,
O melro solitário
Jazia inerte, exânime, sereno,
Bem como outrora o Nazareno
Na noite do calvário!
Segundo o seu costume habitual,
Logo de madrugada
O padre-cura foi para o quintal,
Levando a Bíblia e sobraçando a enxada.
Antes de dizer missa,
O velho abade inevitavelmente
Tratava da hortaliça
E rezava a Deus-Padre Omnipotente
Vários trechos latinos,
Salvando desta forma, juntamente,
As ervilhas, as almas e os pepinos.
E já de longe ia bradando:
"Olé!
Dormiram bem? Estimo
Eu lhes darei o mimo,
Canalha vil, grandíssima ralé!
Então vocês, seus almas do Diabo,
Julgam que isto que era só dar cabo
Da horta e do pomar,
E o bico alegre e estômago contente,
E o camelo do cura que se aguente,
Que engrole o seu latim e vá bugiar!
Grandes larápios! Era o que faltava
Vocês irem ao milho,
E a mim mandar-me à fava!
Pois muito bem, agora que vos pilho
Eu vos ensinarei, meus safardanas!
Vocês são mariolões, são ratazanas,
Têm bico, é certo, mas não têm tonsura
E, nas manhas, um melro nunca chega
Às manhas naturais de um padre-cura.
O melhor vinho que encontrar na adega
É para hoje, olé! Que bambochata!
Que petisqueira! Melros com chouriço!
E então a Fortunata
Que tem um dedo e jeito para isso!
Hei-de comer-vos todos um a um,
Lambendo os beiços, com tal gana enfim,
Que comendo-vos todos, mesmo assim
Eu fico ainda quase em jejum!
E depois de vos ter dentro da pança,
Depois de vos jantar,
Vocês verão como o velhote dança,
Como ele é melro e sabe assobiar!"
Mas nisto o padre-cura, titubeante,
Quase desfalecendo,
Atónito de horror, parou diante
Deste drama estupendo:
O melro, ao ver aproximar o abade,
Despertou da atonia,
Lançando-se furioso contra a grade
Do cárcere. Torcia,
Para os partir os ferros da prisão,
Crispando as unhas convulsivamente
Com a fúria dum leão.
Batalha inútil, desespero ardente!
Quebrou as garras, depenou as asas
E alucinado, exangue,
Os olhos como brasas,
Herói febril, a gotejar em sangue,
Partiu num voo arrebatado e louco,
Trazendo, dentro em pouco,
Preso do bico, um ramo de veneno.
E belo e grande e trágico e sereno,
Disse:
"Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre. A liberdade é a lei,
Prende-se a asa mas a alma voa
Ó filhos, voemos pelo azul! Comei!" -
E mais sublime do que Cristo, quando
Morreu na Cruz, maior do que Catão,
Matou os quatro filhos, trespassando
Quatro vezes o próprio coração!
Soltou, fitando o abade, uma pungente
Gargalhada de lágrima, de dor,
E partiu pelo espaço heroicamente,
Indo cair, já morto, de repente
Num carcavão com silveiras em flor.
E o velho abade, lívido d'espanto,
Exclamou afinal:
"Tudo o que existe é imaculado e é santo!
Há em toda a miséria o mesmo pranto
E em todo o coração há um grito igual.
Deus semeou d'almas o universo todo.
Tudo que o vive ri e canta e chora
Tudo foi feito com o mesmo lodo,
Purificado com a mesma aurora.
Ó mistério sagrado da existência,
Só hoje te adivinho,
Ao ver que a alma tem a mesma essência,
Pela dor, pelo amor, pela inocência,
Quer guarde um berço, quer proteja um ninho!
Só hoje sei que em toda a criatura,
Desde a mais bela até à mais impura,
Ou numa pomba ou numa fera brava,
Deus habita, Deus sonha, Deus murmura!
........................................
Ah, Deus é bem maior do que eu julgava"
E quedou silencioso. O velho mundo,
Das suas crenças antigas, num momento,
Viu-o sumir exausto, moribundo,
Nos abismos sem fundo
Do temeroso mar do Pensamento.
E chorou e chorou A Igreja, a Crença,
Rude montanha, pavorosa, escura,
Que enchia o globo com a sombra imensa
Dos seus setenta séculos d'altura;
O Himalaia de dogmas triunfantes,
Mais eternos que o bronze e que o granito,
Onde aos profetas Deus falava dantes,
Entre raios e nuvens trovejantes,
Lá dos confins sidérios do infinito;
Esse colosso enorme, em dois instantes
Viu-o tremer, fender-se e desabar
Numa ruína espantosa,
Só de tocar-lhe a asa vaporosa
Duma avezinha trémula, a expirar!
........................................
........................................
E, arremessando a Bíblia, o velho abade
Murmurou:
"Há mais fé e há mais verdade,
Há mais Deus concerteza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nessa Bíblia antiga Ó Natureza,
A única Bíblia verdadeira és tu!..."
("O Melro - A velhice do padre eterno", GUERRA JUNQUEIRO)
Blogue do ilustrador AQUI
Obrigada, Rosarinho :)
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Aniversário
Para assinalar o dia de hoje, cheio de emoções (completei 44 primaveras, sou bebé), aqui deixo um dos presentinhos virtuais, vindo da "Fonzie" :) Obrigada! A-DO-REI! (não tem incorporação activada, só com link, desculpem)
http://www.youtube.com/watch?v=wCkerYMffMo
http://www.youtube.com/watch?v=wCkerYMffMo
quarta-feira, 3 de julho de 2013
terça-feira, 16 de abril de 2013
a escrita e a imagem I
Hoje quero mostrar-vos que uma simples imagem pode servir de estímulo à escrita. Paralelamente, estou a fazer uma nova experiência: irei exemplificar como a mesma imagem pode originar contos absolutamente distintos. Amanhã escrevei outro, com a mesma imagem...
![]() |
| © Rodney Smith |
Mano a mano
- Estás aí, mano?
- Não…
- Ora, se me respondeste, estás!
- És muito esperto, mano.
O mais velho (por dez minutos apenas,
diga-se de passagem), era um brincalhão e fazia sempre aquilo, deixar o irmão mais novo, cego de nascença e frágil nas emoções, sem saber se gozava com ele ou o elogiava.
- Mas... o que fazes tu aí em cima, afinal?
- É que o artigo que escreveste
esta semana provocou a ira do povo. Se fosse a ti, escondia-me.
O mais novo tinha uma maneira muito especial de ver o mundo, de analisar pessoas e assuntos, e ganhava a vida publicando crónicas no jornal da pequena cidade, além de trabalhar como ghost-writer escrevendo tímidas biografias, homenagens e discursos de cariz político. Na crónica ele deixava escrito o que pensava realmente.
- Escondo-me? Então e tu? Irão passar por aqui, ver-te e julgar que tu...
- Deixa, posso bem com eles. É só fechar os olhos, que os engano bem, tu sabes. Eles vêm cegos de raiva, nem se lembrarão que tens um irmão gémeo que vê. Afinal, durante quanto tempo lhes permitirá a consciência pontapear um cego?
- Não tens de fazer isso por mim, mano...
- Eu sei, mas há dias safaste-me tu. Estou a dever-te este favorzinho. Vai, vai antes que eles passem por aqui. Já vejo as candeias lá ao fundo!
Resignado e muito grato, o mais novo lá foi esconder-se na cave secreta da casa onde moravam ambos. E enquanto atravessava o bosque e o nevoeiro que apenas sentia no rosto, assaltou-o outra dúvida: será que o brincalhão do seu mano, ao transcrever-lhe os textos em braille, não resistia a fazer-lhes algumas alterações? Francamente, não se recordava de ter escrito nada de ofensivo a ponto de provocar violência física.
sábado, 2 de março de 2013
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