terça-feira, 23 de maio de 2017

Michael Franks

"Time Together", um tema composto em 2011, para o álbum com o mesmo nome, em homenagem a Flora, uma cadela que o casal encontrou. Isto é o amor aos cães. Um ternura de ver e ouvir. Os direitos desta canção foram oferecidos à Hearts United for Animals.

Flora, though you sleep
On our guru's lap now
All we see everywhere is you
As we recall our time together
Lucky is how we felt
The day we found you
And we were such a happy three
O how we loved our time together

Why must the Present
Turn to Past so fast?
The disappearing Now
I wish I had a golden bough
To bring you back somehow

Someday when all our hearts
Are reassembled
Love will connect us once again
And we'll resume our time together

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Garden

Winter's hard to rhyme
We're prisoners in some icy pantomime
Just waiting for the wind to change his mind
And sing us green
April starts to whisper to the trees
I hoe and you plant the trees
Canterbury Bells begin to ring
The sparrows are stealing string
Hollycocks and foxglove to the knee
Now life's a major key
We've got mud between our toes
This is how the garden grows
Midnight in July
We see the season spread across the sky
We wake up to a nosy dragonfly
Against the screen
You just love to bite me where it shows
You kiss me
Then hide my clothes
Running through the sprinklers nearly raw
We've just disproved Newton's law
How can I break even with the weeds
In love so beyond my needs
Blossoms on you Mama's rose
This is how the garden grows
Lyrics: Michael Franks, "How the garden grows"
Paiting: Monet

quinta-feira, 18 de maio de 2017

À mesa

(...)
Quero a minha mesa macerada, peculiar
A toalha manchada de nódoas de vinho vertidas
Dos copos de Beaudelaires e Kafkas,
De Pessoas, Modiglianis e Rodins
Vindimando-me as manhãs!
Heterónimos de novas letras,
Cachos encorpados de musas,
Parras, uvas, viúvas,
Destilando capitosos raciocínios,
Decantando a ponta dos galhardetes,
Engaços na curva macia de um prato de farfalle.
Quero o peito fermentado de abraços,
A casta risonha de artesãos licorosos
Que não esqueço, que agarro e adormeço,
Quando o dia rompe como lacre,
De mortos sempre longos na minha boca.
A travessa molhante, matando a fome à sede,
Alimentando, em provas cegas, ideias, puras
Iguarias.
(...)

(Vera de Vilhena, excerto adaptado in «Fora do Mundo», Poética Edições, 2014)

Imagem: «Hipp Hipp Hurra!», Peder Severin Krøyer (Noruega-Dinamarca, 1851-1909)

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A culpa


«Um menino rico num colégio privado, a promessa de vida fácil. Um rapaz tornado marginal, desconexo, e de repente era vê-lo a ganhar um outro estatuto, a representar outra coisa. Já não era “O Guilherme”, era sim “O Guilherme que se matou”. Para sempre adicionado aquele cognome, aquele peso enorme, aquela sombra de ocaso, distendida à luz do poente, a agigantá-lo, a torná-lo imenso, maior do que todos nós. Não, já não era ele e a sua vida inconsequente, era alguém que fizera a mais exótica e misteriosa das viagens, para ir ter com o Nada, e nos deixara engasgados de arrependimento, com todos os insultos que largáramos sobre ele, no início do ano lectivo, até o aceitarmos. E ele a escrever na carta que ali, no grupo de teatro, fora feliz. E eu a pensar quão infeliz se pode ser, em surdina. Enganou-nos bem. Um actor de primeira, no palco da escola. Uma lição extracurricular.
Não parecia verdade, aquela notícia:
− O Guilherme morreu, matou-se…
Não, não podia ser, ninguém morre assim, com quinze anos. Ninguém escolhe morrer sem ter vivido. 
Mas era vê-lo ali, no caixão, na Igreja da Madre Deus, sem deixar que fosse boato. Lenço de linho sobre a cara, por causa dos efeitos do tiro que os não-sei-quantos que tratam dos mortos não conseguiram disfarçar. Ou então não estava assim tão mal, mas a família não quis mostrar. Afinal, ele até era feio, dificilmente estaria melhor depois de morto. É crueldade, eu sei, era assim que o tratávamos, isto foi só para recordar a nossa imbecilidade. Idade imbecil. E na capela da igreja a Mãe em choque:
− O caixão é muito pequeno! Eu avisei que o caixão era pequeno, ele ainda está a crescer!
E o marido a agarrá-la, e a irmã mais velha a chorar, e as nossas colegas de turma também, todas a chorar por ele e por nós, a culpa escorrendo pelo rosto abaixo. E a Mãe junto dele, a indicar o comprimento das calças cinzentas:
− Olhem para isto, vêem? Estão curtas, vai ter frio! Vai fazer má figura quando chegar ao céu...»

(Vera de Vilhena, excerto do próximo livro)

Photo credits: Dave King

domingo, 14 de maio de 2017

Se um dia

Esta noite sonhei que milhões de portugueses se mantinham colados às televisões do mundo inteiro, aonde quer que vivesse um português, mas não era para ver futebol. Nem desastres. Nem eleições. Sonhei que andavam há semanas, imagine-se!, dançando ao som da mesma valsa ad libitum, enamorados por uma voz, o condão de ser pura em cada verso, cantando por todos nós, salvando-nos, como se os corações do mundo se fossem quebrar em dois, a qualquer instante, transformados em cristal, a respiração em suspenso, o braço dado - Só mais uma volta, não caias, salva-nos! -, rogando-lhe que entregasse todas as palavras aninhadas assim, na ternura das cordas, e num piano conduzindo a melodia de veludo que ninguém consegue abandonar. As salvas de palmas e os votos, neste meu sonho, foram para aquela que era a poesia cantando o amor, e o país inteiro, a Europa e o mundo, todos se rendiam, no meu sonho, à súplica de um mendigo com voz de frágil pássaro, flautista de Hämelin seduzindo e levando consigo todos aqueles capazes de amar pelos dois.
E ainda não tinha acordado, eu, quando a valsa dos irmãos, que todos unia numa prece sem Deus, avançava e subia até à dimensão da esperança, infiltrando-se, camada por camada, na pele de quem por ela se deixava adormecer, para sonhar também. E uma voz dentro de mim dizia:
-  Seria tão bom, tão bom que um dia fosse possível, a um poema simples, inteiro, sem demasias, vencer...! Ser escutado com o coração e a mente, deixando para trás o fogo de artifício, ganhando a todos, até aos de valor, a dar peso à nossa conquista...!
Na lenda que o meu sonho ia tecendo, a feiticeira criadora nunca deixava cair o duende da floresta, imerso no seu cântico enfeitiçado:
- "Cuida das palavras, meu irmão, não te distraias, não te percas no caminho, repara que despertámos as pedras e encantámos as fadas, vamos embalar o seu espanto e mostrar que é possível dizer tudo na penumbra de um beijo".
Foi então que acordei. As nossas pessoas, milhões de gente, de muitas línguas, ainda traziam os lenços e os olhos molhados, o vinho e o champanhe nos copos, as vozes roucas e o coração cheio. À luz lilás do amanhecer, pequenas gotas de orvalho eram resquícios da festa. No ar o cheiro morno da felicidade.
Despertei e fui dar de frente com um sonho acontecido.
Se um dia alguém perguntar por nós, digam que nos fomos salvar.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Serão

A meta de um novo livro parece fugir, à medida que vou correndo para o fim. A afastar o sopro do desalento tenho os cães a meus pés, e a chuva caindo com violência, batendo na vidraça do meu escritório, como quem grita, Avança e não te atormentes mais. Stacey Kent canta aos meus ouvidos com um sorriso infantil na voz, La Vénus du Mélo, indiferente ao meu cansaço. Quando a chuva se interrompe revela uma lua gorda, vestida de noite, a bainha uma fileira de luzes trémulas, cor de mel, os torreões da basílica são borbotos de uma saia de lã, picando o céu azul-cobalto. E eis que chegam os violinos de La Javanaise, a evocar, no timbre doce de Madeleine Peyroux, a valsa de Luísa e Salvador Sobral, que tem o País quase inteiro de si enamorado, agarrado pelo coração,  amando pelos dois.