segunda-feira, 27 de junho de 2016

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Mãos vazias

Nas mãos o mesmo ramo que levava no dia do casamento. O marido ao seu lado, bonito, de fato cinza-claro, os olhos de ambos inundados, a reflectir o pasmo de ser possível sentir tamanha felicidade, que mal cabia no peito. O indicador da mão direita a esconder o velho anel de ouro - Manuel 27-5-1922 - prefere que o senhor atrás da máquina não lhe apanhe a aliança, o metal precioso a captar as atenções, a deixar para segundo plano o seu vestido de flores minúsculas, as veias salientes, a quererem sair de si, levar-lhe o sangue para longe; os sulcos do tempo esculpidos nos dedos sem carne e as manchas, que são tantas, e mal deixam ver a cor verdadeira daquela que foi a sua pele, nos dias vividos antes do vestido branco e daquele ramo silvestre, da cor do céu mais limpo. Eram dias em que Manuel lhe dava rosas vermelhas, e as suas mãos tinham carne e cheiro e humidade, não eram um deserto.
As pessoas aguardam em silêncio. Não pretendem apressá-la. Afinal, o tempo da morte é um poço sem fundo. Os olhos dela inundados, a reflectir o pasmo de ser possível sentir tamanha tristeza, que mal cabe no peito. Os dele fechados para sempre, sem pasmo, na aceitação de um destino. Por fim, a viúva pousa o pequeno ramo de flores azuis sobre o peito do marido, deitado à sua frente. As mãos dele também cruzadas. No anelar a aliança - Luísa e a mesma data. A mulher não a quis, era dele, sempre fora dele.
Só depois é fechado o caixão.
Luísa chora, enfim. Nunca gostou de chorar diante do marido nem de ninguém. Só que nesse momento não existe ali ninguém. Nada mais do que ela e as suas mãos sem flores.

© Vera de Vilhena, inédito

terça-feira, 21 de junho de 2016

Culpa

Varanda a nascente, comum à cozinha e à sala
Já não está assim, a casa, como na fotografia, tirada há cinco anos. Anda descuidada, votada ao abandono, gretada, envelhecida. Ainda lhe arranco um sorriso, quando o sol bate na parede de pedra tosca da sala, derramando a luz do anoitecer; quando me devolve objectos há muito desaparecidos, ou me recorda que muitas paredes se encontram ainda vazias, à espera de dono. É urgente cuidar daquilo que amamos. Ando cheia de culpa, por causa desta amizade incondicional, que não mereço.
Perdoa-me, Casa da Lua, em breve cuidarei de ti.

Pormenor da cozinha: fotografia da minha avó Mimi, Anos 20, jarros de vinho José Franco,
licores do Algarve, livros de Joanne Harris, almofariz de bronze.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

James Joyce

Hoje é BLOOMSDAY!
Que forma maravilhosa de celebrar e homenagear um conterrâneo! Soube hoje da existência desta  curiosa efeméride irlandesa. Obrigada, Luís!
1904 - James Joyce publica Ulisses.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Graça Pires




Despojos antigos

«Enterro no chão a multiplicidadede despojos antigos.
São de pedra como as casas envelhecidas
onde as teias roçam todas as traves
e se cruzam com a poeira dos móveis.
São lobos vagueando pela noite
a farejar insónias.
São raízes enredadas nos artifícios
da idade, nas preces de cada dia,
nos retratos de família.
Procuro agora a fonte mais distante
para inscrever na água corrente
a sublime nudez da juventude.
E alinho contra os muros
os sonhos que morreram no meu peito.»

GRAÇA PIRES
De Uma claridade que cega, Poética edições, 2015
Para mais, aceda ao blog ortografia do olhar

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Rouquidão

Partir o silêncio em dois,
Como quem traça
Uma linha________________ de luz
na escuridão.

E agora, que fazer
Com meios-silêncios
Que não chegam a dar-me voz?

Uma rouquidão turva
Alva serpente
Esfumando-se em cantos de anil

E tudo é silêncio
Outra vez.





quarta-feira, 8 de junho de 2016

Alguma coisa

Um excesso de tudo,
Cansaço
Uma falta de outro tudo
Desespero
Que remédio senão
Tentar viver
alguma coisa
Que me acrescente.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Lotte Reiniger

HOMENAGEM DA GOOGLE a esta cineasta de animação nascida em 1899 (Berlim), ainda tão pouco conhecida do grande público e cujo trabalho pioneiro, de efeito fantástico, exigia grande perícia, imaginação e paciência. 
«Lotte Reininger created visually stunning and fantastical films using black cardboard, scissors, and boundless imagination. Pre-dating Walt Disney by nearly a decade, Reiniger pioneered a style of animation that relied on thousands of photos of paper cut-out silhouettes arranged to tell a story. It was a painstaking process that involved moving paper characters ever so slightly and snapping a photo of each movement. She created many films over the years, including The Adventures of Prince Achmed, the oldest surviving feature length animation.
Nearly a century later, Reiniger continues to inspire animators and artists. On what would have been her 117th birthday, we celebrate Reiniger’s limitless creativity and pioneering spirit. 
Original Music: Silas Hite (http://www.silashite.com/), Max Steiner Agency (http://www.maxsteineragency.com/)
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