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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Uma janela para o mar

Paralisada junto ao abismo, como borboleta de vestido transparente na iminência da morte, incapaz de resistir à luz. Assim estava Luísa, na madrugada de cinzas, uma réstia de sol a iluminar-lhe o cabelo, o ombro e o braço esquerdo, a pedir:
- Não o faças, não vás ainda, olha para trás, vira-te, para tudo há retorno, menos para a morte.
Mas Luísa tem os olhos presos na ondulação do mar que chama por ela, não conhece o caminho de regresso. 
Os vidros da enorme janela viram coisas que não deveriam ter visto, partilharam com ela o reflexo dos seus olhos de vidro e para sempre a fizeram infeliz. Para sempre. Se ela não se virar. O homem ali está. O Arrependimento nos olhos. O arrependimento mais verdadeiro que um olhar sincero pode reflectir.
Ela sente o corpo a oscilar, antes da queda. E na oscilação do seu tronco revê a superfície de fogo soprado, nascida da areia, talvez a mesma areia no fundo daquelas águas prestes a devorá-la. E quando é capaz, enfim, de ver o reflexo do homem que ama, Luísa vira costas ao mar e enfrenta aquele que lhe cravou uma espada no coração. Nada dizem. O silêncio fala por ambos. Ela sabe, sabe do seu arrependimento e das razões reunidas pelo universo, todas as razões do mundo para lhe darem perdão.
Por fim, Luísa fecha a janela. Nunca pensou que tornaria a ser capaz de fechar aquela janela, a deixá-la entreaberta para o mundo. O sol a dizer-lhe, Não vás ainda. Aquele mar de cobre sob o céu de cinza torna então à sua beleza triste, porém sem morte. Ainda resta lugar para o amor e o perdão.
Nada mais se escuta do que o rebentar das ondas e o murmúrio de um beijo.


© Vera de Vilhena, inédito

sábado, 2 de julho de 2016

O jardim de inverno


Naquela manhã estranhamente fria para a estação, Luísa foi conhecer, enfim, a casa abandonada onde nascera e vivera a sua trisavó Anna. Dizia-se que o fim da sua vida naquela casa fora infeliz, encerrada, ano após ano, vítima do ciúme do segundo marido, um homem que a tratara com todo o carinho até ao dia do casamento, para logo revelar a sua natureza brutal. Anna era vista tocando harpa junto à janela, os longos cabelos soltos, camisa de noite com pequenos folhos e laços, os olhos reflectindo uma tristeza que não parecia deste mundo. A filha que teve do primeiro marido morto, que tanto a amara, fora levada à sua revelia para uma casa de família, adoptada como se não possuísse outro passado: aos olhos do padrasto, era sujo, o sangue correndo nas veias da inocente, fruto de um amor odioso, que ele não pretendia ver recordado, a cada dia.

Quando saíam ambos, para os salões, em vão os poucos amigos tentavam fazê-la regressar, reaquecer-lhe o sangue, provocar em Anna um sorriso, mas a jovem mulher jamais se recompôs do erro daquela união com o Diabo.

Luísa tranca a porta do automóvel, embora esteja absolutamente só, como se temesse a invasão de alguns espíritos que sobrevoam o lugar amaldiçoado. Nas mãos traz a grande chave que trancava a sua trisavó no jardim de inverno, no cimo do rochedo onde fora plantado o palácio: corria pela aldeia que o desaparecimento súbito do marido ciumento não se devera a abandono. Nunca mais fora visto nem o seu corpo encontrado. Mas também ninguém se importara. Anna morrera num hospício, na cidade mais próxima, junto do oceano de ondas sempre em fúria. No último momento de vida, desencarnara gritando:
- Quero voltar! Quero voltar!
Mas ninguém sabia para onde queria ela voltar, para o seu palácio não poderia ser, onde a infelicidade era um corpete colado ao corpo, a asfixiá-la, e até porque há muito Anna nada dizia que fizesse sentido e ali se foi, na cama suja de um hospício, o crucifixo junto à cabeceira, o padre saindo com ar transtornado, como se tivesse sido o receptáculo da mais terrível das confissões.
Não se vende, o palácio, por mais que baixem o preço. Talvez sejam os uivos e gemidos de Anna a desencorajar os compradores, dizem, escarnecendo, os que negam a teimosia dos fantasmas.
A mulher sente uma estranha paz, ao abrir a porta do jardim de inverno, cujas paredes de vidro despedaçado deixam ver as copas das árvores e o mar furioso, a perder de vista. Ao canto, a velha harpa, que ali ficou em silêncio. Voam pássaros, a resgatar memórias da mulher prisioneira.
Luísa aproxima-se do vidro circular, pintado com pavões de cores suaves e sente. Sente e é capaz de ver: alguém ali respira e não é ela, que traz a respiração em suspenso. O vidro a ficar embaciado provoca-lhe um arrepio. Enfim, Luísa reconhece a imagem dos velhos retratos a tomar forma: é o rosto de Anna reflectido na vidraça, a sorrir-lhe, feliz, como quem reconhece, no rosto de Luísa, a própria filha. De repente tudo se aquieta, os ramos das árvores, o voo e o canto dos pássaros, do riacho ali perto, coberto de pedras e musgos; tudo é silenciado, a fim de receber o eco esquecido regressando, em surdina, até formar uma sequência inconfundível de sons, tantas vezes escutados pelas árvores centenárias…
É então que a harpa recomeça a tocar uma peça, há muito interrompida, de Gabriel Fauré: Une Chatelaine en sa Tour.
Anna bem gritara que queria voltar.


© Vera de Vilhena, inédito

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Mãos vazias

Nas mãos o mesmo ramo que levava no dia do casamento. O marido ao seu lado, bonito, de fato cinza-claro, os olhos de ambos inundados, a reflectir o pasmo de ser possível sentir tamanha felicidade, que mal cabia no peito. O indicador da mão direita a esconder o velho anel de ouro - Manuel 27-5-1922 - prefere que o senhor atrás da máquina não lhe apanhe a aliança, o metal precioso a captar as atenções, a deixar para segundo plano o seu vestido de flores minúsculas, as veias salientes, a quererem sair de si, levar-lhe o sangue para longe; os sulcos do tempo esculpidos nos dedos sem carne e as manchas, que são tantas, e mal deixam ver a cor verdadeira daquela que foi a sua pele, nos dias vividos antes do vestido branco e daquele ramo silvestre, da cor do céu mais limpo. Eram dias em que Manuel lhe dava rosas vermelhas, e as suas mãos tinham carne e cheiro e humidade, não eram um deserto.
As pessoas aguardam em silêncio. Não pretendem apressá-la. Afinal, o tempo da morte é um poço sem fundo. Os olhos dela inundados, a reflectir o pasmo de ser possível sentir tamanha tristeza, que mal cabe no peito. Os dele fechados para sempre, sem pasmo, na aceitação de um destino. Por fim, a viúva pousa o pequeno ramo de flores azuis sobre o peito do marido, deitado à sua frente. As mãos dele também cruzadas. No anelar a aliança - Luísa e a mesma data. A mulher não a quis, era dele, sempre fora dele.
Só depois é fechado o caixão.
Luísa chora, enfim. Nunca gostou de chorar diante do marido nem de ninguém. Só que nesse momento não existe ali ninguém. Nada mais do que ela e as suas mãos sem flores.




© Vera de Vilhena, inédito

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Irra, até que enfim!

Abriu a página do facebook e libertou o desabafo:
«- IRRA, ATÉ QUE ENFIM! Mais não posso dizer, o decoro não mo permite.»
Logo os comentários choveram:
- Estavas a ver que não! :-)
- Não sei do que falas, mas até que enfim, estou feliz por ti!
Uma mais atrevida perguntou:
- Apareceu-te o periodo que já estava atrasado, foi? Já te estavas a imaginar de fraldas e biberons outra vez, ahahaha!
- Boa! Não há male que sempre dure!
(male????)
-  Fixe! Quem espera sempre alcança!
E mais uma série de provérbios que lhe diziam exactamente aquilo que pretendia ouvir. O facto de ninguém ter a mínima ideia daquilo a que ela se referia com o: Irra até que enfim, não tinha qualquer importância:
- Estou feliz por ti, amiga!
- Deviam-te dinheiro, queres ver? Ai, este país vai de mal a pior!
- Tavas a ver que não!
- Boa!
- Que alívio, hein?
- Vá, conta lá!
Não faziam ideia. É que não faziam a mínima.
O engraçado é que aquela cambada de gente ignorante, relativamente à sua situação, bem intencionada, é certo, lhe havia trazido um estranho consolo.
O facebook era aquilo. Também podia ser aquilo. A solidariedade virtual, de café de esquina, pronta a servir.