Mostrar mensagens com a etiqueta crónica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crónica. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 20 de março de 2020

Covid-19


Olá, mãe

Tenho tanto para lhe contar, a mãe não imagina. Não, não é uma força de expressão, nem a mãe nem nós poderíamos, até há três meses, imaginar as nossas vidas transformadas assim.
Está a ver aquele novo automóvel que o Nanã me ofereceu? Eu andava tão contente por enfim poder sair daqui, a dar as minhas voltas, não era? Olhe, foram algumas semanas apenas, agora já não posso. Quase ninguém pode, sabe? Estamos em guerra com um bicho invisível que nos mata, veja lá. De repente, andamos unidos, a reinventar os dias, fechados em casa. E não é só cá, é na Europa inteira. E em muitos outros países. A mãe havia de ver a praça de S. Marcos agora, uma Veneza deserta, uma Itália que ninguém reconhece.
O mundo está infectado.
- Mas que horror, isso parece coisa de filme! - Ou de "fita", diria a mãe, mas olhe que é bem real e nem fazemos muitas fitas, deixámos os governantes algo espantados, pela forma como nos antecipámos às suas ordens, fechando-nos logo em casa. Houve quem antes disso levasse todo o papel higiénico das prateleiras mas pronto, alguém que não entendeu que este vírus ataca o sistema respiratório, e não o digestivo.
- Então e agora, o que é fazem todo o dia? - perguntará a mãe com o seu sentido prático, Olhe, muitos fazem teletrabalho, que as empresas mandaram todos para casa; outros, não podendo, fazem bolos, jardinagem, croché, jogam ao Stop, à Batalha Naval, até ping-pong ao parapeito, vi eu nas notícias; cantamos à janela, publicamos folhetins, usamos e abusamos das videochamadas - eu explico, mãe, é aquela coisa de falarmos uns com os outros a ver-se a cara, lembra-se? Pena não haver videochamadas para o céu, mas a mãe aí está bem, a salvo e segura, que aqui na terra estamos a tentar evitar o inferno.
O Pai é que não anda a ligar nenhuma, sabe? Continua a ir ao seu cafezinho, sem máscara nem luvas. Imagino que a mãe iria fazer o mesmo, e nós, filhos, lá teríamos de nos zangar consigo também. Enquanto lhe escrevo o mais provável é o café ter fechado, fecham tudo, é o que nos salva.
As suas lojas preferidas cerraram as portas. Mas quem precisa de uma saia ou de umas botas novas, de um colar ou carteira, de uma blusa ou de ir ao cabeleireiro, se as semanas se passam em casa? Nós, mulheres, vamos todas ficar com raízes, vai ser um horror, a mãe vai odiar. Mas é que muita coisa perdeu a razão de ser.
Quem está na maior são os cães. Veja lá que têm privilégios sobre nós, é uma das poucas desculpas para sair à rua e têm os donos sempre ao lado. Até vi quem passeasse o cão com um drone. Quando pensamos que vimos tudo. Eles dizem "animais de companhia", mas deviam dizer "cães", não acha? Ninguém passeia gatos nem periquitos nem gansos nem sapos.
Estamos a fazer das vísceras coração para sermos felizes e aguentarmos isto até ao fim. E a mãe vai ver, quando este bicho se for embora, ou quando tivermos uma armadura para nos defendermos, havemos de nos vingar com beijos e abraços, vai ser uma marmelada pegada, matar a fome com carícias, alguém há-de inventar um símbolo qualquer para festejarmos essa nova liberdade, se não forem cravos talvez sejam girassóis ou malmequeres.
Mas olhe, o planeta há muito que não estava tão limpo, até respira melhor. E é isso que nós queremos todos, que nós e os nossos continuem a poder respirar por aqui mais um bocadinho.

sábado, 21 de setembro de 2019

Coisas do campo

Vai fazer 13 anos anos, desde que me mudei para o campo, perto do mar da Ericeira. Embora ainda sinta a síndrome do isolamento, muito devido a não ter o meu próprio carro (augura-se, daqui a poucos meses, a solução para esse velho problema, façam figas!), continuo feliz com esta decisão. O privilégio de aqui viver não se nota apenas no que é mais evidente - o ar puro, o custo de vida mais barato, a facilidade em estacionar à porta de casa sem garagem (transformada desde logo em oficina), a beleza natural que me rodeia, a cozinha espaçosa, a lareira etc - mas também no que é subjectivo, no ritmo a que se respira (o ar limpo), na interação pessoal, na simplificação de rotinas e num espírito de entreajuda que não é comum numa grande cidade como Lisboa, onde nasci, apesar de existirem alguns bairros, antigos e recentes, onde esse espírito felizmente sobrevive.
Assim, é normal telefonar para a junta de freguesia a perguntar se a Tânia tem envelopes de autor, com a barra encarnada e taxa de envio especial, para eu enviar um livro pelo correio (que também ali funciona).
- Tenho poucos, mas eu guardo um para si.
E nessa tarde lá vou eu. Estacionamos perto do coreto e da igrejinha, ouve-se um tii-ron! uma sineta com sensor, a avisar quanto a quem entra, e a Tânia lá está, com o meu envelope. Trocamos cumprimentos, aproveito para levantar dinheiro na caixa multibanco, também instalada do lado de fora do pequeno edifício branco e modesto, e o livro segue.
Chego a casa e recebo um telefonema da vizinha, que vive no pinhal em frente, a perguntar se eu quero figos e limões. De oferta, claro. Às vezes, um outro vizinho, gente da terra com quem apenas me dou para um bom dia e boa tarde, deixa-me um balde cheio de ameixas, das encarnadas, carnudas e sumarentas, que não se encontram nos supermercados. Ou vagens de ervilhas ou de favas.
- A vizinha depois atire o balde para lá! (da cerca)
Ao fundo, pastam duas ovelhas. Estão bem longe, não me arrisco a acertar-lhes  com o balde. Como diz a personagem do Calceteiro, interpretada por Ricardo Araújo Pereira, e pronto, a minha bida é isto.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

A mala encarnada

Retiro o pó à mala encarnada, esquecida debaixo da cama. Lembro-me da frase de Helen Hunt em As Good As It Gets, ao retirar a sua do cimo de um armário: a mala chocada por ser usada, enfim, saindo quase a medo, pouco audaz, habituada à previsibilidade segura daquele recanto escuro, sem vida.
A lista mental: pijama, roupa interior quente, camisolas, escova de dentes, cenas de toilette, botas, perfume, gotas dos olhos, anti-alérgico, livro, caderno, canetas, óculos vários, telemóvel, carregador e, à última hora, cachecol, gorro, luvas. Afinal, é a Serra da Estrela, usar uma t-shirt enquanto preparo a modesta bagagem, para uma só noite, não impede que me aguarde o Inverno, em Manteigas. 
À noite, no quarto de hotel, assisto, sem surpresa, ao discurso de vitória de Jair Bolsonaro. Utiliza a palavra Liberdade. Mudo de canal, para ver qualquer outra coisa.
Na manhã seguinte, é aproveitar a distância percorrida para passear: uma visita a cães serra-da-estrela bebés (e a vontade de trazer todos), uma prova de licor de mirtilo, a compra de chinelos e um casaco de lã, típicos da serra. E um queijo. Não podia faltar o queijo.



O carro a serpentear montanha acima, o frio a subir connosco. 0º. -1º. -2º. Uma fotografia junto à pequena lagoa. O frio, o frio na pele, na carne, nos ossos. Ainda ontem era Verão. 
Um almoço de truta grelhada junto à janela. O aconchego da encosta verde e de um céu bem azul, salpicado de ovelhas. O sol a bater na vidraça.
No regresso, a chuva. A tarde agora mais curta, a luz a sumir tão antes da hora, triste, a acompanhar o desalento deste fim prematuro. 
Chego a casa e sinto que o Inverno também chegou aqui. E é logo na manhã seguinte que estreio as peças trazidas da serra.
Conformada, a mala voltou para debaixo da cama, sem expectativas.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Bibliotecas municipais

Por mais anos que decorram desde que foi criada a rede de bibliotecas municipais, não deixo de me espantar com os luxos que oferece. É verdade, luxos. Porque se há muita gente que não pode comprar todos os livros que deseja ler ou possuir, é também um imenso privilégio ouvir falar pela primeira vez de um certo autor, ficar interessada em duas ou três obras suas e, de imediato, poder requisitá-lo numa biblioteca perto de casa. Neste caso, "O Filho do Desconhecido", de Alan Hollinghurst, tradução da maravilhosa Tânia Ganho, Dom Quixote, 2011, 1ª edição, 683 pp. Segundo a minha querida amiga Patrícia Reis, uma outra obra do mesmo autor merecia uma busca: "A Linha da Beleza": a biblioteca do meu modesto concelho também o tem.
Poucos minutos após ter enviado e-mail com a requisição, obtenho a resposta da Teresa Rodrigues, responsável pela biblioteca de Mafra (sede), com a qual tenho as mais amistosas relações:

"Olá Vera, espero que esteja tudo bem.

O livro que pediu está disponível, mas é da biblioteca da Póvoa da Galega, já o pedi para vir para Mafra, quando chegar, aviso.
Bjinhos"

Caímos no erro de baixar as expectativas, fazendo esgares à forma como o nosso País (não) funciona, mas depois temos coisas destas: um livro de Alan Hollinghurst existe na Biblioteca Municipal da Póvoa da Galega e é entregue na nossa biblioteca habitual, sendo que avisam para o telemóvel, da sua chegada. O único contra: uma vez que se trata de um empréstimo, não é possível manuseá-lo como se fosse nosso, rabiscá-lo, sublinhá-lo, tal como aconteceria com o exemplar de um familiar ou de um amigo. Não se pode ter tudo por pouco dinheiro. Pouco...? Nenhum! É, ou não, um imenso luxo?
Recado à editora (a todas, aliás, à excepção da Sibila, de Inês Pedrosa, que acarinha os tradutores): na capa devia constar o nome de quem traduziu a obra. Na capa, sim. Não apenas no frontispício. E já agora, pagar uma percentagem dos direitos de autor (não retirados aos direitos do próprio autor, é evidente).
Afinal, uma boa tradução pode salvar um livro ou matá-lo.
O José Fanha, que já baptizou umas quantas, tem toda a razão: queridas bibliotecas.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

O propósito das imperfeições propositadas

A minha mãe hoje telefonou-me. Eu tenho quase 50 anos, sou a mais nova de cinco irmãos, podem por isso imaginar a sua idade. Começou há pouco a ler o meu romance, acabado de sair, e ao ver a edição ficou aflita:
- Sabe, Vera, estou muito preocupada. Olhe que estou a ler o seu livro e todos os palavrões aparecem riscados! Você veja lá se é possível fazer alguma coisa!


Ri-me e achei uma ternura. Depois expliquei que era propositado, descansei-a, recordei-a do que escrevi na nota de autor, na qual refiro essas rasuras como uma piscadela de olho ao meu ofício de revisora de texto, em que muitas palavras ou frases são entregues assim, com rasuras e texto alternativo, noutra cor.
Fez-me lembrar um episódio de há três décadas, quando comprei, no Centro Comercial Fonte Nova, umas calças de ganga métallique, em voga nessa época, tinha eu cerca de vinte anos de idade. Quando pus as calças nas mãos hábeis da Idília, a empregada que me viu crescer, para que fizesse as bainhas, manifestou a sua indignação:
- Ah, isto não está capaz! A Verinha foi enganada!
E eu a dizer que não, que era mesmo assim.
- Mesmo assim?! Então não vê que isto está tudo gasto, aqui na cintura e nos bolsos? Estas calças não são novas, olhe p'ra isto, p'rá ganga toda coçada, toda gasta!  Isto já foi muito usado! E ainda por cima...14 contos?!
De nada adiantaram as minhas explicações, que eu era muito novinha, coitadinha, que ela já tinha vivido muito e visto de tudo e, comigo pela mão, entrou na loja do centro comercial, pousou as calças de ganga métallique no balcão e a cena repetiu-se:
- Aah não! Não me vai dizer que isto é mesmo assim, que a mim não me engana!
- Mas olhe que é... - insistia a empregada, a trocar olhares quase trocistas comigo - é o modelo...
A Idília:
- "É o modelo...é o modelo...". Não senhora. Venho devolver as calças, que isto não está capaz.
Entregámos o talão da compra e saímos com os 14 contos. A Idília levava um ar triunfante, de quem não se deixa enganar e acaba de resgatar uma jovem inocente das garras da vigarice.
- A Verinha é muito querida mas tem de ter cuidado! Há por aí muita malandragem.
No dia seguinte lá voltei à loja com os 14 contos e mais uns trocos. Assim que entrei, a logista perguntou:
- Vem buscar as suas calças?
- Sim, venho. E desculpe lá aquilo de ontem, mas não pude fazer nada.
- Pois, eu percebi. Pelo sim pelo não, guardei.
- Muito obrigada. E é para fazer bainha, se faz favor.

O fosso entre gerações. Ignoro o que a minha mãe pensará da minha extravagância gráfica. Palavras riscadas?? A sério...?! Pergunto-me quantos mais leitores distraídos (pois explico logo ao início, na nota de autor) irão afligir-se ou ficar desconcertados, perante rasuras e outros atrevimentos gráficos e de texto pouco usuais, nesta edição, nomeadamente um queijo "flamingo" (pois era assim que eu dizia em pequena). E aparece algures, até, a troca de um nome: Maria José, uma personagem, surge, num flashback, com o nome da vida real, a quem certas memórias foram roubadas - a minha própria mãe, a quem também roubei o nome -, como se o narrador, que escreve em tom de diário, se tivesse esquecido de ficcionar:
"Mas oh Vera, a menina só lê comunistas!"
Modernices. Defeitos propositados. Um espécie de modelo métallique, nesta edição.



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Vida

Depois de um serão divertido, entre amigas, saltitando de casa em casa, na Ericeira, comendo e bebendo, mais bebendo que comendo, retomo o trabalho de manhã, ainda a reunir as partículas.
A minha mãe faz 83 anos. Falámos um bom bocado ao telefone, como tantas vezes fazemos. Contamos as novidades uma à outra, ela diz, mais uma vez:
- Pois vocês sabem sempre tudo, por causa da Internet.
O marido foi passar o dia a Lisboa, deixei-o ir, mandei entregar beijos aos amigos com quem iria jantar mas já não vou. À tarde, fazendo por ignorar o fogo que devora o País e as janelas da casa, que mostram um dia perfeito de verão, aguardo o pdf completo do próximo número da «CRISTINA», a fim de o correr de alto a baixo, para que possa seguir para a gráfica e estar nas bancas, daqui a uns dias.
O meu filho diz-me que não fuma há duas semanas e que vai começar a ir às aulas de código. Telefonou-me só para dizer isso:
- Sabia que ias gostar de saber.
Entretanto, acabo de ver a série «Narcos», da Netflix, quando finalmente capturam Pablo Escobar. Faço a última - juro, a última! - leitura do meu primeiro romance. Os cães fazem-me companhia, a Bolota dá-me a pata de vez em quando, como quem diz, Estou aqui, não te esqueças.
Gosto da minha vida. Alguma coisa devo ter feito bem, para chegar aqui. Com amor, a quem contribui para ela.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Na fronteira


Ninguém na minha família, que me lembre ou saiba, passou verdadeira fome. As gerações anteriores, aliás, viveram com um luxo considerável. Nasci em 1969, andava pelos cinco anos de idade quando se deu a Revolução. Não percebi nada mas, à medida que os anos foram passando, a minha vida foi sofrendo transformações. Nas estantes de casa havia de tudo, muitas das obras em francês, de autores que fizeram escola e marcaram uma época, como os filósofos Sartre e Simone de Beauvoir, os escritores Alves Redol, Fernando Namora, José Cardoso Pires. Na aparelhagem «Sharp» escutavam-se vozes francesas que cantavam o inconformismo, como Léo Ferré, mas tudo isso constituía, a meus olhos, uma extravagância, uma incongruente solidariedade para com um universo longínquo. Não éramos vítimas do Estado Novo, no máximo uma chamada de atenção num café, por parte de um agente da PIDE, como quem diz, não se expanda muito, se não quer problemas.
Na nossa casa havia um cinzeiro encarnado de metal, com o símbolo do PS, o punho fechado. E nos álbuns de fotografias páginas e páginas com a multidão nas ruas, no 1º de Maio, a minha mãe encostada a um Jeep da GNR, de cravo metido na casa de um botão do dufflecoat beje, de pura lã virgem, com etiqueta da marca francesa «Delfieu», com loja situada em Arroios. Lembro-me dos lenços de seda que vinham de Paris, de todos os requintes que se foram esfumando, enquanto se derramavam os anos feitos de liberdade. Depois entrámos na Europa, já não era preciso trabalhar os campos, todos podiam ser doutores. Subiu o número de carros de luxo a circular nas ruas, subiram os empréstimos, o consumo disparou. Já ninguém cose os buracos das meias com um ovo de madeira. Já ninguém manda arranjar um pequeno electrodoméstico. Compra-se outro. É barato. Já não é preciso ir de férias à terrinha, nas muitas estradas macias que tem agora este pequeno Portugal, não queremos que vos falte nada, assim que nos deixarem salta um TGV, e podemos hoje ir a Paris, a Roma, a Veneza, a Barcelona, sem precisarmos de levar passaporte nem nada, só os cartões de crédito e os telemóveis com as nossas câmaras sofisticadas, para as selfies, e mostrarmos no facebook que vivemos imenso. Depois há a realidade. O crédito mal parado, o desemprego, o podermos refilar à vontade sem que, na verdade, de pouco sirva para quebrarmos a corrupção e o aproveitamento, a incompetência e o oportunismo de tantos, em lugares de poder. Agora os pobres e os endividados espalham-se por todas as classes. É uma pobreza democrática.
Até hoje tenho sentimentos de contradição, encontro-me na fronteira de Abril, sem saber bem o que fazer com estes cravos que me deram. Mais me parecem rosas perfumadas e coloridas, onde vamos ferindo os dedos.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A borboleta

Durante o dia, na cidade parisiense, as horas eram de calor. Trinta graus centígrados. O rio Sena enchia-se de insectos alados, lagartas metamorfoseando-se em festa, num presságio da alegria vestida a três cores - não da parte dos futuros derrotados, com as da bandeira francesa, mas vinda dos outros, muito outros, com o verde-esperança e o vermelho-cravo, cor da paixão, da liberdade, da Igualdade e da verdadeira fraternidade.
Uma borboleta desembaraçou-se do seu casulo, despediu-se dos amigos alados e disse que ia ao estádio ver o jogo.
- Eu também vou! Eu também vou! - disseram outras borboletas já a noite caía, depois de as ondas de calor fazerem estalar os casulos, na cidade que efervescia, na perpectiva da vitória, tão perto, já tão perto, a bater as asas, flap-flap-flap.
E eis que, poucos minutos após o início da batalha, o cristo na terra, herói de tantos, é apanhado à traição por dois soldados francos, que anularam todas as hipóteses de o bravo capitão continuar. Os portugueses ficaram de coração destroçado, mas não mais do que o próprio Cristiano, inconsolável, chorando, sentado no relvado, sem glória. Foi nesse momento, cheirando o sal que escorria pelo rosto bronzeado do bravo jogador, que a borboleta pousou - não, não era uma traça, era uma gorda borboleta nocturna, soube o narrador de fonte segura, por parte dos defensores da ciência e das bizarrias do mundo natural - e como todos sabem que as borboletas trazem milagres, foi para todos evidente: aquele pequeno ser vivo era o Éder, digo, o éter da vitória, Eusébio reencarnando:
- Não desesperes, meu amigo, está escrito que, aos 109 minutos da partida, os franceses terão de engolir cada palavra de escárnio (esta é da autoria da borboleta, que o Eusébio não conhecia palavras finas, só sabia jogar à bola) - pede uma meia elástica, faz mais uma tentativa, que fica sempre bem a um herói, mas depois vai para ali e concentra-te no teu papel de capitão, qual realizador dirigindo os seus actores. Já não precisas de provar seja a quem for o que vales.
E o capitão foi.
E aos 109 o milagre aconteceu: não o golo, que esse foi justo e merecido e estava escrito nas estrelas, mas o de um herói improvável, a mostrar ao mundo que as vitórias são colónias de organismos vivos, unidos, múltiplos, imprevisíveis.
Consta que, após a sua morte, a borboleta será canonizada e sepultada no Panteão Nacional.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O chão pode esperar

Regressa à vida pé ante pé, a cabeça forçosamente erguida, mesmo que não sinta altivez no coração ou pensamento, são as ordens dos médicos. Sorrindo, ocorre-lhe que é estranha terapia, aquilo de não a deixarem pousar os olhos no chão, como quem exclama, de mão no ombro do outro

Não desanime! Cabeça erguida, sempre!

Aos poucos vai recuperando alguns gestos - aqueles que todos realizam na certeza inconsciente  de serem gestos assegurados na eternidade - caminhar, ler, escrever, cozinhar. Até o que ela odeia já pode fazer: passar  a ferro. Imagina ela, não perguntou, mas se há vapores culinários, decerto lhe será possível pôr os trapos enrugados em dia. Esforços não. Gestos bruscos também não. E a cabeça erguida, sempre! Desanimar é que também não.
Ela sente o consolo de ver uma tímida agenda formando-se com visitas às escolas, em sessões de autor com um dos seus livros. O trabalho aguarda, em documentos Word, salivando, o motor libertando uma voz rouca, de animal, com ganas de investir com o corpo inteiro; e ela ansiando por ver, esperando pela revelação do seu próprio investimento, que não seria fácil contabilizar, de entre os dez anos que lhe foram roubados. Quer libertar o seu peso, tornar-se mais  leve, mais livre para si e para os que estão perto. Quer ir mais longe.
Por hoje, foi celebrar com uma caminhada. O corpo da estrada em obras também, em bizarra sintonia, a fazer-se macio e a ganhar um pouco mais de vida. Ela recupera o aroma das queimadas, do sol na pele. As pernas deslocando-se, pé ante pé, para não assustarem a terra. De cabeça erguida, quase sempre, avança, apesar do medo. O céu não é o limite, pois lá em cima moram as estrelas, as nuvens e os anjos. Entretanto o chão pode esperar.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Tabula Rasa

Regresso à rotina. Apesar de ter levado comigo o portátil para o Festival Literário Tabula Rasa, em Fátima, o programa foi tão intenso e rico que não houve tempo para a "manutenção" das minhas páginas, senão para ir postando directamente no facebook a notícia e as imagens dos convidados. O balanço destes cinco dias foi muito bom. Deixo aqui alguns excertos do texto "A escrita como interrogação", que li no sábado passado. Por companhia na mesa redonda (por que é que lhe chamam mesa redonda, se é rectangular? Nunca hei-de perceber) Maria João Carvalho, Luísa Janeirinho e Renato Epifânio, o organizador e anfitrião deste primeiro Festival Tabula Rasa.

« (...) também o escritor, embrenhado no seu ofício como viajante solitário, por vezes quase cego, de mãos atadas, poderá desembocar em território inesperado, levado pela vontade insolente das suas personagens, quem sabe também elas se interrogando. Como leitores atentos, apenas podemos adivinhar, pressentir e admirar a perícia do escritor, que ao escrever é receptáculo de pensamentos que vão tomando forma, respirando, com prazer, a poalha de mistério oculta no grão das suas palavras, na sede de compreender, de livro para livro, que lugar, que marca irá deixar no mundo, e que estranha mania é aquela de escrever sem ter outra saída...»

»Se o filósofo é «aquele que procura a sabedoria, que ama o saber, que indaga a verdade dos valores morais e estéticos, da mente e da linguagem», o escritor, por sua vez, vai apurando a estética da sua escrita e deixando, de obra em obra, indícios da sua moral e tentando, em tantos caSos, atingir o Belo, a Perfeição. Ao tentar dar resposta aos seus próprios mistérios, provoca em nós, leitores, novas perguntas e espantos, Nesse caso, é um responder perguntando, pois a interrogação pode, também ela, trazer o reflexo da sabedoria. É preciso saber para perguntar. A dúvida pressupõe pensamento, conhecimento.»

«Um livro fechado, por ler, é um livro mudo. Os livros sem leitores seriam como cores encerradas num quarto escuro, invisíveis, sem sentido.»

Intercalei com um punhado de "Filosofices", que conquistaram bastante simpatia, e terminei num registo filosófico e intimista. Aqui vos deixo um último excerto:

«Na (minha) adolescência, deu-se o inevitável: a escrita de versos. Decerto horríveis, recheados de pirosices, de exclamações...de pontos de interrogação...até descobrir que as interrogações que certos autores semeavam em mim eram muito mais interessantes.

E fui crescendo, vou crescendo, como todos nós, descobrindo com pasmo, que ao fim de tantas leituras complexas, o olhar se vai esbatendo… tornando-se desfocado outra vez, as certezas transformando-se em incertezas, as interrogações ganhando às respostas… uma visão que nos vai encostando a um capítulo final, um epílogo no qual adivinho uma simplicidade que desarma. E porque andarmos desarmados é um ideal que todos deveríamos conquistar, apostemos na Literatura.» 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Não me queixo

O ofício de escritor pode ser frágil e colorido como um vitral.
A feira formada por corredores cheios de cor, forrados de livros, livros, livros. Era Dia da Criança, mas as crianças estavam na escola, não podiam pedir autógrafos aos escritores. 
Cheguei já a barriga dava horas, o pequeno-almoço distante, o estômago a implorar por alimento. Depois de me ir buscar a Ribamar, perto da Ericeira, a minha editora deixou-me instalada na mesa de autor, com alguns exemplares do Coisandês, e foi buscar-me almoço. Chegou o fotógrafo da Activa, para uma pequena entrevista. A nós juntou-se a jornalista Catarina Fonseca, que me ajudou a passar aquela hora de constrangimento de uma autora novata, que está ali a uma 2ª feira a meio da tarde. 
Às quatro chegou o Alexandre Honrado, que me fez rir e com quem simpatizei de imediato. Ele e a Catarina, que já terminara a pequena entrevista e despachara as fotos da "avodrasta", deram um longo abraço cúmplice de camaradas.  
Ainda revi a minha colega Joana Macieira e de novo provei os seus "Queques com Alma", desta vez um de aveia e chocolate, maravilhoso. 
Passeei-me pela feira, parei para lanchar, quando os pés já pediam: um scone simples, uma limonada de maracujá e um café, tudo muito bom. Os feirantes gostam de mimar quem anda por ali, a namoriscar os livros. 
E foi precisamente nos livros que me desforrei do meu fracasso: "Memórias de Adriano", de M. Yourcenar (Ulisseia, Grupo Babel), "A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector (Relógio d'Água) e dois do Nobel islandês Haldór Laxness: "Gente Independente" e "Os Peixes Também Sabem Cantar" (Cavalo de Ferro). 
No pavilhão da Chiado Editora, fui dar com a minha Ilha de Melquisedech embalada em papel transparente, pack 2 em 1, com um livro sobre cristais...preço do pack: 5 euros. Por momentos não soube se havia de rir ou de chorar. Optei por rir e colocar o meu livro em primeiro plano, para os ajudar a despachá-lo ainda mais depressa. 
Quando regressei ao pavilhão da Babel, estava a autora Maria Teresa Maia Gonzalez, minha colega na área juvenil, e que eu ainda não tinha tido o prazer de conhecer. 
Da minha editora ainda recebi três miminhos, ao fim da tarde: um boné da colecção "Sisters", e um bloco e um mouse pad da Mafalda.  
A Maria José veio trazer-me a casa, chegámos já era noite, distraímo-nos à conversa e, quando reparámos, já íamos em Torres Vedras. 
Autógrafos, zero. Mas o balanço do dia foi bom. Tenho aprendido a manter baixas as expectativas. E o que vem é bem-vindo. Tive, decerto, um dia bem mais simpático do que muito boa gente. Não há lugar para queixumes.
Alexandre Honrado
Joana Macieira
Maria Teresa Maia Gonzalez

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Crónica: As palavras são trampolins

Chegaram e foram-se arrumando à volta das pequenas mesas. As folhas A4 e os lápis à sua frente. A banda sonora do Harry Potter como fundo, para criar ambiente. Apresentei-me, frisei que não estavam ali para ser avaliados mas para descontrair, desabafar, divertirem-se. Acho que acabaram por perceber :-) Perguntaram-me várias vezes se podiam isto, se podiam aquilo, e eu a explicar que podiam tudo, menos escrever palavrões. O jogo oral dos objectos foi muito engraçado e as coisas que saíam do saco pareciam mostrar-se numa ordem combinada, até ao último objeto mágico...
Aqui ficam alguns desabafos, ingredientes e ementas. Encontrei ali timidez, talento e muita imaginação. Cada leitura em voz alta teve direito a salva de palmas. Porque os aplausos fazem muita falta, não acham?

Desabafo:
«Estou farto de ti
Eu detesto a tua mente
É fixe estar aqui
Quem me dera ter um amor ardente!»

Exercício da varinha mágica do aprendiz de feiticeiro, depois da leitura da receita presente n' "A Ilha de Melquisedech", para os inspirar...
Ingredientes:
(rapazes)
2 olhos de gato
Estômago de cavalo
Gosma de mosca com picante
1 sobrancelha de ciclope
Lágrimas de escaravelho
Gordura e sangue de humano
3 fezes de mamute
5 bagas venenosas

(meninas)
1 lágrima de ciclope
3 escamas de serpente voadora
orelha de extraterrestre
1 dente de fada
4 cabelos de sereia
Rosa negra (ingrediente secreto)

"Um Chef louco fez uma louca receita"
1 olho de vidro
5 pelos de sovaco
6 meias das sereias
1 corno de touro
2 minotauros
56 unhas de pés de feiticeira - a trabalheira para contar! Mais valia a medida de uma chávena de café :-)
2 vacas
"E chamou-lhe Grafão (entre grifo e dragão)..mas o ingrediente secreto é batata frita."

Outros ingredientes e temperos:
Lixívia
Ácido
Lava
Sangue de extraterrestre
2 l de xixi de sapo
2 rabos de elefante
2 kg de bicos de pássaro
3 arrotos
10 asas de morcego
1 cabeça de águia (vitória do Benfica, sic)

Ementa:
«Lasagna de rã e cérebro de macaco com fruta enrolada em minhocas
Para a lasagna:
13 patas de rã
51 escaravelhos
250 gr de fezes de gaivota
2 unhas de dedo do pé com fungos
10 moscas enroladas em fezes de cão
Meter no forno a 180º e bon appétit»

Parabéns ao 5º C e 6º C da EB23 da Escola Professor Armando Lucena, Malveira, obrigada às Professoras Luísa Luz e Nazaré Mota, e um beijinho especial para a Dália Santos e para a Carla Rodrigues, pela simpatia e paixão com que organizam e acompanham estes encontros.
Para mais, leia aqui
A turma do 5º C

A turma do 6º C, uma boa surpresa :-)


sábado, 16 de maio de 2015

Em Sines

Ontem estive em quinteto com o Nanã (saxofones e flauta), o Alexandre Alves (bateria), o Nuno Oliveira (contrabaixo) e o George Esteves (piano acústico, em estreia connosco), no auditório do porto de Sines. Não posso deixar de agradecer à Maria Viana, à A.P.S, à Câmara Municipal de Sines, à Ana Rita Rosa, que nos acompanhou sempre, e ao serviço impecável do restaurante "Casa do Médico", com vista para a baía de Sines, pela qualidade impecável do serviço e a simpatia e boa disposição com que nos receberam. Ficou a vontade de regressar!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Casota

Foram experimentar o restaurante que abriu no lugar da "Casita" (seria do "Casita", mas era tratado assim, no feminino, ou não estivesse à frente do restaurante uma excelente cozinheira, aqui da terra), onde se comia muito bem. Outros donos. Um jovem casalinho. Parece que agora era petisco. Vamos lá ver isso, pensaram.
Já sentados, com pão e azeitonas (manteiga,? Népia. Azeitonas ao natural: ervas? Alho? Népia), pediram:
"Olhe, traga guardanapos, por favor..."
Vinho da casa: "Pias". Venha um jarro.
Lá escolheram os petiscos. Acompanhamentos:
Arroz branco - carolino, frio, tipo gesso.
Migas: secas, granuladas.
Batatas fritas: congeladas
Petisco:
Farinheira: fria, não foi furada, salgada, crua
Pataniscas: safou-se, safou-nos, ligeira falta de sal, mas simpáticas, deixaram-se comer até ao fim (eram três)
Coisas na ementa que estavam na ementa mas "já não tinham": morcela, frango frito... (eram sete e meia quando chegámos, mas "já não tinham", o frango? Tinha "de ser de encomenda". ??? Vamos jantar fora, mas temos de encomendar antes de sair de casa?)
A comida chegou e nós, naturalmente:
"Olhe, pode trazer pratos grandes, daquele mesmo serviço, de barro?"
Não tinham: os petiscos, incluindo pataniscas e arroz eram servidos assim, em pratos de sobremesa. Pedimos mais pratos...
A garrafeira tinha 3 garrafas...vazias.
"Vão desejar sobremesa?"
"NÃO!! Que whiskies é que tem?"
(Private joke, "zéquetem, não temos, temos ....")
Milagre!:
"Temos Cardhu..."
"Alto! Pode parar aí: um Cardhu em balão sec...eehhh...sem gelo!"
Chegou um minimini cálice, menomeno cheio.
Pouco depois, lá foi preciso pedir outro whisky, para completar meio Cardhu.
Descafeinado, conta, por favor.
22,60 eur
"E então? O que é que acharam? Abrimos há pouco tempo... (como se não soubéssemos...) gostamos de saber a opinião dos nossos clientes...
Eu dei-a: a sopa embatatada, as azeitonas sem sabor, a ausência da manteiga, o arroz carolino, a farinheira crua e fria. E parei por ali. Para não assustar. E para quê? Não pretendíamos voltar. Será que foi chorar para a cozinha?
Adeus, até nunca mais. Que pena, tão perto de casa...o único perto de casa...! Mas...
A "Casita" passou a "Casota".
Que saudades do bife nho nho e da açorda de lagosta. Consequências da emigração. Parece que estão para a Suiça. Por lá, algures, deve-se comer bem.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Cabeça-de-vento

Crónica: Raquel Serejo Martins
Pintura: "Cabeça de vento" de Ana Cristina Dias 
Detalhe

«A primeira vez que lhe chamaram cabeça de vento estava na escola primária.
Talvez mesmo na primeira classe.
Os meninos de bata amarela.
Canários em linha, como molas de roupa sem roupa não numa corda mas dentro de uma gaiola.
Guarda uma memória amarela.
Os meninos sentados, plantados nas carteiras, um campo de girassóis de olhos encandeados por um sol negro de ardósia, duas dúzias de olhos cegos de espanto por perceber que os estranhos desenhos eram palavras e que as palavras eram feitas de letras, uma matrioska, parecia marosca.
P-a-t-o.
G-a-t-o.
Parecia estranho, era estranho, porque para ela, um gato, sete vidas, quatro patas, um rabo, muitos bigodes e dois olhos amarelos como os berlindes que guardava no bolso.
Olhava para o enorme quadro negro e gato nenhum, nem escondido, denunciado por um rabo de fora.
Ouvia a explicação na voz de locutor de rádio sem música do professor e perdia-se, fugia, para lá das enormes janelas, tão grandes que a deixavam ver a cidade inteira.
Mentira, sabe que é feio mentir, se a cidade uma laranja, uma tangerina porque a cidade pequena, via apenas meia tangerina, o que já é muito ver para uma janela.
E de olhos na janela, para lá do vidro, perdia-se à procura do gato, procurava ao sol à soleira das portas, à porta da peixaria, camuflado entre os cortinados de uma janela, entre dois vasos com sardinheiras, a atravessar a estrada dentro ou fora da passadeira, pelas árvores, pelos muros, pelos telhados.
Chamavam-lhe cabeça-de-vento e diziam que fazia muitas avarias.
Ou tinha muitas ideias e nem todas corriam bem.
Convém ser boa a correr.
Não era o seu caso. Corria, tropeçava, caía, como se uma sequência com lógica.
Os joelhos pele de crocodilo, crosta sobre a crosta da primeira ferida.
E a correr, entre a lebre a tartaruga, ela um peixe.
Dentro de água ninguém a apanha, ninguém lhe ganha.
Ia ao fundo como se fosse à lua.
Para mais na cidade um rio, nos seus Verões um rio.
Quando ia ao fundo deixava todos de olhos pendentes e respiração suspensa, como a sua debaixo de água, até ao seu regresso, hesitantes quanto a mergulhar também, no limite do susto, até que emergia ofegante, sorridente, e sempre com uma pedra na mão, prova oval e concreta da sua audácia.
Tinha no quarto um frasco de vidro onde em vez de bolachas ou biscoitos guardava pedras do fundo do rio. A avó sabia que tantas as pedras como as vezes que ficou com o coração nas mãos por saber como o rio é matreiro com os invasores.
Porém ela um peixe.
E apesar das pedras, a avó nunca a chamou cabeça-de-vento, talvez soubesse que ela um peixe, inconsciência, audácia, guelras e barbatanas.
De olhos tristes com um sorriso perdoava-lhe todas as asneiras.
Mesmo quando os berlindes lhe fugiram do bolso, como se tivessem pezinhos.
Fugiram, avó! – Um eufemismo.
Fugiram-me do bolso e sem querer fizeram cair o professor no corredor da escola.
Mau humor fracturado em dois sítios, fato de fazenda de três peças e braço esquerdo engessado ao peito, passou a ser conhecido entre os girassóis como o pau-de-giz.
Tem tempo para a tristeza a menina. – Ouvia-se a avó dizer como se de uma ordem se tratasse, ao tempo, à tristeza e a todos os que queriam corrigir a menina.
Pelo que em casa da avó um mundo diferente, o tempo sem sobressaltos e o seu cocuruto em sossego.
Um mundo pequeno. A avó não tinha muito. Uma casa. Um gato. Uma figueira e na figueira quando figos pássaros.
A avó não tinha muito mas tinha muitas histórias para contar.
Conta outra vez a da menina que tinha um tapete voador.
E a avó contava, a mesma história, sempre de forma diferente, como se não atinasse com a história, pelo que sempre uma surpresa, um espanto.
Era uma vez um tapete que de tanto voar, voou mais do que avião, tanto como foguetão, chegou à lua, fez da menina astronauta.
A avó nunca andou de avião.
A avó só conhece os aviões de os ver passar no céu lá longe, pequenos como pardais, lá longe, na lentidão dos caracóis deixando um rabo de fumo.
A avó nunca viu foguetões, nem mesmo na televisão, que serve para as notícias e não mais, sabe sem saber bem o que são, imagina-os como foguetes gigantes, velozes e barulhentos como os que lançam na festa de Nossa Senhora da Assunção, grandes como camionetas, capazes de levar gente dentro, capazes de aterrar na lua, pelo menos quando gorda e cheia, apesar de tudo somado lhe parecer fraca brincadeira, porque fraco passeio para piqueniques.
Porém a menina gosta de ir à lua.
Foi a primeira astronauta da turma.
Pelo que a avó, se o avô a dormir a sesta, ia ao bengaleiro buscar a boina e o chapéu de levar à missa ao Domingo, dois capacetes, enfiava a boina na cabeça da neta até às orelhas, que assim devidamente protegida, 10-8-7-4 começa de imediato a contagem decrescente, contava ao contrário sem ainda bem saber contar, estado de euforia uma única vez interrompido, não para abortar a missão lunar, nem impedir a humanidade de dar mais um salto, mas por se lembrar, em respeito pelo original, que lhes faltava uma bandeira, a avó sabia que era imprescindível levar uma bandeira.
Temos de fazer uma bandeira. – disse antes de descolar o foguetão.
Tenho uma velha almofada solteira, cortamos uma galho seco à figueira.
O que é uma bandeira? – Pergunta a menina ansiosa perante a nova palavra e a novidade.
Uma bandeira! Como te posso explicar, é como uma fotografia. Estás a ver a fotografia do avô que guardo na caixa de costura, tem o bigode do teu avô, os óculos do teu avô, o chapéu do teu avô, o sorriso do teu avô, os seus vinte anos, o bolo de chocolate de que tanto gostava, o dia em que me pediu em casamento, o dia em que nasceu a tua mãe, o dia em que tu nasceste, é um quadradinho de papel que tem dentro todas as histórias de um país e os sonhos também.
Então a minha bandeira tem de ter uma bicicleta! O pai disse que se eu me portasse bem me oferecia uma bicicleta no meu dia de anos.»
pintura em livro
(retirado integralmente do blogue Clube de Leitores)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sangue e poesia II

 
(Conclusão da crónica iniciada ontem)
Foram-se ambos, marido e carteiro, no Smart, rumo ao hospital. A mota ficou junto ao portão. O Gastão tomou um segundo pequeno-almoço, depois do aperitivo. Arfava, satisfeito, de consciência tranquila por uma manhã produtiva de trabalho. Comeu com sofreguidão, de apetite desperto pela degustação do sangue, e foi ladrar mais um pouco à mota, cujo cheiro, que sentia do lado de cá do portão, lhe espicaçava a raiva antiga pela classe.
Só então fui ver o que o carteiro me trouxera: sempre eram os livros. Doze exemplares do «Fora do Mundo». O papel pardo algo manchado, com remetente "Legendas e reticências", contendo os meus livros de poesia, corados de vergonha, por terem sido a causa do transtorno.
Às tantas os homens regressaram. Veio uma carrinha dos CTT. O Sr. Jorge, a vítima, de mão ligada.
- Levou pontos? - Perguntei ao Nanã.
- Não. Não dão pontos com mordidelas de cães.
Fazia sentido. Não fosse infectar.
O colega do Sr. Jorge e o meu marido puseram a mota no interior da carrinha, não sem dificuldade. O carteiro a querer ajudar, de mão ligada e dorida.
O Gastão preso no estendal, estranhamente calmo, talvez com pena do homem, que até é bem simpático.
O Sr. Jorge irá ficar uma semana de baixa, pois não pode conduzir.
- Olhe, dona Vera, é da maneira que aproveito para comprar os presentes de Natal com mais calma.
Mas que homem é este? Um santo? Um anjo?
Não, é só um carteiro.
E ainda maldizem o atendimento nos serviços públicos.
Não me canso de repetir: tenho um imenso respeito pelos carteiros e hoje mais ainda por um em especial: o Sr. Jorge.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Sangue e poesia I

(Iª de 2 partes)
O meu marido foi à janela. O carteiro trazia qualquer coisa, uma encomenda que precisava de assinatura.
- Estás à espera de alguma coisa?
- Não - Disse eu estremunhada - Ah, sim, devem ser os livros da Poética. 
Ele desceu. Eu fiquei na cama, entregue à preguiça, até porque tinha ficado a ler até ao fim "A vida em surdina", do David Lodge, com insónia, até quase às 6h da manhã.
Os cães não paravam de ladrar. Normal, tratando-se do carteiro, um ódio de estimação, especialmente do serra da estrela cá de casa, o Gastão. Pouco tempo depois o marido subiu ao quarto.
- Vais ter de te levantar. O Gastão mordeu o carteiro na mão. Vou ter de ir com ele ao hospital.
Assim começou o nosso dia.
Já com um lenço agarrado à mão, o jovem carteiro caminhava para um lado e para o outro, visivelmente nervoso, com a adrenalina em alta, amparando a mão, que pingava.
Sugeri que entrasse, enquanto o meu marido se preparava para sair; ofereci-lhe um chá, água oxigenada. A tudo ele disse que não, que não era preciso. E sempre a sorrir. Até teve humor suficiente para pedir desculpa, por estar a sujar o chão da entrada.
Eu consternada. Aflita com a situação. Às tantas era ele, mais calmo, que me tentava acalmar a mim: 
- A culpa foi minha, sabe? Ele está a fazer o papel dele, eu é que invadi o território dele. Ainda por cima tinha o dono ao pé, estava a protegê-lo, é normal, dona Vera. Eu gosto muito de cães, sabe?
A mão pingava.

sábado, 22 de novembro de 2014

Carruagem 22 (III de III)

E eis que regresso da minha segunda ida ao bar. A mãe da revista Maria e o rapaz da camisola branca estão de saída.  Há agora dois lugares vazios. Bebi um café e comi um Kitkat, apesar de serem oito e meia. Um gesto de puro tédio, ingerir um chocolate de qualidade duvidosa e bolacha de baunilha, e até isto, de estar aqui a descrever um chocolate de bomba de gasolina. 
O revisor veio perguntar-me se sou a Vera de Vilhena. Cairia no ridículo de me supor famosa, não fosse eu saber que os tempos são outros e que tudo é agora informatizado e muito sofisticado, a julgar pelo aparelho que o homem segura. Era para confirmar, uma vez que a reserva e a compra do bilhete foram tratados via electrónica, pelo Colégio Internacional de Vilamoura, que pagou as minhas despesas de transporte e alojamento, fazendo-me sentir, pela primeira vez, uma escritora no mundo.
O senhor despede-se com um sorriso e segue rumo à carruagem 21. Sinto-me algo constrangida por saber que agora aquelas pessoas, que me rodeiam, sabem o meu nome. Assim, por uma coisa estúpida. Sinto-me nua e escondo-me novamente no meu caderno preto. 
Dois lugares à minha direita, a criança-bebé, que não dormiu ainda, está a perder a paciência. Chora. Refila. Esperneia, maltratando os dois assentos que ocupa, deitada. E eu invejo-a por não poder espernear assim, com umas galochas cor-de-rosa e uns collants brancos quentinhos. A mãe tem piedade de nós e retira da mochila sem fundo, da Minnie, um objecto com poderes mágicos: uma chucha. Pronto, vá, toma. Adiamos, por agora, o ó-ó sem chucha. Cresces só amanhã. A bebé agradece e fecha os olhos, enfim. 
FIM

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Carruagem 22 - (II de III)



Se me erguer do assento e caminhar até ao bar, que fica próximo da carruagem 22, como mais uns minutos ao tempo e aproveito para espreitar a minha mala, o meu guarda-chuva novo encarnado e os meus ramos de flores.
Está tudo em ordem.
A senhora à minha frente, que começou por ler a revista "Maria", já passou às confidências com a mulher que lhe fica na diagonal. Todos ficámos a saber que...
- Antes tinha ideias de ter mais filhos, mas depois mudei de ideias.
O filho único, vestido com uma camisola branca e sentado dois lugares à sua esquerda, do outro lado do corredor, fixa, apático, o ecrã do telemóvel. E eu espero que ele não a tenha escutado.
O homem que ouve música com in-ears, desde que se sentou, olha de vez em quando para mim agora, provavelmente intrigado, perguntando-se, Que raio terá ela tanto para escrever.
Estou quase a levantar-me, já não aguento. E continuo sem fome. Alguma coisa terei de consumir no bar, só para disfarce. Para consumir o tempo. Para justificar a minha presença ali.
Um desespero patético que nos obriga a gestos sem sentido. Tornamo-nos mentirosos no tédio. Inventando gestos, coçando-nos onde não sentimos comichão; penteando uma madeixa de cabelo que não estava fora do lugar; lendo sem reter o texto, preenchendo páginas de um caderno, para que a mão se convença de que os dedos, que seguram a caneta, têm algo a dizer; sorrindo para as crianças sem que o carinho seja verdadeiro, já que o seu jeito frenético há muito nos cansa.
Somos mentirosos no tédio.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Carruagem 22 (I de III)



Carruagem 22. Lugar 47. De regresso do Algarve.
De volta ao meu assento, depois de uma sanduiche americana e de um chá preto no bar. As sete pessoas que deixara, encerradas em mutismo, estavam agora em amena cavaqueira, salvo os dois homens junto à janela. As mulheres-mãe, acompanhadas pelos filhos, já conversavam; os meninos trocavam agora brinquedos e guloseimas
- Então? Não ofereces um à menina?
Pergunto-me se é apenas simpatia, ou também uma forma de encurtar a viagem. Conversam como velhas amigas, sabendo que jamais tornarão a encontrar-se. São quase oito horas da noite e falta ainda uma hora de viagem.
Dormir é impossível.
Não me apetece entrar na conversa de chacha das duas mulheres. Resguardando-me n'A Ana de Londres, da Cristina Carvalho, chego à parte em que a acção decorre em Ribamar, uma aldeia que poucos conhecem, tão perto da minha casa. A autora tem casa perto de mim, somos quase vizinhas, cúmplices. Claro que a luz não ajuda à leitura. Dificilmente encontro a luz ideal para ler. Invejo os jovens que podem anular a viagem com os seus portáteis, neste comboio Intercidades com Internet wireless: fogem para dentro do computador, evadindo-se destas horas de espera.
Para as crianças também é fácil, se tiverem mães previdentes. Com elas trazem uma parafernália de brinquedos e comportam-se, imagino, como se estivessem em casa; expondo, sobre a pequena mesa de fórmica, peças de puzzle, livros, Barbies louras e um rol de outros brinquedos, que não páram de sair das mochilas da Minnie e do Winnie de Pooh.
Estou a levantar-me de novo não tarda. Não porque tenha fome; mas o homem acaba de anunciar que estamos a chegar a Grândola e eu desespero. O tempo desliza, sem passar nos carris. Longe, ainda. Tão longe de casa...