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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Os dois cartuchos

O mago tinha dois cartuchos de magia trocada, comprados na Feira das Curiosidades, num encontro de druídas muito velhos. Tão velhos que alguns deles já não davam conta do que faziam. Nunca sabiam dizer o que iria sair da terra: podia ser um milagre ou uma desgraça. Um duende prestável ou um monstro que tudo arrasava.
Na noite de lua cheia o mago plantou as sementes do primeiro cartucho e foi dormir. Na manhã seguinte tinham nascido cenouras de açúcar, beringelas de amora, coentros de cacau, aipos de mel…. ingredientes da terra que apenas serviram para confeccionar pratos agridoces. Nessa noite os convivas saíram de sua casa um pouco enjoados, o que é compreensível.
Na lua cheia que veio depois o mago semeou o conteúdo do segundo cartucho de papel pardo. Cansado de tanto desalento, pediu à lua alguma grandeza de espírito; que se apiedasse daquela gente tão carente de salvação. Sem saber o que deitava na terra húmida, pegou na foice e plantou rebentos de visões, sementes de iniciativa e bolbos de ânimo mesclados de fortuna. Quando o sol subiu no horizonte, a urbe parecia transformada. Todos trabalhavam e sorriam. Compravam e vendiam. Inventavam e construíam. Falhavam e insistiam, sem nunca perder o sorriso. A cidade cresceu e nem sete dias passados já se tornara uma lenda nas cidades vizinhas.
Nunca mais precisaram dele.
O mago partiu e jamais tornou a ser visto.
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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Sem lugar

D. Ian Grave bateu à porta do coveiro. No corpo a morte caducava, sem saber muito bem o que fazer à embalagem. Era uma morte ecologista, não pretendia deixar o corpo assim, ao Deus dará. Egoísta, a alma elevava-se, já, flutuando a conquistar o céu. Barry, o coveiro, abriu.
- Encontre-me sepultura, Ian rogou - estou aqui que não posso e a morte a caducar-me.
- Lamento, mas não há lugar. Terá de se dirigir à sua última morada.
Não seria aquela. Não naquele dia, pelo menos. Que pena, pensou Ian Grave em voz alta, eu que já tinha escolhido a colina acolá, junto aos ciprestes azuis.
- Aah...mas são verdes. 
- se o senhor diz... para mim são azuis.
Ian Grave nunca admitia que era daltónico, além de que achava a ideia de os ciprestes serem azuis muito mais bonita. Mas não teria ciprestes. Nem azuis nem verdes.
Lá foi viver mais um pouco, a fazer tempo. Era daqueles que nunca encontrava o seu lugar neste mundo. Nem sequer no outro.
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domingo, 12 de julho de 2015

A chama

Daniel Preston, psicoterapeuta mais conhecido por “D. Pression”, está incapaz de encontrar prazer nos tesouros da cidade londrina. Não há montra nem peça que prendam a sua atenção inteira. Os doentes sugam-lhe a felicidade, a paz, além de lhe porem alcunhas crueis. Depois há aquele sentimento que não pode ter, nem sabe como arrancar do peito e da consciência.
Solta um grito em pleno parque e assusta os pombos. Um deles deixa cair o recheio dos intestinos sobre o seu ombro esquerdo, do lado do coração. Deprimido, arranca para o escritório. É urgente limpar-se antes de ela chegar. Recompor-se.
Ela chega. Senta-se. Desabafa. Ele mal a escuta, ocupado que está em amá-la em segredo. Ofendida, ela sai, batendo com a porta.
Ardendo, calada, a vela sobre a secretária nada diz. A chama dança, com a força do ar deslocado pela porta zangada, ondeando como bailarina exótica, a barriga musculada da chama, dança do ventre em fogo, para lá e para cá, a censurá-lo com um tss tss…a tua bela doente saiu, reparaste? Doente anda ele, com a paixão que não pode sentir, por causa da maldita ética profissional. Sopra a vela, como quem pede um desejo. O pavio apaga-se, deixando-o iluminado, a sós com a sua própria chama. D. Pression sai porta fora e chama por ela. É no corredor que lhe diz:
- O meu silêncio chama por si, arde em pavio impossível de apagar, como aquelas velas irritantes nos bolos, sabe?
É um chamamento desesperado, palavras ateadas sem jeito.

Ela ri-se e dá-lhe um longo beijo. Nesse colar de bocas vão as chamas que há muito tentava acender nele. No beijo, um incêndio.

sábado, 11 de julho de 2015

Perdida, a cadela

Nunca passa fome. Vive da gratidão dos que, por vê-la, arranjam um pedaço de pão, um osso, uma casca de fruta, um biscoito. O nome por que é conhecida não faz qualquer sentido.
- Perdida! Anda cá, toma!

Perdidos são os que andam sem consolo na vida, sem projecto nem futuro. Sem dignidade. É cadela de rua, sim, mas tão orgulhosa que, quando a chamam pelo nome, não responde. E é nesse não responder que sempre se encontra.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Sem ser chamado

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As suas acções nunca tinham um fio condutor. Por várias vezes encontrou a linha impedida e perdia oportunidades como quem deixa cair a senha na rua, para ir ao café só por dois minutos, até chegar a sua vez. Andava desencontrado com o mundo, sem voz nem mensagem. Uma noite, de madrugada, cortou os pulsos, interrompendo o que sempre fora uma má ligação.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Rosas de sangue

As roseiras daquela casa davam rosas cor de sangue fresco. Algo nunca visto, pois mesmo em pleno inverno não deixavam de florir. Pensava-se em milagres, num qualquer plano divino para mostrar a força da Mãe Natureza, as bênçãos de uma santa família. Mas não, era apenas uma estranha combinação química, pelos mortos ali enterrados em noites de lua cheia.