segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A torre medieval, poodles e as montanhas de Nietzsche


Aprendi que Montaigne passou grande parte da sua vida a ler um milhar de livros na sua biblioteca, situada no terceiro piso de uma torre num dos cantos de um castelo medieval, localizado no sudoeste de França, e que pertencera à sua família. Ao fim de treze anos a trabalhar no Parlamento de Bordéus, reformou-se...para ler. Aliás a história da filosofia está cheia de caprichos destes, de vidas e mortes de luxo, de viagens que se prolongavam durante meses (como Nietzsche e Schopenhauer). Aprendi que Montaigne dava mais crédito à sabedoria dos animais, do que à dos seres humanos e que os seus célebres "Ensaios" falam de esfíncteres, da erecção do pénis ou do facto de reis e rainhas também serem donos de traseiros; de que o acto de defecar era o único durante o qual não suportava, de modo algum, ser interrompido e de que ele "e os seus intestinos nunca falhavam um encontro quando saltava da cama".
Aprendi que no verão de 1580, Montaigne empreendeu uma viagem com quatro jovens nobres (um deles seu irmão) e uma dúzia de criados, a cavalo, planeando estar fora dezassete meses e que se passearam por Itália, Alemanha, Áustria e Suíça. Aprendi que era um homem livre de quaisquer preconceitos, inclusive face aos mais estranhos costumes das tribos da América do Sul ou a admitir que não tinha pachorra para livros "misteriosos", difíceis de ler, e que só gostava de "livros agradáveis e fáceis", que despertassem o seu interesse. E era Montaigne, o filósofo ensaísta e erudito, que lera um milhar de livros.
Aprendi que Schopenhauer deve ter sido um dos homens mais infelizes que alguma vez existiu, por considerar a própria vida digna de tristeza apenas; que tinha adoração por poodles, os quais tratava por Sir e que sempre os teve, um de cada vez, ao longo dessa triste vida sem o amor de uma mulher; que se tornou amigo de Goethe que para ele escreveu: "Se desejares ter prazer na vida / Deves dar mais valor ao mundo". Que até aos cerca de sessenta anos, os seus livros pouco ou nada venderam e que a sua última obra, de ensaios e aforismos ("Parerga e Paralipomena") se transformou num best-seller, sete anos antes da sua morte.
Aprendi que Nietzsche tinha um bigode farfalhudo, do qual nunca abdicou apesar do dito afugentar as mulheres; que considerava a maioria dos filósofos como "um bando de patetas"; que se tornou íntimo de Wagner e da sua mulher, Cosima, por quem se apaixonou secretamente; que aceitou um convite duma rica dama de meia-idade, entusiasta das artes, para uns meses na sua companhia, numa villa no sul da Itália, e que este lugar (o clima, a alimentação, os hábitos de ler e nadar com os amigos) o transformou; que adorava escalar montanhas suíças; que passava os invernos no mediterrâneo (Génova e Nice) e os verões nos Alpes; que acordava às 5h da manhã e que escrevia até ao meio-dia e que era nos seus longos passeios às montanhas agrestes que lhe surgiam os pensamentos "com qualquer valor"; que tinha, durante esses verões, um quarto alugado numa moradia, com vista para os pinheiros e para as montanhas, onde escreveu grande parte das suas obras; que apenas jantava umas fatias de presunto, um ovo e um pão; que mais tarde tentou dedicar-se à agricultura, mas que as costas e a visão deficiente não lho permitiram; que desde muito jovem odiava o álcool e desprezava quem dele se socorria ("Que quantidade de cerveja existe na inteligência alemã?") e que numas férias de uma semana em Lugano, com a sua irmã, a factura do hotel incluía catorze copos de leite; que um dia, numa Piaza de Turim, teve um ataque e beijou um cavalo; que foi transportado para a sua pensão e que passou uma fase em que acreditava ser - conforme a hora - Dioniso, Jesus, Deus, Napoleão, Buda, Alexandre o Grande, César, Voltaire, Wagner; e que acabou por ser enviado para um asilo na Alemanha, onde foi tratado pela irmã e pela mãe, de quem, ironicamente, dissera "não gosto da minha mãe e torna-se doloroso para mim ouvir a voz da minha irmã. Sempre fiquei doente quando estava ao pé delas."
Aprendi que nem tudo o que nos faz sentir melhor é bom para nós; e que nem tudo o que nos dói está livre de nos fazer algum bem.
Obrigada, Pedro, pelo empréstimo.

5 comentários:

  1. Olá querida Vera,

    Recentemente assisti o filme "Quando Nietzsche Chorou", muito intenso, discussões até o ultimo momento e Nietzsche segue em viagem.

    Beijo

    Renata Vasconcellos

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  2. Olá Renata, parabéns pela paciência de ler este post até ao fim! Hoje entusiasmei-me e excedi-me um pouco... obrigada pela dica, beijos,
    Vera

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  3. Olá Vera,
    Embora também como ele, ateu e agnóstico, Nietzche não é, para mim, dos filósofos particularmente preferidos, sobretudo porque se colocou contra a razão lógica e ciêntifica, regeitando a arte e a própria filosofia onde foi beber inspiração para muitos dos seus aforismos.
    Não posso todavia deixar de realçar a importância que teve, na altura, (ainda bem jovem) ler "assim
    falou Zaratusta"
    A impressão que me ficou foi uma quase aproximação a Darwin com a concepção do "ubermensche", fora da razão ciêntica, claro.
    Talvêz por isso, continue a prefirir um Leibniz ou um Heidegger, isto para me manter nos germânicos. Deste Último recomendo "Ser e Tempo"
    Beijos

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  4. Olá Zé, muito bem, obrigada pelas sugestões e pela participação. Devo dizer que a minha intenção era apenas a de revelar aspectos curiosos das vidas privadas destes 6 filósofos em que se centra o livro, usando-os para consolo de vários aspectos problemáticos das nossas próprias vidas. Cada filósofo, à sua maneira, tem interesse, e é muito curioso assistir á formação e desenvolvimento do pensamento, ao longo dos séculos.
    Beijos,
    Vera

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  5. Querida Amiga,
    Desculpa se te induzi a entenderes a minha asserção como critica. Longe de mim faze-lo sobretudo numa área que já não toco há bastante tempo, embora tenha sido um aficionado fervoroso da disciplina filosófica em geral.
    Como alegadamente - um dia algo distante - terá dito um digno representante da nobreza inglesa " honni soit qui mal y pense"!
    Beijos

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