sábado, 11 de abril de 2009

Para a criançada: A Virgínia Cozinheira e a Virgínia Costureira


É véspera do Domingo de Páscoa. A Virgínia Cozinheira encontra-se na varanda a pendurar lençóis. Tem os cabelos grisalhos unidos num carrapito impecável. No rosto, duas eternas rosetas e olhos azuis ainda bonitos, por trás das lentes grossas. Na pele traz o cheiro da canela e da erva-doce, à custa de estender a massa do folar sobre a grande mesa de mármore, com os braços vigorosos e bem treinados pelo ofício. Debruçada na corda da roupa, escuta a voz da Virgínia Costureira, sua vizinha da frente, cuja figura franzina e nariz adunco lembram um pardal.
“Ò vizinha, olhe lá os seus lençóis! Se quiser isso cosido traga cá, que eu coso!”
A Virgínia Cozinheira, que via a vida através dos seus cozinhados, estava muito mal-humorada nessa manhã, pois deixara esturricar um tabuleiro de biscoitos de amêndoa. Por isso respondeu com maus modos:
“Está a insinuar que os meus lençóis estão a precisar de ir para dentro do tacho com água a ferver?! Olhe que eles estão velhinhos, é verdade, mas sei cuidar bem deles, ouviu? Saem das minhas mãos sempre limpos, IMPECÁVEIS, OUVIU??...”
A outra tentou explicar-se:
“Não é nada disso, mulher, estou a falar do...”
“ Acha que tenho que ferver os meus lençóis para lhes tirar as nódoas, de tão encardidos que estão, é isso? Quais nódoas? Diga-me lá, mulher, onde é que vê as nódoas?!...”
Entre as duas existia sempre esta confusão:
Para a Virgínia Costureira, “Coser” escrevia-se com “S” e era tarefa que pedia agulhas e linhas; para a Virgínia Cozinheira, “Cozer” soava a “cozinha”, a “cozinhados”, a “cozinheira” e a “cozido”. Tratava-se então de um grande malentendido. Como ambas as mulheres eram teimosas que nem mulas, nenhuma dava o braço a torcer. Com a segunda interrupção, a Virgínia Costureira perdeu a paciência:
“Mas que mau feitio! Quem é que está a falar de nódoas? Irra, que é desconfiada! Estou só a dizer-lhe que não me custa nada coser-lhe esse lençol! Não seja orgulhosa!”
A outra, sem compreender ainda, já gritava:
“Ainda por cima insiste! Já agora diga-me, vá, como é que está à espera de cozer um lençol enorme destes? Onde, diga-me lá, no seu fogão, é? Onde é que tem o tacho para meter um lençol destes? Isso é que eu queria ver! Pois, porque os meus lençóis são de casal, ouviste?”
Agora estava a ser cruel, pois sabia da tristeza que a outra sentia por nunca ter encontrado marido e por dormir na velha cama da sua infância. Ofendida, a Virgínia Costureira perdeu a paciência:
“Eu não acredito! Pois então está aqui uma pessoa de boa fé a tentar ajudar e a vizinha ainda me ofende?! Parece impossível! Quer dormir com a roupa toda estragada, olhe, durma, que eu cá já não me ralo! Mas depois não me venha cá pedir batatinhas, que eu não lhas dou!”
E, dizendo isto, saiu da sua varanda, batendo as portadas com estrondo.
A outra saiu à rua, resmungando:
“Batatinhas? Em minha casa NUNCA faltam as batatas! A batata nova, a batata velha e as batatinhas para os assados! Pedir-te batatas, eu? Isso é que era doce! E por falar nisso, TAMBÉM TENHO BATATA-DOCE, ESTÁS A OUVIR?
(Só se tratavam por tu quando estavam zangadas uma com a outra).
“Vem cá fora e fala comigo, se és mulher de raça, que isto não fica assim!”
Exasperada, a outra saiu para o pátio, enquanto resmungava entre dentes:
“Eu não quero mais conversas contigo, ouviste bem? Foi a última vez que me ofereci para te fazer arranjos na roupa! Nem uma bainha sequer, acabou-se! Fica lá com o rasgão no lençol, a ver se eu me ralo!"
Ambas tinham bom coração, o sangue é que era quente…
“O quê?” – Perguntou a cozinheira, começando a entender o equívoco – “A vizinha disse… arranjar?”
“Arranjar, pois! O que havia de ser? Não reparaste que o teu lençol de linho branco tem um rasgão num dos cantos? Podia cosê-lo num minuto e ficava como novo, mas tu...”
A cozinheira interrompeu-a, muito envergonhada pela sua precipitação e agarrou-se a ela, apertando-a nos braços:
“Ó minha amiga, a vizinha desculpe lá o mau jeito!... É que eu hoje acordei torta e julguei que estava a fazer pouco da minha roupa!
Aliviada, a costureira limpou o suor que lhe corria pela cara e exclamou:
“Pronto, pronto. Eu estava falar do rasgão, mulher, do rasgão!”
Zangavam-se por disparates como este, e eram tão diferentes como o sol e a lua. Só o nome era igual; mas quando faziam as pazes, dava gosto ver... até à trapalhada seguinte com o “coser” e o “cozer”.
Contavam-se na aldeia vários episódios do mesmo género. Uma vez, a cozinheira apresentara-lhe um ovo cozido partido ao meio e perguntara:
“Quer um ovo cozido?”
A costureira, estranhando o tom autoritário que nem pedia “se faz favor”, tinha ouvido:
“Quero o ovo cosido!” e respondera: “Claro, é para já…!”
Pouco depois, devolvera-lhe o ovo cozido...cosido, pois as metades haviam sido unidas com linha preta e mal amanhada, em jeito de vingança:

“Aqui tens o teu ovo cosido e para a próxima, se quiseres o trabalho bem feito, pede-me com bons modos!”

UMA PÁSCOA FELIZ E MUITO DOCE PARA TODOS!

(Texto: VERA DE VILHENA)

1 comentário:

  1. Veroquinhas.......
    Adoro-te!
    Beijiiiiiinhos
    Uma Páscoa com ovinhos, muitos......lembras-te de os procurarmos , crescidos e crianças pelos jardins da tua mãe e Cpo Santana?
    Saudades...parecia tudo tão mais fácil. Porquê?
    Adoro o teu Blog
    Meluxa

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