9h10m à porta das Finanças. A máquina das senhas avariada há vários dias. Haverá um qualquer funcionário desgraçado que, diariamente, escreve à mão, em rolos de papel:
A1, A2, A3, A4, A5, A6...
B1, B2, B3, B4, B5, B6...
C1, C2, C3, C4, C5, C6...
Tirei a senha B34.
Fui à pastelaria. Escrevi.
1 poema, 1 café, 1 fradinho e 1 água mais tarde, voltei: B12...
11h10m: B26
Sentada nos degraus do 2º andar, transformei as conversas ao meu redor num murmúrio longínquo e fugi para um A4 (não, não é uma senha, por acaso a senha A vai agora no 36) e trabalhei o meu novo poema.
Depois fiquei assim, aparvalhada, ao descobrir que era possível acontecerem alguns versos numa repartição de finanças. Como um recém-nascido resguardando-se do mundo num sono profundo, fui-me evadindo, dos impostos para a poesia. Foi-me Imposto, para não EnloUqUeCeR: só assim poderão acusar-me de evasão fiscal.
Que farão estes outros, enquanto aguardam, como eu, nos degraus da escada?
B27...