Um passo diante do outro, a acompanhar o pulsar do sangue. Na estrada solitária apenas os ruídos da terra, o voo cruzado de um pássaro, o ladrar dos cães que guardam casas modestas, as hortas, os pomares, os galinheiros, como se fossem tesouros feitos de patos e couves e laranjas e abóboras e melões. A ansiedade dos meus dias vai-se evolando, levada pelas serpentinas de fumo das queimadas a que se entregam os homens, de mangas de camisa arregaçadas, a testa e o pescoço tisnados por tantos sóis: um perfume feito de verdores, ervas e folhagem carcomida pelos restos da estação que terminou. É Outono, enfim. A brisa ainda é morna e o céu, mesmo cinzento, oferece uma luz de líquido bronze, quebradiço como as folhas que fogem dos ramos, em busca de um novo horizonte, na esperança de reencarnar. Passo a passo.
Não se deixem enganar pelas riscas cor-de-rosa. Os dias são (d)escritos com todas as cores.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
sábado, 4 de outubro de 2014
A fotografia
Eram ambos mestres no arte do fingimento. Enganavam até os amigos mais próximos. Ela segura a fotografia na mão, controlando a raiva que tem presa nos dedos, para não partir a moldura que os filhos deram. Ali estão eles, os pais, a sorrir. Longe, muito longe da felicidade. Ninguém diria. Ela sabe o segredo: tem um sorriso bonito e sorriu para a fotografia. Nessa tarde e em muitas outras tardes.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Dia Mundial da Música
Porque a música também é respiração e silêncio, ou inquietude, escolho estes dois temas de alguém que nos faz muita falta: Bernardo Sassetti.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
domingo, 21 de setembro de 2014
Cães na tempestade
A
insónia empurra-me o sono para o meio-dia
Uma
lança de luz espreita da portada azul,
ferindo
a penumbra do meu quarto;
Estalam
trovões, um arrastar de mesas e cadeiras:
a
empregada doméstica dos deuses, limpando o espaço divino,
a
generosos baldes de água, lavando o céu e a terra,
trabalho
celeste que não me deixa dormir.
E
os cães.
Os
cães que ladram, cuspindo a sua voz
para
rasgar o medo em dois.
O
som contínuo, das unhas na porta,
uiva
– deixa-me entrar!
É
o bicho que teima em fugir
para
o interior da toca de pedra:
feito
para enfrentar lobos na serra
Guardar
ovelhas no pasto
Nada
quer com trovoadas.
E,
no labirinto da minha vigília,
perdida
numa vertigem de alamedas
que
preenchem a fronteira entre dois mundos – desisto.
A
minha hora não se cumpre:
Abro
a porta e recebo o aroma da terra morna,
O
pivete do pelo molhado do animal
que
entrou – ele, o alívio e o dilúvio
Que
misturo com os meus versos
e
o ritmo acelerado do belo porte canino
que,
arfando, parece dizer-me – obrigada
por
me salvares da tempestade.
(© VERA DE VILHENA, inéditos)
sábado, 20 de setembro de 2014
Azul-cobalto
![]() |
| © Nanã Sousa Dias |
Azul-cobalto
Sobre a mesa o prato, o grão de
pimenta
rosa, roçando a fibra
da toalha magenta;
A vidraça ampara a chuva
escorrendo
e, no bordado de flores alfazema, acolho
a jarra de vinho - aconchego de um néctar
de amoras a demorar-me na boca.
O céu saliva um doce lilás,
tecido em hortênsias das ilhas
distantes:
é o mar, que me leva e enleva nas
ondas de espuma
do sal de Setembro vestindo os
rochedos.
Será fome? Será medo?
A dentada da chuva, lambendo a
estação
como quem diz adeus.
nos olhos agarro o meu horizonte
de azul cobalto - mar alto no peito
se bem que, a
meu jeito,
sou a beira-mar.
© VERA DE VILHENA, poemas inéditos, Setembro 2014
© VERA DE VILHENA, poemas inéditos, Setembro 2014
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Setembro
alguns fados no canto da memória,
um texto sem fim que página a página,
morosamente,
vou dissecando com o meu bisturi
a chuva, os cães, a casa,
a chuva,
janelas que abrem, janelas que fecham,
Tijolo encharcado, quadriculando as horas, os prazos,
cansaço em duras folhas que calco
E vou calculando
o ânimo na mão fechada
À espera do dia de poder ser,
cumprir o trabalho, as contas, alertas
e panos e trapos, secos, molhados,
o sol que espreita em toque-e-fuga
De novo a chuva com boca de água
Vem dizer que o nosso verão morreu.
O ar cheira a recomeços. Recomeço-me, pois.
Reconheço-me, meço-me
pelos pequenos passos,
pinga aqui, pinga ali, o vento, a folha, a empurrar o cansaço,
a humidade dos dias encravada nas unhas,
a luz da tarde é líquido mel,
setembro avança dourando a uva arrancada
e os corvos já gritam, ralhando comigo,
não percas o fio às palavras, faz-te pássaro
e vem connosco
eu grito de volta que a hora é de ócio e
no hálito morno da minha preguiça
invento uma forma de recomeçar.
(©VERA DE VILHENA, poemas inéditos) - dedico este meu Setembro à Virgínia do Carmo
um texto sem fim que página a página,
morosamente,
vou dissecando com o meu bisturi
a chuva, os cães, a casa,
a chuva,
janelas que abrem, janelas que fecham,
Tijolo encharcado, quadriculando as horas, os prazos,
cansaço em duras folhas que calco
E vou calculando
o ânimo na mão fechada
À espera do dia de poder ser,
cumprir o trabalho, as contas, alertas
e panos e trapos, secos, molhados,
o sol que espreita em toque-e-fuga
De novo a chuva com boca de água
Vem dizer que o nosso verão morreu.
O ar cheira a recomeços. Recomeço-me, pois.
Reconheço-me, meço-me
pelos pequenos passos,
pinga aqui, pinga ali, o vento, a folha, a empurrar o cansaço,
a humidade dos dias encravada nas unhas,
a luz da tarde é líquido mel,
setembro avança dourando a uva arrancada
e os corvos já gritam, ralhando comigo,
não percas o fio às palavras, faz-te pássaro
e vem connosco
eu grito de volta que a hora é de ócio e
no hálito morno da minha preguiça
invento uma forma de recomeçar.
(©VERA DE VILHENA, poemas inéditos) - dedico este meu Setembro à Virgínia do Carmo
sábado, 13 de setembro de 2014
Graça Pires
«Percorro os fonemas como se dançasse,
Envolta numa túnica de água
guarnecida de espelhos.
Sou Ariadne vestida de espanto.
Nos meus dedos cintilam longuíssimos fios
de um novelo de versos e de sonhos
com que me quero salvar.
Já não me lembro de que mitologia saí.
O meu labirinto tem a forma de um pássaro
conivente com a noite.»
(in «Labirintos», 1997, © GRAÇA PIRES, imagem © Sharon Johnstone)
«Caminhamos por entre as árvores
com a boca a saber a menta e a malvas.
Trazemos nas mãos um herbário
de tão fugaz esperança
que nenhuma outra se tece sem desvios
na dobra do peito.
Talvez existam anjos com olhos de musgo
à beira dos abismos por onde se esgueiram
os dias que nos roubam a eternidade.
Talvez a turbulência verde na borda dos ribeiros
unja de seiva a passagem do tempo.»
(in «A incidência da luz», 2011, © GRAÇA PIRES)
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Leituras
Foi-me feito um desafio que aceitei mas que não tenciono cumprir à risca. É uma missão impossível, além de que nunca tive jeito para as contas. Nós, que amamos os livros, temos uma dificuldade imensa em escolher apenas 10, já se sabe. Aqui vai, por ordem cronológica e sem nenhuma ordem de preferência, alguns livros que marcaram diferentes fases na minha vida:
0 - (eu sei, é batota, têm sorte de eu não começar com números negativos) - Contos de Grimm, Perrault, Hans Christian Andersen, Enid Blytton, Sophia... - tantos!
0,5 - Condessa de Ségur e outros da Colecção Azul - vários, a despedida da infância...
0,75 - policiais - Simenon, Agatha Christie, Earl Stanley Gardner...
1 - Eça de Queiroz (não consigo escolher apenas um...)
2 - Metamorfose - F. Kafka
3 - Richard Bach - vários
4 - As Três Sereias, Irving Wallace
5 - As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley
6 - O Perfume, Patrick Suskind
7 - Fernando Pessoa (não consigo escolher um)
8 - Saramago - vários
9 - Crónica de uma Morte Anunciada+outros, Gabriel García Márquez
9.5 - A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo - Carlos Ruiz Zafón
9.9 - Walden ou a vida ns bosques - Thoreaux
10 - José Luís Peixoto - vários
Aaaiii, ficaram de fora M. Yourcenar, Duras, V. Woolf, Joanne Harris, João Aguiar, Tom Sharpe, David Lodge, Gustave Flaubert, Paris é uma Festa!+ outros, de Ernest Hemingway, Isabel Allende, Rosemunde Pilcher, Jorge Amado, Simone de Beauvoir...ai.
0 - (eu sei, é batota, têm sorte de eu não começar com números negativos) - Contos de Grimm, Perrault, Hans Christian Andersen, Enid Blytton, Sophia... - tantos!
0,5 - Condessa de Ségur e outros da Colecção Azul - vários, a despedida da infância...
0,75 - policiais - Simenon, Agatha Christie, Earl Stanley Gardner...
1 - Eça de Queiroz (não consigo escolher apenas um...)
2 - Metamorfose - F. Kafka
3 - Richard Bach - vários
4 - As Três Sereias, Irving Wallace
5 - As Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley
6 - O Perfume, Patrick Suskind
7 - Fernando Pessoa (não consigo escolher um)
8 - Saramago - vários
9 - Crónica de uma Morte Anunciada+outros, Gabriel García Márquez
9.5 - A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo - Carlos Ruiz Zafón
9.9 - Walden ou a vida ns bosques - Thoreaux
10 - José Luís Peixoto - vários
Aaaiii, ficaram de fora M. Yourcenar, Duras, V. Woolf, Joanne Harris, João Aguiar, Tom Sharpe, David Lodge, Gustave Flaubert, Paris é uma Festa!+ outros, de Ernest Hemingway, Isabel Allende, Rosemunde Pilcher, Jorge Amado, Simone de Beauvoir...ai.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Caleidoscópios
Oss caleidoscópios sempre exerceram sobre mim um estranho fascínio; talvez por ser uma das muitas formas que eu tinha, na infância, de mergulhar em mundos mágicos sendo tão míope como sempre fui. Ali, de olho mergulhado num dos extremos de um tubo de cartão, provocando os movimentos das peças minúsculas, sentia-me encantada e segura, incapaz de me perder, de apanhar chuva, de ser perseguida por um carneiro mal-humorado ou de esfolar os joelhos.
Este é um caleidoscópio humano, uma campanha de sensibilização a favor da multiplicação das boas ideias: The power of ex. TED. Vale a pena ver em full screen.
Este é um caleidoscópio humano, uma campanha de sensibilização a favor da multiplicação das boas ideias: The power of ex. TED. Vale a pena ver em full screen.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Mentira
![]() |
| polígrafo |
Mentira
Tantas camadas sobre cambadas
sobre camadas,
Que já não é possível ver a
matéria original;
Tantos sorrisos sobre risos sobre
sorrisos;
Que já não consigo chorar.
Tanta mentira sobremaneira sobre
mentira,
Que me tornei incapaz de dizer a
verdade;
Tanta pose sobre posse sobre pose,
Que é impossível gritar, Fui possuído!;
Tanto muro sobre esconjuro sobre
muro,
Que já não encontramos a raiz;
Tanto artifício sobre malefício
sobre artifício,
Que já não sentimos a nossa pele;
Tanto que fingimos que
conseguimos dizer,
Que é impossível a arte articular.
(© Vera de Vilhena, poemas inéditos)
domingo, 7 de setembro de 2014
Língua afiada
«Agora, fechada nesta sala, sinto-me velha e gasta. A
minha lâmina já não é o que era. Vêm visitar-me com olhos curiosos e leem o meu
magnífico currículo com algum desprezo, como se tivesse sido eu a inventar a
lei da gravidade. Que culpa é que eu tenho? Se eu existi e tive uma época de
glória, não foi por decisão minha. Apenas dei o meu melhor e tal não podem
censurar-me.
Mau
grado a idade avançada, sinto-me bem viva e com muito para dar. Aqui encerrada
há tantos anos, nesta inatividade que é de enlouquecer qualquer um, foram-me
chegando histórias que me provocam um desejo de regressar ao ativo: só para
castigar uns quantos, se é que me entendem. Sei que os tempos mudaram, é certo,
e que já não se fazem espetáculos como os de outrora; mas confesso-vos que, se
me deixassem, ainda era capaz de fazer perder a cabeça a muitos homens…»
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Irra, até que enfim!
Abriu a página do facebook e libertou o desabafo:
«- IRRA, ATÉ QUE ENFIM! Mais não posso dizer, o decoro não mo permite.»
Logo os comentários choveram:
- Estavas a ver que não! :-)
- Não sei do que falas, mas até que enfim, estou feliz por ti!
Uma mais atrevida perguntou:
- Apareceu-te o periodo que já estava atrasado, foi? Já te estavas a imaginar de fraldas e biberons outra vez, ahahaha!
- Boa! Não há male que sempre dure!
(male????)
- Fixe! Quem espera sempre alcança!
E mais uma série de provérbios que lhe diziam exactamente aquilo que pretendia ouvir. O facto de ninguém ter a mínima ideia daquilo a que ela se referia com o: Irra até que enfim, não tinha qualquer importância:
- Estou feliz por ti, amiga!
- Deviam-te dinheiro, queres ver? Ai, este país vai de mal a pior!
- Tavas a ver que não!
- Boa!
- Que alívio, hein?
- Vá, conta lá!
Não faziam ideia. É que não faziam a mínima.
O engraçado é que aquela cambada de gente ignorante, relativamente à sua situação, bem intencionada, é certo, lhe havia trazido um estranho consolo.
O facebook era aquilo. Também podia ser aquilo. A solidariedade virtual, de café de esquina, pronta a servir.
«- IRRA, ATÉ QUE ENFIM! Mais não posso dizer, o decoro não mo permite.»
Logo os comentários choveram:
- Estavas a ver que não! :-)
- Não sei do que falas, mas até que enfim, estou feliz por ti!
Uma mais atrevida perguntou:
- Apareceu-te o periodo que já estava atrasado, foi? Já te estavas a imaginar de fraldas e biberons outra vez, ahahaha!
- Boa! Não há male que sempre dure!
(male????)
- Fixe! Quem espera sempre alcança!
E mais uma série de provérbios que lhe diziam exactamente aquilo que pretendia ouvir. O facto de ninguém ter a mínima ideia daquilo a que ela se referia com o: Irra até que enfim, não tinha qualquer importância:
- Estou feliz por ti, amiga!
- Deviam-te dinheiro, queres ver? Ai, este país vai de mal a pior!
- Tavas a ver que não!
- Boa!
- Que alívio, hein?
- Vá, conta lá!
Não faziam ideia. É que não faziam a mínima.
O engraçado é que aquela cambada de gente ignorante, relativamente à sua situação, bem intencionada, é certo, lhe havia trazido um estranho consolo.
O facebook era aquilo. Também podia ser aquilo. A solidariedade virtual, de café de esquina, pronta a servir.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
"Coisandês, a vida nas coisas" - lançamento
Meus Caros,
Venho convidar-vos para o lançamento oficial deste meu pequeno livro para leitores dos 10 aos 110 anos de idade.
Ganhou o prémio Revelação APE/Babel e, ao fim de alguns percalços de publicação, viu este ano a luz do dia, e poderá agora chegar, enfim, às mãos dos seus leitores.
«Coisandês - a vida nas coisas» é isso mesmo: um conjunto de contos em que as coisas-objectos ganham vida e ficamos a conhecer alguns dos seus pensamentos, sonhos, emoções e aventuras.
As ilustrações no interior, a carvão, e de capa inteira, são de Vanessa Bettencourt. O prefácio é de Júlio Isidro.
(clique na imagem para aumentar)
Venho convidar-vos para o lançamento oficial deste meu pequeno livro para leitores dos 10 aos 110 anos de idade.
Ganhou o prémio Revelação APE/Babel e, ao fim de alguns percalços de publicação, viu este ano a luz do dia, e poderá agora chegar, enfim, às mãos dos seus leitores.
«Coisandês - a vida nas coisas» é isso mesmo: um conjunto de contos em que as coisas-objectos ganham vida e ficamos a conhecer alguns dos seus pensamentos, sonhos, emoções e aventuras.
As ilustrações no interior, a carvão, e de capa inteira, são de Vanessa Bettencourt. O prefácio é de Júlio Isidro.
(clique na imagem para aumentar)
terça-feira, 2 de setembro de 2014
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Morte, livros e figos
Balanço do mês de Agosto:
Churrascadas cá em casa com família e amigos, filho de férias comigo (uma fartura, para tirar a barriga de misérias), um irmão "alentejano" de fim de semana connosco, Golfinho Azul, aulas de voz, 45 primaveras completadas e 15 do Micas (15! Como é que é possível); o candeeiro dos meus sonhos (enfim!), de presente de anos (obrigada Nanã); Hugo e Marta, Marta e Hugo e viva o amor, 47 livros vendidos, um convite para publicar um novo livro (depois revelo) e a notícia triste de duas mortes: uma em Hollywood, outra muito nossa: Robin Williams e Luís Pedro Fonseca. O rever de alguns rostos do passado nas cerimónias fúnebres, festivas, singulares, do Luís Pedro...e luz, muita luz nesta morte inesperada. E a Bix (cadela dos uns tios meus) também nos deixou, foi para o céu dos cães, saltar de nuvem em nuvem, a tomar banhos de chuva, como cão de água que era.
A leitura irresistível d' O Pecado de Porto Negro, de Norberto Morais e o início de uma nova amizade. O mergulho em Capote, A Sangue Frio, edição de letra minúscula que, ainda assim, lá vou cumprindo, antes de atacar o monte de livros emprestados pela Patrícia Reis, uma amiga para todas as horas.
61 páginas revistas de um total de 302 (Philipp Vitor, um jovem escritor de ficção científica, a ser publicado na Amazon). Um verão a fingir, muito indeciso, num jogo de dá-e-tira; o meu banco BES a passar para "Novo Banco" e do resto dos noticiários nem vale a pena falar; dias de neura, dias de paz; hormonas instáveis, nem sei porquê, o corpo lá saberá mas não me diz ou diz e eu não entendo; e uma insónia que me devolveu a vontade de escrever, para celebrar a rentrée.
A descoberta da verdade acerca da polinização dos figos. Ainda assim não deixarei de comê-los.
O meu Agosto. Mais coisa menos coisa.
Caro Setembro,
Traz-me um cesto recheado de coisas boas (e figos, já agora), para quem merece e tem o meu coração, como diz a P.
Antecipadamente grata
V
Churrascadas cá em casa com família e amigos, filho de férias comigo (uma fartura, para tirar a barriga de misérias), um irmão "alentejano" de fim de semana connosco, Golfinho Azul, aulas de voz, 45 primaveras completadas e 15 do Micas (15! Como é que é possível); o candeeiro dos meus sonhos (enfim!), de presente de anos (obrigada Nanã); Hugo e Marta, Marta e Hugo e viva o amor, 47 livros vendidos, um convite para publicar um novo livro (depois revelo) e a notícia triste de duas mortes: uma em Hollywood, outra muito nossa: Robin Williams e Luís Pedro Fonseca. O rever de alguns rostos do passado nas cerimónias fúnebres, festivas, singulares, do Luís Pedro...e luz, muita luz nesta morte inesperada. E a Bix (cadela dos uns tios meus) também nos deixou, foi para o céu dos cães, saltar de nuvem em nuvem, a tomar banhos de chuva, como cão de água que era.
A leitura irresistível d' O Pecado de Porto Negro, de Norberto Morais e o início de uma nova amizade. O mergulho em Capote, A Sangue Frio, edição de letra minúscula que, ainda assim, lá vou cumprindo, antes de atacar o monte de livros emprestados pela Patrícia Reis, uma amiga para todas as horas.
61 páginas revistas de um total de 302 (Philipp Vitor, um jovem escritor de ficção científica, a ser publicado na Amazon). Um verão a fingir, muito indeciso, num jogo de dá-e-tira; o meu banco BES a passar para "Novo Banco" e do resto dos noticiários nem vale a pena falar; dias de neura, dias de paz; hormonas instáveis, nem sei porquê, o corpo lá saberá mas não me diz ou diz e eu não entendo; e uma insónia que me devolveu a vontade de escrever, para celebrar a rentrée.
A descoberta da verdade acerca da polinização dos figos. Ainda assim não deixarei de comê-los.
O meu Agosto. Mais coisa menos coisa.
Caro Setembro,
Traz-me um cesto recheado de coisas boas (e figos, já agora), para quem merece e tem o meu coração, como diz a P.
Antecipadamente grata
V
sábado, 23 de agosto de 2014
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Os sonhos e o riso
Boa semana para todos. Não se esqueçam de lutar pelos vossos sonhos e o vosso riso. Faz tanta falta...! Maximizem o ecrã e tentem lá não rir com este video. :-)
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
À espera de um céu
Coberta por um céu encoberto, sufocada em silêncio e quietude, já quase esquecia o contorno das estrelas, o ruído macio das aves nocturnas. O meu céu era sem brilho nem luz. Um silêncio tecido em solidão. Depois chegou-me um céu azul-claro, cobrindo-se de véus transparentes, vestindo o contorno das árvores ainda nuas, até ser indigo, marinho de alto mar. A lua, minha companhia em madrugadas de escrita, surgiu de novo, trazendo o espanto de uma estrela cadente, depois outra, e outra, invadindo-me o peito de "ohs!" e "ahs!".
Vou sendo noite estrelada, na brisa morna que transportam as mãos dos amigos distantes. E o meu sorriso desempoeirado estende-se na raíz da gratidão.
Agora, para cumprir a noite, é vestir-me com asas de anjo e voar.
sábado, 2 de agosto de 2014
Promessa

Por falta de uso.
E a consciência me dirá se existe arrependimento ou o alívio dos dedos decepados.
quinta-feira, 31 de julho de 2014
Só isto
![]() |
| http://olhares.sapo.pt/agua-escorrendo-foto19934.html |
terça-feira, 22 de julho de 2014
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Novo dia
domingo, 13 de julho de 2014
Espiral
Sempre odiei equívocos. Vivo mergulhada num deles há anos. Demasiados. Não sei como sair, como desfazê-lo. É uma espiral, em redemoinho do qual não é fácil sair. Sinto-me afundar dentro ou fora dele, para onde quer que vá, que esbraceje na corrente. Acorrentada ando eu há muito tempo. Correntes cujos anéis eu mesma forjei, um a um, na paciência da loucura. Que farei com esta lucidez que me chega em momentos de fogo, quando tudo parece arder dentro de mim? Quem me dera a coragem dos incendiários; ter o pretexto para a invenção de uma nova raiz. Tudo em mim é podridão, a gritar por um Recomeço que me salve.
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Monstros
O tempo passa e eu não me cumpro. Nem sei se a promessa que fiz é uma mentira, simples teimosia. Um capricho de deuses profanos. Se o escritor deve escrever sem pensar no leitor, que farei eu em absoluta solidão? Ser apenas eu? Eu comigo mesma? É ingrata, a mais absoluta solidão. Era preciso que a nossa companhia fosse grande, profunda. Descerrar o ferrolho de todas as portas, libertando os monstros? E se os monstros não meterem medo? Se os meus monstros forem ridículos? Há tanto tempo andam domesticados, que não é fácil deixá-los ser monstros outra vez. Atrás de portas aguardaram, pacientemente, a chegada da minha maturidade, que nunca chegou a chegar. Sou meia-mulher de meia-idade com meia-vida. Longe de ser completa. Não sei como tornar selvagem e livre o que há muito não sabe o que fazer com a luz. É na escuridão que os monstros refulgem, revelando os olhos maléficos que transformam em incerteza toda a luz solar, a ser negrume onde tudo cabe. E têm sido só meus, estes monstros. Com eles me entendo, sem mais ninguém. Que farei eu com monstros partilhados à luz do dia, sob o sol da tarde? Na minha cama, na minha solidão de meia-mulher me entendo. Como poderei eu ser mulher inteira, montando os meus monstros no carrossel, em plena feira? Dêem-me algodão doce e deixem-me brincar. E quando a lua surgir e todos dormirem, eu e os meus monstros ridículos, no comboio-fantasma, seremos unos, na intimidade da noite que só a nós pertence.
terça-feira, 8 de julho de 2014
A pele e o horizonte
M. acordou a meio da noite sem saber o que fazer ao corpo. Era como se a alma lhe quisesse sair de dentro, romper-lhe a pele. O corpo um cárcere, encerrando gritos que era incapaz de dar na escuridão do quarto, enquanto o marido dormia ao seu lado, tentando enroscar-se naquele corpo inquieto, que lhe fugia.
M. saiu da cama. Na mente dançavam infinitas frases que deveria escrever. O computador desligado dormia, sensato. O dia rompendo, tão cedo, pensou ela, julgando, na preguiça das suas manhãs bem dormidas, que o sol comparecia mais tarde ao encontro com o horizonte. Que sorte, pensou M., invejando aquela certeza de o sol contar com um horizonte a cada novo dia.
M. interrogava-se por onde andariam os seus próprios horizontes. E talvez por isso a alma andasse a querer sair-lhe do corpo, na certeza de ali não ter como ser sol, iluminar a pulsação do habitáculo que a prendia. A pele ainda grita, hesitante entre a ofensa e a tristeza de ver aquela alma oprimida, a querer fugir. Vai, gritou-lhe, vai ser horizonte fora de mim, que aqui apenas podes ser pernas e braços e pés e mãos...de um corpo paralisado.
E a alma foi, despida.
M. saiu da cama. Na mente dançavam infinitas frases que deveria escrever. O computador desligado dormia, sensato. O dia rompendo, tão cedo, pensou ela, julgando, na preguiça das suas manhãs bem dormidas, que o sol comparecia mais tarde ao encontro com o horizonte. Que sorte, pensou M., invejando aquela certeza de o sol contar com um horizonte a cada novo dia.
M. interrogava-se por onde andariam os seus próprios horizontes. E talvez por isso a alma andasse a querer sair-lhe do corpo, na certeza de ali não ter como ser sol, iluminar a pulsação do habitáculo que a prendia. A pele ainda grita, hesitante entre a ofensa e a tristeza de ver aquela alma oprimida, a querer fugir. Vai, gritou-lhe, vai ser horizonte fora de mim, que aqui apenas podes ser pernas e braços e pés e mãos...de um corpo paralisado.
E a alma foi, despida.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Mahler
Gustav Mahler nasceu a 7 de Julho de 1860. Deixo aqui uma das suas peças mais emblemáticas, "popularizada" no filme de Visconti "Morte em Veneza": o Adagietto, Sinfonia nº 5, aqui interpretado pela Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Leonard Bernstein.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
?
Decidi que me irei estar na tintas para uma série de coisas. Muitas vezes esgotamos energias no que não merece. E iremos canalizá-las para onde? Que faremos nós com a energia que nos sobra, depois de tudo o que tem de ser? Que formas temos nós de nos reinventarmos? Ultimamente só tenho interrogações. As respostas andam tão longe. E terei eu alguma vez tido respostas? Não liguem, não liguem ao que escrevo hoje, aliás, ao que escrevo seja quando for. Que sei eu? Tento apenas sobreviver nas minhas emoções. Sobreviver. Já que, de resto, é tão difícil. Mas emoções tenho, isso sim, para dar e vender. Mas quem quereria comprá-las? Quem quereria engordar as suas incertezas e pagar por isso? Nada mais tenho do que incertezas. E um vazio. Um vazio tremendo que não sei como preencher.
Nem uma linha.
Em mim apenas existe o engano.
Não sei como cumprir o papel a que me propus, não sei porquê.
E agora?
O que faço?
Nem uma linha.
Em mim apenas existe o engano.
Não sei como cumprir o papel a que me propus, não sei porquê.
E agora?
O que faço?
terça-feira, 1 de julho de 2014
Reticente
A sério? Quase uma semana sem vir ao blogue? Pois é, e então? Vem daí algum mal ao mundo? É alguma catástrofe? Vá, não é, não é. Onde é que está escrito que tenho de vir aqui todos os dias? Deixar o quê, se não tenho nada para dar? Dizer o quê? Que o meu cão teve um ataque de epilepsia ou uma reacção ao Frontline? Que teve convulsões e espumou à minha frente e eu julguei que morria? Que não tenho conseguido escrever uma linha? Que estou revoltada com uma série de coisas que continuam a acontecer neste país? Vá, tenham paciência, a paciência que eu não tenho. Outros dias virão, não quero estes, estou aqui atrás da porta, à espera que algo mude, muda, entretanto, sem boca, sem palavras, até que um texto decente possa aqui ser escrito, com a devida pontuação, pontificada a vida, a nossa...até lá, tenho apenas reticências...
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Morreu Ana Maria Matute
Para um bom adeus, aqui fica o texto escrito por CRISTINA CARVALHO no âmbito da
apresentação de Ana Maria Matute e do livro “A Torre de Vigia”, edição Planeta
Manuscrito, no Instituto Cervantes em Lisboa, no dia 13 de Outubro de 2011
«A literatura é algo que, usando palavras, não
se pode definir nem soletrar. É uma expressão artística ambiciosa, que usa
sangue e corpo, que tem de ser livre – como todas as expressões de arte ou como
a própria vida –
Deverá ser simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de folhas de árvore.
Quanto a mim, o papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. As palavras escritas devem formar um todo compreensível, - um romance, um conto, um poema. As palavras que servem as ideias, têm de ser dádiva. As palavras não podem viver subterraneamente de modo incompreensível ou navegar ao sabor da moda; as letras não devem agrupar-se em palavras que não tenham significado. Isso não é bom. Não é essa a interrogação que a literatura precisa. Não é isso que perdura. Não é isso que prende. E está à vista de todos.
O pensamento existe. A estética da linguagem, também existe. O ideal também existe. As histórias existem. Os livros existem. A pessoa existe e a pessoa é a interrogação. É a pessoa que escreve histórias que deseja que a outra pessoa as leia, mas sobretudo, que as compreenda.
Ana Maria Matute é totalmente clara. Ela não escreve sobre o eterno Eu e o Tu e o Tu e o Eu mas abraça sim, toda a humanidade. Por exemplo,em Paraíso Inabitado ,
Matute revela a inteira psicologia da vida desde os primeiros anos da
protagonista, Adriana, que são os nossos primeiros anos rumo a um salto
assombroso nesse perigoso e absurdo abismo que é a adolescência, túnel sombrio
de dúvidas e indecisões que só o próprio adolescente consegue resolver.
Atravessando a vida com tantos livros escritos, tantos prémios que a consagraram universalmente, há um que destaco porque me toca particularmente, porque o sentido mais humano da literatura ainda que fantástico e submetido, aparentemente, ao reino do surreal e do maravilhoso que muito aprecio e elevo, é também, pelo que sei, o livro que a escritora mais gostou de escrever: Olvidado rei Gudú. Como ela própria afirma - , el libro que siempre quiso escribir y por el que le gustaría ser recordada! "Es un libro mágico, como la vida misma".
Toda a magia e mistério da vida é extraordinariamente bem escrito e descritoem Olvidado Rei Gudú ,
seus mistérios e superstições onde todas as emoções humanas são reveladas num
registo de assombrosa fantasia e de poderoso conhecimento da imaginativa mente
humana.
Com uma vastíssima obra que passa por muitos romances entre os quais destaco as traduções em língua portuguesa: Olvidado Rei Gudú, Aranmanoth, outro romance no género fantástico apresentado com uma escrita tão doce e envolvente, conta-nos a infância e o crescimento de duas crianças enamoradas.
Aindaem Paraiso Inabitado
e de novo pela voz de uma criança se percorre a vida e os complexos estágios do
crescimento numa escrita aparentemente leve e simplificada que nos conduz às
mais elaboradas reflexões.
E o livro que hoje apresentamos, A Torre de Vigia.
Ao entrar na leitura deste livro imergimos imediatamente num cenário onírico, denso e misterioso onde sobressai a Natureza por vezes assustadora, outras vezes duma beleza escaldante. Todo este ambiente enevoado e surreal de homens-lobis, ventanias, campos de neve de fome e de frio mais as doçuras do estio, de ameias de castelos, baronesas e barões, veados, javalis, gansos, lobos, cavalos brancos e cavalos pretos, jovens iniciados cavaleiros, peles de ursos, flechas, salões, cozinhas e alcovas, todo este universo existe, atavicamente, em todos nós. Está nos mais altos e escondidos sótãos da nossa memória. Este universo foi, neste livro, posto a descoberto. É uma vida inteira a descobrir universos, a desvendar sonhos, uns atrás dos outros.
E com a ironia sempre presente, vivemos mais uma vez uma certa infância ou como uma criança pode e consegue sublimar atos ou situações terríveis através da construção dos sonhos.
Nesta história somos transportados, como num quadro musical em ambiente medieval, somos transportados em nuvens de cheiros, cores e sabores, interrogações, desespero e espanto.
Este livro, o primeiro duma trilogia medieval, fala-nos de um filho de boas famílias, a sua travessia da infância e entrada na adolescência com grande desassossego. A castelã, a baronesa de Mohl, linda, ruiva e branca que o inicia no amor carnal aos treze anos. Também essa atitude, brutal e estranha, fá-lo perceber os mais rudimentares indícios da constituição psicológica do ser humano. Tudo o que de mais escondido está, para além da fronteira do conhecimento, rente às superstições mais subterrâneas que todos nós temos e que desejamos esconder. Conseguimos perceber este jovem a pensar e a transformar-se todos os dias, o que causa alguma angústia.
As personagens avassaladoras quer animais quer humanas são fascinantes. Krim-Cavalo é um ser inesquecível, lendário e protetor do jovem iniciado. Eu penso mesmo que Krim-Cavalo podia ser o jovem, ele mesmo. Este jovem sem nome. Este fantasma. O barão e a baronesa de Mohl, outras personagens tão excessivas quanto misteriosas. O próprio pai, um poderoso desgraçado que, sem amor para dar, é como se personificasse a eterna noite dos homens.
“A Torre de Vigia” é pois, uma história de desejos, de descoberta, a eterna luta entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas e ao ler este romance pensei sempre no homem à face da Terra, vi-o a tentar avançar não sei para onde, nem porquê, nem para que destino ou fatalidade.
É esta a arte de Ana Maria Matute: a literatura, esse milagre.
Escreveu também contos e muitas histórias para a infância e juventude.
Os prémios e reconhecimentos literários são inúmeros.
Em 2010 recebeu o Prémio Cervantes, o mais alto galardão espanhol atribuído à literatura.
A arte literária é mais uma insignificância do cosmos. Quantos e quantos quilómetros de linhas já foram escritas? Quanto pensamento glorioso já oferecemos aos nossos deuses? Quantos restam? Quantos encantos e desencantos vamos sofrendo? O que é que aprendemos? O que é que valemos? Que interesse tem tudo? Tanta interrogação…
Sei, sinto que Ana Maria Matute tem absoluta consciência das penas que uma pessoa suporta ao longo desta permanência por aqui. Os seus livros são documentos de extraordinária importância que desenham a vida e as experiências do quotidiano de alguém que conviveu com a guerra civil de Espanha e a segunda grande guerra mundial e o pós-guerra. A sua literatura é um grito de libertação através do poder imagético de cada um. A fantasia está expressa em muitos dos seus livros atingindo o picoem
Olvidado Rei Gudú e Aranmanoth e ainda, muito embora estes
livros sejam um hino à poderosa fantasia humana, é também a constatação da
triste realidade da condição humana.
Ana Maria Matute enche-me de orgulho como mulher, como escritora, como exemplo de conhecimento, de experiência, de sabedoria, de humanidade e celebro-a em todas as suas vertentes e capacidades. Exalto-a e elevo-a. Desejo-lhe, com toda a admiração e a par desta complexa e temporária passagem pelo planeta Terra, muita saúde e as maiores felicidades em tudo, na sua condição humana e na sua literatura.»
Deverá ser simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de folhas de árvore.
Quanto a mim, o papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. As palavras escritas devem formar um todo compreensível, - um romance, um conto, um poema. As palavras que servem as ideias, têm de ser dádiva. As palavras não podem viver subterraneamente de modo incompreensível ou navegar ao sabor da moda; as letras não devem agrupar-se em palavras que não tenham significado. Isso não é bom. Não é essa a interrogação que a literatura precisa. Não é isso que perdura. Não é isso que prende. E está à vista de todos.
O pensamento existe. A estética da linguagem, também existe. O ideal também existe. As histórias existem. Os livros existem. A pessoa existe e a pessoa é a interrogação. É a pessoa que escreve histórias que deseja que a outra pessoa as leia, mas sobretudo, que as compreenda.
Ana Maria Matute é totalmente clara. Ela não escreve sobre o eterno Eu e o Tu e o Tu e o Eu mas abraça sim, toda a humanidade. Por exemplo,
Atravessando a vida com tantos livros escritos, tantos prémios que a consagraram universalmente, há um que destaco porque me toca particularmente, porque o sentido mais humano da literatura ainda que fantástico e submetido, aparentemente, ao reino do surreal e do maravilhoso que muito aprecio e elevo, é também, pelo que sei, o livro que a escritora mais gostou de escrever: Olvidado rei Gudú. Como ela própria afirma - , el libro que siempre quiso escribir y por el que le gustaría ser recordada! "Es un libro mágico, como la vida misma".
Toda a magia e mistério da vida é extraordinariamente bem escrito e descrito
Com uma vastíssima obra que passa por muitos romances entre os quais destaco as traduções em língua portuguesa: Olvidado Rei Gudú, Aranmanoth, outro romance no género fantástico apresentado com uma escrita tão doce e envolvente, conta-nos a infância e o crescimento de duas crianças enamoradas.
Ainda
E o livro que hoje apresentamos, A Torre de Vigia.
Ao entrar na leitura deste livro imergimos imediatamente num cenário onírico, denso e misterioso onde sobressai a Natureza por vezes assustadora, outras vezes duma beleza escaldante. Todo este ambiente enevoado e surreal de homens-lobis, ventanias, campos de neve de fome e de frio mais as doçuras do estio, de ameias de castelos, baronesas e barões, veados, javalis, gansos, lobos, cavalos brancos e cavalos pretos, jovens iniciados cavaleiros, peles de ursos, flechas, salões, cozinhas e alcovas, todo este universo existe, atavicamente, em todos nós. Está nos mais altos e escondidos sótãos da nossa memória. Este universo foi, neste livro, posto a descoberto. É uma vida inteira a descobrir universos, a desvendar sonhos, uns atrás dos outros.
E com a ironia sempre presente, vivemos mais uma vez uma certa infância ou como uma criança pode e consegue sublimar atos ou situações terríveis através da construção dos sonhos.
Nesta história somos transportados, como num quadro musical em ambiente medieval, somos transportados em nuvens de cheiros, cores e sabores, interrogações, desespero e espanto.
Este livro, o primeiro duma trilogia medieval, fala-nos de um filho de boas famílias, a sua travessia da infância e entrada na adolescência com grande desassossego. A castelã, a baronesa de Mohl, linda, ruiva e branca que o inicia no amor carnal aos treze anos. Também essa atitude, brutal e estranha, fá-lo perceber os mais rudimentares indícios da constituição psicológica do ser humano. Tudo o que de mais escondido está, para além da fronteira do conhecimento, rente às superstições mais subterrâneas que todos nós temos e que desejamos esconder. Conseguimos perceber este jovem a pensar e a transformar-se todos os dias, o que causa alguma angústia.
As personagens avassaladoras quer animais quer humanas são fascinantes. Krim-Cavalo é um ser inesquecível, lendário e protetor do jovem iniciado. Eu penso mesmo que Krim-Cavalo podia ser o jovem, ele mesmo. Este jovem sem nome. Este fantasma. O barão e a baronesa de Mohl, outras personagens tão excessivas quanto misteriosas. O próprio pai, um poderoso desgraçado que, sem amor para dar, é como se personificasse a eterna noite dos homens.
“A Torre de Vigia” é pois, uma história de desejos, de descoberta, a eterna luta entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas e ao ler este romance pensei sempre no homem à face da Terra, vi-o a tentar avançar não sei para onde, nem porquê, nem para que destino ou fatalidade.
É esta a arte de Ana Maria Matute: a literatura, esse milagre.
Escreveu também contos e muitas histórias para a infância e juventude.
Os prémios e reconhecimentos literários são inúmeros.
Em 2010 recebeu o Prémio Cervantes, o mais alto galardão espanhol atribuído à literatura.
A arte literária é mais uma insignificância do cosmos. Quantos e quantos quilómetros de linhas já foram escritas? Quanto pensamento glorioso já oferecemos aos nossos deuses? Quantos restam? Quantos encantos e desencantos vamos sofrendo? O que é que aprendemos? O que é que valemos? Que interesse tem tudo? Tanta interrogação…
Sei, sinto que Ana Maria Matute tem absoluta consciência das penas que uma pessoa suporta ao longo desta permanência por aqui. Os seus livros são documentos de extraordinária importância que desenham a vida e as experiências do quotidiano de alguém que conviveu com a guerra civil de Espanha e a segunda grande guerra mundial e o pós-guerra. A sua literatura é um grito de libertação através do poder imagético de cada um. A fantasia está expressa em muitos dos seus livros atingindo o pico
Ana Maria Matute enche-me de orgulho como mulher, como escritora, como exemplo de conhecimento, de experiência, de sabedoria, de humanidade e celebro-a em todas as suas vertentes e capacidades. Exalto-a e elevo-a. Desejo-lhe, com toda a admiração e a par desta complexa e temporária passagem pelo planeta Terra, muita saúde e as maiores felicidades em tudo, na sua condição humana e na sua literatura.»
domingo, 22 de junho de 2014
Água
É a chuva. A chuva que me leva em pensamentos de água.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Sonho
Hoje é o dia em que perdemos Saramago. Completam-se quatro anos sobre o dia em que eu, pouco depois de saber da morte do nosso querido autor, fui dar uma sessão de Escrita Criativa, na biblioteca da Ericeira, aos meus alunos adultos, escritores amadores. Pus de parte o que tinha preparado e dedicámos-lhe um bom tempo da sessão. É para mim fácil de lembrar: 2009, e o dia dos anos da minha querida irmã Sofia.
Hoje:
Nada fiz de jeito, exceptuando ter lavado a loiça, alimentado os cães e recebido de braços abertos uma notícia extraordinária.
Um sonho que estava muito distante e que, num gesto, ficou mais próximo. Passou de sonho a projecto. E alguém acertado irá realizá-lo. A vida pode trazer-nos surpresas extraordinárias, que se erguem do quase nada, do vento, da espera. De repente, uma brisa, uma ventania trocam o lugar às coisas, o que estava distante fica mais perto e tudo parece possível. Provavelmente é mais um sonho. Mas enquanto nele estou afundada sou sílfide, leve, leve, pousando no néctar das mais doces ilusões. E não quero acordar. Não quero.
Roubei a imagem aqui
terça-feira, 17 de junho de 2014
Terra
A feira do livro terminou, as notícias falam em cerca de quinhentos mil visitantes. Passou o calor terrível, o dia esteve perfeito. Ao fim da tarde o homem andava de enxada (ou ancinho ou lá o que é) a arrancar as ervas indesejáveis; o Gastão deixou-se ficar deitado no cimo das escadas de pedra, admirando e estudando o movimento detectável nos seus domínios: o vale. Arfando, um pouco aliviado por andar descartando, desde Março, a sua pelagem de serra da estrela: ainda assim, é um animal imponente, de juba e corpanzil consideráveis. A Bolota jogou à bola (nova, comprada na Inter Sport no dia da sessão de autógrafos no Oeiras-parque): uma bola novinha em folha, que a deixa tão excitada, que nem se lembra de comer: recorda-me o esquilo da Idade do Gelo, com a sua bolota (nem de propósito, tratando-se da Bolota, a nossa cadela). Quando sentiu o cheiro verde e fresco, juntou-se a mim: a dona ali estava, sentada com duas cadeiras e duas tigelas, descascando vagens de ervilhas acabadinhas de apanhar da terra. Volta e meia, lá saltava uma para a sua bocarra. Tenho uma cadela que se pela por ervilhas cruas, vá-se lá perceber. Não pude deixar de experimentar uma, para compreendê-la. E compreendi. Assim mesmo, da mão para a boca, soube muitíssimo bem. Amanhã será a vez dos pinhões, também acabados de apanhar.
É nestas horas que eu tenho a certeza de valer a pena o contacto com a terra. É certo que lá em cima, no escritório, alguns emails me aguardam, há novas notificações no facebook e à noite irei ver, na box, os primeiros episódios de uma série que recebi em DVD. Mas é assim, este casamento perfeito entre a terra e o futuro, que nos faz felizes. O melhor dos dois mundos.
É nestas horas que eu tenho a certeza de valer a pena o contacto com a terra. É certo que lá em cima, no escritório, alguns emails me aguardam, há novas notificações no facebook e à noite irei ver, na box, os primeiros episódios de uma série que recebi em DVD. Mas é assim, este casamento perfeito entre a terra e o futuro, que nos faz felizes. O melhor dos dois mundos.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Desejo
Sabe que a escrita é como o ritmo a que respira o desejo do seu corpo: quanto mais, mais; quanto menos...menos. Esse corpo que, esculpido em abandono, há muito desistiu do desejo, para não chorar. A carne inteira, a pele, deixando de pertencer-lhe, o músculo flácido, atrofiado, é incapaz de sustentar a ideia do prazer. A ideia. Ela risca o corpo, arrisca o texto, grita o sexo. O corpo perdeu o caminho até à história que é forçoso percorrer, palavra a palavra.
A letra agora mais incerta, ilegível, à medida que a ideia vai tomando forma, se definindo. Quanto mais enlouquece a sua caligrafia, mais lúcido é o pensamento. Uma o avesso do outro.
Recorda que Fernando Pessoa nasceu hoje, em 1888. Hoje, dia de estranhas conjugações. Lua cheia, sexta-feira treze...e Pessoa renascendo para nos dar consolo e sentido.
O corpo vai despertando e o traço da letra estende-se com langor.
São unos, enfim. O corpo e o desejo.
Só assim, na embriaguez do desejo, é capaz de escrever.
De contrário, as palavras nada diriam.
E há tanto para dizer...
A letra agora mais incerta, ilegível, à medida que a ideia vai tomando forma, se definindo. Quanto mais enlouquece a sua caligrafia, mais lúcido é o pensamento. Uma o avesso do outro.
Recorda que Fernando Pessoa nasceu hoje, em 1888. Hoje, dia de estranhas conjugações. Lua cheia, sexta-feira treze...e Pessoa renascendo para nos dar consolo e sentido.
O corpo vai despertando e o traço da letra estende-se com langor.
São unos, enfim. O corpo e o desejo.
Só assim, na embriaguez do desejo, é capaz de escrever.
De contrário, as palavras nada diriam.
E há tanto para dizer...
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Supertramp
Ah, o poder que a música tem de anular distâncias e tempo...! Fazer-nos sentir jovens outra vez... Esta era uma das músicas que eu escutava a partir dos discos de vinil dos meus irmãos mais velhos: e por várias vezes serviu de fiel depositária das minhas lágrimas de adolescente apaixonada...e de símbolo de uma intimidade tão desejada: a solidão do nosso quarto, para tentar compreender a complexidade do mundo. Tão bom, isto. Continua a ser bom.
Nós
Escrever, aproveitar enquanto sou sincera, enquanto existe em mim transparência. É preciso pôr de parte o peso que nos obrigam a carregar, sermos apenas nós, na verdade daquilo que insistimos em ser; sejam, apenas e unicamente, vocês, quem quer que sejam! Deixar os dedos correr sobre a sinceridade que chega com uma pequena ajuda encontrada no fundo de um copo redondo, com gelo picado, lima e alecrim. Somos o que somos. Temos algo a dizer, assim seja. É hora de puxar a manga ao mundo que nos olha, transformar este sol em optimismo, ser luz e esperança num caminho melhor. Não liguem, digo eu; ou liguem, sei lá, se calhar é melhor ligarem, esquecerem tudo aquilo que vos chega, os mihões, a dívida, o crescimento económico, a prestação do nosso super-heroi Cristiano Ronaldo e...sermos apenas nós. Nós com aquilo que temos de mais verdadeiro. Haja verdade nestes dias difíceis. Também nós podemos ser super-heróis.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Dedos
![]() |
| André Breton, Surrealismo - Manifesto (1924) |
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Por estes dias

Apesar de tudo.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Insónia
Às 4h10m a Bolota arranha a porta do quarto. Abri-lhe a porta da rua, aguardei uns minutos, deixei-a entrar. Fiz ar de zangada, ignorando o seu contentamento de quem está pronto para o mimo e a brincadeira, como quem diz, Não, Bolota, não são horas para isso, são horas de estarmos a dormir...
- Fica, quieta! Ai, feia!
Voltei para o quarto, fechei a porta.
Os minutos passaram. São quase cinco. Nem eu nem ela tornámos a conseguir adormecer. Os machos da casa dormem, as fémeas nem por isso. Ela parece adivinhar a minha insónia e enquanto eu deixo o cérebro divagar por cenários tão absurdos como a escrita do segundo volume d'A Ilha de Melquisedech ou o filme "Stranger than Fiction" - um dos meus favoritos, que revi anteontem pela enésima vez - volta à carga, arranhando a porta do quarto. Desisto. Por isso são 5.57 e aqui estou, de pequeno-almoço tomado e a chávena de café do lado direito. O Gastão, que como serra da estrela que é dorme quase sempre lá fora, deve ter dado pelo cheiro das torradas. Começou a uivar. Juntou-se a nós. Aqui estamos os três, no escritório. Só o dono da casa dorme.
E agora é tentar fazer algo de construtivo com esta madrugada: escrever.
5.59.
- Fica, quieta! Ai, feia!
Voltei para o quarto, fechei a porta.
Os minutos passaram. São quase cinco. Nem eu nem ela tornámos a conseguir adormecer. Os machos da casa dormem, as fémeas nem por isso. Ela parece adivinhar a minha insónia e enquanto eu deixo o cérebro divagar por cenários tão absurdos como a escrita do segundo volume d'A Ilha de Melquisedech ou o filme "Stranger than Fiction" - um dos meus favoritos, que revi anteontem pela enésima vez - volta à carga, arranhando a porta do quarto. Desisto. Por isso são 5.57 e aqui estou, de pequeno-almoço tomado e a chávena de café do lado direito. O Gastão, que como serra da estrela que é dorme quase sempre lá fora, deve ter dado pelo cheiro das torradas. Começou a uivar. Juntou-se a nós. Aqui estamos os três, no escritório. Só o dono da casa dorme.
E agora é tentar fazer algo de construtivo com esta madrugada: escrever.
5.59.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
O último do primeiro
Em 2006 estreei-me como autora na revista Egoísta, com um pequeno conto. No mesmo ano publiquei esta novela, numa tiragem de 250 exemplares. Nesse tempo não usávamos facebook, nem vivíamos ainda na vertigem da promoção desenfreada; por isso, depois do lançamento, onde vendi uma boa quantidade de "Pisas" a familiares e amigos, guardei os restantes numa gaveta e não pensei muito mais nisso. Como disse na altura uma grande amiga, serviu para "brincar aos escritores". Fui oferecendo, em aniversários e outras ocasiões que pediam algo de especial, e vendendo um ou outro livro quando calhava. A gaveta foi ficando mais vazia, mas sempre sem ansiedades.
Em 2008, 2009 veio o uso generalizado do facebook e, de um dia para o outro, a forma de divulgamos o que temos para vender sofreu uma transformação radical. No ano passado criei o site Gavetas e Gavetinhas, pois a escrita de ficção e o trabalho como letrista, revisora de texto e coordenadora de oficinas de escrita criativa já o justificava. Quando olhei, restava-me apenas meia dúzia de exemplares d'O Pisa-papéis, que nem tinha chegado a mostrar-se nas livrarias, à excepção de uma tímida presença na Bulhosa do Oeiras-parque, que me pagou 60% do preço de capa, negócio limpo (10 livros, que demoraram quase 2 anos a sair da prateleira...mas todos arranjaram dono, o que foi espantoso).
Hoje enviei pelo correio o último. O último exemplar do primeiro livro. Disse-lhe adeus, com algum carinho e nostalgia, pois aquele era um velho companheiro: duvido que vá fazer novas edições, há outros livros para escrever e para publicar. Acho que este último "Pisa-papéis" ficou bem entregue.
Deixo aqui um beijinho ao Daniel Gouveia, que tratou da revisão e edição, levando-me à gráfica e fazendo a reportagem (perdi as fotografias, senão teria incluído aqui algumas), à Rita Ferro, que tão generosamente escreveu o prefácio para o livrito de uma autora estreante e, claro, para o Nanã, pela fotografia belíssima que roubei para a capa, e a quem dediquei este livro. Bem hajam, sim?
Adeus, Pisa-papéis! Saíste de casa da mãe para ires viver sozinho. Não te censuro, aqui já não aprendias nada.
Em 2008, 2009 veio o uso generalizado do facebook e, de um dia para o outro, a forma de divulgamos o que temos para vender sofreu uma transformação radical. No ano passado criei o site Gavetas e Gavetinhas, pois a escrita de ficção e o trabalho como letrista, revisora de texto e coordenadora de oficinas de escrita criativa já o justificava. Quando olhei, restava-me apenas meia dúzia de exemplares d'O Pisa-papéis, que nem tinha chegado a mostrar-se nas livrarias, à excepção de uma tímida presença na Bulhosa do Oeiras-parque, que me pagou 60% do preço de capa, negócio limpo (10 livros, que demoraram quase 2 anos a sair da prateleira...mas todos arranjaram dono, o que foi espantoso).
Hoje enviei pelo correio o último. O último exemplar do primeiro livro. Disse-lhe adeus, com algum carinho e nostalgia, pois aquele era um velho companheiro: duvido que vá fazer novas edições, há outros livros para escrever e para publicar. Acho que este último "Pisa-papéis" ficou bem entregue.
Deixo aqui um beijinho ao Daniel Gouveia, que tratou da revisão e edição, levando-me à gráfica e fazendo a reportagem (perdi as fotografias, senão teria incluído aqui algumas), à Rita Ferro, que tão generosamente escreveu o prefácio para o livrito de uma autora estreante e, claro, para o Nanã, pela fotografia belíssima que roubei para a capa, e a quem dediquei este livro. Bem hajam, sim?
Adeus, Pisa-papéis! Saíste de casa da mãe para ires viver sozinho. Não te censuro, aqui já não aprendias nada.
domingo, 1 de junho de 2014
Dia da Criança
O
COELHINHO CHOCOLATE
Era
uma vez um coelhinho anão.
Parecia
um gelado de nata e chocolate, pois o seu pelo era todo malhado, castanho e
branco.
Vivia
num pequeno jardim guardado por um grande cão bonacheirão, chamado Castanho. O
cão parecia-se um pouco com ele: também era castanho e branco, apesar de ser
muito maior.
O
coelhinho passeava-se livremente por ali, uma vez que os seus donos o tratavam
como se fosse da família: não lhe faltavam as cenouras; brincava com o Castanho
dando-lhe dentadinhas no rabo e fugindo logo de seguida, saltitando em direcção
aos arbustos; passava o serão ao colo da D. Ermelinda, que lhe ia fazendo
festas, enquanto conversava com o marido, frente à lareira…enfim, era um coelho
feliz, que levava uma vida regalada.
Numa
linda manhã de Abril, o Sr. José decidiu pintar a casota do Castanho, cuja
madeira velha estava já muito feia. Agarrou no chapéu e foi às compras à
aldeia, na sua carrinha branca. Apareceu pouco depois com várias latas de tinta
de água, pousou-as na relva junto à casota e abriu-as: uma branca, outra
amarela, outra ainda azul mesmo-mesmo da cor do céu e, finalmente, uma
vermelha. Quando ia começar a obra, disse para com os seus botões:
"Ora ora, o que me calhava mesmo bem agora,
era uma cerveja fresquinha!" – Porque estava imenso calor. Como a D. Ermelinda
estava longe, na cozinha, a fazer um bolo para a filha e para os netos, que
estavam para chegar, resolveu levantar-se e ir ele mesmo buscá-la.
Passados
instantes, chegou o coelhinho, atraído por aquele cheiro novo de tinta fresca. Ao ver as cores a brilhar ao
sol, achou-as bonitas. Aproximou mais o focinho e os bigodes para espreitar
e... Ops, asneira! Entornou duas latas de tinta! O azul e o amarelo
espalharam-se por todo o lado e arranjaram uma cor nova:
Qual
era? O verde!
Ficou
muito espantado com o que tinha arranjado e não resistiu a espreitar melhor as
outras cores: empoleirando-se com as patas na lata vermelha, pumba! Fez asneira
outra vez! Ela tombou e o coelho Chocolate, com o peso, desequilibrou-se e foi
cair em cima da lata de tinta branca! Agora é que a tinha arranjado bonita!
Estava tudo entornado e, ainda por cima, cada vez que saltava, as suas patas
deixavam marcas… …. Cor-de-rosa!
Nesse
momento, curiosos com a confusão que reinava no jardim, chegaram o Castanho e o
Sr. José, a correr:
"Chocolate! O que é que me foste arranjar?!
Olha bem para isto, sim senhor, lindo serviço!" - ralhou o Sr. José.
O Coelhinho olhou para
ele com os olhos maiores e mais doces que sabia fazer, para não apanhar uma
palmada. Era preciso ver aquela confusão de cores! O Castanho, todo satisfeito
por ver o jardim mais colorido do que nunca, juntou-se ao Coelhinho Chocolate,
lambeu-o e ficou com a língua pintada; depois, com a cauda a abanar, espalhou
mais tinta por todo o lado. Agora havia roxo, castanho e cor-de-laranja também!
Até as flores do jardim ficaram com as suas cores trocadas!
Pensam
que a D. Ermelinda se zangou quando, ao chegar, viu aquela confusão? Estão
enganados! Como era uma senhora muito bem disposta, não conseguiu conter o riso
e desatou às gargalhadas. E o riso, que se pega como os bocejos e a tosse, contagiou
o Sr. José, que acabou por rir também, e nem ficou zangado, pois reparou que o
que sobrara nas latas ainda daria para fazer o trabalho.
"Ai, que eles estão quase a chegar!" -
Exclamou a D. Ermelinda, pondo-se séria de repente - Vá, toca a tomar banho,
seus marotos, antes que essa tinta seque!"
O
que valeu a todos, é que a senhora adiantara trabalho, como era seu hábito, e,
assim, dispôs de tempo para aquele imprevisto. Pegou no Chocolate e foi dar-lhe
uma boa ensaboadela na banheira, com água morna. Quanto ao Castanho, foi lavado
ali mesmo no jardim, com a mangueira, para aprender a ficar quieto! O Sr. José
esfregou-o bem esfregado com um champô especial, até ficarem apenas as suas
cores: castanho e branco.
Ao
fim da tarde, a D. Ermelinda abriu a mesa no jardim, fez laranjada para as
crianças e chá para os adultos, a acompanhar as grandes fatias de pão e de bolo
de chocolate.
Por
falar em chocolate, onde ficou o coelhinho? Ah, esse ficou amarrado ao poste,
de castigo! E o seu amigo Castanho, que detestava tomar banho, passou o resto
do dia muito sossegado e um pouco amuado com o dono, que o lavara com água
fria. No entanto, nessa noite, já poderia dormir regalado, na sua linda casota,
que estava agora como nova, pintada com as sete cores do arco-íris! Frente à
porta podia ler-se:
"CUIDADO!
PINTADO DE FRESCO!"
(Vera de Vilhena, texto inédito. Dedico esta história a todos os pequerruchos)
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